Category — Música
“Dirt Don’t Hurt”, Holly Golightly and The Brokeoffs

Quando alguém define a sonoridade de uma banda ou álbum como de garagem, uma névoa de pavor paira sobre muitos ouvintes. Holly Golightly, a dama britânica do folk que emprestou o nome da personagem principal do filme “Bonequinha de Luxo”, já avisa no título de seu novo álbum: “Sujeira não machuca”. “Dirt Don’t Hurt” é o segundo trabalho ao lado do músico Lawyer Dave (ele, sozinho, responde pela alcunha de The Brokeoffs), cuja estréia da parceria se deu em 2007 com o álbum de título genial “You Can’t Buy a Gun When You’re Crying”.
“Dirt Don’t Hurt” foi gravado na estrada, em um intervalo da turnê. O duo encontrou um estúdio na Espanha equipado com uma bela seleção de microfones vintage e de tesouros antigos para brincar, afastou os fantasmas do lugar e em cinco dias (um a mais do que no primeiro álbum) registrou as 14 canções de “Dirt Don’t Hurt”. Holly conta: “Nós estávamos um pouco cansados e sujos. Se você prestar atenção, ouvirá a lama em nossos sapatos em algumas faixas”.
Além da lama também fica audível/perceptível uma certa camada de poeira na sonoridade do duo. Os vocais são divididos enquanto Holly assume o violão e o banjo e Dave fica com a guitarra, a percussão e as demais coisas com cordas. Logo na primeira faixa, a ótima “Bottow Below”, percebe-se uma vasta semelhança do vocal de Dave com o de Mark Lanegan, o que aconchega ainda mais o ouvinte. “Up On The Floor”, o número seguinte, é uma deliciosa balada rancheira, daquelas para se ouvir por tardes a fio.
“Burn Your Fun”, com seu refrão empolgante, e a suingada “Slow Road” fazem a cama para jogar o ouvinte sobre o primeiro single do álbum, o country acelerado “My 45” que avisa no refrão empolgante: “Querida, quando eu chamar seu nome, é melhor você correr, é melhor você esconder minha 45”. Há espaço ainda para um blues climático (“Indeed You Do”), countrys aceleradissimos (“Getting High For Jesus”) e músicas tradicionais rearranjadas no porão duo (“Cuck Old Hen”, “Boats Up The River”).
Entre os grandes momentos do álbum estão “Bottow Below” e “My 45”, o countryzinho sem-vergonha movido por banjo “Accuse Me”, a boa versão para “Hug You, Kiss You, Squeeze You” (que já havia sido gravada por Stevie Ray Vaughan) e a balada “For All This”, com Holly mastigando as silabas com seu fio de voz. Holly Golightly começou sua carreira no grupo Thee Headcoatees, mas ganhou fama quando estreou solo, em 1995, e principalmente quanto fez um ménage a trois musical com Meg e Jack White na canção “It’s True That We Love One Another”, do álbum “Elephant”.
“Dirt Don’t Hurt” é daqueles discos bonitos em que um punhado de canções executadas com paixão se tornam-se atemporais em uma arte cada vez mais marcada pelo agora. As vozes de Holly e Dave combinam que é uma beleza, o que só amplifica a qualidade do material gravado pelos dois em cinco dias de folga de uma turnê de mais de 50 datas. Produzido pelo próprio duo, “Dirt Don’t Hurt” é daqueles álbuns que correm o sério risco de grudar no seu Windows Media Player, e ficar lá por um bom tempo. Eu, se fosse você, corria o risco. Vale a pena, afinal, a sujeira não machuca.
“Dirt Don’t Hurt”, Holly Golightly and The Brokeoffs (Damaged Goods)
Preço em media: R$ 55 (importado)
Nota: 8
My Space: http://www.myspace.com/hollygolightlyandthebrokeoffs

novembro 16, 2008 No Comments
Renovando passaportes
Renovando passaportes
Boas novas no mundo de Wry, The Tamborines, CSS e Kissing Kalina
Por Luciana Lazarini, especial para o Scream & Yell
(www.myspace.com/lulazarini)
Fotos: Divulgação
Há algumas semanas voltei para casa após um ano de Londres. Depois da zonzeira dos primeiros meses na ilha, entre os inúmeros shows, bandas e lojas de discos com tudo-o-que-você-sempre-quis nas prateleiras e artistas do mundo todo mantendo a agenda cultural ultra-diversificada, rolou Justice abrindo para o Cansei de Ser Sexy no Brixton Academy (com o famoso “sold out” estampado no letreiro da fachada), The Tamborines nas noites do Sonic Cathedral e Wry na ‘segunda-casa’ do Buffalo Bar, um inferninho bem ao lado da estação de metrô Highbury e Islington.
Como eles mesmos insistem, não se trata de uma cena de bandas brasileiras em Londres. O que The Tamborines, Wry, Cansei de Ser Sexy e Kissing Kalina têm em comum são histórias de músicos que botaram o pé na estrada para não parar mais de fazer shows e criar músicas que transpiram as experiências deles lá. Sem pretensão de se apresentar como uma banda brasileira ou uma banda dessa ou aquela cena da semana, eles preferem diluir alguns rótulos e seguir cada um seu rumo, estilos e referências. A idéia aqui então não é estabelecer fronteiras entre eles, mas ouvir o que têm de novidade – novos singles, shows e histórias de bastidores.
Em poucos toques: Wry planeja turnê (retorno definitivo?) no Brasil, The Tamborines vai lançar o primeiro álbum, CSS – às voltas com o traumático segundo LP – segue com a agenda lotada e Kissing Kalina descola elogios com o primeiro single. O bate papo todo segue abaixo. Que tal fazer uma visitinha à Londres?

Wry: novos rumos?
www.myspace.com/wrymusic
No ano em que o Wry completa a simetria de sete anos de banda no Brasil e sete anos na Inglaterra, os destinos dos sorocabanos ainda é incerto. Há até quem diga que eles já voltaram de vez para o Brasil. Por enquanto, não. Eles ainda estão circulando pela região de Stoke Newington e pelo Buffalo Bar, apesar de já terem oficializado o último show do ano da banda, pouco antes do baterista André Zanini ir embora de Londres no final de maio. Um retorno que, nas palavras dele, “não deixa de ser um protesto contra a magia londrina que atinge qualquer pessoa que fica aqui e não consegue deixar mais a Inglaterra”.
Mesmo com o destino ainda incerto, a novidade para os fãs brasileiros é que o Wry vai tocar no Brasil entre abril e agosto de 2009 e daí mora a possibilidade de eles darem um tempo a mais por aqui. O grupo segue lançando seus álbuns pela Monstro Discos no Brasil e com a Club/AC30 no Reino Unido e, ainda esse ano, sai o “National Indie Hits”, álbum de covers de bandas brasileiras que homenageia gente como Walverdes, MQN, Pin Ups, Snooze, Astromato, Pelvs e Killing Chainsaw, entre outros. No começo de 2009, a banda lança o álbum “Whales and Sharks” no Brasil (que só saiu na Inglaterra pela ClubAC30).
Como o Wry passou grande parte de 2008 dentro da casa-estúdio em Stoke Newington gravando e mixando o novo álbum, “She Science”, o lançamento está previsto para abril. Quer mais novidade? Neste último álbum algumas das músicas são cantadas em português. Lá pelo meio de um ensaio, o vocalista canta a primeira das músicas em português e, só depois de finalizado o transe, bateria, baixo e guitarra se dão conta da ‘nova’ linguagem.
… Some candy talking …
Quem acompanha o blog do Mário Bross (http://mariowry.blogspot.com/) sabe que ele viveu neste ano um dos momentos mais delirantes da banda, que, antes dos primeiros acordes, eram um grupo de adolescentes que sonhava em ser um time de basquete.
16.05.2008. Norte de Londres. Na programação do Buffallo Bar daquela noite, Wry e Le Volume Courbe. O vocalista do Wry checa a lista de convidados do Volume com nomes como Douglas Hart (The Jesus and Mary Chain) e os My Bloody Valentine Kevin Shields (namorado da vocalista do Volume, Charlotte Marionneau), Colm O’Ciosoig e Debbie Googe, além de Bobby Gillespie, vocalista do Primal Scream. Nada mal para Mario Bross, que é declaradamente obcecado por MBV, e teve a certeza de que deveria montar uma banda quando, nos anos 90, assistiu a um cover do Jesus. Os caras assistiram ao show do Wry, que subiu ao palco como quem se entrega para um ritual. Parando a história aqui, eles já teriam ganhado a noite. O tom extasiado do relato do vocalista me impede de tentar recontar. Então, pausa um trecho do blog do Mário Bross sobre o candy talking com Kevin Shields após o show.
“Ele apertou minha mão firme e disse o quanto o show tinha sido bom. Apertou de novo e completou dizendo que teve momentos do show em que ele pensou em músicas novas. Que tinha se inspirado. Eu disse ironicamente que não acreditava no que dizia, mas que depois pagaria uma bebida para ele. Ele sorriu e eu saí dali, com a cabeça a mil. Poucas coisas me atingem, mas algumas me matam, como essa acima. (…) Já era 11pm e conversamos muito depois, sobre tantas coisas diferentes e até segredos que não são contados a jornalistas e que não vou relatar aqui. Um dia talvez eu te conte pessoalmente. Kevin acrescentou mais tarde que a música “Bitter Breakfast” fez ele mesmo pensar numa outra música. Falando com o Luciano, ele disse que estão escrevendo músicas novas pros shows que vão fazer este ano. Conversaram sobre pedais. Sons, Ebay. Conversamos sobre cachês, Brasil, Londres, guitarras, Belinda e os ensaios da banda”.
The Tamborines: entre-tempos e muralhas de pedais
www.myspace.com/thetamborines
Depois de assistir a shows do The Tamborines no Brasil e na Inglaterra, acompanhar os últimos singles lançados e mergulhar pelas viagens de “Sally O’Gannon”, chego à conclusão de que eles são uma banda que sabe brindar o passado e o presente, como quem tem olhos para contemplar o agora. É o tipo de música que revê tempo e espaço. É como se alguém tivesse oferecido aos músicos a oportunidade de viver o ‘espírito do tempo’ de Londres nos anos 60, seguir para a muralha de guitarras distorcidas dos anos 90 e, finalmente, chegar aos anos 2000 para criar uma estética que, provavelmente, nunca vai estar entre os charts, mas tem lugar garantido nos circuitos independentes que (ainda) existem.
O power trio formado por Henrique Laurindo, Lulu Grave e Renato Tezolin – agora de volta à bateria -, lançou o single “31st Floor/Come Together” em agosto – classificado pela revista NME como “The Byrds em uma bad-trip de ácido”. No Brasil, o compacto está à venda pela Sonic Flowers em uma edição transparente fofíssima, com arte e finalização feita pela própria banda. Em novembro, o Tamborines vai lançar a música “Sonic Butterflies”, um single com a banda Black Nite Crash, de Seattle. Depois de bagunçarem a vida com um primeiro label e só após seis meses lançarem “Sally O’Gannon” pelo Sonic Cathedral, o Tamborines agora decidiu viver o ‘do-it-yourself’ e criar o próprio selo, Beat-Mo Records. “Nós mesmos gravamos as músicas, produzimos tudo, da arte da capa até posters. É mais bacana assim, temos liberdade e fazemos quando bem entendermos”, explica Henrique.
A novidade é que a banda está agora concentrada em gravar o primeiro álbum, que vai ser lançado pelo selo Planting Seeds nos Estados Unidos e tem planos de fazer uma turnê por lá no ano que vem (pedido recorrente na página de recados do Myspace deles). Para quem conheceu o Tamborines ainda no Brasil ou por algumas turnês que eles fizeram por aqui, ainda não há shows previstos para o Brasil. “Adoraríamos. Seria legal ir ao Brasil na mesma época, mas tudo depende de custos. Ao mesmo tempo, temos material novo que gostaríamos de começar a gravar assim que este álbum sair, então temos que ver como tudo isso vai se encaixar no nosso calendário”, adianta Henrique.
Com uma lista de top shows no Natural Music Festival, na Espanha; no Truck Festival, em Oxford e Anson Rooms, em Bristol, e um tributo ao Tony Wilson, da Factory Records, o power-trio deixou para trás os palcos improvisados de Maringá. Desde então, eles acumulam momentos lendários, como no show em que um cara da platéia invade o palco, toma conta de um dos microfones e canta metade do set da banda. “Bem, o que ele não sabia é que o técnico de som havia desligado o microfone dele. Por fim, este acabou sendo um dos nossos melhores shows”, lembra Henrique. No Brasil, ele diz que a banda só começou a ser levada a sério depois de elogios do exterior.
Com a palavra, o músico: “No fim das contas, somos uma banda bem underground. Não acho que a crítica do Brasil esteja interessada, pois eles precisam de músicos polêmicos ávidos em alimentar a cena… Na Inglaterra, somos bem respeitados. Ainda que volta e meia consigamos entrar pela porta dos fundos da indústria (através de corporações como BBC ou NME), nós nunca tivemos que apelar ou fazer algo que não acreditamos. As pessoas que nos colocam lá não estão recebendo dinheiro. Acredite: existem as raríssimas exceções, porém quem lida com gravadora grande tem as mãos sujas. But it’s only rock n’roll, right?”

Kissing Kalina: outsiders sintetizados
www.myspace.com/kissingkalina
Eles se consideram outsiders e desviam de fronteiras. De uma combustão musical espontânea, surge o duo Kissing Kalina, formado por Danny Sanchez e Lily Valentine. Ele saiu do Brasil anos atrás e passou por ‘cerca de 843 bandas’ até surgir o KK. Lily cresceu em Londres e entrou em contato com o KK pela primeira vez em 2007, enquanto trabalhava no projeto solo dela: “Fiquei completamente encantada por este mundo estranho e bonito que o Danny havia criado”. No ano seguinte, quando já fazia parte da banda, o duo criou o selo Honey Buzz Records para ter liberdade ao lançar a música deles.
Nas primeiras vezes que se escuta “Here She Comes”, o debut do duo que acaba de ser lançado e pode ser baixado no My Space, a sensação é de ter encontrado uma nova seqüência para ouvir andando rápido pela cidade, relembrando os planos-sequência do filme-B que deu sentido à noite passada. Nas palavras deles, Kissing Kalina soa como The Ronettes numa viagem de heroína. Talvez The Cramps numa onda beatnik. Com single à venda no circuito indie das lojas Rough Trade e Intoxica, a dupla esteve no tracklist do programa da BBC de Tom Robinson, além de rádios da Espanha, Nova Zelândia, Áustria e Estados Unidos. Por enquanto, apesar de eles serem a fim, ainda não têm previsto nenhum show no Brasil.
Para eles, pouco importa definir as origens da banda. “O KK nasceu aqui. Mas como temos uma alta rotação de colaboradores, pessoas de lugares de todo o mundo já tocaram conosco. Daí fica difícil de saber se a banda é inglesa, brasileira, londrina, japonesa, italiana…. Na verdade acho que ninguém envolvido com a banda já parou para pensar nisso”, diz Daniel.
Então esqueça a idéia de uma banda que se apegue a rótulos ou aceite ser encaixada em alguma nova “cena” recém-criada. “Tivemos alguns problemas quando começamos. Algumas pessoas não entendiam porque não soávamos como Libertines, Artic Monkeys ou derivados… Ou porque tocávamos mais alto do que as outras bandas. Algumas pessoas eram um pouco mais agressivas. Me diverti bastante…”, ironiza Daniel. Lily diz nunca ter entendido por que alguém gostaria de fazer parte de uma “cena” e perde o respeito por aqueles que passam a seguir uma nova moda passageira, sem identidade musical. Nessa mesma sintonia, Daniel diz que em Londres não há uma “cena” de bandas brasileiras e, pela diversidade cultural característica da cidade, o que há são “músicos/bandas/artistas/produtores/charlatões de todo o mundo. Cada um faz seu trabalho da melhor maneira possível, ou tenta…”. Eles estão tentando… da melhor maneira possível.

CSS: um assento na janela, ao lado da saída de emergência
www.myspace.com/canseidesersexy
O que não falta para o Cansei de Ser Sexy são polêmicas e rótulos por diversos cantos da internet. De banda brasileira fenômeno mundial, a crise do segundo álbum rendeu história, inclusive, com o rompimento com a baixista Ira Trevisan e o antigo produtor da banda. Tudo revelado em matéria de capa da revista inglesa NME (New Music Express) com direito a choro, traição e a revanche na música “Rat is Dead”. Digno de novela brasileira. Mas o capítulo agora é outro e, depois de uma turnê extensiva de shows pela Europa que durou cerca de dois anos, eles continuam na estrada, agora com o novo álbum, “Donkey” (haja fôlego!).
Com a agenda lotada e sem nenhuma janela até o final de dezembro, segundo o baterista Adriano Cintra, os fãs brasileiros vão ter que esperar mais um pouco para vê-los ao vivo. “Mas queremos muito tocar no Brasil. Tocar aí foi incrível”, garante. Em novembro, eles passam por sete de países na Europa e, na seqüência, Japão. Mesmo que a energia e espontaneidade do primeiro álbum já deixem uma ponta de nostalgia, eles continuam nas pistas de dança do leste de Londres e estão sempre em pauta nas revistas de lá (sem dúvidas, com mais destaque lá que aqui). Neste mês, rolou o lançamento do single “Move” em CD e compacto 7″… mas o vídeo já tinha “vazado” na rede. Confira os remixes no MySpace (vá direto ao do Cut Copy, please).
A proposta é continuar como uma banda média: “Não somos obrigados a fazer coisas que não queremos, como voar amanhã para a Austrália para gravar um programa de tevê. Não, obrigado. Quando você joga um jogo mais pesado, tem que fazer esse tipo de coisa contra sua vontade. Tem que deixar a gravadora meter a mão no seu disco. A Sub Pop nem ouviu as demos de ‘Donkey’! Eu pedi pra mixar com o Mike Stent e eles “tudo bem”. Acho que o CSS gostaria de ocupar um assento na janela, no meio do avião, de preferência na saída de emergência em cima da asa do lado esquerdo. Tá. Somos uma banda de porte médio que está feliz com o tamanho que tem e não tem pretensão alguma de ser algo que não é. Já tocamos no Brixton Academy sold out, já tocamos quatro vezes no Wembley Arena abrindo pra gente muito maior que a gente (o Basement Jaxx e a Gwen Stefany) e no Brasil somos uma banda que deu certo no exterior”, define Adriano.
Agora morando em Londres nos intervalos das turnês, ele diz ser ao mesmo tempo muito bom e esquisito morar fora do Brasil. “É bom porque aqui é primeiro mundo. E esquisito porque a comida aqui na Inglaterra é horrível”.
novembro 4, 2008 No Comments
Todas as minhas rugas
A idade, meus caros, chega para qualquer um (risos). A imagem acima linka para a entrevista que concedi ao graaaande amigo Rodrigo Carneiro, do Showlivre, após uma corridinha para fugir da chuva no Tim Festival. Mais do que falar sobre os shows, impressiona a minha quantidade de rugas (Lili, não assista! – risos). Mas é isso ai. O tempo passa, o tempo voa, a poupança Bamerindus não existe mais e o Itaú e o Unibanco vão se juntar. A vida segue. 🙂 Keith Richards, nos aguarde!
novembro 3, 2008 No Comments
Curumin e Nina Becker
Curumin na Galeria Olido
A Galeria Olido é um dos vários espaços bacanas do centro de São Paulo. Quando soube do show do Curumin, achei que ele seria num dos anfiteatros do local (em que vi um dos melhores shows do CSS alguns anos atrás), mas a produção “adotou” o espaço de aulas de dança de salão, com a Avenida São João ao fundo, numa imagem bonita e com um q de poesia.
Curumin encerrava sua temporada no local, e aproveitou para abrir o microfone para MCs, que improvisaram e mandaram o verbo para um bom público que se espalhava no local. Divulgando seu mais recente álbum, o excelente “Japan Pop Show”, o “Curumin Trio” (o próprio na bateria, mais um baixista e um programador) apresentou algumas canções do disco e nos intervalos abria espaço para a intervenção de DJs.
Os intervalos entre uma canção e outra quebraram o ritmo do show, que parecia mais um ensaio aberto com amigos – amplificado pelo clima descontraído do local – do que uma dita apresentação. As versões ao vivo das ótimas “Mal Estar Card”, “Compacto” e “Magrela Fever” credenciam um show completo de Curumin, que se apresenta no Planeta Terra 2008. Fique de olho.
Nina Becker no Studio SP
A responsabilidade não era pouca. Acompanhada pelo grupo DoAmor, a cantora Nina Becker iria cantar as canções do álbum “Build Up”, de Rita Lee – seguindo o tracking list original do álbum. Lançado em 1970, com orquestrações do maestro Rogério Duprat e produção do então marido Arnaldo Baptista, a estréia solo de Rita Lee – ela ainda fazia parte do’s Mutantes – é um clássico do rock brasileiro.
Com um Studio SP recebendo um púbico excelente para o horário, a noite começou com Nina se desculpando pela falta de voz devido a uma gripe repentina, que chegou a atrapalhar a interpretação de algumas canções que exigiam mais do vocal (como “Hulla-Hulla”, “Calma” e “Viagem Ao Fundo de Mim”), mas a experiência funcionou bastante, com o grupo DoAmor surpreendendo nos arranjos e o público cantando boa parte das canções.
“Sucesso, Aqui Vou Eu (Build Up)”, “Eu Vou Me Salvar” e, principalmente, a dobradinha “Macarrão Com Linguiça E Pimentão” e “And I Love Him” foram os grandes momentos da noite, que pelo sucesso de público merece novas exibições (até que para grupo e cantora sintam-se mais à vontade com o repertório e a apresentação cresça em qualidade e profundidade). Que venham outras noites como essa.
Fotos: S&Y/Marcelo Costa (http://flickr.com/people/maccosta)
Leia mais:
– “Japan Pop Show”, de Curumin, por Marcelo Costa (aqui)
outubro 30, 2008 No Comments
Mostra SP: “Loki – Arnaldo Baptista”

“Loki”, de Paulo Henrique Fontenelle – Cotação 5/5
Nas ruas de Londres, um fã (aparentemente) britânico pára Arnaldo Baptista e começa um discurso emocionado que enaltece a grandiosidade do’s Mutantes, grupo que Arnaldo formou com seu irmão Sérgio e, aquela que viria a ser sua primeira namorada e mulher, Rita Lee. Na seqüência, um brasileiro passa por Arnaldo, caminha uns dez passos e volta gritando: “Mutantes, porra, você é foda demais”. A palavra é exatamente essa: Arnaldo Baptista é foda demais.
“Loki”, documentário emocional de Paulo Henrique Fontenelle, lança luz com devoção sobre a carreira do homem responsável por uma das maiores – se não a maior – e mais geniais formações de rock do lado debaixo do Equador. Fontenelle busca amigos, parceiros e produtores que abrem o coração para a câmera detalhando histórias e causos da vida de Arnaldo Baptista. Mais: resgata imagens raríssimas de época, trechos de entrevistas e aparições em TV que soam como pepitas de ouro visuais que dão um colorido especial ao passado.
O filme começa com um amigo de escola, Raphael Villardi, que lembra o momento em que Arnaldo comprou um baixo e decidiu formar um grupo de rock. Estava criado O’Seis, grupo que viria a ser um dos embriões do’s Mutantes. Daí em diante entra em cena a Tropicália, os grandes festivais da Record, raras entrevistas e a viagem para a Europa que rendeu a gravação do álbum “Technicolor”, gravado em 1970 e lançado apenas em 2000.
Em um dos trechos mais tocantes da película, Arnaldo comenta sobre a relação com Rita Lee, o casamento e a separação, pede desculpas e assume que não pôde dar a atenção que ela merecia naquele momento. Dinho (baterista) e Liminha (baixo) relembram – emocionados – o dia em que Rita avisou que estava pulando fora do barco. “Eu sai para fora da casa do Arnaldo e comecei a chorar”, conta Liminha. “Era o fim”, sentencia Dinho (de olhos marejados). Não foi ao menos por um tempo, enquanto Arnaldo segurou a formação ao lado de Sérgio.
O irmão é outro que dá a cara a bater no filme. “Ele saiu e eu fiquei com os Mutantes, e eu não sabia o que fazer. Eu estava perdido e segui com a banda porque era o que eu achava que tinha que fazer”, desabafa o guitarrista, que em um dos momentos mais intensos do documentário culpa a imprensa, os amigos e a si mesmo pela falta de tato com o irmão. “Ele é um gênio e a imprensa… e as pessoas ficavam falando coisas que confundiram e atrapalharam ele. São todos uns cretinos. E eu também sou um cretino por não conseguir entende-lo e quero pedir desculpas publicamente por isso”, diz Sérgio.
Após sua saída do’s Mutantes, Arnaldo lançou seu primeiro disco solo, “Loki”, que dá título ao filme e é considerado por muitos como um dos dez maiores álbuns da música popular brasileiro, um flagrante de sofrimento e dor que impressiona e comove por sua sinceridade. A partir daí, ele segue com projetos paralelos com a banda Patrulha do Espaço (registros lançados no ótimo álbum “O Elo Perdido”) até lançar o segundo álbum solo, “Singin Alone”, em 1980, e caminhar até a janela do Hospital do Servidor Publico, em São Paulo, quebrar o vidro e pular do terceiro andar atirando-se numa tentativa de suicídio.
O resultado do vôo: sete costelas fraturadas, várias lesões pelo corpo e dois edemas: um cerebral – seríssimo – e um pulmonar. O músico ficou quase dois meses em estado de coma, e quando retornou a si, precisou de mais dois meses para se recuperar (a traqueotomia a que fora submetido afetara suas cordas vocais alterando seu timbre de voz). Amparado por Lucinha Barbosa, Arnaldo renasceu e foi morar em Juiz de Fora, em Minas Gerais, afastado da mídia e do público em busca de paz. De lá pra cá aparições esporádicas em pequenos shows em São Paulo e no Free Jazz Festival, ao lado de Sean Lennon, fã confesso do’s Mutantes, até o álbum “Let It Bed” em 2004 e a reunião consagradora do grupo em 2007.
“Loki” é um dos daqueles documentários que vangloriam o cinebiografado, mas exibe uma sinceridade tão tocável que anula qualquer comentário contrário a sua imensa qualidade. Rita Lee não topou dar entrevistas para o filme, mas liberou o uso de suas imagens. Bancado pelo canal fechado TV Brasil, “Loki” terá raras e esparsas exibições nos cinemas (em sessões especiais e festivais ao redor do país) até estrear definitivamente na telinha. Uma pena. “Loki” é daqueles filmes que deveriam ficar semanas e semanas em cartaz com grande divulgação e grande público em uma telona. Fique atento e não perca a oportunidade de assisti-lo.

outubro 29, 2008 No Comments
Tim Festival: Gogol Bordello, National e MGMT

Foto: Divulgação / Tim Festival
Na quarta noite do Tim Festival em São Paulo (sexta, 24), a Arena montada no Parque do Ibirapuera recebeu DJs para o palco Tim Festa. E foi mais ou menos isso que aconteceu em duas das apresentações. O norte-americano Dan Deacon chegou quebrando tudo e colocando todo o som do palco no último volume. Ouvidos foram desvirginados nas três primeiras músicas com o som alcançando decibéis mais altos dos que os que o My Bloody Valentine vem executando em sua recente turnê.
Como apenas barulho não basta para garantir uma boa apresentação, Dan Deacon abaixou o som, desceu para a pista e ali, no meio da galera, montou uma quadrilha eletrônica que alternava momentos que lembravam tanto Four Tet quanto Nine Inch Nails enquanto os presentes faziam brincadeiras, um perfeito aquecimento para o que viria a seguir. O punk cigano de Gogol Bordello foi recebido com histeria – merecidissima – pela platéia paulistana.
Liderados pelo vocalista e ator Eugene Hutz (foto), o grupo promoveu um baile punk com dançarinas vestidas com top do Santos Futebol Clube, guitarras metalizadas, bateria hardcore, acordeon, violino e muito vinho. O som parece uma porrada de carros entre o pessoal do Pogues com a turma de Henry Rollins. Em vários momentos é possível reconhecer passagens do Clash, mas a grande referência é o Mano Negra, que por sinal foi homenageado na última canção do show, “Mala Vida”, simplesmente sensacional. Um dos shows do ano.
Fotos: S&Y/Marcelo Costa (http://www.flickr.com/photos/maccosta/)
No sábado de manhã, a provável última oportunidade para ver a lenda Sonny Rollins ao vivo no Brasil. Após o elogiado desempenho no Auditório do Ibirapuera, na terça-feira, um dos últimos remanescentes da época de ouro do jazz retornou ao local, mas desta vez para se apresentar virado para o parque, ao ar livre. Um sol forte castigava a pele paulistana enquanto meninas tentavam pegar um bronzeado de biquíni e homens buscavam cerveja. O show foi arrebatador, mas a constante movimentação do público e as conversas paralelas atrapalharam a audição, principalmente em números mais lentos.
Fotos: S&Y/Liliane Callegari (http://www.flickr.com/photos/lilianecallegari/)
À noite, encerramento da edição paulista. Comandados por Matt Berninger, o National fez uma apresentação absolutamente perfeita na Arena. O show foi um repeteco das apresentações que vi no Rock Werchter 2008 e no FIB, com a vantagem de que no Brasil o grupo se apresentou à noite, e não no meio de uma tarde européia com sol a pino e tenda abafada. O som atmosférico, às vezes gélido e quase sempre épico, do grupo de Nova York pede a escuridão como complemento como se precisasse dela para dançar apaixonado entre sorrisos e lágrimas.
Não à toa, Matt trava durante todo o show um duelo contra o microfone. Ele agarra o objeto de uma forma que lembra muito Beth Gibbons, do Portishead, e solta sua voz forte que corta a atmosfera como se fosse um machado. Há resquícios de Joy Division, Leonard Cohen e Nick Cave, mas o parente mais próximo é a elegância do Tindersticks. O repertório alterna grandes momentos dos dois últimos álbuns como “Start a War” e os quase hinos “Secret Meeting”, “Baby, We’ll Be Fine”, “Squalor Victoria”, “Mistaken for Strangers”, “Apartment Story”, “Fake Empire” e “Mr. November”.
Para o final da apresentação, valorizando o duo de metais que deu um colorido especial ao show, um presente para o público paulista (e brasileiro) que não foi dado aos belgas e espanhóis: “About Today”, do raro EP “Cherry Tree”, em versão jam session dedicada a um fã brasileiro. Extremamente soltos no palco, os músicos levaram a canção ao ápice instrumental para estilhaçá-la em barulho na frente de todos. Após entregar a garrafa de vinho que bebia (e set list, e autógrafos, e toalhas) para uma fã na frente do palco, Matt deixou o local aclamado pela audiência. Show inesquecível.
Foto: S&Y/Liliane Callegari (http://www.flickr.com/photos/lilianecallegari/)
O mesmo não pode ser dito do MGMT. Ao vivo, a veia eletrônica da dupla Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden foi trocada por psicodelia progressiva setentista em formato banda (acompanhados por James Richardson na guitarra, Matthew Asti no baixo e Will Berman na bateria). Longos solos de guitarra marcaram a apresentação, que poderia ter feito bonito no Monterey Festival 67. O timbre vocal de Ben Goldwasser lembra em alguns momentos o de Geddy Lee, do Rush, enquanto a tecladeira emulava ícones prog numa mistura estranha e cansativa.
Metade do público vibrava enquanto a outra bocejava. Nem o cirquinho armado no começo do show – que culminou no julgamento e enforcamento de três bichinhos de pelúcia – serviu para aproximar o quinteto do público. O cenário mudou radicalmente nas duas últimas canções, os hits “Time To Pretend” (tocado com banda, mas de forma econômica e muito parecida com a original) e “Kids” (sem banda, com playback instrumental, programação e um solo metaleiro no final). Serviu para mostrar que a banda poderia ter feito um bom show, mas não fez.
Amargando o descaso do público, que aumentou nesta última noite, mas faltou nas anteriores, o Tim 2008 mostra que preços altos e artistas pouco conhecidos não garantem um festival. Mais: bons shows como os de Klaxons, Gogol e National mereciam um público maior, mas após três anos de desorganização em São Paulo, a grife Tim viu o público abandonar o evento. Pena. A produção melhorou: a tenda montada no Ibirapuera funcionou (embora na última noite, com um público maior, houvesse filas imensas no banheiro) e o som estava ok. Resta à produção manter os acertos de 2008 e repensar a proposta para 2009 para voltar a ser o melhor festival do país. O público agradece.
Leia também:
– Tim 2008: Punk rave do Klaxon vs tristeza de Marcelo Camelo (aqui)
– Tim 2008: Kanye West faz “showzinho” (aqui)
– Tim 2007: Björk brilha no fraco Tim Festival SP 2007 (aqui)
– Tim 2006: Patti Smith, Devendra, Yeah Yeah Yeahs (aqui)
– Tim 2006: Beastie Boys são aclamados no Tim Curitiba (aqui)
– Tim 2005: Strokes, Costello e Television (Weezer e Mercury Rev) (aqui)
– Tim 2004: Libertines e Brian Wilson (PJ Harvey e Morrissey) (aqui)
– Tim 2003: White Stripes, Los Hermanos e Beth Gibbons (aqui)
outubro 26, 2008 No Comments
A song for you
Como você deve imaginar, eu recebo mais e-mails que dou conta de ler, e mais indicações de novas bandas e discos do que consigo ouvir no meu dia extremamente corrido. Gostaria de poder responder todos os e-mails e ouvir todos os links de My Space que me passam logo na primeira hora, mas infelizmente não consigo (e, se tentar, é bem provável que eu até os ouça, mas não consiga escrever, o que seria – ao menos para mim – muito pior).
O que acontece comigo também acontece com praticamente todo mundo do meio (não excluindo ninguém), e chamar a atenção dessas pessoas cujo tempo é algo raro (e dias de 36 horas são um sonho) é muito, mas muito difícil. Foi por isso que quando recebi via My Space o e-mail (spam?) da Kara, algo chamou a minha atenção. O e-mail é doce e delicado como nunca li em nenhum release em minha vida, que trata a música com a mesma paixão com que nós ouvimos. Foi assim:
Hi, my name is Kara, and I work at a little indie record label in Seattle, WA. I drink hot tea every day (even in the summer) and sit at a computer near a window that overlooks construction. My job is to help promote singer-songwriter Peter Bradley Adams. I’m not raking in the big bucks, but I love it because I really believe in his music.
So here’s the part where I try to convince you to listen to this tune we’re giving away — The problem is there are a billion and one singer-songwriters out there. Heck! I’m one of them! With so much music all around us (and much of it sounding the same) what can I say that will interest you enough to check him out? Anything I say will sound cliche. I’m beat before I’ve even begun.
All I can do is honestly tell you that Peter’s song “Los Angeles” gives me goosebumps every time I hear it…. There’s something about the simple chord progression in the piano that touches me instantly, catching my full attention far before the lyrics enter. As for the lyrics, I was just saying to my coworker that they appeal to that sentimental part of me that likes to personify my surroundings and divine meaning from subtle movements in the world around me. For instance, lamps always turn off as I approach them. The logical conclusion: I must be part vampire.
Whatever my genetic makeup, Peter’s music truly reaches me:
http://www.myspace.com/peterbradleyadams
That’s his MySpace page. (His song “Los Angeles” is on my profile)
And here’s a link to that tune I promised to give you:
http://sarathan.Com/free/peterbradleyadams/
Anyway, thanks for your time!
-Kara @ Sarathan Records
http://www.sarathan.com
outubro 24, 2008 No Comments
Tim Festival: A punk rave do Klaxons e a tristeza de Marcelo Camelo
Marcada pelo cancelamento de dois headliners (Paul Weller e Gossip), a terceira noite da edição paulista do Tim Festival começou com o samba jeitoso de Roberta Sá no Auditório Ibirapuera. De vestidinho “Emília”, a cantora misturou canções de seus dois álbuns (“Braseiro” e “Que Belo Estranho Dia Para se Ter Alegria no Show”) lembrando em alguns momentos Marisa Monte. Sai do Auditório cantando “Alo Fevereiro” (“Tamborim avisou, cuidado / Violão respondeu, me espera / Cavaquinho atacou, dobrado / Quando o apito chegou, já era”).
Do outro lado, na tenda Novas Raves, a responsabilidade de abrir os trabalhos ficou a cargo do Neon Neon, grupo que chama a atenção por ser um projeto paralelo do gente boa Gruff Rhys, vocalista do Super Furry Animals, em parceria com o produtor Boom Bip, que embarca em uma viagem estranha aos anos 80 temperada com momentos de hip-hop. Quem roubou a noite, no entanto, foi o artista performático Har Mar Superstar, baixinho, gordinho, cabeludo e careca, com uma camiseta do Menudo e muito pique para agitar a galera mais do que o Neon Neon. No mínimo, rendeu boas risadas.
De volta ao Auditório, a quantidade de espaços vazios impressionava. Quem apostava em uma invasão de fã dos Los Hermanos errou. Em sua primeira apresentação em São Paulo, Marcelo Camelo amplificou as qualidades e defeitos de “Sou”, sua estréia solo. As músicas tristes (e chatas) ficaram mais tristes (e muito mais chatas) e temas alegres como “Menina Bordada” ganharam com os bons improvisos do sexteto Hurtmold (acrescidos do trompetista Rob Manzurek, de Chicago).
A jovem cantora Mallu Magalhães, sentada na primeira fila, viu Marcelo Camelo tocar “Janta” (que conta com sua participação no álbum) e duas canções dos Hermanos surgiram (“Pois É” e “Morena”) numa apresentação marcada pela monotonia e com algumas boas intervenções do Hurtmold. O show ainda está cru, mas deve crescer conforme banda e artista se entrosarem, o que talvez melhore até as faixas mais fracas de “Sou”, o que dúvido. O próprio Marcelo Camelo percebeu o excesso de calma no palco ao dizer, em certo momento, que “falta um pouco de desordem” no show. Falta mesmo.
Novamente na tenda, o Klaxons baixou em São Paulo para fazer demônios dançarem com sua punk rave (muito mais punk que rave). Os ingleses baixaram em São Paulo para apresentar as grandes canções do ótimo álbum “Myths of the Near Future” em versões rápidas, pesadas e diretas de “Totem On The Timeline”, “Gravitys Rainbow”, “Its Not Over Yet”, “Atlantis To Interzone”, “Magick” e ainda duas inéditas (fraquinhas numa primeira audição): “Moonhead” e “Calm Trees”. Har Mar Superstar voltou para encoxar os músicos e botar fogo no final da apresentação, 55 minutos vigorosos que valeram a noite, mas o Tim Festival 2008 continua devendo.
Fotos: Lili Callegari (http://www.flickr.com/photos/lilianecallegari)
outubro 24, 2008 No Comments
Tim Festival: Kanye West faz “showzinho”

O míni dicionário Houaiss define a palavra “show” da seguinte forma: “espetáculo de entretenimento apresentado para uma platéia”. Olhando por este prisma reducionista, Kanye West cumpriu todos os requisitos na apresentação que fez no Tim Festival: era um espetáculo e ele entreteve a platéia. Porém, foi tudo tão pobre (telão, palco, músicas, apresentação) que dizer que foi um show seria exagerado demais.
O público era formado por pessoas que pagaram o superfaturado preço de R$ 250 pelo ingresso e iriam cantar todas as músicas de qualquer jeito. Muitos fãs – pessoas que já saem de casa gostando do show – e curiosos também foram conferir o que revistas gringas apontaram como o espetáculo do ano, e juntos estes públicos deixaram metade da nova Arena do festival em São Paulo – agora no Ibirapuera – vazia.
Não dá para entender o motivo de tanta balbúrdia sobre a turnê Glow In The Dark. O palco tenta criar um território acidentado no espaço, mas não convence e fica parecendo mais uma pista de aeróbica. As imagens no telão em 80% do show são ridículas e lembram tanto telas de descanso do Windows quanto projeções distorcidas e em pior qualidade de um Planetário.
Kanye West passa todo o tempo do show contracenando com o telão enquanto corre de lá para cá na pista de aeróbica. Ele é, segundo a voz do telão, o maior astro pop do Planeta Terra, e talvez se convença disso, tanto que fica sozinho à frente do público enquanto uma banda (hipotética, já que 99,5% do público não a viu) de nove integrantes faz a cama sonora para seu passeio pelo Universo.
A impressão que fica, após o show, é que voltamos dez anos em termos de produção de espetáculos. O show de Kanye West consegue se adaptar ao Houaiss, mas está longe de ser algo que pudesse concorrer ao título de melhor do ano, quando mais ser apontado como tal. É entretenimento que atola os dois pés no piegas enquanto posa de inventivo deixando o mais importante em segundo plano: a música. Quer uma super-produção de verdade? Espere Madonna ou U2. Kanye West é pura enganação.
– Tim 2008: Punk rave do Klaxon vs tristeza de Marcelo Camelo (aqui)
– Tim 2008: Gogol Bordello, National e MGMT (aqui)
– Tim 2007: Björk brilha no fraco Tim Festival SP 2007 (aqui)
– Tim 2006: Patti Smith, Devendra, Yeah Yeah Yeahs (aqui)
– Tim 2006: Beastie Boys são aclamados no Tim Curitiba (aqui)
– Tim 2005: Strokes, Costello e Television (Weezer e Mercury Rev) (aqui)
– Tim 2004: Libertines e Brian Wilson (PJ Harvey e Morrissey) (aqui)
– Tim 2003: White Stripes, Los Hermanos e Beth Gibbons (aqui)
Crédito da foto: Divulgação/Tim Festival
outubro 23, 2008 No Comments
Mudhoney em São Paulo
Na porta do clube Clash, em São Paulo, na noite de sexta-feira, um tumulto de camisas de flanela e cabeludos fazia parecer que estávamos todos fazendo parte de uma locação do filme “Singles”, de Cameron Crowe (com muito menos garotas do que na película). Dentro do Clash, a sensação se amplificava e a máquina do tempo musical parecia ter jogado todo mundo nos primeiros meses de 1992. The grunge is not dead, baby.
Poucas horas antes, na região do ABC paulista, terminava de forma trágica o mais longo cárcere privado acontecido no estado de São Paulo: Lindemberg atirara na cabeça de sua ex-namorada, Eloá, e da amiga dela, Nayara. O caso vinha sendo acompanhado por todo o país e lembra uma das primeiras coberturas nacionais feitas nos EUA (retratada por Woody Allen em “A Era do Rádio”) de uma menina que caíra num fosso, e não sobreviveu ao resgate numa “vitória” da tragédia sobre a fé.
Algumas pessoas podem argumentar que não conheciam Eloá (assim como não conhecem os pedintes na rua) e que tem mil outros problemas seus para resolver, um gesto meio umbiguista que podem funcionar tanto como proteção quanto como egoísmo, cada um com a máscara que melhor lhe cabe. Em São Paulo, de duas a três horas após a tragédia, Ana Carolina, Ed Motta, Beth Carvalho e Mudhoney tentavam entreter seus públicos tocando a vida para frente.
O que diferencia o Mudhoney dos outros artistas que tocavam no mesmo horário em São Paulo é que uma das principais formações de Seattle leva ao palco uma usina de barulho com o poder de expurgar demônios. Diante de um mundo tão violento, diante de crimes brutais, diante da fome e da miséria, admiro aqueles que consigam sair de casa e cantar: “Há quem acredite em milagres / Há quem cometa maldades / Há quem não saiba dizer a verdade (…) / Eu não sei parar de te olhar”. Mesmo.
A passagem dos norte-americanos pelo Brasil visava divulgar o novo (e ótimo) “The Lucky Ones”, oitavo disco de inéditas do combo liderado por Mark Arm, que abriu o show pontualmente às 22h com três porradas, incluindo a excelente “I’m Now”. O som, no entanto, não colaborava. Era possível ouvir tudo com perfeição, mas o volume estava baixo demais para quem já havia presenciado a destruição rocker que o Mudhoney promoveu no Olympia, alguns anos atrás.
O público, hipnotizado, estava pouco ligando para o volume. Bastou Mark Arm assumir a guitarra base e soltar o riff da esporrenta “Suck You Dry” que todos foram ao delírio. Corpos flutuavam sobre cabeças enquanto a bateria de Dan Petters fazia da canção um dragster desgovernado descendo a rua Augusta a 300km por hora. Outro clássico, “Sweet Young Thing Ain’t Sweet No More”, foi recebido com flashes de celulares e mãos levadas ao alto louvando o metal.
“Touch Me I’m Sick” surgiu em uma versão mais limpa com o público cantando toda a letra assim como fez em “Hate The Police”, que encerrou o show. No bis, após a tempestuosa “Here Comes Sickness”, Mark Arm pedia encarecidamente para a galera maneirar no pogo e na porrada. “Tem gente se machucando aqui na frente, por favor, cuidado. Nós não estamos mais em 1992”, dizia o vocalista. Quase errado. Dentro do Clash, na noite de (quinta e) sexta, era 1992. Lá fora, na violenta São Paulo, já estávamos em 2008. O mundo não nos deixa esquecer…
Fotos: Liliane Callegari (http://www.flickr.com/photos/lilianecallegari/)
Leia também:
– Duas vezes Mudhoney, por Marcelo Costa (aqui)
outubro 19, 2008 No Comments




















