Viagem de Fim de Ano – Cidades Mineiras
Nem lembro direito qual foi nosso primeiro plano de roteiro para o fim do ano. Ali pra agosto eu já sabia que iria trabalhar direto até o dia 29 e que, depois, só voltava dia 12 de janeiro. Então um dia, no meio da madrugada, acordei com um pensamento e sacudi Lili: “Vamos passar o reveillon em Paris!”. Calculei tudo e poderia ter rolado se a economia mundial não tivesse pirado e o dólar pulado de R$ 1,60 para R$ 2,50 nesse meio tempo. Europa só em agosto/setembro do ano que vem.
Começamos a traçar novas rotas por aqui e como deixamos tudo para a última hora perdemos vários pacotes. Chegamos a pensar em fazer o trecho Porto Alegre, Buenos Aires, Santiago, Machu Pichu e até reduzimos depois para Porto Alegre, Buenos Aires e Montevidéu, mas acho que só hoje chegamos a um consenso de casal, após uma sugestão que fiz no meio da semana: “Que tal passear pelas cidades históricas mineiras levando uma mochila pequena com pouca roupa e as máquinas fotográficas?”
Eu sempre quis conhecer as cidades históricas e no período em que fui jurado do Prêmio Caixa de Jornalismo, na categoria de Turismo, li vários textos interessantes sobre o local. Pelo jeito, vamos passar o ano novo em uma cidade histórica a ficar batendo perna, fotos e comendo boa comida até o dia 07 ou 08 quando voltamos para São Paulo e esticamos para Porto Alegre, para que a arquiteta da casa conheça o museu Iberê Camargo, do arquiteto português Álvaro Siza, e eu encontre uns amigos.
Ainda não sei qual será o roteiro nas Minas Gerais, mas a idéia é começar por Belo Horizonte e ir de lá para Mariana, Ouro Preto, Tiradentes, Congonhas e Diamantina. Ainda quero conhecer Montevidéu, a região dos Lagos no Chile e Machu Pichu, mas vai ficar para a próxima. Minas Gerais, nos aguarde.
dezembro 14, 2008 Encha o copo
Os três primeiros do U2 em versão deluxe

É difícil ver Bono hoje em dia e não pensar nos álbuns recentes, medianos, nas mega-turnês zilionárias, no “cargo” de porta-voz da dívida do Terceiro Mundo e, por que não, nas fotos recentes ao lado de lolitas que caíram na web. Tudo tão anti-musical que às vezes esquecemos o quanto o U2 é foda (e “Acthung Baby” e “Zooropa” são sensacionais). Aqui, no entanto, o buraco é mais embaixo: “Boy”, “October” e “War” formam a trilogia inicial da carreira da banda e retornam ao mercado em caprichadas versões de luxo com várias faixas bônus e remasterização de The Edge.
A crueza de “Boy” (1980), o primeiro e empolgante disco do quarteto, destaca faixas brilhantes como “I Will Follow” e “The Electric Co.” do disco original e pepitas de ouro para o CD bônus como a dobradinha “11 O’ Clock Tick Tock”/”Touch”, produzidas pelo lendário Martin Hannet, os registros ao vivo de shows em fevereiro (a inédita “Cartoon World”) e setembro (“11 O’ Clock Tick Tock” e “Boy-Girl”) de 80. O CD ainda traz as três faixas do lendário single “U2 3” e duas faixas inéditas das sessões de gravação do álbum: a instrumental “Speed of Life” e a ótima “Saturday Night”.
“October” (1981) foi lançado na esteira da badalação do álbum de estréia e mostra o avanço do grupo com Steve Lillywhite, o produtor, valorizando cada vez mais os harmônicos curtos encharcados de delay da guitarra de The Edge. Brilham o hit “Gloria”, a cadenciada “Scarlet” (com uma sonoridade e arranjo que eles repetiriam em discos posteriores) além da forte faixa título. O CD bônus desta edição especial é imperdível com cinco canções ao vivo no Hammersmith Palais, em Londres, três na BBC e quatro no Paradise Theatre (todos de 1982), em Boston, que mostram a força do grupo no palco, além de três b-sides.
“War” (1983) é o álbum que apresentou o grupo para os ouvintes de rock (enquanto Live Aid, a novata MTV e “The Joshua Tree” apresentaram a banda para as massas nos anos seguintes) embalado por hits politizados como “New Year’s Day” e “Sunday Bloody Sunday”. Álbum mais badalado do pacote, “War” é responsável pelas faixas bônus mais dispensáveis. São quatro versões diferentes de “New Year’s Day”, três de “Two Hearts Beat as One”, uma canção inédita (“Angels Too Tied to the Ground”), três registros ao vivo flagrados no festival de Werchter, na Bélgica, em 1982, e dois b-sides. Agora é esperar essa onda de reedição de Bono e Cia chegar nos fundamentais “Acthung Baby” e “Zooropa”. Amém.
“Boy”, “October” e “War”, U2 (Universal)
Preço em media: R$ 60 (lançamento nacional)
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BOY SPECIAL EDITION
01) I Will Follow
02) Twilight
03) An Cat Dubh
04) Into the Heart
05) Out of Control
06) Stories for Boys
07) The Ocean
08) A Day Without Me
09) Another Time, Another Place
10) The Electric Co.
11) Shadows and Tall Trees
Additional Tracks on 2008 Release
01) I Will Follow (Previously Unreleased Mix)
02)11 O’Clock Tick Tock
03) Touch
04) Speed Of Life (Previously Unreleased Track)
05) Saturday Night (Previously Unreleased Track)
06) Things To Make And Do
07) Out Of Control
08) Boy-Girl
09) Stories For Boys
10) Another Day
11) Twilight
12) Boy-Girl (Live at The Marquee, London)
13) 11 O’Clock Tick Tock (Live at The Marquee, London – Previously Unreleased Version)
14) Cartoon World (Live at The National Stadium, Dublin – Previously Unreleased Track)
OCOTOBR SPECIAL EDITION
01) Gloria
02) I Fall Down
03) I Threw a Brick Through a Window
04) Rejoice
05) Fire
06) Tomorrow
07) October
08) With a Shout
09) Stranger in a Strange Land
10) Scarlet
11) Is That All?
Additional Tracks on 2008 Release
01) Gloria (Live at Hammersmith Palais, London)
02) I Fall Down (Live at Hammersmith Palais, London)
03) I Threw A Brick Through A Window (Live at Hammersmith Palais, London)
04) Fire (Live at Hammersmith Palais, London)
05) October (Live at Hammersmith Palais, London)
06) With A Shout (Richard Skinner BBC Session)
07) Scarlet (Richard Skinner BBC Session)
08) I Threw A Brick Through A Window (Richard Skinner BBC Session)
09) A Celebration
10) J. Swallo
11) Trash, Trampoline And The Party Girl
12) I Will Follow (Live at Paradise Theatre, Boston)
13) The Ocean (Live at Paradise Theatre, Boston)
14) The Cry/Electric Co. (Live at Paradise Theatre, Boston)
15) 11 O’Clock Tick Tock (Live at Paradise Theatre, Boston)
16) I Will Follow (Live From Hattem, Netherlands)
17) Tomorrow (Bono & Adam Clayton, Common Ground Remix)
WAR SPECIAL EDITION
01) Sunday Bloody Sunday
02) Seconds
03) New Year’s Day
04) Like a Song…
05) Drowning Man
06) The Refugee
07) Two Hearts Beat as One
08) Red Light
09) Surrender
10) 40
Additional Tracks on 2008 Release
01) Endless Deep
02) Angels Too Tied To The Ground (Previously Unreleased)
03) New Year’s Day (7″ single edit)
04) New Year’s Day (USA Remix)
05) New Year’s Day (Ferry Corsten Extended Vocal Mix)
06) New Year’s Day (Ferry Corsten Vocal Radio Mix)
07) Two Hearts Beat As One (Long Mix)
08) Two Hearts Beat As One (USA Remix)
09) Two Hearts Beat As One (Club Version)
10) Treasure (Whatever Happened to Pete The Chop)
11) I Threw A Brick Through A Window / Day Without Me (Live Rock Werchter 1982)
12) Fire (Live Rock Werchter 1982)
dezembro 9, 2008 Encha o copo
Domingo de comida mexicana
Missão deste domingo: aprender a fazer chilli, um prato tradicional da culinária mexicana e texana feito com feijão, carne moída, tomates em pedaços e pimenta, sem esquecer do tempero, uma mistura do pó de pimentas, cominho, alho, cebola e orégano. Semana que vem temos entrega de presentes do amigo secreto dos amigos da Lili (não conto quem eu tirei), e ela inventou que nós iríamos cozinhar comida mexicana. Ela inventa e eu vou pra cozinha. Esperta a mineira.
No sábado à noite, pós Los Pirata (show foda – fotos aqui) e pré Bazar Pamplona, passamos em um Pão de Açúcar 24 horas atrás dos ingredientes. Tive que esperar uns cinco minutos até o açougueiro limpar umas carnes e vir me atender, e quando ele veio ainda trouxe o pedido errado. Pedi 500g de coxão mole moído. E ele, depois de cortar e moer a carne: “1 quilo e 200 e muito?”. Resposta afirmativa, ele vai, tira umas 200 gramas e me entrega um quilo. Quase 23h de um sabadão, eu não ia discutir.
Compramos uma série de coisas especiais para o prato (pimentas, tacos, massa para burritos, feijão vermelho, nachos e feijão marrom – não tinha o roxinho que a receita pedia) além de algumas Hoegaarden para abastecer a geladeira e acompanhar no almoço. De manhã, demos um google atrás de alguma receita interessante, e Lili achou essa do fim no post em um Yahoo Respostas. Na verdade, fiz uma mistura dela com a de algumas outras que eu também tinha olhada, tipo: nesta não vai cerveja, mas coloquei uns 300 ml de cerveja (que uma outra receita exigia) Bauhaus na mistura.
O começo é bem simples: frita-se o meio quilo de carne nas três colheres de óleo por dez minutos e, depois, vai juntando os ingredientes. Chamamos alguns amigos (iríamos fazer duas receitas aproveitando o outro meio quilo de carne extra além do outro pacote de feijão) para experimentar o prato (Adri, Kátia e Tiago: espero que vocês estejam bem – risos), já que se hoje comemos em cinco, na semana que vem vamos ser entre 12 e 15. Melhor errar com menos gente, né. Mas deu tudo certo. Reclamaram um pouquinho do excesso de cominho e, sinceramente, acho que não ficou tão apimentada quanto deveria ficar, mas valeu a experiência e estamos prontos para domingo que vem.
A receita que segue abaixo foi bem modificada. Acho que, na verdade, cozinhar é um pouco disso também: adaptar os pratos ao seu gosto pessoal. Tinha impressão que iria ser difícil demais fazer o chili, mas foi bastante fácil (contando que não temos panela de pressão e Lili deixou o feijão de molho de um dia para outro – ok, Lili deverá ganhar uma panela de pressão em algum dos amigos secretos que ela está participando, mas curto essa idéia de deixar de molho de um dia para o outro). É um prato perfeito para uma turma de quatro, cinco ou mais amigos. Ainda mais com uma tequila aberta. No nosso caso, nossa Jose Cuervo Especial está prometida. Então fomos de cachaça Germana. Uma delícia. Experimente em casa.
Receita
Ingredientes:
1/2 kg de carne moída;
3 colheres (sopa) de óleo;
2 cebolas (grandes) em rodelas finas;
2 colheres (chá) de sal;
Pimenta-do-reino, pimenta chili, páprica, cominho e tomilho a gosto;
1 kg de tomates, sem pele e sem sementes, picados;
1/2 kg de feijão roxinho ou vermelho cozido.
Modo de preparo:
Frite a carne no óleo, por 10 minutos, mexendo sempre. Junte a cebola, o sal, as pimentas e a páprica. Cozinhe em fogo baixo por mais 5 minutos. Junte os tomates e o feijão (já cozido), tampe a panela e cozinhe em fogo baixo por 1 hora. Acrescente um pouco de água fervente ou mesmo cerveja (200 ml), se for necessário, mexendo de vez em quando.
dezembro 7, 2008 Encha o copo
Cenas da vida em São Paulo – Parte 9
O sol forte do meio dia beija a cabeça dos transeuntes. Em uma travessa da Rua Augusta, uma senhora imóvel no meio da calçada filosofa com algum ser invisível:
– Eu tô te dizendo. Quase todo mundo fuma maconha em São Paulo.
– …
– Tô te falando. Quase todo mundo fuma!
-…
– Mais de 200% das pessoas de São Paulo fuma maconha. Principalmente quando está com fome.
dezembro 6, 2008 Encha o copo
Cenas da vida em SP – Bonnie ‘Prince’ Billy
Foto: Marcelo Costa / Scream & Yell
O show está no meio, mas o rapaz quer evitar as filas e se encaminha para o caixa para pagar a conta. Uma garota, meio bêbada, balança para lá e para cá perto do local. Ela olha esperando cumplicidade, e o rapaz se coloca atrás dela como se estivesse entrando numa fila. O segurança orienta a posição correta, e isso basta para ela puxar papo:
– Como se fosse fazer diferença, né.
– É…
Ela olha e ele tenta decifrar o que está passando pela cabeça dela até que um amigo chega e lhe passa um celular. Ela olha quem está ligando, leva o aparelho ao ouvido, e começa o diálogo:
– Oi. Onde você está? (parece perguntar a pessoa do outro lado)
– Estou num funeral – responde a menina, irritada, emendando ainda – Não posso falar muito alto, pois é capaz do cara que está encostado no bar bater em mim (diz ela olhando em direção ao homem).
A ligação continua, mas já não é possível entender o diálogo. Alguns “shhhhhhh” dominam o ambiente. Ela desliga o celular e volta para a fila. Olha o rapaz e pergunta:
– Você sabe quem é esse cara que está tocando?
– Bonnie “Prince” Billy.
– Ahhhh, ele é estrangeiro?
– Americano.
– E o que é esse som?
– Folk.
– Punk?!?!
– Foooolk!
– Ahhhhh. Parece música de velório – diz ela, virando-se para um amigo e ordenando – Vamos embora daqui antes que alguém bata em mim. E lá se foi ela para alguma balada eletrônica… ou algum forró.
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Essa cena é bastante comum em São Paulo. Na primeira vez que vi o Echo and The Bunnymen, no Via Funchal, 1999, eu havia saído de Taubaté para vir ver o show na capital. Exatamente na minha frente, ali quase no gargarejo, um rapaz vira para o lado e pergunta a outro:
– Que música toca essa banda ae?
– …
– Eles não tem nenhum sucesso, alguma música famosa?
– Olha, tem vários…
– Acho que nunca ouvi nada deles, mas eu gosto de vir a shows aqui. Semana passada eu vi o Alphaville. Foi bem legal…
O diálogo parou por ai, mas fiquei pensando durante muito tempo em quantas pessoas gostariam de estar no lugar deste cara que não tem a mínima idéia do que seja Echo and The Bunnymen ou, atualizando, no da menina que acha que Bonnie “Prince” Billy é um cantor de velórios. Em Taubaté, nos anos 80 e 90, qualquer show era um grande evento. Em São Paulo parece um mero passatempo. E passatempo é o que menos o show de Bonnie “Prince” Billy foi, apesar do Studio SP não inspirar intimismo e o som estar assustadoramente baixo.
Durante duas horas e meia (!), Bonnie “Prince” Billy mostrou ao público que realmente enxerga a escuridão. Acompanhado por mais um violão, o músico jogou tristeza no colo do público, e durante a primeira meia hora assisti ao show colado ao palco, fotografando e admirando a melodia das palavras e acordes. Porém, ao tentar curar minha gripe com cerveja, desloquei-me para o bar e deixei-me levar pelo cenário esquizofrênico de uma noite típica de São Paulo, em que algumas tribos diferentes se esbarram e se relacionam.
Fãs do cantor grudavam no palco e pediam canções, que eram atendidas de imediato. Esse fanatismo musical seguia-se até a quarta ou quinta fileiras que rodeavam a frente do palco. Dali para trás já havia um grupo – de fãs e não fãs – que separava o “gargarejo” das rodas de bate papo. E o “shhhhhhh” foi a coisa mais ouvida em toda a noite. Fiquei perto do bar conversando com um amigo, bebendo cerveja e ouvindo um fio de voz ao longe gritar “I See a Darkness”. Bonnie “Prince” Billy merecia maior atenção, mas a noite foi bastante interessante.
Quem sabe, numa próxima vez, ele não toque em um teatro em que a música seja a principal estrela e não precise ficar brigando com a busca pela cerveja, vodka ou afins; com amigos discutindo o real valor de “Chinese Democracy”, se Paul McCartney vem ou não vem e qual noite do R.E.M. em São Paulo foi a melhor; com meninas paquerando enquanto gingam o corpo dançando um som que não tem ginga. É bem provável que a noite tenha sido ruim apenas para a turma que ficou na linha que separava os dois públicos. De ambos os lados do muro a noite parece ter sido divertida. Apesar de toda a tristeza…
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Mais fotos do show de Bonnie ‘Prince’ Billy em São Paulo (aqui)
novembro 28, 2008 Encha o copo
Always The Bridesmaid, The Decemberists

Colin Meloy está prestes a transformar sua banda, os sensacionais Decemberists, em sensação pop. Como se fosse um R.E.M. do novo milênio, o grupo estuda o próximo passo com cautela enquanto diverte-se em projetos paralelos. Após grandes elogios a “The Crane Wife” (2006), último álbum do grupo, Colin Meloy e banda sumiram e reapareceram apenas agora para apoiar a candidatura de Obama, anunciar um novo disco para 2009 e entregar três compactos duplos 12’ em vinil 180 gramas com material inédito.
“Always The Bridesmaid: A Singles Series” é composto por seis músicas, e faz um tempo que o mercado não recebe um grupo de canções tão arrebatador. “Valerie Plame”, a faixa que abre o primeiro single, é uma das mais belas canções pop feitas nessa década. São cinco minutos delirantes em que viola, acordeom, órgão, baixo, bateria e vocais levam o ouvinte aos céus. A letra conta a história da ex-espiã da CIA – que dá nome à música – cuja identidade secreta foi vazada à imprensa depois que seu marido, um ex-embaixador crítico ao governo Bush, escreveu um artigo no New York Times questionando as razões do presidente para invadir o Iraque.
No lado b, “O New England”, uma falsa balada emocional de batida limpa de violão que conta uma triste história de amor. Ele tenta conseguir um sorriso dela, e a leva para onde o amor dos dois começou, mas “esta aqui é a fábula de uma tentativa fracassada”. Para o segundo single foi escolhida “Days Of Elaine”. De batida acelerada e refrão forte que lembram Wilco, Belle and Sebastian e Smiths, “Days Of Elaine” é mais uma das histórias fantasiosas de Colin Meloy, e narra uma mãe (a tal Elaine) contando coisas para o filho. No lado B uma cover fidelíssima de “I’m Sticking With You”, do Velvet Underground, com Jenny Conlee bancando Maureen Tucker e Meloy, Lou Reed.
O volume 3 de “Always The Bridesmaid: A Singles Series” chama-se “Record Year”, que abre de forma dilacerante com violão, viola e violino: “Eu li no jornal de hoje: Tem sido um ano recorde de chuva / E você estava encostada contra a parede do banheiro / Em seu vestido solitário / Foi só o seu vestido”. A canção segue épica entre dias cinzentos. “Raincoat Song” surge no lado b, quase country, e conta a história de Caroline, uma garota de 28 anos que está com raiva porque está dormindo sozinha e tem medo de ficar solteirona. Diz o refrão: “Você usava capa de chuva quando choveu hoje, e acho que isso só fez chover mais”.
Logo após o lançamento de “The Crane Wife”, Colin Meloy, que já havia gravado EPs com canções de Morrissey e da cantora folk irlandesa Shirley Collins (“Colin Meloy Sings Morrissey”, de 2005, e “Colin Meloy Sings Shirley Collins”, de 2006), voltou com uma homenagem a Sam Cooke e também um álbum ao vivo (“Colin Meloy Sings Live CD”) que traz canções da primeira banda do compositor, Tarkio, duas faixas inéditas e citações de Smiths, Pink Floyd, e Fleetwood Mac. O baixista Chris Funk montou o projeto Flash Hawk Parlor Ensemble e o baterista John largou as baquetas e foi tocar guitarras no Perhapst. Agora todos voltam ao Decemberists.
O volume 1, “Valerie Plame / O New England”, foi lançado em 14 de outubro; O volume 2, “Days of Elaine / Sticking With You”, em 04 de novembro; e o volume 3, “Record Year / Raincoat Song”, começa a ser vendido no dia 02 de dezembro. Cada um dos três volumes está sendo lançado em edições limitadas de vinil (500 cópias) e podem ser comprados no site oficial da banda. São seis canções brilhantes, pequenas epopéias de um compositor que continua escrevendo músicas como se estivesse esculpindo diamantes. Fique atento(a): o Decemberists tem tudo para ser a maior banda do mundo nos próximos dois anos. Senão for não tem problema. Será uma de suas bandas mais queridas. Acredite.
“Always The Bridesmaid: A Singles Series”, The Decemberists (Capitol)
Preço em media: R$ 30 por single (importado)
Nota: 10
Site: http://www.decemberistsshop.com/zencart/
Leia também:
– “The Crane Wife”, The Decemberistis, por Marcelo Costa (aqui)
– Decemberists ao vivo em Columbus, Ohio, por Marcelo Costa (aqui)

Foto: Divulgação
novembro 25, 2008 Encha o copo
SP Noise: “Parece Glasgow nos anos 90”
Texto: Marcelo Costa / Fotos: Lili Callegari
Mais do que trazer uma escalação com nomes badalados no circuito independente, a primeira edição do SP Noise prometia uma mistureba de estilos que poderia soar, no mínimo, inusitada. A variedade abrangia o rock matemático de Helmet (confirmado na última hora) e dos belgas do Motek passando pelos inenarráveis Ambervisions, de Santa Catarina, pela surf-music dos argentinos do The Tormentos, pelo rock de clima punk flower power do Black Lips até o som climático e viajandão do Black Mountain, mas era impossível não olhar para as roupas.
Do visual adolescente e fanfarrão do Black Lips passando pelo modelo hippie adotado pelo Black Mountain, o de garçons de transatlântico exibido pelos argentinos do Tormentos, a falta de uniformidade do Vaselines (Stevie Jackson de bancário, Bobby Kilddea de camiseta de pijama gola v, Frances de qualquer coisa e Eugene de mestre de cerimônias de festa country) até chegar ao “grande momento” do fim de semana: o colete de couro com franjas e calça de oncinha de Eduardo Martinez, vocalista argentino do combo finlandês Flaming Sideburns, o SP Noise foi muito mais visual que musical.
O primeiro dia foi aberto pelos goianos do Black Drawing Chalks que fizeram um barulho de muita responsa. Os argentinos do Tormentos repetiram o show mediano que vi deles em Buenos Aires, quatro anos atrás. Provável que daqui a cinqüenta anos estejam fazendo um show igual. Os Ambervisions fizeram o público rir com seu vocalista, Zimmer, de cabeça enfaixada, óculos e maracas, mas o show não honrou a barulheira de seus dois álbuns. O Motek me cansou na terceira vez que multipliquei 4 x 4 alcançando um resultado de 16, mas os CDs da banda foram bem vendidos na barraquinha.
No quesito show, o festival começou mesmo quando os finlandeses do Flaming Sideburns pisaram no palco 2 jogando seu glam rock com pitadas hard no colo do público. A banda usa uniforme (que podem ser o da turnê anterior do Hives) e soa extremamente afiada. O vocalista argentino Eduardo Martinez é uma peça. Baixinho, meio fora de forma, mas de colete e sem camisa, e ostentando uma legitima calça de oncinha, Martinez é daqueles que amam os clichês do estilo. Dançou de rostinho colado com uma menina na pista, se jogou no colo de um cara que ficou alisando seu cabelo (curto) enquanto ele cantava e até plantou bananeira no palco. Fora de forma quem?
Fechando a primeira noite, os canadenses do Black Mountain só faltaram acender incensos no palco 1 para deixar o clima flower power contaminar o pequeno público. Enquanto rapazes suspiravam pela vocalista Amber Webber (que mais tocava maracas, pandeiro e posava do que cantava), o grupo mandava ver na sonoridade setentista com bastante propriedade num misto de psicodelia com folk e momentos de hard rock. Tudo ia bem até o show ser interrompido bruscamente pelo pessoal da casa, que devido ao avançado do horário (22h e pouco) precisava esvaziar o local para começar uma outra balada noturna. Um pecado que vitimou uma boa apresentação.
O segundo dia começou com um público muito maior e os paulistas do Homepie abrindo os trabalhos no palco 2 mostrando influências de Belle and Sebastian e um longo trajeto a percorrer para chegar a algum lugar. Os norte-americanos do Calumet-Hecla fizeram um barulho dos diabos no palco 1 com a ruiva Anne fazendo caras e bocas, mas não chamaram muito a atenção do público, que preferiu ficar no bar, jogando Nintendo Wii ou aproveitando os últimos resquícios de sol, antes da chuva. O Do Amor (“Cheiro do Amor?”, perguntou um amigo) apresentou sua mistura de (indie) rock, carimbó e axé-music, mas dispersou o público, que também deixou passar os chilenos do The Ganjas.
Os moleques desajustados do Black Lips lotaram o palco 2, e o show foi melhorando progressivamente até honrar a fama conseguida com boas resenhas em grandes veículos da imprensa internacional. A rigor, o show foi menos caótico do que a apresentação no Fib, na Espanha, em julho. Mas lá eles estavam no enorme palco principal (que naqueles dias recebeu Leonard Cohen, Morrissey, Raconteurs e My Bloody Valentine) enquanto aqui sofriam com problemas no som, chegando ao ponto do vocalista e guitarrista Cole Alexander colocar uma meia no microfone para evitar choques. Outro bom show interrompido pela casa cujo melhor momento foi o arremesso de cuspe do vocalista para o alto, e que lhe beijou a testa.
O Helmet – responsável pelo aumento de vendas de ingressos para o festival assim que confirmou, na quinta passada, sua presença em São Paulo – honrou sua história. O líder e único remanescente da formação original da banda, Page Hamilton, mostrou logo de cara que não estava para brincadeiras. Assim que alguém pediu uma música, ele mandou: “Foda-se! A gente só vai tocar o que a gente quiser”. E assim foi o massacre. Teoricamente é um som que não deveria agradar a quem tem mais de 18 anos, mas é lindo ver uma roda de pogo quebrando tudo e até o segurança batendo cabeça de costas para o palco. Disparado o melhor show do festival.
Fechando o fim de semana noise, os escoceses do Vaselines subiram ao palco com muitos problemas no som e a fama de banda preferida de Kurt Cobain, que gravou três covers do grupo no Nirvana. O show abriu, inclusive, com uma delas, “Son of a Gun”, e a desordem no palco honrava a tradição tosca do grupo. O baixista Bobby Kilddea não conseguia ouvir nada no retornos, o guitarrista Stevie Jackson se enrolava com a guitarra e o microfone de backing e o baterista Michael (o Michael da música do Franz Ferdinand, que não tem nada, mas nada mesmo de sexy) descia a mão no kit básico sem nenhuma variação. Era 1, 2, 3 e vamos pular.
No centro do palco, Eugene Kelly e Frances McKee tentavam entreter o público em meio a tosqueira. Eugene chegou a levar um choque quando tentava testar o microfone, largou a guitarra e saiu emburrado. Voltou depois, com o microfone trocado, e apresentou “Molly’s Lips” (outra gravada por aquele grupo de Seattle), cuja temática é o sexo oral, como uma canção sobre “beijar bucetas”. Francês emendou totalmente desavergonhada: “Como se você soubesse o que é isso”. A vocalista fez várias referências a sexo durante a apresentação. O som melhorava em faixas mais roqueiras como “Dying For It”, mas capengava em números mais lentos – como “Jesus Wants Me for a Sunbeam”, o que não chegava a incomodar o público.
“You Think You’re a Man” veio no bis, tornando-se um grandes momentos da noite. “Dum-Dum” fechou o show – com os responsáveis pela casa irados e pedindo para que o show acabasse o mais rapidamente possível. Um pouco antes, em meio aos inúmeros problemas de som no palco, e a chuva lá fora, Frances brincou e praticamente resumiu o fim de semana: “Isso tudo está parecendo Glasgow nos anos 90”.
O São Paulo Noise, nos anos 00, tropeçou no apertado dos horários (não se começa um festival na cidade numa sexta-feira às 18h nem no meio de um quase feriado, pois ninguém consegue chegar) e no line-up sufocado em um horário de matinê sem chance de erros e improvisos. É ótimo sair de casa para ver um show e chegar antes da meia-noite, mas para não prejudicar as atrações principais é melhor escalar menos bandas. O saldo final é positivo, pois os tropeços desta primeira edição podem ser consertados nas próximas. E quem sabe no ano que vem São Paulo pareça um lugar melhor.
Ps. Frances, Glasgow é uma das cidades mais chatas do mundo!
Ps2. Mais fotos do SP Noise, por Lili Callegari (aqui)
novembro 23, 2008 Encha o copo
Titãs e Sonic Youth nas telonas

“A Vida Até Parece Uma Festa”, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves
Cotação: 1/5
Uma das principais formações de rock do país, o Titãs chega às telonas (via Mostra RJ e SP – estréia oficial apenas em janeiro) com um documentário caseiro que procura contar a trajetoria da banda através de imagens de programas de TV e registros que Branco Mello começou a fazer quando comprou sua primeira câmera VHS em 1986. Dividido a quatro mãos entre o titã e o diretor Oscar Rodrigues Alves, “A Vida Até Parece Uma Festa” tropeça enquanto cinema, mas fãs vão adorar.
Os melhores momentos do filme são quase que exclusivamente retirados de programas de televisão em imagens de (90%) péssima qualidade. Mesmo assim é hilário ver o grupo pulando do Barros de Alencar para o Qual é a Música de Silvio Santos, gastando adrenalina no Cassino do Chacrinha, divertindo-se no Programa do Bolinha e Perdidos na Noite, programa do Faustão na Band. E o raro flagra do Trio Mamão (Bellotto, Mello e Fromer) e as Mamonetes em um programa da TV Tupi é histórico.
Porém, se forem retiradas as imagens de TV, pouca coisa relevante sobra em “A Vida Até Parece Uma Festa”. A edição caótica também não ajuda. Não há um fio condutor que dirija a história, e sim idas e vindas que só não vão confundir quem realmente é fã da banda. As cenas extensas são outro ponto negativo. Exemplo: a cena seguinte após o caso da prisão de Arnaldo e Belloto com drogas é ilustrada com uma colagem da música “Polícia” em diversos lugares que poderia ser muuuuuito mais curta. Outra, com a banda enlameada na Chapada das Guimarães, também poderia ser cortada pela metade.
Para fazer a ligação entre alguns trechos carentes de imagens de arquivo, Alves filma o que restou da banda no ônibus de turnê a caminho de algum show, o que poderia ter sido um ótimo vértice para a história, mas é usado raramente e poderia valorizar passagens interessantes como uma em que a banda vota para escolher quais canções vão entrar num álbum (com Nando Reis frustrado diante da câmera), outra em que Charles Gavin leva um esporro do produtor Liminha ou, ainda, uma terceira, mais recente, com Arnaldo quase caindo da cadeira ao passar uma canção em casa com outros titãs.
Os pontos primordiais da história da banda ganham espaço na tela – a saída de Arnaldo Antunes e Nando Reis; a morte de Marcelo Frommer; o começo, meio e momento atual da banda; a vida na estrada – mas poderiam ser melhor explorados. No fim fica a impressão que “A Vida Até Parece Uma Festa” foi feito exclusivamente para fãs com mais foco na história musical do que no cinema. Até por isso destaca o roteiro capenga. Há bons momentos no documentário, mas uma banda do porte e trajetória do Titãs merecia muito mais. A gente não quer só comida.
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“Sonic Youth: Sleeping Nights Awake”, de Projeto Moonshine
Cotação: 3/5
Imagine a cena: sete estudantes do segundo grau têm uma “tarefa” para o fim de semana: registrar a passagem da turnê “Rither Ripped”, do Sonic Youth, por sua cidade, a pequena Reno, no estado de Nevada, Estados Unidos. O trabalho faz parte do Projeto Moonshine (http://www.projectmoonshine.org), uma organização sem fins lucrativos que visa ensinar cinema a adolescentes para que eles possam documentar importantes eventos em suas comunidades. “Sonic Youth: Sleeping Nights Awake” foi o primeiro longa do grupo, e o Projeto se saiu muito bem.
Não há nada de revolucionário no método de filmagem e roteiro de “Sonic Youth: Sleeping Nights Awake”, pressuposto correto para um grupo iniciante na arte de cinematografia. O grupo parte do básico nos registros e captações de imagens: acompanha a banda de sua chegada em Reno até a partida com reveladoras entrevistas com membros da equipe técnica e com os próprios músicos até imagens dos shows (com a integra de canções como: “Tom Violence”, “Shaking Hell”, “Mote”, “Incinerate” e “Kool Thing”).
A edição é primorosa e valoriza imensamente o resultado final. Com sete câmeras nas mãos de estudantes, o Projeto mixa várias imagens (todas em PB) estilosas que muitas vezes começam e/ou terminam desfocadas, opção que casa à perfeição com a pouca experiência do grupo de estudo e também com a sonoridade do Sonic Youth. Outro ponto alto é a relação dos integrantes – principalmente Thurston Moore – com a filmagem, agindo numa naturalidade raras vezes vista em um documentário.
“Já faz 17 anos desde a última vez que tocamos aqui, não lembro o nome do lugar”, diz Thurston em certo momento do show. Um fã, no meio da platéia, grita o nome do local, e Thurston emenda: “Esse ai. Obrigado por terem nos trazido de volta”. E começa o massacre com “Kool Thing”. O Projeto entrevista uma garota cujo pai tem o nome do grupo tatuado na perna. Minutos depois o encontra para que ele mostre a tatuagem para ás câmeras. O descompromisso toma conta e contagia.
Kim Gordon fala sobre a dificuldade de cantar, a vida na estrada e filhos, um deles trabalhando na turnê, na banca de camisetas da banda. Lee Ranaldo tenta explicar como a banda dura tanto e o ex-baixista do Pavement, Mark Ibold, fala sobre a adaptação ao grupo. Mas os melhores momentos são de Thurston, que parece não levar à sério o documentário. “Vocês são estudantes da high school? Legal. Querem Hersheys?”, pergunta no camarim. “Só tem dois. Vocês vão ter que dividir”, diz o guitarrista já de mochila nas costas enquanto Kim comenta: “Vou levar um pouco de comida para o ônibus”.
Um dos momentos reveladores do longa, porém, parte de um dos membros da equipe técnica. O entrevistador pergunta: “Como você sabe que eles estão felizes no palco, que a noite está sendo boa?”. O rapaz hesita, mas responde: “Eu sei quando eles não estão felizes. Por exemplo: na turnê do álbum ‘Sonic Nurse’, ainda com o Jim O’Rourke na banda, o clima não estava bom… então eles tocavam versões de 20 minutos de uma música, só microfonia, nenhum movimento. Eles estavam jogando sobre o público todas as suas frustrações”, diz, explicando por tabela a frustrante apresentação no Claro Que é Rock, em 2005, após a primeira passagem antológica, no Free Jazz, em 2000.
O intimismo e a espontaneidade valorizam “Sonic Youth: Sleeping Nights Awake”, um documentário jovem que flagra uma das bandas mais importantes do cenário independente mundial. Apesar de ter por base a execução ao vivo das canções do grupo – as entrevistas surgem entre uma música e outra, o documentário soa interessante também para aquele público que não conhece e/ou nem é fã do Sonic Youth, mas tenha curiosidade pelos bastidores de uma banda de rock em turnê, num registro que merece ser visto.
Leia também:
– “Sonic Nurse” exibe as cicatrizes do Sonic Youth, por Marcelo Costa (aqui)
– “Murray Street”, do Sonic Youth, faixa a faixa, por Marcelo Costa (aqui)
– Claro Que é Rock em São Paulo, por Marcelo Costa (aqui)
novembro 21, 2008 Encha o copo
Bill Graham e Otis Redding

Trecho sensacional do livro “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”, lançado no Brasil pela Editora Barracuda (aqui):
“Havia um grande músico que todo mundo queria ver. Todo mundo dizia: ‘Este é o cara’. Otis. Otis Redding. Ele era o cara. Para todo mundo que falava comigo. Para fazer Otis vir tocar no Fillmore, eu fui de avião até Atlanta para depois ir até Macon, que ficava no meio do nada. Acho que acabei impressionando o cara por ter ido tão longe. Mas eu pensava: ‘Como é possível explicar para alguém que eu realmente quero que ele vá tocar para mim?’. Eu poderia ter oferecido dez mil dólares, o que significaria a minha morte. Meu negócio quebraria. Na época, eu não podia pagar tanto dinheiro. Ou então eu poderia dizer que quando eu falava com artistas que respeitava, Paul Butterfield, Michael Bloomfield, Jerry Garcia, e perguntava quem era o cara, quem era o número de suas listas, eles sempre diziam que era você.
Tentei ser humilde com ele. Nada de ‘você tem que vir tocar no maravilhoso Fillmore’. Foi o contrário. ‘Todo mundo me diz que eu preciso convencer você a tocar. Eu sou fã de música latina e não conheço a sua música. Sou fã de Carmen MacRae’. O pessoal dele me perguntou sobre os jovens que iam ao Fillmore e as drogas que tomavam. Só faltava acharem que havia rituais de vodu no lugar. Aquelas tintas, as luzes, as roupas malucas. Era uma coisa estranha para eles. E esse foi outro motivo por que ir até Macon ajudou. Porque eu era um cara supercertinho que não se vestia de um jeito maluco. Finalmente, ele concordou em vir com sua banda, chamada Robert Hathaway Band. Ele tocou em dezembro de 1966. Otis Redding foi o talento mais extraordinário que eu já vi na vida. Disparado. Não havia comparação. Nem naquela época, nem agora.
Todo artista na cidade pediu para abrir o show do Otis. Na primeira noite foi o Grateful Dead. Janis Joplin chegou às três da tarde no dia do primeiro show para ter certeza de que conseguiria um lugar na frente. Até hoje, acho que nenhum músico conseguiu fazer com que todo mundo viesse para um show como ele fez. Todos os músicos apareceram. Ele era o cara. O VERDADEIRO cara. Gostasse de rhythm n’blues, rock de brancos, rock de negros ou jazz, a pessoa sempre ia ver Otis.
Ele tinha uma banda enorme. Dezoito músicos. Na primeira noite usou um terno verde, uma camisa preta e uma gravata amarela, com uma corrente de chaveiro pendurada no cinto. Tinha um metro e noventa. Era um Adônis negro. Ele se movia feito uma serpente. Uma pantera à espreita da presa. Ciente de que era o dono do universo. Belo, brilhante, negro, suado, sensual, apaixonado. Era o predecessor daquele que finalmente conseguiu tocar diante de uma platéia de fãs de rock and roll negros e brancos. Foi só quando Jimi Hendrix apareceu que me dei conta de que Otis esteve lá antes. Jimi foi o primeiro a ter mulheres brancas o desejando abertamente sem nem se dar conta disso. Mas Otis foi seu predecessor.
No palco o homem não parava de se mexer. Ele tocava uma música e, no fim, andava pelo palco. ‘Yeah! Uff! Hey! Oh! Yeah! Vamos lá! Oh! Yeah! Uff! Um, dois…’. e ai entrava na música seguinte. Três, quatro músicas depois do set da primeira noite, eu já estava em pé ao lado do palco. Eu não conseguia acreditar no quanto ele era bom. Ele começou a andar para cima e para baixo. ‘Yeah! Uff! Hey! Oh! Yeah!’. Enquanto fazia isso, uma mulher estava debruçada na frente do palco. Uma jovem negra belíssima num vestido decotado. Ela começou a suspirar como se não pudesse se conter. ‘Otis! Ah! Oh!’. Ele viu. Ele andava para cima e para baixo e dizia: “Yeah”. Estava com o microfone na mão. Ele a viu e ela disse: ‘Uhhh’. Ele atravessou o palco, se debruçou, pegou o microfone e fez uma coisa que nunca ninguém fez igual. Ele olhou para ela, e era um cara grandão e bonito, e ela estava toda animada. E ele disse olhando bem dentro dos olhos dela. ‘Essa vai com tudo para você, querida. Um, dois…’ e todo mundo fez ‘Hah!’ juntos.
Eu esperava algo especial, mas não aquilo. Aquela coisa animal. Ele fez algo naquela noite que ninguém conseguia fazer. Todo mundo batia palma enquanto ela falava ‘fa fa fa fa’ andando pelo palco. Quando terminou as pessoas estavam loucas, gritavam, ‘Yeah! Yeah!’, aplaudindo loucamente, e pouco antes do aplauso morrer tocou ‘I Been Lovin Too Long’. Ele sempre recomeçava logo antes do ânimo morrer. Logo antes de a platéia se acalmar. Vocês estão nas alturas? Vão cair? Eu ainda estou aqui. Não fui embora ainda. Ninguém nunca conseguiu isso. Até hoje eu nunca vi ninguém fazer isso. Quando Richard Pryor estava no ápice não dava para parar de rir. A gente ria, ria, ria de novo, e doía. No caso de Otis, nunca doía. O negócio é que ele era calmo. Era um cara relaxado. Mas se mexia também. Era o verdadeiro Tom Jones. A pessoa que Tom Jones sempre quis ser.
Foi uma maravilha. Otis terminou o show. Ele estava lá em cima, no camarote. Eu estava do lado de fora e ele me chamou: ‘Bill! Bill’. Eu entrei e ele disse: ‘Eu amo essas pessoas!’. Estava sem fôlego e suava loucamente porque tinha acabado de pôr o lugar abaixo. Estava lá sentado com um monte de toalhas, e eu disse: ‘Otis, nem sei o que dizer, meu deus’. E ai eu desatei a falar. A primeira coisa que ele me disse foi: ‘Muita mulher bonita aqui. Mulheres muito bonitas’.
– ‘Meu Deus’, eu disse a Otis. “Mais duas noites. Existe algo que eu possa fazer por você?’.
– ‘Não, não’, disse ele.
Quando eu estava saindo, ele disse. ‘Espere, Bill. A gente acabou de chegar da Inglaterra, e quando você faz shows lá nunca tem gelo. Será que você pode me arranjar um negócio grande com gelo e 7-Up’.
– ‘Sem problema’, eu disse.
Desci correndo as escadas até Denise, que trabalhava atrás do balcão. E falei:
– ‘Denise, preciso de contêineres grandes com gelo e 7-Up’.
– ‘A máquina quebrou’, ela me disse.
– ‘Como assim, quebrou?’
– ‘Bom, a gente continua servindo as bebidas, mas não tem gelo’.
Então sai de lá. Sai correndo de lá, possuído. Desci a Geary e fui até um mercado que ficava a um quarteirão de distância. Comprei um saco de gelo. Subi correndo a Geary de volta e entrei no Fillmore. Quebrei o gelo no balcão. Quando entrei estava resfolegando. Aí coloquei o gelo nos copos e coloquei o 7-Up. Quando cheguei lá em cima, comecei a pensar: ‘Como posso fazer o Otis saber que fiz isso por ele?’. De propósito, comecei a resfolegar de novo. Comecei a respirar como se tivesse corrido. ‘Aqui está o 7-Up’, eu disse. ‘Está bom de gelo?’.
– ‘O que houve?’, perguntou Otis.
– ‘Bom’, eu disse, ainda tentando respirar calmamente. ‘Não é nada demais… eu…. a gente… hm… a máquina de gelo quebrou. Eu tive que descer a rua para pegar gelo para você. Mas não foi nada’.
E ai Otis fez algo grande. Ele agarrou a minha camisa e disse: ‘Você fez o que? Você desceu a rua para pegar gelo para mim?’.
– ‘É. E o que que tem?’
Ele me deu um grande abraço. Depois se afastou e disse: ‘Deixa eu falar uma coisa, cara. Quando eu tocar aqui, a partir de agora, vou tocar para você’.
Se alguém quisesse saber como era o mundo dos negócios na música, eu sempre achei que aquela noite respondia. Como eu podia deixar claro que eu queria que ele voltasse a tocar para mim? Com 7-Up com gelo.”
novembro 19, 2008 Encha o copo
A Nova Idade Média

“Você gasta um tempão e uma baita grana fazendo um disco e as pessoas pegam aquilo de graça.”
Jim Reid, Jesus and Mary Chain, na Revista Bravo (Novembro/2008) (aqui)
“Baixar a música pela internet é danosa, mas ajuda a divulgação. Música é fonte de renda para muita gente. Tem muitos profissionais por trás. O cara baixa e não vai comprar seu CD. Por outro lado, ajuda com a divulgação. Fazendo um balanço, ajuda mais do que atrapalha.
“Zezé di Camargo na Folha de São Paulo (Novembro 2008) (aqui)
“No momento em que se vende menos música na história, escuta-se mais música do que nunca”.
Jesus Miguel Marcos, do Jornal Publico, de Barcelona (Julho 2008) (aqui)
A Nova Idade Média, por Marcelo Costa
A Indústria da Música está em coma, respira por aparelhos, mas continua vivendo em uma bela mansão repleta do bom e do melhor. Ela ainda sobrevive – e fatura milhões – em um mercado cujos dias estão contados, mas lamenta os dias de bonança que viveu décadas atrás, antes da Internet democratizar a distribuição da música e o MP3 derrubar o comércio de discos.
É interessante perceber que a discussão sobre a ética que envolve a distribuição de música pela Internet junta pessoas tão dispares quanto o frontman de uma das bandas britânicas mais barulhentas dos anos 80 com um dos baluartes da música brega sertaneja que dominou o mercado brasileiro no final da mesma década. Jim Reid e Zezé di Camargo simbolizam o homem desacostumado com os novos tempos, aquele que não percebe que o mundo mudou e que o passado é uma roupa que não nos serve mais.
O disco de vinil surgiu em 1948, substituindo os obsoletos discos de goma-laca de 78 rotações, que até então eram utilizados para vender música em série. A década de 50 marca o início da popularização da música de massa, mas foi nos anos 60 que o cenário tomou proporções estratosféricas. O disco mais vendido dos anos 50, “Elvis’ Christmas Album”, totalizou 7 milhões de cópias. Na década seguinte, o Álbum Branco, dos Beatles, somava quase três vezes aquele número: 19 milhões de cópias vendidas.
O que está acontecendo neste momento da história é que vivemos uma revolução sem precedentes, e muitas pessoas – principalmente as que vivem com os lucros da Indústria – ainda querem utilizar um método antigo e arcaico de comercializar e negociar música sem perceber que o mundo mudou, as ferramentas mudaram, e é preciso adaptar-se aos novos tempos. A Internet e as novas tecnologias facilitaram o ato de fazer música e distribuí-la. A cada dia que passa, a Indústria perde poder.
Mais do que qualquer coisa, é interessante observar que vinil, CD e fita K7 são suportes ultrapassados que só interessam a quem viveu os anos dourados da Indústria da Música. Adolescentes que desconhecem estes suportes e acostumaram-se a baixar músicas pela web nunca vão comprar um disco, pois aprenderam a ter isso de graça. Mais do que um problema ético, estamos diante de um símbolo de liberdade. Agora, cada pessoa ouve a música que quiser. Um disco a um clique do mouse.
“Como ganhar dinheiro com a minha arte?”, perguntam os músicos. Fazendo shows, caros amigos, fazendo shows. Estamos voltando à Idade Média. Estamos diante de um novo Renascimento. Naquela época, os artistas não tinham suportes que os permitiam vender sua música em série, e mostravam sua arte apresentando-se de cidade em cidade. Clichês repetidos a exaustão entram na pauta do dia: “O artista vai onde o povo está” ou “Quem sabe faz ao vivo”.
É por tudo isso que Matt Berninger, do grupo novaiorquino The National, agradeceu à Internet no show que fez em São Paulo, no Tim Festival. Foi ela quem possibilitou que as pessoas conhecessem sua música, e produtores os trouxessem ao Brasil, mesmo sem o grupo não ter tido nenhum de seus quatro discos lançados no país. O mesmo aconteceu com o grupo Spoon, show elogiado do Festival Planeta Terra, com nenhum disco lançado no Brasil, mas o público cantando em coro várias canções. Novos tempos.
Vivemos um momento extraordinário da história, um momento em que as novidades surgem todos os dias e qualquer coisa pode acontecer. É perfeitamente entendível que algumas pessoas queiram continuar vivendo como viviam há dez, vinte, trinta anos atrás, mas é preciso perceber que o mundo está mudando, e que certos dogmas precisam ser adaptados ao novo momento que está surgindo. E pensar que se a Indústria está morrendo, a Música está cada vez mais viva. O Rei está morto. Viva o Novo Rei.
novembro 16, 2008 Encha o copo



















