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Category — Bebidinhas

Opinião do Consumidor: St Landelin Mythique

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Da mesma cervejaria francesa que distribui a La Divine, a Amadeus (“uma cerveja branca excepcional”, dizem os donos), a La Bière du Démon (“a cerveja loura mais forte do mundo”) e a Bière du Désert, apresentada como o “champagne das cervejas”, surge a St Landelin Mythique que, consta a lenda, era produzida pelos monges da Abadia Crespin exatamente onde o fundador da abadia, St Landelin, descobriu uma fonte de água mineral natural.

O belga São Landelin, que viveu entre 625 e 686, era um ex-bandido que se converteu ao cristianismo tendo fundado três mosteiros (Lobbes, Crespin e, segundo créditos, Aulne). O segundo deles, fundado em 651 na vila francesa de Crespin, duas horas e meia distante de Paris (40 minutos de Lille), foi onde nasceu a Mythique, uma das mais antigas cervejas de abadia da França (hoje produzida pela Brasseurs de Gayant à Douai), loura, leve e forte como uma boa belga.

Apesar dos 7.5% de graduação alcoólica, a St Landelin Mythique é extremamente leve. Um dos motivos é a utilização do sistema dry hopping, em que o lúpulo entra na mistura apenas na fase de fermentação com a função de incrementar ainda mais o aroma sem aumentar seu amargor. No caso da Mythique funciona muito bem. O aroma floral é suave (com uma queda para o cítrico – mais laranja) e o sabor levemente adocicado (de poucas nuances) com final amargo de curta duração batendo na garganta.

A St Landelin Mythique está chegando ao Brasil em sua versão 750 ml com o preço (salgado) entre R$ 40 e R$ 50. É um bière de garde interessante e bem boa (sinceramente, gostei), mas talvez com esse dinheiro valha investir em outras definitivamente melhores. Uma Chimay, por exemplo.

Teste de Qualidade: St Landelin Mythique
- Produto: Bière de garde
- Nacionalidade: França
- Graduação alcoólica: 7,5%
- Nota: 3,20/5

Veja também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)

Junho 10, 2011   No Comments

Opinião do Consumidor: Bière du Désert

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“Na Les Brasseurs De Gayantt, a cerveja ainda é preparada com o mesmo cuidado que um bom vinho”, avisa o site oficial da cervejaria francesa que produz, desde 1919, um catálogo de bons títulos cujos destaques são a La Divine, a Amadeus (“uma cerveja branca excepcional”, dizem os donos), a La Bière du Démon (“a cerveja loura mais forte do mundo”) e a Bière du Désert, apresentada como o “champagne das cervejas”.

Localizada em Douai, cidadezinha com pouco mais de 40 mil habitantes pertinho de Lille e da fronteira com a Bélgica, a Les Brasseurs De Gayantt é a segunda maior cervejaria independente da França (país cujas cervejas especiais representam 27% do mercado), e tem bastante influência do vizinho: Alain Dessy, mestre cervejeiro da casa, formou-se em engenheira cervejeira na Universidade de Louvain, Bélgica.

Primeira influência clara: os franceses seguiram a risca a tradição belga e conseguiram colocar 7,2% de teor alcoólico em uma cerveja levíssima, a Bière du Désert. Mesmo possuindo quase o dobro alcoólico de uma lager tradicional, a Bière du Désert impressiona pela leveza: em nenhum momento o álcool se faz presente. Eles conseguiram esconder o álcool, mas esqueceram de dar personalidade ao conjunto.

Refrescante como uma lager tradicional, a Bière du Désert tem um leve amargor e uma presença tão suave de lúpulo e malte que quase são imperceptíveis. A única qualidade da Bière du Désert, no final das contas, acaba sendo o modo como ela disfarça a forte presença de álcool, o que é muito pouco, vamos combinar. Na França, se tiver que escolher uma cerveja, vá de qualquer uma das Jenlain.

Bière du Désert só se tiver calor. E olhe lá.

Teste de Qualidade: Bière du Désert
- Produto: Lager
- Nacionalidade: França
- Graduação alcoólica: 7,2%
- Nota: 2,94/5

Veja também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
- “Se Brigitte Bardot fosse engarrafada, seria a Jenlain Six” (aqui)

Maio 16, 2011   No Comments

Opinião do Consumidor: Licher Weizen

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A Licher Privatbrauerei é uma cervejaria fundada na cidade de Lich, na Alemanha (pertinho de Frankfurt). O pai do fundador costumava fazer cerveja para os moradores e viajantes que passavam por sua pousada. Johann, o filho, decidiu investir no negócio, e abriu a cervejaria em 1854. Apesar dos mais de 160 anos de cervejaria, a versão weiss só começou a ser fermentada em 2006.

A característica básica do estilo já marca a Licher Weizen no aroma carregado de banana e cravo - ainda assim menos intenso do que os cânones do gênero. O sabor segue a risca a toada deixada pelo aroma: todos os detalhes de uma weiss estão presentes (banana, cravo, mel), mas a leveza a torna diferente, pois a Licher mantém um tom equilibrado e seco no conjunto, agradando bastante.

Os fãs da weiss tradicional (da alemã Weihenstephaner a nacional Bohemia Weiss) talvez estranhem as referências comportadas nos primeiros goles, mas a Licher Weizen tem poder de conquista a longo prazo (ou a meio copo). Já aqueles que desprezam as cervejas de trigo podem até se impressionar com esta alemã que aposta no equilíbrio e na simplicidade, e consegue um ótimo resultado (por um bom preço).

Teste de Qualidade: Licher Hefe-Weizen
- Produto: weiss
- Nacionalidade: Alemanha
- Graduação alcoólica: 5,4%
- Nota: 3,25/5

A Licher Weizen (versão de 500 ml) está chegando ao Brasil via Beermaniacs entre R$ 9 e R$ 12

Veja também:
- Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)

Abril 4, 2011   No Comments

Opinião do Consumidor: Bernard Dark

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Em 1991, três tchecos venceram o leilão de privatização de uma pequena cervejaria fundada no século 16, em Humpolec, uma cidadezinha de 10 mil habitantes na fronteira da Bélgica com a França. A Bernard estava falida, mas os novos donos apostaram e conseguiram conquistar os belgas a ponto de, dez anos depois, ganhar um aporte financeiro da Duvel Moortgat, que colocou a Bernard na prateleira de 26 países.

Como diferencial, a Bernard optou por trabalhar a cerveja microfiltrada ao contrário da pausterizada, bastante comum no grande mercado. Deste modo, as Bernard passam por processos de fermentação, que duram de 7 a 10 dias, e maturação em caves, que pode chegar a 40 dias. O catálogo da casa traz mais de dez rótulos, entre eles a Bernard Dark, uma cerveja escura elaborada com quatro tipos de malte.

A tampa de pressão é um luxo, e assim que aberta derrama no ar o aroma reconhecível de malte tostado das cervejas escuras. Há algo de doce no conjunto que a suaviza e a diferencia em relação a outras lagers escuras – principalmente as britânicas, mais amargas e encorpadas. O padrão adotado é o tcheco. Há bastante similaridade da Bernard Dark com outras tchecas escuras, como a 1795 Dark, por exemplo.

Além do malte tostado, o aroma traz algo de ameixa e de frutas cítricas sem sugerir complexidade. O paladar, desde o primeiro toque na língua, é levemente adocicado com amargor quase zero. O toque na garganta lembra algo de açúcar caramelado que consegue esconder o malte torrado (que está ali sugerindo café e chocolate amargo, sem tanta convicção). No final, há um rastro de café que persiste por um bom tempo.

Há uma leveza excessiva e uma falta de complexidade na Bernard Dark que acabam comprometendo o resultado final. Os referenciais estão todos no lugar, mas ela é tão leve que você pode achar que está bebendo um copo d’água borrado de café. Na falta da ótima 1795 Dark, os fãs podem até despistar com a Bernard, mas a diferença saltará da boca nos primeiros goles. Eis uma cerveja que, mesmo premiada, é apenas ok.

Teste de Qualidade: Bernard Dark
- Produto: cerveja lager
- Nacionalidade: República Tcheca
- Graduação alcoólica: 5,1%
- Nota: 3,09/5

Leia também:
- 1795 Dark, leve amargor que mantém o gosto no paladar (aqui)

Março 31, 2011   1 Comment

Opinião do Consumidor: Westvleteren 8

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Westvleteren é uma aldeia na província dos Flandres Ocidentais, na Bélgica. A cidade (quase na fronteira com a França) é conhecida por dar nome a uma cervejaria fundada em 1838 na abadia trapista de Saint Sixtus, que já foi apontada por especialistas como fabricante da melhor cerveja do mundo. O título que daria orgulho para muitas cervejarias não foi visto com bons olhos no monastério. “Nós fazemos a cerveja para viver, mas não vivemos para a cerveja”, avisou o coordenador do claustro, Mark Bode, em entrevista (imperdível) ao tablóide britânico The Independent.

“Os monges acreditam que o mais importante é a vida monástica, não a cervejaria”, continua Mark, lembrando que a produção de cerveja da Westvleteren visa apenas financiar a comunidade – assim como as outras cinco cervejarias trapistas belgas conduzidas por religiosos (a saber: Westmalle, Achel, Chimay, Rochefort e Orval). Eles levam a regra tão à sério que você não irá encontrar as Westvleteren para comprar em empórios ou distribuidores: desde 1941 ela é vendida unicamente no mosteiro, com cota máxima de cinco caixas de 24 garrafas para cada pessoa, e o cliente tem que prometer não vender a cerveja! Você sabe, Deus está vendo.

Essa número 8 da foto acima chegou a minhas mãos como um presente especialíssimo do Guilherme Tosi (@guilhermetosi), que visitou o mosteiro e comprou um pack de seis cervejas. A garrafa não traz rótulo, mas a tampinha leva o brasão da casa e exibe a validade – neste caso, maio de 2013 – além de avisar que você está diante de uma cerveja de 8% de graduação alcoólica. Eles ainda fabricam uma versão loura, de 5,8%, que é liberada para consumo dos próprios monges, e uma número 12 (de 12% de graduação alcoólica), a vedete da casa eleita a melhor do mundo pelo site independente norte-americano Rate Beer – para desespero da comunidade.

No caso da número 8, o aroma é seco e perfumado (maçã em destaque) com notas de cravo, ameixa e nozes – e algo que lembra muito a madeira (e conquista logo que a cerveja é derramada no copo). O sabor, maravilhoso, é encorpado, mas suave. O primeiro toque é adocicado, então um leve amargor se faz presente e ambos vão se revezando (de forma impressionante) sem que um prejudique o outro. Há algo de frutado (ameixa e cereja) e um adocicado que remete diretamente a açúcar mascavo (mas sem o melado). O malte torrado aparece discretamente ao lado do álcool, extremamente bem balanceado no conjunto de uma cerveja espetacular.

Não tem muito mais o que falar. É uma das melhores cervejas do mundo, ponto. Favorite o site do mosteiro (aqui) e leia, ainda, a entrevista rara que o monge Mark Bode concedeu ao The Independent (aqui). E coloque como meta um dia conhecer o lugar. Você não vai se arrepender.

Ps. Tosi, novamente, obrigado \o/
Ps 2. Nunca terminar uma cerveja deu tanta dor no coração.

Teste de Qualidade: Westvleteren

- Westvleteren 8
- Produto: Dark Strong Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 8%
- Nota: 5/5

Março 23, 2011   10 Comments

Opinião do Consumidor: Brooklyn (parte 2)

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Eis mais duas belíssimas surpresas da cervejaria que ousa enfrentar o imperialismo american lager que assola os Estados Unidos (chegando a ecoar no Brasil). As versões Vienna Lager, Índia Pale Ale e Ale já passaram por aqui (links no fim do post), mas as duas cervejas abaixo são coisa de gente grande, com graduação alcoólica altíssima e uma confusão de sabores para paladar nenhum colocar defeito.

A Brooklyn Monster Ale nasceu em 2009 e é uma cerveja sazonal disponível apenas de dezembro a março. Os norte-americanos capricharam nessa versão Barley Wine (de cervejas tão fortes quanto vinho) da casa. O malte escocês fica curtindo durante quatro meses resultando numa cerveja encorpada, quase licorosa, mas de aroma conquistador (madeira, nozes, vinho) e sabor lupulado, meio doce, que desaparece no final seco.

O amargo do lúpulo disfarça a alta graduação alcoólica, mas é bom não brincar com esse monstrinho. É pra ir devagar e beber como acompanhamento de pratos. O site oficial a recomenda com “queijos, sorvetes, crème brûlée e bons charutos”. Uma das vantagens do estilo é sua durabilidade: é possível guardá-la por bastante tempo. Essa da foto tinha validade para dezembro de 2013. Ou seja, podia ficar ainda melhor. Você teria paciência com ela na geladeira?

Já a Black Chocolate Stout tem tudo para se tornar a stout mais forte que você irá provar na vida. Não só porque a graduação alcoólica é uma cacetada de 10%, mas porque tudo nela é muito mais intenso. Inspirada no estilo Imperial Stout (nascido das cervejas inglesas feitas no século XVIII para a corte de Catarina II, da Rússia, que precisavam de alto teor alcoólico para não congelar no transporte pelo Mar Báltico) a Brooklyn preparou uma cerveja especialíssima.

Seu aroma, naturalmente, é carregado por notas de café impregnadas por chocolate amargo e álcool, este último bastante perceptível. O paladar é invadido por algo que lembra demais chocolate amargo (intensamente), e também café, ameixas e malte torrado. O amargor intenso marca o céu da boca e preenche toda a garganta, com final inicialmente adocicado (mas muito levemente) para terminar amargo (com gosto forte de café, ou o meio termo: cappucino). Uma maravilha.

Teste de Qualidade: Brooklyn (parte 2)

- Brooklyn Monster Ale
- Produto: Barley Wine
- Nacionalidade: Estados Unidos
- Graduação alcoólica: 10,1%
- Nota: 4,57/5

- Brooklyn Black Chocolate Stout
- Produto: Imperial Stout
- Nacionalidade: Estados Unidos
- Graduação alcoólica: 10,1%
- Nota: 4,59/5

As duas foram compradas diretamente na distribuidora, a Casa da Cerveja, ao preço de R$ 18 a garrafa de 330 ml. Assim com a Moster Ale, a versão Black Chocolate Stout também é sazonal, sendo feita apenas de outubro a março.

Leia também:
- Brooklyn na contra-mão do imperialismo american lager (aqui)

Março 18, 2011   No Comments

Opinião do Consumidor: Theresianer

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O nascimento da cervejaria ítalo-austriaca Theresianer remonta ao período em que Trieste pertencia a Áustria. Mais precisamente em 1766, quando um austríaco obteve permissão de Maria Teresa da Áustria (arquiduquesa e soberana da Áustria, Hungria, Bohemia, Croácia, Mântua, Milão, Galícia, Lodomeria, Parma e Países Baixos Austríacos entre 1740 e 1780) para abrir a primeira cervejaria da cidade – seguindo o modo austríaco de fazer cerveja.

O nome da cervejaria homenageia o bairro Borgo Teresiano, em Trieste, próximo ao porto da cidade e ao Grande Canal, mas a cervejaria se encontra mais afastada do Mar Adriático, aos pés das Dolomitas, cadeia montanhosa dos Alpes orientais no norte da Itália, na cidade de Nervesa della Battaglia, província de Treviso (terra dos Callegari – pertinho, bem pertinho de Veneza). Ou seja, um local de água pura, ingrediente especial para qualquer boa cerveja.

A versão Premium Pils da Theresianer é uma pilsner que segue o padrão tcheco de qualidade: ela é bastante leve, muito mais loira e dourada que as novas pilsens, e mais lupulada também. O aroma destaca uma briga equilibrada entre malte e lúpulo (se alternando). Já o paladar, levíssimo, tem o lúpulo à frente do malte. O amargor característico persiste desde o primeiro toque na língua até o final duradouro, que marca a garganta. Uma pilsener belíssima e acima da média.

Se a pilsner dos italianos já é recomendável, a pale ale é ainda mais surpreendente. Assim como a loura da cervejaria, a Theresianer Pale Ale é levíssima e pouco amarga, ficando mais próxima das Pale Ale belgas do que das inglesas. O aroma carrega na intensidade do adocicado e do frutado (laranja, mel e caramelo) ao lado do malte e do lúpulo (ambos tímidos), que permanecem no sabor (com o álcool marcando presença discretamente) até o seu final extremamente suave. Para procurar em Roma e Veneza.

Além da Theresianer Premium Pils e da Theresianer Pale Ale, a Casa da Cerveja está trazendo para o Brasil a premiada Theresianer Vienna, que foi a que menos me conquistou do trio. As características estão todas ali: a cor acobreada, o aroma maltado e o sabor entre o caramelado e o amargo, mas ela não parece tão saborosa (a da Brooklyn, por exemplo, é maravilhosa, vá atrás), além de ser um pouquinho aguada e não tão amarga. É boa, mas perde para irmãs de estilo.

Teste de Qualidade: Theresianer

- Theresianer Premium Pils
- Produto: Pilsner
- Nacionalidade: Itália
- Graduação alcoólica: 5%
- Nota: 3,08/5

- Theresianer Pale Ale
- Produto: Pale Ale
- Nacionalidade: Itália
- Graduação alcoólica: 6,5%
- Nota: 3,15/5

- Theresianer Vienna
- Produto: Vienna Lager
- Nacionalidade: Itália
- Graduação alcoólica: 5,3%
- Nota: 3,03/5

A Theresianer pode ser encontrada no Empório do Shopping Frei Caneca ou mesmo na loja da Casa da Cerveja (Rua Lisboa, 502, Pinheiros, São Paulo), todas com preço girando entre R$ 12 e R$ 15 (a garrafa de 330 ml).

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Março 3, 2011   2 Comments

Opinião do Consumidor: Wäls

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O trio de fource da excelente cervejaria Wäls (da região da Pampulha, em Minas Gerais) têm apenas quatro anos de vida, mas são tão especiais e deliciosas quantos as milenares cervejas alemãs ou belgas. A cervejaria, por sua vez, nasceu em 1999, e começou fabricando chopes Pilsen, Stout e English Pale Ale para a rede de fast-food do patriarca da família, e só foi se aventurar nas belgas em 2007.

A Wäls continua fabricando os chopes além de engarrafar uma versão Pílsen Bohemia (também de receita belga), mas desde 2007 adentrou o território strong ale de cervejas, primeiro lançando a elogiada versão Dubbel (bastante tradicional), e nos dois anos seguintes surgindo com as sensacionais versões Trippel (2008) e Quadruppel (2009), a última a mais forte da casa, e desde já uma das melhores cervejas brasileiras.

A ideia pessoal era começar pela Dubbel (7,5%) e então passar para a Tripel (9%), mas na hora de fazer a foto, me enrolei e quando vi já havia enchido o copo com a complexa, assustadora e sensacional Quadruppel, 11% de teor alcoólico embrenhado em meio a um aroma adocicado que lembra caramelo, ameixa e uvas passas e prepara o paladar para uma experiência especialíssima.

A Quadruppel consegue conciliar com brilhantismo a imensa quantidade de álcool (que aqui remete diretamente a melhor cachaça mineira, como avisa a fórmula) com um adocicado que lembra ameixa, café (mas de forma bem leve), malte e caramelo, que permeiam a boca durante toda a passagem, deixando no final um ponto de amargor (característico de cachaça) que finaliza uma cerveja excepcional.

Eis uma cerveja encorpada e forte, mas não agressiva. Seu principal diferencial surge na maturação, quando são inseridos chips de carvalho que, antes, foram deixados marinando em cachaça mineira – e esse processo confere extrema personalidade ao conjunto. A cerveja continua sendo refermentada na garrafa. A validade desta que provei era outubro de 2013.

Após se encantar com a Quadruppel, a versão Trippel parece ser a cerveja mais leve do mundo. Não é bem assim. São 9% de graduação alcoólica, que seguindo a tradição belga, desaparecem no conjunto harmonioso. Aqui não há cachaça para rebater o adocicado, apesar de o aroma destacar o álcool em meio a notas de malte, coentro e casca de laranja (todos integrantes da formulação da Trippel), além de mel.

Ao primeiro toque na língua, o álcool se faz marcante, mas desaparece logo em seguida dando lugar a um dulçor que permanecerá durante toda a ingestão. Esse adocicado é embalado por frutado (lembrando algo de banana, mas bastante distante de uma Weiss, e algo de laranja) e um pouco de malte (que remete bastante a mel). No final, longo, o álcool volta a marcar presença. Uma bela cerveja, menos complexa e interessante que a Quadruppel, mas ainda assim especial.

Por fim, aquela que deveria ser a primeira: a Dubbel. Imagino que começando por ela, depois pela Trippel e terminando na Quadruppel, a empolgação seja maior. Mas quando se começa pela melhor, o paladar cobra um pouco mais. Importante ressaltar, as três cervejas têm personalidade definida ao ponto de uma se diferenciar bastante da outra. A Dubbel é a mais tradicional das três chegando a lembrar bastante as strong ales belgas (diferente da Quadruppel, cujo cachaça a torna praticamente única).

No aroma, a Dubbel traz as características notas de nozes, frutas secas, uvas passas, caramelo e café (os dois últimos em menor quantidade), com um pouquinho de álcool (são 7.5% de graduação) muito bem inserido no conjunto (como uma boa belga). Na boca ela impressiona mais. O começo valsa entre o adocicado e o amargo, numa complexidade deliciosa que remete a ameixa e malte, finalizando com um seco e levemente amargo (em teste cego, muitos diriam estar diante de uma belga original). Ainda que inferior as suas irmãs, uma cerveja excelente.

Teste de Qualidade Wäls Dubbel
- Produto: Strong Ale
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 7,5%
- Nota: 4,11/5

Teste de Qualidade Wäls Trippel
- Produto: Strong Ale
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 9%
- Nota: 4,19/5

Teste de Qualidade Wäls Quadruppel
- Produto: Strong Ale
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 11%
- Nota: 4,90/5

A Wäls pode ser encontrada em empórios e algumas lojas online entre R$ 11 e R$ 19 e garrafa de 330 ml (R$ 35 a garrafa de 750 ml) no formato com rolha, que pode ser guardado por até dois anos (ela continua refermentando na garrafa). As três acima foram compradas no Empório do Shopping Frei Caneca.

Fevereiro 26, 2011   2 Comments

Opinião do Consumidor: Wells Banana Bread

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O slogan da cervejaria britânica Wells & Youngs diz muito sobre os anseios da casa: “cervejas especiais para ocasiões especiais”. Nascida em 2006 da união da Charles Wells (fundada em 1876) e da Young’s Brewery (1831), a Wells & Young’s é responsável pela produção da John Bull e da ótima Young’s Double Chocolate Stout além de fabricar e distribuir no Reino Unido a jamaicana Red Stripe, a espanhola Estrella Damm e a ótima mexicana Negra Modelo.

A Wells Banana Bread Beer, como o nome apresenta, traz banana e malte estilo pão em sua composição (além de casca de limão), e ao contrário do que possa parecer, não é tão adocicada como esperado (uma boa surpresa). O aroma, extremamente delicioso e conquistador, é pura essência artificial de banana – com malte quase imperceptível. No paladar, no entanto, a banana se mistura com o malte mantendo um amargor leve do começo ao fim, que termina mais adocicado (banana, claro).

A leveza da Wells Banana Bread Beer impressiona, com os 5,2% de álcool bem inseridos no conjunto. A banana (marca das weiss, bem mais encorpadas que essa Wells) cumpre seu papel dando um toque diferente e bastante particular ao sabor, que em nenhum momento chega a enjoar, valorizando o equilíbrio da composição (a essência tão presente no aroma surge muito bem ambientada no paladar) de uma cerveja que merece ser provada. Minha preferida de frutas continua sendo a belga Mongozo, mas a Wells Banana Bread Beer foi uma grata surpresa.

Teste de Qualidade  Wells Banana Bread Beer
- Produto: Strong Ale
- Nacionalidade: Inglaterra
- Graduação alcoólica: 5,2%
- Nota: 3,42/5
- Preço: entre R$ 15 e R$ 25 (garrafa de 500 ml)

Leia também:
- O aroma cativante da Young’s Double Chocolate Stout (aqui)

Fevereiro 20, 2011   No Comments

Opinião do Consumidor: Weihenstephaner

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Com vocês, a cervejaria mais antiga do mundo. É sério. A Weihenstephan Brewery foi licenciada oficialmente por monges beneditinos na Bavária, Alemanha, em 1040, mas antigos documentos fazem referência a plantação de lúpulo por volta do ano 768. Há outra abadia, Weltenburg, também na Baviera, que diz que foi fundada por volta do ano 620, mas a falta de documentos oficiais coloca a Weihenstephan como a primeira cervejaria do mundo. Não é pouco.

Ou seja, quase mil anos de tradição cervejeira e história não podem ser ignorados. Durante o passar dos séculos, o mosteiro sobreviveu a invasões, saques e incêndios, até que em 1803 a abadia foi dissolvida pelo governo e a cervejaria estatizada e transformada em patrimônio da Bavária. Em 1919 (em um processo iniciado lentamente em 1852) a Weihenstephan Brewery passou a integrar a Universidade de Agricultura e Cervejaria de Munique, com um centro de produção que também forma mestres cervejeiros.

A Weihenstephaner Hefe Weissbier é uma cerveja que mantém todas as características das cervejas de trigo da Bavária: o aroma tem algo de floral e frutado, pendendo claro para banana (altamente reconhecível), mas também destacando o cravo. O paladar, no entanto, é extremamente leve, com um início adocicado que persiste até o (pouquíssimo amargo) final. A leveza é valorizada pela textura aguada que, ao contrário do que possa parecer, valoriza o conjunto desta cerveja extremamente refrescante. Uma delicia.

A versão Vitus da cervejaria é apresentada como um Weizenbock, porém sua cor está longe das ruivas tradicionais. A Vitus é dourada como uma boa cerveja de trigo, mas sua textura promete (e cumpre) uma cerveja mais encorpada que a versão Hefe da cervejaria. Então, pegue tudo do parágrafo anterior, e acrescente mais… sabor. É isso: a Vitus é mais saborosa que a Hefe com paladar e aroma invadidos pela presença intensa de cravo e banana.

Os 7,7% de teor alcoólico da Vitus – contra os 5,4% da Hefe – não soam agressivos ao paladar, embora a cerveja seja muito mais marcante – e o final mais duradouro. Ou seja: comparativamente falando (chutando), é muito mais fácil sentir no corpo que você bebeu uma Vitus do que duas Hefe. A segunda é muito mais leve e refrescante, enquanto a primeira pega o sujeito de jeito pelo sabor e pelo álcool (que não transparece no paladar, mas está ali – acredite). No entanto, as duas são excelentes pedidas.

Teste de Qualidade Weihenstephaner Hefe Weissbier
- Produto: Weiss
- Nacionalidade: Alemanha
- Graduação alcoólica: 5,4%
- Nota: 3,99/5
- Preço: entre R$ 8 e R$ 15 (garrafa de 500 ml - vários supermercados)

Teste de Qualidade Weihenstephaner Vitus Weizenbock
- Produto: Weiss Bock
- Nacionalidade: Alemanha
- Graduação alcoólica: 7,7%
- Nota: 3,98/5
- Preço: entre R$ 8 e R$ 15 (garrafa de 500 ml - vários supermercados)

Fevereiro 16, 2011   3 Comments

Opinião do Consumidor: Hen’s Tooth

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Antes de qualquer coisa, o que mais chama a atenção na Hen’s Tooth é sua cor: é de um alaranjado quase amarronzado tão brilhante que parece mel – ou uísque. A garrafa transparente (ao contrário do tradicional tom escuro) valoriza ainda mais essa English Strong Ale que posa de Real Ale (termo criado para reunir as cervejas elaboradas com ingredientes tradicionais, maturadas com uma segunda fermentação no próprio barril de onde será servida e extraída sem o auxílio do CO2), mas na verdade é uma Old Ale (refermentada na garrafa).

Integrante do conglomerado da Greene King, cervejaria fundada em 1799 em Suffolk, Inglaterra, que com o passar dos anos tornou-se a maior cervejaria britânica devido à compra (muita vezes criticada) de pequenas fábricas, a Mortland (cervejaria fundada em de Abingdon, no condado de Oxfordshire) tem como carro chefe da casa a famosíssima Old Speckled Hen, uma das primeiras cervejas premium do Reino Unido, mas começa a investir pesado na Hen’s Tooth (a exportação para outras países é um indicativo).

Tudo aqui é especialmente britânico. O aroma destaca a presença do lúpulo trazendo à memória a lembrança de abacaxi, uvas e flores – e por fim, malte. O paladar é aquilo que os ingleses tentam transformar em clássico: o álcool levemente disfarçado em algo que lembra caramelo e, levemente, café. O amargor característico (devido à boa presença de malte) se faz presente de forma comportada, mas o final é surpreendentemente adocicado (não confundir com enjoativo – está bem longe disso).

Um fato interessante: a Hen’s Tooth parece mais forte do que os 6;5% de álcool prometem logo na apresentação (o que, em condições normais, já é muito para o paladar brasileiro acostumado aos 4,5% das cervejas tradicionais nacionais). O aroma e o paladar no primeiro toque na língua são marcantes, mas aos poucos a cerveja amacia, e seu final levemente adocicado torna a cerveja bastante interessante, um conjunto agradável que pode surpreender. No entanto, vale tomar cuidado: você acha que ela não vai te embebedar, mas ela vai. Acredite.

Teste de Qualidade: La Trappe Dubbel
- Produto: English Strong Ale
- Nacionalidade: Inglaterra
- Graduação alcoólica: 6,5%
- Nota: 3,97/5
- Preço: entre R$ 15 e R$ 25 (garrafa de 500 ml)

Fevereiro 9, 2011   2 Comments

Opinião do Consumidor: La Trappe

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No século 17, monges cistercienses fundaram a abadia francesa de Notre-Dame de la Trappe buscando uma vida simples na contramão do luxo vivido pelos monges na época. Meditação, isolamento e oração estavam entre as tarefas destes monges, que ficaram conhecidos como Trappistas, e que, para sustentar o monastério, produziam queijos, pães e vinhos.

Corta para 2010. Dos 171 mosteiros trapistas existentes no mundo, apenas sete produzem cerveja (seis na Bélgica e um na Holanda). Estes sete mosteiros são os únicos autorizados a marcar seus produtos com o selo de autenticidade trapista, garantindo a origem monástica de sua produção – sob a supervisão de monges da Ordem Trapista.

Produzida desde 1884 no monastério de Onze Lieve Vrouw van Koningshoeven, na província de North Brabant, na Holanda, a La Trappe é a única cervejaria Trapista que não é belga. Importada pela Bier & Wien, a La Trappe chega ao Brasil em várias versões (Blond, Dubbel, Tripel, Quadrupel, Witte e Bock – veja aqui).

A Dubbel tenta despistar o álcool (são 7,0%) através do malte de caramelo (torrado), que confere um leve adocicado ao conjunto – e que remete (bastante) a chocolate e, claro, café. No aroma, algo de banana e álcool (que acaba se sobressaindo). O paladar, no entanto, não sente tanto o álcool (proposto pelo aroma e pelo rótulo), mas sim banana, uvas passas, chocolate amargo e, bem menos, café. O final é inicialmente amargo, mas termina mesmo levemente adocicado (mas muito leve).

É só a versão Dubbel, mas das seis trapistas que conheço (Achel, Orval, Rochefort, Chimay, Westmalle e La Trappe – a Westvleteren é a única que falta riscar no calendário), a La Trappe Dubbel pareceu a menos equilibrada que provei (apesar de, inegavelmente, ser saborosa). As Chimay são perfeitas. As Achel vêm logo depois. Orval e Westmalle são ótimas. Já as Rochefort, cuidado, são para experientes.

A La Trappe Dubbel pode ser encontrada (em sua versão 750 ml com rolha) no Pão de Açúcar e em diversos empórios (incluindo sites como a Biervoxx, Submarino e Americanas.com) entre R$ 31 e R$ 36.

Teste de Qualidade: La Trappe Dubbel
- Produto: Belgian Dubbel
- Nacionalidade: Holanda
- Graduação alcoólica: 7%
- Nota: 4,12/5

Janeiro 7, 2011   7 Comments

Opinião do Consumidor: IPA Estrada Real

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Fundada em 2004 em Belo Horizonte, a Falke Bier é resultado dos esforços de três irmãos (Marco Antonio, Juliana e Ronaldo Falcone), que fundaram a cervejaria em 2004. Segunda micro-cervejaria mineira a freqüentar este espaço (a primeira foi a Backer), a Falke surge representada por um de seus maiores destaques, a Índia Pale Ale Estrada Real.

A Estrada Real ligava Villa Rica, hoje Ouro Preto, a Paraty, mas pela necessidade de uma via de escoamento mais segura e rápida ao porto do Rio e, também por imposição da Coroa foi aberto um “caminho novo”. A rota de Paraty passou a ser o “caminho velho”. Com a descoberta das pedras preciosas na região do Serro, a estrada se estendeu até Diamantina, deixando Ouro Preto como o centro de convergência.

No site oficial, os Falcone explicam a escolha do nome: “O estilo India Pale Ale foi criado pelos ingleses durante a colonização da Índia no século XVIII. Aumentaram a lupulagem (o lúpulo tem ação bactericida) e o teor alcoólico (diminui a atividade microbiológica), conferindo, naturalmente, maior durabilidade à bebida. Certamente seria a cerveja que acompanharia os viajantes da Estrada Real no séc. XVIII.”

Faltou dizer que os viajantes ficariam facilmente bêbados, pois o alto teor alcoólico (7,5%) está bem disfarçado no conjunto balanceado desta ótima IPA. O aroma fica entre o frutado e o levemente floral enquanto o paladar, de amargor acentuado, dá o tom perfeito deixando algo de tostado e café no primeiro toque na língua, para depois amaciar e terminar levemente adocicado (bem leve – o amargor comanda o conjunto).

Ainda sinto falta de alguma coisa, talvez um pouco mais de corpo. Mesmo assim, uma ótima cerveja e uma bela homenagem a Estrada Real. Agora é preciso investigar o cardápio da cervejaria (eles fazem uma Tripel Monasterium que me tentou), e vale acompanhar o blog do Marco Falcone, com várias dicas. A garrafa de 600 ml (um pouco mais baixinha que a tradicional nacional – e por isso, mais robusta) pode ser encontrada entre R$ 11 e R$13 (essa foi comprada nos Supermercados Mambo).

Teste de Qualidade: Estrada Real
- Produto: Índia Pale Ale
- Nacionalidade: Brasil
- Graduação alcoólica: 7,5%
- Nota: 3,4/5

Leia também:
- As passagens minhas e de Lili pela Estrada Real (aqui)
- Quatro Backer (Brown, Pilsen, Trigo, Pale Ale (aqui)
- Site oficial da Estrada Real: http://www.estradareal.org.br/
- Blog do Marcelo Falcone: http://culturacervejeira.blogspot.com/
- Site oficial da Falken Bier: http://www.falkebier.com.br/

Dezembro 27, 2010   2 Comments

Opinião do Consumidor: La Achouffe

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A Brasserie D’Achouffe é uma cervejaria belga localizada numa pequena aldeia em Houffalize, na região da Valônia, quase na fronteira com Luxemburgo e a poucos quilômetros da Alemanha. Foi ali que dois irmãos começaram a fabricar cerveja para consumo próprio (os garotos brasileiros jogam futebol, os belgas produzem cerveja), e em 1982 decidiram abrir a cervejaria que leva o nome do vilarejo: Achouffe.

As Achouffe são bem identificáveis em uma adega: o rótulo traz sempre um “simpático duende”, segundo o site oficial, que explica: os elfos e duendes estão entre os principais personagens dos contos das Ardenas (o Vale das Fadas), floresta que toma boa parte da Valônia (incluindo Achouffe – que significa gnomo no dialeto valão). Do capítulo “cerveja também é cultura”.

Em setembro de 2006 a cervejaria foi comprada pela Duvel (ajoelhemos) Moortgat. A primeira atitude da nova empresa gestora foi diversificar o formato das Achouffes, antes encontradas apenas em lindas garrafas de 750 ml – um sonho de consumo que ainda pode ser encontrado na região belga. Para exportação, a Duvel emprestou seu formato de garrafa (baixinha e fofinha – engana pacas) e é assim que a La Chouffe chega ao Brasil (no mesmo formato da Duvel), importada via Beer Paradise.

A La Chouffe é o carro chefe da micro-cervejaria, uma cerveja especial não filtrada e fermentada diretamente no barril. Temperada com coentro (não faça essa cara: lembra a Hoegaarden, outra paixão belga) e levemente lupulada, a La Chouffe tem o mesmo dom da Duvel: esconde o álcool por trás de especiarias (o floral e o frutado fazem o serviço tanto no aroma quanto no paladar), o que a torna deliciosa – e perigosa (são 8% de graduação alcoólica que você não percebe estar bebendo).

Agora, tirem as crianças da sala. A Houblon Chouffe Dobbelen IPA Tripel (nascida em 2006 e fermentada em barril e na garrafa) assusta já no nome, que numa leitura cervejeira quer dizer que possui três vezes mais lúpulo (afinal é uma Índia Pale Ale – o lúpulo ajuda a conversar a cerveja por mais tempo), o que a torna mais encorpada, complexa, forte e de teor alcoólico batendo a casa dos 9%. Ou seja: esqueça a leveza da anterior.

Tudo na Houblon Chouffe Dobbelen IPA Tripel se apresenta logo, por isso é uma cerveja mais intensa e, até por isso, difícil. O amargor é forte (apesar de um leve adocicado no primeiro toque na língua), e você vai gastar o dobro do tempo para consumi-la. Não desista. O aroma é floral – remete a capim, grama e hortelã. O paladar segue o aroma destacando o floral com uma variedade de sabores (abacaxi, laranja, banana e até cravo e coentro) que o torna quase indescritível. É uma experiência.

O site oficial convida: “Venha visitar nossa fábrica de cerveja e saborear os nossos produtos em uma atmosfera amigável”. Vale muito. Achouffe fica a duas horas de Bruxelas, e além das versões 330 e 750 ml, eles vendem barris de 20 litros. Ok, eu não escrevi isso. Esqueça. No Brasil, a garrafa baixinha e gordinha (330 ml) pode custar entre R$ 16 e R$ 23 (Supermercados Mambo) enquanto a versão 750 ml pode sair até por R$ 60. Lá é três vezes menos que isso…

Teste de Qualidade: Brasserie D’Achouffe

- La Chouffe
- Produto: Belgian Specialty Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 8%
- Nota: 4,82/5

- Houblon Chouffe Dobbelen IPA Tripel
- Produto: India Pale Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 9%
- Nota: 4,56/5

Dezembro 26, 2010   3 Comments

Opinião do Consumidor: Brooklyn Brewery

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Um ex-correspondente da Associated Press (Steve Hindy), um ex-bancário (Tom Potter) e o mestre cervejeiro mais badalado dos Estados Unidos (Garrett Oliver, autor dos livros “The Good Beer Book” e “The Brewmaster’s Table”) formam o trio de frente de uma das cervejarias norte-americanas mais bacanas da atualidade: a Brooklyn Brewery, que abriu as portas timidamente em 1987 em Nova York, mas hoje têm um catálogo vasto que mantém as características de uma micro-cervejaria delicada e personal – indo na contramão do imperialismo american lager.

Primeira do pacote (e carro chefe da casa), a deliciosa Brooklyn Lager promete muito mais do que o nome deixa transparecer. Por isso esqueça as American Lagers (levezinhas) cuja receita faz sucesso no Brasil. Apesar de ter casa em Nova York, a inspiração da Brooklyn Lager é austríaca, mais precisamente nas Vienna Lagers surgidas na primeira metade do século 18. O aroma floral (carregado de lúpulo) é marcante. O sabor é maltado entre o amargo é o levemente caramelizado com final suave e também amargo. Simplesmente apaixonante.

Próxima: A Índia Pale Ale nasceu na Inglaterra, que encheu de lúpulo a cerveja tradicional para que ela resistisse mais tempo e fosse levada em viagens de návio pela Índia. A Brooklyn Brewery seguiu a risca o mandamento na East India Pale Ale. O que a difere da versão Lager é que suas características, por natureza, são mais intensas. Lagers são cervejas de baixa fermentação enquanto as Ales são de alta. Ou seja: está tudo ali (o aroma floral, o sabor maltado, o final amargo), mas mais acentuado. Bate bem mais forte.

Fechando o trio (particular – o catálogo da Brooklyn Bewery é bem mais extenso), a Brooklyn Brown Ale, que deixa o lúpulo em segundo plano (mas só um pouco) para valorizar o malte torrado. O aroma é de um chocolate sutil com um pouco de café, mais forte – mas ainda sútil (ao contrário dos cânones do gênero, que capricham no cheiro), que acaba conquistando. O sabor segue o aroma, com um leve amargor e um final seco e refrescante, delicioso.

Antes das considerações (quase) finais, uma observação bastante pertinente d0 amigo Eduardo Nasi (@eduardonasi): “Deixa as conclusões finais sobre a Brooklyn Brewery pra depois de beber a pint da lager tirada do barril”. Anotado. Nova York, me aguarde.

Teste de Qualidade: Brooklyn Brewery

- Brooklyn Lager
- Produto: Vienna Lager
- Nacionalidade: Estados Unidos
- Graduação alcoólica: 5,2%
- Nota: 4,21/5

- Brooklyn Índia Pale Ale
- Produto: Índia Pale Ale
- Nacionalidade: Estados Unidos
- Graduação alcoólica: 6,8%
- Nota: 4,22/5

- Brooklyn Brown Ale
- Produto: Ale
- Nacionalidade: Estados Unidos
- Graduação alcoólica: 5,6%
- Nota: 4,18/5

Dezembro 24, 2010   3 Comments

Opinião do Consumidor: Murphy’s Irish Stout

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Após passar por uma double chocolate stout (a ótima Young’s), hora de encontrar uma stout de verdade, com colarinho hiper-cremoso, cheiro marcante de café e muita história cervejeira. A Murphy’s – fundada em Cork, na República da Irlanda – já passou por aqui, mas com sua versão Irish Red, mas o patrimônio da casa é a versão stout, que segundo consta ainda segue a receita original desde sua fundação, em 1856.

Principal particularidade: o sistema Draughtflow. Ao abrir o latão de 500 ml, um dispositivo libera nitrogênio formando um efeito de cascata de espuma (semelhante ao da Guiness), o que torna o colarinho permanente e bastante cremoso. Já que falamos em Guiness, numa comparação com a stout mais famosa do mundo, a Murphy’s parece mais doce, mais seca e muito mais leve (são só 4% de graduação alcoólica).

Uma propaganda da empresa brinca que a cerveja é escura como um capuccino forte. A comparação tem relação também com o aroma e o sabor marcados por café (devido ao malte tostado) e, levemente, por caramelo (há malte de chocolate na formulação). Se não há muita personalidade no conjunto, o que valoriza a Murphy’s Irish Stout é sua suavidade, tornando-a boa companheira para qualquer ocasião.

Está sendo trazida ao Brasil pela Femsa e pode ser encontrada entre R$ 9 e R$ 14 em supermercados (Pão de Açúcar) e empórios.

Teste de Qualidade: Murphy’s Irish Stout
- Produto: Stout
- Nacionalidade: Irlanda
- Graduação alcoólica: 4%
- Nota: 3,02/5

Leia também:
- Young’s Double Chocolate Stout, uma delícia (aqui)
- Murphy’s Irish Red, não é perfeita, mas é agradável (aqui)

Dezembro 12, 2010   5 Comments

Opinião: Young’s Double Chocolate Stout

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Basta levar a taça ao nariz para sentir o forte e delicioso aroma de chocolate. Das cervejas que adicionam chocolate em sua fórmula, apenas a fracote Backer Brown (o patinho feio da cervejaria mineira) tinha freqüentado este espaço. Agora é a vez da bela Young’s Double Chocolate Stout, uma cerveja inglesa muito interessante e peculiar produzida pela Wells & Youngs, uma cervejaria fundada em 1831.

As stouts são cervejas de cor escura derivada do malte torrado, que naturalmente lhe confere sabor e aroma de café e chocolate. A mais famosa das stouts é a Guiness, mas a história aqui é um pouco mais adocicada, incluindo adição de malte de chocolate (um malte que foi torrado até adquirir uma cor de chocolate amargo) ou mesmo chocolate de verdade – como nesta Young’s Double Chocolate Stout.

O aroma é cativante. O café e o malte torrado se fazem presente, mas o grande destaque é o chocolate, que impressiona. O torrado do malte se destaca no sabor marcante, que deixa no final algo de café e chocolate amargo. São só 5,2% de graduação alcoólica (até baixo para um stout), mas fica a impressão de ser mais forte nos primeiros goles, embora amacie no final – balanceado e perfeito. Belíssimo exemplar do estilo. Para beber (a garrafa de 500 ml desce e você nem percebe) e viciar…

Teste de Qualidade: Young’s Double Chocolate Stout
- Produto: Stout
- Nacionalidade: Inglaterra
- Graduação alcoólica: 5,2%
- Nota: 4,43/5

Leia também:
- Backer Brown: jogaram Toddynho na sua cerveja (aqui)

Dezembro 7, 2010   7 Comments

Opinião do Consumidor: Verboden Vrucht

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A cervejaria belga Hoegaarden não produz apenas a clássica e deliciosa cerveja que leva o nome da casa. Além da própria, nascida em 1966 (com a cervejaria defendendo que a receita original data de 1441), a Hoegaarden ainda fabrica a Grand Cru (1985), com 8,5% de teor alcoólico e sabor marcante; a Speciale (1995), quase uma versão de luxo da Hoegaarden tradicional; a Rosée (2007), com sabor de framboesa; e a Citron (2008), quase uma limonada com um tiquinho de álcool (só 3%).

Não presente no site oficial, mas também fabricada pela cervejaria surge a Verboden Vrucht, que em bom português significa Fruto Proibido. Não é a toa que no rótulo Adão e Eva (em imagem inspirada no quadro de Peter Paul Rubens) trocam a maçã por um copo de cerveja. A ilustração tornou esta cerveja de alta fermentação rara, já que um processo da American Bureau of Álcool, Tobacco and Firearms, nos Estados Unidos, acusou a cervejaria de pornografia, e proibiu a Verboden Vrucht em território norte-americano (veja o rótulo em alta aqui).

Uma pena, já que a Strong Ale pecadora da Hoegaarden é simplesmente uma delícia. Esqueça a delicadeza da versão tradicional (bastante refrescante, mas inocente perto da Verboden Vrucht). O álcool (8,5%) está presente e se destaca na composição, do aroma ao paladar. O primeiro é marcado por malte, algo entre caramelo e café, e também uvas passas e cravo. Já o paladar é intenso, reafirmando o que pode ser sentido no aroma – mas valorizando o adocicado, que se esconde atrás do álcool no aroma, mas surge para contrabalancear no paladar.

Fato interessante: ela fica bem mais gostosa conforme vai esquentando no copo. Seu sabor se torna mais presente (e mais adocicado e frutado, mas não enjoativo), mas não é recomendável abusar da quantidade (cuidado, cuidado com os 8,5%). Não é lá muito fácil de encontrar (principalmente pelas Américas), mas vale e muito a procura. Do mesmo estilo (e mais encontráveis) são a Chimay Azul e a poderosa Rochefort 8, duas cervejas que entram facilmente no território dos frutos proibidos. Todas pecadoras… e maravilhosas.

Teste de Qualidade Hoegaarden Verboden Vrucht
- Produto: Dark Strong Ale
- Nacionalidade: Bélgica
- Graduação alcoólica: 8,5%
- Nota: 4,41/5

Ps. Agradecimento a Marco Antonio Bart pelo presente raro :P

Leia também:
- Hoegaarden, uma cerveja leve e deliciosa (aqui)

Novembro 30, 2010   1 Comment

Opinião do Consumidor: 1906 Reserva Especial

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As lagers (cervejas de baixa fermentação) datam do século 14 e exibem um leque de variações que podem alegrar muito fã do estilo. Entre as claras, por exemplo, temos a Pilsner, cuja pátria mãe é a República Tcheca (e o modelo a Pilsner Urquell) e a American Lager, uma cerveja leve e refrescante para ser bebida exageradamente gelada. Sim, é essa que você e 90% dos brasileiros consomem.

Outra variação é a Vienna Lager, um estilo surgido na Áustria na primeira metade do século 18, cujas características destacam a cor avermelhada e sabor e aroma levemente adocicados pelo malte torrado. É um tipo de cerveja que sumiu do mapa durante um tempo, mas que se viu renascida em nomes como as mexicanas Negra Modelo e Dos Equis Âmbar, e nesta espanhola 1906 Reserva Especial.

Fabricada pela Estrella Galícia, a 1906 Reserva Especial homenageia a data de fundação da cervejaria espanhola, mas nasceu apenas nas comemorações do centenário da fábrica, em 2006, presenciada inclusive pelo rei da Espanha, Juan Carlos. Fundada por José Maria Rivera Curral na cidade de La Coruña, a Estrella Galícia ainda continua na família sendo administrada pela quarta geração do patriarca.

De teor alcoólico elevado para padrões brasileiros (6,5%), a 1906 chega a causar estranhamento com o álcool se fazendo presente desde o primeiro momento. O aroma é forte e marcante remetendo a milho (presente na formulação) e ao malte tostado. O paladar começa adocicado e quase licoroso, mas se torna amargo progressivamente – carregando no álcool e no malte tostado.

A 1906 Reserva Especial não parece uma cerveja para ser apreciada a qualquer hora, mas sim para momentos especiais. A favor tem o preço (importada pelo Grupo Pão de Açúcar, pode ser encontrada por cerca de R$ 3 nos supermercados da rede). Contra, o fato de que existem cervejas muito melhores para momentos especiais. Ainda assim é um tipo de cerveja interessante para ser desbravado. Numa avaliação pessoal, a Negro Modelo sai ganhando.

Teste de Qualidade: 1906 Reserva Especial
- Produto: Vienna Lager
- Nacionalidade: Espanha
- Graduação alcoólica: 6,5%
- Nota: 2,29/5

Leia também:
- Europa 2010: 68 cervejas diferentes em 30 dias (aqui)

Novembro 18, 2010   2 Comments

Opinião do Consumidor: Murphy’s Irish Red

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Tradicionalmente, a Red Ale é irlandesa. Lá ela é chamada também de Irish Red, e o que a diferencia das outras ales (as cervejas de alta fermentação) é sua cor avermelhada - devido ao malte tostado, que marca não só a cor como o aroma e também o paladar.

A cervejaria Murphy’s foi fundada em Cork, na República da Irlanda, em 1856, o que garante o slogan de mais de 150 anos de tradição cervejeira. Em 1983, a fábrica foi vendida para a Heineken International, passando desde então a produzir, além da Murphy’s Irish Red e da Stout, a Heineken para o mercado irlandês (dominado pela lager Harp).

O negócio também serviu para exportar a Murphy’s Irish Red, uma ótima representante do estilo, para o mundo (inclusive para o Brasil). O malte tostado (seu grande segredo) já é perceptível no aroma, agradável, que deixa escorrer um pouco de madeira e caramelo. O sabor segue o aroma, com o malte marcando o final com leve e interessante amargor, mas o aguado desequilibra um pouco o conjunto.

Mesmo assim, em território irlandês, para quem quiser fugir das stouts (cuja representante mais famosa é a Guiness, cerveja escura número 1 do Reino Unido) e das lagers (a Harp, cerveja número 1 da Irlanda, é leve e gostosa, mas bem parecida com as nossas), a Murphy’s Irish Red é uma excelente pedida. Não é perfeita, mas tem um conjunto bastante agradável.

Teste de Qualidade: Murphy’s Irish Red
- Produto: Red Ale
- Nacionalidade: Irlanda
- Graduação alcoólica: 5%
- Nota: 2,85/5

Leia também:
- Harp, uma lager irlandesa muito boa (aqui)
- Outras cervejas (aqui)

Novembro 15, 2010   2 Comments