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Category — Europa 2012

Europa: A saga do computador perdido

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Ou, como diria o Capitão Moreira, chefão da Companhia de Infantaria do BAVEX, no ano em que servi: “Se a cabeça não pensa, o corpo padece”.

Ao lado da pista, vaquinhas pastam e patos tão brancos quanto leite nadam. As cidades com nomes estranhos vão passando pela janela. São 7h30 da manhã e estou indo de Amsterdã para Paria via Eurolines, companhia de ônibus que liga várias capitais da Europa via ônibus. Os preços são sempre convidativos, mas o tempo é longo. Até onde eu previa, essa viagem deveria durar cinco horas. Deveria.

Após uma hora e meia, o motorista para em um posto de beira de estrada que oferece uma promoção de diesel pra caminhoneiros: mil litros por 15 euros. Lembro-me de ter lido que Amsterdã tem 740 mil habitantes, 600 mil bicicletas e 8 caminhões. Humm. Desço e compro um energético (não espero que ele me de asas, apenas que me mantenha em pé), chicletes e uma barra de bala de goma, a pior que já provei na vida, uma borrachinha sem graça que solta uma referencia de sabor e parece com o dia lá fora: pálido.

Ao mesmo tempo que coloco os fones de ouvido e dou play no iPod, surge a voz de Roddy Woomble e um solzinho tímido, mas que me arranca um sorriso. Uma placa na estrada avisa que estamos a 19 km da Antuérpia e começo a ter uma ideia do trajeto que estamos fazendo. Logo mais surgem placas para Gent, Brugge e Brussels. A estrada é um tapete persa. Rumst. Mechelen. Leuven.

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As 10h entramos em Bruxelas e passamos por alguns pontos turísticos da cidade (o trajeto só não passou pela Grande Praça porque não tem como, senão com certeza teríamos invadido a praça mais bonita do mundo, segundo Victor Hugo – foi ele mesmo quem disse isso? Dúvida). O ônibus para em Brussels Noord e troca de motorista. Na parada, que dura uns 25 minutos, presto atenção na rádio, que vai de Jacque Bruel e David Bowie (“This Is Not America”, e não é mesmo) até Chico Buarque (Essa Moça Tá Diferente”) e ABBA (“Mamma Mia”).

Demoramos quase uma hora dentro de Bruxelas e, na saída, passamos por dois restaurantes de comida brasileira: Exotic Afro e Pantanal Bar. Ruisbruk. Beersel. Bergen. Halle. Nesse trecho, a estrada continua excelente, apesar de exibir algumas ondulações (mas fico na dúvida se o problema é a estrada ou a condução do novo motorista). Liege. Namur. Mons. Chove e aproveito para tirar um cochilo.

Na fronteira com a França o ônibus para (nem vi quando terminou a Holanda e começou a Bélgica, mas os franceses demarcam bem seu território) e três guardas da Police Nationale conferem passaportes. Sou o primeiro, ele olha durante uns 10 segundos, folheia as páginas e diz ok. “Quem estiver ok pode ir na cafeteria enquanto conferimos”, é o que entendo do francês.

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Parto decidido a pegar uma cerveja, e na geladeira três tipos de Leffe me namoram (Blonde, Trippel e a nova Ruby), mas opto por um café. São 11h40 e só dormi três horas nesta noite. Os cubos de açúcar me fazem lembrar-se de “A Liberdade é Azul” (no making of, Kieslowiski dá uma aula sobre quanto tempo um espectador pode suportar uma cena e conta sobre a busca do cubo de açúcar perfeito que consumiria o café em 8 segundos) e voltamos pra estrada.

Aires des Enclosis. Vallenciennes. Solesmes Le Cateau. Reimes. No lado francês, tudo é mais exagerado. A grama entra na estrada (lembra a estrada pra Parati quando passamos da divisa São Paulo / Rio) e dezenas de placas de informação transformam o canteiro num shopping. Eles fazem questão de dizer a cada cinco quilômetros em qual área do país você está, e no que ela é especializada (brocados, apicultura, desenhos, aves).

A chuva aperta novamente, o cansaço me vence (mesmo após café e energético) e quando percebo já estamos nos aproximando de Paris. Estamos chegando a 7 horas de viagem, e começo a ter receio se vou conseguir pegar o setor de Achados e Perdidos do aeroporto Charles De Gaule aberto. O ônibus para em Galiani às 14h30 (após passar cerca de 10 quilômetros antes pelo Charles De Gaule), faço três baldeações para chegar a Gare du Nord, e pegar o trem para o aeroporto.

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Dou sorte e pego um trem direto. Chego ao balcão de informações, e sou desinformado. “Você tem que ir ao Terminal 3”. Chego lá, mostro o email pra outro cara de informações, que liga para o setor de Achados e Perdidos. “Você tem que ir ao Terminal 1”. Quando chego ao setor, um velhinho simpático já está me esperando. Digo em inglês que eles encontraram meu computador. “Eu não falo inglês, pardon”, ele responde em francês. Não perco a deixa: “Eu não falo francês. No problem”.

E dai em diante todas as frases serão seguidas por “no problem”: “Assine aqui: no problem”. “Olha o seu laptop: no problem”. “Tem que assinar aqui também: no problem”. “Obrigado: no problem”. Missão cumprida? Quase… agora é preciso voltar para Amsterdã. Decido abandonar a ideia do ônibus e gastar uma grana em um trem rápido, Thalys, que fará o mesmo trajeto de 7 horas do ônibus em 3 horas. Compro o ticket e parto para a Gare du Nord. O cara ainda me fala no guichê: “Ele vai direto”.

Ainda assim, na plataforma, sei lá o motivo, olho na placa de informações: “Paris, Bruxelles Midi, Brugge, Gent, Oostende”. E entro no trem. Não encontro meu vagão, e mesmo assim sento em uma cadeira como se estivesse tudo bem. Quando para em Bruxelles Midi, percebo que algo está errado. “Não era direto?”, a razão diz para o Tico (o Teco devia estar dormindo). Pergunto para um dos cobradores, e ele confirma: “Trem errado”. E me orienta. “Desce em Gent, e tenta ver se passa um trem para Amsterdã lá”. É o que faço. E não passa. Só em Antuérpia.

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Tenho 20 minutos e dou um rolê pela praça da cidade, e a primeira impressão é ótima. Volto e entro no trem para Antuérpia. Cada cidadezinha belga que passa pela janela me conquista, e fico impressionado com o tamanho da estação central de Antuérpia. Ainda tenho 10 minutos para o trem para Amsterdã (todos os cobradores foram bem compreensivos com meu vacilo), e não arrisco.

Chego a Amsterdã duas horas depois do horário que eu deveria ter chego realmente, e tenho que arrumar as malas porque meu voo para Verona é às 7 da manhã, e o primeiro trem para o aeroporto às 5h. Estou elétrico e, ao mesmo tempo, cansado. A luz do quarto se apaga às 2h13 e coloco o relógio para despertar ás 4h26, mas a muvuca na rua (a noite em Amsterdã é bem agitada, você pode imaginar) e a preocupação com o voo não me deixam dormir. Devo ter cochilado alguns minutos durante a noite, mas saio a toda para Amsterda Centraal. Penso em fotografar o lago em frente a praça, ou mesmo a estação, lindos a essa hora da manhã, mas a precaução vence. Entro no trem um minuto antes da porta fechar.

Agora, Veneza. A viagem (felizmente) está terminando…”

Ps. Entre hoje e domingo coloco em dia as histórias e os shows…

junho 14, 2012   No Comments

Um pequeno problema…

Ontem, na saida de Paris, em meio a correria para nao perder o voo para Cork, deixei meu laptop na esteira de raio x do Aeroporto Charles de Gaulle. Já tinha escrito o post sobre o show do Guns no trem e adiantado o texto sobre o show do Lou Reed (o set list aqui) além de ter umas boas ideias e historias sobre Paris pra contar. Vou tentar fazer isso no domingo, em alguma internet de Trieste, mas fica aqui as desculpas pelo atraso no diário (já entrei em contato com o pessoal do Charles de Gaulle e estou no aguardo de resposta, mas devo encontrar o laptop – espero). Vamos acompanhar…

junho 8, 2012   No Comments

Paris: cansado, mas feliz

junho 5, 2012   No Comments

Barcelona: Top 5 Primavera Sound 2012

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Todas as fotos por Marcelo Costa (mais aqui)

Marcelo Costa (Scream & Yell e Sonora)
1) Jeff Mangum
2) Spiritualized
3) Refused
4) Girls
5) The Weeknd

Menção honrosa: Afghan Whigs, Wedding Present e Wilco

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Paulo Terron (Rolling Stone Brasil)
1) Big Star’s Third / Sister Lovers
2) Afghan Whigs
2) Jeff Mangum
4) Wavves
5) Marianne Faithful

Menção honrosa: The Weeknd

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Renato Beolchi (Portal Terra)
1) Refused
2) Napalm Death
3) Shellac
4) Godflesh
5) Mayhem

Menção honrosa: Woves in The Throne Room

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Renato “Otaner” Silva (La Cumbuca)
1) Big Star’s Third / Sister Lovers
2) Lee Ranaldo
3) Refused
4) Wilco
5) Dirty Three

Menção Honrosa: OFF! Menção real: o festival inteiro :)))

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Rodrigo Levino (Folha de São Paulo)
1) Afghan Whigs
2) Jeff Mangum
3) Girls
4) Spiritualized
5) The Weeknd

Menção honrosa: Wilco

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Leia também:
– Tudo sobre o Primavera Sound 2012 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2011 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2010 (aqui)

junho 5, 2012   No Comments

Barcelona: Richard Hawley no Arco do Triunfo

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Texto e fotos: Marcelo Costa

Após quatro dias de festival (o primeiro no Arco de Triunfo e os três seguintes no Parc del Fórum), o Primavera Sound encerrou sua edição 2012 em um domingo de chuva na capital catalã. A programação gratuita previa shows de Veronica Falls no Parc de la Ciutadella e cinco apresentações no Arco do Triunfo, mas a chuva marcou presença atrapalhando a festa de Joe Crepúsculo e Nacho Vegas. Alguns fãs ainda marcaram presença para ver Yann Tiersen, e só quando Richard Hawley adentrou o palco é que São Pedro fechou a torneira.

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“Vou ter de tocar sentado. Quebrei minha perna”, desculpou-se Hawley. Apesar do incomodo, a apresentação foi correta alternando momentos de psicodelia com outros de puro lirismo. O repertório privilegiou o recém-lançado “Standing at the Sky’s Edge” (incluindo cinco canções do álbum no curto setlist de 10 músicas – nenhuma de “Lowedges”, o belo álbum de 2003 lançado no Brasil), e o público respondeu bem aplaudindo e acompanhando o guitarrista, um homem de uma carreira solo que merece ser acompanhada com calma.

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Ainda tinha shows e DJ sets de King of Convenience e Black Lips na Sala Apolo, mas o Primavera Sound já tinha cumprido com louvor sua promessa de distribuir boa música. O destaque principal foi a qualidade do line-up mais variado de sua história, com os parceiros curadores Vice, ATP e Pitchfork apostando na radicalização do black metal, grindcore e indie: o Primavera talvez seja o melhor festival do mundo no que diz respeito a alcance de público: na mesma hora, por exemplo, The XX e Napalm Death se apresentavam em palcos diferentes.

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Essa variedade no line-up surpreendeu muita gente. Quem esperava ver Mayhem, uma banda de black metal norueguesa que toca com cabeças de porco no palco servindo como castiçal de velas, tocando num palco no mesmo horário em que Robert Smith enfileirava hits do The Cure no palco principal? Quem não se interessava por nenhum dos dois poderia ir ver Wavves ou escolher entre esperar M83, The Drums e/ou SBTRKT. No mesmo dia se apresentaram Rufus Wainwright, Girls, Laura Marling, Napalm Death, Jeff Mangum e Marianne Faithful. Palmas para quem organizou tudo isso. Ano que vem tem mais.

http://screamyell.com.br/blog/wp-admin/upload.php?style=inline&tab=browse&post_id=6421&_wpnonce=80d1cd77d1&ID&action&paged

Leia também:
– Tudo sobre o Primavera Sound 2012 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2011 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2010 (aqui)

junho 3, 2012   No Comments

Barcelona: Primavera Sound, Dia 3

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Texto e fotos por Marcelo Costa

O mais indie (e não só por isso) e mais fraco dia do Primavera Sound 2012 guardou surpresas especiais no Parc del Fórum, em Barcelona. Se a escalação do palco principal parecia a seleção de bandas preferidas daquele seu amigo farofa (e ele até ousou abrindo o dia com Sharon Van Etten), os palcos secundários traziam boas apostas que valiam uma caminhada – e caminhada em terceiro dia de festival equivale ao triplo do risco e do cansaço do primeiro.

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Father John Misty abria a programação no auditório às 16h do domingo, mas o bairro de Barceloneta estava tão sedutor com sua paella, seu bife de ternera, as patatas bravas, a sangria, a praia incrivelmente azul e o top less que optamos por perder não só o ex-Fleet Foxes como também Sharon Van Etten, mas ela ainda faria um showzinho acústico concorrido mais à noite no palco Ray-Ban Unplugged (um pouco maior que um caixa de sapatos).

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Após um almoço caprichado e sol na moleira, a providencial fila do auditório (que permitia uns cochilos) para conferir a segunda apresentação de Jeff Mangum no Primavera Sound 2012. Munido de uma voz enternecedora e uma batida de violão crua, o ex-Neutral Milk Hotel sentou sozinho no centro do palco do auditório e ofertou: “Vocês podem vir um pouco mais para frente se quiserem”. Resultado: dezenas de fãs assistindo ao show aos pés do herói.

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Tudo ali na beira do palco tinha jeitão de momento histórico. Um repertório clássico baseado no álbum mítico “In the Aeroplane Over the Sea”, o intimismo da proximidade ao ídolo (mesmo em um teatro sold out com três mil pessoas), a interpretação entregue de números como “Two-Headed Boy Part 1 and 2”, “Song Against Sex”, “The King of Carrot Flowers”, “Holland, 1945”, “Little Birds” e “Oh Comely”: eis um show encantador em sua simplicidade.

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Após Jeff Mangum, tudo foi acaso. A primeira ideia (diante de tantos shows perdíveis) era fazer um review completo da praça de alimentação do festival, mas as opções eram muitas indo de peritos calientes safados, texmex que engana bem, boa comida tailandesa, pizza em quatro sabores (e todos com o mesmo gosto), hambúrguer de respeito, milho “brasilian style”, pasta de caixinha, sorvete de iogurte, salsichas alemãs e… os campeões churros de chocolate.

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Enquanto isso, Girl Names mostrava no palco da revista Vice que o revival dos anos 80 permanece: o som é The Cure, a voz é Morrissey. Passo. Ao lado, no palco Pitchfork, Bradford James Cox (o Atlas Sound) sofria com o som ruim. Do outro lado da Espanha, no palco Mini, o Beach House carregava um mar de pessoas confirmando o status de bola da vez (desde de… quando mesmo?). Som sensual, mina gata perdida entre luzes cinzas e brancas, baita deja vu.

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No palco ATP, o Shellac, comandado por um possuído Steve Albini, distribuía doses generosas de honestidade rock and roll dispensando clichês. Pouco depois, Sharonzinha derretia corações na caixa de sapatos lotada do Ray-Ban Unplugged com a presença na plateia de Pat Samsone, do Wilco, e Mike Mills, do R.E.M., que tirou uma com a minha cara quando troquei de câmera para uma foto com Paulo Terron e Rodrigo Levino: “Ele é (fotógrafo) profissional – sic”. O registro tosco você vê abaixo.

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Ainda deu tempo de conferir metade do show impressionante do Weeknd, no palco do site Pitchfork, que novamente foi marcado por problemas de som e luz (que chegaram a interromper a apresentação), mas não conseguiu diminuir a intensa performance do grupo, com o canadense Abel Tesfaye merecendo com honras o título de novo Michael Jackson: que voz, que falsete, que cantor. Uma carreira para acompanhar com muita atenção.

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A vontade de ver mais uma vez o Yo La Tengo era enorme, mas o cansaço e a vontade de fugir da farofeira do Justice foram mais fortes. Taxi da Diagonal Mar para a Calle Sicilia, algumas Chimay na mesa (a trapista aqui é vendida no supermercado por… R$ 4) e a certeza de que o Primavera Sound continua sendo um dos festivais mais bacanas do planeta. Por tudo que o cerca: os shows, o entretenimento, a organização e, claro, a cidade encantadora que o abriga.

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O festival ainda não acabou. Neste domingo ainda há apresentações gratuitas no Parc de La Ciutadella (vontade de ver Veronica Falls), no Arco do Triunfo (baterei ponto em Yann Tirsen e Richard Hawley) e na Sala Apolo (que receberá Black Lips na Festa de Encerramento). Nesta segunda, voo madrugadeiro para Paris , onde na terça tenho encontro marcado com… Axl Rose. Torcendo para que o atraso não ultrapasse a marca de 15 minutos…

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Leia também:
– Tudo sobre o Primavera Sound 2012 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2011 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2010 (aqui)

junho 3, 2012   No Comments

Noruega: o viking e o louco

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Fotos e texto por Renato Moikano (@renato_moikano)

Minha viagem para de Bruxelas para Oslo aconteceu na manhã de terça, 29/05. Ou seja, horas depois do Werchter Boutique com Metallica, Soundgarden, etc. Quando venci a falta de bilhetes de trem e consegui burlar a segurança ferroviária e me esconder no último vagão de Leuven para Bruxelas acreditava piamente que dali pra frente seria só alegria. Ledo engano…

Ao chegar no hotel fui checar e-mails e me deparei com um especialmente assustador: Mads, o norueguês dono do barco que me receberia como hospede em sua nave durante meus dois dias em Bergen (litoral oeste da Noruega) dizia que o barco havia sofrido um acidente. Estava afundando. Mads tentou realocar os hospedes em albergues e hospedarias da cidade. Mas não coube todo mundo. Passou então a descolar quartos em hotéis da região.

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Minha agenda em Bergen era apertada. Chegaria na cidade por volta das 15h, poucas horas depois tinha o Bergen Calling Festival com shows do Black Label Society e de Ozzy Osbourne com Zakk Wylde e Slash. Na quarta, logo cedo, faria uma daytrip pelos fiordes da região, e à noite tinha um show de Suzanne Vega (sim, eu sei que esse é o S&Y Metal Edition… peço desculpas pelo deslize), e na quinta cedinho voo pra Barcelona para encarar o primeiro dia do Primavera Sound.

Quase desesperado, respondi o e-mail pedindo uma ajuda para descolar algum canto para ficar em Bergen. Ficar em outra cidade era inviável para minha agenda. Fui dormir não mais do que umas três horas de sono antes de encarar o voo para Oslo (e depois Bergen). Quando acordei, Mads me respondera: “Me procure no barco, vamos dar um jeito…”

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Ultra organizado que sou (odeio dar muito espaço para o acaso), estava estranhamente tranquilo. Na pior das hipóteses dormiria no aeroporto. Mas algo dizia que tudo daria certo. E deu. Chegando a Bergen fui procurar Mads. O norueguês me disse que tinha descolado um canto pra mim no barco de um amigo, e me passou o endereço.

Bergen é a segunda maior cidade da Noruega (atrás da capital Oslo). Sua economia gira principalmente em torno do turismo. No verão é porta de entrada para os fiordes; no inverno é sede das principais estações de esqui da região. Por isso, achar o barco de Sven, o amigo de Mads foi fácil. A única diferença é que o barco de Mads ficava na zona turística, o de Sven ficava na zona portuária.

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Pode até ser que noruegueses sejam frios e tudo o mais que a gente pensa de povos europeus. Os que conheci, nesse caso, eram os equivalentes aos cariocas da Noruega: animados, receptivos, curiosos e beberrões. Sven tem um pequeno barco de transporte de carga e pessoas. Na tripulação apenas ele e seu imediato: um italiano baixinho e falastrão (pleonasmo?) chamado Daniele. Os dois me receberam com festa e me acomodaram numa pequena cabine: uma cama justa e uma janelinha. Para mim, que cogitava dormir no aeroporto, parecia o Hilton. Apresentações feitas, pedi desculpas pela pressa, e zarpei para o show.

O Bergen Calling é mais uma grife que um festival. Só neste ano, por exemplo, vão acontecer pelo menos umas três edições. Numa delas toca Lenny Kravitz, na outra, Slayer, Sting… e por aí vai. Na que fui tocaria Black Sabbath. A doença de Tony Iommi e o posterior cancelamento da maioria das datas fez com que o show fosse alterado para Ozzy & Friends. Assim, o madman do metal receberia no palco Slash e Zakk Wylde. Além disso, a banda deste último, Black Label Society, faria abertura.

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O Bergen Calling acontece sempre às margens do Mar do Norte, em plena zona turística. A caminha da zona residencial para os arredores do show durou uns15 minutos e me fez chegar a pensar que estava indo na direção errada. Nas ruas nenhum sinal de movimentação de cabeludos, camisetas pretas e tudo o mais que indica a presença de um show de metal. Apenas a menos de 1 km do local (e com ajuda do Google Maps) percebi que estava indo na direção certa: um grupo de velhões com coletes de clubes motociclistas aparentava ir na mesma direção que eu.

Perguntei para um deles onde seria a entrada para o show, e o Hell Angel wannabe me indicou uma calçada para seguir. Nela percebi certa movimentação e me aproximei. Agora sim parecia um show. A procissão metaleira seguia em ordem e silêncio para a entrada. E a calçada era respeitada: nada de policiais, fitas de contenção, chiqueirinhos de metal. O público simplesmente respeitava o limite da calçada e ninguém andava pela rua.

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Outro exemplo? O ingresso diz “proibido fotografar os show”. Resultado? Ninguém saca sequer o celular para um registro do palco. Na Noruega é assim: se a regra está lá, deve haver um bom motivo para ela e ninguém vai tentar burlar (até por isso todas as fotos deste post são da cidade – a do Ozzy é de um jornal local). Mesma coisa com bebidas. Cerveja e vinho são vendidos no show (no caso uma chamada Hansa: um mijo de alce horrível com graduação alcóolica de 2,4%), mas a segurança fica em cima, e se perceberem que você está alto, parceiro, é rua.

Não estou dizendo bêbado a ponto de vomitar no decote da mulher do delegado. Um sujeito na minha frente estava calmo, sem incomodar ninguém, apenas aparentava uma suave dificuldade no equilíbrio. Não teve nem apelo. Dois seguranças apareceram e escoltaram o rapaz para fora da arena.

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Meu ingresso dava direito ao chamado Golden Circle, a área vip deles (desculpem os puristas, mas eu não iria até a Noruega pra tentar ver um show atrás de um paredão de 15 mil descendentes de vikings com 2 metros de altura cada). Na entrada apenas uma breve revista e a indicação de onde deveria pegar a pulseira para o tal circulo de ouro. Esse não ocupava toda frente do palco, apenas a metade esquerda.

Eram quase 20h e o sol estava forte. Sem atrasar um minuto sequer, às 20h, o Black Label Society apareceu no palco com seu mentor e vocalista Zakk Wylde de cocar de índio. Apresentação curta e eficiente, o Black Label Society mostra a cada dia que é realmente um projeto de Wylde. Ele é o foco do show, e seu estilo vocal mostra que o cara aprendeu tudo o que precisava saber com Ozzy. Podem até dizer que ele emula e imita seu mentor. Mas, para alguém que não sabia sequer falar sem desafinar, é uma evolução e tanto…

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Sem muita demora, Ozzy Osbourne ganhou o palco com Gus G. (guitara), Rob “Blasko” Nicholson (baixo) e o batera Tommy Clufetos. A primeira parte do show correu com “Bark at the Moon”, “Mr. Crowley”, “Suicide Solution”, ”I Don’t Know”, “Killer of Giants”, “Shot in the Dark” e “Rat Salad” (do Black Sabbath). Foi a deixa para Ozzy convidar Slash e Geezer Butler para a sequência de “Iron Man”, “War Pigs” e “N.I.B”.

Em seguida, sai Slash e entra Wylde, para mais dois sons do Sabbath: “Fairies Wear Boots” e “Into the Void”. O barbudão, e aprendiz ficou no palco para matar a saudade do repertório de Ozzy (que cada vez mais parece o Cauby Peixoto do metal). Mandaram “I Don’t Want to Change the World”, “Crazy Train” e “Mama, I’m Coming Home”.

Na última música, a óbvia ausência até então do repertório, “Paranoid”, ganhou versão com todos os convidados no palco. No retorno ao barco do Sven, ainda com sol brilhando em Bergen, um pouquinho de desordem: doze “rebeldes” desafiavam o status quo e andavam pelo meio fio. Graças a Deus: já começava a me perguntar se metaleiros noruegueses eram de fato humanos.

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junho 3, 2012   No Comments

Barcelona: Primavera Sound, Dia 2

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Texto e fotos por Marcelo Costa

Preguiça em Barcelona. A quinta-feira acabou ás 5 da manhã com cerveja, sangria de caixinha e Jack & Coke, e a sexta só começou após uma bela massa no Pasta Bar, na Escudellers, 47, travessa das Ramblas (enquanto a gente acordava, o Wilco se amontoava na Revolver Records para um pocket show). O segundo dia do Primavera Sound não prometia emoções tão fortes quanto as do primeiro, mas surpreendeu com Girls e o show interminável de Robert Smith.

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O plano inicial era chegar cedo e tentar ver Laura Marling e o ex-Neutral Milk Hotel Jeff Mangum no auditório. A primeira não deu tempo, e o segundo obrigava a esperar em uma fila debaixo do sol nada convidativa. Achei mais justo dar uma rodada nos palcos: Chavez fazendo bonito no Mini, The Chameleons surpreendendo no Ray-Ban, Siskiyou repetindo a boa apresentação do I’ll Be Your Mirror e Rufus Wainwright cantando canções que já não lembro mais no palco principal.

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Mais tarde, enquanto Marianne Faithfull cantava de Rolling Stones a Decemberists, de Bob Dylan a Leonard Cohen no auditório, o duo Girls fazia uma baita apresentação no Mini, com guitarras altas, backing vocals arrasadoras e todos os hits cantados com paixão por um público emocionado. “Honey Bunny”, “Love Like A River”, “Vomit”, “Jamie Marie” e “Lust For Life” foram o destaque do show de uma banda que se encontra em seu melhor momento. Para rever.

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Dali, uma passada para tirar a prova dos nove do Big Star’s Third, e a coisa começou quente com Jeff Tweedy arrasando em “Kizza Me”. Ira Kaplan, do Yo La Tengo, voltou a fazer bonito em “O Dana” e Mike Mills comandou a festa em “Jesus Christ”. Tudo muito bonito, ainda que excessivamente contemplativo – só o fato do som estar mais alto que no show do Barbican já fez com que Alex Chilton sorrisse, onde quer que ele esteja. E aquela flautista e backing vocalista derretendo corações?

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Deixei o auditório – quando o Teenage Fanclub Norman Blake partia para o microfone – disposto a encarar o Cure. Duas do lindo “Disintegration” abriram a noite (“Plainsong” e “Pictures of You”), que prometia. Entre as oito primeiras ainda teve “Lovesong”, “In Between Days” e “Just Like Heaven”. Aproveitei “From the Edge of the Deep Green Sea” para ir olhar o Napalm Death no palco Vice. Vi seis músicas (algumas delas novas – gostaria de saber se alguém percebeu) e o Cure ainda tocava.

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Pausa para um lanche. Arranjei uma mesa no restaurante da sala de imprensa, fiz o pedido de um hambúrguer, trouxeram, comi, e o Cure ainda tocava. Voltei ao palco curado pela revista Vice, assisti às três primeiras do Mayhem, e o Cure ainda tocava. Perdi Dirty Three e Codeine, mas o Cure ainda tocava (o set list teve 36 canções!). Segundo consta, quando voltarmos hoje ao Primavera Sound, Robert Smith ainda estará no palco tocando.

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O último dia oficial do Primavera Sound (há, ainda, shows extras de Yann Tiersen e Richard Hawley no Arco do Triunfo no domingo) é o mais indie do festival: tem novamente Jeff Mangum (tentarei me esforçar mais desta vez) no Auditório, Saint Etienne e Kings of Convenience no palco principal, e, espalhados, Yo La Tengo, Beach House, Wild Beasts, Neon Indian, Shellac, Atlas Sound, Real State e The Weeknd. Acho que vou pegar uma praia…

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Leia também:
– Tudo sobre o Primavera Sound 2012 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2011 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2010 (aqui)

junho 2, 2012   No Comments

Werchter Boutique: a preguiça e o épico

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 Texto e fotos: Renato Moikano (@renato_moikano)

A edição 2012 do festival belga Werchter Boutique começou como apenas um show: Metallica em sua turnê de celebração dos 20 anos do lançamento do “Black Album”, o disco que tirou o quarteto americano do hall de principais nomes do metal e transformou o grupo em uma das maiores bandas do mundo. Em meados de fevereiro novas bandas começaram a pintar como coadjuvantes no festival. E em abril o line-up estava confirmadíssimo com Ghost, Gojira, Channel Zero, Mastodon e – vejam só – Soundgarden.

Bora sair do meu refúgio em Bruxelas rumo à pacata (e relativamente próxima) Werchter. O festival estava marcado para as 13h, e o trajeto entre Bruxelas e Werchter foi bastante tranquilo e organizado. Um trem deixa a estação ao norte da capital rumo a Leuven e o trajeto (em trens expressos) leva 15 minutos. Em trens urbanos, 45. Peguei o urbano mesmo para aprender o caminho para o aeroporto. Um trajeto que precisaria fazer na manhã seguinte.

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Em Leuven, a comitiva de fãs com camisetas pretas e cabelos compridos era imensa. Diversas placas sinalizavam o local exato de embarque nos ônibus que fariam o trajeto entre Leuven e o local do show nas cercanias de Werchter. Mais 20 minutos de ônibus e voilà. Chegamos? Ainda não. Mais uma caminhada de 20 minutos e finalmente cheguei à entrada.

Na contra-mão da tendência, o Werchter Boutique conta com uma pista-vip que ocupa toda a frente do palco. Além desse setor, dentro da área vip havia o Snake Pit: um espaço para cerca de 200 pessoas que ficava literalmente dentro do palco, em uma área delimitada por uma alça em forma de U. O local faz referência à turnê original de divulgação do “Black Album” entre 1991 e 1993 quando o Snake Pit foi montado pela primeira vez.

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Pontualmente às 13h, o Ghost iniciou sua apresentação. Um goth metal sem sal que passaria completamente despercebido não fossem os trajes da banda que se apresenta em batinas católicas e rostos pintados como se fossem…fantasmas! Uau! Que original. Próximo. Enquanto Gojira não entrava resolvi verificar como um metaleiro gourmet se sairia no festival. As opções eram bem óbvias: hotdog e o hambúrguer mais sem vergonha que já comi na minha vida.

Os preços eram relativamente normais para um festival. Uma cerveja Júpiter (bem gelada, sempre), coca-cola, energético ou água custava 1 Bon (a moeda do festival, equivalente a 2,50 euros). As comidas e sanduíches saiam por 2 Bons. Um estande da Jack Daniels vendia bebidas a partir de 3 Bons. Todos os caixas aceitavam cartão de crédito e euros. As barraquinhas de venda de merchandising oficial apenas grana viva.

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E tudo tinha fila. E grande. E ninguém choramingava. Portanto, você, que vai a festivais no Brasil e acha que tudo é desorganizado simplesmente porque tem fila, vê se larga mão dessa síndrome de pangaré de que tudo no Brasil é pior. E lembre-se, tem fila porque você está num maldito festival com mais dezenas de milhares de pessoas, catzo.

Eu tinha certa esperança que o Gojira me surpreendesse. Acho o som do grupo um pouco carente de punch, mas acreditava que a falta de um produtor bacana e competente poderia ter contribuído para que os discos do grupo fossem meio fracotes. Empolgação não faltou, tentativas de contagiar o público também não. Mas faltou peso. O show se arrastou e só serviu pra me mostrar que o próximo disco do grupo, “L’Enfant Sauvage”, deve ser apenas mais do mesmo.

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Channel Zero é uma banda belga tão farofa, mas tão farofa, que faz o Papa Roach soar como Black Sabbath. Por tocar para seus compatriotas contaram com simpatia de grande parte da audiência. Mas aqui, chegado, tem duas décadas de fuleiragem metaleira. Não iam me comprar só porque todo mundo estava cantando junto. E não compraram. Culpa do vocalista que ainda não se decidiu se quer cantar ou fazer pose. Uma hora no palco e chega.

Mastodon! Tentar resumir o show em uma palavra seria difícil, mas em duas dá pra tentar. Que tal: desgraça e injustiça? Desgraça porque, bem o Mastodon não fala, ruje. Do início ao fim do show tudo que eles fazem é despejar guitarrada em cima de você. Sem bom dia ou boa tarde, tocaram uma música atrás da outra. Já injustiça vem do público que ignorou completamente o grupo. A desgraceira começou com “Black Tongue” e “Crystal Skull”, e, após dez rounds, terminou com “Blood and Thunder” e “Creature Lives”.

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Nada de lamentar, porque quase imediatamente começou o show do Soundgarden. Esse sim eu não via a hora. Eram quase 20h em Werchter e o sol ainda estava marcando presença e bronzeando as banhas belgas. E lá vamos nós. Mas não foi! O Soundgarden fez um dos shows mais preguiçosos que já vi na vida. Cada integrante distante entre si, Chris Cornell arrastando os vocais e tentativas inúteis do baixista (aparentemente o único feliz em estar ali).

O tédio musical fez com que “Outshined”, por exemplo, não saísse da primeira marcha. E “Black Hole Sun” contou com um erro grotesco de Cornnel ao tentar voltar após o solo. Se era pra voltar desse jeito, confesso que preferia o insosso Chris Cornell em carreira solo fazendo shows sonolentos. Ainda assim estou ansioso para ver o show no Download Festival em Donninton Park, no próximo domingo, dia 9 de junho. Se for igual, prometo transformar minha preciosa cópia de “Badmotorfinger” em cortador de pizza.

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Já o Metallica foi nada menos que épico. O roteiro da turnê é o seguinte: introdução com a tradicional sequência do cemitério em “The Good, The Bad & The Ugly”, de Sergio Leone, com “The Ecstasy Of Gold” (do mago Ennio Morricone). Em seguida a banda abre com “Hit the Lights” (primeira faixa do primeiro disco que já completa 29 aninhos). Em seguida, “Master Of Puppets”, “Ride The Lightning” (executada pela primeira vez nesta turnê), “For Whom The Bells Tolls” e “Hell and Back”, sobra de “Death Magnetic” (2008) lançada no EP de “Beyond Magnetic” (2011).

Um intervalo e os telões começam a exibir um breve clipe com cenas das gravações do “Black Album”. Grande parte do material extraído está no documentário duplo “A Year And A Half” que acompanhou a gravação e a primeira perna da turnê em 1991. O clipe não economiza com várias imagens de Jason Newsted, então baixista do grupo que deixou o Metallica de forma traumática antes da gravação de “St. Anger”.

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A sequência de canções obedece a uma lógica interessante: o disco é executado de traz para frente. Então, o filé mignon do show vem com “The Struggle Within”, “My Friend of Misery”, “The God That Failed”, “Of Wolf and Man”, “Nothing Else Matters”, “Through the Never”, “Don’t Tread on Me”, “Wherever I May Roam”, “The Unforgiven”, “Holier Than Thou”, “Sad But True” e “Enter Sandman”. No bis teve “Battery”, “One” (com direito a nova iluminação toda com lasers) e o tradicional encerramento com “Seek & Destroy”. Épico!

E a saga não terminou aí. Lembram que no post anterior eu ainda não tinha descolado uma passagem de volta para Bruxelas. Bom, imperou a brasilidade. Tapei o destino final do bilhete que eu tinha comprado e consegui me esgueirar no último trem para Bruxelas. Mas, hey, eu não me orgulho disso, hein…

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junho 2, 2012   No Comments

Barcelona: Primavera Sound, Dia 1

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Texto e fotos por Marcelo Costa

Como era esperado, a primeira noite da edição 2012 do Primavera Sound, em Barcelona, foi uma reunião de concertos memoráveis: as voltas de Afghan Whigs e Refused, a classe de Wilco, Lee Ranaldo e Spiritualized, o show de hits do Franz Ferdinand (com direito a canções novas) mais Death Cab For Cutie, Mudhoney e Arches of Loaf (e muitos outros) mostraram porque o festival catalão é um dos melhores do mundo.

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Na programação oficial, que começou às 17h, mais de 50 bandas divididas em oito palcos na beira do Mediterrâneo, mas sabemos todos que é impossível ver 30% disso – embora a gente tente. Com boa vontade se consegue ver cinco shows inteiros e pedaços de um outro aqui e ali. Assim, uma primeira piscadela para o Arches of Loaf, que repetiu a bela apresentação do ATP em Londres, na semana passada, tocando debaixo de um solzão de 19h30.

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Na sequencia, The Afghan Whigs, outra atração do ATP londrino, que repetiu o êxito da semana anterior com um show focado. Greg Dulli continua urrando como um touro ferido em uma arena, e o novo baterista mão pesada ainda está se acostumando ao repertório, o que afeta uma das características básicas da banda, a improvisação, mas ainda assim o show é caótico, nervoso, instigante, clássico, méritos de um repertório absurdo de bom.

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Quase no mesmo horário, no palco curado pelo ATP, Lee Ranaldo mostrava com vontade as canções de seu excelente novo álbum solo. Ele deixou as experimentações de seus discos anteriores e concentrou no poder de riffs e das canções. Contou historinhas (de uma garota que conheceu em Barcelona nos anos 80 quando tocava com aquela banda, como é mesmo o nome… Sonic Youth) e solou muito. No fosso, Mark Arm acompanhava com admiração.

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Depois, três músicas do Death Cab For Cutie mostraram que a banda continua enorme na Europa, com cerca de 5 mil pessoas acompanhando o show no quinto dos infernos, ou melhor, o palco Mini, que dá a impressão que a Sagrada Família será terminada antes de chegarmos ao local do show. Depois, uma passada rápida e certeira pelo Mudhoney, para ouvir os hinos “Touch Me I’m Sick” e “Suck You Dry” e ver a galera se matando no pogo. Bonito de olhar.

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No palco principal, Jeff Tweedy soava sincero: “É bom estar de volta, Barcelona. Vocês são o melhor público do mundo, e não estou falando pra fazer média”. O repertório foi bastante ousado – principalmente em relação ao show de 2010 neste mesmo palco – com “At Least That’s What You Said”, “Spiders (Kidsmoke)”, “Too Far Apart” e, principalmente, “Laminated Cat” (do projeto Loose Fur) surpreendendo os fãs.

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Nels Cline confirma o status de monstro da guitarra seja comandando o caos de “Art of Almost”, seja solando interminavelmente em “Impossible Germany”, uma canção que deveria ser tombada como Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco. O trecho final pode ter causado infarto em algum fã mais afoito: “I’m Always in Love”, “Jesus, Etc.”, “I’m the Man Who Loves You”, “Dawned On Me” e a graaande “A Shot in the Arm”. Sorriso no rosto.

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Calma que não acabou. No palco Rayban, os suecos do Refused promoviam um massacre hardcore de primeira grandeza (enquanto isso, lá no Mini, o The XX recriava suas canções). O pique do vocalista Dennis Lyxzén é impressionante: ele pula, corre e distribui pontapés no ar que facilmente derrubariam Anderson Silva. A iluminação do palco é funcional e o baixo encharcado de sujeira bate no peito de tal forma que pode desequilibrar o individuo.

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O Franz Ferdinand aproveitou o palco do Primavera para (como tem feito nos shows atuais) mostrar canções inéditas do vindouro quarto álbum. A festa começou com “Darts of Pleasure” e “Tell Her Tonight”, que bastaram para Alex Kapranos e compania terem o público nas mãos. “Right Thoughts”, a primeira das inéditas, não impressionou (eles tocaram ainda “Brief Encounters”, “Fresh Strawberries”, “WTICSFIFL? Midnight!” e “Trees & Animals”), mas o caminhão de hits (“Take Me Out”, “Walk Away”, “This Fire” e outras) fez todo mundo pular.

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Por fim, às 02h15 da manhã, Jason Pierce adentrou o palco aplaudindo o público e sua banda. Pegou a guitarra e atacou logo de cara “Hey Jane”, primeiro single do disco novo (e com um clipe sensacional). Durante pouco mais de uma hora, o Spiritualized fez do Primavera Sound uma missa. Almas levitavam ao som de “Lord Let It Rain On Me”, “Soul on Fire”, “Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space” e a sensacional “Come Together”, quase dez minutos inesqueciveis, fecho de ouro para uma noitada inesquecível. Hoje tem mais. Aguarde.

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Leia também:
– Tudo sobre o Primavera Sound 2012 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2011 (aqui)
– Tudo sobre o Primavera Sound 2010 (aqui)

junho 1, 2012   No Comments