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Category — Cinema

Três Filmes: Scherfig, Van Sant, Almódovar

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“Um Dia” (“One Day”, 2011)
Madrugada de 15 de julho de 1989: Emma (Anne Hathaway), uma nerd com tendência a poetisa, óculos fundo de garrafa e insegurança, leva pra casa um “amigo” de faculdade, Dexter (Jim Sturgess), o pegador da turma, misto de playboy e babaca, que dormiu com quase todas as garotas da sala, e nunca prestou atenção nela, mas nada como o alcoolismo às 5 horas da manhã. Corte: 15 de julho de 1990, 1991, 1992, 1993 (…), 2000: com o passar da data (o filme – e o livro homônimo no qual foi inspirado – se passa nesse dia de todos os anos), os personagens invertem os papeis: Emma constrói uma carreira segura enquanto Dexter, que continua babaca e perdido, entra numa espiral de decadência e decepções que confere um pouco de sentimento prum personagem carente de personalidade. Copia descarada de “Harry e Sally” (1989) e “Cidade dos Anjos” (1998), e outros menores, “Um Dia” é previsível, sem alma, melodramático e raso, e defende com soberba que todo mundo merece o amor (mesmo os tolos e babacas). Lone Scherfig, que havia estreado bem com “Italiano para Principiantes” (2000), mas ganhou fama com o moralista “Educação” (2009), fez um filme asséptico, que mais parece a adaptação de um romance da série Julia. Decepção.

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“Inquietos” (“Restless”, 2011)
Garoto que perdeu os pais em um acidente de carro se apaixona por uma paciente terminal de câncer. O resumo em uma linha de “Inquietos” pode afastar alguns possíveis espectadores, mas Gus Van Sant cria uma atmosfera tão delicada em torno de seus dois personagens que as tragédias que os perseguem não conseguem transformar “Inquietos” em um dramalhão choroso. Annabel Cotton (Mia Wasikowska, de “Alice no País das Maravilhas”, 2010) tem apenas três meses de vida, e não pretende passar estes 90 dias desperdiçando momentos. Enoch Brae (Henry Hopper, filho da lenda), que após a morte dos pais e um pequeno período de coma, passou a receber visitas regulares de um fantasma de um soldado kamikase japonês e começou a visitar velórios como se estivesse indo a padaria, primeiramente se assusta com a disposição de Annabel, mas depois se entrega a esta relação improvável. O cineasta Gus Van Sant conduz as cenas de forma lenta sem tornar a história enfadonha, e extrai poesia do relacionamento improvável pintando um quadro delicado, de extrema beleza e sensibilidade, que ao contrário de vilanizar o destino inevitável, opta por valorizar o que existe, mesmo que de forma limitada: a vida.

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“A Pele Que Habito” (“La Piel que Habito”, 2011)
O doutor Robert Ledgard (Antonio Bandeiras) é um notável cirurgião plástico que tem a obsessão de recriar a pele humana em experimentos não aprovados pela comunidade cientifica, desde que sua esposa sofrera graves queimaduras após um acidente de carro. Operando em sua própria casa, e assombrado pelos fantasmas da esposa e da filha, enferma mental que se suicidou, Robert Ledgard inicia um processo absurdo e surreal que consiste em transformar um homem em mulher, primeiro através de uma operação de vaginoplastia e, posteriormente, no experimento de uma nova pele. O argumento surreal de “A Pele Que Habito” saiu do livro “Mygale”, de 1995 (publicado depois sob o título “Tarântula”), do escritor francês Thierry Jonquet, mas poderia facilmente ter saído da mente maluca do diretor, que transforma o livro em um excelente filme de suspense tão repleto de camadas que merece ser visto três, quatro, cinco vezes, se possível. Canastrão como sempre, nem Banderas consegue estragar o ritmo do filme, que ganha em cores fortes enquanto discute estupro, vingança, sexo e personalidade de forma esplendida – alternando doses de tensão com boas passagens de ironia (como a brilhante cena final, tão absurda quanto genial, um momento raro de beleza do cinema atual).

Leia também:
- “Educação”: cheio de lições de moral para a vida (aqui)
- “Italiano para Principiantes”: intimismo e simplicidade de (aqui)

Janeiro 30, 2012   4 Comments

Três Filmes: Darin, Damon e Clooney

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“Um Conto Chines” (“Un Cuento Chino”, 2011)
A comédia de costume é um gênero que nunca sai de moda. Talvez por lidar com pessoas comuns que, colocadas em um ambiente diferente, causam uma série de desencontros hilários. Desta forma, “Um Conto Chines” não traz nenhuma novidade. Assim que o espectador senta na cadeira no cinema, já sabe tudo que irá acontecer: Roberto (Ricardo Darín novamente excelente) é um cara de meia idade que toca a loja de ferragens do falecido pai (a mãe morreu no parto). Ele é o mal-humorado típico, sem paciência para pessoas em geral (e babacas em particular), fechado no mundinho metódico que criou para si mesmo. Surge em cena Jun (Ignacio Huang), um chinês que tomou um cano de um taxista argentino e está perdido em Buenos Aires sem falar uma palavra em espanhol. Ele tem no braço o endereço de um tio, e só. O encontro destes dois personagens tão reais quanto particulares permite ao diretor e roteirista Sebastián Borensztein olhar com delicadeza a relação humana, e se segue a risca o manual do estilo (Roberto irá amolecer durante a trama como margarina no sol) incomodando em certas passagens por soar extremamente óbvio, tem a seu favor o esperto manuseio da narrativa: não há legendas para os trechos falados em chinês, o que faz de boa parte público cúmplice de Roberto. Nada de novo, mas ainda assim interessante.

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“Compramos um Zoológico” (“We Bought a Zoo”, 2011)
Seis anos atrás, “Tudo Acontece em Elizabetown” parecia enterrar a carreira cinematográfica de Cameron Crowe. Não que o filme fosse ruim (pelo contrário, há várias belas passagens), mas peca por ser exagerado, como se o diretor quisesse expurgar vários demônios pessoais em um único filme. “Pearl Jam – Twenty”, seu retorno, serviu para mostrar que documentário não é sua praia, mas eis que “Compramos um Zoológico”, baseado em uma história real, recoloca a carreira do diretor nos eixos. Não bate “Jerry Maguire” nem “Quase Famosos”, mas mostra que Crowe não perdeu seus tiques sonhadores, e consegue fazer bom cinema partindo do foco dos derrotados. Em “Compramos um Zoológico”, o derrotado nem é tão derrotado assim: Benjamin Mee (Matt Damon, apenas correto) é um repórter de aventuras que coleciona grandes reportagens, mas está no limbo após a morte da mulher, tendo que dar conta dos dois filhos, a fofíssima Rosie (Maggie Elizabeth Jones) e o desajustado Dylan (Colin Ford). Para afastar as lembranças da esposa (e mãe), a família decide se mudar e acaba comprando um… zoológico. Meio irreal, mas aconteceu (embora seja impossível que a tratadora de animais fosse alguém como Scarlett Johansson) e gerou uma bonita história de redenção, típica de Cameron Crowe. Para ir ao cinema, sonhar, e, depois, visitar o zoológico.

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“Tudo Pelo Poder” (“The Ides of March”, 2011)
Mais alguns anos e George Clooney irá mandar em Hollywood. Grande ator, boa praça e diretor eficiente, Clooney conquista cada vez mais espaço na indústria, seja atuando (como em “Os Descendentes”, que lhe rendeu o Globo de Ouro e pode cavar uma indicação ao Oscar – o qual ele venceu com o ótimo “Syriana”, em 2006) ou dirigindo. Poucos diretores podem se orgulhar de ter no currículo três grandes filmes como Clooney: “Confissões de Uma Mente Perigosa” (2002), “Boa Noite, Boa Sorte” (2005) e, agora, “Tudo Pelo Poder” (há ainda “Jogo Sujo”, de 2008, que saiu direto em DVD no Brasil), filme que investiga os bastidores de uma eleição norte-americana com tanta destreza que é impossível não deixar a sala de cinema revoltado. Os closes em excesso (que chegam a incomodar em alguns momentos) não conseguem atrapalhar um roteiro eficaz que consegue distrair o espectador diante das reviravoltas da trama, e muito menos a boa atuação de um elenco estelar: Ryan Gosling, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood e Marisa Tomei brilham, cada um a seu modo, em um filme que parece validar aquela velha máxima de que todo mundo é corruptível: se não por dinheiro, então por poder (e até por utopia). Os fins justificam os meios? Ás vezes sim, como mostra Clooney neste filmaço.

Leia também:
- “O Segredo dos Seus Olhos” dirá muito sobre você, por Mac (aqui)
- “Elizabethtown”, um recorte de várias idéias, por Mac (aqui)
- “Boa Noite & Boa Sorte” merece ser visto com atenção (aqui)

Janeiro 20, 2012   2 Comments

Três Filmes: um pastelão, um garoto e uma ema

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“Faça-me Feliz” (”Fais-moi Plaisir”, 2009)
Jean-Jacques (Emmanuel Mouret) quer passar um sábado romântico com a namorada Ariane (Frédérique Bel), e precisa enfrentar uma série de contratempos até conseguir colocá-la na cama para consumar o ato. Quando consegue, o telefone toca. É a… outra. Ou quase isso. Jean-Jacques decide contar a história para Ariane: um amigo descobriu uma maneira de conquistar as mulheres com um bilhete infalível, que Jean-Jacques acaba usando (“de modo cientifico”), e o resultado se mostra eficiente. Ariane, após muita discussão (é um filme francês), opta pela saída inesperada: “Você precisa dormir com ela para que possamos seguir a vida e você não fique fantasiando o resto da vida”. Ela, no entanto, é a filha do presidente da França. Segue-se uma trama rocambolesca que em muitas passagens lembra o pastelão “Quem Vai Ficar Com Mary?”, mas não desista do ator/diretor Emmanuel Mouret: “Faça-me Feliz” é uma deliciosamente tola comédia de erros com momentos dispensáveis, mas um charme francês, uma leveza e um clone adolescente de Carla Bruni (a atriz belga Déborah François, no filme com outras cinco irmãs de suspirar) que fazem valer a sessão.

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“O Garoto da Bicicleta” (“Le Gamin au velo”, 2011)
A história é simples: o garoto Cyril (“Thomas Doret”) vive em um orfanato, e passa boa parte da primeira metade da trama tentando encontrar o pai, que ele não acredita que o abandonou. Em uma das fugas, Cyril volta ao apartamento em que morava, agora vazio, e para não ser levado de volta ao orfanato agarra-se às pernas de uma mulher, a cabeleireira Samantha (de “Além da Vida”, de Clint Eastwood), dando início a um laço de amizade que começa de forma caótica, mas vai se ajeitando na vida dos dois personagens de forma natural. Os irmãos diretores (roteiristas e produtores) Jean-Pierre e Luc Dardenne conseguiram o Grand Prinx em Cannes com “O Garoto da Bicicleta” (e duas Palmas de Ouro, uma para “Rosetta”, de 1999, e outra para “A Criança”, de 2005, que também conta com a belga Déborah François, de “Faça-me Feliz”). O roteiro é depurado até o limite deixando para o espectador apenas o essencial. O foco econômico permite aos irmãos desenharem um painel comovente, que apenas narra a história sem julgar e/ou condenar os personagens, sufocando o espectador até seu desfecho (aparentemente) simplista… e lírico.

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“Adeus, Primeiro Amor” (“Un Amour de Jeunesse”, 2011)
A francesa Camile (Lola Créton) tem 15 anos e namora Sullivan (Sebastian Urzendowsky), de 19. As cartas do jogo romântico são arremessadas na mesa logo no início da trama: Camile é apaixonada e dependente de Sullivan enquanto o garoto faz pouco caso da garota, aparece quando lhe convém e está prestes a fazer uma viagem que irá separar o casal por 10 meses. Ele insiste para que ela tenha experiências, descubra a vida, e para que eles se reencontrem após o período de afastamento, mas Camile transforma os últimos encontros do casal em um drama romântico de garotas de 15 anos, repleto de choros, caras emburradas e fatalismo. A diretora francesa Mia Hansen-Love não desperdiça os clichês (de tentativa de suicídio a cortes de cabelo), e desenha um retrato coeso da geração emo, uma geração focada demais no (que eles acham ser) romance, sem profundidade e amor próprio. É um retrato coeso, mas absurdamente chato, de roteiro óbvio e arrastado e péssima caracterização de personagens (Camile e Sullivan não mudam nada fisicamente em sete anos). Ainda com todos esses defeitos, ganhou o prêmio do júri do Festival de Locarno. É o emo invadindo o cinema independente. Já fomos melhores.

Janeiro 13, 2012   2 Comments

Três Filmes: Malle, Godard e Rohmer

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“Ascensor para o Cadafalso” (“Ascenseur Pour L’Echafaud”, 1957)
Em seu filme de estreia, o diretor francês Louis Malle ousa criar uma ponte histórica entre o fim do cinema noir e o começo do que viria a ser chamado de nouvelle vague. A estética ainda é comportada, mas a trama envolve o espectador invertendo a posição das histórias: o que é principal vira secundário, o que é secundário vira principal. No caso, uma esposa (Jeanne Moreau) planeja com o amante (Maurice Ronet) o assassinato do marido. O plano parece ter sido executado com perfeição, até que o rapaz percebe que cometeu um erro grave: esqueceu uma corda que poderá levantar suspeitas de homicídio ao contrário do encenado suicídio. Ele volta para tentar resgatar a corda e fica preso no elevador. Começa então um segundo filme, muito mais interessante e menos óbvio que o primeiro (os dois notadamente influenciados por Hitchcock): ao voltar para pegar a corda, o amante deixa a chave de seu carro na ignição, e um rapaz pega o carro e sai para passear com a namorada. É apenas o primeiro ato inconseqüente do jovem casal, que passa a ser protagonista do filme, levando a história para um extremo espetacular e um desfecho sagaz. Pontuando várias cenas, o trompete melancólico de Miles Davis cria o clima perfeito para um belíssimo filme (divisor de épocas).

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“Acossado” (“À Bout de Souffle”, 1960)
Poucos filmes na história do cinema são tão urgentes, revolucionários e, ao mesmo tempo, retratos de época e atuais quanto a estreia de Godard. “Acossado” é daqueles filmes em que a forma, provocativa e instigante, parece sobrepor-se ao conteúdo, mas Godard, aparentemente nonsense, deixa frases soltas que ficam ressoando por dias. A partir de um argumento de Truffaut, Godard homenageia o cinema b norte-americano (Truffaut havia feito o mesmo com “Atirem no Pianista” também em 1960) contando a história nobre e trágica de Michel (o feio bonito Jean-Paul Belmondo), um malandro que passa o dia aplicando golpes sujos (Marcos, personagem de Ricardo Darin em “Nove Rainhas”, é irmão de alma de Michel), e em um deles acaba assassinando um policial. O cerco se fecha e, paralelamente, há o romance de Michel com a norte-americana Patricia (quantos meninas cortaram o cabelo curto para imitar Jean Seberg na época? Em qualquer sexta no Globo Repórter): ela tem dúvidas se o ama, e ele, apaixonado, está cansado de fugir. A lógica de Godard é simples: “Dedos duro deduram; assaltantes assaltam, assassinos assassinam, amantes amam: é normal”, diz Michel em certo momento. Uma obra prima obrigatória para ser ver, no mínimo, uma vez por ano.

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“O Joelho de Claire” (“Le Genou de Claire”, 1970)
Entre 1963 e 1972, o cineasta francês Eric Rohmer dedicou-se aos Seis Contos Morais, pequena série cinematográfica que começou com dois curtas não exibidos em cinema na época (“A Carreira de Suzanne” / “A Padeira do Bairro”, ambos lançados em DVD no Brasil), e seguidos por “A colecionadora” (1967), “Minha Noite com Ela” (1969), “O Joelho de Claire” (1970) e “Amor à Tarde” (1972). Quinto filme da série, “O Joelho de Claire” explora com fina destreza os percalços de um romance (o do que poderia ser um romance, ou o que os personagens e o próprio espectador entendem como romance): Jerome está prestes a se casar, mas é instigado por uma amiga escritora a viver um romance com uma jovem, Laura (ah, os franceses). Ele nega a possibilidade se dizendo completo por sua futura esposa, mas se entrega aos caprichos da amiga e, por conseguinte, da garota. Rohmer constrói a narrativa com extrema sensibilidade. A Claire do título é meia-irmã de Laura, e só aparece na segunda metade do filme, quando Jerome (sentimentalmente fragilizado pela primeira história) se vê apaixonado por seus delicados joelhos. Há um delicioso descompasso entre o que os personagens dizem sentir e o que se vê na tela formando um painel interessante e vasto sobre o amor (ou aquilo que imaginamos ser o amor) e, claro, sobre o próprio homem.

Leia também:
- Três filmes: Anna Karina e Jean Luc Godard (aqui)
- Três filmes: François Truffaut 1960, 1964 e 1976 (aqui)

Janeiro 2, 2012   6 Comments

Três filmes: Wilco, Pearl Jam, Foo Fighters

“I am Trying To Break Your Heart, Wilco”, Sam Jones, 2003
Junte os cacos: Jeff Tweedy havia montado com Jim O’Rourke o Loose Fur em maio de 2000 ao mesmo tempo em que abria a guarda para que Jay Bennet se tornasse um colaborador mais presente no Wilco. O momento que Sam Jones liga a câmera (janeiro de 2001) flagra o trecho final das sessões para gravar “Yankee Hotel Foxtrot”. O empresário Tony Margherita está animado e Jay Bennet feliz, mas as coisas desandam na mixagem, Jim O’Rourke é chamado, Jay Bennet demitido e o álbum desagrada totalmente a cúpula da gravadora Reprise Records, que demite a banda, mas permite que o grupo fique com o disco (pelo qual a gravadora pagou 200 mil dólares). A história segue (relembre aqui), e “I am Trying To Break Your Heart” é exemplar por retratar um dos momentos mais importantes da música nos últimos anos. “Yankee Hotel Foxtrot” demorou quase um ano para sair (entregue em junho, vazou em setembro de 2001, mas só chegou às lojas em março de 2002) e alcançou a marca de 600 mil cópias vendidas, mas esqueça os números e concentre-se na história de uma banda que não arredou um milímetro no desejo de manter sua arte intacta, e que no final foi premiada por isso. Não acontece sempre, mas eis uma bela inspiração (para a vida). E um ótimo documentário.

“Pearl Jam Twenty”, Cameron Crowe, 2011
Logo nos primeiros minutos do filme, o jornalista Cameron Crowe está filmando Jeff Ament e Stone Gossard. A cena se passa no final dos anos 80, são os primórdios da cena grunge, e o Mother Love Bone (que tem em sua formação Jeff e Stone) pode estourar a qualquer momento. Corta lá para o meio da fita, quando Kurt Cobain acusa os músicos do Pearl Jam de serem funcionários do rock, wannabes, aproveitadores. Difícil discordar de Kurt, mas isso não tira o brilho da bela carreira que o Pearl Jam construiu ao longo dos anos (e de álbuns emblemáticos como “Vs”, “Vitalogy” e “No Code” – zuzu bem, “Ten”). Boa parte do respeito que o grupo conseguiu através dos anos foi conquistada pelo carisma de Eddie Vedder, que posteriormente assumiu a posição de líder do grupo, transpirando sinceridade rock and roll. “Pearl Jam Twenty” funciona com um retrato interessante da banda, mas poderia ser muito melhor. Cameron Crowe alega ter selecionado o material de 1200 horas de arquivos, mas usou o mesmo cenário de um show na Itália (que já havia rendido um DVD) em cinco ou seis passagens além de repetir dezenas de fotogramas. Há histórias ótimas de uma grande banda no filme, o que vale conferir, mas, como documentarista, Cameron Crowe pode se aposentar. Já a banda tem muita lenha pra queimar (leia aqui).

“Foo Fighters: Back and Forth”, James Moll, 2011
James Moll segue a risca a cartilha do documentarista feliz: coloca os personagens em primeiro plano, ouve suas histórias e depois recorta momentos de época para ilustrar as falas. O filme começa onde realmente deveria começar: no Nirvana. Dave (e Pat Smear, que acompanhou o grupo na turnê “In Utero”) abre o coração ao falar de Kurt, e conta como decidiu se isolar após o suicídio do companheiro. “Nove meses depois decidi gravar algumas coisas que tinha guardado”, relembra o ex-baterista, agora frontman. Seguem-se uma sucessão de histórias interessantes sobre saídas (uma delas, a do primeiro baterista, motivada pelo fato de Dave refazer toda a bateria do segundo disco) e contratação de novos integrantes (acompanhando a discografia da banda) que mostram uma faceta de chefão de Dave pouco conhecida fora da banda. E ele termina o filme dizendo que o Foo Fighters é a junção dele com Nate Mendel (baixista), Taylor Hawkins (bateria), Chris Shiflett (guitarra) e Pat Smear (guitarra), mas ninguém ficará surpreso se um dos quatro deixar a banda nas próximas semanas. Em Wembley, tocando para 85 mil pessoas, o vocalista pergunta para o público: “Como essa banda cresceu tanto?” Nós também não sabemos (leia aqui), mas “Back and Forth” deixa a impressão de que ele(s) merece(m). Será?

Dezembro 11, 2011   No Comments

Pulp Fiction em ordem cronológica

Dezembro 10, 2011   No Comments

Três filmes: Anna Karina e Godard

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“Uma Mulher é Uma Mulher” (“Une Femme est Une Femme”, 1961)
Hanna Karin Blarke Bayer chegou em Paris aos 17 anos (1957) e logo o diretor Jean-Luc Godard se viu apaixonado por ela. Ele a queria para “Acossado”, mas a jovem dinamarquesa não aceitou o papel devido a um nu exigido pelo roteiro (que ficou de fora da versão final do filme). Ele não desistiu: casou-se com ela, que passou a ser o principal rosto da Nouvelle Vague. Sua estreia sob as lentes de Godard foi em “Um Pequeno Soldado” (1960), mas é com “Uma Mulher é Uma Mulher” que Anna Karina desponta para o mundo ganhando o Urso de Prata de Melhor Atriz em Berlim. Homenagem singela aos musicais norte-americanos, “Uma Mulher é Uma Mulher” é comédia leve e descompromissada que conta a história da stripper Angela. Ela vive um relacionamento conturbado e apaixonado com Émile (Jean-Claude Brialy) enquanto é cortejada pelo melhor amigo do marido, Alfred (Jean-Paul Belmondo). Angela quer ter filhos, Émile não, e isso é pretexto para algumas situações cômicas do roteiro, como o marido oferecê-la para passantes na rua (“Por favor, você poderia engravidar a minha mulher?”). Destaque para a trilha invasiva de Michel Legrand e para Jeanne Moreau, que faz uma ponta, num bar, contando que está filmando… “Jules et Jim”. Filme simples e eficiente… pra época (que mantém certo charme).

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“Viver a Vida” (“Vivre Sa Vie”, 1962)
Em seu quarto filme com Godard (ainda em 1961 eles filmaram “Esta noite ou Nunca” e em 1962 “Sol em Seus Olhos”), Anna Karina vive o papel de Nana, uma garota sonhadora de 20 anos, que deixa marido e filho para tentar ser atriz, mas que acaba precisando se prostituir para sobreviver. Prêmio do juri em Veneza, “Viver a Vida” é dividido em 12 pequenos atos que permitem a Godard fragmentar a história e divertir-se em cenas que trazem seus personagens de costas para a câmera, como a genial abertura, uma longa conversa no balcão de um bar em que Nana termina com o marido. Nana flutua entre o ingênuo sonhador e silêncio contemplativo enquanto Godard explica em detalhes a profissão de prostituta na França (leis, polícia, quanto ganha, quem atender, onde circular, como usar o quarto, etc…) e questiona a importância da verbalização: “Quanto mais falamos, menos as palavras significam”, ela diz. Depois pergunta a um filósofo: “As palavras nos traem?” e ganha como resposta: “Nós nos traímos”. Ela questiona o amor, e o filósofo diz que ninguém com 20 anos pode entendê-lo. O olhar de Nana atravessa a câmera (como se questionando o cineasta). Ela encontrou o amor (Godard também), mas o destino será cruel… no cinema. Um dos melhores Godard da primeira fase (fresco e atual mesmo hoje).

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“Bande à Part” (“Bande à Part”, 1964)
Dois outsiders conhecem uma garota (Anna Karina, aqui de cabelos compridos e postura adolescente não exalando a sensualidade a flor da pele de “Viver a Vida” e “Uma Mulher é Uma Mulher”), que conta a um deles que seu tio tem um fortuna guardada dentro do guarda-roupa (sem tranca, chave, cadeado, nada). Já imaginou o filme inteiro, certo? A forma sobrepõe o conteúdo em “Bande à Part”. Godard usa e abusa do estilismo em várias passagens que ainda soam geniais mesmo sem o contexto de época (repetições de fala, câmera tremida, improvisações e a brilhante cena do literal “um minuto de silêncio” além da dança, que Godard já havia explorado delicadamente em “Viver a Vida”, mas que soa melhor resolvida aqui), mas que se perdem em uma história (quase) previsível: a radicalização/desconstrução visual não tem um complemento textual a altura. Ainda assim, o triangulo amoroso cativa o espectador que fica aguardando o desenlace fatídico. O quase entre parênteses tem seu motivo: por mais previsível que o roteiro (de centenas de filmes francesces) seja(m), Godard consegue fugir do esteriótipo no desencadear da trama deixando para o espectador um final levemente surpreendente.

Leia também:
- The 20 Best Date Movies: “Acossado” (aqui)
- Sobre “Sympathy for the Devil” e “One + One” (aqui)

Dezembro 5, 2011   2 Comments

Doze perguntas para Woody Allen

Leia também:
- “Meia-Noite em Paris”, o veneno como antídoto, por Mac (aqui)
- “Whatever Works”: Allen faz pensar mesmo quando conta piada (aqui)
- “Vicky Cristina Barcelona”: o invisível é o que interessa ver (aqui)
- Os filmes prediletos de Woody Allen: 15 americanos, 12 europeus (aqui)
- Woody Allen de 0 a 10, por Marcelo Costa (aqui)
- “Quem precisa pensar sobre tamanhas bobagens”, Woody Allen (aqui)

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“Woody Allen, A Documentary”, de Robert B. Weide, saiba mais aqui

Novembro 27, 2011   2 Comments

Três comédias abaixo da média

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 “Quero Matar Meu Chefe” (Horrible Bosses, 2011)
Nove entre cada dez funcionários sonham em estrangular seu chefe (é só escolher uma universidade norte-americana qualquer que ela referenda fácil essa pesquisa). Com esse mote, que nem é novidade no cinema, o diretor Seth Gordon conseguiu (em seu segundo filme – o primeiro foi o esquecível “Surpresas do Amor”, de 2008, com Reese Witherspoon e Vince Vaughn) um elenco badalado – Jennifer Aniston, Colin Farrell, Jamie Foxx, Donald Sutherland, Kevin Spacey e Jason Sudeikis – para estrelar uma comédia que parece a todo o momento que vai engatar, mas fica no quase. O núcleo narrativo é formado a partir da junção de três histórias de mesmo teor emocional: três amigos são infernizados por seus chefes (uma ninfomaníaca, um drogado e um psicopata), e chegam à conclusão que a única solução possível seria eliminá-los. O roteiro desperdiça alguns clichês em cena, mas só a história de Jennifer Aniston (uma dentista ninfomaníaca tarada por seu auxiliar – que é apaixonado e fiel à namorada) e a excelente ponta de Jamie Foxx demonstram vitalidade na tela. Vale como passatempo.

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“Amor a Toda Prova” (Crazy, Stupid, Love, 2011)
Assim como Seth Gordon (de “Quero Matar Meu Chefe”), a dupla Glen Ficarra e John Requa também é novata na função de direção tendo apenas “O Golpista do Ano” (de 2008 com Jim Carrey, Ewan McGregor e Rodrigo Santoro) precedendo este “Amor a Toda Prova”. Porém, o resultado final, se não é um grande acerto, ao menos aponta algumas qualidades. O foco do roteiro de Dan Fogelman (dos dois “Carros”, da Pixar Disney) é Cal Weaver (Steve Carell), um quarentão que leva um pé na bunda da esposa, que o traiu com um almofadinha da empresa em que ela trabalha. Ele deixa a casa e cai na noite escudado pelo galã Jacob Palmer (Ryan Gosling), que o ensina passo-a-passo como levar uma mulher pra cama. O ex-virgem de 40 anos se dá bem com a mulherada, mas não consegue esquecer a mulher. De mensagem tradicionalista, “Amor a Toda Prova” não acredita no seguir em frente, e decepciona. No entanto, a história paralela (de Emma Stone) garante boas surpresas e revela (não intencionalmente) o moralismo do personagem principal. No final, o saldo é ok, mas poderia ser bem melhor.

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“Missão Madrinha de Casamento” (Bridesmaid, 2011)
O sucesso de “Hangover” (2009) não só rendeu uma continuação caricata (mas ainda assim engraçada) como também esta versão feminina, que fez um barulho enorme nos Estados Unidos tornando-se a sétima comédia romântica mais lucrativa de todos os tempos. No entanto, não espere facilidades nem grandes risadas (ao menos na primeira meia hora). As roteiristas Kristen Wiig e Annie Mumolo preferiram focar a história na vidinha de merda de Annie (Kristen Wiig), que viu seu futuro ir pro buraco após a falência de sua loja de bolos e o conseqüente pé na bunda do namorado. Os clichês superlotam a trama, e a dupla de roteiristas mostra que a mulherada também é capaz de “apreciar” o mau-gosto (após almoçar em um restaurante brasileiro baratinho em Chicago, as madrinhas de casamento tem uma dor de barriga que culmina na noiva… ok, veja no cinema), e ainda assim ter bom coração. Só incomoda (um pouco) a semelhança excessiva de alguns personagens com os de “Hangover” (tirando as citações explicitas). Mas se for para rir e esquecer, até que vale perder 2 horas.

Outubro 2, 2011   No Comments

Três filmes que não pretendo ver de novo

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“A Árvore da Vida” (“The Tree of Life”, 2011)
Avaliação dos críticos do Guia da Folha: Amir Labaki deu 1 estrela e atacou: “Majestosa presepada”. Pedro Butcher deu 3 estrelas e cravou: “Belo e ambicioso”. As opiniões de Suzana Amaral e Marina Person também são totalmente contrárias e a única certeza que fica é: preciso ver para ter a minha própria opinião. Eu vi e… odiei. Amigos elogiam a beleza do filme, algo que não me comoveu – e olha que sou assíduo espectador da National Geografic (sério, me desculpe, mas “Soy Cuba” é muito mais bonito, e mais cinema, com menos recursos – 47 anos antes). Outros falam em religiosidade (e ando, cada vez mais, caminhando para o ateísmo, graças a Deus). Fazia tempo que eu não via um filme tão chato. Porém, entendo o Festival de Cannes. A Palma de Ouro é uma carta de intenções e o prêmio precisa representar algo. Desta forma, a vitória de “A Àrvore da Vida” ampara jovens cineastas mostrando-lhes que é possível fazer cinema sem se vender para Hollywood – e ainda assim ter sucesso e respeito. Se tivesse no júri, eu também teria votado em Terrence Mallick (a concorrência não ajudava – que fase, amigo). Mas continuaria achando o filme um grande embuste. Eternamente.

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“Planeta dos Macacos: A Origem” (“Rise of the Planet of the Apes”)
Christopher Nolan é o culpado por toda essa onda de refilmagens que tomou Hollywood nos últimos anos. Após o brilhante “Batman Begins” (2005), uma torneira (que goteja ouro) foi aberta e a Indústria – de olho em modismos – não perdeu tempo. “Planeta dos Macacos: A Origem” é a nova investida e a receita continua dando certo: em quatro semanas em cartaz nos EUA, o filme já faturou 150 milhões de dólares (contra 93 milhões de orçamento), mas o resultado deixou a desejar. Ok, a parte de efeitos visuais é estupenda: os chimpanzés, orangotangos e gorilas criados via computação gráfica parecem absolutamente reais (e, barbada, já devem ter garantido o Oscar da categoria ao filme). Porém, a história moralista e piegas não está à altura dos efeitos seguindo a risca a cartilha de estereótipos: há um cientista bom que busca uma cura para o câncer e o Mal de Alzheimer; e há um cientista mal que irá arruinar tudo por pensar unicamente no dinheiro. Por mais que existam paralelos reais (aids e ebola surgiram de estudos científicos), “Planeta dos Macacos: A Origem” tropeça feio no moralismo de botequim de esquina. Logo tu, Hollywood, quer criticar a ganância? Bocejo.

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“Onde Está a Felicidade” (2011)
Terceira parceria de Bruna Lombardi com o maridão Carlos Alberto Riccelli (ela atua e escreve o roteiro, ele dirige), “Onde Está a Felicidade” é bem intencionado, mas tropeça em erros bobos: 1) o filme é uma comédia (que quer ser romântica beirando o pastelão), mas faltam piadas na história. A trama segue serpenteando pra lá e pra cá, mas pouco se ri. 2) Bruna alonga demais a primeira parte, que deveria servir de ponto de partida para a mudança espiritual de seu personagem. Ela tem um programa de TV, foi demitida e descobriu que o marido a estava traindo virtualmente. Não precisava gastar mais de meia hora nisso. 3) Ao invés de causar empatia no espectador, o roteiro faz dos personagens malandros otários, que, claro, são pegos no final. Apesar da cena magnífica da chegada dos peregrinos em Santiago de Compostela, local em que se passa a segunda parte da história, a opção não funciona porque falta profundidade aos personagens. 4) Não é porque um anunciante investiu uma grana no filme, que você vai colocar a perder toda a parte final da história para satisfazê-lo – como eles fizeram fechando o filme no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí (cujo governo patrocinou a película). Quem sabe o próximo…

Setembro 1, 2011   11 Comments

Três livros bacanas (dois em promoção)

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Espero que quando você, caro leitor, estiver lendo esse post, os livros acima ainda não estejam esgotados:

1) “Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano”, de Martin Scorsese e Michael Henry Wilson em edição lindaça da Cosac Naify por R$ 9,90 na Livraria Saraiva (aqui)

2) “Como a Geração Sexo-drogas-e-rock’n'roll Salvou Hollywood”, de Peter Biskind, da Editora Intrinseca com tradução fodaça da Ana Maria Bahiana por R$ 9,90 na Fnac (aqui)

Com o frete, cada um dos livros sai mais ou menos por R$ 14. Vale o investimento. “Compre três: dê um para o seu amor e outro para o seu melhor amigo” (aspas adaptadas de André Forastieri escrevendo sobre “Nevermind”, do Nirvana, na revista Bizz em 1991).

No Scream & Yell existem duas resenhas bem bacanas do livro do Peter Biskind (leia aqui), a primeira do Gabriel Innocentini e a segunda do Ismael Machado, repórter especial do Diário do Pará que está lançando “Sujando os Sapatos - O Caminho Diário da Reportagem”. Interessado? Contate o Ismael aqui: ismael.machado@hotmail.com

Agosto 24, 2011   3 Comments

Três Filmes: o ilusionista, o parque e os baianos

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“O Ilusionista” (“The Illusionist”, 2006)
Com um intervalo de menos de três meses, o ano de 2006 recebeu dois grandes filmes tendo o mundo da mágica como tema (parece que Hollywood ama auto-sabotagem): “O Ilusionista”, de Neil Burger, e “O Grande Truque”, de Christopher Nolan. Os dois fizeram sucesso (o primeiro arrecadando US$ 87 milhões e uma indicação ao Oscar enquanto o segundo faturou US$ 109 milhões e duas indicações para o prêmio máximo da Academia), mas na época só assisti ao filme do Nolan – até hoje “O Grande Truque” é meu filme preferido do diretor. Não sei o motivo, mas não esperava muito da trama de “O Ilusionista”. A história se passa em Viena na virada do século 19 e o ponto de partida – princesa se apaixona por plebeu e a família da primeira precisa separá-los – é um mito de época que resvala no clichê, e segue tropeçando em um roteiro (adaptado pelo próprio diretor) que não prima pela personalidade. Edward Norton vive o mágico ilusionista, mas quem rouba a cena é Paul Giamatti, excelente como inspetor chefe num filme muito mais realista que “O Grande Truque” – e também mais fraco.

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“Férias Frustradas de Verão” (“Adventureland”, 2009)
Após o imenso sucesso com “Superbad” (custou US$ 20 milhões e faturou US$ 170 milhões), o diretor Greg Mottola decidiu também assumir a função de roteirista (cargo que em “Superbad” havia ficado com a dupla Evan Goldberg e Seth Rogen) para contar uma história pessoal de sua adolescência: a falta de grana para fazer um curso lhe levou a trabalhar durante o verão em um parque de diversões. Voltamos para 1987. Jesse Eisenberg (de “A Rede Social”) interpreta (muito bem) James Brennan, o cara nerd e virgem que acaba se apaixonando por Emily “Em” Lewin (Kristen Stewart gracinha pré-“Crepúsculo” – “Adventureland” foi filmado antes da saga de vampiros, mas lançado depois) em um cenário de muitas confusões. A trama básica de uma história calcada no “boy meets girl” sobrevive com certo charme em um filme de trilha sonora arrebatadora escolhida pelo Yo La Tengo (essa cena aqui, em especial, é para fazer o cara se apaixonar) que fracassou nos cinemas, mas que merece muito uma segunda chance (em torrent ou DVD) – principalmente se você gosta de comédias românticas.

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“Filhos de João - O Admirável Mundo Novo Baiano” (2010)
Esqueça as regras básicas do cinema documental. Quem for assistir ao documentário de Henrique Dantas esperando uma obra que desbrave a origem de um das míticas formações musicais brasileiras, irá se decepcionar. “Filhos de João” começa tentando contextualizar a formação dos Novos Baianos, mas não apresenta todos os integrantes nem diz como a maioria deles entrou na banda. Pra lá do meio do filme, por exemplo, Pepeu Gomes concede um depoimento. É a primeira vez que aparece em cena, e um desinformado talvez nem saiba que ele era um novo baiano. Dantas parte do pressuposto errôneo que o público conhece tanto sobre o grupo quanto ele (ou não leu mesmo o “Manuel de Documentarista”), e esse tropeço só não lhe custa o filme porque a história dos Novos Baianos é sublinhada por dezenas de causos absurdamente surreais e hilários – alguns deles na presença do mestre João Gilberto – e algumas cenas antológicas de arquivo de época que fazem de “Filhos de João” um filme deliciosamente obrigatório. De quando o conteúdo é melhor que o formato.

Agosto 18, 2011   1 Comment

Três Filmes: Bandidas, Professoras, Dentistas

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“Bandidas” (“Bandidas”, 2006)
Sempre duvidei desse filme. Olhava a capa do DVD em promoções, admirava a beleza da deliciosa dupla de atrizes, mas pensava: deve ser uma bomba. Dia desses, num fim de semana preguiçoso debaixo do edredom, eis que o filme começa em um canal a cabo qualquer, e deixei. E não é que o filme surpreendeu. Luc Besson (adoro “O Quinto Elemento” e gosto do cult “O Profissional”) escreveu o roteiro e produziu deixando a direção para os desconhecidos Joachim Rønning e Espen Sandberg. A dupla imprimiu um ritmo bacana à trama que homenageia velhos faroestes enquanto espeta os Estados Unidos: na história, um norte-americano mata o chefão de um grande banco mexicano e ameaça levar a fortuna do país para os yankees. Entram em cena a patricinha Sara Sandoval (Salma Hayek) e a caipira María Alvarez (Penélope Cruz) – a química entre as duas musas é cativante – que juntas formam uma dupla especializada em roubar bancos. Elas são auxiliadas pelo ótimo Steve Zahn (a cena do beijo é hilária) e por Sam Shepard, que ensina às garotas as manhas da arte do latrocínio. Diversão desencanada.

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“O Sorriso de Mona Lisa” (“Mona Lisa Smile”, 2003)
Eis outro filme que sempre evitei. Nada contra Julia Roberts, muito pelo contrário. Cheguei ao cúmulo de ver 14 vezes “Adoro Problemas” – com Julia e Nick Nolte – no cinema (conto a história toda em um texto antigo aqui), mas o que me fazia evitar “O Sorriso de Mona Lisa” era essa pretensa aura “carpe diem”, que tem como maior representante “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989). Dia desses, no mesmo esquema de “Bandidas” (debaixo do edredom), o filme começou na TV a cabo, e deixei. O diretor Mike Newell não consegue evitar que o filme soe óbvio (professora progressista de história da arte muda vida de grupo de meninas em colégio católico nos anos 50). Julia interpreta Katharine Watson, a tal professora que quer exibir quadros de Jackson Pollock para suas alunas – mais preocupadas em se casar antes dos 20 anos – estereotipadas: Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) é a inconseqüente, Betty Warren (Kirsten Dunst) é a metida à inteligente que acha saber tudo da vida enquanto Joan Brandwyn (Julia Stiles) é a simplória sonhadora. Resultado: não verei duas vezes…

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“A Mulher Sem Cabeça” (“La Mujer sin Cabeza”, 2008)
Em seu terceiro filme (após os elogiados “O Pântano”, de 2001, e “A Menina Santa”, de 2004), a diretora argentina Lucrecia Martel radicaliza na simplicidade retirando de cena qualquer objeto que soe supérfluo para a trama. Duas histórias aparentemente distintas abrem “A Mulher Sem Cabeça”: na primeira, alguns meninos brincam em um canal; na segunda, uma mulher se despede das amigas e entra em um carro. O desfecho das duas histórias é óbvio (mas não clichê: Martel aprecia a trivialidade da tragédia), porém o que interessa não é o desfecho deste primeiro cenário, mas como a personagem lida com o ocorrido. A dentista Verónica (María Onetto) entra numa espiral de desespero que, num primeiro momento, faz com que ela se esqueça de tudo (um certo bloqueio). Seu próximo passo é tentar lidar com a situação. Por fim, numa cartada a lá David Lynch, Lucrecia Martel questiona (com genialidade) a realidade dos acontecimentos: pouca coisa acontece no filme, e ainda assim o espectador fica com a sensação que realmente nada aconteceu. Será tudo produto da mente de Verônica? Qualquer resposta encontra um grande filme.

Leia também:
- Julia Roberts, Maggie Carpenter, Anna Scott e Anna Julia (aqui)
- Não há moralismos em “A Menina Santa”, por Jonas Lopes (aqui)
- “A Menina Santa”, uma pequena aula de cinema, por Mac (aqui)

Agosto 17, 2011   1 Comment

Três Filmes: Fellini 1952, 1954 e 1955

A genialidade e a delicadeza em três filmes…

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“Abismo de Um Sonho” (“Lo Sceicco Bianco”, 1952)
Segundo filme da carreira de Fellini e primeiro assinado unicamente por ele, “O Sheik Branco” é uma deliciosa fábula de erros – aos moldes de Shakespeare. Fellini consegue ser espirituoso e cruel (sempre com muito humor) exibindo uma delicadeza hoje em dia inexistente no cinema. Ivan (Leopoldo Trieste) e sua recém esposa Wanda (Brunella Bovo) chegam a Roma para a lua-de-mel. O marido sobrepõe diversos compromissos para o casal sendo um encontro com o Papa o mais importante. Wanda, no entanto, tem outros planos. Ela mantém uma correspondência inocentemente apaixonada com um grande ator (o tal Sheik Branco). Enquanto o marido dorme, Wanda vai ao encontro de seu herói para presentear-lhe com um desenho feito por ela e acaba sendo levada para um set de filmagem com a trupe de atores. O Sheik aceita o desenho, mas ainda quer outro presente – e a confusão se forma (as cenas do marido tentando despistar sua família sobre o paradeiro de Wanda são impagáveis) em um filme genial, inocente e delicado. É também o primeiro filme de Fellini com o compositor Nino Rota.

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“A Estrada da Vida” (“La Strada”, 1954)
“Os Boas-Vidas”, de 1953, já havia levado Fellini ao Oscar (indicado por roteiro) e dado a ele o Leão de Prata em Veneza (Melhor Diretor), mas foi com “La Strada”, seu quarto filme, que o diretor conseguiu seu primeiro Oscar – na categoria de Melhor Filme Estrangeiro (ele havia sido novamente indicado por roteiro e ganhado também o Leão de Prata em Veneza). Nesta obra-prima neo-realista, dois perdidos em mundo sujo vagam por uma Itália pós-guerra entregue à miséria e à fome. Ele é Zampanô (Anthony Quinn espetacular), um homem rude que ganha sua vida fazendo apresentações mambembes. Ela é Gelsomina (Giulietta Masina cativante), uma moça pobre que é vendida pela mãe ao “artista” por 10 mil liras (como a mesma havia feito com a irmã). Gelsomina o acompanha e o ajuda nos números circenses, e passa a admirá-lo em sua inocência, mas sua admiração não sobrevive à violência, à traição e aos crimes que ele comete. Fellini não concede a “A Estrada da Vida” um final feliz (como em “Abismo de Um Sonho”), mas realista. Um clássico – com uma trilha delicada de Nino Rota.

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“A Trapaça” (“Il Bidone”, 1955)
Fellini – novamente com olhar neo-realista – flagra uma Itália decadente sofrendo a miséria pós-guerra. É neste cenário de pobreza que um grupo de trapaceiros ganha vida enganando pessoas de várias formas. O roteiro foca em três deles: Picasso (Richard Basehart), um simplório pintor casado com Iris (Giulietta Masina), esposa que desconfia do dinheiro fácil que entra em casa; Ricardo (Franco Fabrizi), um boa vida que engana todo mundo, não se preocupa com nada (além de carros e mulheres), e se dá bem no final – Fellini opta, de forma inteligente, por não castigá-lo moralmente, pois sabe que existem vários Ricardos pelo mundo. No centro da trama, Augusto (Broderick Crawford), um homem que sente o peso da idade nas costas (ele tem 48 anos), mas que a única coisa que saber fazer na vida é ludibriar pessoas. Há uma clara mudança ética no personagem do primeiro golpe em cena até o último, uma crise de consciência que aumenta quando ele se aproxima da filha – crise que lhe custará muito. Não há espaço para o humor no quinto filme de Fellini, mas sim para um olhar sério (ainda que delicado) sobre a natureza humana.

Leia também:
- Você conhece Roma? E a Roma de Fellini? (aqui)
- “La Strada” (e “Oito e Meio” e “Amarcord”) integram a lista dos melhores filmes de todos os tempos para Woody Allen (aqui)
- Top Fellini / Truffaut: uma lista “in progress”, por Marcelo Costa (aqui)

Agosto 1, 2011   No Comments

Três filmes a 10 mil metros de altura

Viajar 12 horas dentro de um avião permite – dependendo da companhia aérea – uma seleção de filmes que muito provavelmente você não veria em casa (muito menos no cinema). Afinal, já que você está ali, vale arriscar um daqueles filmes que você nunca tinha pensado em ver ou então dormir…

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“Passe Livre” (“Hall Pass”, 2011)
Desde que estouraram com “Debi & Lóide” em 1994, os irmãos Farrely construíram uma carreira invejável de filmes idiotas. A direção dos irmãos funcionou perfeitamente em “Quem Vai Ficar Com Mary?” (1998) e “O Amor é Cego” (2001), quase acertou em “Amor em Jogo” (adaptação norte-americana de 2005 do livro “Febre de Bola”, de Nick Hornby) e tropeçou em “Ligado em Você” (2003) e “Antes Só do que Mal Casado” (2007). Este “Passe Livre” traz Owen Wilson (velho parceiro dos irmãos) e Jason Sudeikis como dois maridos que recebem um passe livre de suas esposas para sair por ai por uma semana atrás de mulheres, cerveja e bolo de maconha. É o velho embate Liberdade x Moralismo: sozinhos, os maridos percebem o quanto seus casamentos são perfeitos, dispensam as gostosas na beira da cama e voltam como cachorrinhos para as esposas (que, “abandonadas”, são desejadas pelos craques do time dos solteiros). O roteiro diploma o moralismo besta e permite aos diretores criarem situações idiotas para arrancar gargalhadas fáceis do público. Funciona, mas decepciona.

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“O Dilema” (“The Dilemma”, 2011)
Ron Howard já ganhou um Oscar de Melhor Diretor por “Uma Mente Brilhante” (2001) e foi indicado ao prêmio novamente em 2008 pelo excelente “Frost/Nixon” (além de ter no currículo os sucessos “O Código Da Vinci” e “Anjos e Demônios”), mas este belo currículo não salvou este “O Dilema” de ser uma grande porcaria. O nome do diretor atraiu um elenco de luxo: Ronny (Vince Vaughn) namora Beth (Jennifer Connelly) e é sócio de Nick (Kevin James), que é casado com Geneva (Winona Ryder). Tudo vai muito bem até que Ronny flagra a mulher do amigo beijando outro cara. Surge o dilema do título do filme: contar ou não ao amigo? E se decidir contar, como? Ron Howard tenta fazer comédia, mas se enrola em sua própria seriedade e é prejudicado também pelo roteiro confuso de Allan Loeb, que desenha Ronny como um panaca que se esquece de sua própria vida enquanto tenta resolver o problema do amigo (que aparentemente não quer ter seu problema resolvido). Os clichês do gênero marcam presença no filme, mas não funcionam frustrando mais do que fazendo rir.

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“As Coisas Impossíveis do Amor” (“The Other Woman”, 2009)
Don Roos tem uma carreira sólida de roteirista de TV e já cravou alguns sucessos em Hollywood (“Marley & Eu” como roteirista e o bom “Mais Que o Acaso”, que ele escreveu e dirigiu em 2000). Este “As Coisas Impossíveis do Amor” passou batido pelos cinemas em 2009, quando foi lançado como “The Other Woman”, e voltou aos cinemas em 2011 (já com o título “Love and Other Impossible Pursuits”) tentando aproveitar a fama de Natalie Portman pós-sucesso de “Cisne Negro”. Don Roos mostra cuidado exemplar com o roteiro, que constrói a história mesclando passado e presente sem diferenciar as ações de tempo (o que chega a confundir o espectador no começo da trama, mas se ajeita quando as peças começam a se encaixar na trama). Natalie vive a personagem Emilia, uma jovem advogada de temperamento forte que sofre a perda de sua primeira filha, morta com três dias de vida. O diretor foca com perfeição o drama da personagem e o desmoronamento de sua relação familiar, mas opta pela saída mais confortável no final. Não estraga o conjunto do filme, mas diminui seu brilho.

Julho 24, 2011   1 Comment

Três filmes: o vizinho, a esposa, o casamento

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“O Homem ao Lado”, de Mariano Cohn e Gastón Duprat (2009)
Leonardo (Rafael Spreguelburd) é um designer (almofadinha) que vive com a esposa e a filha na única casa construída na América pelo famoso arquiteto Le Corbusier. Tudo segue nos conformes até que o vizinho, Victor (Daniel Aráoz), decide abrir uma janela em frente a sua (a cena de abertura é genial). O grande filme argentino dos últimos dois anos parte de uma premissa simples para mostrar o quanto um fato corriqueiro pode afetar o trabalho, o relacionamento, a vida de uma pessoa. Leonardo tenta negociar com o vizinho uma maneira dele não fazer a janela, e (o divertidíssimo) Victor começa a ocupar um espaço na vida do designer levando-o quase ao colapso. Em alguns momentos, “O Homem ao Lado” lembra bastante a temática de “O Invasor”, mas soa ainda mais palpável (todos temos vizinhos, mas nem todos somos donos de empreiteiras) que o excelente filme de Beto Brant. Premiado em Cannes pela fotografia (que assim como a cor usada no filme não me agradou), “O Homem ao Lado” merece ser visto pela forte (e hilária) atuação de Daniel Aráoz e pela boa sacada de realidade.

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“O Casamento do Meu Ex”, de Galt Niederhoffer (2010)
“The Romantics” (o título gringo é melhor) segue uma velha linhagem de filmes inspirados nas dúvidas que surgem com um casamento. Aqui as coisas seguem o padrão de “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, em que o personagem de Julia Roberts descobre-se apaixonada por Dermot Mulroney quando este irá se casar com Cameron Diaz. “The Romantics” tenta fugir da fórmula colocando um homem entre duas amigas (as românticas do título gringo) e até consegue algum charme nos sorrisos sem jeito de Katie Holmes (sedutores desde o tempo em que ela fazia Dawsons Creek) e na forte presença de Anna Paquin, mas derrapa ao tentar construir um cenário de tensão amorosa que soa extremamente superficial. A história: Laura (Katie) namorou Tom (Josh Duhamel) por quatro anos, eles terminaram até que ele decidiu casar-se com a melhor amiga da Laura, Lila (Anna), enquanto ainda saia com ela. O casamento é um pretexto para velhos amigos marcarem presença, mas o roteiro não aprofunda a relação de amizade, desperdiça bons atores e parece tão superficial quanto uma novela da Globo.

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“Potiche”, de François Ozon (2011)
Um dos mais badalados cineastas franceses surgidos na virada do século passado, François Ozon ainda é mais fama do que arte. O tenso “Swimming Pool”, de 2003, foi um grande acerto (e rendeu semanas de sonhos proibidos com Ludivine Sagnier), mas Christophe Honoré aparece quilômetros à sua frente (principalmente por “A Bela Junie”, “Em Paris” e “Canções de Amor”). Isso porque Ozon parece apreciar a superficialidade, caso de “Oito Mulheres” (2002), que até divertia o espectador na sala do cinema, mas acabava soando esquecível. “Potiche” sofre do mesmo mal. Há referencias demais e pouca profundidade. E olha que Ozon foi buscar inspiração na política, no feminismo e no humanismo, temas caros aos franceses, mas o filme apenas acena fugazmente aos temas (verdadeiras esposas troféu). “Potiche” até funciona no quesito comédia (embora até nisso tropece no final, quando o roteiro tenta abraçar o mundo), com Catherine Deneuve brilhando em cena escudada por Gérard Depardieu (reeditando o affair do excelente “O Último Metrô”, de Truffaut) e Fabrice Luchini, mas poderia ser algo muito melhor. Acabou ficando bonitinho, mas sem nenhuma alma.

Julho 12, 2011   No Comments

Amor por inércia, veneno como antídoto

Blue Valentine
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Midnight in Paris
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Julho 10, 2011   2 Comments

Notas sobre Fahrenheit 451, de Truffaut

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A Tatiana Lima me cobrou uma posição melhor de “Fahrenheit 451” na minha lista de filmes de Truffaut (ele está lá nas últimas posições à frente apenas do fraco filme de época “A História de Adèle H.”), mas não acho a produção tão bem resolvida. A mensagem totalmente derivada do livro de Ray Bradbury é forte, mas a ficção cientifica (Truffaut em outro filme de gênero) do cineasta não seduz.

“Fahrenheit 451” é lento, pesado (as cenas de ação são tediosas) e sofre de hipervalorização da mensagem, o que de certa forma explica sua trajetória cult (e todos os ensaios científicos). Bom para se discutir em sala de aula. Tedioso numa sala de cinema. No entanto, gostei desse ensaio da professora Terezinha Elisabeth da Silva sobre o filme embora tenha dúvidas se o filme é mais conhecido do que o livro (como ela diz no segundo parágrafo).

 “Montag e a memória perdida: notas sobre Fahrenheit 451 de François Truffaut”

“François Truffaut registrou em seu diário que, em Fahrenheit 451, havia tantas referências literárias quanto nos filmes que Godard havia dirigido até aquele momento (Escobar,1995). Na fala de Truffaut há uma leve provocação a Godard, também grande amante dos livros, seu parceiro em várias realizações e com quem, ao lado de outros cineastas, como Chabrol e Rohmer, participou da Nouvelle Vague francesa.

Fahrenheit 451, dirigido por Truffaut em 1966, é, de longe, muito mais conhecido que o livro de Ray Bradbury, publicado em 1953, em que o filme se baseou. Na maioria das vezes, quando se fala de Fahrenheit, o livro de Bradbury sequer é mencionado, o que evidencia a potência que a imagem cinematográfica tem de se imprimir na memória coletiva das massas.

Embora seja conhecido e citado, o filme não chegou a ser lançado em vídeo no Brasil. Considerado pela crítica especializada um dos piores, senão o pior, entre os filmes de Truffaut, Fahrenheit não é, certamente, uma obra-prima do cinema. É um trabalho crítico e marcante, onde o que fala mais alto é o amor declarado e dedicado por Truffaut aos livros e à leitura (continua aqui)”.

Julho 5, 2011   2 Comments

Três filmes: Truffaut 1960, 1964 e 1976

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“Atirem no Pianista” (“Tirez sur le Pianiste”, 1960)
Segundo longa-metragem da carreira de François Truffaut (após a elogiada estreia com “Os Incompreendidos”, em 1959), “Atirem no Pianista” conquista a admiração de muitos – Paul Thomas Anderson incluso - inspirado na Nouvelle Vague. Truffaut homenageia (com boa dose de humor) os filmes policiais B americanos, mas sua versão é descontraída e centrada no drama dos personagens (sem abdicar do suspense). Charles Aznavour interpreta (muito bem) o papel de Eduard Saroyan, um pianista que recusa a fama após ser “abandonado” pela esposa e passa seus dias tocando piano em uma espelunca de quinta categoria enquanto divide suas noites com a vizinha, a bela prostituta Clarisse (Michèle Mercier), e o irmão menor. A vidinha segue esse ritmo até o pianista se apaixonar pela garçonete Lena (Marie Dubois), se envolver em uma briga com o dono da espelunca e ter de fugir de mafiosos que querem a pele de seu irmão. Como tragédia pouca é bobagem e o amor é sempre uma vítima poética, o trecho final de “Atirem no Pianista” – filmado na neve e em preto e branco – soa extremamente lírico (e triste).

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“Um Só Pecado”, (“La Peau Douce”, 1964)
Pierre Lachenay é um escritor de sucesso e diretor de uma revista literária que, em uma viagem para uma palestra em Lisboa, se vê seduzido por uma aeromoça (tipo “Belinda”, de Nick Hornby e Ben Folds, sabe?) e inicia um romance extraconjugal. Pierre começa então o ciclo tortuoso de ter uma amante: quer, mas não pode estar com ela em público; a esposa começa a desconfiar; e a própria amante acredita que ele tem vergonha dela. Jean Desailly está ótimo no papel principal e a irmã de Catherine Deneuve, a tão bela quanto Françoise Dorléac (a aeromoça Nicole), brilha no papel de femme fatale inocente. Truffaut parece mais maduro no modo de filmar neste que é seu quinto longa, mas o roteiro óbvio e moralista não ajuda: o homem trai e precisa lidar com a culpa. Como prêmio pela traição é abandonado pela amante e vingado pela esposa – em um tradicional final trágico como o de centenas de filmes franceses. Dois anos após o imenso sucesso de “Jules e Jim”, Truffaut fracassou nas bilheterias com um filme dramático que tropeça na obviedade.

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“Na Idade da Inocência” (”L’argent de Poche”, 1976)
A pequena cidade de Thiers, no interior da França, abriga um filme delicado centrado em pequenas histórias infantis que Truffaut retirava de jornais. Entram em cena também memórias do cineasta compondo um tocante painel infantil recheado de passagens líricas que encontram paralelo em filmes de Fellini (“Amarcord”) e Woody Allen (“A Era do Rádio”) – e do próprio Truffaut (“Os Incompreendidos”). Aqui estão presentes os garotos que olham a bela professora tomar banho (“Eles se masturbam no fundo da sala”, ela reclama para outro professor. “Isso é tradição”, responde ele, despistando: “Também fazem isso na minha aula”), o drama do primeiro beijo, o garoto que apanha em casa, a paixão pela mãe do amigo e, claro, pelo cinema (a história de Oscar Doinel – veja só – filho de uma francesa com um inglês, é divertidíssima). “As crianças são mais fortes que os adultos”, diz um personagem em certo momento, mas para Truffaut elas ainda estavam sozinhas sem ter leis que as amparassem. O trecho final do filme merecia ser exibido em escolas. Ou melhor: em casamentos… afinal, tudo começa em casa.

Leia também:
- 1967: “A Noiva Estava de Preto”, Tarantino copiou sim (aqui)
- 1971: “As Duas Inglesas e o Amor”, a essência (aqui)
- 1972: “Uma Jovem Tão Bela Como Eu”, ironia e farsa (aqui)
- 1975 - “A História de Adèle H.”, obra menor (aqui)
- 1977: “O Homem Que Amava as Mulheres”, didático, sombrio (aqui)
- 1978: “O Quarto Verde”, uma ode à morbidez (aqui)
- 1968, 1970 e 1979: As aventuras de Antoine Doinel (aqui)
- 1980: “O Último Metrô”, brilhante, brilhante (aqui)

Top Truffaut até o momento
01) A Noite Americana (1973)
02) O Homem que Amava as Mulheres (1977)
03) O Último Metrô (1980)
04) Jules e Jim (1962)
05) Na Idade da Inocência, (1976)
06) Beijos Proibidos (1968)
07) Domicílio Conjugal (1970)
08) Amor em Fuga (1978)
09) Atirem no Pianista (1960)
10) Os Incompreendidos (1959)
11) Duas Inglesas e o Amor (1971)
12) Uma Jovem Tão Bela Como Eu (1972)
13) O Quarto Verde (1978)
14) A Noiva Estava de Preto (1967)
15) Um Só Pecado (1964)
16) Fahrenheit 451 (1966)
17) A História de Adèle H. (1975)

Julho 4, 2011   1 Comment

Três Filmes: Cry Baby, Empire Records e 1972

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“Cry Baby”, John Waters (1990)
Em 1988, após sete anos sem filmar, o mestre de filmes trash John Waters havia parido um pequeno sucesso, “Hairspray”, e ganho carta branca para seu novo filme, mas não facilitou: bolou um musical adolescente de trilha sonora impecável para sacanear “Grease”, estrelado por John Travolta em 1977. A história se passa na Baltimore (como todas as histórias do cineasta) dos anos 50 e mostra uma gangue arruaceira liderada por Cry Baby (Johnny Depp), um órfão que foi criado pelos tios – Susan Tyrrell e Iggy Pop (ins)piradissimos – e que traz nas veias o sangue do rock and roll (dos anos 50), babe. Ele se apaixona por uma das meninas certinhas, vai parar na cadeia após levá-la para um show de rock (em que, claro, ele era a estrela) que acaba em confusão, mas não desiste do amor da garota. John Waters obviamente exagera na caricatura (não à toa, o filme fracassou nos cinemas), mas cria um contraponto impagável para o viés romantizado com que o cinema sempre olhou os fifties. O romance em “Cry Baby” é docemente trash (até a deusa pornô Traci Lords marca presença).

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“Empire Records”, Allan Moyle (1995)
O ponto de partida desta comédia adolescente (que no Brasil recebeu o péssimo nome de “Sexo, Rock e Confusão”) é bastante interessante: uma loja de discos independente está prestes a ser comprada por uma grande rede que a transformará em uma megastore asséptica. Para tentar evitar que isso ocorra (e salvar o emprego dos amigos), um dos subgerentes da loja, o jovem Lucas (Rory Cochrane), arrisca toda a economia do chefão apostando a grana (9 mil dólares) em um cassino e… perde tudo. Muita gente faria um filme legal a partir disso, mas o diretor canadense Allan Moyle e a roteirista Carol Heikkinen não só desperdiçam uma boa premissa como também um elenco adolescente promissor (liderado por uma Renée Zellweger gatissima fase “Um Amor e Uma 45” e uma Liv Tyler encantadora pré “Beleza Roubada”) filmando um amontoado de clichês adolescentes que honram o lema: ser jovem é ser idiota. Evite o filme, mas ouça a trilha com Gin Blossoms (a linda “Til I Hear It from You”), Edwyn Collins (”A Girl Like You”) e Evan Dando (a cover do Big Star “The Ballad of El Goodo”).

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“1972”, José Emilio Rondeau (2006)
Editor da revista Bizz quando ela nasceu em 1985, produtor de discos (Legião Urbana, Camisa de Vênus, Picassos Falsos) e diretor de diversos clipes, a estreia de José Emilio Rondeau no cinema (com sua mulher, Ana Maria Bahiana, de sombra) é um exemplo de ideia bacana que tropeça na execução. A história (com pinceladas autobiográficas) foca um romance adolescente que nasce no meio do embate entre a PM e os fãs de rock que foram assistir ao filme “Gimme Shelter” no cinema Ópera, no Rio, em meio à ditadura. Ela é jornalista (Júlia, interpretada por Dandara Guerra, vai trabalhar como secretária na revista de música A Pedra do Mal – o primeiro emprego de Ana Maria Bahiana na encarnação “pirata” da revista Rolling Stone em 1972, leia aqui). Ele tem uma banda (Snoopy, papel de Rafael Rocha, que parece ler os diálogos). O casal de protagonistas não consegue causar empatia e tampouco soa natural em cena fragilizando ainda mais a fórmula tradicional de comédia romântica seguida pelo roteiro. As referências até tornam a história simpática, mas “1972” sofre de falta de ritmo, tensão e empolgação. Um acerto: a bela trilha sonora com A Bolha, Os Brazões, Novos Baianos e outros.

Junho 30, 2011   3 Comments