Blog do Editor do Scream & Yell
Random header image... Refresh for more!

Category — Coluna de Segunda

Coluna de Segunda: O crítico na era digital

Segundo dos dois textos escritos especialmente para o blog Novos Jornalistas. O outro texto, “Blog, o novo fanzine”, você pode ler lá. O link direto é esse aqui.

A internet matou a função do crítico, certo? Errado, embora alguns ainda acreditem que o crítico de arte, como o conhecíamos, está com os dias contados. Talvez, mas o mais provável é que ela adapte à era digital. O fato é que, num primeiro momento, a proliferação de blogs fez com que surgissem dezenas de milhares de pessoas dispostas a exercer a função de crítico (mesmo sem saber direito o que era ser um crítico). O rapaz vai ao cinema, vê o filme, volta para casa e escreve uma resenha. A garota ouve um disco e escreve uma resenha.

A função que antes era restrita a poucos profissionais que trabalhavam em jornais e revistas tornou-se popular da noite para o dia, e agora qualquer pessoa pode escrever um texto argumentativo analisando uma obra de arte, lembrando que a liberdade que a internet trouxe para quem quer expor opiniões é praticamente à mesma de quem poderá ler (e comentar/discutir) essas idéias.

No geral, a qualidade da crítica encontrada na internet neste primeiro momento ficava entre o ruim e o razoável, embora fosse possível encontrar pequenas epopéias argumentativas que cumpriam melhor a função do que muito profissional da grande mídia. O cenário está mudando, no entanto. Muitos blogueiros que entraram na onda da crítica na web estão descobrindo que para brincar de ser crítico é preciso disciplina e dedicação, e o número de resenhistas de fim de semana parece diminuir – inversamente, a qualidade está aumentando. Pois após o boom da proliferação de blogs e críticos, em que todo mundo queria escrever (e escreveu), vivemos um momento de assentamento.

Ainda surgem novos espaços, mas a impressão é de que após um primeiro momento de desleixo textual, essa segunda leva de críticos de internet surge mais preocupada com a forma de se expressar, porque a função do crítico na era digital está muito mais próxima do leitor do que em qualquer outro período da história. Ele não está mais isolado.

Por outro lado, ele está se adaptando ao novo mundo virtual, mas ainda é uma função ativa e de suma importância no mundo moderno. Pois na correria do dia-a-dia, muitos leitores necessitam de um filtro que o ajude a decifrar o oceano de informações que passa em sua frente ininterruptamente. Se tal filme é bom, qual exposição em cartaz vale à pena ir, qual disco ouvir entre os que são lançados todos os dias, qual peça de teatro ver entre tantas, que livro ler.

Porém, mais do que um indicador de qualidade (como é comumente encontrado nas esquinas da internet), a função do crítico é refletir e contextualizar a obra de arte no espaço/tempo. Poucos fazem isso, mas apenas o fato de várias pessoas estarem usando a liberdade da internet para argumentar sobre a qualidade de uma obra de arte é uma conquista a ser festejada. A formatação dessa argumentação é o próximo passo. Ainda estamos engatinhando, mas estamos no caminho certo.

Agosto 9, 2010   2 Comments

Coluna de Segunda: Blog, o novo fanzine

Primeiro dos dois textos escritos especialmente para o blog Novos Jornalistas. O outro texto, “O crítico na era digital”, você pode ler lá. O link direto é esse aqui.

O fanzine, uma revista (magazine) feita por um fã, surgiu no começou do século 20 tratando primeiramente de quadrinhos e ficção cientifica, mas sua popularização se deu no auge do movimento punk, época em que alguns jovens encontraram na folha de papel em branco um espaço importante para conversar com o mundo. E começou assim: fanzines mimeografados sobre música, que usavam a colagem como ferramenta e a criatividade como forma de arte. Eram distribuídos em shows, em locais de interesse comum (lojas, feiras, praças) ou mesmo enviados por correio criando uma rede de contato que se fortaleceu com o passar dos anos devido à divulgação boca a boca. Porém, apesar de ainda hoje existirem vários fanzines de papel, o modelo viu seu espaço amplificado com o surgimento da internet, no geral, e dos blogs, em particular. No começo do século 21, dezenas de webzines (fanzines de internet) tomaram a rede difundindo informação. Eram revistas eletrônicas tentando abraçar várias áreas da cultura. O cenário agora parece mudado. A quantidade de webzines diminuiu, e a de blogs temáticos aumentou. Os blogs, que começaram sua história como um diário pessoal de cada pessoa (que usava a página em branco do Word para falar de acontecimentos do dia-a-dia), passaram a ter um direcionamento, e assim como um fanzineiro, os blogueiros passaram a usar as novas ferramentas de blogs para se dedicar a um assunto especifico. A pessoa deixa de escrever de acontecimentos do dia-a-dia (ou até escreve, mas em menores fluxos) e se dedica a refletir alguma paixão sua – exercendo a função de fã. Assim surgem os blogs temáticos que, num olhar mais profundo, começam a ocupar o espaço que era do fanzine, ou melhor, passam a ser o novo fanzine. A pessoa usa aquele espaço para falar de algo que é fã, que admira. E na página em branco do Word começam a ser discutidas novas idéias, que podem abarcar o triunvirato da cultura jornalística (cinema, música, literatura), e se expandir para lugares sem nenhum controle. Uma pesquisa pelo Google pode nos dar uma pequena idéia da amplitude do alcance dos blogs: existem blogs dedicados à boneca Barbie, a moedas mundiais, a poesia parnasiana e a novelas mexicanas. Dezenas de blogueiros analisam corridas de automobilismo (com a Fórmula 1 sendo o tema da maioria, mas ainda há espaço para motos e outras categorias), quadrinhos, séries de TV, política (interessantíssimos em período de eleição), gastronomia (que além de receitas de pratos traz análises de restaurantes com boas dicas) e arquitetura. Três dos temas do momento parecem ser Moda, Cerveja e Viagens. A pessoa abre uma conta em um blog, por exemplo, para relatar suas experiências na Europa. É a folha em branco sendo usada como veiculo de comunicação com o mundo. Antes era uma folha em papel. Agora é uma folha numa tela de computador que assim que transposta para o blog coloca a pessoa em contato com o mundo. O correio foi e ainda é fundamental na divulgação do fanzine em papel, na comunicação entre leitor e fanzineiro. O blog, por sua vez, aproxima ainda mais o leitor do blogueiro (o novo fanzineiro) através da caixa de comentários, um espaço democrático usado tanto para críticas como para perguntas e/ou complementos ao assunto discutido. É uma nova realidade, uma nova forma de se comunicar. Ou, como diria uma antiga propaganda: o mundo a um toque do mouse. Mesmo.

Julho 5, 2010   2 Comments

Coluna de Segunda: Procura-se técnico de som

arena_wien.jpg

Da série textos engavetados

Segunda-feira, 21h. O Arena, em Viena, na Áustria, recebe em seu palco uma das grandes bandas dos últimos anos, o Black Rebel Motorcycle Club (o Pavement iria tocar ali na mesma semana). O local – totalmente pichado – é uma velha fábrica transformada em casa de shows, e lembra um squat (casas abandonadas tomadas por punks), mas foi “remodelado” para receber shows. São vários bares em diversos ambientes, algumas barraquinhas de comida e até um furgão que vende chocolate quente e café. O palco é ao ar livre, tendo as sobras da fábrica de um lado (devidamente adaptadas às normas de segurança, com guarda-corpo de metal para o público que quer ver o show de algum dos dois andares da velha construção) e o muro do outro – com uma passarela lateral que também tem um guarda-corpo de metal, e que recebe muita gente não disposta a encarar a pista, um gramado em desnível que leva ao palco. As caixas de retorno parecem ter vivido dias melhores. O mesmo pode ser dito das caixas laterais, que vão entregar o som para o público (aproximadamente 4 mil pessoas), mas na hora que o show começa ouve-se tudo com perfeição. Baixo, guitarra, piano e bateria podem ser percebidos em suas nuances, e a qualidade do espetáculo é surpreendente. Corte para São Paulo, uma semana depois. A Virada Cultural agita a paulicéia, mas algo está errado. Seja no Palco dos Indies, seja no Palco da cantora CéU, o som é ruim, e prejudica as apresentações, que perdem muito de sua qualidade por algum motivo entre a falta de investimento em estrutura e/ou capacidade para comandar os botões de uma mesa de som. Isso não é novidade no Brasil. Meses atrás, o Coldplay – uma banda do primeiro escalão da música pop mundial – fez um show em São Paulo que uma parte do público não conseguiu ouvir, o que é um desrespeito não só com quem assiste, mas também com quem está no palco, que não consegue passar suas idéias em detalhes porque equipamento ou técnica não colaboram. A impressão é de que, no Brasil, a música está relegada ao segundo plano. Contrata-se artistas, organiza-se shows, vende-se ingressos, mas o grande momento de todo esse negócio, a hora que o artista se encontra com o público, é esquecido. Produtores contam o dinheiro, fãs reclamam do descaso, e tudo fica por isso mesmo. Os punks de Viena, com seus cabelos azuis e dezenas de tatuagens, são muito mais organizados e capazes do que os produtores brasileiros. Talvez devêssemos pensar em um intercambio. Os ouvidos agradeceriam.

arena_wien2.jpg

Fotos: My Space Arena Wien

Junho 28, 2010   2 Comments

Coluna de Segunda: Sucesso é #&#@%#

Da série textos engavetados

Sucesso, parece, virou palavrão. De novo. Pior: há muita gente que trabalha com música (fazendo, produzindo ou escrevendo sobre) que acredita piamente que o sucesso artístico não existe mais, e que a grande maioria dos artistas independentes não quer fazer sucesso. Por outro lado, Ivete Sangalo e Lady Gaga continuam vendendo milhares de discos, e os independentes que o Scream & Yell conversou recentemente foram categóricos: querem fazer sucesso. Dividindo o assunto em dois: Ivete e Lady Gaga ocupam hoje o espaço que tempos atrás foi de Nirvana, Legião Urbana e Skank. Ou seja: é preciso deixar de fatiar o mercado e pensar em nichos, e acreditar que uma boa banda ou artista pode sim chegar a fazer sucesso nacional. O mercado diminuiu, mas ainda existe. Ponto 2: Romulo Fróes, Lulina e Stela Campos, em entrevistões recentes, mostraram-se a fim de tocar em rádios, programas de TV e grandes casas de shows, desde que o contrato com uma gravadora não estipule manipulação artística, o que quer dizer que as grandes gravadoras precisam acreditar no poder do novo ao invés de tentar moldar uma fórmula, de tentar facilitar a música para o ouvidos do povo, como se o povo não fosse capaz de reconhecer uma grande canção. O cenário independente hoje em dia está repleto de artistas que gravam discos de qualidade, mas que precisam da máquina da grande indústria para divulgar seus trabalhos. Bruno Morais, Pullovers, Ludov, Nevilton e Charme Chulo (citando cinco nomes de uma lista imensa) fazem trabalhos de apelo pop notável, e só são independentes devido ao encolhimento do mercado e a abertura proporcionada pela tecnologia (que permite hoje a gravação de bons discos sem a cobertura de um grande selo), e não por uma pseudo-estranheza que os diferencie de outros que tocam em rádios. Sucesso não é palavrão e não existe fórmula que designe quem será a próxima Lady Gaga e o próximo Nirvana. O futuro começa a partir disso.

Junho 21, 2010   8 Comments

Coluna de Segunda: Do vinil para o MP3

discman.jpg

Um rascunho de pensamento…

20 de outubro de 1986. Essa é a data do meu primeiro registro em carteira de trabalho. Não que eu não tivesse trabalhado antes. Ali pelos 12 anos eu peguei um bico de entregar pastel (muito bom por sinal) para diversos botecos da região para um japonês que morava perto de casa. O segundo trabalho foi em uma banca de jornal, que ficava na rodoviária de Taubaté, ao lado de uma loja de discos. Do outro lado da rua ficava a Hermes Macedo, a tal empresa que carimbou minha carteira pela primeira vez.

O primeiro salário de verdade a gente não esquece. Não que os 1300 cruzados fossem uma fortuna, mas assim que recebi o meu primeiro cheque, descontei e fui direto para a lojinha de discos que ficava ao lado da banca que eu tinha trabalhado meses antes. Sai de lá com seis vinis: “Dois”, do Legião Urbana; “O Rock Errou”, Lobão; “Selvagem?”, Os Paralamas do Sucesso; “Nós Vamos Invadir a Sua Praia”, do Ultraje a Rigor; “Mudança de Comportamento”, do Ira! e “Revoluções por Minuto”, do RPM.

Até então eu só tinha dois vinis em casa: “Radioatividade”, o segundo álbum da Blitz, e “Ballads”, uma coletânea com 20 baladinhas dos Beatles, o primeiro disco que ganhei na vida (já falei sobre ele aqui). De 1986 para cá muita coisa mudou. Os vinis sumiram das prateleiras brasileiras (eu devo ter uns 500 em casa), o CD surgiu, virou mania e então apareceu o MP3, e o modo das pessoas ouvirem música foi mudando e se adaptando conforme cada evento tecnológico surgia para animar as nossas vidas.

Nos anos 80 a gente gravava fitinhas K7 e ia pra escola ouvindo walkman. Também já escrevi sobre a arte de gravar fitinhas (aqui), mas isso também mudou com o tempo. Ali pelo meio dos anos 90, o discman veio com tudo para fazer com que o ouvinte levasse seus CDs prediletos para ouvir onde quisesse. E funcionou, mas daí chegou o século 21, e em 2001, a Apple lançou o iPod, pois o formato já não era mais CDs e nem vinil, e sim MP3 podendo transportar 5GB de músicas. A revolução se fez.

Agora estamos começando mais uma década, e a discussão sobre formatos (que começou uns dois, três anos atrás) parece esquentar. Muita gente boa defende que o MP3 vai morrer, e que o futuro da música será… 1, 2, 3: o streaming. Em streaming, as informações da mídia não são usualmente arquivadas pelo usuário que está recebendo a stream. Isso permite que um usuário reproduza mídia protegida por direitos autorais na Internet sem a violação dos direitos, similar ao que acontece em rádio e televisão aberta.

Por que streaming?, pergunta o leitor. Porque, defendem alguns, ninguém vai ter paciência de guardar milhares de gigas com MP3 a partir do momento que você poderá ouvir aquela mesma música de graça, na hora que você quiser, estando conectado. A idéia é que as gravadoras devem apostar nesses servidores, disponibilizando seus catálogos. Com uma simples busca você encontra o disco que queria ouvir, e o ouve sem precisa arquivar nada em seu HD. Clicou, ouviu, foi feliz.

Não sei, mas sou um pouco cético quanto a isso. Pra mim, o MP3 veio para ficar (espero nunca ter escrito a mesma coisa sobre o CD – risos – na verdade eu disse aqui que ele ia morrer). Espaço é algo cada vez mais irrelevante. Acredito que antes das gravadoras apostarem nos sites de streaming vão aparecer pendrives com capacidade enorme ocupando pouco espaço. O máximo até o momento são 128 GB naquele chaveirinho, um espaço em que você pode guardar mais de mil álbuns. Imagina quando isso chegar a 1T.

Além do mais, acho que o ser-humano é acostumado a comodidades. É muito fácil ouvir algo em streaming, mas para o modelo funcionar será preciso dar ao ouvinte o mínimo de chance de erro. Buscar uma música e não encontrá-la, e um ouvinte perdido. Talvez seja uma visão de apaixonado por música, de pessoas que querem ter o controle sobre o que ouvem, e não querem correr o risco de não poder ouvir aquele disco que tanto ama. No mais, se streaming funcionasse, o My Space não teria sido esquecido, certo.

De qualquer forma, não há como cravar nada. Vivemos um período interessantíssimo da história mundial, em que tudo pode ser possível, mas poucos podem prever o que vem por ai. Em três décadas passamos do vinil e do K7 para o CD e do CD para o MP3. Qual o próximo passo? Será que a música será guardada em um grande servidor online, e todo mundo vai acessar conforme suas preferências, ou vamos continuar lotando HDs com MP3? Como você acha que estará ouvindo música daqui dez anos?

Fevereiro 1, 2010   14 Comments

Coluna de Segunda: Golden Globes

Pré-Script: Vou tentar ser fiel a este espaço e escrever uma coluna toda segunda nos moldes da antiga Revolution, algo que é mais pessoal do que o Scream & Yell, por isso postada no blog, mas tem a ver com coisas de lá. Bem, as palavras falam por si… sempre.

James Cameron e os atores de “Avatar”

Foto: GoldenGlobes.Org

Eu completo 40 anos neste ano. É a primeira vez que escrevo isso, e olho isso frente a frente, e não dá nem um friozinho que seja no estômago. Fazer 40 anos com a mente sã e alma lívida ajuda e muito a manter o foco nas coisas que a gente acredita, acho eu. Porém, inevitável, fazer 40 anos (e aproveitar todo esse tempo) é, numa comparação rasteira, viver o dobro do que alguém de 20 já viveu. São 20 a mais para se ouvir discos, assistir a filmes, ler livros e enterrar amigos.

Porém, por mais que a gente se policie, o mundo (principalmente o cultural) é muito mais novo que nós – e a gente já viu e viveu um bocado. Jovens músicos começam a fazer barulho em alguma garagem, arranjam um contrato bacana, e viram ídolos. Você já viu isso. Do nada, topamos com algum filme sensacional de algum diretor que nem aprendeu a falar direito com jornalistas, mas conhece a linguagem cinematográfica e consegue emocionar com algumas idéias toscas na cabeça e uma câmera na mão.

A gente ainda consegue se emocionar (ok, falo por mim), mas ficamos mais emburrados com a apatia cultural. E, após escrever tudo isso, fica parecendo que o problema na verdade não é mundo, e sim somos nós, sou eu. A música internacional anda tropeçando feio já faz uns três anos (a nacional vive uma fase excelente, mas no underground). Artistas enganam o público com discos medianos, e fica tudo por isso mesmo.

Às vezes parece que estou desconectado do mundo. E percebi muito disso assistindo a entrega do Globo de Ouro 2010, talvez a pior edição da premiação em anos e anos, e claro que ela não é culpada sozinha: se o ano foi ruim é porque a safra cinematográfica é ruim, ou talvez seja mau-humor da minha parte, e não eu esteja valorizando os futuros clássicos do cinema. Será mesmo?

Na minha ótica desfocada, o Globo de Ouro 2010 premiou bilheterias, dando uma pista para futuras premiações: você quer um Golden Globe? Fature bastante que a gente dá. Os principais filmes e artistas premiados foram recordistas de bilheterias no ano que passou, e é sempre bom lembrar que os executivos estão pisando sobre ovos em tempos de internet, peer-to-peer e pirataria à vontade nas principais ruas do mundo.

O que mais estranha, no entanto, é que o Globo de Ouro é a premiação dos jornalistas estrangeiros nos Estados Unidos, e não dos executivos ou da Academia. A Academia valorizar “Avatar” é uma coisa, a imprensa, outra. “Avatar” e a vitória da técnica sobre a inspiração. Mas, por outro lado, é também a senha para a Indústria de que o mercado ainda está vivo, e de que cinemas Imax e/ou 3D seja uma saída, uma fuga do caos desenhado nos últimos quatro, cinco anos.

A rigor, cifrões deveriam impressionar economistas, banqueiros, investidores e produtores. Não que o lucro seja um problema, pelo contrário, ele é necessário, mas quando passamos a visar o lucro pelo lucro viramos objetos da própria moeda que criamos, reféns de nossa própria ignorância. Pouca importa se o filme realmente é bom. O que importa é quanto ele conseguiu arrecadar nas bilheterias. Se for assim, estamos a um passo do abismo.

O que se viu no Globo de Ouro foi uma premiação voltada ao mercado e não ao cinema. A Academia pode sujar as mãos à vontade agora. O Globo de Ouro sempre foi referencia para a Academia, afinal, jornalistas teoricamente assistem a todos os filmes, o que é difícil acreditar que atrizes – e mães – como Angelina Jolie e Julia Roberts (para citar dois exemplos) tenham tempo entre seus filmes e filhos para assistir a todos os concorrentes. Ou seja: o Globo de Ouro é um guia, uma colinha para os desavisados.

Tenho muito receio do que pode acontecer com o cinema daqui pra frente, se o que contar realmente for grandes bilheterias. Assim como “Nevermind”, do Nirvana, abriu um buraco no peito da Indústria, por onde entraram dezenas de novas bandas, “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, fez o mesmo pelo cinema independente em uma época de grandes blockbusters. Mas isso foi há 16 anos, e os blockbusters voltaram fortes e poderosos para mostrar que o dinheiro realmente vale mais.

Talvez nos reste, como último recurso, esperar que algum moleque viciado em cinema apareça com algum filme brilhante feito em sua própria casa, e abra um novo caminho nesta selva de pedra, aço e dólares. Talvez. Ainda temos tempo para revoluções? Em “Sonhadores”, de Bertolucci, uma questão era proposta através de uma frase: “Toda petição é um poema, todo poema é uma petição”. Isso era 1968. Em 2004, data do filme, ou agora, poderíamos dizer: “Toda petição é uma folha de cheque, toda folha de cheque é uma petição”.

Mudou o mundo ou mudamos nós.

Ps1: Ainda não vi “Fita Branca”, mas quero muito ver.
Ps2: Robert Downey Jr. está ótimo em “Sherlock Holmes”, mas é sério que valia um Globo de Ouro?
Ps3: Gostei muito de “Se Beber, Não Case”, que uma pessoa esperta poderia ter traduzido como “Ressaca”. Talvez tivesse votado em “500 Dias com Ela”. Talvez.
Ps4: A estatueta de Melhor Ator Coadjuvante do Oscar já vai sair da fábrica com o nome de Christopher Waltz
Ps5: No Oscar não vai dar Meryl Streep, né. E nem Sandra Bullock. Vai?
Ps6: Estou curioso por “Nine”, mas é claro que vou me decepcionar.
Ps7: O filme a ser visto se chama “Guerra ao Terror”.

Janeiro 18, 2010   7 Comments