Opinião do Consumidor: Witbier Taperebá

A única cervejaria 100% artesanal do Pará volta a atacar. Após a boa repercussão da Bacuri Beer, os paraenses da Amazon Beer apostam novamente em uma fruta da região combinada com maltes em sua nova produção. Desta vez a fruta é o Taperebá, conhecido no sudeste como Cajá, que entra numa fórmula que pede benção às witbiers belgas, cervejas medievais bastante leves que eram feitas a partir do malte de trigo, e que tem como carro chefe a popular e especialíssima Hoegaarden.
A Witbier Taperebá segue a risca o caminho aberto pela Bacuri Beer. O aroma é bastante cítrico, tendendo a limão e laranja lima, com o próprio cajá marcando presença. O paladar, por sua vez, segue outro caminho: há um azedinho que remete a limão, mas que logo é vencido pelo agridoce da fruta, embora o amargor retorne levemente no final seco. Eis uma cerveja bem leve – cuja publicidade é voltada para o público feminino – e interessante da linha “produto nacional”, ou seja: essa você só bebe aqui.
Assim como as demais Amazon Beer, a Witbier Taperebá pode ser encontrada no formato chopp no bar da cervejaria na Estação das Docas, em Belém (na beira do rio Guajará), e acompanhada de petisco e amigos deve render uma boa tarde (embora fique a dúvida se a terceira dela deva descer tão bem quanto a primeira – o que no bar pode ser resolvido com uma rodada de Vienna Lager). Nos outros Estados, a Witbier Taperebá pode ser encontrada em garrafa 330 ml entre R$ 7 e R$ 9, ou seja, mais cara que a Hoegaarden, mas vale para sair da rotina.
Dois adendos: a Amazon Beer irá exportar suas cervejas para Estados Unidos, Asia e Europa, uma grande notícia, já que são cervejas com um toque bem brasileiro. Eles investem bastante no paladar feminino, e podem conquistar norte-americanas e francesas (que tem uma boa escola de fruit beers), mas pra não ficarem marcados como uma cervejaria apenas de menininhas seria de bom grado eles cravarem uma IPA caprichada. O segundo adendo: você pode fazer um tour virtual pela Estação das Docas, em Belém. Aqui.
Witbier Taperebá
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4,7%
– Nota: 2,87/5

Leia também
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– Que tal uma cerveja de banana? E de manga? (leia aqui)
– Wells Banana Bread: uma cerveja que merece ser provada (aqui)
– Kriek Boon: Pode rolar romance, por Marcelo Costa (aqui)
julho 19, 2012 Encha o copo
A intimidade de Paul McCartney

Terminei ontem o meu sexto livro de 2012. “A Intimidade de Paul McCartney”, de Howard Sounes, se junta à listinha que já tem “O Resto é Ruído”, do Alex Ross, “A Visita Cruel do Tempo” e “O Torreão”, de, Jennifer Egan, “Sexo na Lua”, de Ben Mezrich e “Conversas com Scorsese”, de Richard Schinkel (além da releitura do primeiro volume de comédias de Shakespeare). 2012 está rendendo, ao menos para leitura.
Gostei bastante de “A Intimidade de Paul McCartney”. Já tinha aprovado a prosa rápida de Howard Sounes na ótima “Bob Dylan, A Biografia”, e nesta versão beatle, o jornalista vai muito além dos outros livros que pretendem rememorar os fab four. Claro, há bastante pimenta e fofoca de bastidores no livro, além do julgamento de Sounes ser bem pesado com Paul McCartney, embora ele tente relevar isso nos agradecimentos.
“Eu não tinha a intenção de critica-lo nem glorifica-lo excessivamente em sua carreira”, argumenta o jornalista. “Tentei contar a história épica de sua vida de modo verdadeiro e justo”, contemporiza. A justiça, porém, é diferente para cada pessoa, e Sounes pesa a mão em diversos momentos, como por exemplo quando esculacha (com certa razão e raríssimas exceções) quase toda produção musical solo do ex-beatle.
“A Intimidade de Paul McCartney” é um livro para ser lido com bastante cuidado, porém, tem muitos méritos. Traz histórias interessantes dos tempos dos Beatles que foram vetadas tanto na biografia (chapa branca) de Paul, “Many Years From Now”, de Barry Miles, tanto quanto no “Anthology”, mas seu maior mérito é dividir a vida de McCartney em duas fases: Beatles e carreira solo (o Paul pós Beatles é praticamente ignorado em “Many Years From Now”).
Sounes baixa a guarda com respeito (e chega a emocionar, embora solte uma ou outra farpa nas entrelinhas) no capítulo que relembra a morte de Linda e esmiúça o trágico casamento com Heather Mills, com a facilidade do acesso público aos documentos do divórcio, 68 páginas que escancaravam a vida de Paul (listando todas as suas propriedades, todo seu dinheiro e cenas do cotidiano do ex-beatle que viraram festa nos tabloides ingleses).
Fãs até devem ficar ofendidos com a pena afiada de Sounes (que pega pesado em algumas comparações com Dylan, por exemplo, quando diz que Bob, “no melhor de seus momentos, é um homem profundo, enquanto Paul, no melhor, é apenas um bom compositor – e um letrista medíocre”, ou quando esmiúça a fixação por Paul em viver do passado e continuar tocando as canções do mesmo modo de 50 anos atrás nos shows atuais, enquanto Dylan opta por recriar seu repertório toda noite), mas o saldo é bastante positivo.
Abaixo, um dos trechos hilários do livro, que, de certo modo, exibe o poder de sedução de Paul McCartney (como se suas canções já não bastassem pra isso)…
“Paul não divulgou suas experiências com a cocaína e a heroína à imprensa em 1967, isso aconteceu 30 anos depois. O pouco que ele relatou sobre ter usado LSD causou polêmica suficiente em uma época na qual os jornais estavam cheios de matérias sobre astros pop e pessoas próximas a eles presos por uso de drogas. Um amigo fotógrafo dos Beatles, John ‘Hoppy’ Hopkins, foi preso por posse de maconha no dia em que ‘Sgt Peppers’ foi lançado. Além disso, a batida policial na casa de campo de Keith Richards levou Robert Fraser, Keith e Mick Jagger a sentenças de 6, 12 e 3 meses de prisão, respectivamente. Os Stones foram soltos mediante fiança em poucos dias, esperando o julgamento do recurso, mas Fraser cumpriu quatro meses. Embora a intelligentsia considerasse as sentenças injustas, o editor do Times escreveu um elogiado editorial que ajudou os Stones a ganhar o recurso – havia uma sensação de que a policia, mancomunada com os tabloides, estava em busca do maior prêmio de todos: prender um beatle. A confissão sobre o LSD de Paul causou estranheza em John, George e Ringo, que se viram assunto de escrutínio indesejado sobre o uso de drogas, com a ironia de que Paul fora o último entre eles a experimentar ácido. ‘Pareceu estranho para mim’, comentou George anos depois para o documentário ‘Anthology’, “porque estávamos tentando fazê-lo tomar LSD havia mais ou menos um ano e meio – e um belo dia lá estava ele na televisão falando sobre isso”. Com essa declaração, George pareceu sugerir que Paul desejava atenção.
Em Liverpool, os McCartney ficaram preocupados com a noticia de que o membro famoso da família estava usando drogas. Tia Ginny convocou uma reunião de família para discutir a situação, o que a levou ao sul para resolver tudo pessoalmente com o sobrinho. ‘Então ela foi à Londres ficar com Paul’, conta o parente Mike Robbins. ‘Cerca de cinco ou seis dias depois ela voltou, e todos nos reunimos – eu vou lembrar disso para sempre – em sua pequena casa em Mersey View. A família perguntou se Ginny conseguira vê-lo, e a senhora de 57 anos tirou um baseado da bolsa de mão e perguntou, de maneira sonhadora: ‘Vocês já experimentaram um desses?’. A parentada acendeu e fumou a erva. ‘Rimos feitos uns doidos’, revela Mike. ‘Essa era a Tia Ginny’”.
E esse era Paul McCartney. Muito prazer.

Paul McCartney na Ilha de Wight / Foto: Marcelo Costa
Leia também:
– Sobre Scorsese e filmes que salvam almas, por Mac (aqui)
– Martin Scorsese, eu e a morte, por Marcelo Costa (aqui)
– Jennifer Egan manipula o leitor em “O Torreão”, por Mac (aqui)
– “Sexo na Lua”, de Mezrich: sem a sorte de Zuckerberg, por Mac (aqui)
– “O minimalismo e o rock and roll”, trecho de “O Resto é Ruído” (aqui)
julho 19, 2012 Encha o copo
Bruce Springsteen é um cara foda
Sábado passado, 14/07, Bruce Springsteen e sua E Street Band estavam escalados para fechar o segundo dia do festival Hard Rock Calling, que acontece no imenso Hyde Park, em Londres. O horário programado do show no site oficial do evento era de 19h às 22h15, ou seja, três horas e quinze minutos de show, tempo quase normal de uma apresentação de Bruce atualmente (embora ele tenha batido nas três horas e quarenta e oito minutos num show em Madri, semanas antes).
Porém, um fato inusitado aconteceu: Paul McCartney subiu ao palco, e Bruce Springsteen, 62 anos, mandou: “Há 50 anos espero isso acontecer”. Bruce já tinha recebido Tom Morello (Rage Against The Machine) e John Fogerty (Creedence Clearwater Revival) no palco na mesma noite, e esse show, recheado de improvisos, se aproximava das três horas e quinze minutos estipuladas pela organização. Ninguém poderia imaginar o que iria acontecer na sequência.
Após quatro hinos de sua carreira tocados em sequencia (“Born in the U.S.A.”, “Born to Run”, “Glory Days” e “Dancing in the Dark”), Bruce recebeu Paul, e a dupla mandou “I Saw Her Standing There'” e a já tradicional cover de “Twist and Shout”, que Bruce toca há anos, mas eis que a produção decide silenciar o palco no minuto final da canção, provocando uma revolta no público e um bate-boca que se estendeu pelos dias seguintes (com até o prefeito de Londres dizendo que a produção levou a lei do silêncio muito à sério).
Bruce Springsteen não falou nada sobre o ocorrido até ontem, três dias depois, quando subiu ao palco para um show em Dublin,e trouxe uma enorme chave de força, que foi ligada, e começou o show tocando “Twist and Shout” do exato momento que cortaram o som em Londres. Ou seja: não o deixaram terminar o show em Londres? Ele terminou em Dublin, e começou outro, que ainda teve outra brincadeira com a situação londrina: policiais falsos entraram no palco na última música, “American Land”, para tentar desligar o som. Dessa vez Bruce não deixou.
Eis duas coisas que vivem fazendo falta no mundo pop: bom humor e inteligência. Bruce Springsteen tem de sobra.
Veja mais:
– Três horas e vinte minutos de Bruce na Itália, por Mac (aqui)
– Bruce em Dublin: uma garotinha canta “Waiting For a Sunny Day” (aqui)
julho 18, 2012 Encha o copo
Duas cervejas trapistas da Westmalle

Por duas vezes, nos séculos 18 e 19, os Monges Cistercienses da Estrita Observância foram proibidos e perseguidos (assim como as demais ordens monásticas). Em 1791, o mestre da Abadia de La Trappe, Augustinus de Lestrange Dubosc, temendo a perseguição causada pela Revolução Francesa, deixou o país e decidiu enviar monges para lugares distantes (como Itália e Espanha), pensando em novos assentamentos. Um terceiro grupo deveria ser enviado para o Canadá, mas parou na Antuérpia, onde o bispo local fez um convite: “Fiquem aqui”.
Não era só um convite. O bispo arranjou uma fazenda para o grupo nos Flanders, e nascia assim, em 1974, a Abadia Trapista de Westmalle (cujo nome original é Abdij Onze-Lieve-Vrouw van het Heilig Hart van Jezus), que só foi elevada ao posto de abadia em 1836, mesmo ano em que o abade Dom Martinus começou a construção de uma pequena cervejaria, com a primeira produção abastecendo o almoço dos monges em 10 dezembro de 1836. Nascia uma das mais famosas cervejas trapistas.
A cervejaria foi ampliada e reconstruída em 1865, com base em uma planta usada pelos monges trapistas de Forges (perto de Chimay). As vendas no local já haviam sido iniciadas em 1856 (além de cerveja, os monges faziam – e fazem até hoje – pão e queijo), mas a Westmalle só passou a ser vendida comercialmente em 1921. Hoje em dia, a Abadia Trapista de Westmalle, com cerca de 20 monges e 40 funcionários, produz 45 mil garrafas por hora de três tipos de cerveja: Dubbel, Trippel e a sazonal Westmalle Exttra.
A Westmalle Dubbel já mostra sua potência no aroma, extremamente alcoólico, parecendo inclusive mais do que os 7% que o rótulo antecipa. Assim que o nariz se acostuma com o álcool, notas adocicadas de frutas vermelhas (morango, cerveja) se misturam com melaço e caramelo num conjunto sedutor. Na língua, o conjunto é adocicado e cativante, remetendo primeiramente a cereja, depois a caramelo e licor. O finalmente e extremamente seco, mas deixa um rastro de frutado pelo caminho. Uma experiência.
Apelidada de “mãe de todas as Tripel”, a Westmalle Tripel, por sua vez, é uma porrada. O álcool é bem perceptível desde o primeiro momento, mas o aroma é muito mais que isso: é uma festa com notas de laranja, mel, floral, canela, lúpulo, malte e o que a sua imaginação sugerir. Na boca, há um rastro de amargor com toques de cítrico (principalmente laranja e um pouco de abacaxi) banhados levemente em álcool, que vão se aclimatando de forma majestosa. Ainda a acho intensa demais, mas, sem dúvida, é impressionante.
Hoje em dia é facilmente encontrar as duas Westmalle em bons empórios no Brasil, e embora os preços praticados aqui ainda sejam excessivos (entre R$ 15 e R$ 21 a garrafa de 330ml), o retorno do investimento é plenamente satisfatório. Vale, ainda, pensar em uma visita ao mosteiro. O site oficial dá todas as informações sobre visitas e até estadias mais longas, em que o visitante adentra a trilogia que comanda a abadia (da qual a cerveja é apenas para manter a congregação): viver para rezar, viver para a comunidade, viver para o trabalho. Quem sabe…
Westmalle Dubbel
– Produto: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 4,58/5
Westmalle Tripel
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 9,5%
– Nota: 4,75/5

Bebendo Westmalle no Belgo, pedaçinho da Bélgica em Londres
Leia também
– Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
julho 17, 2012 Encha o copo
Dez links que valem a pena

– Bob Dylan na Espanha: “Show foi como ver Monalisa no Louvre” (aqui)
– Duas músicas novas do El Mato a un Policia Motorizado (aqui)
– Duas músicas novas do português B Fachada (aqui)
– “Freedom At 21”, novo clipe de Jack White (aqui)
– Ouça “Charmed”, primeira música do disco novo de Aimee Mann (aqui)
– Ouça “Lovecrimes”, de Frank Ocean, com o Afghan Whigs (aqui)
– Novo “Batman” é a adaptação mais corajosa de gibi para cinema (aqui)
– Roteiros de cerveja na Bélgica (aqui)
– Primeiro show do Dain Damage, com Dave Ghrol na bateria, 1985 (aqui)
– 50 minutos de BRMC em Santiago (aqui) e 1h05 no SWU 2011 (aqui)

julho 16, 2012 Encha o copo
Três vídeos: Tweedy, Mangum e Meloy
Ideia para um festival voz e violão em São Paulo
julho 16, 2012 Encha o copo
Brasil: as três cervejas da St Gallen

A história da St. Gallen remonta ao começo do século passado, quando em 1912, a cervejaria Claussen & Irmãos produzia em Teresópolis uma cerveja que seguia uma receita de antepassados dinamarqueses. A cervejaria fechou as portas pouco depois da Primeira Guerra Mundial, devido a dificuldade de importar matéria-prima, mas a cerveja voltou a ser fabricada em 2006, seguindo três estilos: Stout Porter, Weissbier e Red Ale (além da linha Therezópolis).
A versão Weissbier da casa fluminense surpreende (apesar da imensa dificuldade no descarte da rolha) com sua fidelidade ao estilo. As notas características de banana e cravo recebem um pequeno acento frutado no aroma, bastante interessante. O paladar segue o traço do aroma, quedando um pouco em demasia para o adocicado, o que não prejudica o conjunto, mas pode ser melhorado.
Já a Stout Porter da casa fluminense é uma bela surpresa. O aroma traz bastante fermento (que remete a pão e biscoito) além, claro, do malte tostado pagar tributo ao chocolate e ao café. O paladar, por sua vez, é adocicado no primeiro toque na língua, mas assim que a cerveja se aconchega, notas de café e chocolate amargo surgem escondendo bem os 8% de graduação alcoólica. O final é longo e saboroso. Muito boa.
Esqueça a citação irlandesa da St. Gallen Irish Red Ale, pois o amargor, é baixo e de pouco destaque. O aroma é levemente adocicado, tendendo a frutado (morango) e caramelado, com o álcool elevado (9.2%) se apresentando de forma tímida. No paladar, as notas adocicadas de malte assumem a frente e vencem com facilidade o lúpulo, com o álcool pedindo atenção, sem incomodar. O final deixa um leve rastro de álcool. Melhor que a Weiss, inferior a Stout.
A bela apresentação da St. Gallen (uma linda garrafa rolhada de 750 ml com rótulo exuberante, que, no entanto, mostrou problemas em duas das três rolhas, que partiram e dificultaram a abertura) aumenta a expectativa e a cobrança do freguês, e a cervejaria consegue entregar um bom produto, que varia de rótulo para rótulo, mas mostra que a cervejaria fluminense está no caminho certo. Vale conhecer.
St. Gallen Weissbier
– Estilo: Weiss
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5,5%
– Nota: 3,22/5
St. Gallen Irish Stout Porter
– Estilo: Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,32/5
St. Gallen Red Ale
– Produto: Irish Red Ale
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 9,2%
– Nota: 3,25/5

Leia também
– Top 1000 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
julho 15, 2012 Encha o copo
Download: BNegão e Wilco Country Club

“Sintoniza Lá”, BNegão e Os Seletores de Frequência
Download (de um dos discos do ano): www.bnegaoseletores.com.br/

“Yankee Hotel Foxtrot Tribute – A box full of versions”, Tributo
Download: http://clubedosoutsiders.blogspot.com.br
Ps. Assino um dos textos do encarte deste tributo ao disco mais foda do Wilco (na compania de vários amigos), e também faço backing vocal (também na compania de amigos) na bela versão de “Reservations”, de Giancarlo Ruffato
julho 14, 2012 Encha o copo
Três perguntas: Cris Braun

Acompanho o trabalho de Cris Braun há um bom tempo, mais precisamente desde quando ela cantava no Sex Beatles, banda que ouvi muito nos anos 90 (e que vez em quando resgato os dois CDs da prateleira). Seu primeiro trabalho solo (“Cuidado Com Pessoas Como Eu”, de 1998) tocou bastante em casa com “Brigas”, “Dry Martini Drama” e a cover de “Bom Conselho”, de Chico, ecoando pelas paredes. Em 2005, quando ela lançava seu segundo álbum, o delicado “Atemporal”, tivemos uma conversa animada por telefone, que rendeu essa entrevista, e agora ela retorna com “Fábula”, um disco muito bonito e maduro, que abre com duas faixas de Wado (“Ossos” e a inédita “Cidade Grande”, que remete a paisagens de “Pavão Macaco”), segue com “Tanto Faz Para o Amor”, de Lucas Santtana, e traz ainda canções de Alvin L e Marina (“Deve Ser Assim”) e parcerias com Billy Brandão e Fernando Fiuza. Cris Braun está disponibilizando “Fabula” para download tanto em seu site oficial (http://www.crisbraun.com.br/) quanto no ótimo site Musicoteca (baixe aqui). Para aproveitar o momento mandei algumas perguntinhas rápidas (inclusive sobre cervejas, uma paixão recente de ambos).
“Fábula” é seu terceiro CD solo. O que representa cada um destes três discos para você?
Existe um espaço grande entre eles, em média 7 anos. Acho que eles são mesmo um reflexo muito pessoal do momento vivido e do entorno. Percebo a maturação, a tomada de posse, a autoridade para fazer como faço. Mesmo que o retorno no sentido de grana e reconhecimento maior não seja grande, o fato de ser dona e confiar no que me proponho a fazer me mantem viva nisso. Meus discos são minha assinatura de Dali !
Se você tivesse que apresentar o “Fábula” para alguém, como você faria?
Oi “alguem”, este é o “Fábula”, um disco que a trilha sonora de um filme imaginário que trata do percurso do ser humano nesta terra. Sua pureza, suas derrotas, suas vitórias, sua iras, suas invejas, seus temores, amores, desamores, virtudes e relação com o divino. Musicalmente é contemporâneo, porque se mescla ritmos, instrumentos e arranjos com total liberdade de estilos.
Sei que você também é uma grande admiradora das boas cervejas. Quais as preferidas de Cris Braun?
Sou uma iniciante, e metódica. Por enquanto insisto mais nas Belgas, trappistas. Provei uma defumada que não lembro o nome. Mas adoro as Rochefort 8 e 10. Chimay Red. Delirium nocturna, Corsendonk Pater Dubbel.

Leia também:
– Entrevista: “Faço música livre brasileira”, diz Cris Braun (aqui)
julho 12, 2012 Encha o copo
Três Filmes: Cinema, Cerveja e Política

“Um Retrato de Woody Allen” (Wild Man Blues, 1998)
Woody Allen costuma rejeitar comparações com seus personagens, mas basta colocar Jerry, personagem que ele encena em “Para Roma com Amor” (que rememora muitos outros), ao lado do Woody Allen deste documentário para percebermos que a linha que os separa é praticamente invisível. E isso é um dos vários pontos interessantes de “Wild Man Blues”, filme de Barbara Kopple (lançado agora no Brasil pela Flashstar – com uma leva de outros filmes do diretor) que flagra a turnê europeia da banda de jazz de Woody Allen em 1997, passando por 18 cidades em 23 dias: “É típico de mim”, comenta ele em certo momento. “Eu sonhava com essa turnê, e agora que estou nela não vejo a hora de acabar”. O humor afiado do diretor avança sobre prefeitos, fãs e paparazzos, mas o retrato que Kopple faz do cineasta é tão honesto que comove. Filmado logo após o longo processo que Mia Farrow e Woody Allen enfrentaram pela guarda dos filhos, e da união do diretor com a filha adotiva de Mia, Soo-Yi, “Wild Man Blues” expande seu território avançando além da banda (sem perder a boa música de foco) para o novo casamento e até para a relação do cineasta com sua família. Nettie, a mãe, responde na frente da nora que preferia uma filha judia a uma oriental enquanto o pai, já bastante idoso, parece ainda não aceitar a carreira escolhida pelo filho, passagens que mitificam (e explicam) um dos maiores cineastas vivos.

“Cerveja Falada” (2010)
Em um momento em que a produção de cerveja artesanal começa a despontar em vários cantos do País, este documentário de 15 minutos dirigido por Guto Lima, Luiz Henrique Cudo e Demétrio Panarotto, da produtora Exato Segundo, resgata com méritos um personagem mítico que ficou a frente de uma das mais antigas cervejarias artesanais do país. Rupprecht Loeffler viveu boa parte de seus 93 anos dedicando-se a produção de cerveja, e é apontado por muitos como um dos mais antigos mestres cervejeiros do país, tocando a cervejaria Canoinhense, de Canoinhas, em Santa Catarina, por mais de cinco gerações (até seu falecimento, em fevereiro de 2011). Fundada em 1908 pelo pai de Rupprecht, a Canoinhense produz cerveja e chope artesanais com receita que segue a Lei da Pureza Alemã. Os tonéis de carvalho foram trazidos da Alemanha há mais de um século. “Meu pai trouxe a fórmula de Munique”, conta Rupprecht, que diz que, na falta de leite, a “piazada” tomava cerveja quando era criança. O mestre-cervejeiro lembra como estocou lúpulo na Segunda Guerra Mundial e conta outras histórias divertidas em um registro carinhoso que já recebeu vários prêmios, e está disponível para download no site Filmes Que Voam (aqui). Ainda assim vale ir atrás do DVD, que traz o ótimo média metragem “Histórias da Cerveja em Santa Catarina”. Bate na porta da Exato Segundo.

“Ao Sul da Fronteira” (South of The Border, 2009)
Disposto a mostrar ao mundo – e especialmente aos norte-americanos – a verdadeira América Latina (já que nós aqui debaixo conhecemos bem quase todas as histórias presentes no filme), Oliver Stone entrevistou Evo Morales (Bolívia), Fernando Lugo (Paraguai), Néstor e Cristina Kirchner (Argentina), Rafael Correa (Equador), Raúl Castro (Cuba) e Lula buscando mostrar a força de um continente que quer olhar os EUA de igual para igual. Em “Ao Sul da Fronteira”, o diretor busca suavizar a imagem difícil de Hugo Chávez, temido presidente da Venezuela, e tropeça em lacunas e na falta do traquejo dramatúrgico e cômico que transformam filmes de Michael Moore em epopeias mundiais, mas, ainda assim, soa educativo ao mostrar como a mídia norte-americana transforma países que dificultam as relações com os EUA em grandes vilões. “Obama trouxe da reunião com os países latinos um aperto de mão e uma camiseta do Che”, reclama um ancora, que pinta o presidente venezuelano como um monstro. “É tudo por petróleo”, retruca Chávez, que surge abraçando criancinhas, andando de bicicleta (Stone faltou às aulas de populismo barato) e, comicamente, perguntando aos membros da ONU se eles sentiam o cheiro de enxofre no palanque após um discurso de Bush, o demônio. O grande mérito do filme (que está inteiro no Youtube) é explorar com destreza o tema “manipulação da mídia”. A verdade é simples (para TODOS os lados): duvide de tudo que você vê na TV e lê em jornais. Tudo. Se não existe mais bobo no futebol (e existe), a política ainda está com as salas cheias. Uma boa dose de ceticismo faz bem para a razão, mas, se preciso for, viva a América… do Sul.
julho 11, 2012 Encha o copo

