Random header image... Refresh for more!

Noruega: o viking e o louco

noruega1.jpg

Fotos e texto por Renato Moikano (@renato_moikano)

Minha viagem para de Bruxelas para Oslo aconteceu na manhã de terça, 29/05. Ou seja, horas depois do Werchter Boutique com Metallica, Soundgarden, etc. Quando venci a falta de bilhetes de trem e consegui burlar a segurança ferroviária e me esconder no último vagão de Leuven para Bruxelas acreditava piamente que dali pra frente seria só alegria. Ledo engano…

Ao chegar no hotel fui checar e-mails e me deparei com um especialmente assustador: Mads, o norueguês dono do barco que me receberia como hospede em sua nave durante meus dois dias em Bergen (litoral oeste da Noruega) dizia que o barco havia sofrido um acidente. Estava afundando. Mads tentou realocar os hospedes em albergues e hospedarias da cidade. Mas não coube todo mundo. Passou então a descolar quartos em hotéis da região.

noruega2.jpg

Minha agenda em Bergen era apertada. Chegaria na cidade por volta das 15h, poucas horas depois tinha o Bergen Calling Festival com shows do Black Label Society e de Ozzy Osbourne com Zakk Wylde e Slash. Na quarta, logo cedo, faria uma daytrip pelos fiordes da região, e à noite tinha um show de Suzanne Vega (sim, eu sei que esse é o S&Y Metal Edition… peço desculpas pelo deslize), e na quinta cedinho voo pra Barcelona para encarar o primeiro dia do Primavera Sound.

Quase desesperado, respondi o e-mail pedindo uma ajuda para descolar algum canto para ficar em Bergen. Ficar em outra cidade era inviável para minha agenda. Fui dormir não mais do que umas três horas de sono antes de encarar o voo para Oslo (e depois Bergen). Quando acordei, Mads me respondera: “Me procure no barco, vamos dar um jeito…”

noruega31.jpg

Ultra organizado que sou (odeio dar muito espaço para o acaso), estava estranhamente tranquilo. Na pior das hipóteses dormiria no aeroporto. Mas algo dizia que tudo daria certo. E deu. Chegando a Bergen fui procurar Mads. O norueguês me disse que tinha descolado um canto pra mim no barco de um amigo, e me passou o endereço.

Bergen é a segunda maior cidade da Noruega (atrás da capital Oslo). Sua economia gira principalmente em torno do turismo. No verão é porta de entrada para os fiordes; no inverno é sede das principais estações de esqui da região. Por isso, achar o barco de Sven, o amigo de Mads foi fácil. A única diferença é que o barco de Mads ficava na zona turística, o de Sven ficava na zona portuária.

noruega4.jpg

Pode até ser que noruegueses sejam frios e tudo o mais que a gente pensa de povos europeus. Os que conheci, nesse caso, eram os equivalentes aos cariocas da Noruega: animados, receptivos, curiosos e beberrões. Sven tem um pequeno barco de transporte de carga e pessoas. Na tripulação apenas ele e seu imediato: um italiano baixinho e falastrão (pleonasmo?) chamado Daniele. Os dois me receberam com festa e me acomodaram numa pequena cabine: uma cama justa e uma janelinha. Para mim, que cogitava dormir no aeroporto, parecia o Hilton. Apresentações feitas, pedi desculpas pela pressa, e zarpei para o show.

O Bergen Calling é mais uma grife que um festival. Só neste ano, por exemplo, vão acontecer pelo menos umas três edições. Numa delas toca Lenny Kravitz, na outra, Slayer, Sting… e por aí vai. Na que fui tocaria Black Sabbath. A doença de Tony Iommi e o posterior cancelamento da maioria das datas fez com que o show fosse alterado para Ozzy & Friends. Assim, o madman do metal receberia no palco Slash e Zakk Wylde. Além disso, a banda deste último, Black Label Society, faria abertura.

noruega5.jpg

O Bergen Calling acontece sempre às margens do Mar do Norte, em plena zona turística. A caminha da zona residencial para os arredores do show durou uns15 minutos e me fez chegar a pensar que estava indo na direção errada. Nas ruas nenhum sinal de movimentação de cabeludos, camisetas pretas e tudo o mais que indica a presença de um show de metal. Apenas a menos de 1 km do local (e com ajuda do Google Maps) percebi que estava indo na direção certa: um grupo de velhões com coletes de clubes motociclistas aparentava ir na mesma direção que eu.

Perguntei para um deles onde seria a entrada para o show, e o Hell Angel wannabe me indicou uma calçada para seguir. Nela percebi certa movimentação e me aproximei. Agora sim parecia um show. A procissão metaleira seguia em ordem e silêncio para a entrada. E a calçada era respeitada: nada de policiais, fitas de contenção, chiqueirinhos de metal. O público simplesmente respeitava o limite da calçada e ninguém andava pela rua.

noruega6.jpg

Outro exemplo? O ingresso diz “proibido fotografar os show”. Resultado? Ninguém saca sequer o celular para um registro do palco. Na Noruega é assim: se a regra está lá, deve haver um bom motivo para ela e ninguém vai tentar burlar (até por isso todas as fotos deste post são da cidade – a do Ozzy é de um jornal local). Mesma coisa com bebidas. Cerveja e vinho são vendidos no show (no caso uma chamada Hansa: um mijo de alce horrível com graduação alcóolica de 2,4%), mas a segurança fica em cima, e se perceberem que você está alto, parceiro, é rua.

Não estou dizendo bêbado a ponto de vomitar no decote da mulher do delegado. Um sujeito na minha frente estava calmo, sem incomodar ninguém, apenas aparentava uma suave dificuldade no equilíbrio. Não teve nem apelo. Dois seguranças apareceram e escoltaram o rapaz para fora da arena.

noruega7.jpg

Meu ingresso dava direito ao chamado Golden Circle, a área vip deles (desculpem os puristas, mas eu não iria até a Noruega pra tentar ver um show atrás de um paredão de 15 mil descendentes de vikings com 2 metros de altura cada). Na entrada apenas uma breve revista e a indicação de onde deveria pegar a pulseira para o tal circulo de ouro. Esse não ocupava toda frente do palco, apenas a metade esquerda.

Eram quase 20h e o sol estava forte. Sem atrasar um minuto sequer, às 20h, o Black Label Society apareceu no palco com seu mentor e vocalista Zakk Wylde de cocar de índio. Apresentação curta e eficiente, o Black Label Society mostra a cada dia que é realmente um projeto de Wylde. Ele é o foco do show, e seu estilo vocal mostra que o cara aprendeu tudo o que precisava saber com Ozzy. Podem até dizer que ele emula e imita seu mentor. Mas, para alguém que não sabia sequer falar sem desafinar, é uma evolução e tanto…

ozzy.jpg

Sem muita demora, Ozzy Osbourne ganhou o palco com Gus G. (guitara), Rob “Blasko” Nicholson (baixo) e o batera Tommy Clufetos. A primeira parte do show correu com “Bark at the Moon”, “Mr. Crowley”, “Suicide Solution”, ”I Don’t Know”, “Killer of Giants”, “Shot in the Dark” e “Rat Salad” (do Black Sabbath). Foi a deixa para Ozzy convidar Slash e Geezer Butler para a sequência de “Iron Man”, “War Pigs” e “N.I.B”.

Em seguida, sai Slash e entra Wylde, para mais dois sons do Sabbath: “Fairies Wear Boots” e “Into the Void”. O barbudão, e aprendiz ficou no palco para matar a saudade do repertório de Ozzy (que cada vez mais parece o Cauby Peixoto do metal). Mandaram “I Don’t Want to Change the World”, “Crazy Train” e “Mama, I’m Coming Home”.

Na última música, a óbvia ausência até então do repertório, “Paranoid”, ganhou versão com todos os convidados no palco. No retorno ao barco do Sven, ainda com sol brilhando em Bergen, um pouquinho de desordem: doze “rebeldes” desafiavam o status quo e andavam pelo meio fio. Graças a Deus: já começava a me perguntar se metaleiros noruegueses eram de fato humanos.

noruega8.jpg

junho 3, 2012   Encha o copo

Barcelona: Primavera Sound, Dia 2

primavera41.jpg

Texto e fotos por Marcelo Costa

Preguiça em Barcelona. A quinta-feira acabou ás 5 da manhã com cerveja, sangria de caixinha e Jack & Coke, e a sexta só começou após uma bela massa no Pasta Bar, na Escudellers, 47, travessa das Ramblas (enquanto a gente acordava, o Wilco se amontoava na Revolver Records para um pocket show). O segundo dia do Primavera Sound não prometia emoções tão fortes quanto as do primeiro, mas surpreendeu com Girls e o show interminável de Robert Smith.

primavera21.jpg

O plano inicial era chegar cedo e tentar ver Laura Marling e o ex-Neutral Milk Hotel Jeff Mangum no auditório. A primeira não deu tempo, e o segundo obrigava a esperar em uma fila debaixo do sol nada convidativa. Achei mais justo dar uma rodada nos palcos: Chavez fazendo bonito no Mini, The Chameleons surpreendendo no Ray-Ban, Siskiyou repetindo a boa apresentação do I’ll Be Your Mirror e Rufus Wainwright cantando canções que já não lembro mais no palco principal.

rufus.jpg

Mais tarde, enquanto Marianne Faithfull cantava de Rolling Stones a Decemberists, de Bob Dylan a Leonard Cohen no auditório, o duo Girls fazia uma baita apresentação no Mini, com guitarras altas, backing vocals arrasadoras e todos os hits cantados com paixão por um público emocionado. “Honey Bunny”, “Love Like A River”, “Vomit”, “Jamie Marie” e “Lust For Life” foram o destaque do show de uma banda que se encontra em seu melhor momento. Para rever.

primavera23.jpg

Dali, uma passada para tirar a prova dos nove do Big Star’s Third, e a coisa começou quente com Jeff Tweedy arrasando em “Kizza Me”. Ira Kaplan, do Yo La Tengo, voltou a fazer bonito em “O Dana” e Mike Mills comandou a festa em “Jesus Christ”. Tudo muito bonito, ainda que excessivamente contemplativo – só o fato do som estar mais alto que no show do Barbican já fez com que Alex Chilton sorrisse, onde quer que ele esteja. E aquela flautista e backing vocalista derretendo corações?

jeff.jpg

Deixei o auditório – quando o Teenage Fanclub Norman Blake partia para o microfone – disposto a encarar o Cure. Duas do lindo “Disintegration” abriram a noite (“Plainsong” e “Pictures of You”), que prometia. Entre as oito primeiras ainda teve “Lovesong”, “In Between Days” e “Just Like Heaven”. Aproveitei “From the Edge of the Deep Green Sea” para ir olhar o Napalm Death no palco Vice. Vi seis músicas (algumas delas novas – gostaria de saber se alguém percebeu) e o Cure ainda tocava.

cure.jpg

Pausa para um lanche. Arranjei uma mesa no restaurante da sala de imprensa, fiz o pedido de um hambúrguer, trouxeram, comi, e o Cure ainda tocava. Voltei ao palco curado pela revista Vice, assisti às três primeiras do Mayhem, e o Cure ainda tocava. Perdi Dirty Three e Codeine, mas o Cure ainda tocava (o set list teve 36 canções!). Segundo consta, quando voltarmos hoje ao Primavera Sound, Robert Smith ainda estará no palco tocando.

napalm.jpg

O último dia oficial do Primavera Sound (há, ainda, shows extras de Yann Tiersen e Richard Hawley no Arco do Triunfo no domingo) é o mais indie do festival: tem novamente Jeff Mangum (tentarei me esforçar mais desta vez) no Auditório, Saint Etienne e Kings of Convenience no palco principal, e, espalhados, Yo La Tengo, Beach House, Wild Beasts, Neon Indian, Shellac, Atlas Sound, Real State e The Weeknd. Acho que vou pegar uma praia…

lanches.jpg

Leia também:
– Tudo sobre o Primavera Sound 2012 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2011 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2010 (aqui)

junho 2, 2012   Encha o copo

Werchter Boutique: a preguiça e o épico

 metallica.jpg

 Texto e fotos: Renato Moikano (@renato_moikano)

A edição 2012 do festival belga Werchter Boutique começou como apenas um show: Metallica em sua turnê de celebração dos 20 anos do lançamento do “Black Album”, o disco que tirou o quarteto americano do hall de principais nomes do metal e transformou o grupo em uma das maiores bandas do mundo. Em meados de fevereiro novas bandas começaram a pintar como coadjuvantes no festival. E em abril o line-up estava confirmadíssimo com Ghost, Gojira, Channel Zero, Mastodon e – vejam só – Soundgarden.

Bora sair do meu refúgio em Bruxelas rumo à pacata (e relativamente próxima) Werchter. O festival estava marcado para as 13h, e o trajeto entre Bruxelas e Werchter foi bastante tranquilo e organizado. Um trem deixa a estação ao norte da capital rumo a Leuven e o trajeto (em trens expressos) leva 15 minutos. Em trens urbanos, 45. Peguei o urbano mesmo para aprender o caminho para o aeroporto. Um trajeto que precisaria fazer na manhã seguinte.

channel.jpg

Em Leuven, a comitiva de fãs com camisetas pretas e cabelos compridos era imensa. Diversas placas sinalizavam o local exato de embarque nos ônibus que fariam o trajeto entre Leuven e o local do show nas cercanias de Werchter. Mais 20 minutos de ônibus e voilà. Chegamos? Ainda não. Mais uma caminhada de 20 minutos e finalmente cheguei à entrada.

Na contra-mão da tendência, o Werchter Boutique conta com uma pista-vip que ocupa toda a frente do palco. Além desse setor, dentro da área vip havia o Snake Pit: um espaço para cerca de 200 pessoas que ficava literalmente dentro do palco, em uma área delimitada por uma alça em forma de U. O local faz referência à turnê original de divulgação do “Black Album” entre 1991 e 1993 quando o Snake Pit foi montado pela primeira vez.

metallica1.jpg

Pontualmente às 13h, o Ghost iniciou sua apresentação. Um goth metal sem sal que passaria completamente despercebido não fossem os trajes da banda que se apresenta em batinas católicas e rostos pintados como se fossem…fantasmas! Uau! Que original. Próximo. Enquanto Gojira não entrava resolvi verificar como um metaleiro gourmet se sairia no festival. As opções eram bem óbvias: hotdog e o hambúrguer mais sem vergonha que já comi na minha vida.

Os preços eram relativamente normais para um festival. Uma cerveja Júpiter (bem gelada, sempre), coca-cola, energético ou água custava 1 Bon (a moeda do festival, equivalente a 2,50 euros). As comidas e sanduíches saiam por 2 Bons. Um estande da Jack Daniels vendia bebidas a partir de 3 Bons. Todos os caixas aceitavam cartão de crédito e euros. As barraquinhas de venda de merchandising oficial apenas grana viva.

mastodon.jpg

E tudo tinha fila. E grande. E ninguém choramingava. Portanto, você, que vai a festivais no Brasil e acha que tudo é desorganizado simplesmente porque tem fila, vê se larga mão dessa síndrome de pangaré de que tudo no Brasil é pior. E lembre-se, tem fila porque você está num maldito festival com mais dezenas de milhares de pessoas, catzo.

Eu tinha certa esperança que o Gojira me surpreendesse. Acho o som do grupo um pouco carente de punch, mas acreditava que a falta de um produtor bacana e competente poderia ter contribuído para que os discos do grupo fossem meio fracotes. Empolgação não faltou, tentativas de contagiar o público também não. Mas faltou peso. O show se arrastou e só serviu pra me mostrar que o próximo disco do grupo, “L’Enfant Sauvage”, deve ser apenas mais do mesmo.

mastodon1.jpg

Channel Zero é uma banda belga tão farofa, mas tão farofa, que faz o Papa Roach soar como Black Sabbath. Por tocar para seus compatriotas contaram com simpatia de grande parte da audiência. Mas aqui, chegado, tem duas décadas de fuleiragem metaleira. Não iam me comprar só porque todo mundo estava cantando junto. E não compraram. Culpa do vocalista que ainda não se decidiu se quer cantar ou fazer pose. Uma hora no palco e chega.

Mastodon! Tentar resumir o show em uma palavra seria difícil, mas em duas dá pra tentar. Que tal: desgraça e injustiça? Desgraça porque, bem o Mastodon não fala, ruje. Do início ao fim do show tudo que eles fazem é despejar guitarrada em cima de você. Sem bom dia ou boa tarde, tocaram uma música atrás da outra. Já injustiça vem do público que ignorou completamente o grupo. A desgraceira começou com “Black Tongue” e “Crystal Skull”, e, após dez rounds, terminou com “Blood and Thunder” e “Creature Lives”.

soundgarden.jpg

Nada de lamentar, porque quase imediatamente começou o show do Soundgarden. Esse sim eu não via a hora. Eram quase 20h em Werchter e o sol ainda estava marcando presença e bronzeando as banhas belgas. E lá vamos nós. Mas não foi! O Soundgarden fez um dos shows mais preguiçosos que já vi na vida. Cada integrante distante entre si, Chris Cornell arrastando os vocais e tentativas inúteis do baixista (aparentemente o único feliz em estar ali).

O tédio musical fez com que “Outshined”, por exemplo, não saísse da primeira marcha. E “Black Hole Sun” contou com um erro grotesco de Cornnel ao tentar voltar após o solo. Se era pra voltar desse jeito, confesso que preferia o insosso Chris Cornell em carreira solo fazendo shows sonolentos. Ainda assim estou ansioso para ver o show no Download Festival em Donninton Park, no próximo domingo, dia 9 de junho. Se for igual, prometo transformar minha preciosa cópia de “Badmotorfinger” em cortador de pizza.

soundgarden2.jpg

Já o Metallica foi nada menos que épico. O roteiro da turnê é o seguinte: introdução com a tradicional sequência do cemitério em “The Good, The Bad & The Ugly”, de Sergio Leone, com “The Ecstasy Of Gold” (do mago Ennio Morricone). Em seguida a banda abre com “Hit the Lights” (primeira faixa do primeiro disco que já completa 29 aninhos). Em seguida, “Master Of Puppets”, “Ride The Lightning” (executada pela primeira vez nesta turnê), “For Whom The Bells Tolls” e “Hell and Back”, sobra de “Death Magnetic” (2008) lançada no EP de “Beyond Magnetic” (2011).

Um intervalo e os telões começam a exibir um breve clipe com cenas das gravações do “Black Album”. Grande parte do material extraído está no documentário duplo “A Year And A Half” que acompanhou a gravação e a primeira perna da turnê em 1991. O clipe não economiza com várias imagens de Jason Newsted, então baixista do grupo que deixou o Metallica de forma traumática antes da gravação de “St. Anger”.

metallica2.jpg

A sequência de canções obedece a uma lógica interessante: o disco é executado de traz para frente. Então, o filé mignon do show vem com “The Struggle Within”, “My Friend of Misery”, “The God That Failed”, “Of Wolf and Man”, “Nothing Else Matters”, “Through the Never”, “Don’t Tread on Me”, “Wherever I May Roam”, “The Unforgiven”, “Holier Than Thou”, “Sad But True” e “Enter Sandman”. No bis teve “Battery”, “One” (com direito a nova iluminação toda com lasers) e o tradicional encerramento com “Seek & Destroy”. Épico!

E a saga não terminou aí. Lembram que no post anterior eu ainda não tinha descolado uma passagem de volta para Bruxelas. Bom, imperou a brasilidade. Tapei o destino final do bilhete que eu tinha comprado e consegui me esgueirar no último trem para Bruxelas. Mas, hey, eu não me orgulho disso, hein…

metallica3.jpg

junho 2, 2012   Encha o copo

Barcelona: Primavera Sound, Dia 1

primavera1.jpg

Texto e fotos por Marcelo Costa

Como era esperado, a primeira noite da edição 2012 do Primavera Sound, em Barcelona, foi uma reunião de concertos memoráveis: as voltas de Afghan Whigs e Refused, a classe de Wilco, Lee Ranaldo e Spiritualized, o show de hits do Franz Ferdinand (com direito a canções novas) mais Death Cab For Cutie, Mudhoney e Arches of Loaf (e muitos outros) mostraram porque o festival catalão é um dos melhores do mundo.

primavera.jpg

Na programação oficial, que começou às 17h, mais de 50 bandas divididas em oito palcos na beira do Mediterrâneo, mas sabemos todos que é impossível ver 30% disso – embora a gente tente. Com boa vontade se consegue ver cinco shows inteiros e pedaços de um outro aqui e ali. Assim, uma primeira piscadela para o Arches of Loaf, que repetiu a bela apresentação do ATP em Londres, na semana passada, tocando debaixo de um solzão de 19h30.

primavera2.jpg

Na sequencia, The Afghan Whigs, outra atração do ATP londrino, que repetiu o êxito da semana anterior com um show focado. Greg Dulli continua urrando como um touro ferido em uma arena, e o novo baterista mão pesada ainda está se acostumando ao repertório, o que afeta uma das características básicas da banda, a improvisação, mas ainda assim o show é caótico, nervoso, instigante, clássico, méritos de um repertório absurdo de bom.

primavera3.jpg

Quase no mesmo horário, no palco curado pelo ATP, Lee Ranaldo mostrava com vontade as canções de seu excelente novo álbum solo. Ele deixou as experimentações de seus discos anteriores e concentrou no poder de riffs e das canções. Contou historinhas (de uma garota que conheceu em Barcelona nos anos 80 quando tocava com aquela banda, como é mesmo o nome… Sonic Youth) e solou muito. No fosso, Mark Arm acompanhava com admiração.

primavera4.jpg

Depois, três músicas do Death Cab For Cutie mostraram que a banda continua enorme na Europa, com cerca de 5 mil pessoas acompanhando o show no quinto dos infernos, ou melhor, o palco Mini, que dá a impressão que a Sagrada Família será terminada antes de chegarmos ao local do show. Depois, uma passada rápida e certeira pelo Mudhoney, para ouvir os hinos “Touch Me I’m Sick” e “Suck You Dry” e ver a galera se matando no pogo. Bonito de olhar.

mudhoney.jpg

No palco principal, Jeff Tweedy soava sincero: “É bom estar de volta, Barcelona. Vocês são o melhor público do mundo, e não estou falando pra fazer média”. O repertório foi bastante ousado – principalmente em relação ao show de 2010 neste mesmo palco – com “At Least That’s What You Said”, “Spiders (Kidsmoke)”, “Too Far Apart” e, principalmente, “Laminated Cat” (do projeto Loose Fur) surpreendendo os fãs.

wilco.jpg

Nels Cline confirma o status de monstro da guitarra seja comandando o caos de “Art of Almost”, seja solando interminavelmente em “Impossible Germany”, uma canção que deveria ser tombada como Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco. O trecho final pode ter causado infarto em algum fã mais afoito: “I’m Always in Love”, “Jesus, Etc.”, “I’m the Man Who Loves You”, “Dawned On Me” e a graaande “A Shot in the Arm”. Sorriso no rosto.

mudhoney1.jpg

Calma que não acabou. No palco Rayban, os suecos do Refused promoviam um massacre hardcore de primeira grandeza (enquanto isso, lá no Mini, o The XX recriava suas canções). O pique do vocalista Dennis Lyxzén é impressionante: ele pula, corre e distribui pontapés no ar que facilmente derrubariam Anderson Silva. A iluminação do palco é funcional e o baixo encharcado de sujeira bate no peito de tal forma que pode desequilibrar o individuo. Foi lindo… e bastante violento.

franz.jpg

O Franz Ferdinand aproveitou o palco do Primavera para (como tem feito nos shows atuais) mostrar canções inéditas do vindouro quarto álbum. A festa começou com “Darts of Pleasure” e “Tell Her Tonight”, que bastaram para Alex Kapranos e compania terem o público nas mãos. “Right Thoughts”, a primeira das inéditas, não impressionou (eles tocaram ainda “Brief Encounters”, “Fresh Strawberries”, “WTICSFIFL? Midnight!” e “Trees & Animals”), mas o caminhão de hits (“Take Me Out”, “Walk Away”, “This Fire” e outras) fez todo mundo pular.

wilco2.jpg

Por fim, às 02h15 da manhã, Jason Pierce adentrou o palco aplaudindo o público e sua banda. Pegou a guitarra e atacou logo de cara “Hey Jane”, primeiro single do disco novo (e com um clipe sensacional). Durante pouco mais de uma hora, o Spiritualized fez do Primavera Sound uma missa. Almas levitavam ao som de “Lord Let It Rain On Me”, “Soul on Fire”, “Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space” e a sensacional “Come Together”, quase dez minutos inesqueciveis, fecho de ouro para uma noitada inesquecível. Hoje tem mais. Aguarde.

spiritualized.jpg

Leia também:
– Tudo sobre o Primavera Sound 2012 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2011 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2010 (aqui)

junho 1, 2012   Encha o copo

Barcelona: Torta de Uísque e Rock and Roll

barcelona1.jpg

Texto e fotos: Marcelo Costa

O meu amor por Barcelona se renova a cada ano. É simples assim. Existem várias outras cidades mais encantadoras e mágicas (Praga, Veneza, Santorini, Paris, Amsterdã), mas em nenhuma delas me sinto tão bem quanto em Barcelona. É a cidade que eu gostaria de morar (quem sabe um dia). Um pouco pela arquitetura (e Gaudi é responsável direto), mas hoje em dia ainda mais pelo desenho urbanístico do Ildefons Cerdà, que consegue unir beleza com praticidade. Barcelona respira, e muito.

barcelona2.jpg

Batemos cartão na Revolver Records, uma das lojas mais sensacionais do planeta, com um vasto catálogo de raridades (comprei pictures discs do Joy Division e das Ronnetes), bootlegs (a parte de Beatles, Stones, Neil Young e Bruce Springsteen na estante é de fazer fã chorar) e lançamentos fresquinhos tanto em vinil quanto em CD. Tentei me controlar e consegui comprar apenas o “1965” do Afghan Whigs em vinil (relançamento duplo com um segundo vinil de bônus tracks), o CD do 13Th Floor Elevators e o DVD “1991: The Year Punk Broke”.

barcelona3.jpg

Porém, ao lado da Revolver (na Calle Tallers, primeira rua a direita de quem desce as Ramblas saindo da Praça Catalunha) agora há uma outra loja muito bacana, a Castelló, que também recheou seu acervo de bootlegs e lançamentos raros. Coisas como uma caixa com seis vinis e três CDs das sessões do “Exile on Main Street”, dos Stones, dois volumes com 15 CDs e quatro DVDs com tudo de raridade que o U2 gravou, um vasto catálogo de Beatles e muito, mas muito mais. Quando passar por Barcelona na próxima semana (para ver Stone Roses), quero voltar lá.

barcelona6.jpg

A primavera chegou quente por estes lados. Na quarta-feira, final de tarde, os termômetros marcavam 30 graus, mas a sangria e o vento do Mediterrâneo refrescam a cidade. Desta vez estou no Eixample, um bairro que começou a tomar forma em 1860, quando a cidade foi autorizada a crescer além das muralhas medievais. Nunca tinha ficado nem andado aqui, e estou adorando. Parece que entramos dentro da rotina catalã com nossos vizinhos indo ao supermercado e comendo e bebendo nas dezenas de restaurantes e casas de tapas da região. Até os preços são mais baratos que os das áreas turísticas, por exemplo.

barcelona4.jpg

Também já batemos cartão no Kiosko, um dos melhores hambúrgueres de Barcelona, e descobrimos uma ótima casa de tapas da bacia do Rio Prata, o Criollo, que tem ótimos preços, comida honesta e uma torta de uísque viciante. Caminhamos pelo Barrio Gótico, tomamos suco na Boqueria, e conferimos a abertura oficial do Primavera Sound 2012, com alguns shows gratuitos na praça do Arco do Triunfo – sem spray de pimenta. The Wedding Present e The Walkmen abriram a festa com shows excelentes para uma plateia numerosa.

barcelona5.jpg

David Gedge subiu ao palco às 19h55 (cinco minutos antes do previsto) com uma versão encorpada de “My Favourite Dress” (single presente no álbum “George Best”, de 1987) e “Back A Bit… Stop” (de “Valentina”, recém-lançado). De 1987 para 2012. Logo depois, anunciou: “Agora, ‘Seamonsters’ na integra”. O álbum produzido por Steve Albini em 1991 é um dos pontos altos da carreira da banda (mas os discos mais recentes merecem sua atenção) e versões poderosas de “Suck”, “Lovenest” e “Corduroy” mostraram que a nova formação do grupo está bastante entrosada. Nos bis, “Drive” e “Kennedy”. Poesias com riffs no talo.

barcelona99.jpg

Intervalo de 20 minutos para ir atrás de cervejas espanholas, e Walkmen no palco. Em discos, o grupo novaiorquino caminhou de um posto sub-Strokes (nos dois primeiros e bons “Everyone Who Pretended to Like Me Is Gone”, de 2002, e “Bows + Arrows”, de 2004) para um de sub-Wilco, com o altcountry correndo forte nas veias do vocalista e guitarrista Hamilton Leithauser. O show mistura essas duas fases de forma bastante distinguível, e diverte (com direito a single novo, “Heaven”, e hits antigos como “The Rat”). Ainda tinha Black Lips na sequencia, mas optamos por descansar.

barcelona8.jpg

A maratona do festival começa hoje no Parc de Forum e, na minha programação do dia, quero tentar ver Linda Martini , Archers Of Loaf, Lee Ranaldo, Death Cab For Cutie, Wilco, The XX, Franz Ferdinand e Spiritualized. Ontem, a produção do evento anunciou que irá transmitir 20 shows do festival pelo Youtube, entre eles os três principais desta noite (The Afghan Whigs, Wilco e Spiritualized) mais The Cure, Mazzy Star, Rufus Wainwright, The Drums, The Rapture e outros. Confira a lista toda aqui lembrando que o Brasil está cinco horas a menos que Barcelona (Wilco, por exemplo, toca às 18h no horário de Brasilia).

maio 31, 2012   Encha o copo

Barcelona: Chimay e Judas na geladeira

chimay.jpg

No Brasil, uma garrafinha desta acima custa entre R$ 17 e R$ 22. No supermercado ao lado do apartamento em Barcelona, 1,99 euros (R$ 4,90). A Judas é ainda mais em conta: 1,50 euros (R$ 3,70). Geladeira cheia (ainda com jamon serrano e azeitunas para tapas)…

judas.jpg

maio 30, 2012   Encha o copo

Londres: Little Venice, Camden e Big Star

little1.jpg

texto e fotos por Marcelo Costa

Novo dia de sol em Londres. E sol forte. A boa pedida do dia: um passeio de barco de cerca de 50 minutos pelo Regent’s Canal, que liga o Maida Vale a Camden Town. Sua construção foi iniciada em 1812, e o canal ainda mantém todo o charme em um trajeto nostálgico e bonito que passa na porta do Zoológico de Londres e segue até Camden Lock, coração de Camden Town numa paisagem que no início é povoada por barcos casa e, depois, por pequenos prédios de dois andares com ancoradouros no quintal.

little2.jpg

O ponto inicial do passeio é em Little Venice, junção da Maida Avenue com o Warwick Crescent e Blomfield Road, em um pequeno lago. O metrô mais perto é o Warwick Avenue?, da Bakerloo Line e o passeio custa 7 pounds (10,50m ida e volta), e vale bem a pena. Quero fazer esse passeio de novo, mas desta vez não de barco, mas sim caminhando ao lado do canal, numa passarela que o acompanha até seu final em Camden Lock (várias pessoas fazem o trajeto a pé ou mesmo de bicicleta).

little3.jpg

Descemos em uma Camden Lock muvucada de domingo debaixo de um sol de queimar brasileiro que acha que pode tudo. Uma passadinha rápida em uma loja de CDs (com alguns piratas sensacionais) e depois uma esticada ao pub The Lock Tavern (esse aqui), para provar a boa ale Pure Ubu e um dos pratos tradicionais de domingo para a família inglesa: frango, batata e mais algumas coisas que você pode ver na foto abaixo. Depois disso, mais uma passada em uma loja de CDs e vinis, a excelente Music and Video Exchange.

little5.jpg

A MVE tem diversas filiais pelo Reino Unido (só em Londres devem ser umas 10 lojas) e trabalha com material usado, ou promocional, que eles colocam em suas prateleiras com preço muito mais em conta que o das megas HMV e Fopp. Claro, tem coisas caras como a primeira edição do primeiro disco dos Rolling Stones, que estava saindo pela bagatela de 350 libras (cerca de R$ 1.100), ou a primeira tiragem de “Dark Side of The Moon”, do Pink Floyd, que estava um pouco mais em conta: 265 pounds (R$ 830 em um vinil).

little4.jpg

Mas se você quiser pechincha, tem para todos os gostos. Por exemplo, uma promoção que pode ser encontrada não só na MVE, mas em várias outras lojas de usados: eles embalam um certa quantidade de CDs e/ou vinis e colocando um preço no lote (e você tem que comprar sem saber o que há dentro). Algo como 60 vinis = 2 pounds / ou 120 CDs por 10 pounds (lembre-se: caixa fechada por sua conta e risco). Não arrisquei, muito porque isso tudo pesa e tenho mais sei lá quantos dias de viagem pela frente. E segundo porque iria ser um tempão olhando tudo e pensando no que fazer com aqueles que não passaram no crivo pessoal.

little6.jpg

Depois até passei na HMV, e pela primeira vez deixei a loja sem um único item que fosse. Já na Fopp de Covent Garden não teve como escapar: dois vinis (Ben Kweller e M Ward, ambos por 16 pounds e com o CD de bônus acompanhando o disco) mais alguns CDs (13th Floor Elevators, Regina Spektor e um antigo do Black Keys). A noite, fechando um dia corrido, show do Big Star (sem Alex Chilton, óbvio, mas com vários convidados ilustres) no Barbican Center (local em que o Mutates gravou seu disco ao vivo de retorno).

little7.jpg

O show foi bonito, mas excessivamente reverencial, como se ninguém no palco ousasse encarar a alma de Alex Chilton. Dos convidados, bons momentos com Norman Blake, Mike Mills, Alexis Taylor, Jon Auer e Ira Kaplan (Brendan Benson deu cano), mas quem sacudiu mesmo o teatro foi Ray Davies, que surgiu para cantar a sua “Till The End Of The Day”, que Alex Chilton e compania gravaram nas sessões do terceiro disco, “Third / Sisters Lovers” (já falamos do álbum aqui).

little9.jpg

Tudo lindo, tudo bonito, até a hora de pegar o metrô e descobrir que a sacola com os CDs e um acessório da Apple Store para um amigo ficou em alguma das baldeações. Já escrevi para o “Achados e Perdidos” do metrô, mas acho difícil aparecer. No entanto, escrevi e eles respondem em 21 dias (segundo o email que me enviaram). Esquecimento: coisas de muita cerveja misturada a noites mal dormidas e cansaço de viagem. E olha que estou no começo da minha tour…

little11.jpg

Eu até queria escrever mais! Detalhar o passeio de barco, que é bem legal, falar mais do show truqueiro mas com coração do Big Star, do bar Canela, que fica em Covent Garden e oferece comida brasileira (coxinha, feijoada, pastel de nata) e falar do maravilhoso Beef Carbonnade que comi no meu pub preferido de Londres, o Belgo (olha a descrição: “48 hour slow cooked beef, marinated in sweet Gueuze beer with Bramley apples and plums. Served with a choice of Stoemp mash or frites” -> mais aqui). Mas o cansaço bateu. Bora dormir…

little10.jpg

Melhor não brincar: nessa quarta começa o Primavera Sound em Barcelona… bora descansar =)

maio 29, 2012   Encha o copo

Bruxelas: Judas e o esgoto engarrafado

brussels1.jpg

Texto e fotos: Renato Moikano (@renato_moikano)

Penetra na festa! Começa aqui o Scream & Yell Europe 2012 Tour – Metal Edition… Enquanto Marcelo Costa inicia sua saga pela Inglaterra, antes de cair em Barcelona para o Primavera Sound, eu faço uma viagem mais mainstream pelo mundo das arenas de metal da Europa central e Escandinavia. Em seguida passo uns dias com o Mac por Paris (tem Guns, tem Marilyn Manson, o que será que vai rolar?), por Luxemburgo (tem Lou Reed tocando coisas do “metallico” Lulu), por Cork (tem Tom Petty, e aqui não tem nada de metal) e finalmente por Donnington acompanhando os dois últimos dias do Download Festival – que esse ano tem Black Sabbath.

brussels6.jpg

A aventura começa de fato nesta segunda-feira, em Werchter, na Bélgica (sim, a mesma cidade do Rock Werchter). É lá que o Metallica recebe Soundgarden, Mastodon, Channel Zero, Gojira e Ghost no Werchter Boutique. Metaleiros de butique, uni-vos que o James Hetfield e compania irão apresentar na íntegra seu “Black Album”. A bolacha de 1991 será executada de cabo a rabo para celebrar os 20 anos da produção que tirou o Metallica da lista de Grandes Bandas do Metal e colocou-o entre as Maiores Bandas da História. Ponto.

brussels2.jpg

Dia 29, na Noruega tem Ozzy & Friends. Era pra ser um show do Sabbath, mas a doença de Tony Iommi mudou os planos. Mesmo assim tem o devorador de morcegos tocando com Slash e tem também Black Label Society do Zakk Wylde (e eu dormindo em um barco! É sério. Era a hospedagem mais em conta da cidade de Bergen, que, segundo algumas estatísticas, é a cidade em que mais chove no mundo: são 300 dias de São Pedro lavando o banheiro em 365 do ano). A viagem continua passando pelo Primavera Sound de Barcelona, onde o Napalm Death irá combater um trecho do show do The Cure… E por aí vai.

brussels3.jpg

Desembarquei no sábado em Amsterdã com a missão de descolar um jeito de chegar em Bruxelas. A pressa era ansiedade pra conseguir comprar um passe de trem especial para o show do Metallica em Werchter. O bilhete dá direito ao trem de ida até Leuven, busão fretado ida e volta até Werchter, e trem de retorno pra Bruxelas. Apesar da venda de ingressos para o show acontecer tranquilamente pela internet (comprei o meu ainda em dezembro), esse passe só era vendido nas estações.

brussels8.jpg

Cheguei em Amsterdã na estação Central de Bruxelas (ou “Bruxelles-Central / Brussel-Centraal” -> eles tem duas línguas). Pergunta aqui, pergunta ali e nunca ninguém ouviu falar no tal bilhete especial do Werchter Boutique. Resolvi ir para o hotel. Sem malas e de banho tomado conseguiria insistir na busca pelo passe especial. Estou no Siru Hotel, um estabelecimento modernete no norte da capital belga. A duas quadras da Estação Norte.

brussels9.jpg

A estação é imensa, maior que a central, lotada de imigrantes ilegais acampados nos seus corredores. Ainda assim, deserta em um sábado à tarde. No balcão consigo finalmente a informação de que sabem do que se trata meu pedido. O diálogo é truncado. Meu francês é nulo, e o inglês do atendente também. Mesmo assim, é atencioso ao extremo e sai de seu posto para me encontrar na fila e tentar entender melhor o que eu estou pendindo.

brussels10.jpg

Quando retorna ao seu posto começa uma sequencia assustadora de caretas enquanto observa o monitor de seu terminal. Faz que sim, faz que não, franze a testa, sorri, fecha o semblante, respira fundo e me responde: “The train is full”. Existem quatro tipos de passes para esse festival. Apenas um deles garante o retorno a Bruxelas. Os outros passam longe daqui. Resolvo comprar um que vai para Oostende, no norte do país. Mais tarde penso em como voltar para Bruxelas.

brussels7.jpg

Ao explorar a cidade sou surpreendido por um festival de Jazz. Uma espécie de virada cultural sem sustos, com palcos espalhados por cada praça do centro de Bruxelas. E quartetos, sextetos, big bands, e até rappers se apresentando. Já são quase 21h e Bruxellas insiste em ter dia claro, e sol forte. Hora de parar para um cerveja e comer alguma coisa. Escolho o À la Mort Subite, um bar do início do século passado que já recebeu em suas mesas rodas de intelectuais belgas…

brussels5.jpg

O que me atraiu foi a carta de cervejas e o fato de, em alta temporada, não ter quase nenhum turista por ali. Na carta oferecida pela casa, muitas cervejas da Alken-Maes. Entre elas uma Brown Ale chamada Judas. O nome me atraiu e pedi uma grande, 900 ml. Tal qual seu homônimo bíblio, esse tal Judas belga também vai te trair… horas depois. Para acompanhar peço uma tábua de queijos e passo mais de uma hora observando o movimento do bar que recebe em sua maioria belgas.

orval.jpg

Com quase dois litros de cerveja em mim (fora duas Chimay que tomei durante a tarde) resolvo dar mais uma volta pelo centro. Passam das 22h mas a noite ainda não caiu por completo. A Grand Place, um dos principais pontos turísticos da cidade, já está iluminada e segue abarrotada de gente que acompanha um show de rap no tal festival de jazz. Barraquinhas no entorno vendem cervejas, cones de batata frita e waffle entupidos de coberturas doces.

brussels11.jpg

No caminho para o hotel, macaco velho que sou, compro alguns doces, água, e mais umas garrafinhas de Coca-Cola e chá Lipton para abastecer o frigobar do quarto. Penso em escrever este primeiro texto para o Mac na chegada, mas sou vencido pelo cansaço e apago na cama. Às 4h da manhã sou acordado. Judas voltou como uma fortíssima dor de cabeça e uma ressaca tão hedionda que chega a acordar um defunto. Sede, o quarto parece um deserto. No frigobar resolvo devorar a garrafa de chá. Giro a tampa e ouço barulho de pressão saindo. Isso não é bom. No primeiro gole quase cuspo. É refrigerante de chá preto! Algo como esgoto engarrafado… A viagem só está começando.

brussels4.jpg

maio 28, 2012   Encha o copo

Londres: I’ll Be Your Mirror, Dia 3

atp23.jpg

Texto e fotos por Marcelo Costa

A previsão do tempo não errou para o domingo e um sol castigador fez a turistada disputar as sombras de Londres enquanto as garotas locais encurtavam os shorts e os homens retiravam a bermuda do guarda-roupa. No Alexandra Palace, enquanto dezenas de famílias aproveitavam o dia de sol no parque, o canto do cisne da edição 2012 do I’ll Be Your Mirror tinha hora para começar (12h, com o início da exibição de “American Movie” no ATP Cinema) e acabar (00h quando terminaria a exibição de “King of Kong”). Entre os filmes, uma dezena de shows.

atp24.jpg

A programação pessoal começou com o belo show do Arches of Loaf, combo indie norte-americano com alguns dedos do pé no grunge. Formado em 1991 e desmontado em 1998, o Arches retomou o barulho no ano passado, e este show no festival mostra que o grupo está bastante afiado abusando do contraste da delicadeza do vocalista e guitarrista Eric Bachmann com a postura “tenho os cabelos do Anthony Kiedis e agito como o Flea” do hilário baixista Matt Gentling. Um belo show para rever com mais calma.

atp25.jpg

Quase no mesmo horário, os canadenses do Siskiyou entretiam uma pequena audiência em uma sala com um show promissor, que merece atenção. Quinze minutos depois, Yuck no palco, e aquele som que você já ouviu diversas vezes em dezenas de outros discos corta o ar com uma nuvem de microfonia, e diverte. O show é bom (valorizado pelo ambiente do palácio do povo), e ganha alguns créditos pela excelente transposição de arte com filmagem da banda ao vivo no fundo do palco. Nada como ouvir canções frescas e envolventes como “The Wall”,  “Suicide Policeman” e “Get Away” num volume alto e de qualidade.

atp26.jpg

Pausa para descansar as pernas, comer pizza e beber uma ale aguada, mas ok, e lá se foi o show do Tennis, grupo de Denver comandado pela belezinha Alaina Moore. Ok, rolou pegar o trecho final da penúltima música e a última, e o show vende bem a banda (algo entre Keane, Killers, Coldplay e Cardigans). Também havia perdido o filme “Stalking Pete Doherty”, mas o que importava de verdade era que, em alguns minutos, uma das melhores bandas dos mundo voltaria aos palcos: The Afghan Whigs.

atp27.jpg

O público (um pouco menor que o de sábado) de cerca de 2 mil pessoas compensou os buracos na plateia cantando tudo que Greg Dulli rasgava no microfone – e sua voz, personalíssima, impressiona pelo alto nível de qualidade que se mantém do início ao fim do show. O trio de fource original do grupo – Greg Dulli (vocais e guitarras), Rick McCollum (guitarra base) e John Curley (baixo) – surgiu acompanhado de um terceiro guitarrista, um excelente baterista mão pesada e um terceiro músico que se alternava entre teclados e violoncelo.

afghanwhigs.jpg

A gangue de preto entrou pontualmente às 21h30 com a introdução de “Crime Scene Part One”, do álbum “Black Love” (1996) antecipando o sonho. Na sequencia, “I’m Her Slave” (“Congregation”, 1992), “Uptown Again” (do grande “1965”, 1998) e “What Jail is Like” (“Gentlemen”, 1993) bastaram para conquistar a audiência, que gritava as letras com um sorriso enorme no rosto. Da metade para o final, o céu caiu na Terra com “Crazy”, “My Enemy”, “66”, “Debonair”, “Bulletproof” e uma versão poderosa de “Summer’s Kiss”. Para o bis, a nova cover de “See and Don’t See”, uma versão de “Lovecrimes”, de Frank Ocean, “Fountain and Fairfax” e a intensa “Miles Iz Ded” confirmaram: o Afghan Whigs voltou com sede de palco. Que show. Que voz.

afghanwhigs2.jpg

No balanço geral, o I’ll Be Your Mirror 2012 mostrou um bom número de grandes shows em um espaço confortável, sem empurra-empurra nem muvuca. Ainda assim, é um festival caro demais, em que o espectador paga pelo conforto, mas paga muito (ainda mais em se tratando de Reino Unido, com a libra dobrando o dólar e colocando no bolso). O preço do ticket de três dias saiu praticamente o mesmo de mega festivais como Rock Werchter, na Bélgica, e Primavera Sound, em Barcelona, mas o I’ll Be Your Mirror não vende quantidade, mas qualidade. E barulho. Muito.

atp28.jpg

maio 28, 2012   Encha o copo

Londres: I’ll Be Your Mirror, Dia 2

atp11.jpg

Texto e fotos: Marcelo Costa

Na base do chutometro, o primeiro dia do I’ll Be Your Mirror 2012, com Slayer de headliner e ingressos a 35 libras, parece ter levado umas seis mil pessoas para o Alexandra Palace. No segundo dia, com ingressos a 65 libras e curadoria especial do Mogwai, cerca de 2 mil pessoas acompanharam os shows, tanto que a área maior, onde ocorreu o show do Slayer na sexta-feira, ficou fechada enquanto as bandas tocavam no segundo palco (e os nomes “menores” tocavam em um terceiro local, bem parecido com uma pequena sala).

atp21.jpg

A programação, mais extensa no fim de semana, começava ao meio-dia e meio, mas decidi chegar só às 16h para acompanhar o show do Chavez, banda nova-iorquina das mais preguiçosas (em quase 20 anos de existência, só lançou dois álbuns, o segundo deles, “Ride the Fader”, editado no Brasil no começo dos anos 2000 pela Trama), mas que faz um post rock com acentos indies de altíssima qualidade. O show, inclusive, foi mais indie que post, com uma bela parede de guitarras aclimatando a voz de Matt Sweeney. “Top Pocket Man” arrancou sorrisos e aplausos.

atp31.jpg

O Codeine veio na sequencia para seu primeiro show em 18 anos (o pontapé da turnê de retorno foi no I’ll Be Your Mirror) e com o público nas mãos (o baixista Stephen Immerwahr repetiu ao menos cinco vezes durante a tarde a frase “Vocês são muito bondosos”) honrou o convite dos escoceses. “D”, faixa que abre o primeiro álbum do grupo, lançado pela Sub Pop em 1991, foi a escolhida para dar início ao show, que caminhou delicadamente (mesmo nos momentos de inferno sonoro) na fronteira entre a melancolia e a loucura. Um show intenso e idílico… perfeito para o fim do mundo.

atp41.jpg

Não lembro quantas vezes já tive o prazer de ver o Mudhoney (acho que seis ou sete), mas sem dúvida esta vai para o topo, mérito do som impecável do festival, que valorizou a porradaria do grupo. Um Mark Arm ensandecido e com trejeitos de Iggy Pop jogou lenha na fogueira logo no início – com “Judgement, Rage, Retribution and Thyme” (de “My Brother The Cow”, de 1995), e dois hinos dos primórdios: “Sweet Young Thing Ain’t Sweet No More” e “Touch Me I’m Sick” –, mas também abriu espaço para as novíssimas e inéditas “Chardonnay” e “Widow Of Nain”. Showzão.

atp51.jpg

Surge então o louco de pedra Warren Ellis com seu Dirty Three (figurinha carimbada em dezenas de festivais deste ano) mais violino, vinho, canções novas (do recém-lançado “Toward the Low Sun”) e uma iluminação impecável. O som do trio (formado em 1992 e do qual ainda fazem parte o multi-instrumentista Mick Turner e o baterista Jim White) parece uma junção de Gogol Bordello (o lance do violino), Devendra (o lado hippie) e Explosions In The Sky (as viagens instrumentais), e funciona muito ao vivo. Sem contar que Warrren é uma peça: “Essa música é contra o capitalismo, contra governos, contra toda babaquice do mundo… e… que música vamos tocar mesmo?”. :~

atp61.jpg

Estrelas da noite (e após dois shows absurdos de bons no Brasil neste mesmo maio), o Mogwai fez sua típica apresentação para ninar dragões. O set list trouxe a maioria dos números que também bateram ponto nos shows brasileiros (“Rano Pano”, “I’m Jim Morrison, I’m Dead”, “Mexican Grand Prix”, entre outras), mas algumas surpresas surgiram, como “Sine Wave” (do álbum “Rock Action”, 2001), o ótimo b-side “Ithica 27ø9” (1996) e “Auto Rock” (do “Mr Beast”, de 2006). O final com “Mogwai Fear Satan”, “Batcat”, o som poderoso do ATP e a iluminação esplendorosa foi algo simplesmente perfeito.

atp71.jpg

Segundo a previsão do tempo, o sol deve surgir ainda mais forte neste domingo. Segundo a previsão dos deuses bastardos do rock and roll, a volta do Afghan Whigs deverá ser um dos grandes momentos do ano. Ainda tem Arches of Loaf, Yuck, passeio pelo Regent’s Canal e, quem sabe, uma pernada por Camden Town (embora no domingo isso não seja lá tão recomendável). Partiu I’ll Be Your Mirror, Dia 3… mas antes melhor dormir…

atp8.jpg

maio 27, 2012   Encha o copo