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Category — Cenas de SP

Cenas da vida em São Paulo: A luta de classes

Um café na av. Paulista, sábado á noite

– Ele não entende. Nós somos de classes diferentes. Pô, eu como no Habibs. E ele me leva no Almanara. E ainda quer que eu divida a conta… eu sou professora…
– Pô, mas o Habibs não dá. Perto da minha casa tem um lugar que faz umas esfihas ótimas. E é barato.
– Eu sou classe média. Ele é rico. Semana passada ele teve a idéia da gente ir viajar. Fui toda solicita, entrei na internet e achei umas pousadas fofas e baratas. Ele olhou as coisas que escolhi e disse: ‘Que porcaria’. Ai foi e escolheu um hotel de R$ 600 a diária!!!
– E vocês vão ter que rachar?
– Sim!!! Não sei o que eu faço…

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Alguém tem uma sugestão do que ela deva fazer?

setembro 27, 2009   No Comments

Cenas da vida em São Paulo – No cabeleireiro

Em São Paulo é possível encontrar todo o tipo de barbearia que você quiser. Tem algumas, tipo a Barbearia 9 de Julho, que oferecem aos clientes máquina de chope, garrafas de uísque e revistas masculinas. Nessa reportagem aqui você lê um pouco mais, porém é fato que nunca topei pagar mais do que R$ 10 para cortar o cabelo (talvez seja trauma do exército, em que se pagava R$ 2 e o cara passava a máquina sem se importar muito com o resultado – e até ficava ok).

Até entendo as mulheres que vão a salões de cabeleireiros super chiques e tal, mas meu cabelo não é a coisa mais difícil de cortar, então nem me preocupo tanto. Aliás, a única vez que cortei em um cabeleireiro chique, influenciado pela namorada que estava ali cortando, o cara conseguiu errar o corte. Dito isto, já faz uns dez anos que, em São Paulo, corto cabelo em uma cabeleireira em uma das galerias do centro da cidade. Comecei pagando R$ 6. Hoje pago R$ 10. E as histórias…

Um cara está sentado com uma senhora fazendo a sua unha. Ele puxa papo com a cabeleireira.

– E a Wanda, como está?
– Ela passou aqui ontem. Que peitão, viu – comenta a cabeleireira.
– Eu soube. Parece que ela vai colocar silicone na bunda também.
– Essa vai se dar bem na vida.
– Com certeza. Uma hora dessas ela arranja um italianão que vai pagar tudo pra ela.
– Ela está comprando um apartamento no Copan, mas não é kit não.
– Ai, falando em apartamento, sabe que eu me mudei, né – muda de assunto o rapaz
– De bairro?
– Não, continuo no mesmo bairro, mas mudei de prédio. Lembra que eu tinha contado que eu morava numa cobertura…
– Que chique…
– Nada. Era pequeno, um quarto, sala e cozinha, mas com uma sacada de 7 metros. Só que acredita que todo o domingo, às 8h da manhã, a vizinha debaixo ligava o som com axé no último volume…
– Axé? – diz a cabeleireira com jeito desgostoso.
– Pois é. Todo santo domingo era a mesma coisa, até que não agüentei e me mudei para um outro prédio, um apartamento enorme, 80 metros, mas no segundo andar. E não é que estou dormindo no domingo de manhã no novo apartamento e a vizinha começa a ouvir pagode no último volume…
– Eu tinha uma amiga, emenda a cabeleireira, que se mudou de apartamento por causa do Amado Batista.
– Ahn?
– A vizinha dela ouvia Amado Batista todo o santo dia. E a minha amiga falava: “Ou eu me mudo, ou eu mato essa mulher”. Ela se mudou, mas até hoje não pode sequer ouvir falar no nome do Amado Batista… (risos)

junho 24, 2009   No Comments

Cenas da Vida em São Paulo – O encontro

Manhã fria de sol. Ele está completamente entretido na leitura de um livro, tão concentrado que quase perde o ponto de descida do ônibus. Desce e caminha em direção a um posto de conveniência, pede dois pães de queijo com recheio de requeijão com azeitona e um isotônico, e sai da loja desajeitado com o livro em uma mão, os pães de queijo e o isotônico na outra, e a mochila nas costas.

Assim que entra na rua do trabalho, atravessa de uma calçada para outra, e no instante em que pisa na outra calçada, se vê frente a frente com o homem, que caminha entretido ao lado de sua mulher. O rapaz o olha, e para, estático. São alguns segundos que parecem horas até cair a ficha, que ecoa dentro de sua cabeça: “Era o Arnaldo Baptista? Era o Arnaldo Baptista. Arnaldo!!!!!”.

Ele vê o homem e sua mulher se distanciando, pensa em gritar seu nome, sair correndo para um abraço, um cumprimento, mas fica estático. No ar, cheiro de pão de queijo.

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Um dia antes, conversa de MSN:

Marco Tomazzoni diz:
– Esqueci de te contar. O Arnaldo estava na Rua Amauri hoje de manhã.

Marcelo Costa diz:
– Antunes?

Marco Tomazzoni diz:
– Não! Baptista!

Marcelo Costa diz:
– Sério???? Como assim???? E você deu um abraço nele???

Marco Tomazzoni diz:
– Não…

Marcelo Costa diz:
– Como assim????

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Agora entendo a resposta negativa do Marco. A propósito, “Loki”, o documentário obrigatório de Paulo Henrique Fontenelle sobre Arnaldo Baptista estréia hoje nas seguintes cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Tubarão, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Recife, Fortaleza e Salvador. Assista. E, por um momento, feche os olhos e de um abraço no Arnaldo.

Leia também:
– “Loki”, de Paulo Henrique Fontenelle, por Marcelo Costa (aqui)

junho 19, 2009   No Comments

Cenas da vida em São Paulo – O espelho

Dez horas da manhã, centro de São Paulo. Um rapaz carrega em sua mochila alguns CDs que precisa colocar no correio. Ele saiu para a rua, comprou os envelopes, e começou a procurar um netcafé para que pudesse pegar os endereços de que precisava. Na Avenida São João, pouco depois da Ipiranga, há um Centro de Atendimento ao Turista:

– Oi, bom dia. Você saberia me informar onde há um lugar em que eu possa acessar internet por aqui?
– Aqui mesmo. Na verdade, eu não sei se está aberto, mas é virando ali – diz a menina da recepção desculpando-se graciosamente na seqüência: – É o meu primeiro dia de trabalho…

O local indicado pela garota era um Telecentro. A pessoa vai, faz o cadastro e com um número de inscrição em mãos pode usar internet uma hora por dia em qualquer telecentro do país. O rapaz dá seu RG para o atendente, que preenche o cadastro e pergunta se o rapaz vai querer usar a internet de 11h às 12h. Resposta positiva, então é só aguardar 15 minutos pelo horário marcado.

Em um balcão lateral, enquanto lê um livro e observa o ambiente (não necessariamente nessa ordem), o rapaz percebe que um senhor (aparentando mais de 70 anos, com roupas simples e olhos tristes) deixa um computador e vem em sua direção. Antes, ele passa no balcão de atendimento, pega uma folha que mandou imprimir, e começa o diálogo/monologo:

– Eu já fiz vários cursos aqui nessa galeria, alguns duas vezes. Fiz um para consertar computadores. Era uma sala com vários computadores quebrados, e nós íamos lá, mexíamos aqui, ali, e então a tela acendia… ligava. Você sabe que esse Telecentro não é da Prefeitura? Não é. Eles entraram apenas com o nome. Foi um projeto da União Européia, que decidiu colocar Telecentros em 83 países. Houve um evento em Barcelona, no começo deste ano, e o diretor deste Telecentro, sabendo que sou ator, pediu para que eu gravasse um vídeo para que ele pudesse mandar para lá. Eu sentei naquele cantinho, e sem ter ensaiado nada, fiz um improviso. Acabaram de me enviar esse email. Olha aqui. Está dizendo que o vídeo que eu mandei foi escolhido o terceiro melhor de mais de 80 que foram enviados. O terceiro melhor do mundo. Então, meu filho, saiba que podem roubar tudo o que você tem, mas nunca vão roubar o que você sabe. Se algum dia você estiver mal, as coisas não estarem dando certo, lembre-se disso. Olhe no espelho e pense em tudo o que você sabe fazer, pois isso é seu e ninguém pode tirar. Deus te abençoe.

Ele estendeu a mão ao rapaz para um aperto e sumiu na imensidão dos 11 milhões de habitantes de uma cidade que muitas vezes não tem rosto e nem coração, mas que surpreende vez em quando por respirar e ter alma. Alma.

maio 30, 2009   No Comments

Cenas da vida em São Paulo – o colesterol

Quase oito da manhã de uma quarta-feira. O cara acorda atrasado para uma consulta médica e decide sabiamente pegar um taxi. Já dentro do veículo…

– Rua Marceleza foi o que o senhor disse?
– Isso (na verdade é Marselhesa), na Vila Mariana.
– A gente passa por tantos lugares trabalhando de motorista de taxi que eu até acho que já passei por essa rua ai, mas não estou me lembrando agora.

pausa – maldita hora em que esqueci de imprimir o mapa no Google – fecha pausa.

– É um pouco antes do Shopping Santa Cruz – arrisco.
– Ah, é perto do Shopping Santa Cruz. Então tá fácil.

É claro que ele ignorou o “um pouco antes” e entrou na primeira depois do shopping. Deu várias voltas até parar alguém, perguntar, e dizer:

– É mais lá atrás…

E o papo segue.

– Estou indo fazer um check-up para a firma.
– Eu não gosto de médicos, sabe. Tem um cara lá no nosso ponto que tinha um vida bem boa e nunca tinha ficado doente. A mulher dele encheu tanto o saco para ele ir ao médico, e ele foi. Ai descobriu que o colesterou estava alto, teve que entrar num regime, parou de beber, comer coisas gordurosas, essas coisas, e agora vive tomando remédio, está sempre doente, e reclama da mulher. Era feliz e não sabia.

– silêncio.
– Número 500, né? Chegamos, Bons exames.
– sorriso sem sal.

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Fui pegar hoje o resultado de meus exames de check-up. Fora o oftalmo, que encanou que não ando enxergando bem as coisas, o resto está tudo bem (viu, mulher!). O colesterou no geral está alto, mas nada alarmante. O desejável é até 200mg, e estou com 202mg (na faixa limite que vai de 200 até 239). Colesterol alto só acima de 239. Já o colesterou ruim (o LDL) está mais sossegado. O nível ótimo é 100. O desejável é de 100 a 129. O limite é de 130 a 159. Elevado vai de 160 a 189. Muito elevado de 189 para cima. Estou com apenas 127. \0/ Ou seja: vou comer sim essa baguetinha do post anterior em Florença. Ainda sou feliz.

maio 20, 2009   No Comments

Ressaca (atualizada)

Se você estiver caminhando por ai e topar com uma holandesa Amsterdã 500 ml na graduação alcoólica de 8,4%, tome cuidado. Tome muuuuuito cuidado.

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Bem, sábado, e estou todo detonado ainda. Lili não se conformava com a ressaca, e segundo meus relatos saiu-se com essa: “Você comeu algo estragado”. Refiz meu roteiro de quinta, e não é que ela estava certa. Como podemos viver em segurança se não podemos confiar no molho vinagrete de um dos nossos botecos favoritos?

Na quinta, prevendo a bebedeira, passei em um dos meus botecos prediletos para comer um dos meus sanduíches prediletos: Pão com mortadela com molho vinagrete. Na primeira mordida senti um gosto diferente do normal, mas fiquei entretido pelo ambiente.

Dez segundos depois chegou um um cara com enormes fones de ouvido, e sem tira-los fez um sinal com o indicador para o garçom, que logo lhe trouxe uma latinha de Skol. Nesse meio tempo ele me olhou, tirou os fones, colocou nos meus ouvidos e disse: “Esse cara não é foda?”. Nos aproximadamente cinco segundos que ouvi deu para reconhecer a voz de Robertão cantando o soul “Não Vou Ficar”. Ele tirou exclamando: “O tempo passa, mas ninguém consegue fazer isso”.

Foram só essas duas frases em dez segundos, ele colocou novamente o fone, fez um sinal de positivo com a cabeça e saiu levando a latinha de cerveja nas mãos. Pensei: vou escrever um Cenas de São Paulo disso e comecei a perceber mais coisas que aconteciam no bar enquanto devorava meu pão com mortadela com vinagrete estragado. Terminei, fui para o show, enchi a cara, acordei mal para trabalhar no dia seguinte e no meio do dia voltei para casa detonado.

Daquelas situações em que a azeitona da empada realmente faz mal.

Ps. Ou seja, a Amsterdã está liberada para consumo. Mesmo assim, não gostei tanto dela.

janeiro 30, 2009   No Comments

O documentário da loja Nuvem Nove

Já está no ar o documentário “Saudades da Nuvem Nove”, que traz gente boa como os amigos Sérgio Martins, Paulo Cavalcanti, Regis Tadeu e Fábio Massari – além do mestre Marcelo Nova – contando suas histórias dentro de uma das lojas de CDs mais bacanas da cidade, que baixou ás portas em 2008 após 17 anos de batalha. Eu apareço em uma das passagens, quando estamos posando para uma foto na frente da loja. Você pode assistir ao documentário online aqui, ou pode escrever para o Paulo Beto e solicitar uma cópia.

dezembro 24, 2008   No Comments

Cenas da vida em São Paulo – Parte 9

O sol forte do meio dia beija a cabeça dos transeuntes. Em uma travessa da Rua Augusta, uma senhora imóvel no meio da calçada filosofa com algum ser invisível:

– Eu tô te dizendo. Quase todo mundo fuma maconha em São Paulo.
– …
– Tô te falando. Quase todo mundo fuma!
-…
– Mais de 200% das pessoas de São Paulo fuma maconha. Principalmente quando está com fome.

dezembro 6, 2008   No Comments

Cenas da vida em SP – Bonnie ‘Prince’ Billy

Foto: Marcelo Costa / Scream & Yell

O show está no meio, mas o rapaz quer evitar as filas e se encaminha para o caixa para pagar a conta. Uma garota, meio bêbada, balança para lá e para cá perto do local. Ela olha esperando cumplicidade, e o rapaz se coloca atrás dela como se estivesse entrando numa fila. O segurança orienta a posição correta, e isso basta para ela puxar papo:

– Como se fosse fazer diferença, né.
– É…

Ela olha e ele tenta decifrar o que está passando pela cabeça dela até que um amigo chega e lhe passa um celular. Ela olha quem está ligando, leva o aparelho ao ouvido, e começa o diálogo:

– Oi. Onde você está? (parece perguntar a pessoa do outro lado)
– Estou num funeral – responde a menina, irritada, emendando ainda – Não posso falar muito alto, pois é capaz do cara que está encostado no bar bater em mim (diz ela olhando em direção ao homem).

A ligação continua, mas já não é possível entender o diálogo. Alguns “shhhhhhh” dominam o ambiente. Ela desliga o celular e volta para a fila. Olha o rapaz e pergunta:

– Você sabe quem é esse cara que está tocando?
– Bonnie “Prince” Billy.
– Ahhhh, ele é estrangeiro?
– Americano.
– E o que é esse som?
– Folk.
– Punk?!?!
– Foooolk!
– Ahhhhh. Parece música de velório – diz ela, virando-se para um amigo e ordenando – Vamos embora daqui antes que alguém bata em mim. E lá se foi ela para alguma balada eletrônica… ou algum forró.

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Essa cena é bastante comum em São Paulo. Na primeira vez que vi o Echo and The Bunnymen, no Via Funchal, 1999, eu havia saído de Taubaté para vir ver o show na capital. Exatamente na minha frente, ali quase no gargarejo, um rapaz vira para o lado e pergunta a outro:

– Que música toca essa banda ae?
– …
– Eles não tem nenhum sucesso, alguma música famosa?
– Olha, tem vários…
– Acho que nunca ouvi nada deles, mas eu gosto de vir a shows aqui. Semana passada eu vi o Alphaville. Foi bem legal…

O diálogo parou por ai, mas fiquei pensando durante muito tempo em quantas pessoas gostariam de estar no lugar deste cara que não tem a mínima idéia do que seja Echo and The Bunnymen ou, atualizando, no da menina que acha que Bonnie “Prince” Billy é um cantor de velórios. Em Taubaté, nos anos 80 e 90, qualquer show era um grande evento. Em São Paulo parece um mero passatempo. E passatempo é o que menos o show de Bonnie “Prince” Billy foi, apesar do Studio SP não inspirar intimismo e o som estar assustadoramente baixo.

Durante duas horas e meia (!), Bonnie “Prince” Billy mostrou ao público que realmente enxerga a escuridão. Acompanhado por mais um violão, o músico jogou tristeza no colo do público, e durante a primeira meia hora assisti ao show colado ao palco, fotografando e admirando a melodia das palavras e acordes. Porém, ao tentar curar minha gripe com cerveja, desloquei-me para o bar e deixei-me levar pelo cenário esquizofrênico de uma noite típica de São Paulo, em que algumas tribos diferentes se esbarram e se relacionam.

Fãs do cantor grudavam no palco e pediam canções, que eram atendidas de imediato. Esse fanatismo musical seguia-se até a quarta ou quinta fileiras que rodeavam a frente do palco. Dali para trás já havia um grupo – de fãs e não fãs – que separava o “gargarejo” das rodas de bate papo. E o “shhhhhhh” foi a coisa mais ouvida em toda a noite. Fiquei perto do bar conversando com um amigo, bebendo cerveja e ouvindo um fio de voz ao longe gritar “I See a Darkness”. Bonnie “Prince” Billy merecia maior atenção, mas a noite foi bastante interessante.

Quem sabe, numa próxima vez, ele não toque em um teatro em que a música seja a principal estrela e não precise ficar brigando com a busca pela cerveja, vodka ou afins; com amigos discutindo o real valor de “Chinese Democracy”, se Paul McCartney vem ou não vem e qual noite do R.E.M. em São Paulo foi a melhor; com meninas paquerando enquanto gingam o corpo dançando um som que não tem ginga. É bem provável que a noite tenha sido ruim apenas para a turma que ficou na linha que separava os dois públicos. De ambos os lados do muro a noite parece ter sido divertida. Apesar de toda a tristeza…

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Mais fotos do show de Bonnie ‘Prince’ Billy em São Paulo (aqui)

novembro 28, 2008   No Comments

Cenas da vida em São Paulo – Parte 8

Sexta-feira. Ônibus parcialmente lotado. No fundão, três amigos conversam. Um oriental está ao lado da janela do lado direito. Ao lado dele, um moreno. Na cadeira do meio, um branquelo, que o oriental insiste em chamar de mestre. Do outro lado, um homem pesca peixes sonhadores, dormindo com o sacolejar da lotação. O oriental o aponta para os dois, e ri. Os três aparentam ter mais de 35 anos.

É o oriental o responsável por manter o fluxo narrativo da conversa. Quando o silêncio se aproxima, ele logo emenda um novo assunto, como fugindo do gongo que anuncia o final da luta no boxe:

Então, acho que o Radiohead vai tocar em março aqui…

Os outros dois amigos se olham com cara de sexta-feira à noite após uma semana de trabalhos forçados:

Quem? É uma banda?
É – responde o interlocutor
Não conheço – responde um dos rapazes, pelos dois.

Alguns segundos de silêncio e o mesmo rapaz que respondeu diz, quase que de forma inaudível:

Eu comprei um CD do Renato Borghetti.
Renato o que? – pergunta o amigo da ponta.
Borghetti. É um sanfoneiro.
Tipo o Gonzaguinha? – pergunta outro
– Não, ele é gaúcho. Faz música regional.

O juiz sobre o ringue de boxe começa a contagem para encerrar a conversa. Quando chega no oito, desesperado, o oriental vai e pergunta qualquer coisa para um dos amigos:

Você comprou algum livro do Dostoievski na feira da Geografia

Quatro – responde o outro.

O ouvinte, que flagra a conversa dos três amigos, começa a pensar que – em menos de cinco minutos – a conversa saiu de Thom Yorke, passou por Renato Borghetti, chegou em Gonzaguinha e terminou em Dostoievski. Poucos escritores no mundo conseguiriam tal façanha em um curto diálogo.

O ônibus está chegando ao final, e enquanto um dos amigos tenta adivinhar os Dostoievski que foram comprados por aquele que não conhece Radiohead, mas é fã do Borghettinho (“Crime e Castigo”, já tenho, “Os Irmãos Karamazov”, já tenho, “O Idiota”, já tenho, “Os Demônios”, já tenho, “Noites Brancas”, esse eu peguei agora), o outro retoma o ponto inicial da conversa:

Qual banda que você falou que vai tocar mesmo nesse feriado?
Radiohead, responde o outro, envolvido na descoberta dos outros três Dostoievski que foram comprados.

Se alguém disser a você que o Radiohead vai tocar em São Paulo no feriado, duvide.

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O ônibus chega ao ponto final, metrô Vila Mariana. Os três amigos descem e uma conversa entrecortada passa pelo ouvinte, que só consegue pegar uma frase. Uma amiga diz para a outra, enfaticamente:

Eu quero essa cidade só para mim.

Nananinanão. Vai ter que dividir.

novembro 15, 2008   No Comments