Category — Literatura
O minimalismo e o rock and roll

Faltam 40 páginas para terminar a minha primeira leitura de “O Resto é Ruído – Escutando o Século XX”, de Alex Ross, o melhor livro sobre música que li em toda a minha vida (edição brasileira da Companhia das Letras). A primeira página do livro relembra a primeira exibição da ópera “Salome”, de Richard Strauss, em 1906. Bem mais pra frente (após duas guerras mundiais, uma guerra fria, jazz, tonalidade, dodecafonia, Beatles e Stockhausen – um cem número de passagens interessantes que vão necessitar serem revistas em uma segunda leitura com o site do livro de apêndice), na página 532, Alex Ross versa sobre o minimalismo e o rock and roll. O que dá uma pequena ideia da grandiosidade de “O Resto é Ruído – Escutando o Século XX” (todos os nomes do primeiro parágrafo foram dissecados antes em longos capítulos do livro):
“O minimalismo não é tanto a história de um tipo de som, mas de uma cadeia de eventos. Schoenberg inventou a dodecafonia; Webern encontrou um silêncio secreto em seus padrões; Cage e Feldman abandonaram as sequencias e enfatizaram o silêncio. Young diminuiu o ritmo da sequencia e a tornou hipnótica. Riley sistematizou o processo e lhe conferiu profundidade de campo; Glass imprimiu um momentum motorizado. O movimento não parou por ai. A partir dos anos 60, uma pequena legião de artistas populares, encabeçada pela banda Velvet Underground, levou a proposta minimalista ao grande público. Como Reich declarou mais tarde, havia uma “justiça poética” nessa mudança de papéis: assim como ele outrora se sentira fascinado por Miles Davis e Kenny Clarke, personalidades do pop em Nova York e Londres passaram a se embevecer de seu trabalho.
Às vésperas de sua revolução gradual, Reich tinha um bocado de música pop soando em seus ouvidos. Ele não ouvia apenas jazz, mas também rock e r&b. Em uma entrevista, ele citou duas canções dos anos 60 que faziam a gesticulação minimalista se concentrar em apenas um acorde: “Subterranean Homesick Blues”, de Bob Dylan, e “Shotgun”, de Junior Walker. (A sua) “It’s Gonna Rain” tem algo em comum com “A Hard Rain’s a-Gonna Fall”, de Bob Dylan, que combina profecia bíblica com a angústia da era atômica num hino que anuncia um juízo final iminente.
O Velvet Underground surgiu na forma de uma conversa musical entre Lou Reed – um poeta transformado em compositor com uma voz dolorida e decadente – e John Cale, o sonolento violonista do Theatre of Eternal Music de La Monte Young. O início da carreira de Cale dá uma boa visão do panorama do horizonte musical do final do século XX: ele estudou no Goldsmiths College em Londres com Humphrey Searle, um discípulo de Webern; mudou para composição conceitual ao estilo de Cage, do Fluxus e de La Monte Young; chegou aos EUA com uma bolsa de estudos para Tanglewood; provocou lágrimas em madame Kussevítskaia ao realizar um trabalho que exigiu a destruição de uma mesa com um machado; foi para Nova York com Xenakis; fez sua estreia tocando no espetáculo de John Cage para “Vexations”, de Satie; e acabou entrando para o conjunto de Young. Em sua autobiografia Cale afirma que um de seus deveres era conseguir drogas para as apresentações do Eternal Music. Consta que as transações eram conduzidas por um código musical: “seis compassos de sonata para oboé” significava “seis onças de ópio”.
Lou Reed entrou em cena em 1964. Na época estava compondo canções kitsh para uma compania fonográfica chamada Pickwick Records. Por razões que até hoje permanecem obscuras, a Pickwick contratou três músicos da Eternal Music – Cale, Tony Conrad e o baterista e escultor Walter De Maria – para ajudar Reed na apresentação do que deveria ter sido uma novidade de sucesso chamada “The Ostrich”. O plano não deu em nada, mas os músicos da Eternal Music se deram bem com Lou Reed, que estava conduzindo experiências independentes com novos temas e modos. A primeira banda de Reed e Cale chamava-se Primitives. Pouco mais tarde, com Sterling Morrison na guitarra e o percussionista do Eternal Music Angus MacLise na bateria, eles viriam a ser o Velvet Underground.
A principio o Velvet se especializou em happenings e filmes underground. Depois o grupo começou a fazer shows de rock convencional. MacLise desistiu, recusando qualquer formato que o obrigasse a começar e parar em um momento especifico da música. Foi substituído por Maureen Tucker, baterista com um rígido toque minimalista. Um show na véspera de ano novo de 1965 chamou a atenção de Andy Warwol, que se ligou à banda num evento multimídia chamado Exploding Plastic Inevitable. Finalmente um álbum foi lançado em 1967, com algumas músicas cantadas pela modelo alemã Nico com sua voz de boneca. “The Velvet Underground & Nico” vendeu mal na época, mas hoje é reconhecido como um dos mais brilhantes e ousados disco de rock já gravados.”
Fevereiro 5, 2012 4 Comments
Aldous Huxley, 1949
“Todos os homens são bons e todos são assassinos;
Afeiçoados aos cães, constroem campos de concentração;
Queimam cidades inteiras e acariciam os órfãos;
Clamam contra linchamentos, mas apoiam a pena de morte;
Fazem projetos de filantropia, e agências secretas;
Quem devemos perseguir, quem lamentar?
É tudo questão de modas do momento,
De jardins de infância comunistas e primeiras comunhões;
Só no conhecimento de sua própria essência
Deixam de ser os homens um bando de macacos…”
Janeiro 27, 2012 3 Comments
A vitória da baixa cultura
“Na primavera de 1917, as plateias parisienses provaram uma amostra dos loucos anos 20, durante um dos períodos mais sangrentos da guerra, quando os Aliados lançaram a mal planejada ofensiva Nivelle e os alemães reagiram com uma estratégia de defesa letal. Em 18 de maio, seis anos depois da morte de Gustav Mahler, os Ballets Russes chocaram a capital francesa mais uma vez apresentando uma tumultuosa produção de estilo circense intitulada ‘Parade’. A lista de participantes era composta de astros de primeira grandeza: Erik Satie compôs a música, Jean Cocteau criou o libreto, Pablo Picasso concebeu o cenário e o figurino, Léonide Massine coreografou, Guillaume Appolinaire escreveu as notas do programa (para as quais inventou a palavra ‘surrealismo’) e o empresário Diáguiliev forneceu o escândalo. (…) O enredo de ‘Parade’ trata, com humildade, do tema da relevância: como pode uma forma de arte antiga, como a música clássica ou o balé, continuar atraindo o público na era do pop, do cinema e do gramofone? Numa feira em Paris, os gerentes de um teatro ambulante recorreram a várias artistas de ‘music hall’ – acrobatas, um mágico chinês, uma garotinha americana – para atrair os transeuntes. Mas as atrações secundarias se mostraram tão interessantes que o público se recusou a entrar. Assim, a baixa cultura passa a ser a principal atração”.
Trecho de “O Resto é Ruído”, de Alex Ross (Companhia das Letras)
Setembro 27, 2011 No Comments
A armadilha de uma descrição verbal

Trecho do prefácio do livro “Escuta Só”, de Alex Ross:
“Escrever sobre música não é especialmente difícil. Quem cunhou o epigrama “Escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura” — a declaração foi atribuída em diferentes momentos a Martin Mull, Steve Martin e Elvis Costello — estava turvando as águas. A crítica musical é certamente uma ciência curiosa e dúbia, e seu jargão varia do inexpressivo (“A Quinta de Beethoven começa com três sóis e um mi bemol”) ao floreado (“A Quinta de Beethoven começa com o destino batendo à porta”). Mas não é mais dúbia do que qualquer outro tipo de crítica. Toda forma de arte luta contra a armadilha de uma descrição verbal. Escrever sobre dança é como cantar sobre arquitetura, escrever sobre literatura é como fazer edifícios sobre balé. Há uma fronteira envolta em névoa que a língua não pode atravessar. Um crítico de arte pode dizer de Laranja e amarelo de Mark Rothko que a tela consiste de uma área de tinta amarela que flutua acima de uma área de tinta cor de laranja, mas de que serve isso para alguém que nunca viu um Rothko? O crítico literário pode copiar algumas linhas da “Esthétique du mal”, de Wallace Stevens —
And out of what sees and hears and out
Of what one feels, who could have thought to make
So many selves, so many sensuous worlds…
— mas quando tenta explicar o significado desses versos, quando tenta expressar sua música silenciosa, outra dança irrealizável se inicia. Então por que se arraigou a ideia de que há algo de peculiarmente inexpressivo na música? A explicação pode não estar na música, mas em nós mesmos. (…) A “Grande Enciclopédia Soviética”, em um de seus momentos mais sensatos, definiu a música como “uma variante especifica de som feito por pessoas”. No fim das contas, a parte difícil de escrever sobre música não é descrever um som, mas um ser humano. É um trabalho delicado, pretensioso no caso dos vivos e especulativo no caso dos mortos”…
“Escuta Só”, de Alex Ross, foi lançado pela Companhia das Letras no Brasil
Agosto 3, 2011 No Comments
Palestras de Alex Ross no Rio e em SP

Para abrir o ciclo de grandes conferências em comemoração de seus 25 anos, a editora Companhia das Letras traz ao Brasil o escritor e crítico de música Alex Ross para palestras em São Paulo e Rio de Janeiro. Alex Ross é crítico de música da revista New Yorker. Seu primeiro livro, “O resto é ruído — Escutando o século XX” (Companhia das Letras, 2009), foi finalista do prêmio Pulitzer.
Sob o título de “Chacona, lamento, walking blues: linhas de baixo da história da música”, Ross falará sobre a história da música passando pelo período Renascentista até os tempos atuais e sobre como a dança sul-africana conhecida como Chacona tornou-se tão influente para compositores clássicos. Esses e outros assuntos podem ser lidos no livro “Escuta Só” (com lançamento previsto para dia 2 de agosto no Brasil), que reúne ensaios inéditos e textos publicados na revista New Yorker, da qual o autor é crítico musical desde 1996.
Na quinta-feira, dia 04/08, o evento acontece a partir das 19h, na Sala São Paulo. A entrada é gratuita, mediante confirmação prévia por e-mail. Já no Rio de Janeiro, a palestra acontece no sábado, dia 6, no IMS – Instituto Moreira Salles, a partir das 18h. Os ingressos custarão R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia-entrada) e já estão a venda.
Serviço:
São Paulo:
Quinta-feira, 4 de agosto de 2011, às 19h
Sala São Paulo
Praça Julio Prestes, 16 – Luz
Grátis. Lugares limitados. Confirme sua presença pelo e-mail rsvp@companhiadasletras.com.br. Válido para duas pessoas.
Rio de Janeiro:
Sábado, 6 de agosto de 2011, às 18h
IMS – Instituto Moreira Salles
Avenida Marquês de São Vicente, 476 – Gávea
Tel.: 21 3284-7400
Agosto 1, 2011 No Comments
De Luis Buñuel para Erasmo Carlos

Sai o surrealismo e entra a jovem guarda. Troca necessária neste momento. Em sua excelente biografia (recomendadíssima), o cineasta espanhol inspira a desordem, provoca o pensamento e instiga o caos social. Não há como ficar alheio ao mundo, e isso pode até enlouquecer (no mínimo garantir uma boa dor de estômago). Extremamente inspirador. E (deliciosamente) perigoso.
Por sua vez, em “Minha Fama de Mau”, Erasmo Carlos mostra toda a inocência dos primeiros anos do rock and roll. De mau Erasmo (e a jovem guarda) não tinha nada. Basta colocar lado a lado um filme de Buñuel de 1930 (“A Idade do Ouro”) e uma música de Erasmo e Roberto de 1963 (“Parei na Contramão”). 60 anos separam as duas obras, e quem era mau mesmo?
Erasmo narra um punhado de histórias inocentes de um garoto pobre do bairro da Tijuca. De causos de adolescência a histórias da jovem guarda (incluindo passagens de parcerias com Roberto até exemplos de sua rotina ao lado de um homem com toc), os capítulos surgem com um verniz de inocência que caracteriza (e muito) o período. Parecia não haver maldade. É tudo tão simples que, por vezes, soa simplório.
“Tocaram a campainha e fui atender. Tinha 17 anos e vivia com minha mãe – e os gatos, os periquitos e o cágado – no quarto alugado da rua Professor Gabizo. O tal casarão de beleza decadente, com seus azulejos coloniais e suas incontáveis pulgas. Na porta, estavam Trindade, Arlênio e um outro cara, que eles queriam me apresentar. O sujeito morava no bairro de Lins de Vasconcelos e se chamava Roberto Carlos. Ele fizera parte do Sputnicks e, com o fim do grupo, resolvera seguir em carreira solo. Já cantava boleros e sambas-canção em sua terra natal, Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo.
Gostei dele. Era simpático, usava topete e costeletas e vestia calça faroeste com uma jaqueta vermelha tipo James Dean. Conversamos bastante sobre rock, bebemos água da moringa de barro que eu tinha no quarto e comemos biscoito Aymoré. Num certo momento, a meu pedido, ele afinou o precário violão de cravelhas de pau que eu havia ganhado da minha avó Maria Luiza pouco tempo antes e cantou “Tutti Frutti” e “Don’t Be Cruel”. Arlênio e Trindade iniciaram um vocal que timidamente apoiei. Eu não tocava nem cantava, mas tinha a intenção de aprender. Foi demais!
O motivo daquela visita era saber se eu tinha a letra de “Hound Dog”, o grande hit de Elvis Presley que tocava adoidado nas rádios – Bill Halley ans His Comets viriam se apresentar em breve no Maracanãnzinho e o Clube do Rock, do qual Roberto fazia parte, iria fazer o pré-show. Ele queria aprender a canção e incluí-la no seu repertório.
Eu tinha a letra e prontamente o atendi, recorrendo aos meus arquivos musicais. Naquele mesmo instante ele começou a treinar o seu inglês capixaba enquanto levava sua batida com meu violão. Na saída, entre abraços e piadas sobre as pulgas, agradecido pela hospitalidade, ele disse a frase que mudaria minha vida:
‘Bicho, aparece lá na televisão.’”

Erasmo com Tim Maia
Leia também:
- De Stanley Kubrick para Luis Buñuel (aqui)
- Luis Buñuel e uma estranha reunião de fantasmas (aqui)
- Luis Buñuel: o que aconteceu com o surrealismo? (aqui)
- Luis Buñuel: o bar é um exercício de solidão (aqui)
Março 25, 2011 No Comments
O bar é um exercício de solidão
“Passei horas deliciosas nos bares. O bar é para mim um lugar de meditação e recolhimento, sem o qual a vida é inconcebível. Hábito antigo que se arraigou ao longo dos anos (…), passei nos bares longos momentos de devaneio, raramente conversando com o garçom, na maioria das vezes comigo mesmo, invadido por cortejos de imagens que não cessavam de me surpreender. Hoje, velho como o século, não saio mais de casa. Sozinho, nas horas sagradas do aperitivo, na saleta onde guardo minhas garrafas, gosto de lembrar dos bares que amei”.
Luis Buñuel em “Meu Último Suspiro” (Cosac Naify)
Mais pra frente, o cineasta lamenta que o bar tenha se transformado cem um local barulhento, com música alta e ambientes iluminados, propensos a conversação. A relação dele com seus bares era de amor. E amor só se divide com o objeto amado.
“Agora queria falar das bebidas. Como é um tema em que sou praticamente inesgotável, tentarei ser bem conciso. Os que não estejam interessados – desgraçadamente, eles existem - podem pular algumas páginas. (…) Meu drinque favorito é o dry martini”. Veja a receita pessoal de Buñuel aqui.
Fevereiro 14, 2011 2 Comments
Download: Revista Monotongo #5
Outubro 8, 2010 No Comments
Top Ten - Livros sobre música em português

O grande André Barcinski publicou em seu blog uma lista com “dez ótimos livros sobre música disponíveis em Português” (veja aqui). Tem coisas bacanas na lista (e coisas que estão na fila aqui em casa, como “O resto é ruído”), mas a impressão que tive é que ele não conhece o catálogo da Editora Barracuda (hehe). Não tem como fazer uma lista séria de livros sobre música deixando Tony Parsons e Bill Graham de fora.
A Barracuda ainda tem os livros de jazz (”A Love Supreme” e “Kind of Blue”), a biografia do Serge Gainsbourg e o sensacional “Radio Guerrilha - Rock e Resistência em Belgrado” (e, zuzu bem, o livro da Pamela Des Barres). Fora que também faltaram livros da Editora 34, mas deixando de colocar defeitos na lista alheia, a minha listinha (10 livros de música em 10 minutos?) seria essa:
“Minha vida dentro e fora do Rock“, Bill Graham (Barracuda)
“Disparos do Front da Cultura Pop“, Tony Parsons (Barracuda)
“Mate-me Por Favor”, de Legs McNeil e Gillian McCain (L&PM)
“Beijar o Céu”, Simon Reynolds (Conrad)
“Barulho”, André Barcinski (Pauliceia)
“Reações Psicóticas”, de Lester Bangs (Conrad)
“Bob Dylan - a Biografia”, Howard Sounes (Conrad)
“Criaturas Flamejantes”, de Nick Tosches (Conrad)
“A divina comédia dos Mutantes”, de Carlos Calado (Editora 34)
“A Última Transmissão”, Greil Marcus (Conrad)
Qual o seu top ten, caro leitor?
Setembro 15, 2010 11 Comments
Promoção: A Morte de Bunny Munro, Nick Cave

PROMO ENCERRADA
No establisment musical moderno é possível contar nos dedos das mãos os artistas acima de qualquer suspeita, gente que conseguiu com sua arte um respeito raro em um cenário depreciado pela vasta oferta de sexo e drogas. É um clube seleto de nomes dos quais podem ser citados Lou Reed, Elvis Costello, Bruce Sprinsteen, Neil Young e Nick Cave.
Nick Cave tem uma carreira extensa e brilhante ao lado das bandas The Birthday Party, The Bad Seeds e Grinderman, mas também é apaixonado por textos densos – como as canções que canta exibem bem. Vinte anos após sua estréia literária, Nick Cave retorna ao mundo da literatura com o romance “A Morte de Bunny Munro”, que acaba de ganhar tradução nacional.
O Scream & Yell, em parceria com a Editora Record, vai sortear três exemplares de “A Morte de Bunny Munro”, de Nick Cave. Para participar basta deixar um comentário abaixo (com nome completo e email correto para contato) dizendo qual a sua música preferida de Nick Cave explicando o motivo da sua escolha.
Resultado da Quina 2387 (na ordem do sorteio): 79, 25, 69, 78 e 32
79 - not
25 - JW
69 - Guilherme Robles de Andrade
78 - not
32 - Arthur Teixeira
Agosto 19, 2010 71 Comments
Glamour e Boca do Lixo

O Renan, um dos autores, já tinha me passado o livro ainda em versão piloto encomendada pro TCC do caras, e eu devorei. Quem quiser pode dar um fuçada no blog que deu origem ao projeto todo (aqui), mas o interessantíssimo “Glamour e Boca do Lixo – Histórias da Prostituição no Centro de São Paulo” acaba de ganhar edição oficial, via Editora Multifoco. O lançamento foi neste domingo, na Bienal do Livro, mas quem quiser ir atrás do livro é só falar com os caras no blog. Vale.
Agosto 15, 2010 1 Comment
Lou Reed na Flip 2010
Foto: Marcelo Costa
A organização da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que, devido à Copa do Mundo, acontecerá entre os dias 4 e 8 de agosto, confirmou a presença de Lou Reed no evento. O ex-líder do Velvet Underground baixa em Parati para falar de seu livro “Todas as letras”, que a editora Companhia das Letras lança em breve no País.
Já faz alguns anos que tento ir à Flip. Se não estou me confundindo, teve um ano que eu queria ir para ver o Paul Auster, cheguei na Fnac da Paulista para comprar o ingresso antes do local abrir, a fila era pequena, e mesmo assim quando cheguei ao guichê, todas as entradas estavam esgotadas. “O sistema da internet foi aberto antes”, tentou justificar a vendedora.
Desta vez, no entanto, vou fazer uma força extra. Lou Reed me acompanha desde sempre com suas canções. Como ele mesmo escreveu em seu diário, certa vez, “eu digo a vocês mais do que muitas pessoas sabem sobre seus amigos. Eu falo de mente a mente, coração a coração, espírito a espírito por meio da música (leia o texto na integra aqui)”.
Já vi Lou duas vezes na vida. Uma no Credicard Hall, em São Paulo, dez anos atrás. Ele vestia jaqueta de couro, tocou o mezzo álbum “Ecstasy” inteirinho e só no bis arrancou sorrisos de verdade com “Sweet Jane”, “Dirty Boulevard” e “Perfect Day” (leia aqui). Uma canção do “Ecstasy” ficou e se transformou na minha canção preferida de Lou nos últimos dez anos: “Baton Rouge” (leia e baixe ela aqui).
O segundo encontro foi em um sonho. Eu estava na primeira fila de um teatro antigo em Malága, na Espanha, terra de Pablo Ruiz Picasso. Lou vestia uma camiseta vermelha amassada, parecia vinte anos mais velho do que naquela noite de novembro de 2000, em São Paulo, e tinha uma superbanda no palco cujo intuíto era tocar o álbum “Berlin” na integra, revivendo a trágica história de Caroline e Jim (leia aqui).
Neste sonho espanhol, Lou tocou “Berlin” inteirinho, saiu do palco e parecia que não ia voltar. O público aplaudiu cinco, dez, quinze minutos sem parar, e ele voltou. Tocou ”Satellite of Love” e “Rock and Roll”, e eu sai de alma lavada pela noite quente e iluminada da Andaluzia até encontrar meu albergue… com o set list do show nas mãos.
Agora Lou Reed aporta em Parati, e eu espero que algum produtor esperto consiga marcar um show do homem por estes lados. Fico de dedos cruzados esperando que isso aconteça. Em todo o caso, uma viagem para a Parati não está descartada. Quem sabe…
Maio 11, 2010 2 Comments
O Pequeno Livro do Rock, de Hervé Bourhis
Recebi minha edição do divertidíssimo “O Pequeno Livro do Rock”, do francês Hervé Bourhis (que chega ao país em edição da Conrad. Você pode folhear dez páginas aqui). Dei uma colaboração na revisão do texto, e curti muito o livrinho. Falo mais dele durante a semana.
Abril 5, 2010 5 Comments
Manifesto de apoio a Denise Bottmann
“Prezado mac:
quatro pesos-pesados da tradução literária no Brasil - Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivone Benedetti e Ivo Barroso - numa generosa iniciativa de solidariedade juntaram esforços e redigiram um manifesto sobre o processo da landmark contra mim e o nãogostodeplágio.
encontra-se em http://apoiodenise.wordpress.com/, e os dispostos a subscrevê-lo encontram o link do abaixo-assinado no próprio apoiodenise ou diretamente em:
http://www.petitiononline.com/Bottmann/petition.html
sua adesão a esta manifestação seria de grande importância, e agradeceria muito se vc pudesse publicar o texto ou os links do manifesto e divulgar entre seus contatos.
obrigada,
denise bottmann
http://naogostodeplagio.blogspot.com“
Abaixo, reproduzo o texto e manifesto meu apóio a Denise.
“Causou comoção entre todos os profissionais ligados aos meios editoriais do País a notícia de mais um processo movido contra a tradutora Denise Bottmann, em decorrência de denúncias de plágio de tradução, por ela veiculadas em seu blogue Não Gosto de Plágio.
Diante do número de plágios desmascarados ao longo dos últimos anos por essa incansável profissional, ficou claro que a extensão de tal delito é muito maior do que qualquer um poderia imaginar quando das primeiras descobertas. Desta vez o processo é movido pela Editora Landmark, que apresentou em juízo as seguintes pretensões: vultosa indenização por pretensos danos morais e materiais; publicidade restrita (ou seja, andamento do processo sob sigilo de justiça); remoção do blogue Não Gosto de Plágio da internet, invocando o “direito de esquecimento”; antecipação dos efeitos da tutela de mérito (ou seja, determinação da remoção imediata do blog antes do exame do mérito da ação impetrada).
O fato é que, em pouco tempo, o referido blogue se tornou amplamente conhecido e converteu-se num ponto de referência certamente incômodo para os que, até seu advento, não eram molestados no tranquilo afã de copiar traduções esgotadas e lançá-las no mercado com nomes reais ou fictícios, nem de longe assemelhados aos dos verdadeiros tradutores. Assim, considerando a necessidade de que essas denúncias não só tenham prosseguimento, mas também se ampliem e aperfeiçoem, nós, abaixo assinados, nos mobilizamos a favor do desmascaramento de uma prática que:
1. fere a Lei de Direitos Autorais, que considera o tradutor como autor de obra derivada e salvaguarda seus direitos morais e patrimoniais;
2. configura concorrência desleal, pois as editoras de má-fé, não arcando com os custos dos direitos de tradução ou não pagando por uma retradução, põem em desvantagem as editoras que, pautando-se pela idoneidade, assumem tais custos;
3. atenta contra nosso patrimônio cultural, ao disseminar a cópia fraudulenta de obras muitas vezes assinadas originalmente por nomes reconhecidos e estimados de nossa literatura.
Pelos motivos acima, confiando que a justiça realmente será feita, publicamos esta manifestação de apoio aos esforços de Denise Bottmann, conclamando à adesão todas as pessoas interessadas no combate à prática delituosa do plágio e no enriquecimento das interações culturais neste país.
Heloisa Jahn
Jorio Dauster
Ivo Barroso
Ivone C Benedetti
IMPORTANTE: Se você quiser aderir a este manifesto, saiba que temos um abaixo-assinado em:
http://www.petitiononline.com/Bottmann/petition.html
Vá até lá e junte-se a nós!”
Ps. Afinal, do que Denise Bottmann está falando? Veja exemplos aqui
Fevereiro 28, 2010 No Comments
Nick Hornby, o pensador do pop

Jerônimo Teixeira entrevista Nick Hornby”
“Nick Hornby, 52 anos, é um dos principais nomes da ficção inglesa contemporânea. Com best-sellers como Alta Fidelidade e Um Grande Garoto no currículo (ambos transpostos com sucesso para o cinema), ele é às vezes descrito como alguém que se dedica a retratar um tipo muito específico: trintões e quarentões que se recusam a crescer. Seu tema, no entanto, é outro: a maneira como a cultura pop - e a música em especial - moldou a sua geração e as gerações seguintes.” Leia aqui
Fevereiro 19, 2010 4 Comments
1h20, madrugada de segunda-feira

O fim de semana rendeu. Houve de tudo um pouco. Muito sol, um pouco de chuva, caipirinha e coxinha e bife de tira do Veloso. Também teve plantão. E mesmo assim consegui escrever duas 500 Toques, um texto sobre “Avatar” (aqui) e ler o livro da Conrad inteirinho para entregar os originais de manhã (aliás, curti muito o livrinho. Assim que puder, libero mais infos). E assisti ao “Sherlock Holmes”, de Guy Ritchie (vou tentar escrever).
Andei ouvindo o novo do Vampire Weekend (eu tava achando mezzo, mas não paro de ouvir) e do Spoon (droga, não gostei tanto assim. E ouvi muito o “Rock and Roll”, do Erasmo, que tinha passado batido e fui atrás seguindo recomendação de alguns amigos de fé. Discaço! Mesmo. Ainda falo dele, mas você precisa ouvir “Olhar de Manga”, “A Guitarra é Uma Mulher” e “Encontro ás Escuras”.
Esqueci de contar: uma foto minha de Parati irá sair na próxima edição da revista da Tam. Aproveitando a empolgação comprei várias cervejas importadas - para escrever, para escrever. E falando em escrever, as novas edições da Billboard e da Rolling Stone estão nas bancas com muita coisa legal. A primeira traz resenhas minhas sobre os discos de Lady Gaga e de Lafayette e os Tremendões, mais o DVD do Killers. Na segunda digitei palavras sobre o disco ao vivo do R.E.M.
Aliás, a Rolling Stone traz nesta edição os melhores de 2009 por um seleto grupo de votantes. Abaixo, os votos que mandei para a revista:
MELHOR DISCO NACIONAL
01) “No Chão, Sem o Chão”, Romulo Fróes
02) “Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranqüilos”, Otto
03) “Uhuuuu!”, Cidadão Instigado
04) “Caligrafia!”, Ludov
05) “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”, Pullovers
06) “Sem Nostalgia”, Lucas Santtana
07) “A Vontade Superstar”, Bruno Morais
08) “Banda Gentileza”, Banda Gentileza
09) “Complete”, Móveis Coloniais de Acaju
10) “Atlântico Negro”, Wado
MELHOR DISCO INTERNACIONAL
01) “Them Crooked Vultures”, Them Crooked Vultures
02) “Tonight”, Franz Ferdinand
03) “Secret, Profane & Sugarcane”, Elvis Costello
04) “Broken”, Soulsavers
05) “Years of Refusal”, Morrissey
06) “Dark Nights of The Soul”, Sparkelehorse
07) “It’s a Blitz”, Yeah Yeah Yeahs
08) “A Woman a man Walked By”, Pj Harvey and John Parish
09) “My Old Familiar Friend”, Brendan Benson
10) “Backspacer”, Pearl Jam
MELHORES MÚSICAS NACIONAIS
01) “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”, Pullovers
02) “Balada do Paulista”, Lulina
03) “6 minutos”, Otto
04) “Pavão Macaco”, Wado
05) “Para Fazer Sucesso”, Rômulo Froes
06) “Mormaço”, Paralamas do Sucesso
07) “O Tempo”, Moveis Coloniais de Acaju
08) “Cangote”, Céu
09) “Contando Estrelas”, Cidadão Instigado
10) “1/2 Amor”, Wonkavision
MELHORES MÚSICAS INTERNACIONAIS
01) “(If You’re Wondering If I Want You To) I Want You To” - Weezer
02) “I’m Throwing My Arms Around Paris”, Morrissey
03) “Beyond Here Lies Nothin’”, Bob Dylan
04) “Ulysses” – Franz Ferdinand
05) “Zero” – Yeah Yeah Yeahs
06) “Wilco, The Song”, Wilco
07) “Working on a Dream”, Bruce Springsteen
08) “I Cut Like a Buffalo”, Dead Weather
09) “Fuck You” – Lily Allen
10) “New Fang”, Them Crooked Vultures
Dos dez discos nacionais que votei, seis entraram no Top 25 da Rolling Stone. Dos meus dez discos internacionais, cravei cinco. Das músicas nacionais também cravei seis (como os discos nacionais) e a lista gringa de músicas foi minha pior média: quatro das dez que votei entraram. O Top Ten 2009 da Rolling Stone Brasil você vê aqui.
Acho que é isso. São 1h50 da madrugada. Acordo às 7h para mais uma semana de caos. Minha gastrite permanece me acompanhando, mas só consigo pensar que preciso terminar o “Pergunte ao Pó”, do John Fante, procurar um lugar baratinho para comprar a quinta temporada de Lost (e me preparar pra sexta, que está chegando) e guardar forças para o show do Del Rey, na sexta, com vários amigos presentes. 2010 começou a toda. Ufa.

Janeiro 11, 2010 6 Comments
170 livros da Coleção Aplauso de graça na web
Lançada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo em 2004 para registrar a história do teatro, do cinema e da televisão no Brasil, com perfis, biografias, peças de teatro e roteiros de filme, a Coleção Aplauso chega à internet com mais de 170 títulos disponíveis para leitura gratuita online ou para download em pdf e txt.
No site você irá encontrar as biografias de artistas como Raul Cortez, Tônia Carrero, Mazzaropi, Carlos Reinchenbach, Fernando Meirelles, Gianfrancesco Guarnieri e muitos outros, roteiros como os de “Estômago”, “Salve Geral”, “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” e “O Bandido da Luz Vermelha” além de vários livros de dedicados a dramaturgos consagrados e a críticos de arte.
Vale destacar também volumes sobre Rogério Duprat, a TV Tupi, o Teatro Brasileiro de Comédia TBC), a Rede Manchete e a TV Excelsior. Baixe gratuitamente aqui:
Dezembro 28, 2009 1 Comment
XI Festa do Livro da USP

Passo o ano inteiro esperando por esses três dias…
Novembro 24, 2009 4 Comments
De volta ao mundo de Rob Fleming

Estou relendo “Alta Fidelidade”. Não sei a razão. Na verdade, estou relendo este Nick Hornby no mesmo momento em que me encaminho para o final do soberbo “A Love Supreme, a Criação do Álbum Clássico de John Coltrane”, de Ashley Kahn. E olha, é bem raro eu ler dois livros ao mesmo tempo. Acho que isso deve ter acontecido poucas vezes na minha existência. Geralmente pego o livro e ou vou com ele até o final sem olhar pra tras, ou abandono em alguma esquina do quartinho da bagunça.
Alguns dias atrás, não lembro o motivo, me animei e separei três livros para ler neste fim de ano: “Alta Fidelidade”, “Pergunte ao Pó” (li meu primeiro John Fante neste semestre) e “O Álbum Negro”, do Hanif Kureishi, que é um escritor que adoro. A idéia era terminar o “A Love Supreme” e embalar em um dos três, mas o “Alta Fidelidade” pulou no meu colo e quando vi já estava na página 82 evitando a lista das coisas desagradáveis (não vou cair nessa de novo, Rob) e pensando como o ser masculino é tão particular.
Talvez o livro tenha voltado devido a promoção do Submarino, que tinha colocado vários livros do Horby a R$ 10 (agora só o “Alta Fidelidade” permanece nesse preço aqui). Ou então me animei com os bons comentários que “Juliet, Naked”, novo livro do escritor, tem recebido por ai. Ou talvez, ainda, eu esteja voltando ao mundo da literatura, território em que vivi dos 9 aos 29, e que desde então só vou passar férias rápidas. Sei lá. Além dos livros citados a fila ainda tem “Ensaios de Amor” (pra reler) e “Arquitetura da Felicidade”, os dois do Alain de Botton.
Aguardo ainda ansiosamente um exemplar da coleção completa de Oscar Wilde (amo os contos “infantis” no miolo do livro), que comprei na Estante Virtual, e já decidi que meu presente de natal será a coleção completa de Shakespeare, mas não essas novas em três ou quatro volumes, e sim uma em 22 livros, igual a que me acompanhou durante toda a adolescência em Taubaté. Já até liguei na Biblioteca Municipal da cidade para pegar o ano, a edição e a editora dos volumes que li, e que só faço questão de ser a mesma pelos extensos apêndices que dão um panorama interessante da escrita de Shakespeare.
Risos. Coisa estranha. Não tem nexo nenhum esse post. A idéia inicial era falar do “Alta Fidelidade”, dizer que recebi ele de natal em 1998 - num pacotinho cheio de badulaques vindo do Rio - com a seguinte dedicatória: “Para o meu Má, que entende quais são as coisas que valem a pena”. E citar algum trecho divertido que faça quem lê este blog ter uma coceirinha de vontade de ler o livro. Mas será que tem gente que ainda não o leu? Ian McCulloch, aqui, confessou para mim que tinha ganhado o livro do irmão, que não tinha lido, mas que talvez fosse ler (”sei que fala de música e shows”, ele disse).
Sei lá. É só um post sem pé nem cabeça. Melhor parar de enrolar (agora deu vontade de ver o filme, mas quase meia-noite não rola…) e…
“Eu sou o quê? Médio. Um peso-médio. Não o cara mais esperto do mundo, mas seguramente não o mais tapado: li livros como A Insustentável Leveza do Ser e O Amor Nos Tempos de Cólera, e os compreendi, eu acho (eram sobre garotas, certo?), mas não gostei muito deles (…). Eu leio o Guardian e o Observer, assim como leio o NME e as revistas de música; não tenho nada contra ir a Camden ver filmes europeus, embora eu prefira filmes americanos.
Minha aparência é legal; na verdade, se você colocasse, digamos, Mel Gibson numa ponta do espectro de aparência e, digamos, Berky Edmonds lá da escola, cuja feiúra grotesca era lendária, na outra, então acho que eu conseguiria, por pouco, ficar no lado de Mel. Uma namorada uma vez me disse que eu parecia um pouco com Peter Gabriel, e ele não é de todo mau, é? Sou de altura média, nem magro, nem gordo, sem pêlos faciais repugnantes, mantenho-me limpo, uso jeans e camiseta e uma jaqueta de couro mais ou menos o tempo todo a não ser no verão, quando deixo a jaqueta em casa. Voto no Trabalhismo. Tenho uma pilha de vídeos de comédia clássicos. Consigo entender aonde as feministas querem chegar, na maior parte do tempo, mas não as radicais.
Minha genialidade, se puder chamá-la assim, é combinar toda essa carga de medianidade numa estrutura compacta única. Eu diria que há milhões como eu, mas não há, na realidade: muitos caras têm gosto musical impecável mas não lêem, muitos caras lêem mas são gordos demais, muitos caras são simpáticos ao feminismo mas têm barbas idiotas, muitos caras têm um senso de humor como o Woody Allen mas se parecem com Woody Allen. Muitos caras bebem demais, muitos caras se comportam de modo idiota ao dirigirem um carro, muitos caras se metem em brigas, ou ostentam seu dinheiro, ou tomam drogas. Eu não faço nenhuma destas coisas, sério; se me dou bem com as mulheres não é por causa das virtudes que tenho, mas por causa das sombras que não tenho.”
“Alta Fidelidade”, de Nick Hornby (páginas 30 e 31).
Leia também:
- Cinco razões para uma mulher ler este livro, por Marta Orsini (aqui)
Novembro 23, 2009 21 Comments
Entrevistando Fernanda Young

Não lembro ao certo que mês de 2001 foi, mas acho que era novembro ou dezembro. Desci a rua Albuquerque Lins, no bairro de Higienópolis com meu gravador e duas fitas cassete de 60 minutos para entrevistar Fernanda Young em seu apartamento. Ela estava lançando um livro (mediano), “Efeito Urano”, até hoje o único que li dela (por causa da entrevista), e me aguardava com os dois pés atrás.
Assim que entrei em seu apartamento, notei uma certa insegurança por parte dela, que gesticulava muito tentando soar à vontade. “Você é o repórter da Reuters, certo. O Alexandre (Carvalho, marido) me disse que a Reuters é muito importante. E eu ficava falando pra mim mesma. ‘Reuters, Reuters, Reuters, está tudo bem”. Ela chamou a empregada, me ofereceu algo para beber e ficou feliz de eu ter escolhido coca-cola ao invés de água. Sinais, sabe.
Cerca de quarenta minutos depois, no meio de uma resposta, ela solta: “Puxa, eu nunca falei tanto como eu estou falando agora (risos) e eu nem queria dar entrevista, né”. A tarde passou voando e quando vimos, as duas fitas cassete de 60 minutos estavam abarrotadas de conversa. Então surgiram Estela May e Cecília Madonna, suas duas filhas, e aproveitei o momento família para me despedir e subir a Albuquerque Lins em direção a Teodoro Sampaio, local em que eu morava na época.
Fernanda Young foi bem interessante nas duas horas que conversamos. Me pareceu se desarmar da persona que criou para provocar o mundo e a conversa rendeu uma longa entrevista de 14 páginas que ficou reduzida a 3 mil toques para a Reuters. Isso era 2001 e cortamos para 2009. Ela é capa da edição de novembro da revista masculina mais famosa do país, e parece ter incomodado muito gente com isso. Mais: homens agem como se fosse proíbido ela ter feito o ensaio. Bobagem.
Alguns dizem que ela é feia, no que discordo, embora também não a ache um exemplo de beleza. Na verdade, beleza não tem a ver com ela. Fernanda Young é falastrona, provocadora e irritante. E isso a sociedade (principalmente a ala masculina) não suporta. É o inverso da sensação de paixão que faz com que homens enxerguem suas mulheres como a mais bela do mundo. Pouca gente parece amar Fernanda Young, e isso a torna feia, burra e chata. Copo meio vazio, eu sei, mas é assim.
Particularmente, gostei de algumas fotos prévias do ensaio. Essa edição vai ser (fácil) mais interessante do que qualquer uma das tão “amadas” Mulheres Frutas. No entanto, fotos de nudez a parte, acho que essa entrevista que fiz com Fernanda Young em 2001 é uma das minhas prediletas junto com o bate papo com Ian McCulloch e também uma longa troca de e-mails com o amigo André Takeda. Recentemente, fiquei feliz com o resultado da conversa com Wado aqui em casa.
Destas quatro citadas (linkadas abaixo) e entre todas as outras que fiz, a minha preferida é a da Fernanda Young. Acho que o politicamente incorreto é extremamente necessário (nunca sonhei em viver no paraiso do bom mocismo), e a liberdade de expressão é um bem valioso demais para todos, mas fica feio quando descamba para a hipocrisia. São gestos não pensados e idiotas de machos que pensam apenas com a cabeça debaixo que acabam desancadeando fatos como o da moça da Uniban.
Fernanda Young muitas vezes me irrita, mas se ela quer ficar pelada, eu não vou reclamar. Pelo contrário. Como diria o sábio Roger Rocha Moreira no hino “Eu Gosto de Mulher”: “mulher faz bem pra vista”. Sua nudez é benvinda e não deveria ser castigada. Em um mundo em que Gilberto Kassab é um péssimo prefeito, José Serra candidato forte à presidência e Caetano Veloso é consultado (e levado à sério) sobre tudo que acontece, Fernanda Young é dos males (se for), o menor. E não quero nem imaginar Kassab, Serra e Caê nus. Prefiro a Fernanda Young.
Leia mais:
- Marcelo Costa entrevista Fernanda Young (aqui)
- Marcelo Costa entrevista Ian McCulloch (aqui)
- Marcelo Costa entrevista André Takeda (aqui)
- Marcelo Costa entrevista Wado (aqui)
Novembro 7, 2009 14 Comments



























