Esse você precisa ouvir

Big Star é a banda. Ok, eu sei, eles acabaram antes mesmo desse disco ter saído (isso em 1975), mas, inevitavelmente, o Big Star é a melhor coisa que eu ouço em muito muito tempo. O fato é que em agosto do ano passado saiu uma lista bacana da New Musical Express apontando Third/Sister Lovers como o álbum mais triste de todos os tempos. Eu, baladeiro de plantão, fiquei interessado, mais ainda depois que nosso amigo e conselheiro Marcelo Orozco escreveu esse texto para o site Garagem (isso em agosto/2000). Tempos depois Third/Sister Lovers apareceu na loja de um amigo e eu fiquei namorando o cd por um tempo até criar coragem, checar a carteira e pegar. Resultado: febre de Big Star na família S&Y. E lá fomos pedir para o conselheiro crispiniano liberar o texto pra gente e, taí, porque esse você precisa ouvir.
Marcelo Costa
Capa do Third/Sisters Lovers, lançado oficialmente 
pela Ryko em 1992
Capa do álbum lançado em 1987 pela Line Records

BIG STAR - THIRD/SISTER LOVERS (1975)
por Marcelo Kbla Orozco

De um jeito torto, o jornal inglês New Musical Express (o NME) fez justiça em uma daquelas listas de "100 mais-alguma-coisa de todos os tempos" e botou este álbum do Big Star como campeão.

Era lista de 100 discos mais tristes. O zebrão Third/Sister Lovers superou favoritos absolutos: Joy Division, Spiritualized, Nirvana, Billie Holiday, Frank Sinatra, Nick Drake e Sebadoh (todos entre os 10 primeiros).

Bem ou mal, é um reconhecimento enorme "ganhar" desse pessoal de altíssimo nível e o Big Star ser 1º. de alguma coisa. Só é meio injusta a pecha de "disco mais triste".

Tá certo que a inspiração do disco foi uma piração dolorida, desencantada e de excesso químico-etílico do líder do Big Star, o ex-menino-prodígio Alex Chilton.

Chilton explodiu nas paradas aos 17 anos com a pequena banda Box Tops em 1967. Pulou fora por causa de um produtor-vampiro que forçava a barra por novos sucessos vazios. Formou o Big Star com amigos de Memphis (EUA).
Em 74/75, o Big Star era um fracasso de vendas após 2 álbuns. Meia banda saiu. A reação de Chilton, já tão rodado aos 24 anos, veio com músicas muito emocionais, algumas com orquestração básica. Uma última declaração antes de fechar as portas.

Ponto pra lista do NME: o disco beira o fúnebre em "Big Black Car", "Holocaust" e "Kangaroo".

Só que há abraços calorosos estupendamente belos como "Take Care", "Stroke It, Noel" e "Blue Moon" (além de "For You", única composta e cantada pelo baterista Jody Stephens).

E, quando sobrava só a banda de rock, Chilton soltava ironia sem crueldade, como em "Jesus Christ", "Thank You Friends" e "You Can't Have Me".

O melhor contraponto para a dita tristeza do álbum vem nas covers. Chilton puxa "Femme Fatale" (do Velvet Underground) e "Nature Boy" (mais famosa com o cantor de jazz Nat King Cole) como baladas. Mas ele chuta o balde com "Whole Lotta Shakin' Goin' On" (Jerry Lee Lewis) e "Till the End of the Day" (Kinks), como que pra lembrar que foi parar no rock pela alegria que essas músicas provocam, não pelo que gerou as outras músicas do disco.
 

O Big Star acabou nisso. Chilton ainda fez umas coisas solo e produziu as primeiras gravações dos Cramps em 77. Largou tudo nos anos 80 e foi lavar pratos, entre outros bicos. Retomou a carreira em baixos teores. Hoje só grava covers obscuras dos anos 30, 40, 50 e 60 como se estivesse num bar fuleiro. Nada de composições. Já que a maioria esmagadora se contenta com o raso, Chilton nunca mais viu razão para mergulhar tão fundo. Deu as costas ao seu talento, preferiu sobreviver e chegou aos 50 anos em 2000.

Não dá pra pedir mais de Chilton. Third/Sister Lovers já basta como prova do que se pode fazer quando há paixão por qualquer coisa ou por tudo, mesmo quando parece que tudo trabalha contra. Por isso, este disco não é tão triste quanto a lista do NME diz que é.

Letras
Faixa a Faixa por Marcelo Costa

Bônus 1: por que o álbum tem dois nomes?
Porque nunca foi lançado oficialmente. Em 75, foi feito para uma gravadora (Ardent) que estava pra falir --- e faliu mesmo! As fitas circularam. LPs e CDs semi-piratas saíram com diferentes nomes, capas e ordem de músicas. O Third/Sister Lovers definitivo é o CD lançado pela Rykodisc em 92.

Quanto aos dois nomes:
 a) Third: porque seria o terceiro álbum do Big Star;
 b) Sister Lovers: porque Alex Chilton e o baterista Jody Stephens namoravam duas irmãs (cada um com uma, até onde se sabe) na época da gravação.

Bônus 2: quem ama "Third/Sister Lovers" e fez bom uso dele?
Replacements, R.E.M., Teenage Fanclub e Wilco, entre outros.

N.E. - Bônus 3: uma curiosidade. Se você assiste o seriado That 70´s Show que passa na Sony, você já ouviu uma música do Big Star. In The Street, a música que abre o programa é do álbum #1 Record, de 1972. Hanging out, down the street/ The same old thing we did last week/  Not a thing to do, but talk to you...