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Enquanto o Natal não chega…

– 500 Toques na Revoluttion: esta semana, Jens Lekman, Suzanne Vega e Damon and Naomi
– David Byrne entrevistando Thom Yorke na Wired (você sabe que Radiohead é o nome de uma música do Talking Heads, né?) Aqui
– Diego Medina (ex-Video Hits) apresenta seu novo projeto, o pirado “Zombieoper”, um ensaio sobre o apodrecimento da humanidade em dois atos, assinado por Senador Medinha e Seridée Mondevac. Os dois álbuns estão disponiveis para download gratuito aqui.
– Daniel Peixoto avisa: 11 músicas novas do Montage para baixar no Trama Virtual. Pega.
– Caiu na Internet as cinco faixas que compõe o single “Conquest”, do White Stripes, uma das cinco grandes músicas de 2007. O single traz Beck cantando e tocando piano em “It’s My Fault for Being Famous”, fazendo slide guitar em “Honey, We Can’t Afford to Look This Cheap” e produzindo “Cash Grab Complications on the Matter”. O single ainda traz uma versão “acoustic mariatchi” da faixa título.
– Por último, a Revista O Grito publicou seu Top 25 e ainda traz uma lista especial com os votos de jornalistas convidados, entre eles este que vos escreve. Aqui.

dezembro 20, 2007   Encha o copo

Açai com vodka

Após uma dúzia de cervejas, papeando sobre misturas alcoólicas, contei que quando meu pai teve uma sorveteria em uma cidadezinha do interior, anos e anos atrás, uma das metas de minhas férias escolares era descobrir qual sorvete combinava melhor com uísque.

Morango e limão foram reprovados, mas chocolate e creme passaram com louvor. A Ligelena, que estava na mesa, contou que adora sorvete com vodka. Eu tinha comentado na mesa algo sobre minha vontade de comer açaí, foi quando deu o estalo na mesa: o que será que vai dar misturarmos vodka com açaí?

A Juliana não quis nem saber (depois, aprovou). O Guto protestou contra o uso de banana e granola. Eu, Jonas, Renata e Ligelena nem ligamos e aprovamos a mistureba toda. Depois que “bebemos” a primeira cumbuca na colher (com uma senhora dose de vodka), pedimos outra, que atendendo aos pedidos do Guto, veio sem granola, mas com banana. Desceu tão bem que já virou um dos pratos especiais do reveillon da turma.

dezembro 18, 2007   Encha o copo

Inteligência a favor da música

Dizer, a essa altura do campeonato, que Fernanda Takai sempre teve um jeito de Nara Leão é menosprezar a inteligência do ouvinte. Não que a semelhança inexista, mas é que usar esse argumento após o lançamento de “Onde Brilhem Os Olhos Seus” (álbum em que a vocalista do Pato Fu interpreta canções cantadas outrora por Nara) é mais do que chover no molhado: é render-se ao mínimo divisor comum das letras. E “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, por sua imensa qualidade, não merece isso.

Fernanda Takai sempre trafegou – de mãos dadas com o parceiro e marido John Ulhoa – em um território totalmente diferente do de Nara Leão, o do pop rock inteligente (algo raro em um mundo que valoriza o desgaste de fórmulas de sucesso). Nesta investida do casal (sim, “Onde Brilhem Os Olhos Seus” não é só um disco de Fernanda, mas também de John) por um território quase que totalmente desconhecido (o Fu brincou com o samba no batucão “G.R.E.S.” e no sambinha “Tribunal de Causas Realmente Pequenas”), o que mais chama a atenção é a não rendição as fórmulas fáceis.

Sim, pois por mais que o Pato Fu tenha se tornado uma instituição inatacável dentro do famigerado cenário brasileiro (importante: seguindo seus próprios passos) injetando genialidade num lugar caracterizado por monotonia, as fórmulas vão estar sempre presentes para que os “espertos” esvaziem os bolsos dos incautos. E não é que se esperasse de Fernanda e John, após tantos anos de bons serviços prestados a música brasileira, um salto ao lado negro da força, mas sacumé, o que esperar de um repertório calcado por clássicos incontestes do quilate de “Com Açúcar, Com Afeto”, “Luz Negra”, “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, “Insensatez” e “Ta-Hi”?

Porém, Fernanda e John surpreendem acolhendo este repertório de clássicos do cancioneiro nacional e os renovando com arranjos espertos que passeiam pelo “pop, rock, folk, jazz, dixieland, baião-techno e soul branco”, como analisa um dos idealizadores do projeto, Nelson Motta, no belíssimo trabalho gráfico do CD. Entre os pontos altos se destacam a fofa “Diz Que Fui Por Aí” (Zé Kéti / Hortensio Rocha), a deliciosa “Odeon” (Ernesto Nazareth / Hubaldo / Vinicius), a belíssima “Com Açúcar, Com Afeto” (Chico Buarque) e “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” (Roberto e Erasmo).

O que mais chama a atenção neste trabalho é a autoralidade da produção de John, que valoriza as canções e as transporta para um território conhecido (aquele em que o Pato Fu trafega com tranqüilidade) sem agredir as matrizes originais. Seria fácil e simplista demais para Fernanda fazer um disco homenageando Nara que soasse exatamente como Nara Leão soava.

“Onde Brilhem Os Olhos Seus” segue outro caminho: é a Nara travestida de Pato Fu (várias canções do álbum encaixariam perfeitamente no repertório da banda mineira), numa aproximação de Fernanda com Nara que, além de homenagear uma das grandes interpretes da MPB, permite valorizar uma das grandes personalidades musicais de nossa música atual: Fernanda Takai. E é nesse aproximação que o álbum consegue seu maior intento: valorizar duas interpretes que souberam, cada uma ao seu modo, usar a inteligência a favor da música.

dezembro 17, 2007   Encha o copo

Niemeyer, 100

Aprendi (e estou aprendendo) a admirar a arquitetura. Eu já tinha dividido apartamento com uma querida amiga arquiteta e quase namorado uma quase arquiteta, mas o meu modo de ver a cidade (“veracidade – haverá cidade”, ops, piada interna) mudou completamente quando Lili entrou em minha vida. Casas, prédios, construções, nomes de arquitetos passaram a fazer parte da minha rotina, e eu comecei a gostar disso.

Isso tudo aconteceu, em larga escala, por culpa não só de Lili, mas também de suas (e minhas) queridas amigas Ligia e Kátia. Ver Lili, Ligia e Kátia conversando/discutindo arquitetura é algo bastante inspirador. Parece conversa de boteco sobre futebol, mas elas estão falando sobre os maiores arquitetos do mundo, suas obras, concordando e discordando sobre coisas que eu nem mesmo consigo emitir uma opinião. É bonito de se ver, garanto.

Foi por influência de Lili que aprendi a curtir muito mais o mundo a minha volta, e por conseqüência, descobri um Rio de Janeiro totalmente novo em nossas viagens a cidade maravilhosa. Faz anos que faço uma viagem anual ao Rio. Amo a cidade, o ar, as praias, tudo. Mas ir ao Rio de Janeiro com uma arquiteta é algo bastante diferente. O roteiro passa também por pontos turísticos, mas existem muitos outros que um não arquiteto consegue imaginar.

Na última vez que fomos fizemos um tour com base nos mapas do “Guia de Arquitetura Moderna do Rio de Janeiro”, e foi muito legal. No roteiro, obras como o Palácio Gustavo Capanema (Ministério da Educação e Cultura), marco da arquitetura modernista brasileira (que envolve os nomes de Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcelos, Roberto Burle Marx e Lê Corbusier) , o Edifício Sede da Petrobras (meu preferido – foto), o Edifício do BNDES, o MAM e o Parque Guinle (queremos morar lá, um dia – olha a vista), entre outros.

Porém, apesar de aprender a admirar estas obras, nunca achei que fosse ficar sem ar diante de uma. E isso aconteceu (e acredito que vá acontecer sempre) nas duas vezes que visitei o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, o MAC, obra de Oscar Niemeyer. Eu já tinha esbarrado em várias obras do Niemeyer aqui e ali em minha vida (gostado mais de umas do que de outras), mas o MAC foi algo bastante especial.

Na primeira vez, fomos eu e Lili. Descemos um ponto de ônibus antes, e foi legal porque permitiu observar o museu de longe. Ele surge do nada, quase uma curva, e realmente parece um OVNI que pousou na beirada de um despenhadeiro. Conforme você se aproxima, ele vai se tornando imponente, e impressionando, mas nada se compara a belíssima visão que temos dentro do Museu. A área de exposição é minúscula e, não tem jeito, compete com a maravilhosa “varanda”, área que traz uma grande janela aberta para a Baia de Guanabara. É inesquecível.

Por mais que me sinta tentado, porém, é pretensão demais da minha parte escrever algo sobre arquitetura tendo estas três experts na sala de casa discutindo o tema com a mesma facilidade com que discuto cultura pop com os amigos. Então, longe de querer soar xereta bisbilhotando em território alheio, deixo este post singelo como uma sincera homenagem ao senhor Oscar Niemeyer, que ontem completou 100 anos. Em algum momento da visita ao MAC meus olhos encheram de lágrimas, e é preciso reconhecer e agradecer quando alguém toca nossa alma dessa forma. Niemeyer, parabéns. E Lili, Ligia e Kátia, obrigado por terem aberto essa porta.

dezembro 16, 2007   Encha o copo

Música do ano, banda do ano

O Terminal Guadalupe (responsável pelo grande disco de 2007, “A Marcha dos Invisíveis”) está disponibilizando em seu My Space uma versão ao vivo de “Grupo de Extermínio De Aberrações” (música do ano), do Violins, a grande canção de 2007. Presente em shows recentes do TG pelo país, essa gravação foi registrada na noitada que reuniu Violins e TG em Curitiba, no mês passado, e que deveria ter contado com a presença deste DJ eventual, caso o trânsito de São Paulo não tivesse praticamente parado naquela sexta-feira. Essa versão do Terminal Guadalupe para “Grupo de Extermínio De Aberrações” conta com a participação de Beto Cupertino, letrista e vocalista do Violins, nos vocais.

dezembro 14, 2007   Encha o copo

Noitada divertida

Com a chuva insistente, poucas pessoas se arriscaram a ir ao Studio SP nas noite de ontem, e perderam uma balada pra lá de divertida. No palco, garotas semi nuas, o mestre Loop B dando uma aula de batucada em peças de lata e Aguilar comandando a bagunça. Assumo que eu tinha medo desse show, e quer saber: ele está correndo um sério risco de integrar a minha listinha de Top 5 de Shows Nacionais deste ano.

No repertório, canções oitentistas como “Você Escolheu Errado Seu Super-Herói” e “Monsieur Duchamp” e coisas novas como “Come Chocolate” e “A Dama do Cyber-Espaço”. Show divertido, garotas bonitas, me arrependi de não ter levado a digital. Na discotecagem o set foi totalmente desencanado. Do que lembro foram as canções abaixo. Com meia dúzia de Bohemias correndo nas veias, voltei pra casa por volta das duas (acho) caminhando pelas ruas de São Paulo. Tava com saudade disso…

Rolling Stones – Rain Fall Dawn
Kaiser Chiefs, Flowers In The Rain
Radiohead – Bodysnatchers
Mika – Can’t Stand Losing You
Beck – New Pollution (Remix)
Interpol – Slow Wands (Brit Remix)
Bloc Party – Banquet (Remix)
Calexico – Love You Tears Us Apart
The Doors – Alabama Song
The Rolling Stones – Get Off Of My Cloud
Grant Lee Bufallo – The Shining Hour
Morphine – Cure For Pain
Corinne Bailey Rae – Steady, As She Goes
Guillemots – Made Up Love Song #43
Wilco – A Shot in the Arm
Teenage Fanclub – About You
Afghan Whigs – Somethin’ Hot

dezembro 13, 2007   Encha o copo

Papai Noel mandou um recado

Seguinte, não lembro ao certo quantas vezes insisti para que alguém comprasse algo, seja um CD ou um livro. Acho que já escrevi várias vezes “vá ver este filme”, mas nunca “compre este livro”. E, pelo que me lembro, insisti em um texto para que o leitor comprasse o “Songs For The Deaf”, do Queens of The Stone Age (muito embora eu tenha ido fuçar o jornal Alternative Voices, em que eu tinha uma coluna, visto a resenha, e não encontrado a frase “compre, compre, compre”).

Se grana fosse solução e não um problema, eu juro que entraria numa pilha de mandar um livro de natal para s leitores que me escrevessem, mas como isso ainda não pode acontecer (um dia ganharei o meu primeiro milhão, espere) devido ao estado calamitoso da minha conta bancária, vamos fazer um trato: eu escolho o seu presente, aquele que você vai dar pra si mesmo, você compra, e quando a gente esbarrar em algum lugar (show, festa, discotecagem, jogo do Corinthians na segunda divisão), leva o livro que eu escrevo: “Do Mac, com carinho, para…”

Tô falando sério.

O lance é o seguinte. Recebi hoje, via Submarino, meu presente de natal pra mim mesmo: “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer”, editora Sextante. O livro é um calhamaço de quase mil páginas (960 para ser preciso) e – na passada de olho que dei – vale muito a pena. Li textos sobre “Born In The USA”, do Bruce Springsteen (”Em seu espírito – amor, ar e honestidade – este álbum é pura alma e coração”), “Ocean Rain”, do Echo and The Bunnymen (”Enquanto o U2 e o Simple Minds tocavam em estádios, o Echo percorria as ilhas da costa oeste da Escócia; ‘Ocean Rain’é a prova do que, em última instância, essa escolha foi mais compensadora”) e “Beach Samba”, de Astrud Gilberto (”Quem pode resistir a um disco que começa com: ‘Stay… and we’ll make sex and music’”).

Ou seja, faltam 998 outros discos para eu ler (e muitos para escutar), mas não é sobre esses discos que eu quero falar. O que quero dizer é que você merece esse livro de natal. Mesmo. Comprei o meu no Submarino por R$ 37,30, frete gratuito (até onde sei, pra todo Brasil), e poucas vezes a relação custo/investimento foi tão proveitosa quanto neste caso. Seria muito melhor se eu tivesse com os links patrocinados ativos no site (para o ano que vem, para o ano que vem), assim até eu conseguia faturar alguns centavos com cada compra que saísse daqui (sacumé), mas a idéia mesmo é que você tenha esse livro em seu colo antes do final de ano, para começar o ano bem. Pois “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer” é cultura pop de alta qualidade.

Deixa de comprar quatro Rolling Stone (você acha em sebo fácil depois), manera nas vódegas na balada (ao invés de beber três por noite, bebe uma pinga e pronto), aproveita a oportunidade para dar um tempo no cigarro, economiza e compre este livro para você mesmo. Sobretudo, devore cada pedaço dele como se fossem variações da sobremesa que você mais gosta. Tem coisas neste livro para as quais você ainda não está pronto (nem eu), mas que um dia você irá ouvir e, quem sabe, gostar. Coisas de jazz, blues, punk, metal, disco, soul, hip hop, música experimental, dance, world e, claro, o recheio, rock e pop. Coisas finas, garanto.

Decidi escrever tudo isso acima, com toda pieguice que esse texto permite, porque eu adoraria que alguém empurrasse esse livro sobre mim se eu não soubesse da existência dele. E, cá entre nós, se você “perde tempo” visitando este espaço rotineiramente (sei lá, uma vez por dia, por semana, por mês, por ano), este livro é a sua cara, como é a minha. Vai lá. Este é o presente que Papai Noel (velho batuta) quer te dar neste ano. Tem gente que queria um carro, uma casa, o box com as dez temporadas do Friends ou um ticket para assistir a um dos shows da volta do Led Zeppelin, mas estou feliz com este livro em meu colo. Espero que você também fique. Vai lá. Sid Vicious está te encarando.

Feliz Natal

dezembro 11, 2007   Encha o copo

Cinema: “A Vida dos Outros”

“A Vida dos Outros”, de Florian Henckel von Donnersmarck – Cotação 5/5

Georg Dreyman (Sebastian Koch) é considerado o maior dramaturgo da Alemanha Oriental, tido por muitos como modelo perfeito de cidadão para o país, já que não contesta o governo nem seu regime político. Aparte importante: a história se passa no começo da década de 80, quando um muro (ainda) separava as duas Alemanhas, e a RDA (República Democrática da Alemã), por meio de sua polícia política, a Stasi, vasculhava a vida de seus moradores procurando desertores e pessoas contrárias ao regime, que sumiam na noite para nunca mais voltarem ou eram completamente colocadas à margem na sociedade.

Dreyman não planeja nada contra o governo da RDA, mas o ministro da cultura, Bruno Hempf, tem lá suas dúvidas, e pede a Stasi um pacote completo de escuta telefônica na casa do teatrólogo, motivado primeiramente por desconfiança, e posteriormente por interesses pessoais (sexuais). Anton Grubitz (Ulrich Tukur), um chefão da Stasi, encarrega o amigo Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), seu subordinado, para o serviço. Wiesler é um dedicado funcionário do governo que leciona para futuros profissionais da polícia enquanto se gaba de conhecer as artes da tortura emocional em sessões de interrogatório.

Temos, então, quase todas as principais peças no tabuleiro para movimentarmos o roteiro impecável de “A Vida dos Outros” (escrito e dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck). A única peça que falta é Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), atriz e namorada do dramaturgo. Christa exala encanto e todas as outras peças, em momentos diferentes do filme, circulam ao seu redor, revelando – talvez – a única fragilidade ideológica da obra: as mulheres (com base neste personagem feminino) são mais vulneráveis, inseguras e maleáveis do que os homens, o que não deixa de ser uma meia verdade (machista, mas meia verdade), e permite indagações que, se não chegam a manchar o brilho poético da obra, abrem uma fresta que pode revelar uma premissa insustentável.

Porém, “A Vida dos Outros” exala muito mais luz e emoção por outras frestas desta casa vigiada 24 horas por dia por agentes da RDA. O capitão Wiesler dedica-se nas análises das escutas e, quando percebe, está completamente envolvido pela vida de Dreyman e Christa. Por outro lado, o ministro pressiona seus subordinados para que eles encontrem algo que possa incriminar o dramaturgo. Há, no personagem do capitão Wiesler, um senso de dever ao governo que se confronta com seu próprio senso de justiça, o mesmo que faz com que ele – friamente – arranque confissões em interrogatórios. É na visão delicada deste embate entre dever e justiça que “A Vida dos Outros” se transforma em poesia cinematográfica.

Seu ápice climático acontece, não à toa, no ano de 1984, e cria um paralelo com a famosa obra de George Orwell – que também discute vigilância estatal e o retorno a um regime parecido com o estalinismo. As citações são várias. Em uma delas, um escritor – simpatizante dos dissidentes – recebe uma máquina de escrever que contém as letras do alfabeto romano para que ele possa redigir um texto para ser publicado do outro lado do muro, pois na RDA era expressamente proibido o uso de uma máquina dessas, e quem as usasse seria tratado como traídor do regime político. Em “1984”, o livro, o estado controlava o pensamento dos cidadãos, entre muitos outros meios, pela manipulação da língua.

O aprofundamento teórico, no entanto, é apenas um verniz que faz brilhar ainda mais uma história tocante, que é contada sem atropelo, exageros ou maniqueísmos. Por mais que a política esteja no pano de fundo de sua história, o filme se impõe como um tratado cuidadoso sobre a natureza do ser-humano e das próprias relações humanas. Em certo momento, o ministro diz ao dramaturgo, em tom de (falso) elogio: “Você acredita que as pessoas mudam… isso é bonito em peças de teatro… mas elas não mudam”.  Von Donnersmarck, o diretor, discute essa certeza de seu personagem com muito lirismo.

Com um orçamento ridículo para os padrões hollywoodianos (US$ 2 milhões), “A Vida dos Outros” se vale de um roteiro impecável, atuações convincentes e uma direção tão delicada que nem se faz perceber durante os 137 minutos empolgantes da fita. Além de levar o Oscar de Filme Estrangeiro, o filme conquistou o Independent Spirit Awards e o Globo de Ouro na mesma categoria, levou três estatuetas no European Film Awards (Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Roteiro) e é o recordista de indicações (11 no total) na história da premiação anual da Alemanha.

Muita gente não leva o Oscar a sério, e com certa razão, já que a premiação comete erros históricos e omissões imperdoáveis. Porém, é importante lembrar que nem só de escorregadas vive a Academia de cinema mais famosa do mundo. E no quesito acertos, “A Vida dos Outros”, vencedor na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2007, é um belíssimo exemplo para ilustrar o caso.

Mais: se houvesse justiça cinematográfica no mundo, “A Vida dos Outros” poderia ser apontado o Melhor Filme de 2006 numa final entre língua inglesa e não inglesa (algo como o Campeonato Interclubes de futebol – hehe). Não que Scorsese não merecesse um Oscar pela carreira (ele merecia, ele merece), mas enquanto “Os Infiltrados” é uma poderosa crônica sobre o submundo (e perda de valores), “A Vida dos Outros” é uma poesia sobre o início da verdadeira revolução: ela começa em nós mesmos. Ambos são filmes impecáveis e sensacionais, mas politicamente, perdoe a pieguice, fico com o segundo.

Ps. Ulrich Müher, falecido neste ano, merecia uma indicação como Melhor Ator, no mínimo.

dezembro 11, 2007   Encha o copo

Nokia Trends 1 x 2 Calor

O Nokia Trends encerrou, na noite de sábado (ou, como alguns brincaram, na manhã de domingo) o calendário mais caótico de shows que este país já assistiu em um ano. O festival já saiu perdendo em termos de escalação em comparação com sua própria edição de 2006 (com Soulwax, Hot Hot Heat, We Are Scientists e Bravery), e se tivesse mantido a belíssima estrutura já seria um grande ponto a favor frente ao fiasco do Tim Festival SP deste ano.

Porém, a adaptação do palco no Memorial da América Latina apresentou alguns problemas, cujos principais foram os poucos banheiros disponíveis e, principalmente, o ar-condicionado insuficiente para a quantidade de gente que lotou o festival. A quantidade de caixas e bares foi satisfatória, com um único defeito a ser ressaltado: os caixas só vendiam cartelas de R$ 10 com cinco fichas de R$ 2. Ou seja, se você quisesse comprar um refrigerante, que estava custando R$ 4, teria que comprar a cartela de R$ 10 e “morrer” com os outros R$ 6 (eu voltei com R$ 2 pra casa).

E a música?, pergunta o leitor que entrou aqui para saber disso: Artificial, projeto do Kassin, é uma piada de mau gosto; para falar do Underground Resistence foi usar a frase de um amigo: “Só falta entrar a Gloria Estefan cantando“; não lembro do Van She, um pouco por causa da mistura de vodka e gin, e também porque eles são esquecíveis mesmo; o Phoenix foi bem bom. “Consolation Prizes“, a única música deles que permaneceu no meu computador, ficou muito boa ao vivo. Não que eles valham uma noite, mas são competentes e isso basta; e o She Wants Revenge foi… fraquinho.

Ok, estou sendo exigente demais. O She Wants Revenge é datadaço e não deveria estar tocando naquele local, uma tenda quente hiper-maxi-iluminada cheio de gente estilosa e/ou tentar mostrar algum estilo. O som do She Wants Revenge não casa com a proposta do lugar. Eles precisam de um ambiente menor, mais escuro, mais dark, mais gótico, mais tudo. Não dá para ouvir a voz a la Sisters of Mercy do vocalista do She Wants Revenge com o sol nascendo. Vampiros não podem com o sol. É tão primário.

Na verdade, a escalação de todos os grandes festivais pecou, e muito, em 2007. Tudo o que o marketing tentou vender neste ano foi por água a baixo pelo que se viu no palco. Killers não tem nada a ver com o Tim Festival. Kasabian não é uma banda de porte para fechar um festival tão bacana quanto o Planeta Terra. E She Wants Revenge não pode tocar com o dia clareando. Fica parecendo que, antigamente, os curadores destes festivais iam atrás daquilo que achavam melhor, mas agora pegam o que está dando sopa no mercado de shows. Algo tipo: “Temos essas 20 bandas querendo tocar na América do Sul, qual delas você quer?“.

Trocamos a curadoria pela facilidade (e economia) do que já está no circuito de shows. Para que um curador vai se preocupar em trazer algo novidadeiro se o Killers está dando sopa na América do Sul, não é mesmo? Acontece que a roda não deveria girar desse jeito. Para o Tim Festival, que vende o slogan “música sem fronteiras” e aposta em nomes pouco conhecidos do grande público, o Killers é mega e estaria perfeitamente encaixado como headliner do Terra (iria ser perfeito). E isso abriria para o Tim investir em nomes como Calexico (que estava rodando a América do Sul meses atrás), Beirut (top ten em dezenas de listas de melhores do ano) ou até apostar num Twilight Singers e Soulsavers, garantia de shows inesquecíveis e bom investimento pop.

Dos três grandes festivais deste ano (vamos combinar que o Motomix não existiu, ok), o Nokia Trends foi o que errou menos. O Planeta Terra foi perfeito na estrutura, mas faltou arriscar mais num grande nome que pudesse dar suporte ao evento. Quando se fala mais do quão a estrutura de uma festival foi legal estamos sinalizando que a música ficou em segundo plano. O Tim Festival SP teve alguns dos melhores shows do ano, mas foi terrivelmente frustrante no quesito produção. E o Nokia Trends desceu uns degraus no quesito produção e line-up, mas continuou na mesma vibe dos anos anteriores (nomes pequenos, produção cuidadosa, boa festa). Num mundo ideal, os erros cometidos neste ano deveriam servir de aprendizado para o ano que vem, mas não vou ficar surpreso se todo esse cenário se repetir. Mesmo.

dezembro 10, 2007   Encha o copo

Top Ten: 10 shows nacionais

Na semana passada publiquei o meu Top Ten pessoal de shows internacionais; nesta semana é a vez dos shows nacionais mais bacanas que eu presenciei em anos e anos de empurra-empurra, cerveja quente, voz rouca no final da noite e momentos inesquecíveis na memória. Diferente da seleção gringa, que aumentou nos últimos anos, a lista nacional remonta aos anos 80, época em que o rock nacional mudava vidas e as bandas – no ápice – passavam todo ano por Taubaté, cidade em que eu morava. Com certeza não é uma lista dos melhores shows brasileiros de todos os tempos. São os melhores shows que eu vi, é bom deixar claro (tem mais 40 aqui).

Porém, fazer uma lista dessas é um teste e tanto de memória que, no meu caso, não anda tão bem (esqueço nome de filmes, artistas, pessoas – às vezes o meu nome mesmo). Com toda certeza, em alguns dos relatos deverei cometer algum erro de data, trocar algo que aconteceu em um show (música, frase) com o que aconteceu em outro (imagina o Ira!, que eu vi mais de 50 vezes ao vivo), mas isso tudo faz parte de uma das coisas mais bacanas da vida: ter histórias para contar. E muitas das histórias da minha vida têm relação com música, então, vamos a dez pequenas histórias dos meus dez shows prediletos:

01) Jards Macalé no Theatro Municipal (2007)
Macalé é um caso de paixão recente em minha vida. O “descobri” apenas em 2001, quando um amigo me deu de presente uma cópia em CDR do álbum “Farinha de Desprezo” (fora de catálogo), debute de Macalé em 1972 logo após ele ter produzido, em Londres, o clássico “Transa”, de Caetano Veloso. Porém, de 2001 pra cá fui compensando a descoberta tardia com várias audições do álbum e de outras pepitas de seu excelente repertório.

Então a Prefeitura de São Paulo, em uma iniciativa louvável, convocou o maldito para se apresentar às 3 da manhã no imponente palco do Theatro Municipal da cidade no meio da Virada Cultural que agitou a cidade neste ano tocando “Farinha de Desprezo” na integra. Grande notícia: Jards teria ao seu lado a lenda da Tropicália Lanny Gordin, que gravou todas as guitarras e baixo do álbum em 1972. Às 3 da manhã lá estava eu na primeira fila do Theatro Municipal frente a frente com a história da música (im)popular brasileira.

O show foi um crescendo incrível seguindo o tracking list do álbum original, com a faixa título (que ganhou versão, nos anos 80, do Camisa de Vênus) abrindo e sendo seguida por “Revendo Amigos”. Em “Mal Secreto” (um dos grandes momentos da madrugada), o teatro lotado seguiu no embalo da canção comandada pela guitarra de Lanny. “Movimento dos Barcos”, “Farrapo Humano”, “Let’s Play That”, “Meu Amor Me Agarra & Geme & Treme & Chora & Mata” e, no bis, “Vapor Barato” fizeram desta noite algo inesquecível, difícil de traduzir em palavras. Por sorte, lá estava eu com minha boa câmera digital. O vídeo que filmei, e que Capitu postou no Youtube, pode ser visto aqui. Ele dá uma boa dimensão da grandiosidade dessa noite.

Leia mais sobre o show e a Virada Culural

02) Legião Urbana no Clube de Regatas em São José dos Campos (1992)
Foram cinco as vezes que assisti a um show da Legião. Os primeiros (da turnê do álbum “Dois”, em 1987, e do “Quatro Estações”, dobradinha em um 12 e 13 de junho no Taubaté Country Club em 1989) foram terríveis. Só dava para ouvir a caixa de bateria do Bonfá e a voz do Renato, mais nada. Já neste foi tudo diferente. Primeiro devido ao fato da turnê do álbum “V” não ter passado por Taubaté, o que me fez ir com amigos assistir ao show em São José dos Campos (cidade quase vizinha). Tentei pescar na memória, mas não consegui: não lembro se o show foi no Teatrão ou no Clube de Regatas (ou em algum outro lugar).

Sei que, segundos após a banda ter iniciado a apresentação com “Será”, a placa que separava o público do palco arrebentou, e alguns fãs foram parar embaixo das armações. Assim que seguranças formaram uma nova placa de proteção, acabei ficando na primeira fileira, quase com os braços apoiados no palco. Foi perfeito. O som, desta vez, estava muito melhor. A iluminação era uma das mais belas que eu havia visto até então. E o trio que acompanhava Renato, Dado e Bonfá desde a turnê do álbum anterior já estava bem entrosado, o que deu qualidade a apresentação.

Mas não tem jeito: quando se fala em Legião ao vivo, se fala de Renato Russo e seu costumeiro show particular sobre o palco. Neste show ele estava possesso, transformando quase todas as letras novas (do álbum “V”) em ataques diretos ao então presidente Fernando Collor, tais como em “Metal Contra as Nuvens”: “Perdi a minha sela e minha princesa / Perdi o meu castelo e minha poupança” ou “Reconheço o meu pesar / Quando tudo é traição / O que venho encontrar / È o dinheiro em outras mãos” ou “E por honra, se existir verdade / Existem os tolos e um presidente ladrão”. Fez mais: simulou um desmaio, cantou o “Hino Nacional” (na verdade, “Carinhoso”) inteirinho dentro de “Vento no Litoral” e, em “Sereníssima”, na parte final do show, arremessou o pandeiro – que o acompanhava desde o início – com violência ao chão dividindo o instrumento em três partes. Uma delas ilustra o final deste texto. Foi a última vez que vi Legião ao vivo, e foi sensacional.

03) Titãs no Taubaté Country Club (1986)
Em 1986 era possível fazer seus pedidos a uma rádio FM, e ouvi-los, diferente de hoje, em que o que toca é tudo aquilo que está no borderô designado pela área de marketing das gravadoras. Em 1986 o Titãs havia lançado “Cabeça Dinossauro”, um disco pesado que criticava três grandes instituições (a polícia, a família e a igreja) ao mesmo tempo que clamava para que os bichos escrotos saíssem dos esgotos e as zebrinhas listradas fossem “se foder”. Houve um boicote inicial por parte das rádios, mas a voz do público (que superlotava as apresentações) e pedia canções insistentemente nas rádios foi mais forte.

Ao contrário de vários grupos que melhoravam ao vivo (como o Ira!) ou pioravam (como a Legião ou o Capital Inicial), o Titãs fazia no palco exatamente a mesma coisa que você ouvia no velho vinil, com o acréscimo da troca constante de vocalistas e outros destaques visuais. Ou seja: eles eram perfeitos ao vivo. A quadra do Taubaté Country Club (clube classe A/B de Taubaté) era o local oficial de shows na cidade, e tinha todos os defeitos que se pode esperar de um local adaptado para tal função: péssima acústica, iluminação sofrível e vários outros pontos negativos.

Porém, no palco, estavam os Titãs em sua formação completa exalando raiva e testosterona em uma apresentação irrepreensível. Os shows da turnê “Cabeça Dinossauro” eram punk rock para as massas. Lembro de uma frase de um amigo durante a execução de “Porrada”, cantada por Arnaldo Antunes: “Tem gente caindo da arquibancada!!!”. Aquilo era impressionante demais para jovens de 15 anos que não tinham como entender “A Face do Destruidor”, mas queriam berrar para toda sociedade ouvir o “vão se foder” de “Bichos Escrotos”, censurada nas rádios, mas um hino da galera.

04) Sepultura no Olympia (1996)
O último grande show do Sepultura em terras brasileiras antes da saída de Max e do declínio criativo. No palco, a banda dividia as honras da casa com o Ratos de Porão, que fez um show violento e assustador. O Sepultura estava em alta no mercado. Tinham lançado “Roots”, que os havia transformado na banda de metal número 1 do mundo. Ao vivo não tinha como discordar. Porradas mais antigas como “Inner Self” e “Troops Of Doom” conviviam lado a lado com hinos do calibre de “Dead Embryonic Cells”, “Territory”, “Refuse/Resist” e versões de “Monólogo Ao Pé Do Ouvido” (Chico Science e Nação Zumbi) e Titãs (”Policia”). Pra fechar a tampa, “Orgasmatron”. Aliás, essa música me lembra um dos meus grandes momentos em festivais: Hollywood Rock, Pacaembu, última música do show do Sepultura, e eles tocam ela. Giro 360 graus e o estádio inteiro pulava ao som do clássico do Motorhead. Até hoje acho que o show fraco show do Urge Overkill, que veio na seqüência, foi bundamolice frente a um público – pra eles – tão metal.

05) Ira! no Aeroanta (1991)
Eu já tinha visto dezenas de shows do Ira! até então, mas eles estavam lançando um bom disco (”Meninos da Rua Paulo”) e fecharam uma temporada de três noites no Aeroanta, que ficava Plaza of the Potato (como carinhosamente chamávamos o famoso Largo da Batata, em Pinheiros), em São Paulo. Uma coisa era ver o Ira! tocar em Taubaté ou Campos do Jordão. Outra, totalmente diferente, era vê-los em São Paulo. A banda tocava muito mais á vontade, mais solta. Nasi chegava ao microfone e dizia: “É bom poder vir a pé de casa pro show”. Isso tudo se refletiu nas três noites, com uma banda inspirada tocando clássicos próprios e covers como “Stand By Me” (famosa com Lennon), “Should I Stay or Should I Go” (Clash) e “Foxy Lady” (Hendrix). Na última noite, sábado, eles bateram o recorde de público da casa. Em “Núcleo Base”, Nasi provocou: “Você pensa que sou louco, mas estou só te olhando / Você pensa que sou tolo, mas não sou corintiano”. Eu e mais uns dois berramos no microfone: “Timão”. Ele riu. Bons tempos.

06) Graforréia Xilarmônica no Upload Festival, Sesc Pompéia (2001)
Após dois discos exemplares de tão bons (a estréia, “Coisa de Louco II”, de 1995, e “Chapinhas de Ouro”, 1998), a Graforréia pendurou as chuteiras no final de 1999. Em novembro de 2001, porém, o trio se reagrupou para uma apresentação única na segunda noite do Upload Festival, e a cena indie nacional estremeceu. O palco do teatro do Sesc Pompéia deixou de existir naquela noite: não havia separação entre banda e público. O show foi um coro entoando canções como “Amigo Punk”, “Eu”, “Nunca Diga”, “Grito de Tarzã”, “Eu Gostaria de Matar Os Dois”, “A Empregada”. Uma comunhão entre banda e público como poucas vezes presenciei na vida que, por si só, já bastaria para colocar o show nesta lista pessoal, mas houve “o momento”: devido ao limite estourado do horário, a organização do Sesc Pompéia optou por encerrar o show na força (melhor, na falta de força). Desligando o som, o Sesc acredita que colocou fim à noite. Engano: pedindo silêncio, os três integrantes fazem ainda mais uma música, com os instrumentos desligados. O público cantava em um coro sussurrado e pulava abraçado no refrão de “Colégio Interno”. No último acorde, mudo, o público tomou o palco para cumprimentar a banda. De emocionar.

07) RPM no Taubaté Country Club (1987)
Paulo Ricardo tenta a todo custo denegrir sua própria imagem o tanto quanto pode (e agora volta a cuspir na escultura com o lançamento da biografia de título infame “Revelações Por Minuto”), mas é impossível não baixar a cabeça e considerar como marco a turnê “Rádio Pirata ao Vivo”, que sacudiu o país na segunda metade dos anos 80 rendendo o disco de rock mais vendido de todos os tempos em terras brasilis. Eles tinham passado pela cidade com o bom show da turnê anterior um ano antes, mas em 1987 eles eram outra banda, outro negócio, algo mais cabeça e profissa. O começo – com a introdução de tecladeira de “Revoluções Por Minuto” – é claro na memória até hoje assim como a imagem de meninas chorando compulsivalmente na platéia. Acho que foi o mais próximo que estive da beatlemania.

08) Mundo Livre no Sesc Pompéia (2000)
Eu estava desempregado e desiludido. Tinha chovido, e aquele cheiro de terra molhada estava no ar, me fazendo sentir saudades de casa (eu tinha acabado de me mudar pra São Paulo). O futuro era negro, e resolvi expurgar os demônios assistindo a uma das bandas que eu mais respeitava, a banda que tinha me feito escrever meu texto e montar um fanzine alguns anos antes. Eu nem tinha ouvido o disco que eles estavam lançando, “Por Pouco”, e que seria a base do show, mas ser surpreendido era tudo o que eu precisava para levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Em um rascunho de texto da época escrevi: “Eu nunca pensei que fosse me culpar por não saber sambar.”. Do capítulo “shows podem mudar a vida de uma pessoa para sempre”.

Rascunhos de uma resenha perdida

09) Los Hermanos no Blen Blen (2002)
A banda certa no momento certo. Em 2002, o Los Hermanos era o grande nome da música nacional. Eles tinham brigado com a gravadora e lançado um álbum fenomenal, “Bloco do Eu Sozinho”, que se não repetiu as vendas da estréia (300 mil discos ancorados no sucesso radiofônico de “Anna Julia”), deu a eles o respeito da crítica especializada e de um público que, naquela primeira hora, ainda não os tratava com a devoção dos anos seguintes, mas já cantava todas as músicas. Era um show de apenas dois álbuns, ou seja, pouca coisa ficou de fora. E tinha serpentinas em “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, e tinha a espetacular “A Flor”, e tinha a sentimental “Sentimental”…

10) Edgard Scandurra no Sesc Consolação (2002)
Para assistir a esse show, eu sai de casa três minutos antes do horário marcado. Quando cheguei à área de convivência do Sesc Consolação, Edgard estava afinando o violão e um público de aproximadamente 300 pessoas procurava o melhor lugar para ver a apresentação. O pequeno show fazia parte do projeto Sons 80, do Sesc SP, que visava trazer um artista significativo mostrando canções dos anos 80 em formato voz/violão. Scandurra abriu o projeto com “Saída” e “Mudança de Comportamento”, ambas do primeiro e clássico disco do Ira! de 1985. Seguiu-se “Casa de Papel” e “XV Anos” de “Vivendo e Não Aprendendo”. De “Meninos da Rua Paulo” ele retirou “Amor Impossível”, “O Tolo dos Tolos”, “Não Mataras” e uma versão arrepiante de “Prisão das Ruas”. Ali pelo meio, disse: “Essa eu acho sempre atual. Todas as manhãs de domingo são assim”, e mandou uma das grandes canções de um dos prováveis melhores discos de todos os tempos do rock nacional: “Psicoacustica”. Inesquecível.

Texto da época para a revista Rock Press

E você: quais são os seus dez shows nacionais inesquecíveis?

dezembro 7, 2007   Encha o copo