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Category — Música

Gram Parsons por Keith Richards

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“Gram Parsons me ensinou country music – como ela funcionava. Era um grande contador de histórias, mas também tinha uma coisa única, que nunca vi outra pessoa conseguir: ele podia fazer as putas chorarem. Até mesmo as garçonetes descoladas, que já tinham ouvido de tudo na vida, não resistiam. Ele podia trazer lágrimas aos olhos delas e criar aquele sentimento de melancolia. Não era meloso, era coração. Ele tinha um jeito único de chegar àquelas cordas especiais, que tocavam o coração feminino. Eu ficava com os pés molhados por andar entre tantas lágrimas”…

Keith Richards sobre Gram Parsons em sua autobiografia “Vida”.

Leia também:
– Documentário: quando os Stones invadiram Matão (aqui)
– Keith Richards: “Gostar ás vezes é melhor do que amar” (aqui)
– Keith Richards, fala sobre o bootleg Rolling Stone Alone (aqui)

agosto 8, 2012   No Comments

Três perguntas: Continental Combo

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O trabalho de Sandro Garcia foi um dos primeiros que me aproximei quando me mudei para São Paulo no final dos anos 90. A gente já trocava correspondência ainda quando o Scream & Yell era fanzine de papel, e os dois primeiros EPs do Momento 68 (“Onde Estão Suas Canções”, de 1999, com a grudenta e impagável “1-3-4 o’Clock”, inédita de Frank Jorge; e “Ziggy”, EP de covers lançado em 2000 com canções do Yardbirds, The Who, Wilson Pickett, Syd Barrett e Love, entre outros) rodaram bastante no som de casa na virada do século (escrevi sobre “Ziggy” para a London Burning, do amigo Luciano Viana). O Momento 68 ainda lançou um bom álbum via Monstro Discos na sequencia, “Tecnologia”, mudou o nome para Continental Combo, e segue lançando discos sem se apegar a velocidade da web ao mesmo tempo em que as canções de Sandro soam como uma trilha sonora urbana. Os três discos do Continental Combo estão liberados para download no Bandcamp da banda, mas você pode encontra-los também em formato físico (junto a vários outros trabalhos de Sandro) no site da Question Mark Records. Abaixo, três perguntas para Sandro Garcia:

Como anda o processo de gravação do novo EP? Quando sai?
Este novo material, assim como toda discografia do Continental Combo (EPs e álbuns), está sendo registrado no estúdio Quadrophenia. O plano é finaliza-lo neste segundo semestre, depois vamos disponibiliza-lo para free download no bandcamp e também produzir uma pequena tiragem em formato físico, para distribuir nos shows. As gravações (são) feitas dentro das possibilidades de cada um, podem até ter adiado o resultado final, por outro lado estes espaços estão abrindo caminhos para experimentar arranjos, instrumentos diferentes e ideias que vão surgindo sem a pressa de finalizar prematuramente uma composição.

É possível encontrar os discos anteriores para comprar ou baixar? E do Momento 68?
O álbum do Momento 68 (“Tecnologia”) assim como os três discos do Continental Combo podem ser adquiridos no meu pequeno catálogo chamado de Question Mark Records. Os dois primeiros álbuns do Continental Combo estão também disponíveis para venda no site da Monstro Discos e o terceiro disco (“Conveniências na Cidade”) no site da gravadora Voiceprint. Os discos podem ser encontrados em algumas lojas como: Velvet Discos, Locomotiva, Pops, Big Papa, no Gusta Café, Sensorial Discos (loja virtual). A banda também disponibilizou seus 3 álbuns para free download e venda física no bandcamp.

http://questionmark.zip.net/
http://continentalcombo.bandcamp.com/
http://www.monstrodiscos.com.br/
http://www.voiceprint.com.br/

Você começou com o Faces & Fases e depois com o Charts, no final dos anos 80 começo dos 90. Como você vê o cenário musical hoje em dia em comparação com os anos 90?
Cada período e cada banda teve seu momento de vicio e virtude. Tento sempre olhar o lado bacana de tudo isso e desse modo continuar fazendo música. Hoje é importante um certo equilíbrio entre ter foco no que a banda quer produzir e também ter uma sintonia com a velocidade do mundo digital, que possibilitou uma grande quantidade de artistas e músicos divulgarem seus trabalhos. Estamos lidando com esses dilemas e outros como, por exemplo, acreditar na evolução do nosso trabalho autoral sem deixar de lado o prazer de dividir gostos em comum tocando com amigos em uma banda.

Próximos shows do Continental Combo:
-> 12.08 (domingo) no Espaço Cultural Walden (aqui)
-> 01.09 (sábado) no Gusta Café (aqui)
-> 16.09 (domingo) na Feira de Artes da Pça Omaguá (aqui)

agosto 7, 2012   No Comments

Três filmes: Retratos do Submundo

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“Sid & Nancy: Love Kills” (1986)
Antes de entrar no Sex Pistols, John Simon Ritchie já tinha tocado bateria no Siouxsie and the Banshees e sido cotado para ser vocalista do The Damned, mas Alex Cox não está muito interessado em contar história rock and roll em “Sid & Nancy: Love Kills”, preferindo focar suas lentes na degradação do romance entre o baixista e a groupie mal-encarada Nancy Spungen, casal perfeitamente interpretado por Gary Oldman e Chloe Webb. Ainda assim, alguns fatos históricos do punk rock estão presentes, como o dia em que Sid usou o contrabaixo como um taco de beisebol em um jornalista que havia detonado o Sex Pistols ou a cena épica do famoso show no Tamisa (haviam proibido o Sex Pistols de pisar ao vivo no solo britânico, mas a proibição não dizia nada sobre tocar sobre a água), suavizada pelo romance: enquanto dezenas de pessoas apanham da polícia, o casal sai abraçado atravessando a tudo e todos. Eis o principal problema do filme: não é o amor que mata, mas a relação perigosa do casal com as drogas pesadas, e elas são secundarias na trama (muitas vezes exageradamente estilizadas). Alex Cox, que divide o roteiro com Abbel Wool, sentimentaliza um personagem icônico que simboliza uma Inglaterra decadente, e deu sorte de ter acertado na escolha da dupla de atores principais num filme que sugere dor, perigo, descontrole e violência, mas não as exibe.

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“Eu Atirei em Andy Warhol” (“I Shot Andy Warhol”, 1996)
Valerie Solanas foi uma importante militante radical, autora do manifesto “Scum”, no qual pregava o extermínio de todos os homens da Terra. Os três tiros que disparou contra Andy Warhol em junho de 1968 são o capítulo final de sua história (com um epilogo marcado por prisões, depressão e internação em hospitais psiquiátricos), e “I Shot Andy Warhol”, que surgiu como um documentário, busca contar sua gênese, com flashs de uma infância difícil e uma passagem destacada pela Faculdade de Psicologia, momento em que Valerie se descobre lésbica e parte em direção ao submundo nova-iorquino, vivendo no mítico e decadente Chelsea Hotel, participando de filmes da Factory, de Andy Warhol, e se prostituindo. A diretora Mary Harron (que quatro anos depois assinaria o genial “Psicopata Americano”) apresenta diversos trechos do polêmico manifesto ao mesmo tempo em que lança luz sobre o desejo desenfreado de Valerie pela fama retratando de forma distante um submundo recheado por drogas, sexo e personagens exóticos. Lou Reed atacou o filme, e não liberou nenhuma canção sua para a trilha, assinada pelo ex-parcerio John Cale (ainda assim o CD da trilha é brilhante com belos covers de Wilco, R.E.M., Luna, Pavement e Yo La Tengo). Destaque para Stephen Dorff, que brilha como o famoso travesti Candy Darling, e Jared Harris (o Lane Pryce de Mad Men) como Warhol em outro filme que tem mais valor histórico do que cinematográfico.

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“Boogie Nights” (1997)
Segundo filme da carreira do prestigiado diretor Paul Thomas Anderson (que, posteriormente, filmaria os obrigatórios “Magnólia” e “Sangue Negro”), “Boogie Nights” é um excelente retrato do submundo da indústria pornô no final dos anos 70, começo dos 80. Um jovem bem dotado é descoberto em uma boate por um diretor, e estreia como ator alcançando fama e dinheiro, e junto cocaína. A inspiração de boa parte da trama é o ator John Holmes, ícone pornô que transou com duas gerações de estrelas pornográficas, de Seka e Marilyn Chambers a Ginger Lynn e Ciccolina, tentou uma carreira paralela em filmes de ação (retratada no filme) e se viu envolvido em um assalto (para obter cocaína) que terminou com quatro mortos (passagem também presente em “Boogie Nights”). Com um elenco brilhante liderado por Mark Wahlberg (como o ator pornô Dirk Diggler), Burt Reynolds (como o diretor Jack Horner) e Julianne Moore (como a atriz pornô Amber Waves), e que ainda conta com participações excelentes de Heather Graham, Don Cheadle, John C. Reilly e Philip Seymour Hoffman (entre outros), “Boogie Nights” é uma típica história de ascensão e queda, de pessoas despreparadas para o sucesso em uma indústria perigosamente sustentada pelo proibido, contada com excelência por Paul Thomas Anderson.

Leia também:
“Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, por Marcelo Costa
“Sangue Negro”, de Paul Thomas Anderson, por Marcelo Costa

agosto 6, 2012   No Comments

Três perguntas: Harmada

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Acompanho o trabalho de Manoel Magalhães desde o começo de 2005, quando ele me procurou para mostrar “A Mesma Pessoa no Mesmo Lugar”, EP da Polar. O disquinho rodou um bom tempo no CD player daqui de casa naquele ano e no ano seguinte, batemos um papo rápido para o site e a banda acabou. Algumas cervejas depois, Manoel passou pelo Columbia, outra boa banda da safra recente carioca, antes de encontrar Juliana Goulart, Filipi Cavalcante e Brynner Buçard e formar o Harmada, que já lançou um ótimo álbum, “Música Vulgar Para Corações Surdos”, participou do tributo ao álbum “Yankee Hotel Foxtrot”, do Wilco, divulga agora o clipe para a canção “Luz Fria”, e já começa a pensar em material para um novo disco (enquanto se prepara para integrar dois novos tributos, um de metal e outro de pagode!). O disco completo do Harmada você pode baixar aqui, o Tributo ao Wilco aqui, e o clipe de “Luz Fria” você assiste abaixo.

Como anda a família Harmada?
Anda bem, crescendo com o tempo. Acabamos de fazer um show pra bastante gente no teatro Sérgio Porto, o clipe de “Luz Fria” já saiu repercutindo bastante, fomos convidados esse mês para mais dois tributos, um homenageando uma banda de metal e o outro uma banda clássica de pagode, chega até a ser engraçado, né? Mas vai ver acharam que a gente pode transitar com cuidado entre esses mundos. No mais, até o fim do ano queremos lançar um projeto de transformar as 14 músicas do disco em vídeos gravados pela cidade, como fizemos com “Sufoco” e “Avenida Dropsie” para o Música de Bolso. A ideia é documentar um pouco desse clima de metrópole que o disco tem, recebendo a influência direta da cidade na execução das músicas. Queremos fazer também um mini-documentário sobre o disco e já começar a pensar no próximo.

Como foi a produção do clipe para a música “Luz Fria”?
O clipe é o nosso segundo trabalho com a produtora Caos e Cinema, nossos amigos e parceiros aqui do Rio. A ideia inicial veio do diretor, Rodrigo Séllos, que pensava em fazer um clipe com a delicadeza do início do cinema, citando Meliés, que tivesse truques de mágica e brincasse com os efeitos especiais dessa época, isso antes mesmo de assistirmos ao filme do Scorsese ou “O Artista”, mas seria uma produção cara e que demandaria um equipe grande. Um pouco depois ganhamos o edital de Promoção de Novos Artistas, da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, e surgiu a oportunidade de tirar isso do papel. Gravamos na Quinta da Boa Vista, na Praia Vermelha, no camarim do teatro Dulcina e em um pequeno teatro do centro da cidade. A equipe era ótima, recheada de amigos que deram duro pra coisa acontecer, todo mundo dando um jeito de ajudar pro clipe ficar bonito.

O Harmada participa do tributo ao “Yankee Hotel Foxtrot”. O que você achou do tributo como um todo e o que representa o Wilco pra você?
Achei sensacional a ideia do tributo. Ainda mais pelo clima que envolveu a produção, cheia de amigos e feita com cuidado, por fãs apaixonados mesmo. O Wilco é um paradigma pra mim, é o símbolo de uma banda que já vive o nosso tempo e consegue sobreviver fazendo a música que eles querem sinceramente fazer. Acho muito simbólico o lançamento do “Yankee Hotel Foxtrot”, acredito que é o disco da nossa geração. Além de ser contundente no que se refere à estética, com canções pop perfeitas, tudo que envolveu o lançamento (a briga com a gravadora, o vazamento na internet), marcou o começo do que vivemos hoje com os blogs, a força das bandas independentes, todo esse processo, pra mim, tem no “Yankee Hotel Foxtrot” uma espécie de marco zero simbólico, não na questão da falência da indústria, que já é um processo anterior, mas como referência de como as coisas seriam dali pra frente.

Leia também:
– Scream & Yell entrevista Harmada, por Jorge Wagner (aqui)
– O Clube dos Corações Surdos, por Bruno Capelas (aqui)
– “Nós queremos uma vida boa”, por Marcelo Costa (aqui)
– “Yankee Hotel Foxtrot Tribute – A box full of versions” (aqui)
– Doc “I am Trying To Break Your Heart, Wilco”, por Mac (aqui)
– Baixe: “Música Vulgar Para Corações Surdos”, Harmada (aqui)

agosto 4, 2012   No Comments

Assista: Episódio #1 do Music Trends

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Leia também: Os quatro episódios do Music Trends (aqui)

agosto 3, 2012   No Comments

Ouvindo histórias do Bituca

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Foto: Marcelo Costa

Milton Nascimento faz show hoje no HSBC em São Paulo, e na quarta-feira se reuniu com alguns jornalistas para falar sobre essa apresentação especial, patrocinada via edital da Natura Musical, que festeja 50 anos de carreira (70 anos de idade e 40 anos do grande álbum do “Clube da Esquina”), e contar muitas histórias. Levei um baile do gravador do novo celular, que não gravou nada, mas Milton também não contou novidades, o que não quer dizer que os 40 minutos de bate papo foram desperdiçados.

Bituca contou algumas histórias que vem repetindo nos últimos anos, mas que ainda assim são deliciosas. Rendeu novamente homenagem para Francois Truffaut (“Compus minha primeira música após assistir “Jules e Jim” no cinema”), para Elis Regina (“Sempre mostrava minhas músicas novas primeiro pra ela”), para Miles Davis (“Não é que ele não gostasse de mim, era só ciúmes por eu ter gravado com Wayne Shorter”) e, claro, para o Clube da Esquina (“Quando Lô Borges pediu uma caipirinha eu percebi que ele não era mais criança”).

A verdade pessoal é que nunca dei muita bola para Milton Nascimento. Na estante tenho apenas o álbum do “Clube da Esquina”, e em vinil tenho mais dois ou três títulos. E só. Em um momento que 20 álbuns de sua discografia chegam ás bancas via Abril Coleções contando boa parte de sua história, e que a turnê comemorativa de 50 anos irá virar DVD, talvez seja oportuno lançar luz sobre esse boa praça que saiu de Minas para conquistar o mundo (levando consigo vários amigos) tocando suas próprias canções. Farei isso.

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Foto: Marcelo Costa

Leia também:
– Discos: A Utopia de “Angelus”, por Jorge Wagner (aqui)
– Natura Musical anuncia os contemplados de 2011 (aqui)

agosto 3, 2012   No Comments

Estreia: MusicTrends no Multishow HD

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Numa tarde calma de algum dia perdido desse ano insano, gravei uma série de depoimentos por cerca de três horas sobre bandas e artistas para uma série dividida em quatro partes, a MusicTrends, feita pelo pessoal da produtora Box1824. A série estreia hoje, no Multishow HD (com reprises ao longo da semana – horários no fim do post).

A apresentação do programa fica na responsa de Marina Bortoluzzi e Lucas Liedke, e, além de mim, participam opinando os amigos jornalistas Lucio Ribeiro, Pablo Miyazawa, Flávia  DuranteRenata Simões e Guilherme Guedes (entre outros).

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Serão quatro episódios temáticos cuja proposta é mapear as tendências da música que você agora e que você ouvirá num futuro próximo, definindo moods que englobam mais de 100 artistas. Os moods são um clima, um estado de espírito, o lugar para onde a música nos leva quando a escutamos.

O MusicTrends está dividido assim: o primeiro episódio, batizado Time Off, foca em novos artistas que buscam suas inspirações no passado. É aquele som com carinha de antigo, mas ao mesmo tempo super natural para os ouvidos modernos. Na pauta, Alabama Shakes, Vaccines, Lana Del Rey, Decemberists, Nevilton e muitos outros.

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O segundo, chamado Nowdismo, apresenta novas bandas que brincam com tudo o que a vida oferece no tempo presente, sem se preocupar com o passado e nem com o futuro, não se deixando levar tão a sério no meio do caos hedonista em que vivemos.

Happy To Be, o terceiro programa da série, trará artistas com uma perspectiva otimista para o futuro, principalmente no Brasil. São os nomes que celebram a paixão pela vida e as pequenas coisas do cotidiano.

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Fechado o MusicTrends, o quarto programa, Twisted Future, terá sons que parecem vir da máquina do tempo, diretamente de 2050. Sofisticado e vanguardista, este mood é para quem tem os ouvidos cansados do “mais do mesmo”.

Estou bastante curioso com o resultado da produção. Uma coisa é falar para uma câmera, outra ver aquilo contextualizado numa situação, num contexto de televisão. Me diverti bastante (a gravação – se você ficar curioso pelo local – aconteceu no Restaurante Spot, na praça atrás do prédio da Caixa Econômica Federal, na av. Paulista – pertinho de casa). Fique ligado!

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Leia também: Os quatro episódios do Music Trends (aqui)

agosto 1, 2012   No Comments

No camarim com Maria Rita

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Oito anos atrás, em um longo (e interessantíssimo) bate papo de quase duas horas, o músico e arranjador César Camargo Mariano analisava a carreira então iniciante da filha Maria Rita. “Ela saiu do barzinho, do show do Chico Pinheiro, e no dia seguinte, literalmente, pulou para um estágio de superstar”, comentava o pai. “É muito complicado conviver com isso, mas não é o caso da Maria Rita. Eu conheço muito bem aquela cabecinha, ela tem uma estrutura muito boa para enfrentar tudo isso”, completava, seguro, o pai.

De lá pra cá, Maria Rita gravou mais três discos e passou por todas as fases e testes que a fama exige de um grande artista, ao ponto de, hoje em dia, ela mostrar autoconfiança “como interprete e cantora em um cenário musical tão vasto e rico como o Brasil”. Após a estreia, “Maria Rita”, de 2003, vieram “Segundo” (2005), “Samba Meu” (2007) e “Elo” (2011), quatro álbuns, quatro turnês intensas (sendo que a do último álbum começou antes mesmo do disco existir). Uma boa estrada se fez.

Maria Rita me recebeu no camarim após um show transmitido ao vivo pelo Portal Terra, no final do ano passado, para uma pauta bem simples: rememorar cada um de seus discos, símbolos de fases distintas de sua carreira. Com bastante calma (mesmo com o horário apertado do voo), Maria Rita analisou seus quatro trabalhos de forma reflexiva e atenta. E soltou uma deliciosa gargalhada quando incluiu a mãe, Elis Regina, em uma playlist de artistas preferidos especial para o Sonora. “Só para ter uma mulher, né”. Abaixo, o bate papo:

Me fale de seus discos começando por “Maria Rita”…
“Maria Rita” é um disco de introdução, de apresentação. Foi o disco que fiquei mais nervosa pra gravar, mais ansiosa. Era mais ansiedade do que nervosismo. Senti uma pressão do artista iniciante que grava o segundo disco… (só que) senti no primeiro. Mas trabalhei com pessoas de absoluta confiança, que confio 100% até hoje, mais a produção do Tom Capone, um produtor eterno. (Gravar “Maria Rita”) Foi um astral muito bacana. Dediquei-me muito e fiquei muito orgulhosa de ter conseguido termina-lo da forma como eu tinha imaginado que ficaria. É também um disco generoso, porque contei com o apoio de muita gente. Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Marcelo Camelo… Tenho boníssimas lembranças deste disco, desta fase.

O “Segundo”…
Ele surgiu de uma necessidade de encerrar o ciclo (do disco) “Maria Rita”, porque eu sentia que estava carregada de muita história. Teve o nascimento do meu filho, o falecimento do Tom Capone, teve o Grammy… Teve muita coisa… Senti que, principalmente após a ida do Tom (Capone), estava ficando difícil subir ao palco e cantar aquelas músicas. O “Segundo” veio dessa necessidade muito intima de um novo projeto, com novas canções que pudessem contar a história desse momento. O encarte do disco é branco, é tudo muito claro… Têm uma influência das coisas que a gente não vê, mas sabe que existe. O cenário do show tinha rendas, tapete feito á mão, o Divino Espirito Santo, uma brasilidade muita grande que remete a terra. Uma busca por um contato com algo que a gente não consegue explicar. Emoções tão diversas e adversas. Isso tudo influenciou no disco, no visual, na estética sonora. É um disco mais vazio, silencioso. Os takes escolhidos eram os que transmitiam mais emoção, não necessariamente os melhores tecnicamente. Tem erro, tem respiração fora do lugar, então é um disco muito humano.

Parece um disco de transição para o “Samba Meu”…
Possivelmente.

Que é um disco mais alegre…
Exatamente. É uma trajetória. O show do “Segundo” era explosivo e, apesar de eu não ser a compositora das canções, muito autobiográfico. Isso me possibilitou externar um monte de demônios, tristezas e histórias. E pode trazer de volta as alegrias que a vida nos proporciona.

Vamos falar das alegrias então (risos)…
Sim (risos), chegamos então no “Samba Meu”, aquela coisa ultra feminina, a feminilidade aflorada ao máximo, a alegria infundada que é o samba. Não é a toa que o samba é a maior expressão musical característica do povo brasileiro, um povo sofrido, trabalhador, dedicado, e que jamais perde a esperança, jamais perde o sorriso, jamais perde a generosidade e a alegria de estar ali, vivendo, seja qual for o desafio. (“Samba Meu”) É a minha paixão pelo samba. Fiz muita questão que fosse um show absurdamente produzido, dentro dos meus padrões. Queria troca de figurino, queria troca de cenário, queria projeção, luz rodando… Os meus outros shows eram muito mais teatrais, luz parada, e esse eu queria… brilhante, sorridente, pra cima, que é como eu sinto o samba.

Como foi a busca pelo repertório?
Não teve uma linha de raciocínio. Foram canções pelas quais me apaixonei. “Tá Perdoado”, do Arlindo Cruz, por exemplo, o Arlindo me deu antes mesmo de eu pensar em gravar um disco de samba, um ano e meio antes, talvez mais. “Escrevi essa música pra você. Não precisa gravar, fica ai. É sua”, ele disse (risos). Muito querido. E foi a primeira que despertou quando rolou a ideia de gravar o disco. Já tinha essa garantida. E as músicas vieram assim, muito femininas, o que era um desafio, porque o samba… só tem compositor homem no disco. Foi um desafio muito grande gravar essas músicas como eu queria gravar, take corrido, ao vivo, desafio atrás de desafio. Mas eu acho ótimo dar uma chacoalhada, porque cair no lugar comum dá uma preguiça danada.

E o “Elo”?
É o menos ortodoxo, o menos tradicional possível (dos meus discos). Porque veio de um ano e meio de cantoria na estrada, de um show sem nome que não tinha a menor pretensão de virar disco. O show surgiu da minha paixão e completa necessidade de estar em cima de um palco. Eu não queria fazer um disco, mas também não queria sair do palco. Arranjei um meio do caminho (risos) pra fazer algo que não era pra ser um disco nem nada. Não tinha nome, não tinha cenário. Era música em cima do palco. Quatro instrumentos e vamos embora. E o show foi crescendo, os fãs foram pedindo que eu registrasse de alguma forma as músicas do show que nunca havia gravado, e então surgiu a ideia do “Elo”. Ele ganhou esse nome porque só existe por causa da receptividade do público, e, de certa forma, da coragem dessas pessoas saírem de casa para assistir a um show que elas nem sabiam o que era. Foi intenso. O frio na barriga que eu sentia era maior. Porque tudo pode acontecer, é uma democracia, e assim como eles vão (ao show) porque eles querem, eles saem porque querem também. Era um turbilhão. Canções inéditas, canções que ninguém tinha me visto cantar. Era preciso um cuidado comigo mesma, para que todo show não derrapasse, não saísse do foco. É um presente deles para mim, uma inversão de valores que me ensinou muito. Ouso até dizer que (esse disco) me deu um grau de autoconfiança como interprete e cantora em um cenário musical tão vasto e rico como o Brasil.

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Leia também:
– César Mariano analisa carreira da filha Maria Rita (aqui)
– “Tenho saudade de botequim”, diz César Mariano (aqui)
– César Camargo Mariano e a remixagem de “Elis e Tom” (aqui)

julho 24, 2012   No Comments

Três perguntas: Lemoskine

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Conheço Rodrigo Lemos há um bom tempo, desde quando ele tinha uma das grandes bandas de Curitiba nos anos 00, a Poléxia, e gravou um punhado de canções passionais e grandiosas. Algumas dessas canções (como a bela “Aos Garotos de Aluguel”) foram parar n’A Banda Mais Bonita da Cidade, que conta com Rodrigo na formação, mas, como ele conta no bate papo rápido abaixo, ele é uma “biscate quando o assunto é música”, e está pronto para mostrar as canções de “Toda a Casa Crua”, álbum feito sob a alcunha de Lemoskine disponível para free download aqui. Já tem até show de lançamento fechado, no Teatro Paiol, em Curitiba, 31/08.

Qual a diferença de ter uma banda e de ter um trabalho solo?
Eu estou desapegado de conceitos quando mergulho num trabalho solo… Acho que banda costuma se fechar muito e eu sou uma biscate quando o assunto é música: dou pra tudo e pra todos. Esse disco, “Toda a Casa Crua”, tem sonoridades bem distintas coexistindo e um único fio condutor; que são as letras. Gosto de pensar que está dividido em lado A e lado B, como um vinil. A maior parte do repertório surgiu muito recentemente, em meio a um turbilhão na minha vida, portanto as canções não tiveram tempo de amadurecer antes de serem gravadas. Topei o risco e agora já me sinto livre pra deixar isso para trás e investir em outras ideias.

Já tem show de lançamento marcado: como funciona Lemoskine no palco? Você sozinho? Banda? Amigos?
Sozinho, não… O Lemoskine é um projeto em torno das minhas canções, mas sempre tem mais gente tocando nas gravações e nos shows. Esse disco tem uns detalhes curiosos que deixo pras pessoas irem descobrindo… mas adianto que teve participações das mais inusitadas; de John Ulhoa (que também produziu algumas faixas) tocando “stylophone” a um coro de assovio executado por amigos que fazem parte da equipe que acompanha a Banda Mais Bonita… No show de lançamento, que acontecerá dia 31 de agosto, no Teatro Paiol, a banda será formada por Diego Perin (baixo e clarineta), Luís Bourscheidt (bateria e samples) e Vinícius Nisi (piano e samples); com participações do Ale Rogoski (bateria) e do João Marcelo Gomes (baixo acústico).

Você já tinha trabalhado com o John Ulhoa num single da Poléxia, e agora retoma a parceria no Lemoskine. O que ele acrescenta à sua musicalidade?
O John é como um visitante de outro planeta que vem, faz contato, sintoniza comigo e depois diz: “Tchau… E até a próxima, terráqueo”. Foi bem divertido poder contar com a companhia dele novamente e ele se deu super bem com o pessoal que toca junto. A gente alternava as sessões do disco com doces de restaurante, festa de YouTube e papo sério. Eu sou produtor musical também e tenho meus vícios… Contar com uma visão de fora, que te ofereça um espelho, pode ser estimulante e, no caso do John, as faixas sempre acabam se destacando. Deve ser porque ali existiu uma “simbiose”, sabe? Não foi uma idéia que começou “assim” e também terminou “assim”.

Acompanhe o Lemoskine: http://soundcloud.com/lemoskine/

julho 20, 2012   No Comments

Bruce Springsteen é um cara foda

 

Sábado passado, 14/07, Bruce Springsteen e sua E Street Band estavam escalados para fechar o segundo dia do festival Hard Rock Calling, que acontece no imenso Hyde Park, em Londres. O horário programado do show no site oficial do evento era de 19h às 22h15, ou seja, três horas e quinze minutos de show, tempo quase normal de uma apresentação de Bruce atualmente (embora ele tenha batido nas três horas e quarenta e oito minutos num show em Madri, semanas antes).

Porém, um fato inusitado aconteceu: Paul McCartney subiu ao palco, e Bruce Springsteen, 62 anos, mandou: “Há 50 anos espero isso acontecer”. Bruce já tinha recebido Tom Morello (Rage Against The Machine) e John Fogerty (Creedence Clearwater Revival)  no palco na mesma noite, e esse show, recheado de improvisos, se aproximava das três horas e quinze minutos estipuladas pela organização. Ninguém poderia imaginar o que iria acontecer na sequência.

Após quatro hinos de sua carreira tocados em sequencia (“Born in the U.S.A.”, “Born to Run”, “Glory Days” e “Dancing in the Dark”), Bruce recebeu Paul, e a dupla mandou “I Saw Her Standing There'” e a já tradicional cover de “Twist and Shout”, que Bruce toca há anos, mas eis que a produção decide silenciar o palco no minuto final da canção, provocando uma revolta no público e um bate-boca que se estendeu pelos dias seguintes (com até o prefeito de Londres dizendo que a produção levou a lei do silêncio muito à sério).

Bruce Springsteen não falou nada sobre o ocorrido até ontem, três dias depois, quando subiu ao palco para um show em Dublin,e trouxe uma enorme chave de força, que foi ligada, e começou o show tocando “Twist and Shout” do exato momento que cortaram o som em Londres. Ou seja: não o deixaram terminar o show em Londres? Ele terminou em Dublin, e começou outro, que ainda teve outra brincadeira com a situação londrina: policiais falsos entraram no palco na última música, “American Land”, para tentar desligar o som. Dessa vez Bruce não deixou.

Eis duas coisas que vivem fazendo falta no mundo pop: bom humor e inteligência. Bruce Springsteen tem de sobra.

 

Veja mais:
– Três horas e vinte minutos de Bruce na Itália, por Mac (aqui)
– Bruce em Dublin: uma garotinha canta “Waiting For a Sunny Day” (aqui)

julho 18, 2012   No Comments