 Magnólia
por
Marcelo Costa 2000
Tudo
simplesmente acontece. Não há como fugir, negar, comprar o inevitável.
Há, sim, como ignorá-lo, mas o preço geralmente é alto, pois
não existe mentira tão perfeita que engane a si mesmo.
É certo, também, que o mundo não é exatamente como a gente quer,
que a sociedade é feita de aparências e que essas aparências
são, quase sempre, 90% do que importa na história. Ou seja,
vivemos em um mundo sustentado pelo irrealizado.
Inevitavelmente, tudo acontece porque tem que acontecer e o
que é real, irreal, verdadeiro, sonho, fantasia e fuga acaba
esbarrando sempre na vontade pessoal de cada ser querer que
tudo dê certo. Mas todos erram, por medo, tolice ou gosto. E
apesar de todos saberem que errar é humano, ninguém quer assumir
que errou, preferindo que a dor o consuma vorazmente num primeiro
momento para, num segundo, ficar observando até onde o inevitável
consegue chegar sozinho.
Os personagens da pequena obra-prima recente Magnólia
são assim. Vivem fugindo de alguma coisa que os persegue persegue
persegue até que, num momento de sublime percepção descobrem:
estão fugindo de si mesmos. O filme é uma prisão cinematográfica.
Seus personagens se esbarram, se relacionam, se misturam, se
amam e se odeiam, mas são incapazes de apagar seus erros, e
o passado.
Magnólia é o terceiro longa de Paul Thomas Anderson que,
aos 28 anos, já é colocado no mesmo patamar de Scorcese e Coppola.
Não é à toa. E Magnólia comprova isso. É o tipo de filme
que merece ser assistido várias vezes, merece ser analisado
na mesa do bar com os amigos, discutido com seu amor na cama
após o sexo, e merece textos perdidos no tempo, como este. Ganhou
o Festival de Berlim 2000 e deu a Tom Cruise o Globo de Ouro
de ator coadjuvante e uma indicação ao Oscar.
Inicia com um sensacional prólogo em que, em off, Tom Cruise
explica que as coincidências existem, mas, inevitavelmente,
as coisas acontecem porque tem que acontecer. Três pequenas
histórias que já valeriam o filme, caso o que se seguisse fosse
ruim. Não é. As próximas três horas serão embebidas em lirismo,
mágicas e chuva. Daí em diante teremos uma distribuição farta
de personagens profundos, tão profundos que cada um poderia
ganhar um parágrafo especial. E são muitos, todos se relacionando
numa trama intrincada.
Perfilando fracassos, loucuras, fantasmas pessoais, busca pelo
amor, por remédios, e rãs, temos um professor machista (Tom
Cruise), o pai que o abandonou (Jason Robards), seu enfermeiro
(Philip Seymor Hoffman), sua esposa oportunista (Julianne Moore),
um veterano apresentador de TV (Philip Baker Hall), sua filha
viciada (Melora Waters), um gênio mirim (Jeremy Blackman) e
o pai que o explora, um fracassado gênio mirim (William H. Macy)
e um policial (John C. Reily).
Cada um tem sua história que, claro, não são lá muito alegres.
Todos eles, assim como nós, erram. E todos eles sofrem, menos
pelos erros, mas mais pela falta do dom de perdoar. Magnólia
não é um filme sobre pecados, como muitos tacharam. É, ao contrário,
um filme sobre perdão, mas o perdão demora a vir e quando vem
surge ancorado numa referência bíblica, estampada por alguém
numa platéia de um game show que leva ao alto um cartaz: Exodus
8:2.
"Aarão estendeu a mão sobre as águas do Egito, e as rãs saíram,
cobrindo o Egito".
Não chove à toa. Aliás, chove o tempo todo no filme, mas a grande
chuva só vai ocorrer quando o ápice de melancolia de todos os
personagens se encontrar, coincidentemente, na mesma rua: Rua
Magnólia. Como uma catarse. Como um desabafo coletivo. Como
um sorriso e um abraço e um grito parado no ar. Chove. Chove
muito. E não adianta ficar parado pensando. Está chovendo, e
pronto. E por mais estranha que seja a chuva, acontece. Tudo
pode acontecer.
Paul Thomas Anderson diz que o filme é baseado em personagens
reais, em pessoas que ficaram presas no passado. Num trecho
significante o filme diz - e explica-se: "O passado saldou suas
contas conosco, mas nós não o deixamos para trás". Com trilha
sonora sublime e melancólica de Aimee Mann, cantora preferida
do escritor Nick Hornby, e um final arrebatador, Magnólia
é o mais belo filme dos últimos tempos.
Tudo simplesmente acontece, a toda hora. Filmes maravilhosos
assim, não.
Marcelo,
30, é editor do zine Scream & Yell e espera, há
muito tempo, que chova uísque.
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