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Cenas de São Paulo: Eu passei aqui
“O Movimento Ilha da Paulista (MIP) e o coletivo de documentaristas Ocupação do Domingo (OD) lançam, com o apoio do Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA), a campanha “Eu passei aqui!”: uma iniciativa da sociedade civil em defesa do tombamento do Cine Belas Artes, fechado em março deste ano.
Convocamos todos a enviar para a nossa base de dados (detalhes abaixo) seus vídeos ou suas fotos mencionando a frase “Eu passei aqui!” - uma alusão ao escrito “Pasolini passou aqui!” que tomou conta recentemente da fachada do Belas Artes em meio aos grafites que sinalizam o descaso de nossas autoridades pelo espaço público (com o fechamento do cinema, a região do cruzamento da Consolação com a avenida Paulista tem sofrido com a falta de segurança, falta de iluminação e redução da atividade e do faturamento dos comércios locais como: sebos de livros, restaurantes, bares e casas de show).
Queremos mostrar quantos cineastas, produtores, atores e espectadores já passaram pelo cinema nesses anos todos e construíram a sua história.
Inaugurado em 1967 no prédio que foi erguido em 1952 para abrigar o antigo Cine Trianon, o Cine Belas Artes sempre foi um tradicional centro de cultura com programação comercial e de arte de elevada qualidade, diversificada, com espaço para o cinema brasileiro, mostras, festivais, cursos, lançamentos de filmes nacionais, formação de público (cineclube e Noitão) e lugar de convivência, amizades e trocas culturais, políticas e sociais.
Mais de quatro décadas de intensa atividade cultural com merecido valor histórico-social não podem ser derrubadas e esquecidas para dar lugar às ambições comerciais de seu proprietário sem que a sociedade civil interfira nessa ação em prol da preservação de nossos patrimônios culturais (o dono do prédio triplicou para quase 2 milhões de reais ao ano o aluguel do imóvel tornando a atividade do cinema inviável, mesmo com patrocínio que assegurava cobrir um aluguel no valor de 1 milhão de reais ao ano - daí o fechamento).
O Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), um órgão do Estado de São Paulo, decidiu abrir o processo de tombamento do cinema depois que o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico) decidiu arquivar processo similar que nele tramitava sem ao menos dar atenção devida ao parecer técnico pró-tombamento do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura.
Ou seja, agora o Condephaat votará o tombamento definitivo no final de novembro deste ano. Teremos, portanto, pouco tempo para nos mobilizar, conscientizar as pessoas ao nosso redor e pressionar as autoridades.
As fotos e os vídeos da campanha “Eu passei aqui!”, com famosos e não-famosos (captados da forma que quiserem e puderem: celular, webcam, câmera fotográfica etc), serão editados para se tornar viral na internet. Tirem suas dúvidas por: nospassamosaqui@gmail.com
Faça parte do nosso grupo no Facebook também:
https://www.facebook.com/groups/221536871245066/
Com a ajuda da internet, das nossas redes sociais, podemos rapidamente fazer alastrar nossa campanha para conscientizar a sociedade civil, instituições e empresas privadas sobre a importância da preservação de nosso patrimônio cultural. E com isso, pressionar nossas lideranças governamentais a dar atenção a nossas necessidades e desejos.
Ajude-nos!
Obrigado,
MIP
OD
MBA”
Dezembro 10, 2011 No Comments
A saga da procura do apartamento perfeito
Terça-feira chega um e-mail:
“Bom dia!
Estou tentando entrar em contato pelo telefone, porém não estou tendo nenhum sucesso. Foi enviado já há alguns meses atrás uma notificação para a desocupação do imóvel e até o momento ainda não tivemos nenhum retorno em relação a desocupação do mesmo. Por gentileza, entre em contato conosco o quanto antes, e nos forneça um telefone de contato atualizado.
Desde já agradeço.
Atenciosamente,
Imobiliária”
Não entendi bulhufas. Como assim enviaram meses atrás uma notificação para desocupação do imóvel, e ninguém fala mais nada? Estranhamente, o aluguel e o condôminio, que também são enviados pela imobiliária, chegam todos os meses. Será que eles perderam o endereço do apartamento? Desculpinha esfarrapada, hein.
Liguei lá, ela explicou que tinhámos que deixar o apartamento um mês após recebermos a nova notificação que eles estão nos enviando. Retruquei dizendo que, segundo a lei, tinhámos 90 dias. Ela confirmou, frisando: “Quanto mais rápido melhor”. Isso foi na terça, e a tal notificação ainda não chegou. História mal contada essa, mas não tem como fugir do recado, certo.
Desta forma, passei três horas da minha tarde de folga camelando atrás de um novo apartamento. É incrível como as coisas sempre são o contrário do que queremos. Quando eu era solteiro, e procurava aps de um dormitório, só encontrava aps de dois ou três para alugar. Agora que quero um ap de dois dormitórios achei vários de um ou três e até quatro para alugar. Ah Murphy. Hehe.
Nossa idéia é continuar morando próximo a avenida Paulista, ou no mínimo nessa região. Hoje subi a Peixoto Gomide, andei pelas ruas Antônio Carlos, Luis Coelho, pela Haddock Lobo e pela Matias Aires. Estiquei até um pedacinho da Avenida Angélica e só fui entrar realmente em um apartamento (após ligar para várias imobiliárias) na Rua Antônia de Queiroz, com dois quartos, salão, mas R$ 2 mil de aluguel (tudo incluso, sem garagem) e terreo. É só o primeiro dia.
Fevereiro 4, 2010 3 Comments
Uma foto de feliz aniversário, São Paulo
Janeiro 26, 2010 No Comments
Dois Brasis que o Brasil (finge) desconhece(r)

Uma das grandes reportagens da nova edição da Rolling Stone (Shakira na capa) é de Yara Morais, que para fechar seu trabalho de conclusão de curso em jornalismo alugou um barraco (por R$ 65 o mês) em uma favela barra pesada da periferia de São Paulo e passou um mês convivendo com os moradores, indo de festas de aniversário a execução de devedores do tráfico. Uma parte da reportagem está aqui. A integra só na revista.
A foto que abre este post é de João Wainer, fotógrafo da Folha de S.Paulo desde 1996. Ele retrata Maria Aparecida da Silva, que na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, é conhecida por Márcia. Aos 42, ela trabalha como faxineira de manhã em uma firma e prostituta a tarde, em frente a estação de trem mais movimentada do Rio de Janeiro. Cida sustenta quatro filhos e a mãe sozinha. Leia mais sobre no ótimo texto do João Wainer aqui.
Outro link que vale conferir é o do excelente blog reportagem “Glamour e Boca do Lixo”, retrato da prostituição no centro de São Paulo:
Janeiro 12, 2010 4 Comments
A solidão do centro de São Paulo no domingo
Rua da Quitanda / Foto: Marcelo Costa
O domingo está nublado. Quem caminhar pela selva de pedra que é o centro velho de São Paulo vai entender porque chamam essa cidade de terra da garoa. As gotas insistem em cair preguisosamente. Uma aqui, outra acolá beijam o asfalto cinzento. O centro financeiro da cidade de 11 milhões de habitantes está vazio.
Detalhe: Praça do Patriarca / Foto: Liliane Callegari
Uma turma de italianos fotografa o Edíficio Martinelli (esse). Em frente ao largo São Bento, no Café Girondino (esse), uma mesa é ocupada por duas britânicas acompanhadas de uma brasileira. A mesa seguinte está vazia. E na outra, um brasileiro conversa com um canadense e um norte-americano. O inglês britânico e o norte-americano dançam na atmosfera.
Detalhe: Rua São Bento / Foto: Marcelo Costa
Não se ouve a língua portuguesa até um garçom pedir uma cerveja enquanto o outro entretém os turistas em um inglês impecável. As inglesas riem. Os norte-americanos estendem o papo assim que o garçom conta que conhece Chicago. Os ocupantes das duas mesas, antes de deixarem o café, pedem uma foto ao lado do garçom de recordação.
Praça do Patriarca / Foto: Liliane Callegari
A garoa às vezes vira chuva, às vezes vira brisa. Os prédios imponentes pedem atenção com suas portas enormes de metal. Um trio de chilenos fotografa uma fachada. Outra fachada destaca dois homens segurando o prédio inteiro nos ombros (aqui). Detalhes insuspeitos da cidade brotam na solidão do centro de São Paulo em um domingo cinza e bonito.
Centro Cultural Banco do Brasil / Foto: Marcelo Costa
Novembro 25, 2009 10 Comments
Cenas da vida em São Paulo: A luta de classes
Um café na av. Paulista, sábado á noite
- Ele não entende. Nós somos de classes diferentes. Pô, eu como no Habibs. E ele me leva no Almanara. E ainda quer que eu divida a conta… eu sou professora…
- Pô, mas o Habibs não dá. Perto da minha casa tem um lugar que faz umas esfihas ótimas. E é barato.
- Eu sou classe média. Ele é rico. Semana passada ele teve a idéia da gente ir viajar. Fui toda solicita, entrei na internet e achei umas pousadas fofas e baratas. Ele olhou as coisas que escolhi e disse: ‘Que porcaria’. Ai foi e escolheu um hotel de R$ 600 a diária!!!
- E vocês vão ter que rachar?
- Sim!!! Não sei o que eu faço…
*******
Alguém tem uma sugestão do que ela deva fazer?
Setembro 27, 2009 9 Comments
E se tirassem o cigarro do Joe Strummer?

Em certo trecho do documentário “O Futuro Não Está Escrito”, o ex-The Clash Joe Strummer, analisando o cerco contra os fumantes, comenta: “Eu acho que os não fumantes deveriam ser proibidos de consumir qualquer coisa que tenha sido feita por um fumante”.
Seria interessante, vai. Poderíamos apagar 80% da literatura (e eu estou chutando baixo), 90% da música e você segue imaginando nas áreas seguintes. Nada contra quem não fuma, afinal eu não fumo, mas o politicamente correto me incomoda, e muito. Acho que fumei durante uns seis meses quando eu tinha 16 anos (e você quer se mostrar para as meninas) até descobrir que era uma bobagem e que eu não gostava do lance todo.
Eu não sou contra a proibição de se fumar em lugares fechados. Achei a medida interessante, e adoro chegar em casa após uma balada sem estar cheirando a cigarro, mas a lei é abusiva. Quando o Estado começa a intervir nesse ponto começo a sentir frios na espinha. Gostaria que o senhor Serra e o senhor Kassab se preocupassem com o aumento assustador de moradores de rua em São Paulo, gente que merece uma vida digna, a qual o Estado vira as costas.
Não sei, mas acho que há muito cinismo nessa história toda.
Ps. O filme do Joe Strummer pode ser baixado aqui com legendas.
Ps 2. Tanto em Glasgow quanto Londres, lugares em que frequentei baladas na madrugada, é proibido fumar dentro dos pubs. Assim que você entra na balada recebe um carimbo que o permite entrar e sair do local (seja para fumar, seja para acompanhar um fumante, seja para ver a rua) sem nenhum problema. E muitas vezes - como em Glasgow - tinha mais gente na frente do pub do que dentro.
Ps 3. Tiraram o cigarro da Coco Chanel - aqui.
Agosto 18, 2009 10 Comments
Cenas da vida em São Paulo: no cabeleireiro
Em São Paulo é possível encontrar todo o tipo de barbearia que você quiser. Tem algumas, tipo a Barbearia 9 de Julho, que oferecem aos clientes máquina de chope, garrafas de uísque e revistas masculinas. Nessa reportagem aqui você lê um pouco mais, porém é fato que nunca topei pagar mais do que R$ 10 para cortar o cabelo (talvez seja trauma do exército, em que se pagava R$ 2 e o cara passava a máquina sem se importar muito com o resultado - e até ficava ok).
Até entendo as mulheres que vão a salões de cabeleireiros super chiques e tal, mas meu cabelo não é a coisa mais difícil de cortar, então nem me preocupo tanto. Aliás, a única vez que cortei em um cabeleireiro chique, influenciado pela namorada que estava ali cortando, o cara conseguiu errar o corte. Dito isto, já faz uns dez anos que, em São Paulo, corto cabelo em uma cabeleireira em uma das galerias do centro da cidade. Comecei pagando R$ 6. Hoje pago R$ 10. E as histórias…
Um cara está sentado com uma senhora fazendo a sua unha. Ele puxa papo com a cabeleireira.
- E a Wanda, como está?
- Ela passou aqui ontem. Que peitão, viu – comenta a cabeleireira.
- Eu soube. Parece que ela vai colocar silicone na bunda também.
- Essa vai se dar bem na vida.
- Com certeza. Uma hora dessas ela arranja um italianão que vai pagar tudo pra ela.
- Ela está comprando um apartamento no Copan, mas não é kit não.
- Ai, falando em apartamento, sabe que eu me mudei, né – muda de assunto o rapaz
- De bairro?
- Não, continuo no mesmo bairro, mas mudei de prédio. Lembra que eu tinha contado que eu morava numa cobertura…
- Que chique…
- Nada. Era pequeno, um quarto, sala e cozinha, mas com uma sacada de 7 metros. Só que acredita que todo o domingo, às 8h da manhã, a vizinha debaixo ligava o som com axé no último volume…
- Axé? – diz a cabeleireira com jeito desgostoso.
- Pois é. Todo santo domingo era a mesma coisa, até que não agüentei e me mudei para um outro prédio, um apartamento enorme, 80 metros, mas no segundo andar. E não é que estou dormindo no domingo de manhã no novo apartamento e a vizinha começa a ouvir pagode no último volume…
- Eu tinha uma amiga, emenda a cabeleireira, que se mudou de apartamento por causa do Amado Batista.
- Ahn?
- A vizinha dela ouvia Amado Batista todo o santo dia. E a minha amiga falava: “Ou eu me mudo, ou eu mato essa mulher”. Ela se mudou, mas até hoje não pode sequer ouvir falar no nome do Amado Batista… (risos)
Junho 24, 2009 4 Comments
Cenas da Vida em São Paulo – O encontro
Manhã fria de sol. Ele está completamente entretido na leitura de um livro, tão concentrado que quase perde o ponto de descida do ônibus. Desce e caminha em direção a um posto de conveniência, pede dois pães de queijo com recheio de requeijão com azeitona e um isotônico, e sai da loja desajeitado com o livro em uma mão, os pães de queijo e o isotônico na outra, e a mochila nas costas.
Assim que entra na rua do trabalho, atravessa de uma calçada para outra, e no instante em que pisa na outra calçada, se vê frente a frente com o homem, que caminha entretido ao lado de sua mulher. O rapaz o olha, e para, estático. São alguns segundos que parecem horas até cair a ficha, que ecoa dentro de sua cabeça: “Era o Arnaldo Baptista? Era o Arnaldo Baptista. Arnaldo!!!!!”.
Ele vê o homem e sua mulher se distanciando, pensa em gritar seu nome, sair correndo para um abraço, um cumprimento, mas fica estático. No ar, cheiro de pão de queijo.
*******
Um dia antes, conversa de MSN:
Marco Tomazzoni diz:
- Esqueci de te contar. O Arnaldo estava na Rua Amauri hoje de manhã.
Marcelo Costa diz:
- Antunes?
Marco Tomazzoni diz:
- Não! Baptista!
Marcelo Costa diz:
- Sério???? Como assim???? E você deu um abraço nele???
Marco Tomazzoni diz:
- Não…
Marcelo Costa diz:
- Como assim????
*******
Agora entendo a resposta negativa do Marco. A propósito, “Loki”, o documentário obrigatório de Paulo Henrique Fontenelle sobre Arnaldo Baptista estréia hoje nas seguintes cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Tubarão, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Recife, Fortaleza e Salvador. Assista. E, por um momento, feche os olhos e de um abraço no Arnaldo.
Leia também:
- “Loki”, de Paulo Henrique Fontenelle, por Marcelo Costa (aqui)
Junho 19, 2009 3 Comments
Cenas da vida em São Paulo: o espelho
Dez horas da manhã, centro de São Paulo. Um rapaz carrega em sua mochila alguns CDs que precisa colocar no correio. Ele saiu para a rua, comprou os envelopes, e começou a procurar um netcafé para que pudesse pegar os endereços de que precisava. Na Avenida São João, pouco depois da Ipiranga, há um Centro de Atendimento ao Turista:
- Oi, bom dia. Você saberia me informar onde há um lugar em que eu possa acessar internet por aqui?
- Aqui mesmo. Na verdade, eu não sei se está aberto, mas é virando ali – diz a menina da recepção desculpando-se graciosamente na seqüência: - É o meu primeiro dia de trabalho…
O local indicado pela garota era um Telecentro. A pessoa vai, faz o cadastro e com um número de inscrição em mãos pode usar internet uma hora por dia em qualquer telecentro do país. O rapaz dá seu RG para o atendente, que preenche o cadastro e pergunta se o rapaz vai querer usar a internet de 11h às 12h. Resposta positiva, então é só aguardar 15 minutos pelo horário marcado.
Em um balcão lateral, enquanto lê um livro e observa o ambiente (não necessariamente nessa ordem), o rapaz percebe que um senhor (aparentando mais de 70 anos, com roupas simples e olhos tristes) deixa um computador e vem em sua direção. Antes, ele passa no balcão de atendimento, pega uma folha que mandou imprimir, e começa o diálogo/monologo:
- Eu já fiz vários cursos aqui nessa galeria, alguns duas vezes. Fiz um para consertar computadores. Era uma sala com vários computadores quebrados, e nós íamos lá, mexíamos aqui, ali, e então a tela acendia… ligava. Você sabe que esse Telecentro não é da Prefeitura? Não é. Eles entraram apenas com o nome. Foi um projeto da União Européia, que decidiu colocar Telecentros em 83 países. Houve um evento em Barcelona, no começo deste ano, e o diretor deste Telecentro, sabendo que sou ator, pediu para que eu gravasse um vídeo para que ele pudesse mandar para lá. Eu sentei naquele cantinho, e sem ter ensaiado nada, fiz um improviso. Acabaram de me enviar esse email. Olha aqui. Está dizendo que o vídeo que eu mandei foi escolhido o terceiro melhor de mais de 80 que foram enviados. O terceiro melhor do mundo. Então, meu filho, saiba que podem roubar tudo o que você tem, mas nunca vão roubar o que você sabe. Se algum dia você estiver mal, as coisas não estarem dando certo, lembre-se disso. Olhe no espelho e pense em tudo o que você sabe fazer, pois isso é seu e ninguém pode tirar. Deus te abençoe.
Ele estendeu a mão ao rapaz para um aperto e sumiu na imensidão dos 11 milhões de habitantes de uma cidade que muitas vezes não tem rosto e nem coração, mas que surpreende vez em quando por respirar e ter alma. Alma.
Maio 30, 2009 7 Comments
Cenas da vida em São Paulo: o colesterol
Quase oito da manhã de uma quarta-feira. O cara acorda atrasado para uma consulta médica e decide sabiamente pegar um taxi. Já dentro do veículo…
- Rua Marceleza foi o que o senhor disse?
- Isso (na verdade é Marselhesa), na Vila Mariana.
- A gente passa por tantos lugares trabalhando de motorista de taxi que eu até acho que já passei por essa rua ai, mas não estou me lembrando agora.
pausa - maldita hora em que esqueci de imprimir o mapa no Google - fecha pausa.
- É um pouco antes do Shopping Santa Cruz - arrisco.
- Ah, é perto do Shopping Santa Cruz. Então tá fácil.
É claro que ele ignorou o “um pouco antes” e entrou na primeira depois do shopping. Deu várias voltas até parar alguém, perguntar, e dizer:
- É mais lá atrás…
E o papo segue.
- Estou indo fazer um check-up para a firma.
- Eu não gosto de médicos, sabe. Tem um cara lá no nosso ponto que tinha um vida bem boa e nunca tinha ficado doente. A mulher dele encheu tanto o saco para ele ir ao médico, e ele foi. Ai descobriu que o colesterou estava alto, teve que entrar num regime, parou de beber, comer coisas gordurosas, essas coisas, e agora vive tomando remédio, está sempre doente, e reclama da mulher. Era feliz e não sabia.
- silêncio.
- Número 500, né? Chegamos, Bons exames.
- sorriso sem sal.
*******
Fui pegar hoje o resultado de meus exames de check-up. Fora o oftalmo, que encanou que não ando enxergando bem as coisas, o resto está tudo bem (viu, mulher!)
O colesterou no geral está alto, mas nada alarmante. O desejável é até 200mg, e estou com 202mg (na faixa limite que vai de 200 até 239). Colesterol alto só acima de 239. Já o colesterou ruim (o LDL) está mais sossegado. O nível ótimo é 100. O desejável é de 100 a 129. O limite é de 130 a 159. Elevado vai de 160 a 189. Muito elevado de 189 para cima. Estou com apenas 127. \0/ Ou seja: vou comer sim essa baguetinha do post anterior em Florença. Ainda sou feliz.
Maio 20, 2009 7 Comments
A bicicleta da Lili
Sàbado de madrugada, três da manhã, uma dezena (talvez mais) de doses de cachaça, muitas risadas e uma discussão da relevância de Beatles e Ramones para a história do rock sacodem a casa de um amigo na “zona” do Baixo Higienópolis. Só consigo pensar quando uma carona me deixa em casa: “Vou dormir o domingo inteiro”. Acordo quase às 11h da manhã, e Lili está toda sorridente com algum plano maquiavélico que eu ainda não percebi. Na primeira brecha da conversa sobre o que fazer à tarde, ela emenda: “Eu quero andar de bicicleta no Ibirapuera”.
Ela passou a semana inteira questionando o popular ditado “é como andar de bicicleta: a gente nunca esquece”, e está animada pois sua bike chegou debaixo de uma chuva torrencial na noite de sábado, trazida pela irmã Jeanne. A cunhada está bastante envolvida na história, e a reportagem que ela escreveu para a Época São Paulo (do ótimo título “Diários de Bicicleta” - leia aqui) explica mais sobre todo o assunto. O fato é que Lili queria descobrir se conseguia andar de bicicleta. E alguém teria que levar a bike até o Ibirapuera. Já sabe para quem sobrou, né.
Lili foi de ônibus enquanto eu descia a Bela Cintra, entrava na Antônia de Queiroz, subia a Augusta e a Peixoto Gomide, adentrava a Paulista (ah, se todos os dias fossem como domingo, sem tantos carros na Paulista), cortava pela Pamplona e Alameda Santos, e descia a toda a Brigadeiro Luiz Antônio em direção ao Ibirapuera. Cheguei “morto” uns 15 minutos antes dela, e não lembro direito a última vez que havia andado de bicicleta. Acho que faz uns 20 anos, talvez mais. E foi extremamente divertido. E cansativo, mas valeu a pena.
Porém, nada mais bonito do que ver o sorriso dela ao sentar na bicicleta e sair pedalando - toda dura, mas sem cair - pelo parque. Lili parecia uma criança, e fiquei rindo enquanto ela quase causava alguns pequenos acidentes, mas descobria que a gente nunca esquece como andar de bicicleta. Mudei o roteiro na volta seguindo pela Brasil, subindo a 9 de Julho e entrando na Barata Ribeiro. Cheguei 20 minutos antes dela, o que me deu tempo de tomar um banho, deixar o episódio semanal de Lost prontinho para assistirmos e ainda baixar algumas coisas.
Pedalar em São Paulo é um desafio. A regra é não se intimidar perante os carros, mas quem diz que a gente consegue (na primeira vez)? No entanto, nada como sair da monotonia do ônibus lotado e descer um morro com o vento no rosto. Como a Jeanne escreve na reportagem da Época, ”a sua relação com a cidade muda. Você passa para a escala humana. Nota um monumento que nunca viu, um prédio bonito. Você contribui para uma cidade melhor, com menos carros, menos poluição, menos barulho e menos trânsito”. A prefeitura de Paris aluga bicicletas para aliviar o trânsito. Vale muito pensar sobre o assunto.
Leia também:
- “Diários de Bicicleta”, por Jeanne Callegari (aqui)
- Prefeitura de Paris aluga bicicletas para aliviar o trânsito (aqui)
- Parisienses e turistas adotam novo serviço de bicicletas (aqui)
Fevereiro 9, 2009 10 Comments
Cenas da vida em São Paulo - Parte 9
O sol forte do meio dia beija a cabeça dos transeuntes. Em uma travessa da Rua Augusta, uma senhora imóvel no meio da calçada filosofa com algum ser invisível:
- Eu tô te dizendo. Quase todo mundo fuma maconha em São Paulo.
- …
- Tô te falando. Quase todo mundo fuma!
-…
- Mais de 200% das pessoas de São Paulo fuma maconha. Principalmente quando está com fome.
Dezembro 6, 2008 5 Comments
Cenas da vida em SP - Bonnie ‘Prince’ Billy
Foto: Marcelo Costa / Scream & Yell
O show está no meio, mas o rapaz quer evitar as filas e se encaminha para o caixa para pagar a conta. Uma garota, meio bêbada, balança para lá e para cá perto do local. Ela olha esperando cumplicidade, e o rapaz se coloca atrás dela como se estivesse entrando numa fila. O segurança orienta a posição correta, e isso basta para ela puxar papo:
- Como se fosse fazer diferença, né.
- É…
Ela olha e ele tenta decifrar o que está passando pela cabeça dela até que um amigo chega e lhe passa um celular. Ela olha quem está ligando, leva o aparelho ao ouvido, e começa o diálogo:
- Oi. Onde você está? (parece perguntar a pessoa do outro lado)
- Estou num funeral – responde a menina, irritada, emendando ainda – Não posso falar muito alto, pois é capaz do cara que está encostado no bar bater em mim (diz ela olhando em direção ao homem).
A ligação continua, mas já não é possível entender o diálogo. Alguns “shhhhhhh” dominam o ambiente. Ela desliga o celular e volta para a fila. Olha o rapaz e pergunta:
- Você sabe quem é esse cara que está tocando?
- Bonnie “Prince” Billy.
- Ahhhh, ele é estrangeiro?
- Americano.
- E o que é esse som?
- Folk.
- Punk?!?!
- Foooolk!
- Ahhhhh. Parece música de velório – diz ela, virando-se para um amigo e ordenando – Vamos embora daqui antes que alguém bata em mim. E lá se foi ela para alguma balada eletrônica… ou algum forró.
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Essa cena é bastante comum em São Paulo. Na primeira vez que vi o Echo and The Bunnymen, no Via Funchal, 1999, eu havia saído de Taubaté para vir ver o show na capital. Exatamente na minha frente, ali quase no gargarejo, um rapaz vira para o lado e pergunta a outro:
- Que música toca essa banda ae?
- …
- Eles não tem nenhum sucesso, alguma música famosa?
- Olha, tem vários…
- Acho que nunca ouvi nada deles, mas eu gosto de vir a shows aqui. Semana passada eu vi o Alphaville. Foi bem legal…
O diálogo parou por ai, mas fiquei pensando durante muito tempo em quantas pessoas gostariam de estar no lugar deste cara que não tem a mínima idéia do que seja Echo and The Bunnymen ou, atualizando, no da menina que acha que Bonnie “Prince” Billy é um cantor de velórios. Em Taubaté, nos anos 80 e 90, qualquer show era um grande evento. Em São Paulo parece um mero passatempo. E passatempo é o que menos o show de Bonnie “Prince” Billy foi, apesar do Studio SP não inspirar intimismo e o som estar assustadoramente baixo.
Durante duas horas e meia (!), Bonnie “Prince” Billy mostrou ao público que realmente enxerga a escuridão. Acompanhado por mais um violão, o músico jogou tristeza no colo do público, e durante a primeira meia hora assisti ao show colado ao palco, fotografando e admirando a melodia das palavras e acordes. Porém, ao tentar curar minha gripe com cerveja, desloquei-me para o bar e deixei-me levar pelo cenário esquizofrênico de uma noite típica de São Paulo, em que algumas tribos diferentes se esbarram e se relacionam.
Fãs do cantor grudavam no palco e pediam canções, que eram atendidas de imediato. Esse fanatismo musical seguia-se até a quarta ou quinta fileiras que rodeavam a frente do palco. Dali para trás já havia um grupo – de fãs e não fãs – que separava o “gargarejo” das rodas de bate papo. E o “shhhhhhh” foi a coisa mais ouvida em toda a noite. Fiquei perto do bar conversando com um amigo, bebendo cerveja e ouvindo um fio de voz ao longe gritar “I See a Darkness”. Bonnie “Prince” Billy merecia maior atenção, mas a noite foi bastante interessante.
Quem sabe, numa próxima vez, ele não toque em um teatro em que a música seja a principal estrela e não precise ficar brigando com a busca pela cerveja, vodka ou afins; com amigos discutindo o real valor de “Chinese Democracy”, se Paul McCartney vem ou não vem e qual noite do R.E.M. em São Paulo foi a melhor; com meninas paquerando enquanto gingam o corpo dançando um som que não tem ginga. É bem provável que a noite tenha sido ruim apenas para a turma que ficou na linha que separava os dois públicos. De ambos os lados do muro a noite parece ter sido divertida. Apesar de toda a tristeza…
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Mais fotos do show de Bonnie ‘Prince’ Billy em São Paulo (aqui)
Novembro 28, 2008 10 Comments
Cenas da vida em São Paulo - Parte 8
Sexta-feira. Ônibus parcialmente lotado. No fundão, três amigos conversam. Um oriental está ao lado da janela do lado direito. Ao lado dele, um moreno. Na cadeira do meio, um branquelo, que o oriental insiste em chamar de mestre. Do outro lado, um homem pesca peixes sonhadores, dormindo com o sacolejar da lotação. O oriental o aponta para os dois, e ri. Os três aparentam ter mais de 35 anos.
É o oriental o responsável por manter o fluxo narrativo da conversa. Quando o silêncio se aproxima, ele logo emenda um novo assunto, como fugindo do gongo que anuncia o final da luta no boxe:
- Então, acho que o Radiohead vai tocar em março aqui…
Os outros dois amigos se olham com cara de sexta-feira à noite após uma semana de trabalhos forçados:
- Quem? É uma banda?
- É – responde o interlocutor
- Não conheço – responde um dos rapazes, pelos dois.
Alguns segundos de silêncio e o mesmo rapaz que respondeu diz, quase que de forma inaudível:
- Eu comprei um CD do Renato Borghetti.
- Renato o que? – pergunta o amigo da ponta.
- Borghetti. É um sanfoneiro.
- Tipo o Gonzaguinha? – pergunta outro
- Não, ele é gaúcho. Faz música regional.
- …
O juiz sobre o ringue de boxe começa a contagem para encerrar a conversa. Quando chega no oito, desesperado, o oriental vai e pergunta qualquer coisa para um dos amigos:
- Você comprou algum livro do Dostoievski na feira da Geografia
- Quatro - responde o outro.
O ouvinte, que flagra a conversa dos três amigos, começa a pensar que – em menos de cinco minutos – a conversa saiu de Thom Yorke, passou por Renato Borghetti, chegou em Gonzaguinha e terminou em Dostoievski. Poucos escritores no mundo conseguiriam tal façanha em um curto diálogo.
O ônibus está chegando ao final, e enquanto um dos amigos tenta adivinhar os Dostoievski que foram comprados por aquele que não conhece Radiohead, mas é fã do Borghettinho (“Crime e Castigo”, já tenho, “Os Irmãos Karamazov”, já tenho, “O Idiota”, já tenho, “Os Demônios”, já tenho, “Noites Brancas”, esse eu peguei agora), o outro retoma o ponto inicial da conversa:
- Qual banda que você falou que vai tocar mesmo nesse feriado?
- Radiohead, responde o outro, envolvido na descoberta dos outros três Dostoievski que foram comprados.
Se alguém disser a você que o Radiohead vai tocar em São Paulo no feriado, duvide.
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O ônibus chega ao ponto final, metrô Vila Mariana. Os três amigos descem e uma conversa entrecortada passa pelo ouvinte, que só consegue pegar uma frase. Uma amiga diz para a outra, enfaticamente:
- Eu quero essa cidade só para mim.
Nananinanão. Vai ter que dividir.
Novembro 15, 2008 7 Comments
Cenas da vida em São Paulo, Parte 7
Lotação, oito e pouco da manhã do meio de uma semana qualquer. Três senhoras conversam animadamente no último banco do ônibus. Uma delas, mais morena, abre o coração para as amigas:
“Minha sobrinha ia toda semana à minha casa. Era sempre a mesma coisa:
- Tia, não consigo arranjar emprego. Quando falo que tenho dois filhos, já era…
E ela é uma morena bunita!!!
Até que certo dia ela parou de ir em casa. Passado uns quatro meses, ela apareceu:
- Tia, arranjei um trabalho. Eu tô dançando na Augusta…
- Só dançando????
- Só dançando, tia.
- Com esse bundão??? (enfática)
- Só dançando, tia!
Tudo bem, né (continuou a senhora para as amigas no lotação, que ouviam atentas), ela tinha que sustentar os meninos. Um tempo depois, ela apareceu em casa novamente:
- Tia, eu não tô mais só dançando…
- Você tá dando, minha filha?????
- Não, tia, não é isso! É que eu arrumei um namorado lá na boate. Ele é mais velho, é carinhoso e está cuidando de mim.
E não é que tempos depois, o homem comprou uma casa no Jaçanã, e eles foram morar juntos, ela e os pirralhos!!!! Faz uns meses que ele morreu e deixou tudo pra ela…
- Que beleza!, comentou uma das amigas, na lata, para diversão das outras.”
O mundo, às vezes, é uma grande comédia…
Março 20, 2008 2 Comments
Cenas da vida em São Paulo, Parte 6
O ônibus desce vagamente a Rua Augusta em direção aos Jardins. O tempo é mezzo frio e aquela famosa garoa paulistana marca presença. O trânsito não chega a ser caótico, mas é lento. O céu cinza lembra dias tristes.
O rapaz está indo ao cinema assistir a repescagem dos filmes da Mostra Internacional de São Paulo, finda um dia antes com a primeira exibição oficial de “Onde os Fracos Não Tem Vez”, dos Irmãos Coen, na América do Sul.
Pela janela do ônibus, o rapaz observa a movimentação de pessoas na Augusta. O ônibus atravessa a Paulista, passa pelo Conjunto Nacional e pára no sinal da Alameda Santos. Garoa e o transito é lento.
O veículo, lotado, atravessa vagarosamente a Alameda Santos e desce a Augusta devagar quase parando. O rapaz olha para fora e percebe um homem descendo a calçada. O homem pára em frente ao Habibs, em frente a três pessoas recostadas em uma pilastra. Ele faz um gesto característico de quem está pedindo cigarros para a mulher da ponta. Ela meneia a cabeça negativamente.
O ônibus desce vagamente, o que permite ao rapaz acompanhar a cena com calma. O homem insiste no pedido de cigarro, e um amigo ao lado da mulher à salva cedendo um bastonete nicotinoso ao pedinte. Ele pega, leva aos lábios, e faz outro gesto, pedindo fogo. O amigo da mulher acende, o pedinte agradece e deixa os três em paz.
Com o cigarro nos lábios, o pedinte desce a Augusta dando uma tragada tão forte que parece preencher todos os espaços de seu pulmão com nicotina. A calçada está movimentada. Aproximadamente dez passos após pedir o cigarro, o pedinte cruza um senhora vindo na direção contrária e… lhe desfere uma forte cotovelada. Sem mais nem menos.
A senhora cambaleia, mas não cai. Ela aparenta ter mais de 50 anos, enquanto o pedinte deve ter uns 30. Dentro do ônibus, o sangue do rapaz ferve. O ônibus acelera e pára no ponto. O rapaz desce do ônibus procurando o pedinte. Enxerga apenas a senhora, já recomposta, que parece tentar entender o que aconteceu, auxiliada por duas pessoas que também viram a cena.
O rapaz sobe a rua em sua direção, atônito. Antes, porém, cruza o pedinte, que está sendo devidamente “acariciado” por dois policiais. Eles o levam para uma entrada de caixa eletrônico, e a última imagem que o rapaz vê é o cigarro voando amassado e beijando a calçada da Rua Augusta. Ele dá meia-volta e não consegue parar de pensar no quanto “Onde os Fracos Não Tem Vez” é real.
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“Onde os Fracos Não Tem Vez”, um dos filmes favoritos ao Oscar (seu único concorrente é “Sangue Negro”, de Paul Tomas Anderson) estréia neste fim de semana no Brasil.
Fevereiro 1, 2008 3 Comments
Cenas da vida em São Paulo, Parte 5
Rua Augusta, 8h20, manhã de 31 de dezembro de 2007. O sol está a pino e os relógios marcam 27 graus. O dia está apenas começando. Um homem de uns 40 e poucos anos desce cambaleante pela calçada levando na mão esquerda uma sacola de plástico que parece muito maior do que o que ela leva dentro de si. Visivelmente abalado alcoolicamente, nosso amigo não caminha, dança ao som do vento, embora nem esteja ventando.
Do outro lado, uma garota deixa uma casa noturna da Augusta (se é que você nos entende) gritando para o amigo na portaria:
- Vou ali fazer uma correria, já volto.
Ela é, notadamente, uma dama da noite. Magra, com um colant cinza por baixo do top preto, ela não aparenta ter mais do que 30 anos. É fim de expediente, e mesmo assim ela brilha na manhã ensolarada de São Paulo. Se retirar a maquiagem e colocar uma roupa um pouco mais normal, poderia perfeitamente ser apresentada como namorada de algum sortudo numa casa de família tradicional, e todos iriam adorá-la. Ela caminha decididamente, mas é abordada pelo bêbado. O diálogo que se seguiu dificilmente poderia ser reproduzido fielmente, mas vale a tentativa:
- Oi, oi, oi – diz o rapaz pegando a mão da moça e beijando-a como se ela fosse uma princesa (e ela deveria realmente ser… para ele).
- Oi, tudo bem? – responde ela retribuindo ao homem uma atenção insuspeita; é possível perceber que ela está sendo importunada, que ela não queria ter parado ali, mesmo assim ela trata o homem com a maior delicadeza possível.
- Então, e ai? – diz ele
- É isso, é isso – responde ela, apressadamente
- Espera, você é linda demais – e a voz dele carrega no “demais” deixando o ar com cheiro de algum aguardente barato; ela ainda permite que ele a segure pelas mãos, mas o improvável casal não consegue terminar uma frase útil que seja.
- É bom olhar você…
- Que legal…
- É legal…
- Um barato…
- Sabe… sabe… sabe…
- Eu acho muito legal…
- (sorrisos)
- Eu preciso ir…
- Olha, não…
- Então…
- Pô, você lembra???
- Lembro, claro que lembro – ela solta a mão dele e volta ao seu trajeto normal…
- Ela lembra, ela lembra – ele comenta sorridente com as pessoas no ponto de ônibus, e grita para ela:
- Feliz ano novo.
Ela apenas acena a mão e some entre os prédios. Ele, atingido pelo vento que não venta, cambaleia, e continua seu trajeto descendo a Augusta. Aproximadamente uns vinte metros depois aborda outra dama da noite, tenta pegar a sua mão, e ante a negativa vai direto para o final da história:
- Feliz ano novo.
O sol está a pino e o ano está acabando. Previsão para 2008: ressaca.
Dezembro 31, 2007 2 Comments
Cenas da vida em São Paulo, Parte 4
Sábado, um rapaz desce a Rua Augusta absorto em sua audição de MP3 quando percebe que, alguns metros a frente, um casal de meninas vive uma cena de amor. A primeira coisa que lhe vem a cabeça é o comentário – machista, diga-se de passagem – de um velho amigo, que diz que (quase) sempre é possível perceber quem faz o papel de homem em uma relação lésbica. Segundo ele, uma das meninas sempre é menino.
Por mais complicada e pouco analítica que seja essa opinião sou obrigado a concordar que, neste caso, ele estava certo. “Ela ele” era de média estatura, camiseta sem mangas mostrando os braços malhados, cabelo curto e pose de bad boy. “Ela ela”, por sua vez, tinha pose angelical: magrinha, cabelos loiros escorridos, voz fina. As duas caminhavam em direção ao centro em uma discussão que chamava a atenção dos transeuntes.
Em um certo momento, a loirinha de rosto angelical parou – enquanto a morena de cabelo curto continuou caminhando – e sacou de sua bolsinha um molho de chaves. Correu para alcançar sua pretensa metade e chacoalhou o molho em frente ao rosto “dele”. O resultado, cinematográfico, você pode imaginar: a menina com pose de bad boy desferiu um bofete sem dó no rosto da loirinha, que abaixou a cabeça delicadamente (não deve ter doído) e, orgulho ferido, começou a caminhar apressadamente com o rosto entre as mãos.
A cena que se segue já aconteceu com milhares e milhares e milhares de pessoas: “Ela ele” fica imóvel. O tempo pára, enquanto “ele” percebe que cometeu um ato imperdoável (não que todo mundo já tenha desferido um tapa na pessoa que ama, mas todo mundo já fez/falou algo que, assim que aconteceu, percebeu que errou), passa a mão no rosto e faz a única coisa que lhe resta: correr atrás de seu amor ferido.
A morena alcança a loirinha no meio da subida da Rua Costa - uma travessa da Augusta - mas a loirinha não quer saber de reconciliação. Se desvencilha e desce a Augusta a mais de 30 Km por hora fugindo do olhar recriminador de várias pessoas e de um cachorrinho branco, que late, mas não é ouvido. A morena a persegue na mesma toada falando - com voz grossa: “Me perdoa… você também não ajuda”…
Antes de subir a Rua Costa em direção a sua casa, o rapaz que ouve MP3 observa, ao longe na Rua Augusta, as duas meninas enfim abraçadas em frente a um bordel de terceira categoria. “A noite de amor vai ser quente”, imagina, enquanto volta a ouvir o novo álbum do Radiohead…
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Corte para o domingo. O rapaz está em pé em frente à porta de desembarque do ônibus, quando percebe que um outro rapaz está tentando, inutilmente, concluir uma ligação no celular. Lá pelas tantas, ele consegue a linha:
- Alô??? Onde você está? Na padaria? A ligação está péssima…. Ahhh, caiu…
Ele insiste no mesmo momento:
- Oi. A ligação estava ruim. Onde você está? No elevador? Você não disse que estava na padaria, bicha? Porque você mente pra mim? É isso mesmo! Você mente pra mim. Quando eu chegar em casa, você vai ver, viu. E trate de me esperar. Eu te odeio!!! Odeio.
Ele desliga o telefone com cara de desconsolado e parece estar pensando: “Porque eu amo este cara, porque????”
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O amor é um graaaande clichê…
Novembro 13, 2007 2 Comments
Cenas da vida em São Paulo, Parte 3

Sexta-feira, pouco mais de sete da noite, escuridão. O cara sai do trabalho cansado pela semana intensa, mas feliz pelo sábado e domingo pela frente. Segue pela Rua Amauri atolada de carros importados, atravessa a movimentada Av. 9 de Julho, e quando está no meio do canteiro, no cruzamento com a Av. Europa, é abordado por um ambulante. De bermuda (apesar do vento frio), camiseta rasgada e pacotes de balas que ele procura vender para os passageiros dos carros parados no sinal vermelho, o ambulante todo animado puxa papo:
- Cara, eu adoro esse cara ae – diz ele apontando para a camiseta do rapaz.
O rapaz, sem entender muito o que está acontecendo, pensa que ele deve ter confundido a pessoa desenhada na camiseta, mas o ambulante continua:
- Os filmes dele são muuuuuito doidos. Me amarro.
- Eu gosto muito – responde assustado o rapaz; está escuro no cruzamento da duas grandes avenidas, mas o papo começa a ficar interessante.
- Onde você comprou essa camiseta?
- Ganhei da minha namorada…
- É lindona, viu. Esse cara é bão.
- É mesmo – responde o rapaz, e emenda – mas nem todo mundo gosta dos filmes dele…
- Eu me amarro. São doidos pra caralho. E os livros também são muito bons!
Nesta hora, o rapaz trabalhador quase tem uma sincope. “Como assim, os livros dele? O cara leu os livros dele que eu mesmo não li?”, pensa, sem humildade. Consegue apenas responder, no momento em que o sinal verde passa para o amarelo antes de se transformar em vermelho:
- Os livros eu ainda não li!
- Pô, você passa sempre aqui? Olha, na segunda eu não vou vir, mas qualquer coisa, passa aqui na terça que eu te empresto. Eu tenho os três!
O rapaz atravessa a rua totalmente sem entender os dois minutos que se passaram passos atrás. Agradece o ambulante e não diz se vai passar na terça para pegar o livro; sorri desajeitado e caminha sobre a faixa de pedestres enquanto o ambulante, também sorrindo, leva seus pacotes de balas para os carros que estão parados no sinal.
- Valeu pelo papo, abraço! – diz o rapaz quando está chegando ao outro lado da calçada. O ambulante é todo sorrisos. Elogia novamente a camiseta antes de se perder em meio aos automóveis…
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Em homenagem a cena acima assisti, neste sábado, “A Última Noite de Boris Grushenko” (“Love and Death”, 1975), comédia menor – mas muito divertida – do diretor citado. O filme conta a história de Boris, um russo que, na véspera de ser executado por soldados franceses por um assassinato que não cometeu, recorda toda a sua vida desde criança até o momento derradeiro. Neste emaranhado de lembranças, citações de filósofos, inserção de personagens de Dostoievski na trama, a descoberta de que não existem garotas na vida após a morte, e teorizações sobre o amor, o sofrimento e a morte, ao menos um momento antológico: Boris dançando com a morte, reeditando a descoberta clássica de seu diretor favorito, Ingmar Bergman, cujo personagem desafiou a morte para uma partida de xadrez, mas descobriu que não se pode confiar no anjo vestido de preto.
Setembro 29, 2007 8 Comments




























