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Quebrado em Eindhoven

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Deixei Estocolmo de ônibus às 3h30 da manhã já com o sol alto e o céu azul em direção ao Stockholm Skavsta Airport (quase 100 quilômetros da capital sueca). Cheguei em Eindhoven às 8h30 com céu nublado e tempestade, tanta chuva que ficamos presos na aeronave por 50 minutos (nós e mais uns cinco aviões). Entre uma cidade e outra, todo aquele cansaço de voar com a Ryanair (mas o carinha que recebeu minha mala, que estava pesando quatro quilos a mais, e morreria 60 euros nisso, deixou passar na boa), stress imenso e intenso. Corpo quebrado.

O importante é que as 10 cervejas e os 12 vinis chegaram inteiros. E eu também (nada como cinco horas de sono em uma boa cama). Eindhoven deve ter alguma coisa com alienígenas. Vi dois prédios e uma pichação que citavam OVNIs. No ônibus para o centro, dezenas de pessoas partindo para o camping do Best Kept Secret. Peguei um hotel na pracinha central de Eindhoven, abri os trabalhos com uma cerveja local (a La Trappe Witte, da vizinha Tilburg) e depois joguei tudo para o alto com uma sensacional Tripel Karmeliet. Holanda, é bom estar de volta.

Ps. Preciso comprar galocha…

Leia mais: Diário de Viagem Europa 2013 (aqui)

junho 19, 2013   Encha o copo

Completamente apaixonado por Estocolmo

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Fazer mochilão é algo cansativo, ainda mais no modo que gosto de fazer, que é aquele de ficar no máximo quatro ou cinco dias numa cidade, e pular para outra na sequencia. É um fazer malas (pesadas), pegar avião/trem, achar o hostel, desfazer a mala, curtir a cidade e começar tudo de novo. Cansa pacas, mas se justifica completamente quando encontro uma cidade apaixonante. Dai eu penso que queria ficar um mês, um ano, uma vida, e planejo uma volta.

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Fiz essa escolha de viagens longas com estadias curtas porque tenho plena consciência de que não terei tempo útil para conhecer todas as cidades que quero conhecer, e se um dia a vida estabilizar, volto com mais tempo para aquelas que tomaram meu coração. A nova candidata ao posto de paixão é Estocolmo, e ela se junta a algumas paixões sem fim de viagens anteriores como Praga, Veneza, Santorini, Paris, New Orleans e Amsterdã.

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Meu plano inicial era ficar cinco dias em Estocolmo, mas alterei o roteiro após certo desencanto com Oslo, e susto com os preços escandinavos, mais a loucura de decidir em qual festival eu iria. Tanto o South Side, na Alemanha, quanto o Best Kept Secret, na Holanda, me credenciaram, e escolhi aquele que fosse mais em conta financeiramente no conjunto voo+hotel+saída pra Bélgica (última parada antes de voltar ao Brasil). Venceu o festival holandês, e Estocolmo perdeu três dias.

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Se eu soubesse que iria me apaixonar tanto pela cidade teria buscado uma solução alternativa, ou mesmo pago um pouco mais pelo conjunto “voo+hotel+saída pra Bélgica” para curtir outros dois dias aqui, mas nada de chorar sobre o uísque derramado. O que me restava era aproveitar as 48 horas que eu teria na capital da Suécia, e bati tanta perna pra lá e pra cá que já alivei o peso da mala na quantidade de Dorflex que ingeri nas últimas horas (risos).

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Estocolmo é linda. Lembra bastante Amsterdam, mas sem o turismo maconheiro, o que, para mim, é um ponto positivo (desculpe amigos fãs da erva). Tem uma desvantagem de ser uma cidade mais cara, e ter uma forte restrição ao consumo de álcool, mas ainda assim encanta. Localizada sobre 14 ilhas no centro-sul da costa leste da Suécia, é uma cidade daquelas de fazer a gente suspirar, principalmente no verão (no inverno, claro, as coisas são tensas por aqui).

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Passei boa parte do primeiro dia na ilha de Stadsholmen, onde fica Gamla Stan, a cidade velha, com ruazinhas e becos medievais que remetem a Praga e ao Barri Gotic de Barcelona. Datada do século XIII, Gamla Stan destaca uma arquitetura gótica de influência alemã e ostenta a Catedral de Estocolmo, o Castelo Real e o Musel Nobel, onde todos os anos são entregues os Prêmios Nobel. E também o restaurante Den Gyldene Freden, em atividade desde 1722!

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É uma área extremamente turística, claro, mas é possível encontrar ruas, bares e cafés para aproveitar um fim de tarde em paz (mesmo no verão). Não na Södermalm, a ruazinha principal, lotada de comércio para turistas, mas também restaurantes, sorveterias e creperias – além de uma loja de discos voltada para jazz e blues. Há algumas pracinhas encantadoras que são o paraíso num fim de tarde ensolarado de verão europeu.

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Também fui ao distrito de Södermalm atrás de alguns vinis na Pet Sounds (obrigado pela dica, André Takeda) e rodei bastante a área central, parando aqui para um sorvete, ali para uma cerveja, acolá para um hot dog – e até para um bife na churrascaria Jensen Bofhus, pertinho da estação central (que acompanhado de um pint da cerveja tcheca Staropramen saiu por pagáveis R$ 60 – a melhor refeição da viagem até agora).

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Não sou muito fã daqueles ônibus Hop on Hop Off, mas quando o tempo é curto e a cidade é grande, eles até ajudam bastante. Havia usado um uma vez em Bruxelas (quebrou um galho nas quatro horas que eu tinha livre) e outro em Los Angeles (quem manda não dirigir), e acabei por encarar um em Estocolmo, mas não a versão ônibus, e sim a versão barco, que passeia pela cidade parando em seis das quatorze ilhas. Lembrou Veneza. E foi bem legal.

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Um dos grandes momentos do dia foi conhecer o museu mais visitado da Escandinávia, o Vasamuseet, que nada mais é do que um museu marítimo. O destaque é o enorme navio de guerra Vasa, que naufragou na baia de Estocolmo no dia de sua viagem inaugural em… 1628. O Vasa permaneceu no fundo do mar por 333 anos, até ser retirado intacto em 1961. O projeto de recuperação demorou mais 29 anos, e, em 1990, o museu foi inaugurado. 

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Impressiona absurdamente o quanto o navio permaneceu inteiro debaixo d’agua, e sua grandiosidade enche os olhos. O museu, porém, não trata apenas do navio, mas de tudo que é ligado a ele. Desta forma, réplicas dos desenhos de proa, utensílios e mesmo esqueletos da tripulação estão exibidos para o público, que praticamente entra em uma capsula do tempo e retorna até os primeiros anos de 1600. Um dos museus mais impressionantes que já visitei.

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Despeço-me de Estocolmo com a sensação de quero voltar para cá o mais rápido possível, com mais tempo, com mais calma, com mais planejamento. Em agosto rola o Way Out West Festival, em Gotemburgo (com Neil Youg & Crazy Horse encabeçando o line-up), e seria uma ótima pedida ir ao festival e esticar para cá, mas melhor não pensar em viagens agora – e sim nas contas a pagar. Amanhã acordo em Eindhoven, na Holanda, e o trecho final da viagem começa, mas deixo um pedaço do meu coração em Estocolmo.

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Estocolmo, já estou com saudades.

Ps. Sim, as mulheres suecas são lindas… praticamente todas.

junho 18, 2013   Encha o copo

No trem de Oslo para Estocolmo

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Noite complicada de sono em Oslo. O sol da meia-noite, bastante comum por estes lados nórdicos nessa época do ano, chegou um pouco atrasado e, ali pelas duas e pouco da manhã, começou a invadir o quarto pelas frestas da cortina. Acordei assustado várias vezes durante a “madrugada” ensolarada acreditando que já era 9h da manhã e eu tinha perdido o trem que me levaria para Estocolmo. Desisti do sono às 6h (o trem só saia às 7h30).

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Na estação, a ideia era trocar as coroas norueguesas (uma nota de 200 que equivale a, tipo, uns R$ 75) que ainda tenho por coroas suecas. Há uma máquina ali exatamente para isso e você pode trocar o dinheiro que tiver (sendo euro, coroa norueguesa ou sueca) por um dos três disponíveis. É sensacional. Cada vez mais, as máquinas parecem tomar o lugar das pessoas, mas, neste caso em particular, a máquina não estava funcionando.

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Raramente escolho lugares quando compro passagens de trens e avião (nunca quando tenho que pagar um valor a mais para isso), mas desta vez decidi garantir um lugar na janela para admirar a paisagem. A planta do trem no site mostrava que todos os lugares pares eram na janela, paguei uns 40 krones a mais por uma vaga e não é que chegando no local, os lugares pares são no corredor? Nunca mais reservo algo assim.

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Tudo bem que o vagão está vazio e arranjei uma janelinha com tomada para carregar o computador enquanto escrevo e observo a paisagem. A Noruega, lembrando uma definição semelhante de Lili sobre o Chile, é um país alto e magro, desta forma, como a viagem é vertical, devemos sair rapidamente de seu território e adentrar a Suécia. A paisagem de casinhas é bonita e me lembra o quanto gosto de viajar de trem.

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Houve um tempo em que meu pai foi tentar a sorte numa cidadezinha do interior paulista chamada Bernardino de Campo, e várias vezes fiz o trecho “São Paulo / Bernardino” de trem (algumas à noite). É lamentável que a malha ferroviária brasileira esteja às moscas, e que o Governo não invista no setor. Adoraria viajar de São Paulo para o Rio de Janeiro, ou, quem sabe, para o Nordeste, em um trem observando a paisagem pela janela.

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No vagão restaurante não encontrei nenhuma Julie Delpy, mas sim um grupo de mineiros (imagino pelo sotaque inconfundível) de terceira idade se embananando para comprar o café da manhã. Uma das senhoras estava radiante por ter pego uma barra de chocolate suíço por 25 kr enquanto a outra se perdia numa confusão de notas norueguesas, suecas e de euros na hora de pagar. A senhora do caixa, atenciosa, explicava as diferenças.

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Voltei a ler algumas páginas de “Como é Bela a Puta da Vida”, livro novo do português Miguel Esteves Cardoso, presente do amigo Bruno Capelas. O livro, compilação de crônicas do autor publicadas em jornal, é uma declaração de amor do jornalista à sua esposa, e narra, na primeira parte, a descoberta de seu câncer, e o tratamento. “Logo Maria João poderá tocar as flores sem que estas fiquem azuis”, descreve Miguel ao fim da quimioterapia da mulher.

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Além da escrita emocional do autor, o que me comove é a maneira leve com que ele (e principalmente ela, que o ensinou a levar a vida com calma) narra o tratamento e a expectativa de que o casal saísse vencedor deste combate cruel. No último texto que li, Miguel conta que começou a valorizar o “tempo perdido”, mesmo em frente a semáforos. “Se somarmos o tempo parado em faróis esperando o verde, quantos verões daria?”, questiona.

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Aproveitar o tempo, ele faz questão de frisar, não é ligar para amigos no meio de um congestionamento, mas sim aprender a não fazer nada e admirar um jardim. Olhar a pessoa amada, saborear um café, escutar uma canção sem se preocupar que existam mais não sei lá quantos discos novos disponíveis. A velocidade do tempo, turbinada pela necessidade de estar atualizado a respeito de tudo e todos, está atropelando a calma. Precisamos combater isso.

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Oslo foi uma surpresa. Esperava (acho que todo mundo espera) um país de loiros e loiras, ruivos e ruivas nórdicas, e, claro, eles existem, mas a população (ao menos na capital) é bem dividida entre negros, indianos, turcos, japoneses e tudo mais. A cidade parece conviver bem com isso, embora em Malmo, na ponta do país, a diáspora racial ainda seja forte e latente. Algumas loiras são encantadoramente lindas, mas as norueguesas morenas não ficam atrás.

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A paisagem da janela do trem é verde e exuberante, e as casas são simples. Meu vizinho de poltrona sai do trem em toda parada para dar duas ou três baforadas em seu cachimbo, o que transforma esse fundo do vagão em um enorme cinzeiro. Logo fugirei e retornarei ao vagão restaurante para provar a cerveja de 2.1% de álcool servida no local. Segundo o garçom no Mathallen, a lei sueca é ainda mais rígida em relação á bebida. Sem muita expectativa.

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As cidades passam pela janela. Arvika, Kil, Kristinehamn. Todas muito charmosas e sedutoras. A vida parece calma aqui, e penso se conseguiria domar minha ansiedade morando em lugares assim. Sinto vontade, mas não de viver aqui, claro. O verão é algo único, mas o inverno me destruiria facilmente. Não sei o que seria mais difícil: conviver com o frio e a neve ou comigo mesmo e meus pensamentos trancado numa casinha de uma vilinha qualquer sueca.

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A trilha sonora da viagem é “Vazio Tropical”, novo disco do amigo Wado, aqui produzido por Marcelo Camelo. Eu já gostava de “Cidade Grande” na versão de Cris Braun, e a versão de Wado valoriza a boa letra. “Rosa” é Wado em seu melhor: “Os olhos dela ensinam estrelas a brilhar, vai doer / Os braços dela ensinam ondas a quebrar, vai doer / Vai doer, mas depois vai passar”. A dor está intrinsicamente ligada ao amor. Vai doer, mas depois vai passar.

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Há algo de Chico Buarque em “Flores do Bem”, talvez seja o vocal de MoMo, que engrandece a ótima letra. “Minha mãe me queria grande, eu preferi comprar minhocas, eu decidi pescar uns peixes / Meu pai me queria homem, eu preferi regar as plantas, eu decidi colher as flores / Minha mãe me queria santo, eu descobri que amava os vícios, eu precisei andar com as bruxas / Meu pai me queria impávido, eu preferi correr das brigas, eu aceitei levar uns socos”.

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Ainda não tenho uma opinião formada sobre o álbum, o mais sútil de toda carreira de Wado, com uma sonoridade despida que remete aos discos solo da carreira solo de Marcelo Camelo – aqui com a vantagem das canções terem foco e proposito, e não serem apenas rascunhos como nos trabalhos do ex-Los Hermanos. Além de Wado ando ouvindo muito “Antes Que Tu Conte Outra”, disco forte do Apanhador Só que cresce absurdos a cada nova audição.

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Terei apenas um dia e meio em Estocolmo, e terei que aproveitar ao máximo o sol se pondo quase às 23h. Na quarta, durante a madrugada (provavelmente ensolarada) estarei a caminho de Eindhoven, na Holanda, onde montarei meu quarto general particular para acompanhar o Best Kept Secret Festival. Dali para Bruxelas, na segunda, e dois dias depois estarei de volta a São Paulo. O segundo semestre promete mudanças, e que elas venham para o bem.

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É só nisso que consigo pensar…

junho 17, 2013   2 Brindes

Norwegian Wood Festival 2013, Oslo

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A vantagem de ir a um festival pequeno em um país sem tradição em festivais é que, facilmente, você vê a banda que você mais ama no mundo colado na grade, sem ninguém, absolutamente ninguém, enchendo o saco. É você, seu ídolo e a música (se o som não atrapalhar). A desvantagem é que essa falta de interesse do público local não faz com que a banda que você ama se entregue, assim aquela apresentação que você esperava ser sensacional corre o risco de ser apenas boa.

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Foi mais isso que aconteceu com Manic Street Preachers e My Bloody Valentine no terceiro dia do minúsculo Norwegian Wood, em Oslo, festival que completa 21 anos de existência em 2013. Com uma estrutura preparada para atender cerca de 5 mil pessoas, o Norwegian Wood não recebeu nem um terço desse povo. A cidade, provavelmente, gira em torno do sol, um concorrente sério nesses dias raramente quentes da Noruega, e o festival é só mais um evento de verão a ocupar o calendário.

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E é um evento feito por e para noruegueses. Com exceção de uma ou outra barraca (duas de todo o festival até onde pudemos averiguar) que aceitam cartão internacional, da entrada na hora de comprar o ingresso até o balcão do bar, do merchandising, da barraquinha de hambúrguer de alce, todos só aceitam cartões noruegueses. “Às vezes nem cartão norueguês”, diz a atendente na entrada, correndo o risco de espantar estrangeiros que gostariam de adentrar ao festival que acontece na piscina pública do parque Vigeland.

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O preço do ingresso não colabora para o turista: são 750 krones, aproximadamente R$ 280 por dia. Se multiplicarmos pelos quatro dias do festival temos um montante de R$ 1120, o que aproxima o minúsculo Norwegian Wood Festival (que é feito com ajuda do Fundo de Cultura da Noruega) de mega-festivais brasileiros como o Lollapalooza, com a diferença que a renda per capita norueguesa é bem maior que a nossa, e transforme R$ 280 em uma pechincha para os padrões locais, e um atentado ao bolso do fã de música brasileiro.

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Ainda assim, surpreende ver bandas como Manic Street Preachers, My Bloody Valentine, Keane, Band of Horses, Rod Stewart e Nick Cave se apresentando para plateias tão diminutas, que não estão aqui para ver o show da vida delas, mas sim para curtir o astro rei, beber uma cervejinha, comer hambúrguer de alce e, claro, ouvir música (nessa ordem). É um alento para fanáticos brasileiros por festivais conseguir assistir a um show prestando atenção à música, e não a conversa ao lado ou com o cotovelo da pessoa que está logo à frente.

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Foi nesse cenário que o Manics enfrentou muitos problemas no som, a ponto de James Dean Bradfield ter que “cantar” o solo de “Motorcycle Emptiness”, já que o som de sua guitarra tinha ido pro brejo (a Gibson creme, aliás, foi parar nas mãos de um fã, na grade, ao fim da apresentação). Ainda assim é impossível dizer que um show com “Ocean Spray”, “Everything Must Go”, “A Design For Life”, “You Love Us”, “You Stole the Sun From My Heart”, “The Everlasting” em versão acústica e “If You Tolerate This Your Children Will Be Next” no encerramento, seja ruim. Foi legalzim, bonito, mas curto demais. Uma hora (contando os contratempos) e bye bye. Só atiçou a vontade de vê-los novamente, de preferência na Inglaterra.

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Já o My Bloody Valentine repetiu tin tin por tin tin o set list que vem tocando por ai. A banda é uma briguinha de menino e menina. O menino diz “eu vou tocar guitarra”. A menina diz “eu vou cantar”. O menino responde: “Pode cantar, mas eu vou tocar tão alto que ninguém vai te ouvir”. E a vida “psico-romântica” segue. É um showzinho meio indecente (desculpe a franqueza, dezena de amigos fãs), mas diverte principalmente porque é alto pra dedeu, e ver pessoas incomodadas com a altura do volume que sai das caixas me agrada.

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Ainda assim é tudo preguiçoso, desengonçado e até bobo demais. Velvet Underground, o pai deles, tinha um propósito. Kevin Shields só tem uma paredezinha de amplis, e os usa no limite, mas é muito pouco. Diverte, distrai e incomoda alguns ouvidos, mas não sustenta a alma. Semana que vem tem Swans ao vivo no Best Kept Secret, festival na Holanda. Dai a coisa muda de figura e fica séria. Hoje o barulho foi passatempo, não catarse. Mas não terá sido sempre assim?

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O saldo final é divergente. Os shows foram ok, mas o público não ajuda. Essa constatação somada ao valor dos ingressos e ao investimento para vir e sobreviver alguns dias em Oslo torna o Norwegian Wood um festival pouquíssimo atrativo, daqueles que a gente não indica para o amigo, porque sabe que o festival fica devendo. A não ser que a banda que você mais ame no mundo venha tocar aqui, e você queira pagar o preço para estar mais perto e a vontade com ela, Oslo merece sua visita. Caso contrário, escolha outro público. A coisa aqui é de norueguês para norueguês. Infelizmente. Uma pena.

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junho 16, 2013   Encha o copo

E no segundo dia, o sol saiu em Oslo

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Não há como: um dia de sol na vida é algo especial. Ainda mais destes lados nórdicos, em que a neve, a chuva e o frio são parceiros constantes em boa parte do ano. Apenas um dia nublado e com garoa, o sol saiu vitorioso em Christiania, antigo nome de Oslo, para alegria de turistas e, principalmente, dos noruegueses que tiraram os shorts e bermudas do armário e foram para a rua – boa parte das meninas optou pelo biquíni e partiu em direção a praça mais próxima.

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É muito difícil para um estrangeiro desligar-se do fator econômico na Noruega. Tudo aqui é caro demais para o custo de vida de qualquer outro país do mundo. Afinal estamos na terra em que uma latinha de coca-cola pode custar até R$ 10, uma boa cerveja pode sair por R$ 50, a passagem de ônibus é R$ 18 (valida por duas horas) e um prato em um restaurante não sai por menos de R$ 100 por pessoa. Assusta, mas não atrapalha o charme da cidade.

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A primeira sensação que tive é de que Oslo lembrava muito Budapeste. Claro, uma Budapeste de maior custo de vida, mas com algumas semelhanças. Talvez porque meu hotel seja no lado central da cidade em que drogas e prostituição estão à vista. Em Budapeste, as prostitutas trabalhavam no saguão do Ibis. Aqui não chega a acontecer isso, mas basta colocar a cabeça na rua pós 23h para ser apresentado a toda sorte de ofertas de sexo e drogas.

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Assim como Budapeste, em que os meus dois primeiros dias na cidade foram abençoados por uma chuva torrencial, e, após alguns dias em Praga, na volta o sol nos recebeu de braços abertos e a cidade exibiu seu sorriso mais charmoso, Oslo também fez o mesmo, permitindo um passeio de barco na baia da cidade e visitas a pontos turísticos como o Museu Kon-Tiki (já viu o filme?), o Museu de Barcos Vikings, o forte Akershus e a impressionante Opera House.

No primeiro dia achei a Opera House, projeto do escritório Snøhetta, um monstrengo meio sem sentido, mas basta passar uma tarde de pôr-do-sol caminhando sobre seu telhado que a admiração surge (apesar que ela deve ser deslumbrante nos dias de neve). Foram oito anos (2000 a 2008) de construção desta geleira escalável incrustrada no porto de Oslo, ao lado da estação central de trens. Acabou se tornando um dos meus lugares preferidos na cidade.

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Entre os pontos altos desta viagem está à visita a National Gallery, que destaca nestes dias uma exposição especial e imperdível comemorando 150 anos de Edward Munch (há um calendário com dezenas de comemorações da data). A mostra, dividida com o Museu Munch, exibe uma coleção emocional de obras do pintor norueguês, e gostei demais da primeira fase do artista, menos psicodélica que a segunda, mas tão melancólica quanto.

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Quando criaram a comunidade do Scream & Yell no Orkut, optaram pelo quadro “O Grito”, de Munch, como símbolo do grupo. Achei a escolha perfeita embora não goste tanto assim da obra (que após ser roubada do Museu Munch, foi recuperada bastante danificada e está presente no acervo da National Gallery). Entre os meus quadros preferidos da mostra estão “Morning“, o darkissimo “Night at St. Cloud“, “The Day After” (acima), “The Kiss” e “White Night“.

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Outro destaque de Oslo foi uma visita ao Mathallen, um pequeno e charmoso mercado (no estilo do Chelsea Market, em Nova York) que exibe desde variedades de queijos e chocolates assim como frutos do mar, lanches, padaria e tudo mais. É uma ótima maneira se fugir da Karl Johans Gate, a avenida principal tomada por turistas, e encontrar noruegueses curtindo sua própria cidade. E os preços são mais em conta (mas nem tanto) do que nas ruas principais.

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Descobri o Mathallen porque estava procurando um local para comprar cervejas norueguesas para trazer para o Brasil. O Ratebeer indicava, entre outros locais, o Akersberget, um empório que também tem um restaurante e um bar no mercado. Peguei duas cervejas às cegas (indicadas pela simpática atendente Nicolina) e uma Nøgne Ø, mas fiquei intrigado pelo fato de não existir no empório nenhuma cerveja acima de 4,7% de álcool.

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No restaurante, ao pedir uma Nøgne Ø 500, uma Imperial IPA de 10%, para levar pro hotel, o garçom nos explicou: cervejas acima de 4,7% só podem ser compradas em Liquid Stores controladas pelo governo. A taxação sobre bebidas alcoólicas (e cigarro) é altíssima, o que eleva o preço. É proibido beber em público (mesmo que seja na varanda da sua casa). Menores de 18 anos são proibidos de comprar bebida alcoólica, e entre 18 e 20, apenas cerveja e vinho. E você só pode comprar álcool no domingo e feriados em bares, pubs e restaurantes.

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Funciona? Mais ou menos. As pessoas bebem moderadamente nos parques, mas o reflexo de uma lei tão rígida é o aumento no consumo de drogas sintéticas. Oslo apresenta uma das maiores taxas de morte por overdose per capita da Europa, e a maior da Escandinávia. A cidade possui o título de “capital europeia da heroína”, e, segundo o jornal britânico The Guardian, 10 gramas de heroína custa o mesmo valor que um pacote com 20 cigarros (afinal, ao contrário de bebida e cigarros, as drogas entram no país sem imposto). Complicado.

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Outro grande momento da viagem foi visitar a Rakk & Ralls (Rock & Roll), loja espetacular de vinis e CDs usados e novos em Oslo que merece o título de Amoeba norueguesa. De compactos de época dos Beatles, Stones, Clash e Sex Pistols, a boxes e CDs raros novos, a loja (que oferta bons preços) pode falir economias claudicantes. A dica esperta do amigo Fernando Augusto Lopes rendeu algumas preciosidades para o acervo pessoal, e se um dia eu voltar a essa cidade, passar na Rakk & Ralls será obrigatório.

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Hoje é meu último dia em Oslo, e apesar de respirar aliviado (pero no mucho, já que vou passar dois dias em Estocolmo, outra cidade de economia não praticável para cidadãos comuns do resto do mundo), já começo a sentir um carinho pela cidade. De 06 a 10 de agosto acontece o Øya Festival (com Blur, Slayer, Kraftwerk, Rodriguez, Cat Power e mais), e se pudesse voltaria pra cá pra conferir esse festival, que deve ser mais intenso que o pequeno Norwegian Wood Festival, mas isso é assunto para o próximo post…

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junho 16, 2013   Encha o copo

Bora para a Holanda

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Passeio boa poarte da quinta-feira em Oslo comparando preços de hotéis, voos e translado para decidir em qual festival ir, e o pequeno Best Kept Secret, na Holanda, venceu o enorme South Side, na Alemanha (eu queria muito ver o novo show do QOTSA, mas fica pra próxima). Na mudança de roteiro, Estocolmo perdeu dois dias de viagem. Agora chego lá na segunda e já na quarta parto para Eindhoven, na Holanda, onde montarei o QG Scream & Yell para acompanhar o festival (trem para ir e voltar mais shuttle de ônibus do festival todos os dias).

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O último trecho da viagem ficou assim:

17/06 – Estocolmo
18/06 – Estocolmo
19/06 – Eindhoven
20/06 – Eindhoven
21/06 – Hilvarenbeek Best Kept Secret
22/06 – Hilvarenbeek / Best Kept Secret
23/06 – Hilvarenbeek / Best Kept Secret
24/06 – Bruxelas
25/06 – Bruxelas
26/06 – Bruxelas / São Paulo

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Após dois dias nublados, com vento e chuva leve, Oslo amanheceu ensolarada nesta-feira. Na verdade, nem escureceu. A foto abaixo é a vista da janela do meu quarto ás duas da manhã. Hoje tem Nick Cave & The Bad Seeds com Band of Horses no Norwegian Wood Festival, mas os preços proibitivos para brasileiros (quase R$ 300 o ingresso) estão vencendo o desej0 de ir ao show, afinal amanhã tem Manic Street Preachers com My Bloody Valentine, e não há bolso que aguente dois shows seguidos nesse preço escandinavo…

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junho 14, 2013   Encha o copo

Europa 2013: Londres, Berlim e Oslo

Estou chegando à metade da viagem e sei que estou em débito de histórias. Não que não tenha acontecido nada interessante até agora, muito pelo contrário, mas o momento pessoal é de silêncio e reflexão, uma tentativa de entender o caos ou ao menos se proteger da tempestade que virá. Ainda assim, esta viagem está sendo bastante proveitosa e servindo para tirar o ranço de vez de cidades com quem não me dei tão bem numa primeira vez. Ao contrário do que possa parecer, essa viagem está sendo leve e calma. E estou curtindo isso.

Londres foi especialíssima. Lembro que antes de ir pra lá na primeira vez, amigos previam que eu iria enlouquecer na capital pop do mundo. Vindo de Barcelona e Paris, no entanto, Londres não me pegou de primeira, mas a relação foi amaciando nos anos seguintes, a ponto de, nesta vez, apenas acompanhar amigos, sem se preocupar em ter que ver isso e aquilo. Deixar se levar pelas ruas e pubs pelo simples prazer de estar em uma cidade instigante repleta de coisas para fazer. Definitivamente, Londres tornou-se uma parceria querida e quero sempre voltar.

Com Berlim, o buraco é mais embaixo. Foi a quarta vez que passei pela cidade, e a melhor, mas os fantasmas da guerra ainda me incomodam. Mesmo assim, impossível não se deslumbrar com essa cidade que sobrevive andando sobre escombros de sua própria história trágica. Adorei o bairro em que fiquei (Prenzlauer Berg) e me deslumbrei com a animação de um povo que sai enlouquecido para a rua numa terça-feira de madrugada. Deu vontade de ficar mais. Acho que, com o tempo, acostumaria com a cicatriz, embora ela permanecesse sempre ali.

Cheguei em Oslo às 22h45 de ontem, e a primeira impressão foi uma enorme surpresa. Aluguei um hotel novo, perto da estação central de trens, fiz check in, desfiz a mala e, passado da meia-noite, sai pra retirar dinheiro e comprar algo pra comer. Surpresa: essa área do centro de Oslo parece o Baixo Augusta dez anos atrás, bem tenso (não que o Baixo Augusta tenha deixado de ficar tenso, mas melhorou bastante nesse tempo) com prostituição, drogas e gente estranha. Quem diria que o primeiro local tenso da viagem seria na Noruega…

Agora é hora de decidir os próximos passos. Os preços de Oslo assustaram a minha cambaleante economia, então estou pensando seriamente em deixar Estocolmo de lado e procurar um lugar mais calmo (e mais barato). E vou optar pelo Best Kept Secret, na Holanda, ao South Side, na Alemanha. Precisar acertar estes últimos detalhes para seguir em frente. Depois, sair para a rua e ver como Oslo é de dia. E me preparar para perder o show de Nick Cave (com Band of Horses abrindo) amanhã aqui já que o ingresso custa R$ 285…

junho 13, 2013   Encha o copo

Noitada norte-americana em Londres

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Noitada norte-americana no Forum, em Londres: o Meat Puppets abriu os trabalhos com problemas no som, mas na hora que a coisa toda ajeitou, a barulheira do country punk dos caras fez bonito. E eles tocaram “aquelas músicas” do Nirvana. Na sequencia, Mudhoney. Lembro que três semanas atrás, em Nova York, fui ao show sem botar muita fé (hoje foi a nona vez que os vi ao vivo) e sai do Music Hall of Williamsburg com um sorrisão no rosto. Aconteceu de novo hoje. Ouso dizer que o Mudhoney está em sua melhor forma ao vivo. Que baita show. Imperdível. Aguardem no Brasil…

Set list
Poisoned Water
Slipping Away
I Like It Small
You Got It
Suck You Dry
Get Into Yours
Where the Flavor Is
Sweet Young Thing (Ain’t Sweet No More)
Judgement, Rage, Retribution and Thyme
No One Has
Good Enough
Douchebags on Parade
Touch Me I’m Sick
What to Do With the Neutral
I’m Now
The Final Course
I Don’t Remember You
Chardonnay
The Only Son of the Widow from Nain

Bis
Into the Drink
Here Comes Sickness
In ‘N’ Out of Grace
The Money Will Roll Right In
Hate the Police
Fix Me

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junho 8, 2013   Encha o copo

O dom de perder coisas…

Perdi minha câmera hoje. Uma das três que eu trouxe, a única semiprofissional, que eu tinha, pela primeira vez, escolhido para ser a câmera oficial da viagem. Sou reincidente em perder câmera e coisas em Londres. Ano passado deixei um pacote com um aplicativo da Apple que eu havia comprado para um amigo no vagão do metrô daqui. Era uma vez. Anos atrás, após sair do show do Television com a namorada, esqueci uma câmera num taxi coisas. A vida é feita de perdas (algumas idiotas), e ela me lembra constantemente disso.

Estou imensamente chateado porque eu estava começando a gostar de fotografar com a Rebel XTI, a câmera anterior da Lili, antes dela começar a usar a megaprofissional Canon 5D. Comecei a usar a XTI para testar, e logo as outras duas powershots ficaram de lado. Quando comecei a fotografar a viagem em Londres (aqui e aqui) pensei que, neste momento bastante particular que estou vivendo, não queria escrever sobre a viagem, mas mostrar olhares. Queria ficar quietinho, mudo, e deixar as imagens falarem por si.

Ainda não desisti disso. Apesar de estar em uma viagem econômica que está apenas começando (sabe-se lá como será a minha vida a partir de julho), o que explica ter entrado na Rough Trade, na Sister Ray e na HMV e não ter saído com as mãos abanando (e tinha muita coisa que eu queria, principalmente vinil), estou cogitando procurar uma Rebel XTI usada em Berlim, e continuar a saga. Vamos ver. Tanto quanto a câmera, sinto pelas fotos de hoje, algumas imagens bem bacanas (modéstia as favas) na Rough Trade e em Abbey Road.

Fora isso, Londres está linda. Linda. Sol e um pouco de vento, e uma garoa que nem vale ser citada porque, talvez, você a remeta ao tempo péssimo que baixa na cidade nos outros 10 meses do ano. Junho e julho, no entanto, é isso: uma cidade linda, viva e repleta de coisas para fazer. O domingo, no entanto, deverá ser corrido. Ainda preciso arrumar a mala e pegar algumas infos de como chegar de trem em Gatwick, donde parto para Berlim às 6 da manhã da segunda-feira. E beber com alguns amigos queridos. A vida segue…

junho 8, 2013   Encha o copo

Cinco fotos: Londres, 2013, Dia 2

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junho 7, 2013   Encha o copo