Joan Crawford, Mia Farrow e Forest Whitaker

“Grand Hotel”, Edmund Goulding (1932)
Vencedor do Oscar de Melhor Filme de 1932, aliás, única categoria que concorreu (por uma provável pressão de seu estúdio, o poderoso MGM), “Grande Hotel” faz parte de uma época em que os diretores iam aos estúdios para seguir a risca as anotações dos produtores, neste caso, Irving Thalberg, que cuidou do roteiro e escalou a seleção de estrelas (e egos) que dá um baile no filme (tanto Joan Crawford quanto John Barrymore mereciam, no mínimo, uma indicação ao prêmio da Academia). A história gira em torno do cotidiano de um grande hotel – no caso, em Berlim, centro cultural e nervoso do mundo entre guerras. Greta Garbo está ok como uma bailarina decadente, mas Joan a devora mostrando charme e sensualidade no papel de uma datilografa que acaba tendo que dormir com o patrão por dinheiro. Há discussões aqui que são atuais ainda hoje.

“O Grande Gatsby”, Jack Clayton (1974)
Não li o livro, o que é uma grande falha de caráter (eu sei), mas ninguém é perfeito (como diria uma música do Fellini: “Eu quis ser”… – risos). Mesmo assim, pela fama universal do livro, eu esperava mais dessa adaptação que tem o senhor Francis Ford Coppola assinando o roteiro e Robert Redford e Mia Farrow nos papéis principais. Como filme, “O Grande Gatsby” é extremamente óbvio e pouco inspirado. Falta ritmo e desde o começo o espectador já sabe o que vai acontecer. Amores não correspondidos da juventude que a gente sempre vai carregar como uma cicatriz na alma rendem boas tramas, mas o diretor Jack Clayton e seu amigo Coppola não souberam usar o material que tinha nas mãos e o filme ficou capenga, arrastado, chato. Nem li o livro, mas arrisco sem medo de errar: fique com ele.

“O Último Rei da Escócia”, Kevin Mcdonald (2006)
Perdi de ver no cinema, o que é uma pena, pois a história de Idi Amin Dada – o ditador cujo regime é acusado de ter matado entre 300 e 500 mil pessoas em Uganda – é impressionante (e devia impressionar ainda mais na telona). Forest Whitaker está ótimo no papel do ditador, e o roteiro tenta mostrar o lado humano do homem, e consegue até certo ponto, mas não adianta: no final o que prevalece é um forte gosto amargo cujo cerne é aterrorizante: histórias de canibalismo e de assassinatos brutais. O ator James McAvoy, que sempre decora bons papéis secundários (“Desejo e Reparação”, “Coisas Belas e Sujas”, “Wimbledon”), está muito bem no papel romanceado do médico que se torna braço direito do ditador. Para ver e pensar na África.
agosto 9, 2010 Encha o copo
Karen O, Spiritualized, Snow Patrol e depressão
Ando passando por uns dias depressivos, daqueles em que a tristeza surge sei lá de onde, se aloja no peito e tudo parece nublado, sem rumo e futuro. Passa. Tem que passar, né. Um bom acompanhamento para esse momento é a trilha sonora de “Onde Vivem os Monstros”, filme do Spike Jonze, que chamou Karen O (do Yeah Yeah Yeahs) para compor e cantar as canções de ninar do filme. Do jeito que estou poderia deixar a faixa que abre, “Igloo”, semanas no repeat. Não sei se já disse isso, mas adoro a Karen O…
Não gostei tanto do filme (falei dele um poquito aqui). Na verdade, não consegui absorver a história, mas tem coisas bonitas ali. Porém, o curta “I’m Here” – que o pessoal da Absolut apresentou para alguns convidados e que foi exibido dentro da programação do festival Rojo Nova, no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo (o Guto escreveu mais aqui) – me balançou bastante. São apenas 30 minutos… intensos. Você pode assistir aqui (assista, assista). Fiquei uns dias pensando em como o fato de se doar para alguém pode ser tão… especial. Não sei se conseguiria. Acho até que a depressão veio após o filme… ou estava antes. Dúvidas.
Ontem fiz aniversário. Cheguei enfim aos 40 anos (que ninguém venha com esse papo de que a depressão tem a ver com a idade, hein) e fui recebido no clube por amigos queridos como Sérgio Martins e Marcelo Orozco, que mandaram mensagens ótimas no Facebook. Aliás, a melhor coisa de se fazer aniversário é receber o carinho de um monte de pessoas praticamente ao mesmo tempo. Ajudou a colocar um solzinho timido em meio ao nublado destes dias cansativos. Ganhei o livro do Peter Biskind (“Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock-and-Roll salvou Hollywood”), presente do Tiago Agostini, e já comecei a ler.
Hoje à tarde, a partir das 15h, vai ao ar o quarto programa Scream & Yell na Rádio Levis. O convidado desta semana foi o chapa de todas as horas André Fiori, capo da Velvet CDs, que escolheu uma versão de uma canção de Bob Dylan para rolar no programa e contou várias histórias bacanas. Me pareceu o melhor dos quatro programas que fizemos até agora.
Como estou sem internet em casa (a Net promete nos conectar amanhã) após a mudança, não assisti ao show do Arcade Fire, mas pela comoção dos amigos a coisa foi bonita. Vou esperar mais alguns dias para procurar, afinal, o show lindo do Spiritualized no Radio Music Hall, em Nova York, que foi transmitido pela web no dia 30 do mês passado já está circulando por ai. Baixe via megaupload aqui. Eles tocam o “Ladies” inteirinho e terminam com “Oh Happy Day”. Bem que o SWU, o Planeta Terra ou o Natura About Us podiam se animar e trazer Jason Pierce para estes lados, hein.
Falando em festivais, o anúncio do Snow Patrol no Natura About Us (16/10 na Chacará do Jóquei junto com Air, Móveis Colonias de Acajú, Karina Buhr, Cidadão Instigado, Cèu e Jamiroquai. Mais infos aqui) foi o primeiro a me balançar de verdade entre os shows que baixam nesse segundo semestre no Brasil. Já vi coisas deles ao vivo em DVDs, e percebi que os caras não são bons de palco, mas bora conferir, né. Ainda não comprei meu ingresso pro Planeta Terra (Lili bateu o pé: quero ir) e estou cogitando o SWU. Mas posso dizer que o Echo tocando o “Ocean Rain” é imperdível…
Semana que vem (mais precisamente no dia 10) tem Billboard com Katy Perry em destaque (a capa está uns posts atrás) e um materião assinado por mim sobre festivais. Ficou bacana. E ontem entrou para download a edição deste mês da Revista Noize (baixe ou leia online aqui). Minha coluna fala sobre músicas que resumem a gente. No meu caso, claro, uma bela balada do Echo and The Bunnymen que diz que as cicatrizes do tempo fazem com que a gente enferruje. Como manter a alma inquieta e continuar sonhando se viver é acumular tristezas? Reticências…
agosto 6, 2010 Encha o copo
O lançamento da Confraria Pop em SP
Bem, não vou me alongar muito para falar sobre a festa. Acho que nem precisa. As fotos falam por si. Mas deixa eu tentar resumir tudo em dois parágrafos. Em certo momento do show do Apanhador Só, Lili (que estava fotografando junto com a Mariana Lima) virou pra mim: “Que show foda!”. Foi tão natural e… verdadeiro. Acho que a Katchu ouviu. E ambos sorrimos por dentro. Já o show do Nevilton foi… sensacional. Fodão como os shows do trio tem sido com citação de uma constelação de gente legal.
Um bom (e bonito) público compareceu à Livraria da Esquina decorada de Festa Julina para tomar quentão, estourar biribinhas e dançar na festa que marcava a união do Scream & Yell, Urbanaque, Move That Jukebox! e da Agência Alavanca. Fiquei orgulhoso com a noite, com os shows, com as discotecagens, com as pessoas que conheci, com os amigos que foram. Até parecia uma criança… bêbada (risos). Todas as fotos da noite estão no flickr da Confraria Pop (aqui), mas selecionei essas cinco abaixo para animar você a ir lá ver as outras…
Ps. Um obrigado especial ao pessoal da Livraria e, claro, aos agora parceiros Kátia Abreu, Pamela Leme, Bruno, Cirilo e Leonardo Dias, Alex Correa, Neto Rodrigues, Tiago Agostini mais as queridas Katia Melo, Lili Callegari, Mariana Lima e Paula Sato. Estamos apenas começando…
julho 26, 2010 Encha o copo
Novo ap, SWU, BRMC e Rodrigo Lemos
Vazou o disco do Arcade Fire (que é bem bom), Rodrigo Lemos (ex-Poléxia) colocou seu primeiro EP solo para download, Mano Menezes foi para a seleção, BRMC fez um cover de um cover do Pogues, Roger Rocha Moreira me entrevistou, tomei uma baita porre de cervejas gringas na sexta-feira e eu e Lili finalmente assinamos o contrato do nosso novo apartamento (aos 45 minutos do segundo tempo).
Do fim para o começo: saímos da Bela Cintra para subir uns setecentos metrôs para morar na Fernando de Albuquerque, quase na esquina da Bela Cintra. Esse apartamento sempre foi uma de nossas primeiras opções por estar reformado, ser grande e bem, localizado. O dono é um economista argentino que pareceu ser bem gente boa.
Temos que entregar esse apartamento no próximo fim de semana, ou seja, temos cinco dias para encaixar coisas. Já assinamos a papelada, mas devemos pegar às chaves na próxima quarta, mais tarde quinta-feira. Na sexta já pedi folga para acelerar o processo de desmontagem das coisas no velho ap, e lá vamos nós: apartamento novo, vida nova.
A semana promete ser corrida. Tem uma pauta boa pela frente, programa da rádio Levis a ser gravado na segunda-feira, caixas a serem fechadas para mudança e o provável anúncio do próximo passo do Scream & Yell. E no próximo fim de semana ainda vai rolar discotecagem no lançamento do novo clipe do Charme Chulo (veja o flyer e coloca na agenda). Haja pique.
O lance do Roger foi bem divertido. Ele me entrevistou pruma parada ae sobre o espírito do rock and roll, e 20 anos atrás eu nunca poderia ter imaginado isso acontecer. Tirando o fato dele me sarrear dizendo que sou uma mistura do Leoni com o João Barone, o papo fluiu bem e assim que tiver algo coloco por aqui.
Outras idéias minhas foram publicadas no ótimo Rock’n’Beats, numa pauta sobre sustentatibilidade e o polêmico SWU Festival (leia aqui). Tenho uma série de reservas ao festival até o momento. Acho que o planejamento foi feito de forma errada (isso se existiu planejamento) e o line-up apresentado até agora mostra que o festival está atirando para todos os lados. Mas ainda vale dar um voto de confiança. Vamos ver onde isso vai dar.
O BRMC decidiu regravar em estúdio o clássico “Dirty Old Town”, canção de 1949 que ganhou uma versão poderosa dos Pogues, em 1985, produzida por Elvis Costello. Eles tocaram essa versão no show que vi deles em Viena, dois meses atrás, e aqui ela aparece em versão despojada em comemoração dos 50 anos das botas Dr. Martens. Você pode assistir ao clipe e baixar a canção em MP3 de graça aqui. O projeto da Dr. Martens ainda terá o Raveonettes regravando “I Wanna Be Adored”, do Stone Roses. Tudo aqui.
Quem também está voltando com material novo é Rodrigo Lemos, ex-Poléxia, que libera seu primeiro EP solo de forma gratuita. “Lemos, EP” traz cinco faixas (gostei de “Alice” e “Menina Laranja”) com participações de Alexandre Rogoski (Baque Solto), Diego Perin (Banda Gentileza) e Vinícius Nisi, Luís Bourscheidt e Thiago Chave, os três da Banda Mais Bonita da Cidade. Você pode baixar o EP aqui e ler uma entrevista com o Lemos aqui.
Por fim, ainda quero ouvir um pouco mais “The Suburbs”, o novo e intenso disco do Arcade Fire, que vazou na sexta-feira. Os caras já lançaram dois discos matadores (falei do “Funeral” aqui e do “Neon Bible” aqui) e fazia muito, mas muito tempo, que uma banda não chacoalhava o cenário pop deixando todo mundo na expectativa. Se diz algo, a primeira audição de “We Used To Wait” causou arrepios. Fodona, massssss… aguarde.
julho 25, 2010 Encha o copo
Flashrock, Scream On The Radio e Nevilton
O Bruno, de Londrina, foi o sorteado na promoção Converse / Scream & Yell, e vai ganhar um Converse customizado pelo pessoal do Bicicleta Sem Freio. Já os relatos do Flashrock em Belo Horizonte confirmam sucesso de público (ficou gente de fora inclusive), que foi conferir as apresentações de Black Drawing Chalks, Macaco Bong, Chuck Hypolytho, Dead Lover’s Twisted Heart, Fusile, Proa e Hell’s Kitchen Project. O Conversation conta mais sobre o evento aqui.
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Gravamos ontem a segunda edição do Scream & Yell On The Radio, na Rádio Levis, que vai ao ar na próxima sexta-feira, 15h. O primeiro programa deve entrar para download hoje, máximo amanhã. Já conseguiu passar lá para sacar os novos programas especiais? http://www.radiolevis.com.br/
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Um dos fortes concorrentes ao posto de disco nacional de 2010 caiu no twitter ontem. Viu? Aqui. Eu tenho uns dois discos na manga, mas esse dai deve balançar o cenário…
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Quer ter uma pequena idéia de como andam sendo as apresentações ensandecidas do Nevilton? Os sócios do Urbanaque colocaram no ar o bootleg “Festa Urbanaque Apresenta Nevilton na Funhouse” com o show que o trio fez na casa da Rua Bela Cintra no dia 03/07. Baixe aqui.
julho 20, 2010 Encha o copo
Dias cinzas
Não sei o motivo, mas dias cinzas me lembram poesia. Não escrevo uma poesia já faz uns… seis anos. Mesmo assim, uma amiga me mandou um e-mail na sexta-feira:
– O site está lindo e sempre muito interessante. Ai lembrei-me de uma coisa: a muuuuuito tempo você tinha postado uns poemas seus lá e hoje tentei relê-los, sem sucesso. Inclusive estava procurando um em especial, lembro somente de um trecho e de certa forma me sinto envergonhada por não me lembrar do título. Era algo sobre a solidão freqüentar tanto a casa que já estava pegando cerveja na geladeira.
Fui olhar os poemas (eles estão aqui) e deu tanta saudade de escrever. Nisso colocamos na minha conta o fato de eu já estar bastante tenso com a mudança de apartamento (tenso leia-se: gastrite), não ter tido o melhor dos fins de semana dos últimos tempos, e ainda ter assistido a cinebiografia do John Keats, “Bright Star”. Tuitei assim que sai da sessão:
“Bright Star: um senhor chorava de soluçar ao meu lado numa cena mais bonita que o filme”.
E conclui:
“É uma pena não poder morrer tão facilmente hoje em dia. Nos resta… chorar.”
Uma amiga, espertamente, comentou:
“Saiu tuberculoso de Bright Star? =) // A ed. Hedra tem um pocket bilingue do “Ode sobre a Melancolia” do Keats. Fino”.
Não sei se sai tuberculoso do filme, mas vou comprar o livro (apesar de preferir muito mais os franceses aos ingleses) e ver se rabisco algum poema. Um dos motivos de não escrever tanto tempo é estar feliz (e a felicidade é brega em 99% dos casos). Porém, ando triste, os dias estão cinzas e não estou conseguindo dar conta do mundo. Se você acompanha esse blog há algum tempo sabe que não existe motivo de preocupação. Afinal é melhor morrer de vodka do que de tristeza, certo.
julho 11, 2010 Encha o copo
Opinião do Consumidor: Baltijos Dark Red
A Lituânia é uma das três Repúblicas Bálticas (a saber, as outras duas são a Letônia e a Estônia) cuja história destaca invasões russas e prussianas, união com a Polônia, ocupação nazista, outra invasão russa após a segunda guerra mundial até se conseguir se firmar independente em 1990. Atualmente soma aproximadamente 4 milhões de habitantes e é desse país pouco conhecido pelos brasileiros que vem a Baltijos Dark Red, uma Dunkel avermelhada extremamente maltada e interessante.
A Baltijos é a mais antiga da família de cervejas Švyturys, uma cervejaria que abriu as portas em 1784 (a mais antiga da Lituânia) e que chega ao Brasil com site especial em português (veja aqui) e mais seis rótulos. O surgimento da cervejaria (número 1 de seu país) é bastante particular: um comerciante deixou de exportar cerveja alemã para a cidade e, na falta, os moradores decidiram fazer sua própria cerveja, nascendo assim a Švyturys em Klaipeda (na costa Lituana, Mar Báltico).
A Baltijos é uma boa pedida para quem gosta de cervejas adocicadas. O caramelo do malte se sobrepõe ao conjunto e se destaca, marcando não só o aroma, mas também o sabor, sem chegar a enjoar (na primeira garrafa). Há notas florais no paladar, mas o conjunto fica no meio do caminho entre uma Pale Ale (mais forte e encorpada) e uma Dunkel tradicional (mais leve e não tão adocicada). Interessante para variar o cardápio, mas não para ser consumida com regularidade.
Teste de Qualidade: Baltijos Dark Red
– Produto: Cerveja Munich Dunkel
– Nacionalidade: Lituânia
– Graduação alcoólica: 5,8%
– Nota: 2,5/5
Leia também:
– Tour Europa 2010: 68 cervejas em 30 dias (aqui)
– Schmitt Barley Wine, Tucher, Edelweiss e outras (aqui)
julho 10, 2010 Encha o copo
Você conhece Roma? E a Roma de Fellini?

Na primeira cena, a morte (uma garota segurando uma foice) caminha em uma estrada devastada. Close na placa: Roma, 340 quilômetros. A declaração de amor do cineasta Federico Fellini à cidade eterna é simplesmente devastadora e emocionante. O cineasta caçoa da cidade que o abrigou ao mesmo tempo em que faz belíssimas declarações de amor. “Devemos ser leais a nossa natureza”. A frase justificativa é do próprio Fellini no meio do filme, após ser pressionado por alguns estudantes que não querem a Roma de todos os filmes: “simpática, confusa e maternal”. Eles querem ver nas telas os problemas dos trabalhadores, da educação.

Um produtor, no entanto, se preocupa: “Este filme será exibido no estrangeiro. O que vão pensar da nossa querida Roma? Que Roma é essa cheia de vadios, drogados, hippies nojentos, travestis e estudantes que não querem estudar? As pessoas são más”, diz o senhor grisalho com olhos de quem já viu dias melhores na cidade eterna. A saída de Fellini é voltar ao passado, direto para um velho teatro pré-guerra, em que artistas desafiam o público em números de comédia, música e dança.

No entanto, o alarme soa e todos são levados para um abrigo antiaéreo. Bombas caem sobra cidade do Papa enquanto geringonças perfuram o subterrâneo tentando expandir as linhas de metrô da cidade. “A cada 100 metros encontramos uma obra histórica”, diz em tom de pesar o dono da companhia. “Chamamos os arqueólogos e as obras param por quase um ano. Sabe desde quando existem planos de metrô em Roma? 1880. Sempre paramos na burocracia e nas obras históricas”, diz o senhor.

Fellini, no entanto, não desiste de ser leal a Roma que ele vê. Ele destrói a cidade, e a acaricia. Dezenas de pessoas almoçam no meio da rua, ao lado dos trilhos dos bondes. Uma criança grita palavrões. O pai ri. A câmera então leva o espectador para um pedágio de carros, e uma voz em off diz: “Que impressão a Roma dos dias de hoje pode dar aos turistas? Vamos entrar pela cidade de carro pela auto-estrada”. O cenário que se vê é de caos completo. Prostitutas e travestis acenam dos acostamentos, animais invadem a estrada, acidentes param o trânsito, buracos aparecem por todos os lados, a chuva alaga as ruas e o congestionamento é assustador parando no… Coliseu. Isso é Roma. Ao menos é a Roma de Fellini. Quer mais lealdade do que expor a cidade que você ama com todos os defeitos e qualidades de forma tão… visceral?

Porém, o diretor não para por ai. Ele desanca o papado em um sensacional e corrosivo desfile de moda eclesiástica. Há muito mais. A câmera passeia pelo bairro do Trastevere e flagra um escritor norte-americano que vive em Roma. Assim que vê a câmera, ele começa o monólogo arrasador: “Você quer saber por que vivo em Roma? Eu poderia dizer que vivo em Roma porque é uma cidade central, mas na verdade Roma é a cidade das ilusões. É uma cidade, antes de tudo, da Igreja, do governo e do cinema. Todos fabricantes de ilusões. Eu também fabrico ilusões, assim como você. E quer lugar melhor do que esta cidade, que já morreu tantas vezes, e ressuscitou outras tantas, para ver o verdadeiro final da humanidade através da superpopulação e da poluição? Me parece o local perfeito para ver se acabamos de vez ou não”.

A cena termina com um brinde ao final da humanidade. E de Roma. Os restos da cidade, que também podem ser chamados de fontes, são iluminados em um passeio de moto na madrugada que é pura poesia cinematográfica. Simplesmente sensacional. Sensacional. Sensacional.
julho 7, 2010 Encha o copo
Relembrando Viena em um dia de cama

Terça-feira, dia de folga. Nos planos, olhar mais alguns apartamentos e escrever alguns textos, mas uma intoxicação alimentar me deixou de cama o dia todo. Na impossibilidade de fazer qualquer coisa que exigisse movimentos, joguei o corpo no colchão e fui rever “Antes do Amanhecer”, para observar Viena novamente. Achei que a Zollamtssteg Bridge não era a ponte que aparece no filme, mas era. E o casal Jesse e Celine vai em um pub chamado Arena Café que tem que ter alguma relação com o Arena Viena do post anterior, pois o clima é o mesmo. No mais, o filme se passa em uma área que não visitamos, o Prater, o parque com a famosa Wiener Riesenrad, uma das rodas-gigantes mais altas e antigas do mundo.
Aproveitando a revisão, é impressionante como “Antes do Amanhecer” não envelhece. Lançado em 1995, o filme de Richard Linklater é uma ode à inocência cuja seqüência (“Antes do Por-do-Sol“, 2004) foi um belíssimo contraponto. Os dois filmes são extremamente textuais. Conversa sobre conversa sobre conversa. E são nesses diálogos repletos de significados que reside a beleza dos dois filmes, o primeiro focando na inocência dos personagens, e o segundo pegando aquela fase da vida em que já quebramos a cara um número razoável de vezes, e por isso nos tornamos um tanto cínicos em relação ao mundo, no geral, e ao amor, em particular.
Ps. Quem for para Viena e quiser procurar as locações do “Antes do Amanhecer” pode consultar estes dois textos bacanas aqui e aqui
Ps2. Meu texto de seis anos atrás sobre “Antes do Por-do-Sol” aqui
junho 30, 2010 Encha o copo
Coluna: Procura-se técnico de som

Da série textos engavetados
Segunda-feira, 21h. O Arena, em Viena, na Áustria, recebe em seu palco uma das grandes bandas dos últimos anos, o Black Rebel Motorcycle Club (o Pavement iria tocar ali na mesma semana). O local – totalmente pichado – é uma velha fábrica transformada em casa de shows, e lembra um squat (casas abandonadas tomadas por punks), mas foi “remodelado” para receber shows. São vários bares em diversos ambientes, algumas barraquinhas de comida e até um furgão que vende chocolate quente e café. O palco é ao ar livre, tendo as sobras da fábrica de um lado (devidamente adaptadas às normas de segurança, com guarda-corpo de metal para o público que quer ver o show de algum dos dois andares da velha construção) e o muro do outro – com uma passarela lateral que também tem um guarda-corpo de metal, e que recebe muita gente não disposta a encarar a pista, um gramado em desnível que leva ao palco. As caixas de retorno parecem ter vivido dias melhores. O mesmo pode ser dito das caixas laterais, que vão entregar o som para o público (aproximadamente 4 mil pessoas), mas na hora que o show começa ouve-se tudo com perfeição. Baixo, guitarra, piano e bateria podem ser percebidos em suas nuances, e a qualidade do espetáculo é surpreendente. Corte para São Paulo, uma semana depois. A Virada Cultural agita a paulicéia, mas algo está errado. Seja no Palco dos Indies, seja no Palco da cantora CéU, o som é ruim, e prejudica as apresentações, que perdem muito de sua qualidade por algum motivo entre a falta de investimento em estrutura e/ou capacidade para comandar os botões de uma mesa de som. Isso não é novidade no Brasil. Meses atrás, o Coldplay – uma banda do primeiro escalão da música pop mundial – fez um show em São Paulo que uma parte do público não conseguiu ouvir, o que é um desrespeito não só com quem assiste, mas também com quem está no palco, que não consegue passar suas idéias em detalhes porque equipamento ou técnica não colaboram. A impressão é de que, no Brasil, a música está relegada ao segundo plano. Contrata-se artistas, organiza-se shows, vende-se ingressos, mas o grande momento de todo esse negócio, a hora que o artista se encontra com o público, é esquecido. Produtores contam o dinheiro, fãs reclamam do descaso, e tudo fica por isso mesmo. Os punks de Viena, com seus cabelos azuis e dezenas de tatuagens, são muito mais organizados e capazes do que os produtores brasileiros. Talvez devêssemos pensar em um intercambio. Os ouvidos agradeceriam.

Fotos: My Space Arena Wien
junho 28, 2010 Encha o copo












