Random header image... Refresh for more!

Category — Música

“Live at The BBC”, Lloyd Cole

Responsável por ao menos uma obra prima dos anos 80, o álbum “Rattlesnakes” (1984), o músico inglês Llyod Cole tem sua história revista com o lançamento de suas BBC Sessions (tanto solo quanto ao lado dos Commotions, banda com quem dividiu os holofotes entre 1982 e 1989). São três CDs (dois duplos) que registram apresentações entre maio de 1984 e março de 1995 nos programas de Richard Skynner, Janice Long e Nicky Campbell além de apresentações nos míticos Hammersmith Palais (1984/1995) e festival de Glastonbury (1986).

Cole só foi encontrar os parceiros ideais para uma banda quando se mudou para Glasgow, onde foi estudar filosofia. Junto aos Commotions, Lloyd lançou três álbuns –”Rattlesnakes”, “Easy Pieces” (1986) e Mainstream (1988) – cuja característica principal era a união de um texto repleto de citações pop (Norman Mailer, Jules at Jim, Grace Kelly, Truman Capote, entre outros) com uma musicalidade que unia o folk pop com pitadas de rock psicodélico (passado pelo filtro do pós-punk). Sobre a massa sonora, a voz charmosa do compositor.

“Vol. 1? abre com uma pungente versão de “Gloria”, do segundo álbum do Television, no programa Saturday Live (1984). Transbordando lirismo, seguem-se versões inspiradas – e completamente fiéis as originais – de “Perfect Skin”, “Rattlesnakes” e “Forest Fire” (três singles do álbum de estréia). O calor do público no Hammersmith Palais faz com que as versões dali se sobressaiam às captadas nos estúdios da BBC. O quindim de “Vol. 2? é o show em Glastonbury que destaca os hits de sempre (”Perfect Skin” em versão fodaça) mais “Mystery Train”, de Elvis Presley, que fecha a apresentação, no bis.

O terceiro volume é quase que totalmente dedicado a um show completo de 1995, mais quatro registros de 1990 (ambos sem os Commotions). Versões de hits pedem passagem (com arranjos diferentes, pero no mucho: nos três CDs são seis versões de “Rattlesnakes” e cinco de “Perfect Skin”), mas o que chama a atenção são as covers de Lou Reed: “Rock and Roll”, “New Age” e “A Gift”. Importante resgate histórico, estes lançamentos valorizam a obra de Lloyd Cole, um excelente compositor que hoje caminha a margem da música pop. Vale, ainda, ir atrás da edição especial (dupla) de “Rattlesnakes” (relançado em 2004) e “Anti Depressant” (2006), último álbum solo de Cole, pequenos achados de um compositor que precisa ser redescoberto.

março 26, 2008   No Comments

Música: “Accelerate”, R.E.M.

“Penso que, talvez, Mike e Michael ficaram um pouco atordoados em como o último disco foi mal recebido. Eu não fiquei. Eu já sabia que o disco não era tão bom antes mesmo de terminá-lo”, diz Peter Buck em entrevista para Craig McLean, do Telegraph. O tal “último disco” a que o guitarrista do R.E.M. se refere é “Around The Sun” (2004), um álbum que ousou macular uma carreira até então brilhante (mesmo com o fato de seus predecessores, “Up” e “Reveal”, serem apenas bons em uma carreira repleta de álbuns sensacionais). Peter Buck assume o erro, e isso é um fato que não se vê todos os dias no mainstream. Porém, estamos diante do R.E.M., uma banda rara no mundo pop.

Tudo que você precisava saber previamente sobre “Accelerate”, décimo-quarto álbum do R.E.M., já está pipocando de blog em blog faz alguns dias: que este é o melhor álbum do R.E.M. na década 00; que é o álbum mais barulhento do trio desde “Monster” (1994); que suas onze músicas juntas não ultrapassam os 35 minutos de duração (quase metade do tempo dos álbuns anteriores); que “Accelerate” (”Acelerar”) é um nome apropriado para um disco rápido e urgente; que Jacknife Lee, o produtor, tinha trabalhado com Bloc Party e Green Day, e foi recomendado ao R.E.M. por The Edge (U2); e outros blá blá blás. É bem provável que qualquer texto que você leia sobre “Accelerate” lhe dará a impressão de estar diante de um grande álbum, e mais: de que – parafraseando a manchete da reportagem do Telegraph – o R.E.M. renasceu. Tudo verdade.

“Living Well Is The Best Revenge”, a porrada que abre “Accelerate”, é um bom resumo de tudo que virá pela frente. O baixo de Mike Mills (a grande estrela do disco) pula a frente da bateria agitada de Bill Rieflin e das guitarras punks de Peter Buck e Scott McCaughey. “Man-Sized Wreath”, a segunda faixa, desacelera em relação à abertura, mas mantém o álbum em alta velocidade. A temática permanece a mesma, mantendo a mídia como alvo. Além de uma pulsante linha de baixo, Mike Mills se destaca na harmonia vocal. O ritmo desacelara mais um tiquinho em “Supernatural Superserious”, contagiante primeiro single do álbum que fala sobre adolescência e humilhação, mais uma canção para entrar no rol das grandes músicas do R.E.M., que Michael Stipe apelidou carinhosamente de “hino geek”.

A introdução da sensacional “Hollow Man” é piano e voz. Quando você acredita estar diante de uma baladaça daquelas “estilo R.E.M.”, o grupo acelera em direção ao refrão com Michael Stipe gritando assustado com medo de ser um homem oco. Violão e órgão compõem o clima denso de “Houston”, com Michael Stipe postando-se entre os terríveis furacão Katrina e o presidente Bush: “Se a tempestade não me matar, o governo irá”. A faixa título volta a trazer urgência ao álbum com Stipe cravando frases como: “A incerteza é sufocante. Nossa esperança nunca foi tão grande”. Para o vocalista e letrista, não é hora de perder tempo: “Não tenho tempo para questionar as escolhas que eu faço / Eu tenho que seguir outro caminho: acelerar”.

O folk irlandês “Until The Day Is Done” fala sobre um país em ruínas, sobre guerras perdidas. Sob uma base de guitarra encharcada de eco e colocada no fundo da melodia na mixagem, “Mr. Richards” permite um paralelo com “Mr. Jones”, personagem da letra de “Ballad of a Thin Man”, clássico de Bob Dylan, com Michael Stipe aqui questionando um político que ignora o povo. A climática e arrastada “Sing For The Submarine” cita “Electron Blue” e “It’s A End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)” enquanto “Horse To Water” surge como um dos momentos mais rápidos do disco, uma punk song brilhante.

Para fechar, cinismo, caos e muito barulho: “I’m Gonna DJ” surge mais pesada do que a versão do álbum “Live” e termina o disco da mesma forma que começou: com rapidez e sujeira. Novamente na linha de frente do rock mundial, o R.E.M. “vende” ao público certo tipo de transcendência, algo que faz deles exemplos de honestidade, atitude e opinião. Pois o R.E.M. faz parte de um tempo (perdido) em que amar uma banda ia além de comprar discos e decorar as músicas. Implícito, entre os devaneios, está a necessidade de acreditar que é possível mudar o mundo com uma canção.

“Accelerate” é um álbum que une as duas principais facetas musicais do R.E.M.: o lado rock, amargurado e barulhento, e o lado acústico, denso e provocativo. No entanto, por mais que os violões dominem um terço das canções, este é o primeiro álbum inspiradamente punk do trio (”Monster” era muito mais glam). É o primeiro álbum, também, que coloca Mike Mills em pé de igualdade com Peter Buck e Michal Stipe. É um disco excelente, que se não alcança o status de clássicos como “Document”, “Out of Time” e “Automatic For The People”, serve para recolocar a banda novamente no rumo após o fiasco de “Around The Sun”. É um álbum que se não vai mudar o mundo, serve para ser deixado no repeat enquanto se questiona a descrença na mídia, nos políticos e em si mesmo. A resposta a ser encontrada provavelmente será a mesma proposta por Michael Stipe: acelere, não há tempo a perder. Não há mesmo.

“Accelerate”, R.E.M. (Warner)
Preço em media: R$ 30
Nota 9
Lançamento Oficial: 01 de Abril

Além da versão normal, “Accelerate” conta com uma versão de luxo com CD e DVD (e um encarte de 64 páginas), que inclui um filme de 48 minutos sobre as gravações e ainda traz dois b-sides, “Red Head Walking” e “Airliner”. Essa versão, importada, deve sair por R$ 60.

Leia também:
– R.E.M. ao vivo no Rock in Rio 3, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada do R.E.M., por Marcelo Costa (aqui)
– R.E.M. reborn, por Craig McLean, do Telegraph (aqui)

março 23, 2008   No Comments

“Para fazer sucesso…

…eu faço uma greve de fome”

Romulo Fróes irá lançar dois álbuns em 2008. Fique atento!

março 22, 2008   No Comments

“Third”, Portishead

Um dos concorrentes a disco do ano… por Eduardo Palandi. Leia aqui.

março 20, 2008   No Comments

Jane Birkin, Mimi Maura e Columbia

Como ando em fase de estagnação criativa, nada melhor que valorizar os amigos que sempre tem um texto pronto para o Scream & Yell. Publiquei, ontem, três novidades na capa do site:

– André Fiori conta como foi o lindo show de Jane Birkin em São Paulo (leia)

– Leo Vinhas falando sobre o curioso disco de Mima Maura (leia)

– Jorge Wagner dissecando o álbum de estréia do Columbia (leia)

março 19, 2008   No Comments

“Mr. Love and Justice”, Billy Bragg

Billy Bragg nasceu na época errada. Só pode ser. Com cinqüenta anos completados em dezembro último, o roqueiro britânico que ousa misturar Clash com Bob Dylan chega ao seu décimo segundo disco falando de coisas que estão fora de moda na nova ordem mundial. Em uma época em que o pop celebra muito mais os barracos de seus principais artistas (Britney e Amy na dianteira) do que a música propriamente dita, qual espaço para um cara que fala de amor, política e justiça?

“Mr. Love and Justice” sucede o brilhante “English, Half, English” (2002), e vem sendo saudado com tiros de canhão pela imprensa inglesa. “Antes do Arctic Monkeys escrever dolorosas canções de amor; antes de Mike Skinner destilar noites bêbadas em dramas de três minutos; antes do Radiohead descobrir a política; Billy Bragg já tinha feito tudo isso”, cravou a NME. “O Bob Dylan de Essex”, comparou a Q. “Uma das vozes de protesto mais importantes do pop britânico”, bradou a Uncut. “A British icon”, resumiu a Mojo.

Em um mundo cada vez mais dominado por grandes conglomerados, afundado em religiões fakes que prometem a vida eterna em troca de dinheiro, atolado de livros de auto-ajuda que prometem desvendar o grande segredo, e repleto de amizades virtuais (igual a solidão real), Billy Bragg aparece carregando sua guitarra, seu texto afiado e interrogando o Sr. Amor e Justiça. Em “Some Days I See The Point”, do álbum anterior, ele dizia que queria fazer do mundo um lugar melhor, mas que não conseguia fazer isso sozinho. Nem parece que se passaram só quatro anos. Quantas pessoas estão dispostas a fazer do mundo um lugar melhor? É possível contar nos dedos de uma das mãos.

No entanto, apesar do cenário catastrófico em que vive a sociedade atual, Billy Bragg abre “Mr. Love and Justice” bradando, no refrão: “Eu mantenho a fé em você”. Soa até inocente, eu sei, mas quem está cantando isso já passou dos 50 anos, é um ativista político que luta pelos direitos da classe trabalhadora inglesa e que defende a multiculturalidade britânica. E que, sobretudo, ainda acredita no amor e na justiça. “I Keep Faith” é singela, conta com a participação de Robert Wyatt e é uma daquelas canções que podem ser ouvidas por dias e dias a fio.

Com clima flamenco, “I Almost Killed You” surge movida por gaita e violões. “Você vê um arco-íris / Eu vejo uma nuvem escura / Você vê novos amigos / Eu vejo uma multidão má / Eu quase lhe matei com meu amor”, diz a letra. Na tocante “M For Me” ele propõe: “Seus problemas agora são nossos”. No rockão “The Beach is Free” ele explica: “Os campos pertencem aos fazendeiros / As florestas pertencem ao rei / Hoje em dia nossos prazeres estão cercados / Temos que pagar por tudo / Mas a praia está livre”. Na suave “You Make Me Brave” ele se recusa a se esconder no passado. Em “Something Happened” ele compara amor e luxuria.

Na faixa título, Billy Bragg interroga o senhor amor e justiça; em “If You Ever Leave”, fala de solidão e abandono; “O’Freedom” versa sobre democracia e liberdade, temas caros; em “The Johnny Carcinogenic Show”, praticamente adapta para o formato canção pop a temática do filme “Obrigado Por Fumar”: “Vi um garoto na televisão ontem / Ele estava vendendo uma tonelada de veneno / Uma mulher perguntou: Como você pode fazer isso? / Ele respondeu: o segredo é agarrar os jovens / Eu não posso ser responsabilizado pelo que as crianças aprendem / Sou responsável apenas em dar algum retorno aos meus investidores”. Lá pelo meio, ainda crava: “A pobreza é tóxica, todos sabem”.

Entre rocks, folks e ballads, “Mr. Love and Justice” soa muito mais um álbum de amor do que política. Seu clima (entre anos 40 e 50), no entanto, não alcança a sobriedade de “English, Half, English” nem a grandiosidade de álbuns clássicos do cantor, como “Talking With The Taxman About Poetry” (lançado em vinil no Brasil nos anos 80) ou os dois discos em parceria com o Wilco tendo por base canções inacabadas de Woody Guthrie. Mesmo assim, ele chega a tocar a alma em alguns momentos. É um disco que não tem relação nenhuma com a melancolia pueril dos emo punks, com a rebeldia sem causa do novo rock, com a diversão sem limites do electro. Talvez, por isso, soe fora do tempo. Billy Bragg nasceu na época errada. Ainda bem.

Ps. O álbum também foi lançado em uma edição dupla luxuosa, que traz no CD bônus as doze canções originais em versões caseiras, a maioria voz e guitarra.

março 9, 2008   No Comments

“Third”, do Portishead, na rede

“Third”, terceiro disco do Portishead, acaba de cair na web; um dos discos mais bacanas do ano é o novo do American Music Club, “Golden Age”; o segundo álbum do Tapes ‘n Tapes, “Walk it Off”, não me convenceu, mas preciso ouvir melhor. Estes três discos você encontra no excelente Jornal Berbequim. Já o segundo do Long Blondes (pra mim, outra decepção), está no Una Piel de Astràcan. Fora isso, tem um show da Cat Power, no excelente programa francês Black Sessions, rolando por ai. Vá atrás.

*******************

Novidades da viagem: segundo a tickets.de, já era o Radiohead em Berlim. Convites sold out. Mesmo assim, estou pensando em dar as caras na cidade, andar ali “perto do muro” e tal. Mas o show mesmo, já estou passando. Vou me contentar com o do Rock Werchter. Lou Reed em Madri, nenhuma novidade. Estou ansioso. Fora isso, chegou a minha carteirinha de alberguista e na segunda-feira, se tudo der certo, passagens em mãos. Dedos cruzados.

*******************

Eu não tenho a mínima idéia, mas o Danilo, do Smoke com Bloquinho, diz que descobriu o que Mallu Magalhães levava na sua caixinha para Bob Dylan. Veja aqui.

*******************

O Matias publicou num Trabalho Sujo um texto do Ivan Finotti, editor do Folhateen, explicando todo o episódio. Leia: “O Homem Que Fez Mallu Magalhães Chorar” aqui.

*******************

A Wonkavision disponibilizou a segunda música do disco novo para download no My Space e Last.FM; Para quem não soube, a ideia dos gaúchos é lançar uma música por mês até o fim do ano, todas disponiveis para download gratuito. Em janeiro eles disponibilizaram “O Impar Perfeito”. Agora é a vez de “Double Dealing”. Ouça aqui.

*******************

A Mojo Books, um dos projetos mais bacanas nascidos na blogosfera nacional dos últimos anos, estréia novo site e novos caminhos. Agora, além do tradicional Mojo Book sobre um álbum (como o meu do “Doolittle”, download ao lado), existem também o Mojo Single, o Mojo Remix e o Mojo Comix. O primeiro é um texto mais curto, direto, sobre um single (até o fim de semana espero entregar um aos editores); o segundo, uma versão de outra pessoa sobre um Mojo Single já escrito; e o terceiro, bem, esse é melhor você olhar com os próprios olhos aqui.

março 8, 2008   No Comments

Bob Dylan ao vivo em São Paulo

Texto por Marcelo Costa
Fotos por Liliane Callegari

Última música. George Receli, o baterista, dá duas marteladas no bumbo e a banda entra jogando no colo da audiência “Like a Rolling Stone”, a canção que tirou Bob Dylan de vez da ala folk e o transformou em ícone pop em 1965. O homem não está olhando a plateia. O teclado (em que Bob passa 80% do show) fica posicionado na lateral do palco, para que ele comande com olhares as baquetadas de Receli e coordene – junto ao baixista Tony Garnier – os improvisos da banda. No lado direito da plateia, uma garota de estatura mediana consegue – numa falha da segurança – escalar o palco e parte correndo em direção ao homem.

Bob Dylan está imerso na canção, buscando na memória a letra que vai saindo pelos lábios em fiapos desgastados de voz. A menina corre, para em frente a ele e abre os braços. Assim que vê a garota, Dylan toma um susto e faz um gesto automático de “pare” com a mão esquerda estirada e o braço retraído, enquanto a mão direita continua intercalando teclas pretas e brancas. A menina fica petrificada até ser agarrada por um segurança brutamontes que, ao invés de portar uma cara de poucos amigos, ri de toda a cena enquanto a retira do palco. O público vai ao delírio e deixa as cadeiras – de R$ 250 até R$ 900 – para ficar em pé.

Um princípio de desordem se instala no recinto com berros, gritos e urros saldando a invasora, o homem e aquela canção. Dylan não se perde na melodia, olha para Garnier, que aproximou-se para “protege-lo”, e retorna ao andamento do refrão buscando a garota com o olhar. O público vai junto e canta “How does it feel / How does it feel / To be without a home / Like a complete unknown / Like a rolling stone?” a plenos pulmões sem o acompanhamento de Bob, que volta a cantar o refrão na seqüência e encaminha a música – e o show – para o final com um olhar em direção a Receli e Garnier. A música acaba. Ele se curva em direção a platéia, vira de costas e caminha para o backstage. Parece pensar, atônito, num lapso de deja vu: “Isso foi tão anos 60?.

Até este momento o show alternava clássicos interpretados de forma incompreensível (“Masters Of War”, “I’ll Be Your Baby Tonight”, “It Ain’t Me, Babe”) com versões bem distinguíveis de “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “Highway 61 Revisited” (metalizada, um dos grandes números da noite), sem contar canções mais recentes (o repertório trouxe nove músicas pós anos 2000 e oito dos anos 60), como a versão poderosa de “High Water (For Charlie Patton)” (com o grisalho Denny Freeman atacando com fúria sua Fender Stratocaster) e as bem recebidas (seis) canções do álbum “Modern Times” (com destaque para “Spirit On The Water”, com Dylan introduzindo a canção com uma gaita; e “Thunder On The Mountain”). Decepção mesmo só “Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again”, um mero rascunho da original.

A Turnê Que Nunca Termina chegou a São Paulo precedida de muita expectativa. O alto preço dos ingressos, a fama de difícil do compositor e sua (falta de) voz castigada por anos e anos de excessos dividiam o público. Na hora do show, no entanto, 90% da casa estava tomada. Bob não falou uma palavra sequer com a platéia (a não ser quando apresentou incompreensivelmente sua banda – um quinteto – ao final do show), mas está muito longe de ser a pessoa difícil que tantos pintam.

De calça preta com uma listra branca, terno prateado (que parece ser duas vezes maior do que ele) e chapéu de cowboy com uma pena colorida, no Via Funchal, em São Paulo, Bob Dylan, 67 anos, fez com que duas garotas invadissem o palco (a primeira tentou subir pelo lado esquerdo da platéia, no início da apresentação), e com que o ícone teen do momento, Mallu Magalhães, 15 anos, fosse conversar com os seguranças antes do show pedindo-lhes permissão para entregar ao músico algo que ela carregava em uma caixa. Isso diz muito sobre a música deste homem, sua influência e seu carisma.

Fãs de primeira e última hora (que só conhecem “Blowin’ in The Wind” e não ouviram os recentes “Love and Theft” e “Modern Times”) e artistas globais (como Bruna Lombardi, que perguntada sobre qual música de Dylan ela mais gostava, respondeu: “Aquela que o Caetano canta”) se assustaram com a voz deteriorada do compositor. Nos anos 60, quando começou sua carreira, Dylan já não tinha a melhor voz da música pop. Esse nunca foi o seu cartão de visitas. Natural que em 2008, sabem-se lá quantas vidas depois, sua voz esteja esganiçada, pequena e ardida. Pela idade e pelo descuido. Dylan envelheceu, e sua voz também.

O show é um retrato borrado da era de ouro do rock and roll, algo fora de moda, distante dos tempos modernos. Porém, ao contrário de muitos outros mártires daquele verão do amor, Dylan foi ao inferno, sobreviveu a si mesmo, e voltou para contar/cantar. Sua voz enrugada é perfeitamente aceitável. O show é um passeio sombrio entre passado, presente e futuro. Por mais que aquele momento da garota petrificada frente ao ídolo tenha sido muito anos 60, não há nada mais 2008 que recusar o amargo, o ardido, o esganiçado, aquilo que não soa limpo (até o punk e o metal soam melodiosos hoje em dia).

Quase cinquenta anos se passaram, e Dylan continua na contramão da música pop, caminhando sozinho em uma estrada longa e solitária. Na plateia, menos afortunados tentam capturar um fragmento de um tempo que se foi, sem perceber que Dylan está muito mais preocupado com o que virá. Neste desencontro entre plateia e artista encontra-se o crème de la crème da arte moderna. Poucos shows no mundo podem simbolizar tanto sem serem explicitamente históricos. E foi isso que aconteceu. Dylan fez uma apresentação histórica em São Paulo, mas pouca gente percebeu.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Discografia Comentada: todos os discos de Bob Dylan (aqui)

março 6, 2008   No Comments

Lou Reed tocando o álbum “Berlin”

O senhor Lou Reed acaba de anunciar uma turnê pela Europa em junho e julho… tocando o álbum “Berlin” na integra. De todas as datas que vocês conferem abaixo, a do dia 22 de julho em Madri parece que foi agendada pensando neste pobre homem que escreve estas linhas (e que está ficando cada vez mais pobre). Lá embaixo, no post do Rock Werchter 2008, falando sobre os planos da viagem, eu havia agendado o dia 22 para… Valência, na Espanha. Acho que terei uma mudança de rota em território espanhol… lá vou correr atrás do ticket… e eu nem consegui comprar o do Radiohead em Berlim ainda…

Cork Marquee (June 23)
Belfast Waterfront (24)
Edinburgh Playhouse (25)
Nottingham Royal Centre (26)
Paris Salle Pleyel (28)
London Royal Albert Hall (30)
Munich Philharmonie (July 3)
Hamburg CCH Congress Centrum (6)
Copenhagen Opera House (7)
Stockholm Annexet (9)
Warsaw Sala Kongresowa (14)
Brussels Bozar (16)
Loule Monumento Duarte Pacheco (20)
Madrid Conde Duque (22)
Girona Portaferrada Festival (25)
Benidorm Bullring (26)

março 5, 2008   No Comments

“She was born in spring, but…”

“Simple Twist of Fate” com Jeff Tweedy
Música: Bob Dylan

They sat together in the park
As the evening sky grew dark.
She looked at him and he felt a spark
Tingle to his bones.
It was then he felt alone
And wished that he’d gone straight
And watched out for a simple twist of fate.

They walked alone by the old canal.
A little confused, I remember well,
And stopped into a strange hotel with a neon burning bright.
He felt the heat of the night hit him like a freight train
Moving with a simple twist of fate.

A saxophone someplace far off played
As she was walking on by the arcade
As the light bust through a beat up shade
Where he was waking up.
She dropped a coin into the cup of a blind man at the gate
And forgot about a simple twist of fate.

He woke up; the room was bare.
He didn’t see her anywhere.
He told himself he didn’t care ;pushed the window open wide;
Felt an emptiness inside to which he just could not relate
Brought on by a simple twist of fate.

He hears the ticking of the clocks
And walks along with a parrot that talks.
Hunts her down by the waterfront docks
Where the sailers all come in.
Maybe she’ll pick him out again. How long must he wait
One more time for a simple twist of fate.

People tell me it’s a sin
To know and feel too much within.
I still believe she was my twin, but I lost the ring.
She was born in spring, but I was born too late.
Blame it on a simple twist of fate.

março 4, 2008   No Comments