por Mac

– Hoje faz 14 anos que o cara que inspirou o nome desse blog se foi.
– Estão ótimos os comentários da coluna “Você trocaria todos os seus CDs por MP3?” (leia e comente aqui) Vou tentar escrever uma nova coluna refletindo os comments.
– Os discos novos do Bazar Pamplona (”À Espera de Nuvens Carregadas”) e do OAEOZ (”Falsas Baladas e Outras Canções de Estrada”) estão fazendo bonito aqui em casa.
– Ando viciado na caixa “Ensaio Geral”, do Gil, que cobre o período dele na Phillips (1967/1977). Primeiro foi “Viramundo” (ao vivo com coisas dele pós exílio) e agora é “Cidade de Salvador” quem disputa espaço na correria do dia-a-dia.
– Queria dormir ouvindo o novo do Spiritualized por dias e dias e dias…
– Listei sete filmes em cartaz no sábado passado para tentar ver um por dia. Assisti a “Shine a Light” no sábado mesmo, ‘matei a aula’ no domingo (mas vi “Era Uma vez no Oeste” – ah, a Claudia Cardinale – Zé Ricardo, foi só um suspiro), e preguicei ontem. Hoje eu ia tentar fazer uma rodada dupla. A idéia era ver “A Famíla Savage”, “O Banheiro do Papa” ou “Irina Palm” ás 19h e pouco e emendar com “Antes de Partir” ás 22h. Ainda na lista: “A Culpa é do Fidel” e “Senhores do Crime”. Porém, apesar de ter chegado em casa com tempo de sobra para pegar as duas sessões, uma chuva forte me fez perder a primeira, e no horário da segunda eu já estava me divertindo com um pacote de CDs importados que chegou em casa. Ou seja, nada de cinema.
– Isso tudo sem contar que começou o Ciclo Melhores Filmes de 2007 do CineSesc. Ou seja: mais filmes para se ver. Quinta vou assistir ao “Em Paris” e tentar pegar algum da listinha… :/
– E para você ver como sou um dos caras mais enrolados do mundo, hoje que decidi falar da exposição Magnum 60 anos, descobri que a exposição acabou anteontem. Catzo. Vi a exposição umas semanas atrás, e fiquei tão emocionado com algumas fotos, de encher os olhos mesmo (disfarçando pra Lili não perceber), que tinha que comentar aqui. Hoje, que devido a desistência de dois filmes, sobrou um tempo, a exposição já saiu da Paulista. O mínimo que posso fazer e linkar uma galeria com várias das fotos que estavam lá expostas e abrir e fechar este post com as minhas duas preferidas.
A primeira, que abre esse post, é de Marc Riboud, e data de 21 de outubro de 1967. Milhares de manifestantes estavam na frente do Pentágono, em Washington, para protestar contra a guerra no Vietnam. O fotógrafo, que trabalhava para a agência Magnum, seguiu uma determinada jovem que parecia querer colocar uma flor na arma de um soldado da Guarda Nacional. Diz se não é uma foto de chorar? A segunda tem um viés mais cômico, característica do fotógrafo Elliott Erwitt. A foto em questão, “Felix, Gladys and Rover” mexeu comigo de tal forma que, se pudesse, eu teria arrancado a moldura da exposição e levado pra casa. Olha a expressão do Chihuahua!!!! Linda demais. Bah, chorei de novo. A propósito, a Magnum é uma agência cooperativa fundada em 1947 por Robert Capa junto a David Seymour, Henri Cartier Bresson e George Rodger…
– Pego meu passaporte nesta quarta. Tenho que marcar dentista e marcar aulas de inglês com alguém que ainda não sei.
– Vou esquentar o caldo verde de ontem e me enrolar no edredom. Baixou uma melancolia por aqui e ela precisa de atenção…

por Mac

Existem duas maneiras de ‘curtir’ a música de “Shine a Light”: a primeira, óbvia, é dentro de uma boa sala de cinema, com as imagens sensacionais que praticamente colocam o espectador no gargarejo de uma das melhores bandas do mundo sobre um palco. Nesta primeira opção há um artifício que funcionou a perfeição no filme: quando a câmera foca um integrante da banda, o que ele estava fazendo pula a frente dos outros instrumentos, o que dá um colorido todo especial ao som, mas que funciona ali, na sala de cinema.
A segunda maneira de curtir “Shine a Light” é se jogar no CD duplo que chega às lojas com o melhor das duas noites em que os Stones se apresentaram – no segundo semestre de 2006 – no histórico Beacon Theatre, um pequeno teatro nova-iorquino, o que por si só já atiça a curiosidade de qualquer fã de rock acostumado a trombar com o grupo em estádios lotados quando não praias. Se na telona, as boas tomadas, a bela iluminação e a vitalidade dos sessentões sobre um palco impressionam, o que “resta” para o CD é um conjunto de canções afundadas em guitarradas.
“Shine a Light” é o nono disco ao vivo da carreira dos Stones, e entra de cara na briga pelo posto de melhor som que a banda já transpôs de um palco para um álbum. “Jumpin’ Jack Flash” nunca soou tão forte ao vivo como agora, e só não bate a versão sinuosa e clássica do álbum “Get Yer Ya-Ya’s Out!”, deixando para trás os registros do álbum “Love You Live” (1977) e “Flashpoint” (1991). “Tumbling Dice” é outra que cresce ao vivo, embora as versões do álbum “Love You Live” e “Rarities” sejam brilhantes. “Sympathy for the Devil”, “Start Me Up” e “Brown Sugar” também são honradas com boas versões.
Apesar de ser uma apresentação dentro da turnê “A Bigger Bang”, o repertório do show do Beacon Theatre não seguiu o padrão balanceado que reunia canções de 1965 a 2005 na “A Bigger Bang Tour”. A música mais “nova” do repertório escolhido é “She Was Hot” (em versão arrasa quarteirão), do álbum “Undercover”, de 1983, ignorando completamente material mais “recente” (inclusive as canções do excelente “A Bigger Bang”). Das 18 canções reunidas no filme (no CD são 22), a mais antiga é “As Tears Go Bye”, gravada por Mariane Faithfull em 1964, e o álbum mais privilegiado foi “Some Girls”, que completa trinta anos em 2008.
Detonado na época do lançamento e atropelado pelo punk, “Some Girls” marca presença com quatro músicas: a faixa título, “Shattered” e “Just My Imagination”, as duas em versões superiores as do “Still Life” (1981), e o excelente country “Far Away Eyes”. Dentre os convidados, Jack White divide violões e vocais com Mick Jagger em uma pungente versão de “Loving Cup”; Christina Aguilera se sai bem em “Live With Me”, mas o grande momento acontece em “Champagne & Reefer”, única canção inédita do show, um cover dos Stones para o original de Muddy Waters. Buddy Guy entra com guitarra e um vozeirão que arrepia. No fim, ganha a guitarra de Keith Richards.
Entre as quatro canções que estão no CD, mas não estão no filme, “Paint it Black” aparece em uma boa versão, mas a do álbum “Flashpoint” ainda é a mais contagiante. “Little T&A” surge em grande versão e traz novamente Keith para frente do palco. “I’m Free” também mantém está no alto nível de qualidade do álbum, mas é inferior a versão do álbum “Stripped” (1995) e a cover do Soup Dragons, que retirou a canção do limbo e a tranformou em hit mundial em 1990. Para fechar, “Shine a Light”, a canção que dá título ao filme de Scorsese, e só aparece no filme em um curto trecho no final, outra que também ganhou uma versão irrepreensível no álbum “Stripped”, mas que aqui também surge emocionante. Fora essas quatro, “Undercover of the Night” entrou de bônus na edição japonesa.
Dentre os nove álbuns ao vivo dos Stones, “Shine a Light” traz um dos melhores repertórios já apresentados ao vivo pela banda além de dar um tratamento para lá de especial às guitarras de Keith Richards e Ron Wood. A voz de Mick Jagger (como ele consegue cantar tão bem correndo tanto de lá pra cá e de cá pra lá prestes a completar 65 anos???) e a bateria de Charlie Watts não ficam atrás (o baixista Darryl Jones, um monstro nas quatro cordas, também merece destaque, assim como a backing Lisa Fisher, o tecladista Chuck Leavell e o saxofonista Bobby Keys) construindo uma massa sonora de qualidade impressionante que confirma o óbvio: sobre um palco, os Stones são imbatíveis.
Leia também:
– “Shine a Light – o Filme”, de Martin Scorsese (aqui)
– “A Bigger Bang”, dos Rolling Stones, por Marcelo Costa (aqui)
– “Rolling Stones in Rio”, por Marcelo Costa (aqui)
por Mac

“Shine a Light”, de Martin Scorsese – Cotação: 2/5
Os Rolling Stones são a melhor banda de rock de todos os tempos. Polêmico, né. Na verdade, lendo essa frase, acho que nem eu acredito nela, pois o rock é um gênero tão abrangente que dar a apenas uma banda tal título seria injustiça com, no mínimo, mais umas cincoenta outras bandas. Porém, se é complicado – por diversos motivos – dizer que os Stones são a melhor banda de todos os tempos, por outro lado é muito fácil cravar que ninguém bate Mick Jagger e cia em cima de um palco, mesmo hoje em dia. “Shine a Light”, filme quase documentário de Martin Scorsese, prova isso nas três primeiras músicas. E ainda traz mais quinze… de “bônus”.
Gravado em dois dias (29/10/06 e 01/11/06) no histórico Beacon Theatre, um pequeno teatro nova-iorquino, o que por si só já atiça a curiosidade de qualquer fã de rock acostumado a trombar com o grupo em estádios lotados quando não praias, “Shine a Light” registra uma apresentação atípica dos Stones na turnê “A Bigger Bang”. Enquanto os shows da turnê – incluindo o que passou pelo Brasil – traçavam um painel histórico de quarenta anos de rock and roll através de um repertório balanceado que reunia canções de 1965 a 2005, “Shine a Light” não. A música mais “nova” do repertório escolhido é “She Was Hot”, do álbum “Undercover”, de 1983, ignorando completamente material mais “recente”.
Desta forma, das dezoito canções reunidas no filme, o álbum mais privilegiado foi “Some Girls”, que completa trinta anos em 2008, representado por quatro canções. Detonado na época de seu lançamento e atropelado pelo movido punk, “Some Girls” aparece em “Shine a Light” através da faixa título, “Shattered”, “Just My Imagination (Running Away with Me)” (um cover do Temptations) e do country “Far Away Eyes”, que rende um dos grandes momentos do filme, quando Keith, viajando em um solo de guitarra, esquece de voltar ao microfone para fazer a segunda voz, e é resgatado por Mick Jagger, que divide com ele o microfone.
Mais do que qualquer outra coisa, “Shine a Light” serve para corroborar aquilo que todo mundo está careca de saber: Mick Jagger coordena tudo nos bastidores. É ele quem acerta os detalhes de gravação com os auxiliares de Martin Scorsese. É ele quem decide o repertório, chegando ao ponto de Ron Wood, a meia hora de começar o show, não ter a mínima idéia do que vai tocar. “Estou curioso para saber qual vai ser o repertório de hoje”, comenta em certo momento. Keith, por sua vez, encarnou de vez o Capitão Jack Sparrow, com broche pirata, moedas amarradas em seus fios de cabelo e aquele jeitão desconcertado que fez a fama do personagem de Johnny Depp.
O show é impecável. A iluminação é deslumbrante e as dezesseis câmeras espalhadas pelo pequeno teatro conseguem dar a sensação de que o espectador está na beira do palco. Sem contar a grande sacada de Scorsese, um recurso simples que faz o filme/show crescer muito: no momento em que algum instrumento está em close, o som dele pula na frente dos demais, e ganha destaque. Soa estranho nos primeiros minutos, mas funciona de forma brilhante na seqüência, dando ao espectador a perfeita noção do que o músico está fazendo naquele momento dentro da canção.
Musicalmente, a banda é um arraso. Mick parece um garoto de dezoito anos, correndo, pulando, rebolando. E cantando muito. “Jumping Jack Flash”, “Start Me Up” e “Brown Sugar” rendem ótimos momentos, mas são as participações especiais fazem a diferença. Jack White parece uma criança de tão feliz ao dividir violões e vocais com Mick Jagger em uma pungente versão de “Loving Cup”, do clássico “Exile on Main St.”. Christina Aguilera não fica atrás em “Live With Me”, mas o grande momento acontece em “Champagne & Reefer”, única canção inédita do show, uma cover dos Stones para o original de Muddy Waters. Buddy Guy entra com guitarra e um vozeirão que arrepia. No fim, ganha a guitarra de Keith Richards. Aliás, outro grande momento do show é do guitarrista, que assume o vocal em “You Got the Silver” (de “Let it Bleed”) e “Connection” (do “Between the Buttons”).
Se como show, “Shine a Light” soa sensacional, como filme, no entanto, deixa a desejar. Martin ocupa-se primeiramente de dar ao espectador os bastidores da produção, e essa opção funciona até o momento que Bill Clinton entra em cena. Um dos motivos da realização do show no teatro era levantar fundos para uma ONG à qual Clinton é ligado. Ele se apresenta para a banda, diz que seus sobrinhos vão assistir ao show, tira fotos com o grupo, e atrasa a apresentação esperando pela presença da sra. Dorothy, mãe de Hillary. Quando ela chega, Mick não perdoa e a brinda com sarcasmo: “Que bom que você chegou, Dorothy”. Keith também sacaneia: “Bill deu uma de Bush”. Então o ex-presidente vai ao microfone, e diz que está abrindo um show dos Stones pela segunda vez. A primeira foi quando fez um discurso atentando para as preocupações climáticas (!?!). Al Gore perdeu mais uma.
Nos intervalos entre uma canção e outra, Scorsese resgata entrevistas com a banda em imagens dos anos 60 até hoje em dia. Drogas, prisões, o futuro da banda, as mesmas perguntas de sempre e até um debate de Jagger, nos 70, com dois bispos, um advogado e um juiz servem apenas como curiosidade, mas não acrescentam nada ao filme. Dezenas de livros contam sobre as prisões da banda. O despreparo dos jornalistas e a vida extenuante das turnês já foi retratada com muito mais eficiência em outros filmes (citando dois: “Meeting People Is Easy”, do Radiohead, e “No Direction Home”, sobre a vida de Bob Dylan, este último dirigido pelo próprio Scorsese). Se como registro de um show, “Shine a Light” é perfeito, como documentário é fraco. Scorsese conseguiu colocar o público praticamente dentro do palco dos Stones, mas não quebrou a redoma de vidro que cerca o grupo. E por mais que as imagens e o som sejam sensacionais, show de rock é para se ver ao vivo, não no cinema.

Leia também:
– “Shine a Light – o Disco”, dos Rolling Stones, por Marcelo Costa (aqui)
– “A Bigger Bang”, dos Rolling Stones, por Marcelo Costa (aqui)
– “Rolling Stones in Rio”, por Marcelo Costa (aqui)
por Mac

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Nova 500 Toques no ar. Nesta semana, um tributo a Neil Young feito só por mulheres (entre elas, Kristin Hersh, Britta Phillips e Tanya Donelly), o sexto disco do Marah (eu nem lembrava deles mais) e a edição européia especial de “Sky Blue Sky”, do Wilco, com um CD com mais cinco faixas bônus (três delas inéditas). Aproveita e clica no meio do texto sobre o Wilco na palavra “assista” e fique com vontade de comprar aquele DVD… como eu fiquei. Leia tudo aqui
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Poucas novidades sobre a viagem. Devo pegar, na semana que vem, meu passaporte. Troquei o pagamento à vista da passagem por dois casamentos de amigos queridos demais no Sul, em maio. Vou me endividar todo, mas isso até você já sabia, não é mesmo. Enquanto isso, o Festival O2 Wireless, que acontece em Londres no primeiro fim de semana de julho, anunciou suas primeiras atrações: Morrissey, Dirty Pretty Things, Beck, Guillemots e National. Se não fosse nos mesmos dias do Werchter, festival para o qual já adquiri os ingressos, eu iria.
Ainda não consegui descobrir nada sobre a data de venda de ingressos para o show de Lou Reed em Madri, e preciso começar a pensar em Benicàssim. Os espanhóis acabaram de anunciar mais quatro aquisições para o line up oficial: Gnarls Barkley, The Kills, My Morning Jacket e Death Cabe For Cuite. Eles já tinham acertado Spiritualized, My Bloody Valentine, Leonard Cohen, Babyshambles, Brian Jonestown Massacre, American Music Clun, Justice e Siouxsie. Já estou no vermelho no banco… :/
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E então: vamos trocar todos os nossos CDs e DVDs por MP3?
por Mac

“2 Dias em Paris”, de Julie Delpy – Cotação: 2,5/5
O Brasil leva a fama pelo resto do mundo de ser o país do samba, mesmo que o ritmo esteja longe de ser característico e representativo de capitais dispares como São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Brasília e Rio Branco. A França – no geral, e Paris em particular – carrega a fama de ser a terra dos amantes. Em uma das cenas de “Bonecas Russas” (seqüência de “Albergue Espanhol”), um dos estudantes ingleses, assim que pisa em Paris, pára uma garota na rua e pergunta: “Você quer dormir comigo”. A garota o deixa falando sozinho enquanto ele comenta com o amigo que sempre sonhou fazer isso, afinal, a fama das francesas ultrapassa fronteiras.
Em seu segundo filme como diretora, a atriz (roteirista e produtora) Julie Delpy amplifica essa fama apoiando em duas vertentes do cinema cômico: a comédia romântica tradicional (e tagarela, cujo grande influência de Delpy é “Annie Hall”, de Woody Allen) e a comédia de costumes, mostrando que Paris tem muito a ensinar a Jack (Adam Goldberg), um decorador de interiores que namora uma fotógrafa francesa, mas não sabe falar quase nada de francês. Delpy usa até a cena clássica do estrangeiro que vai pedir um lanche em uma rede de fast foods (tipo McDonalds) para ilustrar a disparidade das línguas e culturas.
Julie Delpy interpreta Marion, francesinha que vive em Nova York e namora o americano Jack. O casal completou dois anos de relacionamento, e decidiu reascender “a chama do amor” fazendo uma viagem a Europa. A primeira parada foi Veneza, mas tudo deu errado. Jack, que é hipocondríaco, teve uma gastrite e o casal passou mais tempo brigando do que namorando. Na seqüência eles decidem passar dois dias em Paris, cidade natal de Marion, e a comédia de erros aumenta progressivamente conforme os minutos passam na cidade francesa. Os pais de Marion são um artista plástico cujas obras têm forte apelo sexual (ou só apelo sexual) e uma ex-hippie que traz no currículo um breve affair com Jim Morrison (os dois, pai e mãe de Delpy na vida real).
Algumas características da personalidade francesa são jogadas no colo do espectador com uma sinceridade e comicidade que encantam. A própria atriz parece rir verdadeiramente em várias passagens de seu filme, como nas brigas homéricas no meio da rua que parecem que vão terminar em assassinato, mas acabam em abraços e risos; a valorização da língua pátria, que causa desconforto em Jack, além de render dezenas de cenas hilárias; as greves e a política além da tal fama de cidade romântica, cuja piada no cartaz do filme já desvenda uma das tramas paralelas da história: “Ele sabia que Paris era a cidade dos amantes, mas não sabia que eram todos dela”.
Como produtora, diretora e roteirista, Julie demonstra que aprendeu muito com a dobradinha “Antes do Amanhecer” e “Antes do Por-do-Sol” (neste último, inclusive, ela assina o roteiro com o também ator Ethan Hawke e o diretor Richard Linklater), e é impossível não relacionar “2 Dias em Paris” com a segunda película, já que boa parte de ambos os filmes tratam de relações/discussões amorosas por ruas parisienses. Porém, por mais que o romance seja o ponto de início e fim de “2 Dias em Paris”, grande parte de sua graça se deve ao choque de culturas, fato valorizado devido a atriz transitar com desenvoltura entre as duas línguas, o que lhe permite “brincar” com Bush tanto quanto tirar sarro da fixação sexual dos franceses.
Quando a comédia de costumes dá o tom do filme, “2 Dias em Paris” diverte e entretém. Porém, quando procura discutir o amor, o filme se perde de tal forma que Delpy precisa costurar tudo no final com uma longa narrativa em off, deixando a impressão de que ela tentou fazer em um filme tudo aquilo que Richard Linklater fez em dois. Falta foco para a cineasta, que tenta desenvolver várias subtramas sem se ater diretamente a uma (o choque de línguas, a dificuldade dos relacionamentos, a liberdade sexual, as questões políticas), mas não consegue uni-las a contento no final. Esse deslize na edição e no fechamento, no entanto, não desmerece “2 Dias em Paris”, que abre a possibilidade de uma boa carreira atrás das câmeras para Julie Delpy, e pode ser tão cômico quanto educativo. Para rir e aprender.
Leia também:
– A França, por Flávia Ballvé
– “Antes do Por-do-Sol”, por Marcelo Costa

por Mac

Ok, você tem um encontro com Angelina Jolie (ou George Clooney, conforme a preferência do leitor ou leitora). Você se prepara. Pensa e repensa tudo o que vai falar, se arruma, e chega ao local do crime transpirando excitação e desejo. Só que quando você chega ao lugar, descobre que Angelina não pôde ir, e quem está lhe esperando é Scarlett Johansson (ou… Colin Farrell, se você havia optado pelo Clooney). Por mais que Scarlett Johansson seja uma musa e tal, você estava preparado para encontrar Angelina. Se as coisas não forem bem no encontro, a culpa será de quem: da Angelina, da Scarlett ou de você mesmo?
A coisa funciona mais ou menos assim: quando o Raconteurs surgiu – na base de brincadeira de amigos – trouxe consigo a idéia de que Jack White e Brendan Benson iriam unir suas principais paixões (por Led e Beatles, respectivamente) e parir grandes canções a partir dessas influências, meio a meio. “Consolers of The Lonely”, segundo álbum do quarteto (que ainda conta com a “cozinha” do Greenhornes, Jack Lawrence no baixo e Patrick Keeler na bateria) joga meia pá de cal sobre essa idéia com Jack White colocando-se a frente do grupo e posando de guitar hero com solos altos e rápidos em boa parte da duração do álbum.
Não que não haja baladas, punk songs e experimentações em “Consolers of The Lonely”. Elas estão lá, e por sinal rendem alguns dos melhores momentos do álbum, mas na maior parte do disco o que se ouve é rock barulhento com influências de Led Zeppelin, The Who e Jimi Hendrix chegando até a emular os solos que fizeram a fama do New Wave of British Heavy Metal (saca aqueles duelos com duas guitarras solando, com uma delas “uma oitava” a cima da outra? Isso). “Consolers of The Lonely”, mais ainda do que a estréia (”Broken Boy Soldiers”) é um disco de – muitas – guitarras. Ponto.
Com base nas guitarras temos a faixa título (que abre o álbum com riffs fortes – no esquema bate/assopra – que acompanham a melodia vocal no refrão e ainda solam “a capela”, como em “Heartbreaker”, do Led), o primeiro single “Salute Your Solution” (acelerado, com baixo atolado no fuzz, e Jack e Brendan dividindo os tempos vocais), “Five On The Five” (com solo de guitarras Iron Maiden), “Holp Up”, “Attention” (com teclados fazendo gracinhas na saída direita das caixas de som), “Old Enough” (que começa folk, e vira um ótimo country rock à la Crosby, Stills, Nash and Young), “Top Yourself” e “Rich Kid Blues”.
É Jack White quem canta a primeira balada do álbum, “You Dont Understand Me”, com Brendan Benson engrossando o coro no refrão. Benson se dá melhor na empolgante “Pull This Blanket Off”, baladinha de menos de dois minutos que tem jeito de jam session e merecia durar bem mais. “The Switch And The Spur” surge para tomar para si o posto de grande canção, e impressionaria mais se o White Stripes não tivesse “descoberto” os metais em “Conquest”. Mesmo assim a canção merece o posto. “Many Shades Of Black”, outra que também conta com metais, é uma baladaça anos cincoenta que vai fazer você assoviar a melodia do refrão (ou dançar de olhos fechados bêbado numa pista vazia). E quando falarem em Dylan ao se referirem a (ótima) “Carolina Drama”, esqueça a comparação e vá direto à fonte.
Mais do que exibir sua qualidade através das guitarradas e dos solos estridentes, “Consolers of The Lonely” (e o próprio Raconteurs) precisa sobreviver a expectativa daqueles que esperavam um disco menos porrada (menos Jack White) e mais melódico (mais Brendan Benson). Entre a força melódica de um e a opção pelo barulho do outro, “Consolers of The Lonely” pende mais para o segundo, e não deixa de ser um bom álbum de rock – excessivamente setentista – por isso, mas permite possíveis críticas quanto à falta de originalidade do som do grupo (quanto tempo Jack White vai demorar para parar de emular seus ídolos e ser Jack White?) e seu apreço em soar retro.
Voltando ao problema exposto no primeiro parágrafo, quem se preparou e esperava encontrar Angelina Jolie, terá que se contentar com Scarlett Johansson (e há ainda o fato de que muitos vão preferir a segunda à mulher de Brad Pitt), ou então voltar para casa e dormir sozinho. Se “Consolers of The Lonely” ainda não é o disco que muitos esperavam do Raconteurs, tem o mérito de ser um bom álbum de rock and roll. Para alguns pode ser pouco. Então, Scarlett, sorry, mas fica para a próxima.
“Consolers of The Lonely”, Raconteurs (Warner)
Preço em media: R$ 30
Nota 7
Leia também:
– “Broken Boy Soldiers”, do Raconteurs por Marcelo Costa (aqui)
– “Conquest”, The White Stripes, por Marcelo Costa (aqui)
– “Live At Maida Vale”, The White Stripes, por Marcelo Costa (aqui)
– Jack White 1 x 0 Marcelo Costa, por Marcelo Costa (aqui)
por Mac
tem demonstrado preocupação com este pobre mortal, e só apareco aqui bêbado para dizer um oi e avisar que está tudo bem. Se revoltar contra o mundo é saudável. Não se contentar com a ordem real das coisas é obrigatório. É ótimo estar vivo, mas vamos combinar, o mundo é uma merda. Estou afim de largar tudo, mas antes preciso viajar para a Europa, em julho…
Já estou pensando em uma casinha na beira da praia na volta…
Ps. Não está na hora de escrever um livro?
por Mac

“A Era da Inocência”, de Denys Arcand – Cotação 3,5/5
Primeiro, do começo: esqueça a tradução idiota da distribuidora nacional: “L’Âge des Ténèbres”, na verdade, é “A Idade das Trevas”, período histórico que se seguiu às invasões bárbaras que puseram fim ao decadente Império Romano. Ou seja, com “A Idade das Trevas”, o cineasta canadense Denys Arcand fecha uma trilogia informal – sobre a crise da civilização moderna – iniciada em 1986, com “O Declínio do Império Americano”, e que teve continuação em 2003, com “As Invasões Bárbaras”, que levou o Oscar de Filme Estrangeiro.
Jean-Marc LeBlanc (Marc Labrèche), personagem central do terceiro capítulo desta epopéia dos tempos modernos, é um ouvidor municipal infeliz com a profissão, casado com uma workaholic que não larga o celular um segundo sequer (e com quem ele não transa faz mais de dois anos), com duas filhas que desconhecem sua existência de tão afundadas que estão em games e iPods, vivendo em uma sociedade cujo caos tornou-se a regra através de congestionamentos, abandono político e médico, cerceamento social e epidemias, entre outras pequenas tragédias.
Com exceção de dois amigos do trabalho (ele, negro; ela, lésbica), LeBlanc não pode contar com mais ninguém, por isso se entrega aos sonhos em que encarna um escritor cujo primeiro livro foi premiado, um político, um rei, um carrasco e até um samurai. Nos sonhos, que surgem em qualquer momento (no banheiro, no trabalho, no trânsito), LeBlanc está sempre acompanhado por belas mulheres, seja a repórter voluptuosa que após a entrevista quer sexo “aqui e agora”, seja uma famosa modelo que o visita regularmente, seja a amiga lésbica do trabalho ou mesmo sua chefe, que surge ali para ser punida.
São dois cenários grotescos e deliciosamente interessantes que se intercalam na tela: o primeiro, real e crudelíssimo, exibe um homem que se perdeu completamente da civilização, que por fim perdeu-se de si mesma estampando em manchetes de jornais pessoas que ateiam fogo no próprio corpo enquanto outras falam ao celular sem nem prestarem atenção ao que acontece ao lado. O segundo, irreal e cômico, tenta saciar anseios sexuais, afetivos e de justiça enquanto critica o politicamente correto, a overdose de tecnologia, o “trabalho escravo” voluntário e a busca do verdadeiro eu em fantasias surreais (esta última numa paródia hilária de “O Senhor dos Anéis”). Enquanto a vida real é tratada com tintas de desespero e melancolia, a vida irreal é puro sarcasmo e prazer.
Denys Arcand usa a ironia como se ela fosse um pesado taco de beisebol, e manuseia o objeto com extrema destreza, desferindo fortes pancadas no baixo ventre, na cabeça e, por fim, no coração de seu público. Trafegando entre dois mundos, seu personagem Jean-Marc LeBlanc é um retrato perfeito das contradições da sociedade moderna. O ceticismo de Arcand para com a modernidade – o qual “As Invasões Bárbaras” amplifica de forma sublime apoiado pela desilusão política – encontra momentos de genialidade cinematográfica em “A Era da Inocência”.
O cineasta canadense provoca seu público de forma brilhante tentando arrancar dele algum senso de humanidade enquanto sabota as instituições sociais (família, casamento, trabalho, mídia) e só tropeça no trecho final do filme, quando sugere que a saída da idade das trevas é o recolhimento, um retiro espiritual, a negação da modernidade. E mesmo nesse tropeço (ou principalmente por ele), Arcand consegue dar ao seu público um momento interessante de questionamento: a culpa do caos é pessoal ou social? Há como separar um de outro? Se o social está falhando, o pessoal deve agir pensando em si mesmo? Se sim, qual seria a solução: voltarmos ao passado ou nos prepararmos para o futuro?
Para o canadense e seu personagem sonhador vitimizado, o recolhimento parece ser a solução. Seria uma premissa válida se LeBlanc não fosse tão conformado. Ao perder-se no tempo, no casamento, em sua própria história (optando por sonhos ao mundo real), LeBlanc representa um ser pré-histórico que lê Fernando Pessoa (”Livro do Desassossego”), foi vice-presidente do grêmio no colégio, participou de passeatas, greves, e tentou, mas não conseguiu mudar o mundo. Por fim, calou-se e desistiu até escolher o retiro ao caos, o pessoal ao social, opção umbiguista que revela – por trás de um verniz culto – muito mais medo do futuro do que apreço pelo passado e propõe uma questão crucial : o problema é o mundo ou a pessoa? Por que? Pense bem: a resposta pode traduzir o seu futuro, caro leitor.

Ps. A foto acima é de uma das melhores cenas cômicas de “A Era da Inocência”, compatível a cinco filmes inteiros do Adam Sandler…
por Mac

Responsável por ao menos uma obra prima dos anos 80, o álbum “Rattlesnakes” (1984), o músico inglês Llyod Cole tem sua história revista com o lançamento de suas BBC Sessions (tanto solo quanto ao lado dos Commotions, banda com quem dividiu os holofotes entre 1982 e 1989). São três CDs (dois duplos) que registram apresentações entre maio de 1984 e março de 1995 nos programas de Richard Skynner, Janice Long e Nicky Campbell além de apresentações nos míticos Hammersmith Palais (1984/1995) e festival de Glastonbury (1986).
Cole só foi encontrar os parceiros ideais para uma banda quando se mudou para Glasgow, onde foi estudar filosofia. Junto aos Commotions, Lloyd lançou três álbuns –”Rattlesnakes”, “Easy Pieces” (1986) e Mainstream (1988) – cuja característica principal era a união de um texto repleto de citações pop (Norman Mailer, Jules at Jim, Grace Kelly, Truman Capote, entre outros) com uma musicalidade que unia o folk pop com pitadas de rock psicodélico (passado pelo filtro do pós-punk). Sobre a massa sonora, a voz charmosa do compositor.
“Vol. 1? abre com uma pungente versão de “Gloria”, do segundo álbum do Television, no programa Saturday Live (1984). Transbordando lirismo, seguem-se versões inspiradas – e completamente fiéis as originais – de “Perfect Skin”, “Rattlesnakes” e “Forest Fire” (três singles do álbum de estréia). O calor do público no Hammersmith Palais faz com que as versões dali se sobressaiam às captadas nos estúdios da BBC. O quindim de “Vol. 2? é o show em Glastonbury que destaca os hits de sempre (”Perfect Skin” em versão fodaça) mais “Mystery Train”, de Elvis Presley, que fecha a apresentação, no bis.
O terceiro volume é quase que totalmente dedicado a um show completo de 1995, mais quatro registros de 1990 (ambos sem os Commotions). Versões de hits pedem passagem (com arranjos diferentes, pero no mucho: nos três CDs são seis versões de “Rattlesnakes” e cinco de “Perfect Skin”), mas o que chama a atenção são as covers de Lou Reed: “Rock and Roll”, “New Age” e “A Gift”. Importante resgate histórico, estes lançamentos valorizam a obra de Lloyd Cole, um excelente compositor que hoje caminha a margem da música pop. Vale, ainda, ir atrás da edição especial (dupla) de “Rattlesnakes” (relançado em 2004) e “Anti Depressant” (2006), último álbum solo de Cole, pequenos achados de um compositor que precisa ser redescoberto.

por Mac

“Penso que, talvez, Mike e Michael ficaram um pouco atordoados em como o último disco foi mal recebido. Eu não fiquei. Eu já sabia que o disco não era tão bom antes mesmo de terminá-lo”, diz Peter Buck em entrevista para Craig McLean, do Telegraph. O tal “último disco” a que o guitarrista do R.E.M. se refere é “Around The Sun” (2004), um álbum que ousou macular uma carreira até então brilhante (mesmo com o fato de seus predecessores, “Up” e “Reveal”, serem apenas bons em uma carreira repleta de álbuns sensacionais). Peter Buck assume o erro, e isso é um fato que não se vê todos os dias no mainstream. Porém, estamos diante do R.E.M., uma banda rara no mundo pop.
Tudo que você precisava saber previamente sobre “Accelerate”, décimo-quarto álbum do R.E.M., já está pipocando de blog em blog faz alguns dias: que este é o melhor álbum do R.E.M. na década 00; que é o álbum mais barulhento do trio desde “Monster” (1994); que suas onze músicas juntas não ultrapassam os 35 minutos de duração (quase metade do tempo dos álbuns anteriores); que “Accelerate” (”Acelerar”) é um nome apropriado para um disco rápido e urgente; que Jacknife Lee, o produtor, tinha trabalhado com Bloc Party e Green Day, e foi recomendado ao R.E.M. por The Edge (U2); e outros blá blá blás. É bem provável que qualquer texto que você leia sobre “Accelerate” lhe dará a impressão de estar diante de um grande álbum, e mais: de que – parafraseando a manchete da reportagem do Telegraph – o R.E.M. renasceu. Tudo verdade.
“Living Well Is The Best Revenge”, a porrada que abre “Accelerate”, é um bom resumo de tudo que virá pela frente. O baixo de Mike Mills (a grande estrela do disco) pula a frente da bateria agitada de Bill Rieflin e das guitarras punks de Peter Buck e Scott McCaughey. “Man-Sized Wreath”, a segunda faixa, desacelera em relação à abertura, mas mantém o álbum em alta velocidade. A temática permanece a mesma, mantendo a mídia como alvo. Além de uma pulsante linha de baixo, Mike Mills se destaca na harmonia vocal. O ritmo desacelara mais um tiquinho em “Supernatural Superserious”, contagiante primeiro single do álbum que fala sobre adolescência e humilhação, mais uma canção para entrar no rol das grandes músicas do R.E.M., que Michael Stipe apelidou carinhosamente de “hino geek”.
A introdução da sensacional “Hollow Man” é piano e voz. Quando você acredita estar diante de uma baladaça daquelas “estilo R.E.M.”, o grupo acelera em direção ao refrão com Michael Stipe gritando assustado com medo de ser um homem oco. Violão e órgão compõem o clima denso de “Houston”, com Michael Stipe postando-se entre os terríveis furacão Katrina e o presidente Bush: “Se a tempestade não me matar, o governo irá”. A faixa título volta a trazer urgência ao álbum com Stipe cravando frases como: “A incerteza é sufocante. Nossa esperança nunca foi tão grande”. Para o vocalista e letrista, não é hora de perder tempo: “Não tenho tempo para questionar as escolhas que eu faço / Eu tenho que seguir outro caminho: acelerar”.
O folk irlandês “Until The Day Is Done” fala sobre um país em ruínas, sobre guerras perdidas. Sob uma base de guitarra encharcada de eco e colocada no fundo da melodia na mixagem, “Mr. Richards” permite um paralelo com “Mr. Jones”, personagem da letra de “Ballad of a Thin Man”, clássico de Bob Dylan, com Michael Stipe aqui questionando um político que ignora o povo. A climática e arrastada “Sing For The Submarine” cita “Electron Blue” e “It’s A End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)” enquanto “Horse To Water” surge como um dos momentos mais rápidos do disco, uma punk song brilhante.
Para fechar, cinismo, caos e muito barulho: “I’m Gonna DJ” surge mais pesada do que a versão do álbum “Live” e termina o disco da mesma forma que começou: com rapidez e sujeira. Novamente na linha de frente do rock mundial, o R.E.M. “vende” ao público certo tipo de transcendência, algo que faz deles exemplos de honestidade, atitude e opinião. Pois o R.E.M. faz parte de um tempo (perdido) em que amar uma banda ia além de comprar discos e decorar as músicas. Implícito, entre os devaneios, está a necessidade de acreditar que é possível mudar o mundo com uma canção.
“Accelerate” é um álbum que une as duas principais facetas musicais do R.E.M.: o lado rock, amargurado e barulhento, e o lado acústico, denso e provocativo. No entanto, por mais que os violões dominem um terço das canções, este é o primeiro álbum inspiradamente punk do trio (”Monster” era muito mais glam). É o primeiro álbum, também, que coloca Mike Mills em pé de igualdade com Peter Buck e Michal Stipe. É um disco excelente, que se não alcança o status de clássicos como “Document”, “Out of Time” e “Automatic For The People”, serve para recolocar a banda novamente no rumo após o fiasco de “Around The Sun”. É um álbum que se não vai mudar o mundo, serve para ser deixado no repeat enquanto se questiona a descrença na mídia, nos políticos e em si mesmo. A resposta a ser encontrada provavelmente será a mesma proposta por Michael Stipe: acelere, não há tempo a perder. Não há mesmo.
“Accelerate”, R.E.M. (Warner)
Preço em media: R$ 30
Nota 9
Lançamento Oficial: 01 de Abril
Além da versão normal, “Accelerate” conta com uma versão de luxo com CD e DVD (e um encarte de 64 páginas), que inclui um filme de 48 minutos sobre as gravações e ainda traz dois b-sides, “Red Head Walking” e “Airliner”. Essa versão, importada, deve sair por R$ 60.

Leia também:
– R.E.M. ao vivo no Rock in Rio 3, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada do R.E.M., por Marcelo Costa (aqui)
– R.E.M. reborn, por Craig McLean, do Telegraph (aqui)