Paul McCartney na Ilha de Wight

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“Qual show você gostou mais?”, pergunta uma senhora que aparenta ter uns 50 anos, e que bate cartão no Festival da Ilha de Wight desde 2006. “Pink”, responde uma garota que não deve passar dos 18 anos. “A Pink foi realmente surpreendente”, completa a senhora. No banco ao lado do double decker bus que leva o público de volta pra casa, um casal de idade comenta: “Jay-Z foi legal, mas a Pink e o Macca foram demais. Quem será que eles vão trazer para o ano que vem?”. Senhores e senhoras, esse é o Festival da Ilha de Wight.

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As três primeiras edições do Festival da Ilha de Wight aconteceram no final dos anos 70 (mais precisamente 1968, 1969 e 1970), sendo que a última reuniu 600 mil pessoas (que foram ver Doors, Who, Leonard Cohen e Jimi Hendrix, entre outros). Após três décadas de silêncio, a ilha na costa sul da Inglaterra voltou a sediar o festival de música em 2002, e desde então anualmente a Ilha de Wight vira palco de grandes shows no mês de junho – ao lado de eventos como caminhadas de terceira idade e competições de regatas.

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No caso do festival de música, a organização impressiona. São dezenas e dezenas de barraquinhas que servem uma variedade extensa de comida (indiana, japonesa, mexicana, tailandesa, italiana, vegetariana, hambúrguer de carne de avestruz e muito mais), cerveja, vinho, roupas, chá, chocolate quente, doces, sorvetes, badulaques e tudo o mais, sem contar o parque de diversões que é montado no meio do evento para alegria dos aventureiros (uma bola de bungee jump era particularmente assustadora) e dos saudosistas (tinha até carrinho bate-bate).

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Alguém pode perguntar: e a música? A música está lá, bem representada, mas um festival de verão no velho mundo é muito mais do que música, pois os europeus (no geral, e os ingleses em particular) piram com os únicos dois meses e pouco de sol que eles vão ter no ano, então o tempo bom é motivo para festejar. Não a toa, a maioria das 50 mil pessoas que congestionaram os ferries na travessia de Southampton para a Ilha de Wight o fez para acampar no festival, uma coisa tão inglesa quanto o carnaval para os brasileiros.

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O público não poderia ser mais diversificado. Pais com filhos, moleques e meninas de 10 anos curtindo os shows em turma (e mandando SMS para os pais avisando que estava tudo bem), hippies velhos que já viram centenas de outros festivais, vovós (uma senhorinha em particular chamou a atenção: ela estava com a camisa do festival de 2007, tinha vários bottons dos Stones na bolsinha e comia um bolo de chocolate enquanto um dos shows não começava) e uma multidão de gente fantasiada, que deixa o ambiente meio nonsense, mas também divertido.

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O festival acontece em um parque nos arredores de Newport, principal cidade da ilha, e parece ser feito especialmente para quem lota os campings, e pode dar uma boa caminhada para ver seu artista preferido na hora que quiser e depois voltar pra “casinha”. Os shows começam às 11h da manhã e seguem até meia noite numa extensa maratona. São dois grandes palcos (o menor deles numa tenda), um palco acústico e algumas tendas eletrônicas (que funcionam na madrugada para os corajosos, que são muitos).

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A programação 2010 começou na sexta com shows de Florence + The Machine, Doves, Calvin Harris e Jay-Z (queridinho da liga de festivais europeus), entre outros, mas chegamos apenas no sábado, exatamente quando Ezra Koening subia ao palco com seu Vampire Weekend para seu já tradicional grande show. A apresentação funciona melhor em um lugar pequeno (com todo mundo dançando abraçado como no Werchter e no T In The Park em 2008), mas a banda cresceu e convence também em um grande palco. “Horchata” foi cool, mas “Cousins”, “Walcout”, “A-Punk”, “Oxford Comma” e “Cape Cod Kwassa Kwassa” foram celebrativas.

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O Blondie, na seqüência, mostrou boas canções recentes e alguns clássicos antigos. A musa Debbie Harry está bem diferente do show do Personal Fest, em 2004 (aqui), parecendo mais um robô estático no palco do que a deusa de toda uma geração. Um simples movimento de cabeça puxa outras parte do corpo (será culpa das cirurgias plásticas?), e a cena toda é bem estranha. A voz faltou em “Call Me”, mas as versões de “One Way Or Another” e “Heart of Glass” (que eles não tocaram em Buenos Aires) honraram o mito. Ela deixou o palco recomendando: “Não façam nada que eu não faria”. Sei…

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Na posição de headliners, o Strokes fechou a segunda noite com um show quilômetros à frente da apresentação mediana que fez em São Paulo, no Tim Festival, anos atrás (relembre aqui). A banda evoluiu muito, e Julian Casablancas (bêbado ou drogado, procure vídeos no Youtube e decida) toda hora repetia o quanto era bom estar de volta. O problema é que o show foi curto (a primeira parte acabou com 13 músicas e eles fecharam a noite com 17) e não trouxe nada de novo. Os caras ficam parados dois anos e voltam fazendo o mesmo show de dois anos atrás (no meio das gravações do disco novo). Frustrante, mas ainda assim um grande show. Agora só falta aprender a usar as luzes do palco a favor…

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Para o domingo, a grande atração era Sir Paul McCartney, mas o dia começou com Suzanne Vega no palco acústico fazendo um show normal, com banda. Ela tinha se apresentado no palco principal ao meio dia (será que alguém acordou para vê-la?), e a organização sabiamente a colocou também neste palco num horário decente (19h). A primeira coisa que ela fez foi agradecer a presença do público: “Obrigado por vocês estarem aqui e não no palco principal vendo a Pink”, espetou. O show começou com “Marlene on The Wall”, do primeiro álbum da cantora, e misturou canções velhas e novas em uma apresentação delicada e bonita.

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Deixamos Suzanne Vega sete músicas depois (e antes do final) para tentar encontrar um bom lugar para ver Paul McCartney no palco principal, o que nos deu oportunidade de presenciar ainda três músicas da Pink (uma delas, a cover de “Roxanne”, do Police) e perceber o quanto ela é querida na Inglaterra, com todo mundo cantando/berrando junto suas canções. No bis, a cantora voltou fazendo malabarismos em uma corda sobre o imenso público. De impressionar (tente acha-la aqui). A música não diz muita coisa, mas a moça tem um pique no palco de causar inveja. O show terminou com rojões e cortina de fumaça. Bonito.

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Para fechar a terceira noite, e o festival, Sir Paul McCartney. O show começou morno (com “Venus And Mars/Rock Show” e “Jet”), mas nada como uma canção dos Beatles para colocar as coisas no lugar, função cumprida por “All My Loving” (com direito ao famoso baixo Hofner). “Letting Go” foi dedicada a John Lennon, e “Let Me Roll It” serviu para Paul mostrar seus dotes de guitarrista, citar “Purple Haze” no solo, e contar uma história ao final. “O disco “Sargeant Peppers” foi lançado numa sexta-feira em Londres. No domingo, Jimi tocou a música em um show em Londres. Foi sensacional. Jimi, essa música que toquei foi pra você”.

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Logo mais, Paul assumiu a guitarra de novo, e explicou: “Essa eu toco guitarra porque fui eu quem gravei a guitarra nessa canção”. E surge “Blackbird”, linda. “Dance Tonight”, uma das canções recentes, faz bonito na noite, mas o grande momento, logo após a alma se arrepiar com “Eleanor Rigby” foi… “Something”, uma canção beatle que não é dele. Paul surge no palco com um ukelele, e diz: “George adorava tocar esse instrumento”, e sozinho começa a música, com o palco todo apagado, de forma acústica. Quando a banda entra na segunda parte da canção, o palco se acende e o telão revela dezenas de fotos de George Harrison, para delírio do público. Emocionante.

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O trecho final é simplesmente arrasador. Começa com uma grande versão de “Band on The Run”, e segue com “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, “Back in the U.S.S.R.”, “Paperback Writer” e “Let It Be”, todas em versões perfeitas. Em “Live and Let Die”, canhões de fogo aquecem o palco, mas nem precisava, tamanha a excelência da canção. “Hey Jude” fecha o show com 50 mil pessoas fazendo o coro do final por quase 10 minutos. A banda volta para o bis, e não economiza: primeiro vem “Day Tripper”, depois “Get Back” e “Yesterday”. Quando o riff de guitarra anuncia “Helter Skelter”, o céu parece que vai desmoronar. “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (reprise) / The End” encerram uma noite inesquecível.

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Acabou? Quase. Os alto falantes anunciam o fim do festival (embora o grupo britânico James ainda estivesse tocando na segunda tenda) despejando em alto e bom som a clássica versão de Jimi Hendrix para “All Along the Watchtower”, gravada na Ilha de Wight em 31 de agosto de 1970 (dezoito dias antes da morte do guitarrista). Ao mesmo tempo, o céu vira um colorido de fogos e rojões que duram os quase seis minutos da canção num fechamento simbólico comovente. O Festival da Ilha de Wight celebra o fim da edição 2010 com muito estilo. Que venha 2011.

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Mais fotos da viagem:
http://www.flickr.com/photos/maccosta/
http://www.flickr.com/photos/lilianecallegari/

Set list dos Strokes

1. New York City Cops
2. The Modern Age
3. Hard To Explain
4. Reptilia
5. What Ever Happened?
6. You Only Live Once
7. Soma
8. Vision of Division
9. I Can’t Win
10. Is This It
11. Someday
12. Red Light
13. Last Nite
14. Encore:
14. Juicebox
15. Under Control
16. Heart In A Cage
17. Take It Or Leave It

 

Set List de Paul McCartney

1. Venus And Mars/Rock Show
2. Jet
3. All My Loving
4. Letting Go
5. Let Me Roll It / Purple Haze
6. The Long and Winding Road
7. Nineteen Hundred And Eighty Five
8. I’m Looking Through You
9. Blackbird
10. Here Today
11. Dance Tonight
12. Mrs Vandebilt
13. Eleanor Rigby
14. Something
15. Sing the Changes
16. Band on the Run
17. Ob-La-Di, Ob-La-Da
18. Back in the U.S.S.R.
19. Paperback Writer
20. Let It Be
21. Live and Let Die
22. Hey Jude
23. Encore:
23. Day Tripper
24. Get Back
25. Yesterday
26. Helter Skelter
27. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band / The End

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