Festival Casarão, Porto Velho: Dia 4

A quarta e última noite do Festival Casarão tem sido idealizada pela produção, nos últimos anos, como a noite eclética do evento. Realizada na praça em frente ao Mercado Cultural, na área central da antiga Porto Velho, de forma gratuita, a escalação de oito atrações ia do punk ao heavy metal, do regional ao pop rock de diversas regiões do país e fez pogar do metaleiro tradicional de camisa preta e coturno ao beiradeiro das margens do Rio Madeira num interessante desenho de diversidade.
A novata Ilusion Death (do não tão novato e ótimo vocalista Mario Henrique, que nos anteriores havia se apresentado com outras bandas no Casarão) estreava ao vivo, e mostrou competência com um death metal seguro e bem trabalhado. O mesmo não pode ser dito d’Os Malcriados, uma mistura de punk e bagunça que honra o estilo (não deve ser tão diferente dos Sex Pistols em 1976) e parece divertir mais quem está no palco do que aqueles que estão na plateia. Um descompromisso corajoso, mas que funciona melhor em conceito do que ao vivo.

Com 12 anos de barulho nas costas, Os Coveiros mostraram influências de metal e hardcore destacando covers de Ratos de Porão e Sepultura. O carisma do vocalista Giovanni Marini (professor, mestre e geógrafo, que dá aulas na Universidade Federal de Rondonia e é admirado pelos alunos) é contagiante. Ali pelo meio, Giovanni levou no gogó a obrigatória “Candidato Caô Caô”, sucesso com Bezerra da Silva, mandando um foda-se para os políticos ao mesmo tempo em que agradecia do pessoal do metal e do skate até a turma da Faculdade de Arquitetura. Se houvessem mais professores assim…
O metal revivalista do Bedroyt mostrou virtuose e deve ter agradado aos fãs do estilo, mas foi um bom momento para buscar a interessante mistura de sal, limonada, gelo e cerveja, chamada carinhosamente de Cerveja Suja pelos locais. Quem fez a passagem do bastão do metal para o rock foram os mineiros da Transmissor, e não poderia ter sido melhor. Alternando canções de seus dois álbuns (com versões emocionais das belas “Bonina” e “Dessa Vez”, do álbum “Nacional”, de 2011), o quinteto fez uma apresentação memorável, que conquistou de tal forma o público que uma fila imensa se fez na beira do palco para adquirir os discos dos mineiros. O grande show do festival.

O pop esquizofrênico da Tangerines and Elephants mostra que Curitiba continua tendo uma das cenas mais prolificas e criativas do país. Com uma sonoridade interessante, que num primeiro momento lembra o trabalho do Ween, o trio teve problemas de som, o que vitimou a espontaneidade, mas serviu para apresentar o grupo aos rondonienses naquele que era o primeiro show da Tangerines and Elephants fora de Curitiba. O som do trio ganha personalidade no vocal esganiçado (e retrabalhado com pedais) e na guitarra freak de Argos, e pode conquistar de indies de São Paulo até Londres e Nova York.
Forte concorrente a produto de exportação de Porto Velho, o Beradalia mostrou um som interessante que une influências regionais com Nação Zumbi, O Rappa e Planet Hemp. Foi o nome que mais empolgou a praça, e o hit “Arrudeia” fez todo mundo pular colocando no bolso a roda de pogo dos metaleiros. Fechando o evento, às 3 da manhã, Wado sofreu com o adiantado da hora, mas cumpriu o roteiro com capricho abrindo com “Tarja Preta” e encerrando com um trio de funks cariocas (“Reforma Agraria do Ar”, “11 de Setembro” e “Teta”) que fez os poucos presentes irem até o chão. Ausente do set list, “Melhor” surgiu improvisada no bis, e colocou a tampa na edição 2012 do Casarão.

Após quatro dias de evento e 21 shows, o saldo do Festival Casarão é bastante positivo. O formato, que une gente do mainstream a muitos nomes novatos, ajuda a apresentar estes novos grupos para um público distante das novidades, mostrando que, apesar da programação das rádios insistirem em provar o contrário, há uma boa cena independente sobrevivendo a trancos e barrancos no Brasil. Se por um lado, os grandes shows da Transmissor e do Cachorro Grande foram os os pontos altos do evento, boa parte do público irá reverberar o show catártico (e de arranjos duvidosos) da Pouca Vogal, mas o ponto a ser levado em conta é que esse mesmo público foi exposto aos bons shows de Os Descordantes, Sub Pop e Versalle numa das melhores noites do festival.
Há, claro, coisas que podem ser melhoradas no festival, como, por exemplo, a falta de uma identidade visual que unisse os três locais de shows (Cantina do Porto, Move Light e Praça do Mercado Cultural). É bem provável que muitos presentes não soubessem que estavam em uma noite do Festival Casarão devido à falta de faixas (nos três locais) que apresentassem o evento ao público neófito. Com 13 anos de trajetória, o Casarão precisa demonstrar o orgulho que tem de sua própria história, e fixar o nome na mente dos rondonienses, porque um festival deve ser maior que esta ou aquela atração, e 13 anos consecutivos (apoiando a boa música) devem ser valorizados. Que venha 2013.

Fotos por Marcelo Costa
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– Cobertura completa do Festival Casarão 2012, por Mac (aqui)
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O Scream & Yell viajou para Porto Velho á convite da produção do Festival Casarão. Queria agradecer ao carinho e atenção da equipe do festival, especialmente a Dandara, Maria Luísa, Duana, Tainá, Douglas e Vinicius, e a compania prestigiosa do amigo Marcos Bragatto, que cobriu o evento (e me acompanhou nas cervejas e nas correrias – literalmente) para o Rock em Geral.
setembro 9, 2012 Encha o copo
Festival Casarão, Porto Velho: Dia 3

Pra começo de conversa: o calor é uma bobagem. No terceiro dia do Festival Casarão, em Porto Velho, aproveitei o dia para conhecer a Public Hals, uma cervejaria local que fabrica seu próprio chopp (razoável) e continuar bebendo a tarde inteira. Vantagem: a cerveja tradicional brasileira, leve e refrescante, evapora com rapidez (do copo e do corpo) e a gente segue noite adentro. Se no dia anterior, o rock do período paleolítico era a tônica, na sexta da independência foi a vez de boas influências de Los Hermanos serem captadas no ar.
Os locais do Jam deram o start da noite com um rock de riffs ásperos e batida funkeada que conectam o quarteto com o barulho dos anos 90. Nada de novo, mas um ponto de partida interessante se a banda souber trabalhar as referências. Na sequencia, e apesar do nome, o Sub Pop (boa surpresa da cidade de Vilhena) não deixa aparente influências de nenhuma banda do selo de Seattle, mas sim de Los Hermanos, seja no vocal de Derek Ito (próximo ao tom de Amarante), seja nos bons pop sambas do quinteto, que na maioria dos arranjos é conduzido pelo bom sax de Gustavo Closs. Pra ficar de olho.

Do Estado vizinho, Acre, surgiram Os Descordantes, um grupo com potencial para levantar a bandeira e seguir a trilha aberta pelo Los Porongas. Novamente uma vibe Los Hermanos pairou no ar, mas a força dos refrãos das canções próprias (como o ótimo hit regional “Enquanto Puder”) e cover interessantes (de uma exagerada “As Rosas Não Falam” até uma fidelíssima “Tú És o MDC da Minha Vida”) mostraram uma banda forte e segura de si. Grande show. Prejudicada pelo avançado da hora, a Versalle teve que fazer um show enxuto, de apenas cinco músicas, mas aproveitou cada segundo em uma apresentação empolgante.
A alta madrugada seguia firme quando Duca Leindecker e Humberto Gessinger (de bata e chimarrão) subiram ao palco para apresentarem o projeto Pouca Vogal, que une canções do Cidadão Quem! (de Duca), dos Engenheiros do Hawaii (de Humberto) e algumas parcerias registradas pela dupla em 2008 e 2009, todas canções cantadas (e gritadas e choradas e desafinadas) em coro por uma plateia devota e absolutamente ensandecida. Era a terceira vez de Humberto Gessinger em Porto Velho, e impressiona como ele conseguiu criar uma nova persona exatamente igual a anterior (e tocando praticamente as mesmas canções).

O apreço do engenheiro-mor por arranjos duvidosos parece ter chegado ao ápice com o Pouca Vogal, e aqui e ali podem ser flagrados vários momentos em que Humberto e Duca piscam o para o sertanejo universitário, mas nem isso, nem os vocoders, nem a gritaria cantada encobrindo a voz de Humberto (que descansa a garganta enquanto o público se esgoela) conseguem derrubar um repertório de hits que também pesca pérolas como “Pose”, do álbum “Gessinger, Licks e Maltz” (1992) e “Banco” (boa faixa do fraco “Minuano”, de 1997, cuja gancho da letra – “Deve haver alguma coisa que ainda te emocione” – trouxe de coda “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Stones.
Os hits (dos Engenheiros), claro, estiveram quase todos presentes. De “Piano Bar” a “Pra Ser Sincero”, de “Toda Forma de Poder” a “Terra de Gigantes”, de “Somos Quem Podemos Ser” a “Refrão de Bolero”, de “Era um Garoto” a “Infinita Highway”, e mesmo com a dupla tentando desarranjar as canções, é quase certo que ao menos 1200 rondonienses acordaram completamente roucos e/ou sem voz neste sábado, e vão guardar essa noite do Casarão com carinho na memória. O festival segue neste sábado com shows de Wado, Transmissor e mais seis bandas ao ar livre (e gratuito) no Mercado Cultural.

Fotos por Marcelo Costa (exceto foto 3, por Douglas Diógenes)
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setembro 8, 2012 Encha o copo
Festival Casarão, Porto Velho: Dia 2

Apesar de a Lícia confirmar (via comentários) a neve até o final do festival, o segundo dia em Porto Velho foi marcado novamente por um calor desértico, mas nada tão grave assim: dois dias na cidade e a gente começa a se acostumar com o sol a pino e o pouco vento. E o calor até que foi camarada com os forasteiros na noitada, graças ao ar-condicionado e às cervejas geladas. No som, uma pequena ode ao rock do período paleolítico (para o bem e para o mal).
Os Últimos foram os primeiros (piada besta, mas imperdível). De Ariquemes, uma cidade a 200 quilômetros de Porto Velho, o trio abriu o Festival Casarão com um bom show, que foi prejudicado pelo som (normal em começo do festival): só foi possível entender o que o vocalista Keverton estava cantando na última música, e por mais que ele siga a escola “vocal chorado” dos Los Hermanos, o trio tem muito potencial (com destaque para a boa pegada de Laura na bateria e o baixo seguro de Rogério). Uma banda que vale acompanhar.

Na sequencia, a local Theoria das Cordas subiu ao palco com um hippie hard rock do século passado (ou retrasado) que une vocal performático, solos metalizados de guitarra e letras messiânicas que analisam / questionam os problemas da sociedade. Também na vibe retrô, o Cassino Supernova, de Brasília, se saiu melhor com uma apresentação vigorosa que honra o lema “It’s Only Rock ‘n Roll (But I Like It)”. Saíram merecidamente ovacionados em um dos grandes shows da noite.
De Boa Vista, em Roraima, veio o Veludo Branco, um trio que honra o trinômio “mulher, álcool e rock” e tem estofo para conquistar a meia dúzia de fãs do Dr. Sin, embora corra o risco de abrir falência se tiver que pagar os royalties de todos os riffs “emprestados”. A quinta atração da noite foi a cantora Kali Tourinho acompanhada pelos Kalhordas (a Theoria das Cordas sem o guitarrista), e nada como uma mulher para colocar ordem na casa: o som que mescla MPB, pop e bossa divergiu (felizmente) do coro rock and roll numa boa promessa da cena local.

Fechando a primeira noite oficial do Festival Casarão 2012, o Cachorro Grande (em sua terceira visita a Porto Velho) fez um show potente e experiente, com os hits muito bem dispostos em um set list que visitou todas as fases do grupo. Abriram com as pedradas “Você Não sabe o Que Perdeu” e “Hey Amigo!”, cantadas em coro por uma casa cheia e entregue. “Que Loucura!”, outra da primeira fase dos gaúchos, surgiu envolvente. Impressiona o pique de Beto Bruno, responsável no palco por manter todo mundo ligado e no clima.
Ali pelo meio, com uma pegada mais psicodélica, duas novas surgiram para representar o sexto álbum, “Baixo Augusta” , enquanto o quinteto preparava o voo para o trecho final, que trouxe “Sinceramente” (que a plateia cantou e gritou quase inteira) e os hits do primeiro álbum, de 2001, “Lunático” e “Sexperienced”. No bis, “Um Dia Perfeito” e uma cover potente de “My Generation” encerraram uma noite consagradora. O Festival Casarão segue nesta sexta com mais cinco bandas (Jam, Sub Pop, Os Descordantes, Versalle e Sinais Invertidos de Um Mágico) esquentando a noite para o Pouco Vogal. Será que neva?

Fotos por Marcelo Costa (exceto foto 3, por Douglas Diógenes)
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setembro 7, 2012 Encha o copo
Festival Casarão, Porto Velho: Dia 1

O pessoal não estava brincando: Porto Velho ferve. Após um voo rápido com escala em Belo Horizonte (ou nos Confins da capital mineira), e um bom voo da Trip (com “A Via Láctea”, de Buñuel, rodando no lap) desci na capital rondoniense com o bafo do calor na nuca. Dez horas da noite – e só esquentou mais durante a madrugada. Em certo momento, as meninas da assessoria disseram: “Não venta nessa cidade”. E fez-se o vento (risos). “Ou melhor, não neva”, completaram.
O Festival Casarão 2012 começa oficialmente hoje, mas a produção todo ano faz um esquenta sossegado num bar da cidade, uma festinha de lançamento para aquecer a galera. Os locais do Expresso Imperial abriram a noitada numa jam session instrumental com foco no jazz, mas que flerta com levadas regionais e rock. É a velha regra de “cada um vai prum lado e a gente se encontra no final”, quase uma viagem particular, mas que rende momentos interessantes.
Na sequencia, o casal Andrio e Liege, prestes a lançar o primeiro álbum cheio do Medialunas, mostrou um repertório que avançou muito desde quando Scream & Yell & Urbanaque fizeram uma festa com eles na Dissenso, em São Paulo, ano passado. Afiadíssima, a dupla (Andrio na guitarra, Liege na bateria) amplia o leque do barulho mostrando de influências grunge até pop punks assobiáveis e contagiantes. Já dá para esperar um dos grandes álbuns de estreia do ano.
O calor continua, e o Festival Casarão também. Nesta quinta-feira, véspera de feriado, oito bandas estão escaladas com Cachorro Grande de headliner. Não me lembro a última vez que vi os gaúchos ao vivo (talvez em 2001/2002, num show no Sesc Pompéia, em que o baixista arremessou seu instrumento para o alto, e acertou o supercílio do vocalista Beto Bruno, que “deu sangue” naquela noite cantando – e jorrando – até o final), mas a noitada promete. Espero neve.

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setembro 6, 2012 Encha o copo
Entrevista para o Portal Imprensa

Bati um papo por telefone com a Jéssica Oliveira, do Portal Imprensa, sobre o cenário de shows no Brasil: “O Brasil tem 30 anos como rota de shows. Não é novidade”. Leia abaixo:
A agenda dos brasileiros fanáticos por um bom show anda disputada. Todos os meses, com poucas exceções, o país recebe algum artista estrangeiro ou grande festival com vários de uma vez só. Mas isso está longe de ser uma realidade “nova”. “Somos rota de shows, sim. Mas desde os anos 80”, diz Marcelo Costa, curador do Sonora, realizado pelo Terra e editor do site Scream & Yell.
Costa passou em jornalismo e publicidade, mas se formou no segundo, porque o jornalismo só tinha “noturno” na Universidade de Taubaté (Unitau). Chegou em São Paulo e entrou no iG quando o portal montava sua primeira equipe. Na capital, passou pelo Notícias Populares, e mais de uma vez pelo UOL, iG e Terra, onde está hoje. Nessas mudanças, já trabalhou com cidades, esportes e celebridades, mas a música sempre esteve com ele.
O jornalista já colaborou com revistas como a Billboard e com a GQ, e atualmente colabora com a Rolling Stone, além de editar o Scream & Yell há 12 anos. Apesar da paixão pela música, alerta em tom de brincadeira. “Se ama musica, não escreva sobre”, diz. Segundo ele, a relação com discos e shows muda completamente. “Você não pode mais só gostar, mas tem que entender o que aquilo representa e perceber que já não é mais um ouvinte comum”, explica.
Costa entende de música como poucos. Em sua casa, parte da parede da sala é ocupada por nada mais nada menos que cerca de oito mil CDs, 800 vinis, fora os cassetes doados. Passa a maior parte de seu tempo ouvindo músicas e escrevendo sobre – sua forma de entender o mundo. À IMPRENSA, ele comenta os desafios e condições do atual mercado de shows no país, as mudanças e características do público, e a cobertura da imprensa.
IMPRENSA – É certo falar que o Brasil virou rota obrigatória de shows? Por quê?
Marcelo Costa – Somos, sim, rota de shows. Isso acontece desde os anos 80, não é novidade. Não é um ‘ah, descobriram o Brasil.’ A novidade é o país estar com uma economia segura, em um momento que o mundo passa por uma crise séria. A Alanis Morrisette, por exemplo, fará oito shows no Brasil, mas saindo do eixo Rio-São Paulo, acreditando que em outros lugares também terá um bom público. No começo dos anos 80 ainda tivemos alguns probleminhas de sumir equipamentos de artistas, e não era tanto pelo valor em dinheiro, mas mais por ser uma coisa muito pessoal. Hoje em dia não existe isso. São 30 anos de mercado. Estamos prontos.
IMPRENSA – Mas e os desafios, como os preços altos do nosso mercado?
Os preços ainda são ditados por quem está dentro dele [mercado], e é um problema que precisa ser acertado. O mercado está ativo, as pessoas estão querendo ver shows, mas não conseguimos ver tudo, o que por um lado é positivo. Antes você tinha um show e todo mundo tinha que ir nesse. Hoje, não. Você tem muitos shows. O que se desenha para o futuro é uma competição grande. A tendência é que os ingressos barateiem e todas as casas tenham um público bacana, mas não lotem. A opção de escolher, dispersa o público. Mas temos público para tudo. Precisamos chegar nesse consenso. Mas ainda somos conhecidos como um mercado que paga muito alto.
IMPRENSA – O publicou mudou muito? Por exemplo, hoje quem vai a um show de rock, vai em shows de outros estilos. E sobre quem vai ao show, mas assiste pela telinha de celulares ou câmeras porque quer registrar tudo o tempo todo?
Acredito que seja uma mudança comportamental, mais do que do próprio conceito de shows. Fomos caminhando em nível mundial para uma pluralidade, é normal que uma pessoa vá em shows diferentes. Talvez até a MTV tenha contribuído com isso também. E acho que as ferramentas foram mudando. Sou de uma geração anterior. O que me incomoda mais são as pessoas falando no meio do show. Antigamente quando você tinha um ou dois shows e todo mundo ia lá, eventualmente tinha músicas que o cara não conhecia e ele ficava conversando durante essas, mas quando sabia, prestava atenção e tal. Ainda carecemos de uma cultura de respeitar o artista, e respeitar o momento que se está vivendo. Além disso, outro ponto é dissociar o show de balada. Até acho muito legal, mas tem show e show. Tem show que funciona muito em balada. Tem show que não.
IMPRENSA – Se o país vai receber cada vez mais shows e se tem público para isso, por que muitos lugares que recebem esses eventos ainda pecam na estrutura?
A gente não soube trabalhar com isso de shows em locais abertos ainda, um exemplo que deu certo foi o Lollapalooza [Jockey Club, abril-2012], mas foi estrutura de fora, um modelo de fora. No Anhembi, você muitas vezes não ouve o show. E o público acaba aceitando. Isso é um problema sério. O contratante, geralmente, é quem aprova o lugar e quer saber se o público vai ouvir tudo. Alguns artistas realmente se preocupam com isso, outros não.
IMPRENSA – Por que o público aceita pagar caro nessa situação? O que podem fazer?
Uma das formas que o consumidor tem de pressionar a mudar isso, é não ir aos shows. Mas isso é difícil, porque se você ama o artista, é a chance que tem de vê-lo. Aí acaba aceitando e começa a torcer muito para dar tudo certo. Também tem os meios para se cobrar posteriormente, como no show do Radiohead que teve vários problemas e muita gente foi ao Procon reclamar. Infelizmente, empresários só sentem quando dói no bolso. Mas não é só em relação a estrutura do show em si. Falta um pouco também da prefeitura se preocupar com o público. Não dá para fazer um evento como o Lollapalooza e fechar as catracas do metrô como fizeram. Por exemplo, no Hyde park, em Londres, quando acaba o show, as pessoas vão até o metrô e conseguem chegar em casa. A prefeitura local se preocupa em garantir a segurança do seu pessoal. Aqui a gente não tem essa preocupação. Falta no Brasil um estudo de estrutura. Por exemplo: tenho isso aqui, o show será para tantas mil pessoas, que precisam tanto de alimentação, transporte… Claro que não da para resolver tudo, em nenhum lugar do mundo. Como a gente vai melhorar tudo isso? Com mais shows. Entendendo como as coisas funcionam.
IMPRENSA – Com tantas bandas vindas de fora, como fica o mercado para nossos artistas? Em relação ao espaço e valorização do público.
Há mercado para todos. Claro que isso reflete no mercado independente. Mas o pessoal tem que aprender a mudar isso de alguma forma, não dá para ficar olhando tudo e reclamando. É até bom, porque acabam tomando contato com uma cultura de festivais, e percebem que são capazes de fazer a mesma coisa, além de ver que todos tem os mesmo problemas e desafios. O palco é o mesmo. Sobre o público, acho que ainda há um problema de não valorizar a cultura brasileira. Nos line-ups de festivais, por exemplo, muitos artistas brasileiros poderiam estar em horários melhores, e tinham todo para isso. O cara que vai comprar o ingresso vai ver o show, desde que você consiga arrumar o cardápio sem ser de uma forma agressiva, todo mundo vai curtir. Você não faz um festival para fãs de uma banda, mas para um público que vai receber talvez 20 bandas diferentes.
IMPRENSA – Como você avalia a cobertura da imprensa sobre o assunto? Falta mais profundidade? Diversidade?
Temos a Rolling Stone e a Billboard, que não são de grande tiragem (se comparadas com a Veja e /ou Playboy), mas cumprem seu papel muito bem. Mas ainda não temos um jornalismo cultural aprofundado ou cobertura aprofundada. Há o costume de replicar o que sai ‘na gringa’. Ao mesmo tempo, você tem grandes blogueiros que acompanham seus cenários e cobrem bem. Temos que ver que nossa cena do mercado independente, e não falo só de rock, mas de samba e outros, é muito melhor que a cena americana ou inglesa. Talvez esteja na hora da imprensa valorizar a cena nacional e começar a vender isso. E não só, muitas notícias sobre músicos são repercussão de bobagens. Cada um tem seu público, claro, mas às vezes o jornalista fica tentado com o clique, com a audiência, e esquece de fazer jornalismo. Mas de modo geral acho que a gente ainda tem uma boa imprensa, critica e independente. Estamos bem de crítica, mas precisa renovar um pouco até para não afastar a molecada. E o público precisa entender também que cada pessoa [jornalista] vai ter uma visão diferente. É um mal do leitor, sério e cultural até de achar que só porque está na no jornal ou na TV, virou verdade. Não é verdade, é uma pessoa comum que escreveu aquilo. Ela tem esse direito, de gostar ou não, e de falar se gostou ou não e argumentar sobre isso. O brasileiro não tem o costume de discutir.
setembro 5, 2012 Encha o copo
Enquete: Qual a melhor capa?



setembro 5, 2012 Encha o copo
Mixtape Scream & Yell #2 – Candy
01) Plato Divorak & Os Exciters – Eu Sou Um Ídolo Pop (2011)
02) The Sea and The Cake – Skyscraper (2012)
03) Os Pontos Negros – Senna (2012)
04) The Delgados – Accused of Stealing (2000)
05) Video Hits – Cozinha Oriental (2001)
06) Ash – Candy (2001)
07) Mauro Motoki – Grandes Esperanças (2011)
08) Big Star – September Gurls (1974)
09) Arnaldo Baptista – Corta Jaca (1977)
10) Ben Kweller – Sundress (2006)
11) Terminal Guadalupe – De Turim a Acapulco (2007)
12) The Afghan Whigs – Lovecrimes (2012)
13) Pedro Veríssimo – Eu Sempre Digo Adeus (2012)
14) Beck – Lost Cause (2002)
15) Jards Macalé – Para Ver as Meninas (1984)
16) Bjork – So Broken (1997)
17) Leo Jaime – A Lua e Eu (1986)
18) The XX – Tides (2012)
19) Thiago Pethit e Mallu Magalhães – Perto do Fim (2012)
20) Soulsavers & Mark Lanegan – No Expectations (2007)
21) Banda Vexame – Siga Seu Rumo (1991)
– Baixe a Mixtape #2 aqui e ouça as mixtapes anteriores (aqui)
setembro 3, 2012 Encha o copo
Três perguntas: Vinícius Lemos

Nesta quarta-feira, 05 de setembro, começa a décima-terceira edição do Festival Casarão, em Porto Velho, Rondônia. O chapa Tiago Agostini esteve lá em 2010 pelo Scream & Yell e agora é a minha vez de conhecer a cidade e o festival. Já estou me preparando mentalmente para o calor: “Porto Velho é uma cidade quente e isso dá o tom do festival”, avisa Vinicius Lemos, produtor do festival.
Já devo descer do avião dentro do show dos locais do Expresso Imperial (duas pessoas já me falaram para prestar atenção neles), que abre o festival e a noite para o Medialunas, do Andrio e da Liege. Depois, entre muitos nomes da cena local e alguns de fora (Dary Jr me falou bastante do Tangerines and Elephants), ainda tem Transmissor (que só vi rapidamente em Belo Horizonte), Wado, Cachorro Grande e Pouca Vogal, do mestre Humberto Gessinger.
Neste bate papo rápido, Vinicius Lemos adianta um pouco do que me espera em Porto Velho, fala sobre as bandas da região que se apresentam no festival e relembra alguns grandes shows que o Casarão já levou para a cidade em 13 anos de existência, mostrando que a construção do line-up se preocupa em sempre trazer algum nome forte para atrair o público, que, por tabela, acaba tendo acesso à cena local (um dos pontos positivos do festival). Fala Vinicius:
Essa será a minha primeira vez em Porto Velho e no Casarão. O que posso esperar da cidade e do festival?
Esperar algo quente. Porto Velho é uma cidade quente e isso dá o tom do festival. Muita coisa quente. Mas uma cidade em pleno desenvolvimento, muitas obras (quase todas inacabadas) e um caos. E a gente vivendo nesse caos querendo trazer a cultura. O festival representa tradição. Ser decano do Norte traz uma resposanbilidade de sempre inovar. Numa cidade de 500 mil pessoas muitas bandas nunca vieram, como o próprio Pouca Vogal e o Wado e esse é o tom do festival. Sem editais, grandes patrocinios e dependendo muito de bilheteria, o line up é enxuto e buscando coisas para o publico pop e indie, com o melhor que temos em cada temática no Brasil. E muitas bandas regionais.
O Festival surgiu no mesmo que o Scream & Yell, em 2000, e você deve ter muitas histórias! Quais foram os shows que você mais curtiu nesses anos todos dentro do Casarão? Aqueles que te dão orgulho de ter produzido!
História é o cerne do festival. O nome Casarão é um icone em Porto Velho, é o local mais antigo construido aqui e que infelizmente não fazemos mais lá desde 2009, por causa da Usina de Santo Antonio. E lá eram as melhores histórias. Sobre os shows acabamos que na hora de apresentar o festival temos o curriculo grande, pela primeira vez para Porto Velho trouxemos Matanza, Cachorro Grande, Ratos, Pato Fu, Dead Fish, Moveis, Autoramas etc e ainda já trouxemos Pitty. E isso que dá o grande nome. Mas o orgulho pessoal é como o festival coloca Porto Velho no mapa com bandas conceitualmente ótimas, tenho orgulho de ter trazido Ludov em 2005, Do Amor em 2008 (primeiro festival a levar a banda), Comunidade em 2010, Emicida em 2011 e Wado em 2012. Aqueles que o publico as vezes não entende, mas é o meu maior orgulho.
E pra 2012? Quem você quer muito ver e quais nomes da cena local que eu não posso perder de maneira alguma?
A Versalle é a nossa banda mais legal, mais pronta, indie rock dos melhores. E vai ter o teste de tocar antes de um headliner. Expresso Imperial é uma ótima instrumental e acho que num clima descontraido com o Medialunas vai ser bem legal. Tem a ótima Sub Pop de Vilhena, interior do Estado, surpreendente. A nova Kali e os Kalhordas – que seria a renovação da cena e pela primeira vez um destaque para uma cantora local. Sobre eu querer ver, sempre tento responder todo o festival, desde a banda de fora que veio de Roraima ou Acre ou aquelas que vem de longe. Acho que o festival nos traz emoções as vezes surpreendentes de shows que esperamos pouco. Mas a ansiedade é por Medialunas e Wado.
setembro 3, 2012 Encha o copo
Assista: Episódio #4 do Music Trends
Clique na imagem para ver a imagem em alta qualidade
Leia também: Os quatro episódios do Music Trends (aqui)
agosto 31, 2012 Encha o copo
Três cervejas: Patrícia, Basement e Wäls

A cervejaria belo-horizontina Wäls já é velha conhecida deste espaço. Sua linha belga (Dubbel, Trippel e, principalmente, a Quadruppel) está entre as melhores do País. Visitei a fábrica na Pampulha no exato dia em que eles preparavam a primeira brasagem desta Wäls Petroleum (até bebi uma prova feita com chocolate Lindt – assista aqui), uma poderosa Russian Imperial Stout de receita produzida pela cervejaria curitibana Dum. O pessoal da Wäls provou, aprovou, se apaixonou, e decidiu produzir em grande escala. Nascia uma das cervejas do ano!
Tudo na Wäls Petroleum é intenso. A cor honra o ouro negro. No aroma, notas fortes de chocolate amargo dominando com café, madeira, ameixas e malte torrado na retaguarda. O paladar (impressionantemente seco frente ao tom licoroso do conjunto) traz tudo isso mais álcool, uma cacetada de 12% muito bem inserida no conjunto, que também fica em segundo plano frente ao cacau belga que impera enquanto o lúpulo deixa uma marquinha de amargor. Uma excelência de cerveja, uma verdadeira experiência alcoólica.
No final, preste atenção nas marcas de chocolate que ficam borradas no copo, tal qual um Milk Shake de Chocolate (com 12% de álcool).

A uruguaia Patrícia também é bem conhecida dos brasileiros. Questão de seis ou sete anos, sua versão american lager, de rótulo vermelho, entrou em nosso mercado acompanhada da Nortenã (ambas da cervejaria FNC – Fabrica Nacionales de Cerveza), e conquistou um bom público nas terras de Pedro Alvarez Cabral. Surpresa positiva descobrir que, além dessa american lager, os uruguais ainda produzem Patrícia em versões Porter, Dunkel, Vienna Lager, Red Lager e Weisse. Ganhei essa última do amigo cervejólogo Leonardo Dias, que a trouxe de Montevideo.
Minha expectativa com a Patricia Weisse era de uma cerveja que mirava na Weihenstephaner e acertava a Bohemia Weiss, o que já estaria de bom tamanho. Porém, ótima surpresa, a versão de trigo da Patrícia é uma witbier levíssima que paga tributo á escola belga. O aroma é extremamente cítrico com notas intensas de lima e laranja. O paladar segue o caminho aberto e não decepciona. Lançada no final de 2011 no mercado uruguaio, a Patricia Weisse pode e deve conquistar os fãs da belga Hoegaarden. Ótima.

A Basement Cervejas Especiais é uma novíssima cervejaria de Videiras, em Santa Catarina, uma cidade de menos de 50 mil habitantes que fica a 450 quilômetros da capital Florianópolis, e que é famosa pelo vinho, com uma Festa da Uva que acontece na cidade desde 1942 cujo ponto alto Concurso Estadual de Vinhos (além dos abatedouros de aves e suínos, que constituem 75% do movimento econômico do município). A Basement produz três tipos de cerveja: California Golden Ale, Tony Festival e a Port Royal Sweet Stout.
De rótulo bonito (praxe da casa), a Port Royal Sweet Stout traz notas fortes de malte tostado, que dá ao conjunto um forte aroma e sabor de café. Há um pouco de notas de chocolate amargo, de ameixa e notas excessivas de amadeirado além do álcool, muito presente (8,5%). No geral, a carbonatação é baixíssima, a espuma quase inexistente, e o liquido ralo numa cerveja que parece querer seguir a tradição vinícola da cidade, e decepciona. O final é amargo, com um rastro de café e álcool que marcam o céu da boca e seguem até o final da garganta.
A Wäls Petroleum já pode ser encontrada com facilidade em bons empórios (e no Empório Alto de Pinheiros, em São Paulo, e no Stad Jever, em Belo Horizonte, também em torneira) com preços entre R$ 14 e R$ 16 a garrafa de 330 ml (com validade extensa – essa da foto até maio de 2015). A Port Royal Sweet Stout, da Basement, também está circulando em empórios, entre R$ 16 e R$ 18. Já a Patrícia Weisse, por enquanto, só em Montevideo (ou se algum amigo camarada trazer de lá). Se você gosta de witbier, peça. Vale a pena.
Wäls Petroleum
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 12%
– Nota: 4,39/5
Patricia Weisse
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Uruguai
– Graduação alcoólica: 4,8%
– Nota: 3,02/5
Basement Port Royal Sweet Stout
– Produto: Sweet Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8,5%
– Nota: 2,34/5

Leia também:
– Uma manhã na cervejaria Wäls, por Marcelo Costa (aqui)
– Wäls Quadruppel, uma cerveja excepcional, por Mac (aqui)
– Ranking Pessoal -> Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
agosto 30, 2012 Encha o copo



