Blog do Editor do Scream & Yell
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Cenas da vida em São Paulo: o espelho

Dez horas da manhã, centro de São Paulo. Um rapaz carrega em sua mochila alguns CDs que precisa colocar no correio. Ele saiu para a rua, comprou os envelopes, e começou a procurar um netcafé para que pudesse pegar os endereços de que precisava. Na Avenida São João, pouco depois da Ipiranga, há um Centro de Atendimento ao Turista:

- Oi, bom dia. Você saberia me informar onde há um lugar em que eu possa acessar internet por aqui?
- Aqui mesmo. Na verdade, eu não sei se está aberto, mas é virando ali – diz a menina da recepção desculpando-se graciosamente na seqüência: - É o meu primeiro dia de trabalho…

O local indicado pela garota era um Telecentro. A pessoa vai, faz o cadastro e com um número de inscrição em mãos pode usar internet uma hora por dia em qualquer telecentro do país. O rapaz dá seu RG para o atendente, que preenche o cadastro e pergunta se o rapaz vai querer usar a internet de 11h às 12h. Resposta positiva, então é só aguardar 15 minutos pelo horário marcado.

Em um balcão lateral, enquanto lê um livro e observa o ambiente (não necessariamente nessa ordem), o rapaz percebe que um senhor (aparentando mais de 70 anos, com roupas simples e olhos tristes) deixa um computador e vem em sua direção. Antes, ele passa no balcão de atendimento, pega uma folha que mandou imprimir, e começa o diálogo/monologo:

- Eu já fiz vários cursos aqui nessa galeria, alguns duas vezes. Fiz um para consertar computadores. Era uma sala com vários computadores quebrados, e nós íamos lá, mexíamos aqui, ali, e então a tela acendia… ligava. Você sabe que esse Telecentro não é da Prefeitura? Não é. Eles entraram apenas com o nome. Foi um projeto da União Européia, que decidiu colocar Telecentros em 83 países. Houve um evento em Barcelona, no começo deste ano, e o diretor deste Telecentro, sabendo que sou ator, pediu para que eu gravasse um vídeo para que ele pudesse mandar para lá. Eu sentei naquele cantinho, e sem ter ensaiado nada, fiz um improviso. Acabaram de me enviar esse email. Olha aqui. Está dizendo que o vídeo que eu mandei foi escolhido o terceiro melhor de mais de 80 que foram enviados. O terceiro melhor do mundo. Então, meu filho, saiba que podem roubar tudo o que você tem, mas nunca vão roubar o que você sabe. Se algum dia você estiver mal, as coisas não estarem dando certo, lembre-se disso. Olhe no espelho e pense em tudo o que você sabe fazer, pois isso é seu e ninguém pode tirar. Deus te abençoe.

Ele estendeu a mão ao rapaz para um aperto e sumiu na imensidão dos 11 milhões de habitantes de uma cidade que muitas vezes não tem rosto e nem coração, mas que surpreende vez em quando por respirar e ter alma. Alma. 

7 comentários

1 Camila { 05.31.09 at 12:34 am }

Ops, me pegou de surpresa. Resultado: lagriminha + :).
Bom domingão!

2 Fernanda Medeiros { 05.31.09 at 4:51 am }

Sempre pensei assim… Bom fds.

3 Márcio Viana { 05.31.09 at 12:11 pm }

Um ensinamento, realmente. Mac, desde que me mudei para São Paulo, algumas cenas semelhantes têm ocorrido comigo também. Metrópole, sabe como é… Portanto, acho que vou te copiar em breve e escrever sobre isso. Dando crédito, é claro! Abraço!

4 pedro hollanda { 05.31.09 at 11:09 pm }

grande texto, marcelo. delicado, lírico, bem atual levando em conta a sociedade atual.

mudando de assunto rapidinho… você já ouviu o disco novo da st. vincent, “actor”? um dos melhores do ano, em minha opinião.

5 Adriano Mello { 06.01.09 at 5:18 am }

Pode crer. Esse senhor está certo pra caramba…:)

6 Zavie { 06.01.09 at 3:14 pm }

Foda!

7 Mac { 06.01.09 at 3:18 pm }

Camila, na hora que ele segurou a minha mão, e disse para eu lembrar do que ele estava falando quando eu estivesse mal, bateu forte, viu.

Fê, você é um amor!

Marcio, fique à vontade!

Pedro, acho que até que baixei, mas não ouvi. Vou procurar!

Adriano e Zavie, aquele abraço! :)

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