A saga dos homens-coxinha

Ilustração Caco Bressane
Royalties, por favor (risos) -> “Na internet, em um texto publicado em 2002 (aqui), o publicitário Marcelo Costa utiliza o adjetivo para classificar bandas como Coldplay e Travis”
Frase do texto “Tipicamente paulistana, gíria “coxinha” tem origem controversa”, de Alexandre Aragão, na revista São Paulo. Leia aqui.
abril 23, 2012 Encha o copo
Bob Dylan em noite inspirada em SP
Texto e fotos: Marcelo Costa
Setenta anos de idade. Cinquenta anos desde o lançamento de seu primeiro álbum, em 1962. Bob Dylan já ganhou Grammy, Oscar, Globo de Ouro e um bom dinheiro com seus discos, e poderia passar o resto de seus dias enfurnado em uma fazenda, mas escolheu dedicar sua vida à estrada. Após quatro anos de sua última passagem pelo Brasil (tempo em que lançou dois discos – Together Through Life e Christmas in the Heart), a “Turnê Que Nunca Termina” voltou para São Paulo, no último sábado, 21, desta vez ocupando um local maior do que em 2008, o Credicard Hall, e com um repertório muito mais trabalhado, resultando em uma noite inspirada.
Ok, a voz de Dylan, ainda que muito melhor do que na última passagem, continua trovejando, falhando e dificultando o reconhecimento de algumas canções (seria interessante fazer um quiz com os espectadores para saber quais canções eles – acham que – reconheceram), e sua insistência em mudar o arranjo das músicas também não ajuda ao fã de última hora (aquele que aguarda a canção tocada igual ao CD), mas ainda assim assistir a Bob Dylan ao vivo é uma tarefa bastante agradável – principalmente para quem gosta de blues, r&b e rock clássico.
O primeiro ponto a favor desta noite surge da formação com acentuação mais roqueira do quinteto que acompanha o cantor. São dois guitarristas (Stuart Kimball, que também assume o violão, e Charlie Sexton, quase um devoto de Dylan no palco), um terceiro músico, Don Herron, que se alterna entre a steel guitar (que toca com eficiência, engradecendo números como “Make You Feel My Love”, do álbum Time Out Of Mind, de 1997), o teclado e a guitarra, mais o baterista George Receli e o parceiro Tony Garnier, baixista que acompanha Dylan desde 1989. É uma formação bluezy, que parece sentir prazer na improvisação e em escudar o músico.
Algo que chama a atenção: a banda não toca para o público, mas sim para Bob Dylan. Os cinco integrantes não se exibem para a audiência, mas sim para o cantor. Todos eles tocam levemente virados para a esquerda do palco e não tiram o olho do compositor, que fica na lateral e marca as passagens com os dedos apontando quem deve conduzir o próximo trecho. Ou seja; das quase 7 mil pessoas presentes (os ingressos mais baratos esgotaram, mas ainda haviam lugares vazios nas filas de R$ 700 e R$ 900), apenas alguns seguranças não olhavam para Bob. De resto, todo o público e a própria banda admirava a lenda desfilando clássicos de várias épocas.
Como de praxe, o show começou com duas canções antigas, dos anos 60, desta vez “Leopard-Skin Pill-Box Hat” (que também abriu a primeira noite em São Paulo, em 2008) seguida de “Don’t Think Twice, It’s All Right” (com Dylan na guitarra arriscando alguns solos ásperos). Corte para 1999 e “Things Have Changed” (a canção tema do filme Garotos Incríveis, que lhe valeu um Oscar e um Globo de Ouro,) mostra um cantor de postura totalmente diferente da passagem anterior: bancando o crooner, com a gaita microfonada em uma mão, e deitando o pedestal do outro microfone (num estilo semelhante ao de Roberto Carlos) para terminar os versos com um sorriso no rosto, Dylan parece estar se divertindo, e o público segue com ele.
“Tangled Up In Blue”, uma das canções brilhantes de um de seus melhores álbuns (Blood on the Tracks, de 1975), surge densa, forte, abrindo caminho para “Beyond Here Lies Nothin’”, single de 2009 que nesta noite conta com quatro guitarras (Dylan numa delas) encorpando a canção. O público aplaude, entusiasmado, e o miolo do show é um teste para aqueles que levaram a sério a brincadeira do quiz (“Every Grain Of Sand”, do álbum Shot of Love, de 1981, por exemplo, não era tocada desde junho do ano passado), com “The Levee’s Gonna Break” impressionando numa versão blues, quebrada e cheia de improvisos.
Outro salto na máquina do tempo e “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” (1963) e “Highway 61 Revisited” (1965) sorriem para a plateia, que as reconhece logo nos primeiros segundos, e bate palmas. No teclado (ele diminuiu as canções que passa em frente ao instrumento desta vez: são 10 nas teclas, cinco no microfone e na gaita, e duas na guitarra), Dylan alterna-se entre mesclar as teclas brancas e pretas, conduzir a banda e se apoiar em uma das caixas de som para “ouvir” o som do quinteto – e sorrir, várias vezes.
O trecho final do show tem sido praticamente igual em todas as apresentações dos últimos dois anos: “Thunder On The Mountain”, um dos cavalos de batalha do ótimo Modern Times, de 2006, abre caminho com riffs de guitarra para uma tríade de hinos: “Ballad Of A Thin Man”, “Like A Rolling Stone” e “All Along The Watchtower”, em arranjos fiéis e perfeitamente reconhecíveis (embora difíceis de acompanhar na voz), fazem valer o ingresso, mas ainda falta o bis, e Dylan não economiza: “Blowin’ In The Wind“, em versão banda, com Bob partindo os versos no meio, e ainda assim arrancando gritos da plateia, fecha uma noite especial.
Quem esperava um repeteco dos shows de 2008 saiu ganhando com uma apresentação muito melhor. Os desconfiados, que seguiram o conselho de Beck, que certa vez escreveu que “todo mundo devia pagar ingresso só para ver o cara que escreve aquelas canções maravilhosas”, devem ter se surpreendido com a quantidade significativa de clássicos (foram oito canções dos anos 60 contra uma dos 70, uma dos 80, três dos anos 90 e quatro do novo século). Até aqueles que apenas conhecem “Blowin’ In The Wind“ e “Like A Rolling Stone” puderam se dar por satisfeitos. Se a voz do cantor incomodou em alguns momentos, a banda compensou com um dos melhores sons de um show de Dylan no Brasil.
Na portaria do Credicard Hall, alguns fãs arriscavam que esta passagem de Bob Dylan pelo Brasil seja a última turnê do cantor em solo pátrio, mas a animação do compositor e o repertório de hits faz suspeitar que Dylan está em paz com o palco, e que precisa dele porque, talvez, seja o único lugar em que se sinta realmente bem. Talvez ele esteja se escondendo do mundo enquanto peregrina por hotéis (após São Paulo, ele passa por Porto Alegre, Buenos Aires, Santiago, Monterrey, Guadalajara, Cidade do México, Berlim, Dresden… por enquanto a turnê está fechada até o final de julho com mais 23 shows!). Ou, ainda, talvez seja a única coisa que ele realmente saiba fazer (ou goste): cantar e dançar. O mito Dylan renasce todas as noites em algum palco do mundo. Enquanto puder ter isso, ele estará a salvo. E seu público também.
Set List
“Leopard-Skin Pill-Box Hat” (Blonde On Blonde, 1966)
“Don’t Think Twice, It’s All Right” (The Freewheelin’ Bob Dylan, 1963)
“Things Have Changed” (The Essential Bob Dylan, 1999)
“Tangled Up In Blue” (Blood On The Tracks, 1974)
“Beyond Here Lies Nothin’” (Together Through Life, 2009)
“Make You Feel My Love” (Time Out Of Mind, 1997)
“Honest With Me” (Love And Theft, 2001)
“Every Grain Of Sand” (Shot Of Love, 1981)
“The Levee’s Gonna Break” (Modern Times, 2006)
“A Hard Rain’s A-Gonna Fall” (The Freewheelin’ Bob Dylan, 1963)
“Highway 61 Revisited” (Highway 61 Revisited, 1965)
“Love Sick” (Time Out Of Mind, 1997)
“Thunder On The Mountain” (Modern Times, 2006)
“Ballad Of A Thin Man” (Highway 61 Revisitet, 1965)
“Like A Rolling Stone” (Highway 61 Revisitet, 1965)
“All Along The Watchtower” (John Wesley Harding, 1967)
Bis
“Blowin’ In The Wind” (The Freewheelin’ Bob Dylan, 1963)
Leia também:
– Discografia Comentada: todos os discos de Bob Dylan (aqui)
– Bob Dylan, um retrato borrado da era de ouro do rock ‘n roll (aqui)
abril 22, 2012 Encha o copo
Alemanha: Três cervejas da Kaiserdom

Inaugurada em Bamberg, na Bavária, em 1718, a Kaiserdom Brauerei orgulha-se de produzir suas cervejas apenas com ingredientes naturais, sem qualquer aditivo, seguindo a Lei de Bamberg de 1849, que surgiu 27 anos antes da Lei da Pureza da Bavaria (datada de 1516). Maior cervejaria de Bamberg, a Kaiserdom é comandada desde 1910 pela família Wörner, e começa a chegar ao Brasil com três rótulos interessantes, que senão destacam um conjunto de alta personalidade, conquistam pela leveza e sabor alemão inconfundível.
A Kaiserdom German Dark Lager é um belíssimo exemplo da escola bávara de cervejas escuras: o aroma é bastante suave com o malte torrado sugerindo café e, muito levemente, caramelo. O paladar, águado, segue a risca o caminho aberto pelo aroma com o caramelo inicialmente tomando a frente, mas cedendo para a presença marcante do malte torrado (e sua ligação direta ao café) em uma cerveja extremamente suave e saborosa. Praticamente não se sente os 4,7% de álcool, que desaparecem no conjunto harmonioso e característico. Ótima.
Já a versão Hefe-Weissbier Naturtrüb, da Kaiserdom, é bem particular, mas ainda assim segue a tradição alemã de boas cervejas de trigo. O aroma característico traz notas frutadas que remetem a banana e cravo. O paladar sugere leveza (uma marca da cervejaria) e a Hefe-Weissbier Naturtrüb não foge a regra sendo bem menos densa que suas “concorrentes” (como a Weihenstephaner), mas ainda assim muito interessante, com as notas de banana e cravo bem balanceadas com o lúpulo num conjunto que ainda traz algo de lager.
E falando em lager, a Kaiserdom Premium é a que, comparativamente com outras do mesmo estilo, é a que mais se destaca da cervejaria. A Dark Lager tem em seus calcanhares a Köstritzer. Dificil pensar em Weissbier alemão e não pensar em Weihenstephaner (ainda que, para fugir da comparação, a Kaiserdom proponha o meio do caminho entre uma weiss e uma lager). Já a Premium é uma lager autêntica, bastante saborosa e acima das cervejas comerciais brasileiras, com o malte e o lúpulo totalmente perceptíveis e bem inseridos no ótimo conjunto. Uma bela surpresa.
As três Kaiserdom estão chegando ao Brasil em garrafas de 500 ml (entre R$ 8 e R$ 11) e belas latas de 1 litro (entre R$ 20 e R$ 25), como as da foto acima. Há um kit que, além das três latas (Premium, Weissbier e Dark Lager), também traz uma taça de 1 litro da casa – que é praticamente um exercício de levantamento de (copo) peso para se levar a boca. Em alguns empórios online, o kit é encontrado por R$ 120, mas no Duty Free costuma sair por 32 dólares. Vale o investimento.
Kaiserdom German Dark Lager
– Produto: Schwarzbier
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 4,7%
– Nota: 3,01/5
Kaiserdom Hefe-Weissbier Naturtrüb
– Produto: German Weizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,96/5
Kaiserdom Premium German Lager
– Produto: Munich Helles
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 3,03/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)
abril 19, 2012 Encha o copo
Download: Tributo ao Los Hermanos

Coletânea Re-Trato musicoteca Los Hermanos
Download -> http://www.amusicoteca.com.br/?p=6425
Disco 1
1. Todo Carnaval Tem Seu Fim – Do Amor
2. Vento – Quarto Negro
3. Morena – Tiago Iorc
4. Retrato pra Iaiá – nana
5. Último Romance – Graveola e o Lixo Polifônico
6. A Outra – Estrela Ruiz Leminski e Téo Ruiz
7. Condicional – Pélico
8. Além Do Que Se Vê – Cohen e Marcela
9. Primavera – Banda Gentileza
10. Deixa o Verão – Tibério Azul
11. Tá Bom – 5 a Seco
12. A Flor – Nervoso e os Calmantes
13. Anna Júlia – Velhas Virgens
Bônus Tracks:
14. Dois Barcos – A Banda Mais Bonita da Cidade
15. Onze Dias – Rafael Castro
16. Azedume (instrumental) – Fusile
17. Anna Júlia (english version) – Velhas Virgens
Disco 2
1. Um Par – Dan Nakagawa
2. Cara Estranho – Leo Fressato
3. Sentimental – Phillip Long
4. Fingi na Hora Rir – Nevilton
5. Do Sétimo Andar – Érika Machado
6. De Onde vem a Calma – hidrocor
7. O Vencedor – Rodrigo Del Arc e Galldino
8. O Velho e o Moço – Maglore
9. Samba a Dois – Jô Nunes
10. O Pouco que Sobrou – Bárbara Eugênia
11. Conversa De Botas Batidas – Cícero
12. Pois é… – Transmissor
13. Casa Pré-Fabricada – Lula Queiroga
Bônus Track:
14. Morena – Wado
15. É de Lágrima – João e os Poetas de Cabelo Solto
16. Adeus Você – Nuvens

abril 18, 2012 1 Brinde
Oito vídeos: Ian McCulloch em São Paulo
Bring On The Dancing Horses
Rescue
The Killing Moon
Nothing Lasts Forever
Rust
Proud To Fall
Lips Like Sugar
I’m Waiting For The Man
Dois primeiros vídeos por Mac; os demais por Janio Dias
Leia também:
– Shows em São Paulo: Kurt, Thurston, Carl e Ian, por Mac (aqui)
abril 17, 2012 Encha o copo
Europa 2012: roteiro quaaaase fechado

Passagem comprada, agora não tem mais jeito. A KLM está com uma promoção bacana para voos que saem e chegam no Rio, então fica acertado que dia 22/05 embarco para Londres (entrando por Amsterdã) e volto no dia 16/06 vindo de Veneza. Ter que se ajeitar para encontrar o melhor preço de passagem fez com que dois eventos entrassem no roteiro: The Zombies, em Londres, dia 23/05 e (talvez) o festival Rock In IdRho 2012, em Milão, na Itália, que terá Lagwagon, The Offspring, The Hives e Billy Talent. Ainda tem Madonna em Roma, um dia antes, quem sabe. O roteiro, praticamente fechado, então é esse:
22/05 – Rio de Janeiro / Amsterdã / Londres
23/05 – Londres – The Zombies
24/05 – Londres – Elvis Costello (Royal Albert Hall)
25/05 – Londres – I’ll Be Your Mirror
26/05 – Londres – I’ll Be Your Mirror
27/05 – Londres – I’ll Be Your Mirror
28/05 – Londres – Big Star
29/05 – Barcelona
30/05 – Barcelona – Primavera Sound
31/05 – Barcelona – Primavera Sound
01/06 – Barcelona – Primavera Sound
02/06 – Barcelona – Primavera Sound
03/06 – Barcelona – Primavera Sound
04/06 – Luxemburgo
05/06 – Luxemburgo
06/06 – Lou Reed, Luxemburgo
07/06 – Cork, Irlanda
08/06 – Tom Petty, Cork, Irlanda
09/06 – Stone Roses – Barcelona
10/06 – Flaming Lips, Padova, Itália
11/06 – Bruce Springsteen, Trieste, Itália
12/06 – Madonna, Roma ?
13/06 – Rock in IdRho, Milão ?
14/06 – Veneza
15/06 – Veneza
16/06 – Veneza – Rio de Janeiro
Agora é bater martelo sobre os hotéis e trechos internos…
abril 16, 2012 Encha o copo
Histórias de Viagem: Um hotel e Cherry Coke

Minha primeira vez em Paris começou com o pé esquerdo. Foi em um longo mochilão, em que por razões de economia, optei por pegar um voo de Madri (Barajas) para Paris às 6 da manhã por uma companhia barateira. Ou seja: cochilei durante a madrugada no aeroporto (lotado), e cheguei em Paris (Beauvais) às 8 da manhã – Beauvais é uma pequena cidade vizinha a Paris que atende voos da Ryanair.
Após quase 50 minutos de ônibus de Beauvais para o centro de Paris, comecei minha aventura francesa sofrendo para comprar o ticket de metrô (eu queria o de uma semana, mas na primeira tentativa só consegui fazer a senhora atendente me vender o unitário mesmo), e parti dali até o albergue que eu havia reservado via Hostel Word, o 3-Ducks, no 15º distrito, pertinho da Torre Eiffel.
Ao entrar no hostel, passado 10 horas da manhã, começou o sofrimento. Detonado pela noite mal dormida, eu só pensava em banho e cama. Queria tirar um cochilo e colocar a mala em algum locker antes de bater perna pela cidade luz. Primeira decepção: o 3-Ducks tem um horário de limpeza dos quartos de 11h até às 16h. Isso mesmo: nenhum quarto fica liberado neste horário (mesmo que você o reserve para uma semana – como eu havia feito).
Depois de argumentar bastante (e ouvir muita contra-argumentação; os franceses adoram), cansado e puto, pedi para guardar minha mala em um locker. Outra surpresa: não havia locker nem armário, mas sim uma sala de livre acesso a todos com todas as malas e mochilas de todos os hospedes. Eu já estava viajando há 30 dias, com uma mochila enorme, e duas mochilas menores (uma delas apenas com CDs comprados), e não havia a mínima condição de deixar as coisas ali.
Pedi para ir ao quarto, aproveitando o pouco tempo que havia antes das 11h, e tomar um banho. Mais uma surpresa negativa: o chuveiro era terrível. Voltei ao quarto extremamente puto, decidido a arrumar as coisas e ir embora, quando um japonês, de New Jersey, (percebendo meu “bad day”) salvou o dia: “Percebi que você está tenso. Você tem um mapa? Faz o seguinte: nos estamos aqui. Pega a Rua do Commercio que você vai sair na Torre Eiffel. Depois atravessa, vai no Arco do Triunfo e desce a Champs Elysees. Seu dia irá melhorar”.

E melhorou. Levei comigo a mochila de CDs, que deixei em um locker de metrô, cochilei em um passeio de balsa no Rio Sena (lembra do “Antes do Por-do-Sol”?) e decidi que iria procurar um hotel no dia seguinte. Durante a noite, até cogitei passar toda a estadia no 3-Ducks, mas não tinha como. Na manhã seguinte bati perna no 15º distrito, olhei alguns hotéis e acabei optando por um de… 1 estrela. No Mondial Hotel. E foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.
Acho que paguei 38 euros por dia (a atendente, esforçada, entendia mais espanhol que inglês), mas o quarto (no quinto andar – sem elevador) era simples, limpo e aconchegante. Típico de Paris: havia pia e chuveiro, mas não vaso sanitário, que ficava no corredor (em muitos hotéis são assim). Lembrei-me de Paul Auster em “O Inventor da Solidão”. E sorri. Aquele seria o meu cantinho em Paris durante a próxima semana, e Paris (apesar do 3-Ducks) já tinha me conquistado no primeiro dia.
Havia uma estação de metrô na porta (La Motte-Picquet – Grenelle?, que virou a minha estação Nelson Piquet – não tinha como esquecer), mas uma caminhada direta de 10 minutos pelo Boulevard de Grenelle (uma longa avenida) me colocava de frente com a Champ de Mars, e consequentemente com a Torre. A região, repleta de bistrôs e alguns bares escoceses, demorava a dormir, o que permitia jantar mais tarde, ou encarar um bom pint de Jenlain, a melhor cerveja francesa (quase na fronteira com a Bélgica, mas é francesa!).
Durante o dia fiquei freguês de uma vendinha ao lado do hotel. Redescobri a Cherry Coke, e acho que nesse período bebi mais o refrigerante do que água. Em uma das tardes, após voltar do Louvre, abri a geladeira da vendinha, e havia apenas duas. Fiquei na dúvida se pegava ambas, mas levei só uma torcendo para que a outra ficasse até a manhã seguinte. Bobagem: quando entrei na vendinha no outro dia, o dono (um senhor grisalho, quieto e sério) me olhou, sorriu e mandou um “more Cherry Coke”: ele havia reposto a geladeira. Abri um sorriso, peguei o refri e, ainda, um pacote de madeleines.
Quando voltei a Paris no ano seguinte, pensei seriamente em reservar esse mesmo hotel, mas descobri um apartamento aconchegante em Les Halles (esse aqui), numa travessa da mítica Rua Montorguei (que já havia sido pintada por Monet em 1878 – olhe aqui), e foi paixão a primeira estadia (e a hospedagem mais barata de toda aquela viagem). Possivelmente nunca volte a ficar no Mondial Hotel, mas sempre vou me lembrar dele (e da Cherry Coke), pois ele salvou a minha primeira passagem pela cidade.

Leia também:
– Histórias de Viagem: D’akujem (aqui)
– Diário de Viagem Europa 2008: 40 Dias (aqui)
– Diário de Viagem Europa 2009: 37 Dias (aqui)
– Top 15 Museus: L’Orangerie, D’Orsay e mais (aqui)
– Cinco fotos: Paris (aqui)
– “Se Bardot fosse engarrafada, seria a Jenlain Six” (aqui)
– Uma foto de viagem e outras lembranças (aqui)
– Quatro itens para economizar em Paris (aqui)
– Paris: um festival de cheiros, cores e sabores (aqui)
– Coisas sobre Londres e Paris (aqui)
– “Parri, Parri” (aqui)
– Nem Sadine, nem o anao de jardim… (aqui)
– Pere Lachaise: Sobre Oscar Wilde e Jim Morrison (aqui)
abril 15, 2012 Encha o copo
Sobre Scorsese e filmes que salvam almas

Terminei “Conversas com Scorsese”, de Richard Schinkel (lançado pelo CosacNaify – aqui), na semana passada (meu quarto livro em 2012 – que o ritmo perdure), e fiquei bastante comovido e feliz com suas últimas 50 páginas (de mais de 500). Schinkel, que é jornalista e documentarista, optou por um capítulo sobre a infância de Scorsese para abrir o livro, e depois ele e Scorsese passaram a decupar filme a filme do cineasta em relatos interessantes que, por dezenas ou centenas de vezes, esbarravam em algum filme antigo, que Scorsese se inspirou ou citou em determinada passagem.
Ainda há capítulos sobre cores, música, filmagem, estúdios, cortes e ângulos, mas no final, logo após os dois falarem sobre “Ilha do Medo” (2010), o último filme decupado (na época Scorsese filmava “Hugo Cabret” e finalizava o documentário sobre George Harrison), Schinkel questiona sobre a preocupação do diretor com a restauração e conversação de filmes antigos (Scorsese é dono de mais de 4 mil filmes em rolos) e seu trabalho com a Film Foundation (organização sem fins lucrativos dedicada à preservação de filmes fundada pelo diretor em 1990 – http://www.film-foundation.org/), no que ele conclui: filmes (livros, quadros e/ou músicas) podem salvar vidas.
Os artefatos da história nos filmes são incrivelmente importantes. O pior filme do mundo conterá pistas de como vivíamos, como nos vestíamos, como falávamos.
Era isso que eu apontava em 1979. Havia um chamado “The Creeping Terror” (de Vic Savage, 1964), um filme idiota de ficção cientifica filmado no Meio Oeste. Levaram todo mundo para alguma cidade para fazer. Então se via realmente como as pessoas se vestiam. E via-se como se comportavam na vida cotidiana. Estavam “representando”, mas na verdade não estavam. A trama não interessava. O que me interessava era o que revelava sobre os Estados Unidos e sobre a nossa cultura. Era muito comovente.
Transformou-se num registro valioso
Realmente.
No entanto, sinto que isso não basta para você. Por mais que você contribua com seu trabalho para a Film Foundation, está sempre dizendo que sente que não dá tanto quanto deveria ou do jeito certo.
É o conflito entre abnegação e egoísmo. Você pode preencher um cheque para filantropia e se sentir melhor. Mas preencher um cheque não adianta nada. Você tinha de estar lá, se realmente se importa.
Você é muito severo.
Tem razão. E isso vindo de uma pessoa que foi um fracasso em dar durante muitos anos.
Espere um pouco: por tudo que você fez pela Film Foundation, a quantidade de trabalho que põe nela… não deveria se sentir mal de apoiar a preservação de filmes. É uma coisa válida.
Eu acho que é válida. Acho que alimenta a alma de alguma forma.
Sem dúvida alimenta a sua alma.
Um amigo meu me disse recentemente: “Vamos vender a Capela Sistina para um empresário, assim os pobres podem comer por um dia com os lucros”. Mas e depois? Eles comeriam por um dia, mas nós ficaríamos sem a Capela Sistina. E a Capela Sistina pode ser de maior valor para as pessoas ao longo dos próximos dez séculos.
Salvar um filme glorioso que corre o risco de se perder ou ser destruído também pode sustentar almas.
Eu sei que sim.
(…)
Acredito num universo de acaso. Acredito que quando morrer estarei morto, não vou para nenhum lugar melhor – o que lamento amargamente, claro.
Vamos sentir falta, sabe? Vamos sentir muita falta. A não ser, seguindo a lógica do nada, que a gente não saiba.
Tenho um amigo que diz: “O que mais detesto nessa história (de morrer) é que pedem para você ir embora da festa, mas a festa continua”.
E vai continuar sempre.
Vão estar fazendo filmes…
Vão fazer filmes, escrever peças, livros. E eu vou sentir falta de tudo isso. Não é justo.
“Acabou para o senhor, senhor Scorsese” (imita a voz do juízo final)
Ah, espere um pouco, tenho mais uma coisa a dizer.
Eu me pergunto: Qual o propósito do que faço? Não tenho a menor ideia. Acho que é assim para a maioria das pessoas.
As pessoas pensam de formas diferentes. Mas você abre portas. Essa é a chave, acho. É igual a influência que um padre teve sobre mim quando eu era criança e ele dizia: “Olha esse livro. Vá ver esse filme. Escuta essa música”. E de repente as pessoas tomam rumos que nunca pensamos. Faz alguma diferença.
Faz com que pensem de jeito diferente, se comportem de jeito diferente, então acho que cumprimos o nosso propósito. Não sei por que estaríamos aqui se não fosse por isso. Como você diz, todo o texto é ego.
É, o resto é ego. “Sindicato dos Ladrões”, de Elia Kazan, significou muito pra mim. As pessoas efetivamente afetam outras pessoas. Tanta gente vai a Bob Dylan e diz: “Seu trabalho mudou a minha vida”. O que ele pode dizer para elas? Não pode dizer: “Não foi minha intenção”, porque você quer que isso aconteça. Em meu trabalho, venho desenvolvendo ao longo dos últimos dez anos uma compaixão alimentadora, acho. Algumas pessoas dizem que é culpa católica, nada mais. Mas culpa sempre. Parece que estou o tempo todo lidando com essa área. Não falo de culpa por atrasar na missa ou por ter pensamentos sexuais. Falo da culpa que vem do simples fato de estar vivo.
Leia também:
– Martin Scorsese, eu e a morte, por Marcelo Costa (aqui)
abril 11, 2012 Encha o copo
Da Backer, as excelentes Três Lobos

Estilosa micro-cervejaria de Belo Horizonte, a Backer começou certeira com quatro rótulos básicos e interessantes: Pilsen, Brown, Trigo e, a melhor das quatro, Pale Ale. Em julho de 2011, os mineiros decidiram arriscar alto lançando uma “Série American Extreme” chamada Três Lobos, com quatro rótulos inspirados em cervejas norte-americanas (desde a arte ao paladar provocante). Nasceram a Exterminator (com capim limão), a American Pilsen (com açúcar mascavo), a Pele Vermelha (uma IPA com raspas de laranja) e a Bravo, uma Imperial Porter maturada em barris de umburana.
No rótulo detalhado da Três Lobos Exterminator, um homem tenta domar um jacaré. A cervejaria mineira paga tributo à escola norte-americana com uma interessante american wheat, que contém capim limão em sua fórmula. O aroma delicioso é herbal, e remete diretamente não só a chá de ervas, mas também a limão siciliano. O paladar é leve e adocicado como o de uma boa cerveja de trigo, mas o lúpulo e o capim limão marcam presença criando um conjunto refrescante e de bastante personalidade com um forte final cítrico. Muito boa.
Já a Três Lobos American Pilsen – com açúcar mascavo – parece destinada ao “ame ou odeie”. O aroma é contagiante: lúpulo, cítrico (remete à tangerina) e malte em presença delicada. Já no paladar a coisa pega: a intensidade do lúpulo faz com que a cerveja pareça uma tangerina amarga, com o gosto tocando o céu da boca e clamando por atenção. As notas finais são maltadas, mas um rastro de lúpulo é deixado (como uma boa IPA). Eis uma cerveja personal que pede (implora) o acompanhamento de algum prato (pescado, salame ou calabresa).
Falando em IPA, a Três Lobos Pele Vermelha é a representante da casa mineira, que junto à água, ao malte e ao lúpulo, misturou raspas de laranja. O resultado pode ser conferido já no aroma, em que o cítrico (laranja e abacaxi) se destaca ao lado do lúpulo herbal e do malte de caramelo. O paladar segue as notas do aroma com o malte se apresentando primeiro, mas logo perdendo espaço para o lúpulo e os tons cítricos (com o álcool marcando presença, ainda que de forma leve), que dominam a cerveja até o seu final, levemente amargo. Ótima.
Fechando o quarteto, a Três Lobos Bravo, uma robusta American Imperial Porter, de teor alcoólico elevado (9%), com presença de açúcar mascavo e maturação em barril de umburana. No aroma, bastante rico, notas de café, chocolate amargo, malte torrado, madeira, nozes e… cachaça. O paladar, também complexo, é uma deliciosa experiência: o álcool um bocadinho excessivo remete a cachaça, mas notas de madeira, chocolate amargo, café e principalmente nozes dançam na boca. O final é… marcante: meio amargo, meio doce, meio alcoolizado. O pessoal não brincou em serviço. Um capricho só.
Os quatro rótulos especiais podem ser encontrados tanto na loja da Backer (aqui) quanto em bons empórios e distribuidores, como o Clube do Malte (aqui). Cada garrafa de 330 ml sai entre R$ 9 e R$ 12, mas também pode se encontrado pela metade do preço em lojas de Belo Horizonte (com na ótima Mamãe Bebidas). São cervejas caprichadas e muito interessantes, especiais para acompanhar pratos, e que mostram que o cenário das micro-cervejarias brasileiras (principalmente as mineiras) começa a buscar sua própria cara, investindo em rótulos personais e brasileiros. Valem o investimento.
Três Lobos Exterminator
– Produto: American Wheat
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4,8%
– Nota: 3,57/5
Três Lobos American Pilsen
– Produto: American Pilsner
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,50/5
Três Lobos American IPA
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,53/5
Três Lobos Bravo
– Produto: American Porter
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,74/5
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