Category — Literatura
Das coisas que me explicam, parte 2
“Sou um homem sossegado. Tenho tendência a pensar bastante e tentar não falar demais. Mas aqui estou, talvez falando demais. Existem, porém, esses sentimentos dentro de mim que precisam muito escapar, acho. E isso me faz sentir aliviado, porque uma das minhas maiores preocupações nesses últimos anos é que eu tenho perdido minha capacidade de sentir as coisas com a mesma intensidade - da maneira que eu sentia quando era mais jovem. É assustador - sentir as suas emoções fluindo para longe e não dar a menor importância”.
Trecho de “Primeiro o Amor, Depois o Desencanto”, de Douglas Copland
Leia também:
- Das coisas que me explicam, parte 1 (aqui)
Setembro 21, 2009 2 Comments
Quem precisa pensar sobre tamanhas bobagens

“O Richard Schickel (escritor e há muito tempo crítico da revista Time) escreveu um ensaio muito bom a meu respeito, dizendo que em determinado ponto o público me abandonava. E achei que foi a única coisa que ele errou. Fui eu que abandonei o meu público; ele não me abandonou. O meu público era muito bom, e, se eu continuasse a cumprir com a minha parte do contrato, ele não demonstraria nenhum sinal de querer me abandonar e ser algo mais do que uma boa platéia afetiva. Eu é que tomei um rumo diferente, e uma boa parcela desse público ficou incomodada, se sentiu traída. Não gostaram quando fiz “Interiores” e “Memórias”. Um crítico disse que “Interiores” foi um ato de má-fé. Achei que foi uma reação exagerada. Tentei fazer um filme específico, e se não funcionou, não funcionou. Respeito plenamente as opiniões das pessoas para quem não funcionou. Mas não foi feito com má-fé.
Depois, “Memórias” decepcionou as pessoas, e ao longo dos anos o público ficou mais e mais incomodado comigo, sem saber direito como seria o meu próximo filme, e menos seguro de que iria gostar. Muita gente ainda acha que os meus melhores filmes ficam pela época de “Annie Hall” e “Manhattan”, mas mesmo que esses filmes ocupem um lugar caloroso em seu coração - o que me deixa muito satisfeito - estão errados. Filmes como “Maridos e Esposas”, “A Rosa Púrpura do Cairo”, “Tiros na Broadway”, “Zelig” e até mesmo “Um Misterioso Assassinato em Manhattan” e “Poucas e Boas” são muito superiores. Claro, isso é questão de opinião, mas eu tenho a minha, assim como os outros têm as deles.
Agora, é verdade que depois de alguns filmes eu parei de pensar em popularidade e no público, ou no que escreviam sobre os meus filmes, mas não por arrogância, nem algum sentimento de superioridade. Só porque essa parte do processo - a chamada gratificação - não estava me deixando feliz, nem satisfeito. As pessoas muitas vezes tomam erroneamente a minha timidez por indiferença, mas não é. Eu precisava de um centro espiritual e, sendo ateu, isso é difícil de encontrar. Então experimentei uma sensação de apatia em relação ao sucesso ou fracasso, e, é triste dizer, em relação à vida em geral. Tanto o sucesso quanto o fracasso provaram não significar muito para mim do jeito que pensei que fossem significar quando comecei. Nenhum dos dois contribui para a solução dos verdadeiros problemas da vida.
O lado bom de ser, como dizem os meus amigos, “imune à crítica”, é ser incapaz de gozar o prazer que um sucesso retumbante traz. Isso não quer dizer que eu deteste dinheiro, mas, resumidamente, apesar de toda a bajulação do mundo, a gente continua incomodamente finito (encolhe os ombros, depois ri). Então, como eu estava dizendo, a minha timidez e a minha inabilidade em afastar a nuvem negra que vem com a incapacidade de lidar com a realidade fazem as pessoas pensarem que sou distante e inatingível, mas não sou nem um pouco alheio, nem recluso - que é outra descrição nada exata de mim. Por outro lado, não quer dizer que eu não concordaria com boa parte da crítica mais severa ao meu trabalho se ouvisse críticas. Tenho um olhar muito crítico sobre o meu trabalho e o de outras pessoas. Antes eu lia a meu respeito, mas parei de vez, porque é uma perda de tempo, não ajuda em nada o absurdo de ler que você é um gênio cômico ou que tem má-fé. Quem precisa pensar sobre tamanhas bobagens?”
Woody Allen em um dos melhores trechos do livro (aqui) de Eric Lax.
Leia também:
- “Match Point”, de Woody Allen, por Marcelo Costa (aqui)
- Os filmes prediletos de Woody Allen em todos os tempos (aqui)
- A cinematografia de Woody Allen de 0 a 10, por Marcelo Costa (aqui)
Setembro 15, 2009 5 Comments
Era um garoto que como eu amava os…

A nova edição da Rolling Stone está nas bancas com Beatles na capa. Por enquanto, li só a ótima entrevista com a Céu, feita pelo chapa Paulo Terron, com um dos pontos altos indo para a pergunta: “Várias pessoas me disseram que ‘Vagarosa’ (disco novo da cantora) é um ‘disco de maconheiro’. É?”. E Céu manda na gargalhada: “Ó o cara querendo me pegar aqui”. Além tem resenha minha de um dos discos do ano, “Uhuuu!”, do Cidadão Instigado.
E já que falamos em Beatles, alguém te avisou que a bíblia, ou melhor, a biografia do Bob Spitz, de 982 páginas, está em promoção no Submarino por R$ 49,90? Aqui. E para pararmos um pouco com o blá blá blá Beatles, que tal irmos de Stones? Sai dia 03 de novembro, nos EUA, a edição quádrupla de “Get Yer Ya-Ya’s Out!”, o disco ao vivo dos Stones gravado no Madison Square Garden em 1969 . Veja o tracking list aqui. São cinco faixas bônus e um CD extra apenas com os shows de abertura de B.B. King e Ike & Tina Turner mais um DVD de raridades do show.

Setembro 15, 2009 8 Comments
Site da USP disponibiliza 3.000 livros
A Reitoria da USP lançou nesta semana um site que disponibiliza 3.000 livros para download -as obras estão no endereço www.brasiliana.usp.br. Entre os títulos, estão livros raros, documentos históricos, manuscritos e imagens que são parte do acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, doada à universidade. Há planos de aumentar o catálogo para 25 mil títulos e incluir primeiras edições de Machado de Assis e de Hans Staden.
Junho 20, 2009 No Comments
Sobre o fim - de semana e de romances
Uma das coisas que eu pensava ao dormir na noite de quarta era de que iria aproveitar o feriadão para dormir e descansar. Me esconder do frio com Lili debaixo de edredons. Ledo engano. É impressionante como gostamos de nos enganar. Ficar sem fazer nada é algo que me incomoda ferozmente. Adoraria ficar deitado o dia todo vendo filmes, comendo pipoca e me enrolando com a namorada (não necessariamente nessa ordem), mas quem diz que consigo.
Desta forma, assim que acordamos e percebi o sol quente pela janela, já tirei Lili da cama para tomarmos café na Padaria Boulevard (pare no balcão e peça a “Boa” com um capuccino! Seu dia vai ficar muuuuito melhor), e depois seguirmos para o centro da cidade para pesquisarmos preços de aquecedores e netbooks. Acabamos comprando o primeiro, afinal, como você sabe, a sensação térmica do meu apartamento é de 5 graus (Bianca e Fernando, vocês chegaram com o aquecedor ligado, não vale!).
No fim da tarde de quinta, várias mensagens chegaram ao celular. “Vamos beber? “. E eu: “Talvez”. “Vamos para um boteco?”. E eu: “Talvez”. Por fim acabamos indo para o Fuad jantar picanha no saralho e jogar conversa fora. Quase perdi minha cabeça quando Ligilena, do alto de sua tarde entornando vinho e da noite a base de cerveja, não se conformou em eu nunca ter assistido “ET”, e arremessou o DVD pirata de “Se eu Fosse Você 2″, que passou tirando lasca de meu pescoço. Morrer tudo bem, mas com a cabeça decepada por Tony Ramos e Glória Pires não. (hehe). Vou assistir ao filme. Prometo.
A sexta prometia. Era dia dos namorados (com direito a abrirmos a última garrafa de vinho que trouxemos de Santiago dois anos atrás), tinha uma festa mexicana para ir, show do Caetano no Credicard Hall, mas tudo se resumiu a rodar alguns sebos, conhecer a pequena (apenas 45 cm) e linda Olivia (seja bem-vinda, princesa), de dois dias, filha da Dre e do Marco, que me tirou algumas lágrimas dos olhos, e conferir o novo show de Cae mais à noite, sobre o qual escrevi aqui. Nem o vinho abrimos, mas já marcamos outra data para tirar a rolha da garrafa.
O sábado foi o dia mais corrido do feriadão. Fiquei um tempo na Velvet CDs, e depois corri para o Veloso, para encontrar vários amigos e o sensacional bife de tira (bati a foto que abre o post com a máquina da Capitu). Ficamos de 12h30 até às 19h no lugar, e bebi seis caipirinhas de cachaça (Lili diz que foram sete, onde já se viu: eu bebo, e ela que perde a conta). Deu tempo de voltar pra casa e dormir duas horas antes do esquenta para o show de Jens Lekman, no Studio SP. Eu acordei às 22h03, coloquei os pés no chão, e um amigo ligou: “Vai rolar? Tô chegando”. Levantei, caminhei até a sala e o interfone toca com outro amigo na porta.
Um tempo depois, já com o Fernando, a Bianca e os Tiagos na sala vendo DVDs do programa de Jools Holland, liga a Ligelina. “Mac, chamei um pessoal para ir ai? Tudo bem?”. Resposta afirmativa. “Mas é uma turma grande”. Outra resposta afirmativa e acho que desde o dia que abrimos a casa não havia tanta gente bacana reunida no mesmo lugar. Era uma vez três Patricia, algumas Leffe, outras Baker de trigo e felizmente alguns gostaram da cachaça forte Milagre de Minas, que eu e Lili trouxemos de Ouro Preto. Foi bem divertido.
Já o show do Jens foi… interessante (a foto é da Lili; mais aqui). No palco, só ele (na voz belíssima e na guitarra ocasional) acompanhado do amigo Victor, que soltava via laptop a base das canções. Sim, é isso que você pensou mesmo: quase um playback. Os arranjos são lindos, alguns de chorar, mas a apresentação é quase como uma noite em uma churrascaria. Jens pode ser definido canhestramente como o Wando da Suécia. Wando, aliás, que na Virada Cultural tocou a clássica “Fogo e Paixão” acompanhado de bateria eletrônica e uma guitarra. Como Jens. “Black Cab”, “The Opposite Of Hallelujah”, “You Are The Light” e a hilária versão de “A Postcard To Nina” (com Ana Garcia, do Coquetel Molotov, traduzindo no segundo microfone) foram os grandes momentos da noite.
Domingo eu deveria ir a Taubaté visitar as três mulheres da minha vida que residem lá (a mãe Vilma, a irmã Cristiane e a sobrinha Gabriela), e tentar dar um olá para a quarta (a afilhada Amanda), mas não rolou. Minha irmã estava de mudança, e ninguém precisa de visitas em dia de mudança. Acabamos ficando em casa e fomos à tarde, na companhia de Tiago Agostini e Marina Person, conferir a sensação indie “Apenas o Fim” (assista ao trailer), longa-metragem de estréia do estudante universitário Matheus Souza, da PUC-RJ, um interessantíssimo retrato de geração cujo pano de fundo é o fim de uma história de amor (conhecido por todos aqueles, de 8 a 80, que já viveram algum romance na vida).
O roteiro assim como as boas atuações de Érika Mader e Gregório Duvivier credenciam – e muito – o filme. Lembrou-me claramente a primeira vez que li “O Clube dos Corações Solitários”, romance de estréia do amigo André Takeda, no que aquilo mais representava pra mim: alguém como eu escrevendo no terreno que já foi habitado por deuses do quilate de Rimbaud, Shakespeare e Huxley. É o velho sintoma de “não estou sozinho no mundo”, sabe. Afinal, por mais que Lygia Fagundes Telles e Vinicius tenham me traduzido dezenas de vezes em momentos especiais de minha vida, eles estão no cerne da dor, lá no fundo do âmago, enquanto Takeda e Matheus Souza mostram a timidez no olhar. Eles exteriorizam algo que só quem está vivendo a mesma época que eles consegue perceber – e rir e se envergonhar.
Já faz tempo que deixei de viver a mesma época de Matheus Souza, por isso mesmo que as referencias a coisas como Tartarugas Ninjas e Nintendo não me comovem, mas já estive tantas vezes face a face com o fim do amor que é impossível não sentir um arrepio na espinha quando observo uma história chegando ao fim. É extremamente natural que, conforme envelhecemos e passemos pela faculdade, deixemos de ser inocentes para nos transformarmos em cínicos, mas a dor do fim do amor, meu (minha) caro (a) amigo(a) continua doendo aos 12, aos 21 , aos 34 e, acredito eu, aos 50 e tantos (Caetano, sofrendo e compondo como um menino é um bom exemplo disso).
Tirando a história de amor e dor, “Apenas o Fim” ainda me assustou ao imaginar a força com que os Los Hermanos bateram na geração estudantil desta década. Eu que acredito que o “Bloco do Eu Sozinho” seja o disco dos anos 00 fico triste pela postura da banda, grandiosa demais, posada demais, em que os personagens se agigantaram ignorando a história (que eles mesmos admiravam). Como Marcelo Camelo pode se sentir grande perante a obra de Chico Buarque? Desculpe-me, mas a humildade (com H maiúsculo e dourado? – risos) deveria ser exemplo. Para mim, o sucesso do Los Hermanos foi mais maléfico do que benéfico, mas não se preocupe, é meu lado cínico reclamando do estado das coisas. Veja o filme. Leia o livro do Takeda. Jogue fora seus discos do Los Hermanos. Sonhe. E me desculpe pelo post confuso. Devo estar bêbado… ainda (risos).
Junho 15, 2009 7 Comments
A base e o fundamento da vida moderna
“O amor elimina o medo, mas reciprocamente o medo elimina o amor. E não apenas o amor. O medo elimina a inteligência, elimina a bondade, elimina todo pensamento de beleza e verdade. Só persiste o desespero mudo ou forçadamente jovial de quem pressente a obscena presença no canto do quarto e sabe que a porta está trancada, que não há janelas. E então a coisa acomete. Ele sente uma mão na sua manga, respira um bafo fétido, quando o ajudante do carrasco se inclina quase amorosamente para ele. “É a sua vez, irmão. Por aqui, tenha a bondade”. E num instante o seu terror silencioso é transformado num frenesi tão violento quanto inútil. Não é mais um homem entre os seus semelhantes, não mais um ser racional falando articuladamente a outros seres racionais; apenas um animal ferido, ululando e debatendo-se na armadilha. Pois, no fim, o medo elimina no homem a própria humanidade. E o medo, meus bons amigos, o medo é a própria base e fundamento da vida moderna. Medo da tão apregoada tecnologia que, enquanto eleva o nosso padrão de vida, aumenta a probabilidade de nossa morte violenta. Medo da ciência que arrebata com uma das mãos ainda mais do que tão prodigamente distribui com a outra. Medo das instituições manifestamente fatais pelas quais, em nossa lealdade suicida, estamos prontos a matar ou morrer. Medo dos Grandes Homens que elevamos, por aclamação popular, a um poder que eles usam, inevitavelmente, para nos massacrar e escravizar. Medo da guerra que nós não queremos e todavia tudo fazemos para desencadear.”
Trecho do livro “O Macaco e a Essência”, de Aldous Huxley, de 1949.
Maio 22, 2009 1 Comment
Sorteados da Promo Bill Graham

Mais de 150 participantes enviaram um e-mail com o nome de três livros sobre música que a Editora Barracuda lançou no país e participaram da promoção que oferecia quatro exemplares do excelente ”Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”. Abaixo o nome dos sortudos sorteados:
- Bruno Jamalaro, São Paulo
- Luiza C Miranda Garcia, Curitiba
- Marcel Ricardo Vicente, Bauru
- Maria Rita L Cortes, São Paulo
Os livros seguem via correio nesta semana.
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Leia também:
- “O livro obrigatório número 1 do rock”, por Marcelo Costa (aqui)
Março 1, 2009 3 Comments
49 convidados apontam os melhores livros
“Listas não são novidades. Quase todo caderno literário traz algo parecido de vez em quando. A escolha é sempre subjetiva. Afinal, não se trata de uma eleição. Mas sim, de uma indicação que envolve critérios emocionais na maioria das vezes. Diante desse dilema, e sabendo que termos como: mais importantes, indispensáveis ou imprescindíveis, podem ser avaliados de formas diferentes, tentamos nos centrar em uma pergunta que mais se aproximasse “do gosto pessoal”. Afinal, um livro pode ter sido muito importante em nossa vida, mas não fazer parte da lista dos 10 melhores que lemos. Diante disso, fizemos a seguinte pergunta para 49 convidados: Quais os dez melhores livros que você leu?. Entre os participantes da enquete, estão editores, jornalistas, escritores, professores, críticos literários e publicitários. No resultado geral, ganharam os clássicos. Na votação individual clássicos e catastróficos se misturam. Entretanto, todos, clássicos ou catastróficos, trazem um fato em comum: o poder de inspirar as pessoas.”
Carlos Willian Leite
Editor da Revista Bula
Veja o resultado da enquete e a lista de cada votante aqui
Ps. Da lista que eu tinha mostrado caiu um, e entrou outro…
Fevereiro 16, 2009 No Comments
Dez livros
Um amigo pediu uma lista de meus dez livros preferidos de todos os tempos. Fiz a tremenda bobagem de passar batido pela estante ontem, o prazo de entrega é hoje, e fiz essa que segue abaixo - de memória. É claro que estou esquecendo algum muito importante, e que ainda não sei se vou de Baudelaire ou Kundera na décima posição (e que até o fim da tarde vou me lembrar de algum outro imperdível), mas essa é a pré-lista…
“O Lobo da Estepe”, Hermann Hesse
“O Macaco e a Essência”, Aldous Huxley
“Ciranda de Pedra”, Lygia Fagundes Telles
“O Tempo e o Vento”, Érico Verissimo
“Hamlet”, William Shakespeare
“Cartas a Um Jovem Poeta”, Rainer Maria Rilke
“O Casamento do Céu e do Inferno”, William Blake
“Retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde
“Achei Que Meu Pai Fosse Deus”, organizado por Paul Auster
“As Flores do Mal”, Charles Baudelaire
“A Insustentável Leveza do Ser”, Milan Kundera
Ps. Quando eu ler “Em Busca do Tempo Perdido”, do Proust, que só passei os olhos no primeiro volume quando tinha 19, 20 anos, com certeza um dos dez acima cai.
Fevereiro 13, 2009 3 Comments
Você tem um violão ai?
“Poucos meses antes, em meados de 1957, (Roberto) Menescal estava em casa, na festa de bodas de prata de seus pais, no apartamento da Galeria Menescal, quando bateram à porta. Devia ser mais um convidado. Foi abrir e um rapaz que ele nunca vira perguntou:
“Você tem um violão ai? Podíamos tocar alguma coisa”.
O rosto de Menescal transformou-se num ponto de interrogação. Não sabia o que dizer. Descobriu imediatamente quando o rapaz se apresentou:
“Eu sou João Gilberto e quem me deu seu endereço foi Edinho, do Trio Irakitan”.
Para Menescal, se aquele era João Gilberto, o nome de seu ex-professor Edinho era dispensável como recomendação. Ele já ouvira falar em João Gilberto - e, no meio de jovens músicos cariocas nos últimos meses, quem não? Sabia que se tratava de um baiano meio louco e genial, fabuloso no violão, cantor afinadíssimo e que às vezes aparecia no Plaza. Convidou-o a entrar. João Gilberto atravessou as dezenas de convidados como se eles fossem feitos de vapor - da mesma forma, ninguém o viu - e foram para um quarto nos fundos. Não disse mais nada. Apenas examinou o violão, afrouxou uma ou duas cravelhas, testou o prolongamento das notas e cantou “Hô-ba-la-lá”, sua própria composição.
Era um beguine - um ritmo caribenho que, mesmo em 1957, já estava mais do que esquecido se não fosse por aquela canção de Cole Porter. Menescal não entendeu direito a letra, e ainda que ela fizesse muito sentido, ele, como a maioria dos músicos, não dava importância a letras. E quem queria saber de letras diante do que ele estava ouvindo?
A voz de João Gilberto era um instrumento - mais exatamente, um trombone - de altíssima precisão, e ele fazia cada sílaba cair sobre cada acorde como se as duas coisas tivessem nascido juntas. O que era espantoso, porque o homem cantava num andamento e tocava em outro. Na realidade, não parecia cantar - dizia as palavras baixinho, como Menescal já ouvira outros fazendo. Mas ele sentia que João Gilberto, se quisesse, seria capaz de se fazer ouvir lá na sala, com ou sem festa. João Gilberto cantou “Hô-ba-la-la” cinco ou seis vezes, com mínimas alterações, mas cada versão parecia melhor que a anterior. E que diabo de ritmo era aquele que ele fazia? Menescal não resistiu. Pegou-o pelo braço, com violão e tudo, e saiu com ele pela noite. Ia exibi-lo aos amigos.
Começou pelo apartamento de Ronaldo Bôscoli, na Rua Otaviano Hudson. João Gilberto cantou “Hô-ba-la-la” incontáveis vezes. Cantou também uma outra canção sua, esquisitíssima, chamada “Bim Bom”, e uma série de sambas que eles nunca tinham ouvido - e que João Gilberto ia identificando como tendo sido grandes sucessos desse ou daquele conjunto vocal do passado. Em apenas uma noite e quase todo o dia seguinte (ninguém dormiu), ele lhes abriu os ouvidos para uma música brasileira muito mais rica do jamais haviam imaginado. E, quando lhes falou de suas admirações - Lúcio Alves, Dick Farney, Johnny Alf, João Donato, Luiz Bonfá, Tom Jobim, Tito Madi, Dolores Duran, Newtom Mendonça, vários deles seus amigos -, eles entenderam tudo. Para Menescal e Bôscoli, naquela noite, João Gilberto era a realidade encarnada do que, até então, eles vinham procurando às cegas, meio pelo tato.
Da casa de Bôscoli, completamente insones, foram logo de manhã ao apartamento de Nara, onde a epifania se repetiu, e, de lá, à casa de Aná e Lu, na Urca. Menescal queria aprender aquela batida que João Gilberto fazia no violão - aquele jeito de tocar acordes, não notas, produzindo harmonia e ritmo de uma só vez. Durante essa perigrinação de quase dois dias, sem pausas, ele não tirava os olhos das mãos de João Gilberto. Particularmente da mão direita: Menescal observou que os dedos polegar e mínimo de João Gilberto se esticavam, formando quase uma reta, enquanto os três dedos do meio faziam a pegada e retesavam todos os músculos do seu antebraço. E ele, Menescal, se achava professor de violão!
E havia as coisas que João Gilberto falava enquanto iam de casa em casa e de volta ao apartamento de Ronaldo. Poesia, por exemplo. Carlos Drummond de Andrade era claramente o seu favorito, mas ele também recitou, de cor, trechos inteiros de “Cartas a um Jovem Poeta”, do alemão Rainer Maria Rilke. Literatura era uma preocupação remota dos músicos, inclusive cantores, e era inédito ouvir um deles citando escritores com tanto desembaraço. Em outro momento, João Gilberto começou a falar de técnicas de emissão de voz. Tinha admiração pela maneira como Dick Farney controlava a respiração ao cantar, conseguindo soltar quilômetrosde frases num único fôlego, “apesar de fumar dois maços de Continental por dia”. (Menescal observou depois que, durante todo o tempo em que estiveram juntos, João Gilberto não fumou e parecia resmungar quando alguém acendia um cigarro ao seu lado. E também não bebeu, o que era duplamente estranho. Poxa, todo mundo bebia ou fumava!).
Mas o que deixou Menescal atarantado foi quando João Gilberto explicou-lhe como exercicitava técnicas dos iogues para respirar, e como isso lhe permitia espichar ou encurtar as frases musicais, sem perder sílabas e sem se cansar. Os exemplos vinham uns atrás dos outros. Tudo aquilo repicava nos ouvidos de Menescal como pepitas douradas e ele percebeu, fascinado, que estava ficando preso àquele homem. A imagem que lhe veio à cabeça, para definir João Gilberto, foi a de uma aranha em sua teia, tecendo seduções ao redor de moscas. Precisava tomar cuidado. Pois não adiantou de nada saber disso: quando se despediu dele na rua e voltou pra casa, a fim de tentar dormir, já estava falando, pensando e se comportando como João Gilberto”.
Trecho de “Chega de Saudade”, livro de Ruy Castro
Fevereiro 5, 2009 7 Comments
Concorra a quatro livros de Bill Graham

Mais de 150 participantes enviaram um e-mail com o nome de três livros sobre música que a Editora Barracuda lançou no país e participaram da promoção que oferecia quatro exemplares do excelente ”Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”. Abaixo o nome dos sortudos sorteados:
- Bruno Jamalaro, São Paulo
- Luiza C Miranda Garcia, Curitiba
- Marcel Ricardo Vicente, Bauru
- Maria Rita L Cortes, São Paulo
Os livros seguem via correio nesta semana.
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Leia também:
- “O livro obrigatório número 1 do rock”, por Marcelo Costa (aqui)
Fevereiro 4, 2009 5 Comments
Sabe aquelas correntes… literárias (?!) :o)
Peguei no blog da Barracuda, então sinta-se livre para repassar
1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.
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1) “Chega de Saudade”, Ruy Castro
2) ok
3) ok
4) “Não entendeu nada - João talvez tivesse se lembrado subitamente de um compromisso - e conformou-se em voltar para a boate e terminar o show com o violão reserva.”
5) ok
6) Repassar para outros 5 blogs.
Janeiro 27, 2009 1 Comment
O livro obrigatório número 1 sobre rock

Sabe o “Mate-me Por Favor”? Esqueça. “Hammer of Gods”? Deixe de lado. “Come As You Are”? Aposente. O livro definitivo sobre rock and roll atende pelo nome de “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”, escrito a quatro mãos pelo próprio Graham e por Robert Greenfield. Agora, cacete, quem é esse tal de Bill Graham, pergunta o leitor esperto antes de “dar um google”. Vamos lá: Bill Graham foi um dos produtores responsáveis em transformar o rock em um negócio lucrativo. Bem possível que sem ele o rock ainda estivesse na idade da pedra e, hoje em dia, você estivesse ouvindo jazz, bebop ou quetais ao invés de guitarras.
O livro segue o mesmo formato do citado “Mate-me Por Favor”, acumulando centenas de entrevistas que se sucedem uma após a outra em um trabalho primoroso de edição que procura esmiuçar o assunto do capítulo ouvindo todas as partes da história, com exceção, óbvia, aos mártires do rock que partiram cedo demais. Jim Morrison (que faltou a um show produzido por Graham para assistir – três vezes – ao filme “Casablanca”), Jimi Hendrix (que tocou fogo dezenas de vezes em sua guitarra na frente de Graham) e Janis Joplin (que desabafou para o amigo: “os caras da minha banda estão lá se divertindo com as garotas. E o que uma mulher faz após um show?”) estrelam passagens antológicas.
A história de Bill Graham, porém, começa muito antes dele fundar o Fillmore, em São Francisco. Filho de russos, criado na Alemanha, Graham deixou Berlim aos oito anos no auge da caça aos judeus promovida pelo exército de Hitler. Sua mãe deixou que um padre o levasse primeiro para Paris, depois para Barcelona, e então para os Estados Unidos, enquanto tentava salvar a vida de suas três irmãs. Uma delas acabou indo para Auschwitz, e saiu de lá viva em 1945. As outras acabaram tentando a sorte em países vizinhos enquanto a matriarca morreu sufocada com gás em um ônibus a caminho do campo de concentração. Toda primeira parte do livro traz a família Graham remoendo lembranças da guerra. São socos no estômago atrás de socos no estômago do leitor.
Nos Estados Unidos, Bill primeiro vê a Estatua da Liberdade, depois é adotado por uma família, vira garçom e segue um espiral de acontecimentos até descobrir sua grande vocação: produtor de shows. É aqui que o livro começa a se tornar obrigatório para fãs de rock castigados pelo fustigante e excelente começo do livro. Bill Graham torna-se um grande produtor dono de badaladas casas de shows em São Francisco e Nova York. Passa a se relacionar com todos os principais nomes do rock no mundo e muitos deles rendem passagens clássicas em “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”. Não a toa, o prefácio é escrito por Pete Townshend, apresentado no final como “guitarrista principal do The Who, uma ótima banda do distrito de Shepherds Bush, em Londres”.
Para se ter a idéia da importância do nome do homem no cenário rock dos anos 60, 70 e 80, quando Bill Graham sentou para conversar sobre a turnê que os Rolling Stones pretendiam fazer em 1981, o martelo só foi batido de verdade quando o produtor avisou a Mick Jagger que os cartazes não iriam trazer “Bill Graham apresenta…”, como de praxe em todo o show produzido por Bill, mas apenas “Rolling Stones”. Foi uma das poucas vezes que o nome do produtor não figurou no topo do cartaz em letras garrafais maiores que o nome dos artistas que ele apresentava. Bill Graham era uma grife, um atestado de qualidade ambulante que enfrentava produtores, empresários e músicos de igual para igual na busca incansável do que ele julgava primordial no meio em que ajudou a criar: entregar ao público um grande espetáculo.
Escrito a quatro mãos, sendo que duas são do próprio Bill, é de se esperar que o livro tenha uma tendência chapa branca, mas em quase todo o livro os dois lados são ouvidos. Robbie Robertson, líder da The Band (e responsáveis por uma das passagens Top 5 do livro), dá a deixa quando é perguntando sobre o motivo em que ele e Bill deixaram de se falar. “Vou dizer exatamente o que aconteceu. Como todos nós, Bill é famoso pelo editor de memórias na cabeça dele”. O músico segue contando a sua versão da história, e o leitor ganha mais objeto para análise. Bill é acusado de oportunista pelos hippies, de manipulador por adversários, de ausente pela família, e tudo isso é escrito às claras, sem enrolação. É claro que, ao final, o peso pende para o lado criativo do produtor, mas as histórias valem à pena.
Bill conta detalhes da gravação do especial “The Last Waltz”, da The Band, filme produzido por Martin Scorsese no Winterland, uma de seus templos de shows. O produtor relembra o primeiro Woodstoock (em que aparece no filme sobre o festival descendo a lenha na organização), rememora tretas com a polícia e abre o baú para contar com detalhes a história da confusão que envolveu membros de sua produtora com integrantes da equipe do Led Zeppelin, o que causou a prisão do empresário Peter Grant, do baterista John Bonham, do empresário de turnê e de um segurança. O caso acabou num processo de dois milhões de dólares pelos funcionários de Bill Graham. E o Led Zeppelin, após esse show, nunca mais tocou nos Estados Unidos.
O produtor ainda se envolveu nos anos seguintes com o Live Aid e a turnê Conspiracy of Hope da Anistia Internacional, mas são suas lembranças sobre astros da música um dos maiores destaques do livro. Não à toa, ainda na época das entrevistas (Bill Graham morreu em 1991), cinqüenta e oito discos gravados no Fillmore foram lançados e dezessete destes foram disco de ouro (a conta deve ter duplicado nos últimos quinze anos). Em 2006, um site foi processado por integrantes do Doors, Led Zeppelin e Santana – entre muitos outros – por vender milhares de gravações raras de áudio e vídeo de shows coletados durante 30 anos nas casas de Bill Graham. A coleção foi descrita por analistas como uma das mais importantes do rock reunidas em um único negócio.
O mesmo pode ser dito do livro “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”. As memórias do produtor que ajudou a lançar ícones do rock não invalidam, de forma alguma, os outros livros de rock (como os citados com ironia brincalhona na abertura deste texto), mas ampliam o alcance ao registrar imagens de dezenas de personalidades e contar – um pouco que seja – sobre o submundo do rock. Não é preciso ser um expert em música para saber que a briga de egos de malas como Crosby, Stills, Nash and Young deveria ser uma tortura para os que estavam ao redor da banda – e um deleite para quem estava na platéia.
Esses momentos, porém, acabam sendo sublimados por passagens líricas como a de um casal que falsificou o bilhete de entrada de uma noite de fim de ano no Fillmore, e foi levado até a administração. Bill olhou os bilhetes, perguntou como o casal tinha feito aquele trabalho, elogiou a arte gráfica e deixou-os curtir o ano novo na companhia de Janis Joplin e Grateful Dead. Ou então uma carta que o produtor recebeu de alguém que entrou sem pagar num show, e dizia ter tido uma das melhores experiências de sua vida. O tal rapaz enviou cinco notas de um e o resto em moedas para pagar pelo ingresso do show que viu de graça. Fatos pequenos como esses são jogados aqui e ali no colo do público em um livro que muitas vezes soa violento como uma canção do Sex Pistols, do Black Sabbath ou do Led Zeppelin, mas que também poderia ter momentos de Otis Redding, Bob Dylan e Rolling Stones na trilha sonora, entre muitos, mas muitos outros. Entre os livros obrigatórios de rock, este passa a ser o número 1.
“Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”, 536 páginas
De Bill Graham e Robert Greenfield (Editora Barracuda)
Preço: De R$ 46 a R$ 59 (aqui)
Leia alguns trechos:
- Bill Graham e Jim Morrison (aqui)
- Bill Graham e Otis Redding (aqui)
Dezembro 23, 2008 15 Comments
Oito dólares e cinquenta = show dos Stones
“O show dos Rolling Stones que eu fiz naquele ano, no Oakland Coliseum, foi o primeiro que fiz num lugar daquele tamanho. Cinquenta mil lugares, e o ingresso mais caro custava oito dólares e cinquenta, valendo dois shows”.
Do livro de Bill Graham
Dezembro 3, 2008 15 Comments
Bill Graham e Jim Morrison
Estou fudidamente gripado. Não sei se foi a cerveja do fim de semana (e nem foram tantas), o futebol de salão de segunda à noite (marquei quatro gols, pisei na bola em certo momento, cai e ralei o joelho além de ter sido “calçado” pela linha lateral) ou uma virose que já pegou alguns amigos. Fato é que eu deveria escrever as 500 Toques desta semana, olhar alguns blogs de amigos e leitores e responder e-mails de gente que quer escrever para o Scream & Yell (além de ouvir alguns My Space), mas isso tudo vai ficar para depois, me desculpe.
Vou assistir “I’m Not There”, que já saiu em DVD em versão dupla (aliás, viu a promoção do site da 2001 com várias coisas bacanas por R$ 14,90?) com vários extras, tomar chá e sopa e torcer para melhorar para ver, amanhã, Bonnie ‘Prince’ Billy. Enquanto isso deixo mais um pequeno trecho de “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock and Roll”, lançamento imperdível da Editora Barrucada. Depois daquele trecho com o Otis Redding (aqui) já me diverti com passagens fodas de Chuck Berry, Janis Joplin, Cream, The Who e outros. Estou no capítulo “Verão do Amor”, e os Doors vão tocar no Fillmore…
“O Doors tinha três shows para fazer no primeiro Fillmore. Na noite anterior eles tocaram em Sacramento. Na época, estavam começando a fazer sucesso, e os ingressos esgotaram. Todo mundo da banda apareceu na hora certa, mas nada do Jim Morrison. Ele não apareceu e ninguém sabia onde ele estava. Tivemos que pedir a todo mundo para ficar com os ingressos. Reembolsamos alguns e pedimos às outras pessoas que ficassem com o ingresso para a próxima noite.
Na tarde do dia seguinte, Jim entrou no meu escritório no Fillmore pedindo desculpas. Ele me disse que quando saiu de Sacramento para ir até São Francisco, de carro, passou por um cinema. E ‘Casablanca’ estava em cartaz. E ele não podia perder. Então foi ver ‘Casablanca’ ao invés de ir para o show. E eu dizia:
- Eu sou um grande fã de Humphrey Bogart. Conheço bem ‘Casablanca’. Mas ‘Casablanca’ em Sacramento não era bem o que eu tinha em mente ontem à noite. Você devia ter ligado.
E ele:
- É, eu podia ter ligado.
E completou:
- Eu vi o filme três vezes.
Isso mostra o quanto ele gostou do filme.”
Novembro 26, 2008 3 Comments
Bill Graham e Otis Redding
Trecho sensacional do livro “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”, lançado no Brasil pela Editora Barracuda (aqui):
“Havia um grande músico que todo mundo queria ver. Todo mundo dizia: ‘Este é o cara’. Otis. Otis Redding. Ele era o cara. Para todo mundo que falava comigo. Para fazer Otis vir tocar no Fillmore, eu fui de avião até Atlanta para depois ir até Macon, que ficava no meio do nada. Acho que acabei impressionando o cara por ter ido tão longe. Mas eu pensava: ‘Como é possível explicar para alguém que eu realmente quero que ele vá tocar para mim?’. Eu poderia ter oferecido dez mil dólares, o que significaria a minha morte. Meu negócio quebraria. Na época, eu não podia pagar tanto dinheiro. Ou então eu poderia dizer que quando eu falava com artistas que respeitava, Paul Butterfield, Michael Bloomfield, Jerry Garcia, e perguntava quem era o cara, quem era o número de suas listas, eles sempre diziam que era você.
Tentei ser humilde com ele. Nada de ‘você tem que vir tocar no maravilhoso Fillmore’. Foi o contrário. ‘Todo mundo me diz que eu preciso convencer você a tocar. Eu sou fã de música latina e não conheço a sua música. Sou fã de Carmen MacRae’. O pessoal dele me perguntou sobre os jovens que iam ao Fillmore e as drogas que tomavam. Só faltava acharem que havia rituais de vodu no lugar. Aquelas tintas, as luzes, as roupas malucas. Era uma coisa estranha para eles. E esse foi outro motivo por que ir até Macon ajudou. Porque eu era um cara supercertinho que não se vestia de um jeito maluco. Finalmente, ele concordou em vir com sua banda, chamada Robert Hathaway Band. Ele tocou em dezembro de 1966. Otis Redding foi o talento mais extraordinário que eu já vi na vida. Disparado. Não havia comparação. Nem naquela época, nem agora.
Todo artista na cidade pediu para abrir o show do Otis. Na primeira noite foi o Grateful Dead. Janis Joplin chegou às três da tarde no dia do primeiro show para ter certeza de que conseguiria um lugar na frente. Até hoje, acho que nenhum músico conseguiu fazer com que todo mundo viesse para um show como ele fez. Todos os músicos apareceram. Ele era o cara. O VERDADEIRO cara. Gostasse de rhythm n’blues, rock de brancos, rock de negros ou jazz, a pessoa sempre ia ver Otis.
Ele tinha uma banda enorme. Dezoito músicos. Na primeira noite usou um terno verde, uma camisa preta e uma gravata amarela, com uma corrente de chaveiro pendurada no cinto. Tinha um metro e noventa. Era um Adônis negro. Ele se movia feito uma serpente. Uma pantera à espreita da presa. Ciente de que era o dono do universo. Belo, brilhante, negro, suado, sensual, apaixonado. Era o predecessor daquele que finalmente conseguiu tocar diante de uma platéia de fãs de rock and roll negros e brancos. Foi só quando Jimi Hendrix apareceu que me dei conta de que Otis esteve lá antes. Jimi foi o primeiro a ter mulheres brancas o desejando abertamente sem nem se dar conta disso. Mas Otis foi seu predecessor.
No palco o homem não parava de se mexer. Ele tocava uma música e, no fim, andava pelo palco. ‘Yeah! Uff! Hey! Oh! Yeah! Vamos lá! Oh! Yeah! Uff! Um, dois…’. e ai entrava na música seguinte. Três, quatro músicas depois do set da primeira noite, eu já estava em pé ao lado do palco. Eu não conseguia acreditar no quanto ele era bom. Ele começou a andar para cima e para baixo. ‘Yeah! Uff! Hey! Oh! Yeah!’. Enquanto fazia isso, uma mulher estava debruçada na frente do palco. Uma jovem negra belíssima num vestido decotado. Ela começou a suspirar como se não pudesse se conter. ‘Otis! Ah! Oh!’. Ele viu. Ele andava para cima e para baixo e dizia: “Yeah”. Estava com o microfone na mão. Ele a viu e ela disse: ‘Uhhh’. Ele atravessou o palco, se debruçou, pegou o microfone e fez uma coisa que nunca ninguém fez igual. Ele olhou para ela, e era um cara grandão e bonito, e ela estava toda animada. E ele disse olhando bem dentro dos olhos dela. ‘Essa vai com tudo para você, querida. Um, dois…’ e todo mundo fez ‘Hah!’ juntos.
Eu esperava algo especial, mas não aquilo. Aquela coisa animal. Ele fez algo naquela noite que ninguém conseguia fazer. Todo mundo batia palma enquanto ela falava ‘fa fa fa fa’ andando pelo palco. Quando terminou as pessoas estavam loucas, gritavam, ‘Yeah! Yeah!’, aplaudindo loucamente, e pouco antes do aplauso morrer tocou ‘I Been Lovin Too Long’. Ele sempre recomeçava logo antes do ânimo morrer. Logo antes de a platéia se acalmar. Vocês estão nas alturas? Vão cair? Eu ainda estou aqui. Não fui embora ainda. Ninguém nunca conseguiu isso. Até hoje eu nunca vi ninguém fazer isso. Quando Richard Pryor estava no ápice não dava para parar de rir. A gente ria, ria, ria de novo, e doía. No caso de Otis, nunca doía. O negócio é que ele era calmo. Era um cara relaxado. Mas se mexia também. Era o verdadeiro Tom Jones. A pessoa que Tom Jones sempre quis ser.
Foi uma maravilha. Otis terminou o show. Ele estava lá em cima, no camarote. Eu estava do lado de fora e ele me chamou: ‘Bill! Bill’. Eu entrei e ele disse: ‘Eu amo essas pessoas!’. Estava sem fôlego e suava loucamente porque tinha acabado de pôr o lugar abaixo. Estava lá sentado com um monte de toalhas, e eu disse: ‘Otis, nem sei o que dizer, meu deus’. E ai eu desatei a falar. A primeira coisa que ele me disse foi: ‘Muita mulher bonita aqui. Mulheres muito bonitas’.
- ‘Meu Deus’, eu disse a Otis. “Mais duas noites. Existe algo que eu possa fazer por você?’.
- ‘Não, não’, disse ele.
Quando eu estava saindo, ele disse. ‘Espere, Bill. A gente acabou de chegar da Inglaterra, e quando você faz shows lá nunca tem gelo. Será que você pode me arranjar um negócio grande com gelo e 7-Up’.
- ‘Sem problema’, eu disse.
Desci correndo as escadas até Denise, que trabalhava atrás do balcão. E falei:
- ‘Denise, preciso de contêineres grandes com gelo e 7-Up’.
- ‘A máquina quebrou’, ela me disse.
- ‘Como assim, quebrou?’
- ‘Bom, a gente continua servindo as bebidas, mas não tem gelo’.
Então sai de lá. Sai correndo de lá, possuído. Desci a Geary e fui até um mercado que ficava a um quarteirão de distância. Comprei um saco de gelo. Subi correndo a Geary de volta e entrei no Fillmore. Quebrei o gelo no balcão. Quando entrei estava resfolegando. Aí coloquei o gelo nos copos e coloquei o 7-Up. Quando cheguei lá em cima, comecei a pensar: ‘Como posso fazer o Otis saber que fiz isso por ele?’. De propósito, comecei a resfolegar de novo. Comecei a respirar como se tivesse corrido. ‘Aqui está o 7-Up’, eu disse. ‘Está bom de gelo?’.
- ‘O que houve?’, perguntou Otis.
- ‘Bom’, eu disse, ainda tentando respirar calmamente. ‘Não é nada demais… eu…. a gente… hm… a máquina de gelo quebrou. Eu tive que descer a rua para pegar gelo para você. Mas não foi nada’.
E ai Otis fez algo grande. Ele agarrou a minha camisa e disse: ‘Você fez o que? Você desceu a rua para pegar gelo para mim?’.
- ‘É. E o que que tem?’
Ele me deu um grande abraço. Depois se afastou e disse: ‘Deixa eu falar uma coisa, cara. Quando eu tocar aqui, a partir de agora, vou tocar para você’.
Se alguém quisesse saber como era o mundo dos negócios na música, eu sempre achei que aquela noite respondia. Como eu podia deixar claro que eu queria que ele voltasse a tocar para mim? Com 7-Up com gelo.”
Novembro 19, 2008 7 Comments
Blog do André Forastieri
Muito tempo atrás, acho que numa das últimas vezes que falamos algumas coisas à sério na brincadeira (hehe), comentei com o Forasta que ele devia lançar um livro com seus melhores textos nos moldes da coleção Iê, Iê, Iê, da Conrad. Ele deu uma resposta evasiva e saiu pela tangente, mas chega agora com um blog em endereço próprio que pretende reunir seus textos para diversas publicações.
Sintomaticamente, recebo a notícia do blog no mesmo momento que um leitor me manda um e-mail especial, daqueles que a gente tem que ler com os pés no chão e com uma tremenda responsabilidade: “Oi, Marcelo. Sou estudante de comunicação e blogueiro, e pretendo ser como você quando crescer”. O que posso dizer é: deixe-me de lado e vá direto à fonte:
http://andreforastieri.com.br/
E ferro na boneca!
Novembro 3, 2008 No Comments
…
“Existem quatro ou cinco lembranças muito, muito difícies com as quais eu tenho que conviver hoje, da hora que acordo até de noite. Por mais que o sol brilhe lá fora, por mais música, alegria e riso que haja em casa. Uma dessas lembranças é esta: havia uma mulher, talvez uns dois ou três lugares à frente de mim, e ela estava com uma criança pequena, e ela não queria largar da criança. E ela também estava grávida. Todo mundo podia ver. Ela ficou de joelhos, implorando pela criança. Os nazistas pegaram aquela criança e a jogaram no chão e pisaram nela, e depois chutaram, com aquelas botas, a mãe grávida. Isso é algo que não dá para esquecer. É algo que não pode ser mostrado num filme ou na televisão. E, se mostrarem, não é real. É uma encenação, algo que ninguém acredita que pode acontecer de verdade.”
Ester Chichinski
Melhor respirar fundo. Eu passei mal pra caralho em Berlim, em julho. Um guia nos levou em vários “pontos turísticos” e nos deu uma aula de história alemã. No final do tour eu estava tremendamente enjoado. Enjoado por muitos motivos, mas o principal é que essas lembranças narradas acima por Ester flutuam no ar como a poluição e os pássaros. Faz parte da atmosfera, e eles precisam manter isso no ar - acredito eu - para que as novas gerações não cometam os mesmos erros, para que ninguém nunca se esqueça disso (como se fosse realmente possível).
Ester é irmã de Bill Graham, o homem que lançou Janis Joplin, Otis Redding, Cream e muitos outros, e profissionalizou uma arte até então capenga chamada rock and roll. Bill, de família judia, foi internado aos 8 anos em um orfanato ainda em Berlim, para fugir dos nazistas, depois mandado para Paris, Barcelona, Madri e, enfim, Estados Unidos, quando foi adotado e começou vida nova. Sua mãe, segundo Ester, não chegou a Auschwitz. “Injetaram gás dentro do próprio trem, e todo mundo morreu. O trem dela, junto com muitos outros, nunca chegou aos campos de concentração”. Ester chegou em Auschwitz no fim de 1943 e foi libertada em 19 ou 20 de abril de 1945.
O relato - e vários outros - integram a parte inicial de “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”, livro que está sendo lançado pela Editora Barracuda. Mais pra frente devemos ter histórias de bastidores do rock (Pete Townshend escreveu o prefácio, Keith Richards, Eric Clapton e Santana deram depoimentos), mas esse trecho inicial - que me lembrou o começo de “E o Resto É Loucura”, biografia de Billy Wider - é extremamente sufocante, tão sufocante que não páro de pensar nele desde ontem à tarde, quando comecei a devorar o livro. Das coisas que precisam ser ditas, sempre.
Novembro 1, 2008 No Comments
Promos de livros
A Gabi me avisou, e é legal repassar:
De zero hora às 23H59 de hoje, 28 de outubro, terça-feira, todos os itens da loja eletrônica da Cosac Naify têm 50% de desconto. Aqui:
http://www.cosacnaify.com.br/promocao.asp?language=pt
E vale repetir que os livros da obrigória coleção “Iê, Iê, Iê”, da Conrad, estão esperando os incautos. A Conrad está fazendo uma promoção excelente com o pacote de quatro volumes da coleção Iê, Iê, Iê, que conta com os livros “Reações Psicóticas”, de Lester Bangs, “A Última Transmissão”, de Greil Marcus, “Criaturas Flamejantes”, de Nick Tosches e “Beijar o Céu”, de Simon Reynolds, os quatro livros por R$ 47 (R$ 11,75 cada um, uma bagatela!).
Outubro 28, 2008 5 Comments
Coleção Iê, Iê, Iê

A Conrad está fazendo uma promoção excelente com o pacote de quatro volumes da coleção Iê, Iê, Iê, que conta com os livros “Reações Psicóticas”, de Lester Bangs, “A Última Transmissão”, de Greil Marcus, “Criaturas Flamejantes”, de Nick Tosches e “Beijar o Céu”, de Simon Reynolds, os quatro livros por R$ 47 (R$ 11,75 cada um, uma bagatela!). Aqui.
Outubro 19, 2008 2 Comments
























