Category — Bebidinhas
Opinião do Consumidor: Leffe, Parte 2
Quatro rótulos mais conhecidos da conceituada Abadia de Leffe já passaram por aqui (as excelentes Leffe Blond, Leffe Brown, Leffe Radiuse e Leffe Tripel) e agora é a vez de outras duas representantes menos comuns (mas tão boas quanto) da cervejaria belga provocarem o paladar: a afrancesada e natalina Leffe Bière de Noël (também conhecida como Kerstbier) e a adocicada e alcoólica Leffe 9º.
A Leffe Bière de Noel é sazonal e, como o próprio nome entrega, especial para festas natalinas. Extremamente condimentada, o aroma é uma mistura de especiarias (notadamente cravo e pimenta do reino) com amêndoas, caramelo e… areia. O paladar é dulcíssimo (até demais) com leves pitadas de amargor que fazem com que seus 6,6% de graduação alcoólica desapareçam (mas o álcool está ali… cuidado). Uma bela cerveja indicada para acompanhar bons queijos e, segundo o site oficial, magret de pato.
A versão 9º da Leffe é uma cerveja de alta fermentação que replica várias características de outros rótulos da cervejaria: o aroma aerado e condimentado devido a especiarias, uma das principais marcas da Leffe, marca presença de forma densa e esconde os 9% de álcool. Há ainda algo de malte de caramelo. Diferente das outras Leffe, porém, o álcool aparece no paladar, de forma delicada, mas presente. Ele está ali de mãos dadas com o malte de caramelo em uma cerveja leve (apesar da alta quantidade de álcool) que começa adocicada e termina do mesmo jeito (com final marcado por pêra e banana).
Em alguns momentos, a Leffe 9º lembra a brasileira Wäls Quadruppel, que, no entanto, é um pouco mais picante (devido a cachaça e a seus 11% de graduação alcoólica). O exemplar belga é mais licoroso e comportado, mas ainda assim bastante interessante. Com estas duas cervejas da família Leffe chegamos a seis rótulos faltando ainda a Leffe Ruby (uma fruit beer de framboesa) e a sazonal Printemps (que circula no verão europeu). Calma que a gente chega lá.
Por ser sazonal, a Leffe Bière de Noel costuma ser encontrada no mercado entre outubro e fevereiro, mas sua validade extensa (essa garrafa da foto era válida até junho de 2013) permite que ela esteja na prateleira durante vários meses. Porém, tanto ela quanto a 9º não são encontráveis com tanta facilidade em supermercados no Brasil sendo mais indicado procura-las em sites como o Clube do Malte e/ou empórios. O preço (no Brasil) é mais puxado: entre R$ 17 e R$ 20.
Teste de Qualidade: Leffe Bière de Noel
- Produto: Speciality
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 6,6%
- Nota: 3,51/5
Teste de Qualidade: Leffe 9º
- Produto: Belgian Golden Strong Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 9%
- Nota: 3,92/5
Leia também
- Cinco pubs de cervejarias nos EUA, por Mac (aqui)
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
- Leffe Blond, Brown, Radiuse e Tripel, por Mac (aqui)
Fevereiro 6, 2012 2 Comments
Opinião do Consumidor: Bodebrown
Primeira Cervejaria Escola do Brasil, fundada em 2010, a curitibana Bodebrown vem ganhando destaque merecido desde que Samuel Cavalcanti transformou sua cervejaria em uma “casa da cerveja”, tendo ensinado mais de 400 pessoas a produzir cerveja, e comercializando todo o material necessário para a produção de cerveja artesanal. Além de apoiar a cultura cervejeira, a Bodebrown é responsável por três rótulos de altíssima qualidade: a Bodebrown Hop-Weiss, a IPA Perigosa e a premiada Wee Heavy.
A Bodebrown Hop Weiss surpreende aqueles que esperavam uma Weiss tradicional: a mistura de malte de cevada com malte de trigo, junto ao lúpulo de amarillo, faz a cerveja ficar translúcida. As tradicionais notas de banana desaparecem dando lugar a tons cítricos que remetem principalmente a maracujá, e valorizam o malte. No paladar ela surge adocicada e aconchegante, com o maracujá novamente batendo ponto até o final… suave (e quase nenhum amargor). Eis uma cerveja refrescante e saborosa.
Já a versão Imperial IPA da Bodebrown, carinhosamente chamada de Perigosa (ex-Venenosa), não brinca em serviço: é uma cacetada de lúpulo presente já no aroma, intenso, bem balanceado entre o cítrico (limão) e o adocicado (caramelo). A brincadeira não para por ai: no paladar, o lúpulo carregado causa um forte amargor, característico do estilo norte-americano, mas vai se aconchegando entre notas cítricas e carameladas até seu final, complexo e nada alcoólico (apesar dos 9,2% de graduação). Um tesouro.
O rótulo da Wee Heavy, medalha de ouro na 18ª edição do Mondial de la Biére, em Montreal, no Canadá, avisa: “O ponto central desta receita é o malte”. A inspiração é uma velha receita de monges beneditinos de terras escocesas datada de 1719. O aroma segue a indicação do rótulo, com malte em destaque e variações de tostado que abrangem café, caramelo e chocolate. O paladar carrega um dulçor alcoólico que encanta aliado às variações tradicionais do aroma. O final é seco com uma leve lembrança de caramelo. Puro ouro.
Os curitibanos podem comprar qualquer uma das cervejas da Bodebrown diretamente na cervejaria, mas quem é de fora pode recorrer ao excelente site do Clube do Malte (aqui), que entrega em todo o território nacional com frete fechado de R$ 15 (no site, cada uma das Bodebrown está saindo por R$ 17,90, mas existem promoções que barateiam o preço). Ainda vale recorrer ao próprio site da Bodebrown (aqui). Além das três acima eles têm uma Graviola Barley Wine e uma Bodebrown Cerveja do Amor (frutada). Se eu morasse em Curitiba, iria “estudar” lá. Fica a dica…
Teste de Qualidade: Bodebrown Hop Weiss
- Produto: Hop Weiss
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 5%
- Nota: 3,22/5
Teste de Qualidade: Perigosa
- Produto: Imperial IPA
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 9,2%
- Nota: 3,92/5
Teste de Qualidade: Wee Heavy
- Produto: Strong Scoth Ale
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 8Graviola Barley Wine %
- Nota: 4,13/5
Leia também
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
Janeiro 31, 2012 3 Comments
Um blind date com… oito cervejas
Dia desses cheguei em casa e dei de cara com uma enorme caixa na portaria. Ao abrir, no apartamento, qual não foi a surpresa ao me deparar com sete garrafas e uma lata cuidadosamente ajeitadas, com muito carinho, como deve ser, com as cervejas de verdade. Nenhuma carta, só o aviso do “blind date” proposto pela Heineken: que tal um encontro às escuras… mas com cervejas.
O projeto United Beers of The World trata do que está sendo chamado de “confraria do prazer”. São oito cervejas de vários cantos do mundo, ganhadoras de prêmios, que formam um time exclusivo (e que estão rendendo uma promoção incrível no site do projeto, sorteando frigobares retro personalizados – veja aqui), variado, mas de bastante personalidade. Algumas das United Beers of The World já são velhas conhecidas deste espaço.
Do fim (da foto) para o começo, a Edelweiss Weissbier é a cerveja de trigo número 1 da Áustria. Seu nome foi inspirado na flor Edelweiss, que cresce no alto dos Alpes, cuja coleta é proibida por lei. Assim, dizem os austríacos, ao invés de dar uma flor, você pode presentear sua amada com uma taça de Edelweiss (boa, vai). Já tinha escrito sobre ela aqui, e, na compania da Lili, bebido uma em Budapeste. Foi a primeira que abri.
Na seqüência, a irlandesa Murphy, em duas versões: a Murphy’s Irish Red e a Murphy’s Irish Stout. A fábrica delas fica em Cork, na Irlanda, uma cidade apaixonante (falo sobre ela aqui). A Irish Red representa o time das Red Ale, cervejas de cor avermelhada, devido ao malte tostado, que marca não só a cor como o aroma e também o paladar. Já a Irish Stout é, como os próprios irlandeses dizem, uma cerveja tão escura quanto um capuccino forte. Extremamente saborosa.
Saindo do território das encorpadas e partindo para as suaves: a holandesa Amstel, que leva o nome do rio que corta Amsterdã (cuja água era usada na refrigeração das caves para o armazenamento da cerveja), surge com esta versão Pulse, indicada para o público das baladas (a versão tradicional é mais saborosa; essa é mais leve, e refrescante); já a Itália é representada pela Birra Moretti, que bebi em Roma (caiu bem debaixo de um calor imenso), o México pelas conhecidas Sol e Dos Equis (que estão ganhando terreno no Brasil.
A ex-Ilha de Vera Cruz está representada no United Beers of The World pela Xingu, uma das cervejas nacionais que mais aprecio. E ela até está no cardápio do Pub Delirium Tremens, de Bruxelas, o local que tem mais cervejas do mundo todo pronta para ser colocada no copo. Ela fecha o time caprichado do United Beers of The World, as oito agora encontradas com muito mais facilidade no Brasil. Agora é só preparar o “blind date” pessoal de cervejas. Aqui só sobrou a caixa…
Leia também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
- Conheça algumas cervejas belgas, alemãs, brasileiras, argentinas (aqui)
Janeiro 25, 2012 1 Comment
Opinião do Consumidor: La Gauloise
Aberta em uma fazenda em 1858 no Vallée du vale Bocq, em Purnode, Bélgica (distante uma hora de Bruxelas e meia hora da fronteira com a França), a Brasserie Du Bocq fabricava cerveja apenas no inverno, quando não havia trabalho para os trabalhadores da fazenda. No entanto, o carro chefe da cervejaria, a Gauloise, surgiu apenas após a Primeira Guerra Mundial, fez sucesso imediato e continua encantando o mundo.
A carta da cervejaria se estendeu dos anos 20 para cá e a Du Bocq mantém mais de 20 rótulos no cardápio, com destaque para a Blanche Des Moines e a Blanche de Namur (a última, eleita melhor cerveja de trigo no World Awards Beer 2009) além claro das três versões da La Gauloise: Blonde, Ambree e Brune (as duas primeiras encontradas com mais facilidade atualmente no Brasil).
A versão loira da Gauloise lembra, num primeiro momento, algo entre a Leffe Blonde e a Duvel, e isso desde o aroma, que remete a algo de frutas cítricas (bem forte), uvas verdes, especiarias além de um toque meio azedo e bem frutado. No paladar, a Gauloise é muito mais leve que a concorrente da Mortgaart (e não tão personal quanto a Leffe), mas nem por isso menos saborosa. O cítrico e o frutado dominam a atenção, o álcool (6,3%) é quase imperceptível e o conjunto harmônico surpreende. Uma bela cerveja.
Já a premiada Amber traz um aroma com quase as mesmas marcas da versão loira – com as especiarias, notadamente o cravo, marcando mais presença. E também um pouco de melaço. Já no paladar ela impressiona pela suavidade, com o malte aparecendo para dar um rápido olá enquanto o lúpulo faz a festa (há também algo de frutado, meio cítrico, talvez abacaxi – e ainda caramelo e coentro). O álcool, tímido (5,5%), dá as caras só no final, mas bem no finalzinho, quando o adocicado já tomou conta da alma.
Ficou faltando a versão Brune, a mais forte das três irmãs (8,1%), mas só por estas duas belas cervejas já vale recomendar o cardápio da belga Brasserie Du Bocq. As garrafas de 330 ml, baixinhas e gordinhas como as da Duvel e da La Chouffe, podem ser encontradas entre R$ 8 e R$ 13 em bons empórios (as minhas vieram via correio do Clube do Malte) e valem muito a experiência.
Teste de Qualidade: Gauloise Ambree
- Produto: Belgian Pale Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 5,5%
- Nota: 3,92/5
Teste de Qualidade: Gauloise Blond
- Produto: Belgian Blond Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 6,3%
- Nota: 3,70/5
Leia também:
- A Duvel é simplesmente fantástica, por Marcelo Costa (aqui)
- La Achouffe, quase indescritível, por Marcelo Costa (aqui)
Janeiro 5, 2012 No Comments
Opinião do Consumidor: Schlenkerla

O estilo Rauchbier elenca um tipo de cerveja produzido a partir de malte defumado. O malte de cevada era seco com a fumaça (rauch) de um forno, e mesmo com a industrialização, duas cervejarias da cidade de Bamberg, na Alemanha (a Schlenkerla e a Spezial), mantém o método tradicional que resulta em um conjunto intenso e bastante particular, recomendada para pessoas de paladar forte.
A cervejaria Schlenkerla produz rauchbiers desde 1678 e o carro chefe é a versão Marzen. O aroma traz a marca do malte defumado intensamente presente, desdobrando-se em algo que remete a molho barbecue e bacon. Causa estranheza no começo, mas siga em frente. O paladar, amargo e intenso, lembra café forte, torrefação, chocolate amargo e… churrasco. O malte defumado gruda na garganta de tal forma que o final é prolongado e permanece um bom tempo.
A versão Weizen junta o malte defumado com dois tipos de malte de trigo (estes não defumados). A expectativa era de que ela soasse menos defumada, mas o aroma é carregado de algo que lembra… bacon. E peito de peru. O trigo aparece sutilmente (principalmente quando a cerveja é bebida em temperatura ambiente, mais apropriada). O paladar, sem fazer drama, é isso tudo: bacon, peito de peru, fumaça, churrasco. Aliás, num churrasco ela deve ser absolutamente imbatível.
Além da Marzen e da Weizen, a Schlenkerla produz uma versão Urbock Rauchbier. São cervejas bem particulares que me parecem impensáveis sem um acompanhamento, e vale muito a dica de harmonizações do Brejas (que tal com uma pizza de calabreza? Veja aqui). São cervejas intensas e que melhoram com o tempo no copo (ao contrário das nossas, que ficam terríveis quando esquentam).
Interessante a descrição em um site: “O conhecedor toma esta cerveja devagar, mas com persistência e objetividade. Ele sabe que o segundo copo é mais gostoso que o primeiro, e que o terceiro é mais gostoso que o segundo”. Crie coragem.
Teste de Qualidade: Aecht Schlenkerla Rauchbier Weizen
- Produto: Rauchbier
- Nacionalidade: Alemanha
- Graduação alcoólica: 5,5%
- Nota: 3/5
Teste de Qualidade: Aecht Schlenkerla Rauchbier Marzen
- Produto: Rauchbier
- Nacionalidade: Alemanha
- Graduação alcoólica: 8,5%
- Nota: 3/5
Dezembro 17, 2011 2 Comments
Opinião do Consumidor: Antares
No final dos anos 90, três amigos de faculdade (dois caras e uma garota) decidiram abrir um pub num velho galpão em Mar Del Plata, na Argentina, oferecendo cerveja artesanal. O nome homenageava uma estrela gigante e vermelha, a 16ª mais brilhante do céu, e, 13 anos depois, a Antares se tornou a maior micro-cervejaria portenha, com sete rótulos no cardápio (e uma produção mensal de 45 mil litros).
Segundo o site oficial, a cervejaria argentina buscou na Antares Porter seguir o “clássico estilo inglês”. O aroma, marcado pelo malte tostado, remete a chocolate e café. O paladar segue o aroma: começa adocicado (caramelo e chocolate) e no final sugere um leve amargor, que permanece durante um bom tempo (o malte tostado faz o serviço). É uma cerveja simples, sem muitas nuances, que parece rala e aguada demais. Apenas ok.
A versão Imperial Stout leva à frente aquilo que a Antares Porter promete, mas não cumpre: o aroma é muito mais carregado de notas de chocolate, café e mel (o último, bastante presente). O paladar, ainda que amargo, também é comandado pelo mel, com chocolate e café presentes (e uma alfinetada de álcool – são 8,5% de graduação alcoólica levemente perceptíveis) do inicio ao fim. Melhor que a Porter, mas ainda assim, apenas ok.
Fechando esse primeiro lote da micro-cervejaria argentina, a poderosa Antares Barley Wine (10% de graduação alcoólica) mostra bastante personalidade. O melaço já se faz presente no aroma extremamente maltado (como uma boa Barley Wine) e um tiquinho frutado – e, claro, alcoólico. No paladar, o malte dá as cartas enquanto mel e o amargor do lúpulo fazem um fundo interessante. O final é amargo e seco de uma ótima cerveja.
A Antares está sendo distribuída no Brasil pelo Clube do Malte, de Curitiba, que ainda comercializa molho e geleias feitos à base de cerveja pelos argentinos. Visitando o país, vale conferir no site da cervejaria os endereços dos Pubs Antares (Buenos Aires, Bariloche, La Plata, Mendoza e, claro, Mar Del Plata), afinal, tirada de torneira, ela será uma experiência ainda melhor.
Teste de Qualidade: Antares Porter
- Produto: Porter
- Nacionalidade: Argentina
- Graduação alcoólica: 5,5%
- Nota: 2,20/5
Teste de Qualidade: Antares Imperial Stout
- Produto: Russian Imperial Stout
- Nacionalidade: Argentina
- Graduação alcoólica: 8,5%
- Nota: 2,77/5
Teste de Qualidade: Antares Barley Wine
- Produto: Barley Wine
- Nacionalidade: Argentina
- Graduação alcoólica: 10%
- Nota: 2,91/5
Leia também:
- Schmitt, uma ótima Barley Wine gaúcha, por Marcelo Costa (aqui)
- Monster Ale, a Barley Wine da Brooklyn, por Marcelo Costa (aqui)
Dezembro 15, 2011 1 Comment
Opinião do Consumidor: Leffe
A Abadia de Notre-Dame foi fundada em 1152 à beira do rio Meuse, na província de Namur, no sul da Bélgica. Nessa época, os monges fabricavam cerveja porque ela ajudava a impedir que epidemias tifóides e outras se espalhassem através da água contaminada, já que a esterilização durante sua fabricação impedia a contaminação. Em 1200, os monges decidiram mudar o nome do mosteiro para Abadia de Leffe.
Cerveja, cerveja mesmo, só foi aparecer na Abadia em 1240 (segundo os registros históricos), mas a Abadia sofreu várias intempéries através dos anos: uma enchente em 1460, um incêndio em 1466, tropas a danificaram em 1735 e durante a Revolução Francesa, em 1794, os monges tiveram que abandoná-la. A fabricação de cerveja continuou em uma escala menor até 1809, quando foi interrompida completamente.
Os monges só retornaram para a Abadia em 1902, e em 1937 a Abadia de Leffe foi declarada patrimônio histórico (é possível visita-la. Veja aqui). Em 1952, os monges firmaram aquele que é conhecido como um dos primeiros contratos de royalties entre um mosteiro e uma cervejaria comercial, aumentando o alcance das cervejas Leffe, que passaram a integrar posteriormente o cast da toda poderosa InBev.
A receita tradicional é a mesma desde 1240, dizem, e é difícil discordar, já que estamos diante de uma cerveja bastante particular e especial. Atualmente são nove os rótulos produzidos/distribuídos pela Abadia (contando as sazonais) e três deles estão sendo trazidos ao Brasil pela AmBev: dois, Blond e Brune, desde 2009, e o terceira, a paulada Radieuse, a partir de 2011.
A Leffe Blond é o carro-chefe da Abadia, avisa o site oficial. O aroma já prenuncia o que vem pela frente: malte, cravo, especiarias, frutado, floral e adocicado conquistam o olfato. O paladar segue o aroma: o cítrico lembra casca de laranja, as especiarias tocam o céu da boca levemente, o malte arranja um espaçinho pra chamar de seu, o lúpulo está ali, levemente amargo, mas o final é impressionantemente doce e suave. Uma pequena obra-prima, personal e delicada. Mas cuidado: são 6,6% de álcool imperceptíveis.
A Leffe Brown segue o padrão de qualidade da versão loira. A diferença, óbvia, é que o malte torrado valoriza as notas de café e chocolate eliminando as especiarias. O aroma parece o da Blond sem o cravo, o floral e o frutado. No paladar ela sugere mais doçura que sua irmã loira, embora o amargor, ainda que leve, marque mais presença. O malte surge em primeiro plano, caramelado, dançando com o álcool, imperceptível, que evita um dulçor excessivo. O final adocicado abre apenas uma breve fresta para o lúpulo.
Com 8,2% de graduação alcoólica e recomendação de bebê-la na compania de carnes de sabor forte (como vitela e pato) e pratos condimentados e/ou apimentados, a Leffe Radiuse traz em sua composição cravo e semente de coriandro (especiaria da Ásia e norte da África). O aroma irresistível até lembra um pouco a versão Blond (uma mistura arrebatadora de cítrico com especiarias), mas a coisa pega no paladar, mais alcoólico, melado e… saboroso. Malte e lúpulo aparecem mais junto ao cravo, marcante, que sugere uma picancia que fica até o final, levemente amargo. Para ocasiões especiais.
Ainda mais forte que a Radiuse, a Leffe Tripel é apresentada no site oficial como “robusta”, o que sem dúvida a resume bem. Sua fermentação alcança a graduação alcoólica de 7%, que sobe para 8,5% quando refermentada na garrafa. O aroma é forte e lembra algo de biscoito (há fermento e milho entre os ingredientes) assim como um frutado intenso e algo de picante e maltado. O paladar é espesso, cítrico e maltado com um amargor leve, que toca o céu da boca – e fica até o final. Ainda há algo de coentro, álcool, abacaxi e defumado nesta boa cerveja, que, no conjunto, fica devendo para as outras da casa.
Além destas quatro representantes acima, a Abadia de Leffe tem em seu catálogo a Leffe Ruby (de framboesa) e a Leffe 9º (um strong ale poderosa) além das sazoanais Leffe Vieille Cuvée (8,2% caprichados e mais bem inseridos que na Tripel), Leffe de Printemps (6,6% para o verão) e a natalina Leffe Bière de Noël (6,6% carregado de especiarias).
Das nove cervejas deste post, as três primeiras (Blond, Brown e Radiuse) são facilmente encontradas a preços excelentes (entre R$ 4,50 e R$ 7) em supermercados, empórios e cervejarias por importação da InBev (vale dar uma olhada no Empório da Cerveja Submarino). As demais vale agendar uma visita a Bruxelas e beber por lá.
Teste de Qualidade: Leffe Blond
- Produto: Blond Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 6,6%
- Nota: 4,15/5
Teste de Qualidade: Leffe Brown
- Produto: Dubbel
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 6,5%
- Nota: 4,13/5
Teste de Qualidade: Leffe Radiuse
- Produto: Dark Strong Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 8,2%
- Nota: 4,06/5
Teste de Qualidade: Leffe Tripel
- Produto: Tripel
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 8,5%
- Nota: 3,73/5
Leia também
- Cinco pubs de cervejarias nos EUA, por Mac (aqui)
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
Dezembro 11, 2011 1 Comment
Opinião do Consumidor: Brooklyn (parte 3)

Para comemorar datas especiais, muitas cervejarias criaram rótulos únicos para atender ao consumo do público em determinado período do ano. Como exemplo, duas “october’s seasonals” (como avisa o marketing aqui) da Brooklyn chegam ao Brasil para ampliar a paixão por esta cervejaria altamente personal de Nova York: a Brooklyn Oktoberfest (com rótulo diferente do ano passado) e a Post Road Pumpkin Ale (outras duas sazonais – Black Chocolate Stout e Monster Ale – já foram lançadas aqui restando apenas as versões Summer e Winter Ale, ainda inéditas no Brasil).
A bela versão Oktoberfest da cervejaria novaiorquina paga tributo à Bavária usando dois tipos de lúpulos (um floral, outro amargo) e maltes alemães – de Munique e Bamberg. O resultado é uma Marzen Beer de cor alaranjada escura e forte presença de malte – mas nem tanto. No aroma, o malte ganha fácil deixando algo de caramelo e um leve cheiro de tempero. No paladar, o caramelo volta a entregar a boa presença de malte, mas o lúpulo marca o final com um leve e gostoso amargor. No entanto, falta ao conjunto algo – talvez adocicado ou de tempero – que marca as cervejas Brooklyn.
Já a Post Road Pumpkin Ale é, como o nome e o rótulo entregam, uma cerveja com abóbora. E não é pouca: centenas de quilos de abóbora são triturados e misturados durante o cozimento do malte – que busca extrair os açúcares necessários à fermentação da cerveja. Ou seja, doce a Pumpkin Ale não é. Os maltes são norte-americanos, belgas (aromáticos) e ingleses. O lúpulo, também nacional (ou seja, Garrincha, norte-americano). Há, ainda, o acréscimo de especiarias tornando a Pumpkin Ale uma cerveja bastante particular.
O aroma, assim que a garrafa é aberta, é puro abóbora. Sabe o doce que a vovó fazia? Aquilo. Há, ainda, a presença de malte e algo que remete a nóz moscada. O paladar, numa confusão de sabores, é um duelo entre o malte e a abóbora, e quem sai vencedor é o conjunto, que honra a marca Brooklyn. A nóz moscada retorna acompanhada de cravo (bem distinguível) e canela (será a lembrança da infância?) e mesmo o amargor do lúpulo é bastante suave frente a um leve sabor picante que toca o céu da boca deixando no final um rastro de cravo e abóbora. Sensacional.
A versão Oktoberfest surgiu da tradição alemã. Quando Ludwig, herdeiro da coroa da Bavária, quis celebrar seu noivado em 1810, fez um festival de cervejas, e tanto o festival quanto as cervejas ficaram conhecidos como Oktoberfest. Já a Post Road Pumpkin Ale remete aos primeiros colonizadores que chegaram ao Novo Mundo, e frente a fartura de abóbora, decidiram introduzir o novo ingrediente na fórmula da cerveja que traziam da Europa. Nascia assim uma cerveja extremamente particular, que a Brooklyn homenageia.
A Post Road Pumpkin Ale é produzida de agosto a novembro enquanto a Oktoberfest, honrando o nome, é fabricada apenas durante o mês de outubro. Os dois rótulos, lançados no Brasil no festival Wikibier, em Curitiba (22/10), e ainda podem ser encontradas em bons empórios e distribuidores ao preço de R$ 14,50 a garrafa de 330 ml (mais cara que as Brooklyn tradicionais, entre R$ 7 e R$ 10, e mais em conta que as versões Black Chocolate Stout e Monster Ale, em torno de R$ 21). São cervejas curiosas para momentos especiais. Agora só falta chegar ao Brasil a excelente Brooklyn Pennant Ale, uma delícia.
Teste de Qualidade: Brooklyn Oktoberfestl
- Produto: Marzen
- Nacionalidade: Estados Unidos
- Graduação alcoólica: 5,5%
- Nota: 3,07/5
Teste de Qualidade: Post Road Pumpkin Ale
- Produto: Pumpkin Ale
- Nacionalidade: Estados Unidos
- Graduação alcoólica: 5,5%
- Nota: 3,29/5
Leia também
- Cinco pubs de cervejarias nos EUA, por Mac (aqui)
- Brooklyn Monster Ale e Black Chocolat Stout (aqui)
- Brooklyn Lager, Brown Ale e India Pale Ale (aqui)
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
Outubro 30, 2011 No Comments
Opinião do Consumidor: Duvel
A Duvel Moortgat Brewery é uma cervejaria que foi fundada na região flamenga da Bélgica em 1871, mais propriamente em Breendonk, meio do caminho entre a central Bruxelas e a portuária Antuérpia. O carro chefe da casa é a loira Duvel, uma cerveja absolutamente encantadora cujo nome tem origem no dialeto Brabant (pronuncia Dyvel), uma mistura de holandês, francês e alemão, cujo significado é… Diabo. Não pense em brincar com ela.
Lançada na década de 20 para comemorar o fim da Primeira Guerra Mundial, a Duvel no início se chamava Victory Ale, mas a família Moortgat decidiu mudar o nome quando um bebedor a descreveu como um diabo real. A garrafa, baixinha e gordinha, lhe dá um aspecto fofo, mas é bom levar muito à sério essa que é considerada por muitos a versão definitiva do estilo Belgian Strong Golden Ale, versão turbinada e altamente saborosa das ales tradicionais.
O aroma complexo e viciante destaca uvas verdes, maçã e frutas cítricas, e também algo picante que se aproxima de cravo e pimenta do reino (mas mantendo o adocicado). Há, ainda, mel (provavelmente derivado da mistura do malte belga com açúcar branco) e, claro, álcool, afinal são 8,5% de graduação alcoólica distribuídos de forma exemplar no conjunto (que ainda recebe lúpulo da Bohemia com leveduras de origem escocesa).
Já o paladar não fica atrás em complexidade. Lúpulo e malte travam um duelo interessante que consegue aconchegar o paladar distanciando a presença do álcool – que não aparece, mas está ali, inserido de forma tão caprichada que você só sentirá o efeito após duas ou três garrafinhas. Ainda assim, o malte consegue se sobressair marcando o céu da boca e deixando apenas o trecho final – e seco – para o lúpulo, que não chega a marcar de amargor o conjunto. Simplesmente fantástica.
Exportada para mais de 40 países, a Duvel é facilmente encontrada no Brasil em qualquer bom empório, embora o preço não seja nada convidativo: entre R$ 18 e R$ 24 a garrafa de 330 ml (na Europa custa até 4 euros, cerca de R$ 10). Vale cada centavo. Além da Duvel, a Moortgat Brewery é dona da Maredsous (fabricada sob licença dos monges da abadia de mesmo nome desde 1963) e, desde de 2006, da excelente Brasserie d’Achouffe.
Teste de Qualidade: Duvel
- Produto: Belgian Strong Golden Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 8,5%
- Nota: 5/5
Leia também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (leia aqui)
- Top 10 Cervejas Européias Tour 2008, por Mac (aqui)
- Do capítulo “cerveja também é cultura”: La Achouffe (aqui)
Ps. O copo tradicional é presente do amigo Carlos Soares, ganho em uma feira de cervejas, a Gentse Feesten 2009, em Gent. Valeu, amigo!
Outubro 19, 2011 8 Comments
Opinião do Consumidor: Warsteiner
A pequena cidade de Warstein, localizada no Estado da Renânia do Norte-Vestfália (a menos de 1h30 de Düsseldorf e Dortmund), entrou no mapa cervejeiro em 1753, quando a cervejaria Arnsberg Forest Nature Park foi fundada. Com menos de 30 mil habitantes, Warstein (ao contrário de muitas outras cervejarias) não deixou de fabricar cerveja nem durante a guerra, e a Arnsberg Forest Nature Park segue ainda hoje nas mãos da propriedade privada.
Atualmente, a Arnsberg produz quatro rótulos: Warsteiner Premium Verum, Warsteiner Premium Dunkel, Warsteiner Premium Fresh e König Ludwig Weiss, sendo que apenas as três primeiras estão disponíveis no mercado brasileiro. A Verum é uma tradicional pilsen alemã, bastante leve e refrescante (que poderá agradar o paladar médio nacional). O aroma maltado se destaca, e o lúpulo – ainda que em quantidade moderada – marca o paladar com um leve amargor. Lembra Heineken – tão tradicional quanto normal.
A Warsteiner Premium Dunkel, no entanto, se sai melhor. A Arnsberg tenta unir a leveza da pilsen clássica com o sabor de uma dunkel, e o resultado é interessante. No aroma, o malte tostado é suave e sugere chocolate e café (mas com bastante leveza). Já no paladar, o malte tostado chega com mais intensidade (embora ainda distante de um dunkel tradicional) encobrindo o lúpulo. A sensação de café sobrepõe a do chocolate e a nota final é bastante agradável em uma cerveja que consegue ser saborosa e leve.
A Warsteiner vem sendo exportada internacionalmente desde a década de 1980, e a empresa também adquiriu ações de outras cervejarias internacionais, como a Isenbeck na Argentina e cervejarias na África. Para o Brasil, ela vem sendo trazida da Alemanha pelo pessoal da Bier & Wien, o que não impede você de encontrá-la com fabricação argentina. Segundo consta, a versão alemã é superior (e sai entre R$ 6 e R$ 9 a garrafa de 330 ml em vários empórios e lojas online – há ainda versões de 1 litro).
Teste de Qualidade: Warsteiner Premium Verum
- Produto: Pilsen
- Nacionalidade: Alemanha
- Graduação alcoólica: 4,8%
- Nota: 2,38/5
Teste de Qualidade: Warsteiner Premium Dunkel
- Produto: Dunkel
- Nacionalidade: Alemanha
- Graduação alcoólica: 4,8%
- Nota: 2,93/5
Leia também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (leia aqui)
- Primeiro Beer Experience, em São Paulo, por Marcelo Costa (aqui)
Outubro 3, 2011 No Comments
Opinião do Consumidor: Einbecker
A Einbecker Brauhaus foi aberta na baixa Saxônia, Alemanha, em 1378 e segue desde então fabricando cervejas – sendo uma das responsáveis pela popularização do estilo Bock, uma lager muito mais encorpada, ruiva, maltada e até um pouco doce. Bock é uma corruptela de “Ein Beck”, a cidadezinha natal da Einbecker (com pouco mais de 25 mil habitantes e uma paisagem que, ainda em 2011, não parece ter saído do século 15), e nasceu da necessidade de ser transportada para a Itália (numa história bem próxima a das Indian Pale Ales). A Einbecker produz atualmente onze rótulos de cerveja.
A versão Ur-Bock Dunkel da Einbecker Brauhaus é marcada pela forte presença de malte de caramelo tostado no aroma – e um bocadinho de álcool, bem suave, e também mel. O paladar começa bastante agradável com o malte de caramelo se apresentando em um conjunto denso que valoriza o lúpulo enquanto se desmancha levemente deixando um amargor suave no céu da boca e no começo da garganta. Porém, o final, longo e amargo, deixa a impressão de um conjunto pouco harmonioso (doce demais no começo, amargo demais no final).
Já a Ur-Bocok Hell é uma versão loura da Bock Dunkel da casa. O aroma maltado e levemente adocicado surpreende abrindo espaço também para o lúpulo. O paladar é refrescante e o conjunto disfarça de forma exemplar os 6,5% de graduação alcoólica – que em nenhum momento chega a agredir. O malte novamente chama pra si a atenção deixando uma marca suave no céu da boca enquanto o lúpulo se encarrega de caprichar no final levemente amargo – mas de um leve surpreendente. Uma excelente representante do estilo.
Teste de Qualidade: Ur-Bock Dunkel
- Produto: Bock
- Nacionalidade: Alemanha
- Graduação alcoólica: 6,5%
- Nota: 2,1/5
Teste de Qualidade: Ur-Bock Hell
- Produto: Bock
- Nacionalidade: Alemanha
- Graduação alcoólica: 6,5%
- Nota: 3,75/5
Leia também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (leia aqui)
- Primeiro Beer Experience, em São Paulo, por Marcelo Costa (aqui)
Setembro 21, 2011 1 Comment
Opinião do Consumidor: Bourganel Brewery
Inaugurada no sul da França em 1997, a Bourganel Brewery especializou em cervejas exóticas e aromáticas mantendo um nível de graduação alcoólica padrão de 5% em suas lagers, que, porém, desaparece no conjunto variado que inclui adição de castanhas portuguesas, mirtilo, mel e verbena. O foco é o paladar feminino, e tem dado resultados. A cervejaria – que começou artesanal – aumentou o maquinário em 2004 e lançou novas experiências nos últimos anos. São cervejas para poucos, mas vale a curiosidade.
Como o nome e o rótulo entregam, a Bourganel Au Miel de Châtaignier leva em sua formulação mel de abelha. O aroma dulcíssimo impressiona logo de cara. O mel vem à frente com o malte floral em segundo plano, distante, sem conseguir competir em balanço. O paladar segue o que aroma adianta com mel e caramelo se destacando bastante, mas com um bocadinho de amargo marcando presença – principalmente no final. No fim das contas até que a Au Miel de Châtaignier se prova interessante.
Já a versão Nougat da Bourganel é absolutamente estranha. Você consegue imaginar uma cerveja com aroma e sabor de… torrone? Parece que esqueceram uma barrinha do doce dentro de um copo da cerveja. O aroma tradicional de cerveja desaparece com amêndoas, chocolate e torrone encobrindo o malte, que desaparece na fórmula (apesar dos 5% de graduação). O sabor é enjoativo e lembra um suco aguado de amêndoas (talvez misturando horchata com uma pilsen tradicional você chegue ao mesmo resultado). Decepcionante.
Partimos então para a terceira representante da casa, a boa Bourganel aux marrons de l’Ardèche, uma cerveja com castanha portuguesa em sua formulação. O aroma interessante remete não só a castanha, mas também a chocolate, caramelo e nozes. O paladar, entre o aguado e o pastoso, é despido quase que totalmente de amargor, sem que apele excessivamente para a doçura – o final, inclusive, fica no meio termo. Eis uma cerveja extremamente leve com a característica Bourganel de não parecer uma cerveja.
Está achando tudo meio exótico? Imagine então uma cerveja verde. É a Bourganel Bière à la Verveine Velay, que ganha essa cor devido à inserção de extrato alcoólico de verbena, uma flor da região da cervejaria com poder de calmante contra nervosismo e distúrbios gastrointestinais relacionados ao estresse. É sério! O aroma não traz nada de álcool, mas sim uma disputa entre menta e erva cidreira. No paladar, esqueça o amargor. Ele até chega a tocar o céu da boca, só que desaparece em fração de segundos. O malte, no entanto, faz um charme maior, mas no fim a Verveine parece mais chá que cerveja.
Fechando o lote francês, a Bourganel Aux Myrtilles, uma especial de blueberry, uma pouquinho menor do que uma uva cuja característica principal é seu suco… azul. A versão Boruganel que traz o suco da fruta fica entre o azul e o vinho. O aroma é adocicado e muito frutado (que lembra o que, para nós, seria amora). Nada de malte nem de álcool. O paladar é levíssimo, com o amargor suave (remetendo a limão) manchando o adocicado do mirtilo. Parece um suco de uva que passou da validade.
Os cinco rótulos acima foram apresentados no 1º Beer Experience e estão sendo trazidos ao Brasil pelo bar Melograno, de São Paulo, custando entre R$ 20 e R$ 24 (a garrafa de 750 ml). Localizada no Vals-les-Bains, na região das Ardenhas, nos Alpes Franceses, a cervejaria fica a quase três horas de Marselha (sete horas de Paris) e recebe, anualmente, cerca de 4 mil visitantes. Não é uma cerveja para todos os momentos nem paladares, mas vale dar uma chance (principalmente se você não gosta do amargor tradicional).
Ps. as garrafas são lindas…
Teste de Qualidade: Bourganel Au Miel de Châtaignier
- Produto: Fruit Beer
- Nacionalidade: França
- Graduação alcoólica: 5%
- Nota: 2,60/5
Teste de Qualidade: Bourganel Nougat
- Produto: Fruit Beer
- Nacionalidade: França
- Graduação alcoólica: 5%
- Nota: 1/5
Teste de Qualidade: Bourganel aux marrons de l’Ardèche
- Produto: Fruit Beer
- Nacionalidade: França
- Graduação alcoólica: 5%
- Nota: 2,67/5
Teste de Qualidade: Bourganel Bière à la Verveine Velay
- Produto: Fruit Beer
- Nacionalidade: França
- Graduação alcoólica: 5%
- Nota: 1,75/5
Teste de Qualidade: Bourganel Aux Myrtilles
- Produto: Fruit Beer
- Nacionalidade: França
- Graduação alcoólica: 5%
- Nota: 1,55/5
Leia também:
- Que tal uma cerveja de banana? E de manga? (leia aqui)
- Wells Banana Bread: uma cerveja que merece ser provada (aqui)
- Bacuri Beer, uma cerveja com fruto amazônico (aqui)
- Primeiro Beer Experience, em São Paulo, por Marcelo Costa (aqui)
Setembro 12, 2011 1 Comment
Opinião do Consumidor: River e Bacuri Beer

Criada em 2000, na Estação das Docas, em Belém, a Amazon Beer é a única cervejaria 100% artesanal do Pará e aproveitou sua localização para investir em um rótulo bastante exótico, a Forest Bacuri, cerveja levíssima que leva na formulação um dos frutos mais populares da região amazônica. Além da Forest Bacuri, a Amazon Beer produz outros cinco rótulos mais tradicionais (mantendo a leveza como padrão).
A Forest Bacuri (3,8% de graduação – a versão em chopp, vendida na Estação das Docas, tem apenas 1,8%) já mostra sua personalidade no aroma, com o fruto amazônico se destacando entre o ácido e o adocicado – e remetendo a algo próximo a lichia. O paladar é bastante especial mantendo certa acidez que duela com o forte dulçor, que conquista num primeiro momento, mas pode enjoar numa segunda ingestão seguida. Ainda assim, uma cerveja muito boa, belo representante nacional das Fruit Beers.
Entre as outras produções da casa (em chopp) estão a Amazon Red (Vienna Lager de 5,8%), a Amazon Weiss (4,5%), a Amazon Black (uma Munich Dunkel de 5,5%), a Amazon Forest (uma american lager de 3,5%) e a River Lager (4,8%), que também começa a circular em garrafa (assim como a Bacuri e a Forest), e é uma Premium tipo exportação, encorpada e bem característica com forte presença de malte no aroma e no paladar, marcado ainda pelo amargor do lúpulo. Uma boa surpresa.
Os chopps, vendidos na Estação das Docas, em Belém (na beira do rio Guajará), que podem ser acompanhados de um vasto cardápio de tapas (confira o site oficial aqui), saem entre R$ 4 e R$ 6. Já as versões em garrafa (Bacuri, Forest e River) saem entre R$ 9 e R$ 15.
Teste de Qualidade: Bacuri Beer
- Produto: Fruit Beer
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 3,8%
- Nota: 3,30/5
Teste de Qualidade: River Lager
- Produto: Premium Lager
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 4,8%
- Nota: 2,95/5
Leia também:
- Que tal uma cerveja de banana? E de manga? (leia aqui)
- Wells Banana Bread: uma cerveja que merece ser provada (aqui)
- Kriek Boon: Pode rolar romance, por Marcelo Costa (aqui)
Agosto 31, 2011 5 Comments
Primeiro Beer Experience, em São Paulo

Texto por Marcelo Costa (http://twitter.com/screamyell)
Fotos por Liliane Callegari (http://lilianecallegari.com.br)
Com aproximadamente 25 estandes montados em uma grande área do Shopping Frei Caneca, em São Paulo, mais de 130 cervejas na carta, um total de 20 pratos combinados com a estrela do dia e, ainda, shows e áreas para alimentação e diversão (incluindo mesas de bilhar e pebolim), a 1ª Edição do Beer Experience, em São Paulo, confirmou o status de vedete do momento das cervejas especiais no Brasil.

Estrela de um mercado antes restrito aos admiradores, as cervejas especiais vem conquistando um espaço cada vez maior no paladar cervejeiro brasileiro ampliando seu alcance com cervejarias artesanais localizadas em dezenas de estados brasileiros e a importação de rótulos transformando-se em negócio lucrativo – embora o preço final para o consumidor ainda esteja em um patamar elevado.

No Beer Experience, no entanto, havia cerveja – literalmente – para todos os gostos e bolsos. De R$ 5 (da Colorado Cauim, a Klein Tchec e Pilsen, Estrella e Weiss Damn, a Backer Pilsen) até R$ 200 (uma Falke Monasterium de 750 ml) e R$ 400 (uma Brewdog Sink the Bismarck com 41% de álcool) além de exemplares especiais apenas para sorteio como o da Brooklyn Black Ops (de produção de apenas mil garrafas/ano).

O preço da entrada intimidou vários consumidores (R$ 60 na hora ou R$ 40 com 1kg de alimento não perecível), que ainda teriam que pagar à parte para comer e beber no evento. Mesmo assim, um ótimo público (que aumentou consideravelmente na parte da tarde) marcou presença. Entre os destaques, velhas conhecidas do público, vários lançamentos e pequenas aulas de cultura cervejeira.

Ok. Então você está ali em um paraíso de cervejas buscando experimentar algumas das melhores cervejas do mundo (sim, as cervejas de abadia belgas também marcaram presença), por onde começar? Decidi ir atrás de cervejas que não conhecia abrindo os trabalhos com a exótica Bacuri, cerveja docinha e leve (apenas 3,8% de álcool) de Belém do Pará feita com o fruto amazônico de mesmo nome. Aprovada.

Antes de encarar o segundo rótulo, uma parada no estande do Empório Alto dos Pinheiros para forrar o estômago. A pedida: um Guiness Pie simplesmente delicioso (que a fotógrafa achou muito melhor do que o provado em Londres). Após arriscar um rótulo novo, hora de jogar em território conhecido com a mineiríssima Wals Quadruppel, a melhor cerveja nacional (ao menos para este que bebe).

A terceira do dia foi uma inenarrável Sauber Beer de… abóbora. Produzida em Mogi Mirim, interior de São Paulo, a Sauber Pumpkin Ale (4,7%) impressionou com um paladar que alternou com categoria malte, lúpulo e doce de abóbora. O cara do estande garantiu que a Sauber Honey Beer era ainda melhor (eles ainda tem uma de gengibre além dos rótulos tradicionais), mas achei prudente deixar para a próxima.

A coisa começa a ficar meio turva, mas o bonde não para. O quarto título da noite, uma francesa Bourganel Myrtilles (5%) de cor azul (leva suco de Mirtilo na receita) decepcionou. Apesar de o teor alcoólico ser o de uma pilsen tradicional nacional, o paladar – bastante aguado – lembrava suco. Não bastasse ter experimentado ela, ainda levei outros quatro rótulos da Bourganel pra casa (todos frutados). Ahhh, bêbados…

A quinta cerveja da noite foi dividida em partes iguais com os companheiros Leonardo Dias e Bruno Dias, do Urbanaque: uma linda Local 1, Belgian Strong Golden Ale altamente personal da sensacional Brooklyn Brewery. Do mesmo modo dividimos outra excelente Belgian Strong Golden Ale, uma italiana Baladin Elixir (10%). Para terminar, uma Strong Scotch Ale escocesa Traquair House Ale (7,2%).

Além das cinco Bourganel, consegui levar para casa as quatro cervejas dos Mestres das Poções (cada uma delas produzida em uma fase da lua), dois rótulos da paraense Amazon Beer e três da Antares, a maior menor cervejaria argentina. E nem falei da ótima Backer 3 Lobos Bravo - uma American Imperial Porter mineira envelhecida em barril de umburana (que o Leonardo dividiu conosco) – e da coxa de pernil que salvou o fim da noite.

O saldo foi extremamente positivo e demonstra que o mercado de cervejas artesanais e especiais no Brasil está em amplo crescimento. A organização do evento já planeja uma 2ª Edição do Beer Experience em São Paulo para 2012, mas provoca no twitter @beer_experience: “Nesse meio tempo para onde vamos? Belo Horizonte, Ribeirão Preto, Porto Alegre?” Fique atento ao próximo brinde.

Informações
As argentinas Antares são distribuídas no Brasil pelo Clube do Malte, de Curitiba, que ainda comercializa molho e geleia feitos à base de cerveja (41) 8818-4038
A Bacuri, da Amazon Beer – (11) 3092-2337 – de Belém do Pará, e as Baladin italianas chegam ao resto do país com distribuição da Tarantino. (11) 3092-2337
A Bourganel, a Traquair e a St. Peters (que não provei, mas queria muito) foram destaques da cervejaria Melograno, de São Paulo. O cardápio deles é extenso e vale muito a visita, (11) 3031-2921
A Wals já pode ser encontrada facilmente em vários locais do país, mas quem ainda tiver dificuldade, vale entrar em contato com os mineiros: (31) 3443-2811
Tanto as cervejas esotéricas dos Mestres das Poções quanto a Sauber de abóbora (de mel e de gengibre) foram compradas no estande da Cervejoteca, de São Paulo (11) 5084-6047
A Brooklyn é importada pelo pessoal do Beer Maniacs (41) 3022-0740.
A Backer é uma estilosa micro-cervejaria mineira que começa a ganhar cada vez mais espaço no país (11) 2268-4203 ou 2268-3154
Vale ainda conhecer o trabalho do pessoal da Bierboxx (que entrega cervejas especiais em casa) e também da confraria Have a Nice Beer, esta última um clube que mediante uma taxa mensal envia cervejas especiais aos associados todo o mês.

Leia também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
- Cinco pubs de cervejarias nos EUA, por Marcelo Costa (aqui)
- Sábado em Nova York: Brooklyn Brewery e Sebadoh (aqui)
- Um ogro bebendo o champagne mais caro do mundo (aqui)
- As cervejas da Wals (aqui), da Backer (aqui) e da Brooklyn (aqui)
Agosto 23, 2011 3 Comments
Opinião do Consumidor: Liefmans Fruitesse
As Fruit Beers são uma verdadeira febre na Europa (que de dois anos para cá também se rendeu a Sidra). Um resumo rápido diria que uma cerveja frutada é aquela de conjunto harmonioso em que o sabor da fruta é balanceado com o da cerveja. Mas nem sempre é assim: na sul-africana Pineapple Fruit Beer, por exemplo, o sabor de abacaxi se perde em meio ao álcool. Na brasileira Göttlich Divina!, o guaraná está presente, mas fica em segundo plano. Estes elementos estão ali para causar um charme no conjunto.
O oposto, em que o sabor da fruta compete em igualdade com o malte, é muito mais comum. Da excelente Wells Banana Bread até a seleção caprichada da holandesa Mongozo (coco, banana, manga, quinua e palmnut – esta última, segundo o fornecedor, “uma experiência espiritual”) chegando até o extenso cardápio de Fruit Beers de cereja e framboesa, que destacam as belgas Kriek Boon (em que cada litro de cerveja recebe ao menos 250 gramas de cereja) e Mort Subite (não se assuste com o nome).
A cervejaria Lifemans, da cidade de Oudenaarde, nos Flandres Orientais da Bélgica, foi fundada em 1679 especializando-se em produzir Oud Bruin (estilo de cerveja originário da região flamenca da Bélgica) e lambics, a maioria frutada (limão, pêssego e cereja). A empresa faliu em 2008, sendo adquirida pela Duvel Moortgat Brewery, que manteve a produção de algumas estrelas da casa como a própria Oud Bruin e a Liefmans Fruitesse (embora tenha perdido a Lucifer para a Het Anker Brewery).
Importada pela Beer Paradise, a Liefmans Fruitesse (com maturação de 18 meses em caves recebendo posteriormente sumos naturais de frutas vermelhas) é um ótimo exemplar do estilo fruit beer já a partir do aroma intenso de cereja, de morango e framboesa – e nada, absolutamente nada que lembre álcool. O primeiro toque na língua reforça o aroma, mas conforme a cerveja se ambienta no paladar, características de amargor a azedo marcam presença não influenciando no final, que permanece adocicado.
Apesar de não estar aparentemente presente no conjunto, a graduação alcoólica de 4,2% da Liefmans Fruitesse é próximo ao de algumas american lagers nacionais (a Skol e a Nova Schin, por exemplo, têm 4,7%; a Bavária traz 4,6%). Refrescante, cítrica, adocicada e fácil de beber (sem muita complexidade em sua fórmula), a Liefmans Fruitesse é uma boa fruit beer que se aproxima (grosseiramente) de um espumante. Para dias quentes e/ou para acompanhar sobremesas. A garrafa de 250 ml está entre R$ 8 e R$ 12.
Teste de Qualidade: Liefmans Fruitesse
- Produto: Fruit Beer
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 4,2%
- Nota: 2,35/5
Leia também:
- Que tal uma cerveja de banana? E de manga? (leia aqui)
- Wells Banana Bread: uma cerveja que merece ser provada (aqui)
- Kriek Boon: Pode rolar romance, por Marcelo Costa (aqui)
Agosto 17, 2011 No Comments
Opinião do Consumidor: Carlow Brewing
Em meio a dezenas de cervejarias seculares européias temos a Carlow Brewing Company, uma das aproximadamente 16 micro-cervejarias irlandesas nascidas nos anos 90 – ela é de 1996. A Carlow leva o nome da segunda menor cidade da Irlanda (com pouco mais de 20 mil habitantes), a menos de duas horas de Dublin, e é um esforço do patriarca da família O’Hara, que sonhava em fabricar uma cerveja nos moldes indígenas antigos: “com ingredientes naturais e nenhum aditivo artificial”.
A primeira fermentação aconteceu em 1998 e, já em 2000, a cervejaria conquistaria duas medalhas de ouro no International Brewing Awards (por sua O’Hara’s Irish Stout). A produção, que foi de 1.500 litros em um tanque em 1998, passou para 6.500 litros em 2009 marcando assim o nascimento de outras cervejas da compania, que agora soma sete rótulos: O’ Hara’s Leann Follain, Curim, O’ Hara’s Irish Stout, O’ Hara’s Irish Red, Seasonal Brews/Limited Editions, O’ Hara’s Irish Wheat e O’ Hara’s Irish Pale Ale.
O tour pessoal começa pela O’ Hara’s Irish Red, uma “traditional red ale” de um vermelho tão intenso que chega a parecer negro em alguns momentos. O aroma é levemente frutado com destaque para o caramelo enquanto o paladar é marcado pela lembrança reconhecível de cervejas britânicas, sem ser tão picante. Aqui o malte levemente tostado impressiona ora lembrando caramelo, ora lembrando café – e o bom conjunto vai se tornando amargo (e ainda mais britânico) no final do copo. Intrigante.
“Quando se pensa em cerveja irlandesa, se pensa em Stout”, diz o site da cervejaria, e é quase impossível não ligar Stout ao nome Guiness (a representante mais famosa do estilo). A Carlow tenta fugir da comparação/competição produzindo uma O’ Hara’s Irish Stout muito mais leve, mas não sem personalidade. As características estão todas presentes – a cor negra profunda e o aroma forte de café e chocolate amargo, que se estende ao paladar – criando uma ótima cerveja (plenamente irlandesa).
Lançada em 2009 e feita no sistema dry hopping, a O’ Hara’s Irish Pale Ale já em 2010 foi eleita a cerveja do ano pelo IrishCraftBrewers.com, e o título não foi à toa. O aroma lupulado é extremamente marcante e encantador – com algo de floral. O paladar destaca o malte de caramelo, um pouco de cítrico e muito de lúpulo revelando um leve amargor picante que se pronuncia no final e vai ficando, ficando e ficando – excepcional. Provável melhor rótulo da cervejaria, uma daquelas cervejas para se ter sempre em casa.
Com seu nome que homenageia antigas rotas celtas, a Curim Gold é uma surpresa (boa ou negativa, depende do bebedor): uma cerveja de trigo que troca a Bavária (aquele paladar forte de banana) pela República Tcheca (terra das pilsens clássicas). Quem for esperando beber algo próximo a uma Weiss irá se decepcionar, mas quem gosta das pilsens tem um bom representante, melhor do que muita coisa do estilo, com aroma leve (ameixa, pão fresco, mel) e paladar refrescante. Interessante.
Fechando o pacote da cervejaria Carlow, a Leann O’Hara Folláin, uma Extra Stout irlandesa que deve ser proibida para fãs brasileiros do estilo: vocês vão querer mais e mais. Aroma carregadissimo de chocolate (doce, não amargo) e café – talvez ameixa. O paladar segue nitidamente o aroma com forte presença de chocolate (aqui um bocadinho mais amargo, mas ainda assim suave) e café, que se prolonga no final. Praticamente coloca no banco de reservas a stout tradicional da casa.
As cinco cervejas acima podem ser compradas em packs de três rótulos no… aeroporto de Dublin ao preço de 6 euros. Se você for à Irlanda, vale pensar no tour pela casa (infos aqui).
Teste de Qualidade: O’ Hara’s Irish Red
- Produto: Red Ale
- Nacionalidade: Irlanda
- Graduação alcoólica: 4,3%
- Nota: 3,14/5
Teste de Qualidade: O’ Hara’s Irish Stout
- Produto: Stout
- Nacionalidade: Irlanda
- Graduação alcoólica: 4,3%
- Nota: 3,23/5
Teste de Qualidade: O’ Hara’s Irish Pale Ale
- Produto: Pale Ale
- Nacionalidade: Irlanda
- Graduação alcoólica: 5,2%
- Nota: 3,88/5
Teste de Qualidade: Curim Gold
- Produto: Ale
- Nacionalidade: Irlanda
- Graduação alcoólica: 4,3%
- Nota: 2,96/5
Teste de Qualidade: Leann O’Hara Folláin
- Produto: Extra Stout
- Nacionalidade: Irlanda
- Graduação alcoólica: 6%
- Nota: 3,34/5
Veja também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
- Top 10 Cervejas Européias, Viagem 2008, por Marcelo Costa (aqui)
Agosto 5, 2011 1 Comment
Opinião do Consumidor: Pauwel Kwak
Uma das melhores cervejarias belgas (olha o nível), a Bosteels foi fundada em 1791 na cidade de Buggenhout, nos Flandres Orientais (40 minutos de Bruxelas), e continua nas mãos da família Everarist sete gerações depois (um feito em um mercado devorado pelos grandes conglomerados). Entre os destaques da Brewery Bosteels estão as indiscutíveis Tripel Karmeliet, a Pauwel Kwak e, claro, a épica DeuS.
Uma das primeiras curiosidades acerca da Pauwel Kwak é seu copo, que traz uma base de madeira que evita que você toque no vidro enquanto bebe (e, em um teatro de bonecos em Bruxelas, vi um norte-americano tentando tirar o copo de vidro da base: falhou miseravelmente e deixou o copo em pedacinhos), mas que foi criado originalmente para que os cocheiros pudessem beber enquanto “pilotavam” carruagens.
Politicamente incorreto? Isso foi na época de Napoleão. A Bosteels quis homenagear uma cervejaria famosa no período, a Hoorn’inn’, com a Pauwel Kwak, lançando essa delícia em 1980 (Hoorn’inn’ era a cerveja predileta dos cocheiros). A história da Bosteels ainda se envolve com arquitetura: a mansão sede da cervejaria foi desenhada pelo arquiteto Louis Minard em 1859 (ele também fez o teatro de Gent).
Quanto à cerveja, já no aroma a Pauwel Kwak se mostra personal: o álcool aparece timidamente sendo vencido por… caldo de cana (e também mel). No paladar, complexo, o álcool se faz mais presente (são 8,4% de graduação alcoólica), mas ainda assim surge ambientado no conjunto, não chegando a soar agressivo. O primeiro toque na língua é adocicado (mel e cana – e o dulçor retorna delicado após o fim da ingestão) e mesmo em grande quantidade, o álcool reitera um leve amargor que conquista o paladar.
A falta do copo original (foto abaixo) descaracteriza um pouco o conjunto, mas não diminui o prazer de se provar uma cerveja especialíssima, uma das melhores da Bélgica, a terra mãe das melhores cervejas do mundo. O preço (em terras brasileiras), no entanto, não é lá muito convidativo: entre R$ 16 e R$ 19 a garrafa de 330 ml. Porém vale muito a experiência. E você não irá precisar (ou conseguir) beber mais do que duas mesmo (ok, conseguir até consegue: o problema é levantar da mesa).
Teste de Qualidade: Pauwel Kwa
- Produto: Strong Belgian Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 8,4%
- Nota: 4,86/5

Veja também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
- Top 10 Cervejas Européias, Viagem 2008, por Marcelo Costa (aqui)
Julho 29, 2011 2 Comments
Opinião do Consumidor: Bock Damm

A cervejaria catalã DAMM é uma das três maiores fabricantes de cerveja espanholas (as outras duas, a saber, são a Heineken e a San Miguel/Mahou) e desde 1876 distribui para os botecos espanhóis nomes como a famosa Estrella Damm (naquela época, Estrella de Ouro), a Xibeca, a poderosa Voll-Damm Doble Malta e esta boa Bock Damm, cujo rótulo atual homenageia o rótulo de sua primeira versão – datada de 1888.
Apesar do nome, a Bock Damm está muito mais para uma Dunkel de Munique (seu sobrenome, inclusive) do que para uma Bock tradicional. A diferença começa pela cor negra (contra o avermelhado da bock). No aroma, presença suave de malte tostado, café e caramelo, que se replicam no paladar, que começa amargo no primeiro toque na língua (café é a primeira lembrança) até tornar-se adocicado e finalizar levemente amargo.
Bem gostosa e leve, a Bock Damm não prima pela complexidade, mas se porta muito bem no copo. É o tipo de cerveja que, caso fosse brasileira, teria um bom mercado a se explorar. Porém, sendo espanhola e chegando ao Brasil entre R$ 8 e R$ 12 a garrafinha (bonita) de 250 ml fica difícil. Mesmo assim, apesar da falta de personalidade, eis uma boa pedida para se procurar em terras catalãs.
Teste de Qualidade: Bock Damm
- Produto: Dunkel Munick
- Nacionalidade: Espanha
- Graduação alcoólica: 5,4%
- Nota: 2,98/5
Veja também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
- Top 10 Cervejas Européias, Viagem 2008, por Marcelo Costa (aqui)
- Voll-Damm, Reina Sofia e Thyssen-Bornemisza em Madri (aqui)
Junho 28, 2011 No Comments
Opinião do Consumidor: Göttlich Divina!
Elaborada pelo mestre cervejeiro Leonardo Botto (associado fundador e atual Presidente da ACervA Carioca - Associação de Cervejeiros Artesanais Cariocas), as Göttlich Divina! Pilsen e Weiss nasceram após uma visita ao Monastério de Weihenstephan, em 2007 (casa de uma das melhores Weiss do mundo, a Weihenstephaner). A visita rendeu a exportação dos lúpulos e leveduras Weihenstephan e Hallertäu, da Alemanha e Saaz, da República Tcheca, que aqui encontram o Tropical Guaraná da Amazônia em uma receita bastante particular.
Na versão pilsen da Göttlich Divina!, o aroma é marcado pela presença de lúpulo floral e malte encobrindo o tão esperado guaraná, que fica na retaguarda meio que causando um charme. Na boca, no entanto, o guaraná se faz muito mais presente (ainda que discreto – a intenção pelo jeito não era fazer uma cerveja doce, mas sim uma pilsen aromática e um tiquinho adocicada), principalmente no primeiro toque na língua, adocicado (com lembrança de mel). O amargor aparece no final marcando o céu da boca e a garganta. Muito boa.
Já na versão Weiss, o aroma é totalmente ocupado pelo tom de banana (escondendo o guaraná), característica básica de uma boa Weiss (aqui reforçada pela valorização do fermento Weihenstephan). No paladar, altamente refrescante, a banana se acentua ainda mais e o conjunto se torna mais adocicado do que o de uma Weiss comum. O guaraná desaparece no conjunto e surge discretamente no final – mas é o responsável pelo delicioso dulçor da cerveja e também por deixa-la bem mais encorpada que uma Weiss tradicional.
As duas Göttlich Divina! estão sendo fabricadas pelo Opa Bier e distribuídas pela On Trade. Os preços variam entre R$ 13 e R$ 15 (a garrafa de 600 ml) e ambas são ótimas cervejas que podem surpreender na mesa. A presença do guaraná é delicada e acentua qualidades nas duas versões. Vale muito experimentar.
Teste de Qualidade: Göttlich Divina! Pilsen
- Produto: Pilsen
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 5,5%
- Nota: 3,19/5
Teste de Qualidade: Göttlich Divina! Weiss
- Produto: Weiss
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 5,8%
- Nota: 3,20/5
Veja também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
- Weihenstephan, a cervejaria mais antiga do mundo (aqui)
Junho 17, 2011 No Comments
Opinião do Consumidor: Red Stripe
A Desnoes and Geddes Limited (D&G) é uma empresa jamaicana fundada em 1918 em Kingston que produz cervejas e refrigerantes. O carro chefe da casa é esta Red Stripe, uma lager sem graça que patrocina a equipe de bobsleigh da Jamaica (bobsleigh? algo como uma corrida de trenó!) e que faz um sucesso danado no Inglaterra, um país cuja cerveja clara mais famosa é belga (Stella Artois) e a escura é irlandesa (Guiness).
Os Estados Unidos até tentaram resistir quando a Diageo (toda poderosa distribuidora da Smirnoff, do Johnnie Walker, do Baileys, da Guiness e da Jose Cuervo) comprou 51% da D&G e tentou enfiar goela abaixo dos norte-americanos a faixa vermelha. A Red Stripe não repetiu o êxito europeu, mas ainda assim é facilmente encontrada em território ianque.
Leve e refrescante como uma tradicional american lager (que aqui do lado debaixo do Equador são conhecidas como pilsens), a Red Stripe é indicada apenas para matar a sede em dias quentes. E olhe lá. Esqueça o quesito complexidade. O sabor do malte está por ali, escondido, mas o amargor acentuado no final chega a incomodar. Comparada aos títulos nacionais, Bohemia ou Original são muito melhores. E mais baratas…
Teste de Qualidade: Red Stripe
- Produto: Pale Lager
- Nacionalidade: Jamaica
- Graduação alcoólica: 4,7%
- Nota: 2,26/5
Veja também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
Junho 14, 2011 3 Comments











































