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Category — Cinema

Notas sobre Fahrenheit 451, de Truffaut

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A Tatiana Lima me cobrou uma posição melhor de “Fahrenheit 451” na minha lista de filmes de Truffaut (ele está lá nas últimas posições à frente apenas do fraco filme de época “A História de Adèle H.”), mas não acho a produção tão bem resolvida. A mensagem totalmente derivada do livro de Ray Bradbury é forte, mas a ficção cientifica (Truffaut em outro filme de gênero) do cineasta não seduz.

“Fahrenheit 451” é lento, pesado (as cenas de ação são tediosas) e sofre de hipervalorização da mensagem, o que de certa forma explica sua trajetória cult (e todos os ensaios científicos). Bom para se discutir em sala de aula. Tedioso numa sala de cinema. No entanto, gostei desse ensaio da professora Terezinha Elisabeth da Silva sobre o filme embora tenha dúvidas se o filme é mais conhecido do que o livro (como ela diz no segundo parágrafo).

 “Montag e a memória perdida: notas sobre Fahrenheit 451 de François Truffaut”

“François Truffaut registrou em seu diário que, em Fahrenheit 451, havia tantas referências literárias quanto nos filmes que Godard havia dirigido até aquele momento (Escobar,1995). Na fala de Truffaut há uma leve provocação a Godard, também grande amante dos livros, seu parceiro em várias realizações e com quem, ao lado de outros cineastas, como Chabrol e Rohmer, participou da Nouvelle Vague francesa.

Fahrenheit 451, dirigido por Truffaut em 1966, é, de longe, muito mais conhecido que o livro de Ray Bradbury, publicado em 1953, em que o filme se baseou. Na maioria das vezes, quando se fala de Fahrenheit, o livro de Bradbury sequer é mencionado, o que evidencia a potência que a imagem cinematográfica tem de se imprimir na memória coletiva das massas.

Embora seja conhecido e citado, o filme não chegou a ser lançado em vídeo no Brasil. Considerado pela crítica especializada um dos piores, senão o pior, entre os filmes de Truffaut, Fahrenheit não é, certamente, uma obra-prima do cinema. É um trabalho crítico e marcante, onde o que fala mais alto é o amor declarado e dedicado por Truffaut aos livros e à leitura (continua aqui)”.

julho 5, 2011   No Comments

Três Filmes: Hiroshima, Nova York, Los Angeles

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“Hiroshima, Meu Amor”, Alain Resnais (1959)
O diretor francês Alain Resnais já tinha mais de 20 documentários no currículo quando foi escalado para fazer um curta sobre a bomba atômica. O holocausto já havia sido tema de um curta seu (“Nouit et Brouillard”, de 1955), e Resnais não queria repetir a temática. Auxiliado pela escritora Marguerite Duras, que assinou o roteiro, Resnais decidiu filmar seu primeiro longa-metragem, uma obra prima estilística que se tornou o precursor da Nouvelle Vague, foi indicado ao Oscar na categoria Roteiro e saiu com o prêmio da crítica em Cannes. Tendo uma Hiroshima devastada como pano de fundo (14 anos depois da bomba atômica), Resnais conta a saga de um casal que acabou de se conhecer, se apaixonou, e tem que se separar. Ela (a estreante no cinema Emmanuelle Riva) é uma atriz francesa. Ele (Eiji Okada) é um arquiteto japonês. O romance é impossível (ambos são casados e ela precisa voltar para Paris), e o amor… esquecível. Será? Resnais debate tempo, memória e esquecimento de forma absolutamente esplendorosa auxiliado pela fotografia sublime de Sacha Vierny. “Reparou como notamos as coisas que desejamos notar?”, diz um personagem em certo momento da trama. Pense nisso.

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“Um Dia de Cão”, Sidney Lumet (1975)
Na época, começo dos anos 70, Al Pacino estava em alta após atuações consagradoras que lhe renderam indicações ao Oscar – “O Poderoso Chefão: I e II” (1972 e 1974) e “Serpico” (1974) – e poucos atores no mundo colocariam a carreira a prova vivendo um personagem gay em uma grande produção, mas não estamos falando de um ator qualquer. Al Pacino deu alma à Sonny, um homem que entra com dois amigos em um banco no Brooklyn, Nova York, para fazer um assalto motivado pelo desejo de arranjar grana para que o namorado fizesse uma operação de mudança de sexo e passa as próximas 12 horas negociando com a polícia uma maneira de deixar o banco sem matar nenhum dos oito reféns que estão com ele. “Dog Day Afternoon” é um drama policial que em vários momentos resvala na comédia (impossível descrever algumas cenas desconcertantes e sensacionais do filme) e deu a Al Pacino sua quarta indicação ao Oscar seguida (entre as seis indicações que o filme arrebatou, tendo levado apenas Melhor Roteiro num ano que “Um Estranho no Ninho”, com Jack Nicholson, ganhou quase tudo na premiação). Ainda assim, absolutamente clássico.

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“13º Andar”, Josef Rusnak (1999)
Dois meses após o primeiro “Matrix” estrear ganhando milhões de dólares chegava aos cinemas outro interessante filme de ficção cientifica que jogava poeira no ventilador da realidade. Josef Rusnak não teve a mesma sorte nas bilheterias que os irmãos Wachowski, mas merecia. Inspirado no livro “Simulacron-3” (1964), de Daniel F. Galouye, e na segunda parte do filme televisivo “Welt am Draht” (1973), de Rainer Fassbinder, “The Thirteenth Floor” é focado em Douglas Hall (Craig Bierko), um jovem talento de informática que trabalha com Hannon Fuller (Armin Mueller-Stahl) em um projeto que recria realidades simuladas. O ponto de partida é simples: uma cidade é recriada em um computador (no caso, a Los Angeles de 1937 – a história se passa em 1990) nos mínimos detalhes. As pessoas da realidade simulada são abastecidas com informações e sentimentos e, como num jogo, Hannon e Douglas transportam-se para a realidade virtual interagindo (até sexualmente) com os personagens como se tudo fosse real. A grande questão: será que tudo é realidade simulada? Não? Quem garante? Um belo filme para ver e pensar.

junho 26, 2011   No Comments

Três filmes: Maridos, Esposas e Marijuana

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“Maridos e Esposas”, Woody Allen (1992)
“’Maridos e Esposas’ foi um filme que eu queria que fosse feio. Não queria que nada combinasse, ou fosse refinado, ou bem montado. Queria um filme desagradável de assistir”, diz o cineasta em um dos trechos de “Conversas com Woody Allen”, livro essencial de Eric Lax. Porém, ao mesmo tempo em que diz isso, Woody inclui “Maridos e Esposas” em um Top 5 pessoal (ao lado de “A Rosa Púrpura do Cairo”, “Match Point”, “Tiros na Broadway” e “Zelig”) demonstrando seu apreço pela obra e renegando “Annie Hall” e “Manhattan” (que marcaram sua persona para 90% do público – algo que ele parece odiar). Em uma coisa ele está certo: “Maridos e Esposas” é desagradável. A câmera em constante movimento tentando flagrar conversas que se sobrepõe incomoda e atrapalha a leitura de um filme em que a forma está à frente do conteúdo (assim como seu filme imediatamente anterior, o bonito e vazio “Neblina e Sombras”). Um bom exercício para a paciência e também um filme excelente para quem acredita que uma das funções do cinema é provocar o espectador.

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“Uma Aventura em Martinica”, Howard Wawks (1944)
Em 1944, o terceiro casamento de Humphrey Bogart não ia lá bem das pernas e bastou encontrar a jovem Lauren Bacall (25 anos mais nova) no set de “Uma Aventura em Martinica” para que uma nova paixão florescesse. Bogart e Bacall casaram-se em 1945 e tiveram um casamento feliz, e “Uma Aventura em Martinica” tem seu lugar na história muito mais pelo encontro dos dois do que pelas qualidades do filme, que reuniu um timaço nos créditos (Hemingway, autor do livro “To Have and Have Not”, base para o roteiro assinado por Jules Furthman e William Faulkner, mais Wawks e Bogart), mas não conseguiu deixar de ser um “Casablanca 2”. O Rick de “Casablanca” aqui se chama Harry. Ele não tem um bar, mas um barco, no entanto mora em um hotel e passa quase todo o tempo no bar comandando a ação que, por fim, concentra-se em ajudar um casal francês a escapar da perseguição nazista. Bacall se mostrou um furacão em cena, ganhou mais espaço na trama e atropelou Dolores Moran, que deveria ser a Ingrid Bergman da vez, mas teve seu papel reduzido. Para assistir e comparar.

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“Quebrando o Tabu“, de Fernando Grostein Andrade (2011)
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é o personagem ancora de “Quebrando o Tabu“, documentário em que Fernando Grostein Andrade (irmão de Luciano Huck) lança luz sobre a política de combate às drogas no Brasil através de exemplos ao redor do mundo. Ok, Fernando Henrique Cardoso poderia ter lutado para mudar a legislação quando era presidente? Podia, mas não o fez. Ele mesmo assume a culpa em uma das cenas do documentário, que peca pelo tratamento publicitário de imagem, som e roteiro (trilhas descoladas e pretensas frases de efeito que funcionam com margarina ou carro, mas não com cinema) assim como avança demais em vários pontos da discussão sem conseguir amarrar tudo no final, mas ainda assim é um grande passo para se discutir o tema espinhoso da descriminalização das drogas. Legalização, no mundo imperfeito que vivemos, talvez fosse uma utopia, embora os passos dados por Portugal, Espanha, Suíça e Holanda precisem ser estudados e, verificados sua eficácia, colocados em prática. FHC talvez não fosse a pessoa indicada para divulgar e ampliar essa discussão, mas está de parabéns pela iniciativa. Antes ele do que ninguém.

Leia também:
– “Neblinas e Sombras” (”Shadows and Fog”), Woody Allen (aqui)

junho 20, 2011   No Comments

Três Filmes: Travestis, Sereias e Raparigas

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“Se Beber Não Case 2”, Todd Phillips (2011)
“The Hangover” (na Espanha, “Ressacon”, no Brasil, “Se Beber Não Case”) passou como um furacão pelos cinemas no final de 2009 engordando a conta corrente da Warner Bros. Custou 35 milhões de doletas e faturou quase 500 milhões no mundo todo. Bola cantada para uma sequencia. Porém, nem o mais desligado fã de comédia hollywoodiana iria esperar que Todd Phillips e companhia copiassem a fórmula do primeiro filme tintin por tintin. E quer saber: ainda assim “The Hangover 2” funciona. Muda-se o cenário (sai Las Vegas entra Bangkok), mas as piadas masculinas continuam exageradamente cômicas. A química do trio Bradley Cooper (Phil), Zach Galifianakis (Alan) e Ed Helms (Stu) rende outro grande filme, que perde em impacto pelo fator novidade, mas ainda faz rir – e muito. Agora é esperar o terceiro…

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“Piratas do Caribe 4”, Rob Marshall (2011)
A máquina de fazer dinheiro não tem folga. Quatro anos após o bom “Piratas do Caribe – No Fim do Mundo” surge este “Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas”, talvez o mais fraco filme da saga de Jack Sparrow. Desta vez, Johnny Depp se vê às voltas com sereias belíssimas, um antigo romance (Penélope Cruz subaproveitada) e os mesmos desafios de sempre, desta vez com foco na busca por uma fonte da juventude. Johnny Depp mais uma vez brilha como um dos piratas mais sacanas dos mares (deve surgir em breve alguma história em quadrinhos pornô nos moldes da que surgiu no embalo do primeiro filme), mas o filme não emociona, não impressiona, não conquista. É só um passatempo ok para assistir debaixo do edredom num dia frio de domingo. E olhe lá. E, importante: a versão 3D é dispensável.

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“Singularidades de Uma Rapariga Loura”, Manoel de Oliveira (2009)
Aos 100 anos, o cineasta português (agora com 102) decidiu homenagear Eça de Queiroz com um filme inspirado em um conto (homônimo) de 1902 do escritor. Porém, “Singularidades de Uma Rapariga Loura” perde foco por exatamente querer transformar um conto em um longa-metragem. Não só isso. Algumas atuações deixam bastante a desejar (Leonor Silveira, uma das musas do cineasta, parece perdida na conversa no trem, em que fala uma frase ohando sempre para o aposto, e não para o rapaz com quem conversa) e a inserção de um trecho que se passa na Casa Eça de Queiroz, em Lisboa, soa forçada e desnecessária (até porque o ator que apresenta o local nem ator deve ser tamanha sua insegurança no papel). Se fosse um curta, quem sabe, mas muita coisa precisaria ser limada (ou refilmada) dos 63 minutos da película para que “Singularidades de Uma Rapariga Loura” funcionasse.

junho 16, 2011   No Comments

Três filmes: Naomi, Natalie e Juliette

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“Jogo de Poder” (“Fair Game”, 2010)
A história da espiã norte-americana Valerie Plame já havia inspirado uma canção do Decemberists e agora ganha sua versão cinemão com a dupla Naomi Watts (no papel da espiã) e Sean Penn (como o marido Joseph Wilson) esbanjando carisma. O diretor Doug Liman tem mão boa para thrillers políticos, vide “A Identidade Bourne” (2002) e os dois filmes seguintes da franquia produzidos por ele – além do divertido “Sr. e Sra. Smith” (2005), outra história de espiões. Aqui, no entanto, a motivação é real. Joseph Wilson escreveu um editorial para o New York Times em que acusava a administração do presidente Bush de manipular informações (algumas coletadas pelo próprio diplomata) para justificar a invasão ao Iraque. Ou seja, a Casa Branca mentiu visando uma guerra (novidade?). No meio do caminho ferrou a vida de uma espiã que havia dedicado 18 anos de sua vida ao País. Um filmaço sobre manipulação de interesses no mundo moderno.

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“Sexo Sem Compromisso” (“No Strings Attached”, 2011)
O ponto de partida desta comédia romântica inofensiva é até bacana: a câmera flagra um menino e uma menina conversando, ele tímido, ela falante: “Você é engraçada e esquisita”, ele diz. “Sim, sou esquisita”, ela concorda cinicamente. Corte: cinco anos depois eles se reencontram, paqueram e nada acontece. Mais quatro anos se passam e, bum, sexo. Natalie Portman interpreta Emma, uma garota louca (redundância, eu sei) que não quer se relacionar com ninguém, mas curte a idéia do sexo. Ashton Kutcher é Adam, o cara do primeiro fora (e de outros futuros). Eles topam encarar o lance de serem fuckbodys e, claro, alguém vai se apaixonar. Até ai, tudo bem, mas a história secundária, o roteiro, a trilha, o filme todo não precisava ser tão superficial. Não há química entre Natalie e o péssimo Ashton (era mais fácil enganar de chapado no “That 70′ Show”), mas Kevin Kline garante bons momentos quando aparece em cena. Pena que ele aparece pouco.

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“Cópia Fiel” (“Copie Conforme”, 2010)
Primeira incursão européia do cineasta iraniano Abbas Kiarostami (e um dos melhores filmes do ano passado), “Cópia Fiel” discute o conceito da originalidade em uma obra de arte homenageando (ou seria copiando fielmente?) Rosselini (vale rever “Viagem à Itália”, de 1953, que flagra dois estrangeiros no ocaso do casamento) e Antonioni (e também os dois “Before”, de Richard Linklater) enquanto o casal de protagonistas passeia por uma cidadezinha da Toscana. A fotografia esplendorosa explora reflexos de vidros e espelhos (como em “Os Sonhadores”, de 2003, de Bertolucci) conseguindo resultados arrebatadores enquanto o barítono William Shimell (aqui interpretando o escritor britânico James Miller) e a atriz Juliette Binoche (como a francesa Elle) dão um show (com vários momentos de delicioso improviso) em um romance que não existe, mas que é muito mais belo do que vários que já existiram.

março 21, 2011   No Comments

Três filmes: 127 Hours, True Grit, Winter’s Bone

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“127 Horas” (“127 Hours”, 2010)
Se a história verídica do alpinista Aron Ralston tivesse caído nas mãos de 90% dos outros diretores, bem provável que estaríamos diante de um filme de auto-ajuda buscando valorizar a vida, pieguice pura. Mas, como escreveram certa vez, se o demônio quiser, todo Keith Richards irá encontrar o seu Mick Jagger. E assim, nas mãos do Danny Boyle e com a presença magnética de James Franco, “127 Horas” se transforma em um poderoso thriller que resiste aos ataques de pirotecnia do diretor (closes de dentro da garrafa de água, de raio x do braço sendo atravessado pela faca). Aliás, os momentos mais brilhantes do filme são todos méritos de Boyle: a garrafa de Gatorade esquecida, a chegada diária do sol e a ilusão da chuva. É preciso ter estômago forte para não tirar o olhar da tela, mas a certeza que fica é de que Boyle (que assina o roteiro com Simon Beaufoy) acertou novamente.

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“Bravura Indômita” (“True Grit”, 2010)
Após o fiasco do ótimo “Um Homem Sério” (2009) nas bilheterias (custou US$ 10 milhões, arrecadou ‘apenas’ R$ 27 milhões enquanto o ok “Queime Antes de Ler”, de 2008, somou US$ 164 milhões de bilheteria), os irmãos Coen resgatam um faroeste clássico e, vejam só, batem seu recorde próprio de arrecadação: US$ 170 milhões. Dinheiro não quer dizer muita coisa pra você, que ama cinema (a título de curiosidade, o maravilhoso “O Homem Que Não Estava Lá”, de 2001, não chegou nem a US$ 19 milhões), mas este remake de um faroeste clássico dos anos 60 até pode ter lá seus méritos (atuações brilhantes de Jeff Bridges, Matt Damon e de Hailee Steinfeld mais uma fotografia belíssima), mas é um filme menor dos irmãos Coen. A ironia da dupla surge aqui e ali em rompantes brilhantes, porém a impressão é que a reverência ao gênero matou a irreverência dos irmãos. Ainda assim, uma boa diversão.

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“O Inverno da Alma” (“Winter’s Bone”, 2010)
Um dos bons filmes da (fraca) temporada passada, “O Inverno da Alma” pega a fórmula clássica de se contar uma história no cinema, e não inventa. Para a fórmula dar certo é preciso atenção aos detalhes que compõe o todo, e a diretora Debra Granik (que assina o bom roteiro a quatro mãos com Anne Rosellini) está bem assessorada num filme de fotografia delicada e grandes atuações do elenco, com destaque para os oscarizaveis John Hawkes e Jennifer Lawrence. Esqueça a musa que fez o tapete vermelho do Oscar entrar em transe. Jennifer sofre na pele de Ree Dolly, uma jovem condenada pela vida, responsável por cuidar de dois irmãos menores, uma mãe louca e um pai traficante em uma terra de ninguém, as montanhas Ozarks, no estado americano do Missouri (ambiente do romance de Daniel Woodrell, que deu origem ao filme). Para quem acha a vida bela, é bom lembrar do inverno.

Leia também:
– “Quem Quer Ser Um Milionário”, um Danny Boyle definitivo (aqui)
– O humor transforma ‘Um Homem Sério” em grande filme (aqui)

março 7, 2011   1 Comment

Uma estranha reunião de fantasmas

“Só voltei a Los Angeles em 1972, para a apresentação de ‘O Discreto Charme da Burguesia’ no festival. Reencontrei com prazer as calmas alamedas de Beverly Hills, a impressão de ordem e segurança, a amabilidade americana. Um dia, recebi o convite de George Cuckor para almoçar, convite inesperado, pois eu não o conhecia. (…) Também haveria, ele disse, ‘alguns amigos’.

Foi na realidade um almoço extraordinário. Primeiros a chegar à magnífica mansão de Cuckor, que nos recebeu calorosamente, vimos entrar, semicarregado por uma espécie de escravo negro com músculos consideráveis, um velho espectro cambaleante, venda no olho, que reconheci como John Ford. Eu nunca estivera com ele. Para minha grande surpresa, pois julgava que ele ignorava a minha existência, veio sentar ao meu lado num sofá e se disse feliz por me saber de volta a Hollywood. Contou inclusive que estava preparando um filme – ‘a big western’. Mas ele morreu alguns meses depois.

Nesse momento da conversa, ouvimos uns passinhos se arrastando no assoalho. Virei e vi Hitchcock, que entrava na sala, todo róseo e roliço, e se dirigia para mim com os braços estendidos. Eu tampouco o conhecia, mas sabia que por diversas vezes havia me tecido elogios publicamente. Veio sentar ao meu lado, depois exigiu ficar à minha esquerda durante o almoço. Com uma das mãos em volta do meu pescoço, meio deitado no meu ombro, não cessava de falar de sua adega, de seu regime (comia muito pouco) e sobretudo da perna cortada de ‘Tristana’: “Ah, aquela perna…’.

Em seguida chegaram William Wyler, Billy Wilder, George Stevens, Ruben Mamoulian, Robert Wise e um diretor muito mais novo, Robert Mulligan. Passamos à mesa após alguns aperitivos, na penumbra de uma grande sala de jantar iluminada por candelabros. Em minha homenagem realizava-se uma estranha reunião de fantasmas que nunca haviam se reunido antes, todos falando dos ‘good old days’, os bons e velhos tempos. De ‘Ben Hur’ a ‘Amor, Sublime Amor’, de ‘Quanto Mais Quente Melhor’ a ‘Interlúdio’, de ‘No Tempo das Diligências’ a ‘Assim Caminha a Humanidade’, quantos filmes ao redor daquela mesa…

Depois da refeição, alguém teve a idéia de mandar chamar um fotógrafo da imprensa para tirar o retrato da família. A fotografia devia ser o ‘collector’s items’ do ano. Infelizmente, John Ford não figura nela. Seu escravo negro voltara para pegá-lo no meio do almoço. Ele nos disse até logo debilmente e, esbarrando nas mesas, partiu para não mais nos ver. (…)

No dia seguinte, Fritz Lang me convidou para visitá-lo em sua casa. Muito cansado, ele não pudera comparecer ao almoço na casa de Cukor. Eu tinha 72 anos na época. Fritz Lang já passava dos oitenta. Nos encontrávamos pela primeira vez. Conversamos durante uma hora e tive tempo de lhe dizer o papel decisivo que todos os seus filmes haviam representado na escolha da minha vida. Depois, antes de me despedir – isso não está nos meus hábitos –, pedi que me dedicasse uma fotografia. Bastante surpreso, procurou uma e autografou para mim. (…) Uma dedicatória maravilhosa. Em seguida, me despedi e voltei para o hotel. Não sei direito o que fiz com essa fotografia”.

Luis Buñuel em “Meu Último Suspiro” (Cosac Naify)

A foto: Los Angeles, 1972 (from left to right standing) Robert Mulligan, William Wyler, George Cukor, Robert Wise, Jean-Claude Carrière, Serge Silberman; sentados) Billy Wilder, George Stevens, Buñuel, Alfred Hitchcock, Rouben Mamoulian.

março 6, 2011   No Comments

Três filmes: a revolução, a família e os culpados

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“Zabriskie Point” (“Zabriskie Point”, 1970)
Segundo de uma série de três filmes em inglês dirigidos por Michelangelo Antonioni para a MGM, o problemático “Zabriskie Point” antecedeu o excelente “Blowup” (1966) e precedeu o bom (e também problemático) “O Passageiro” (1975). O cineasta italiano desejava desenhar um retrato da contracultura norte-americana dos anos 60, mas foi sabotado pelo próprio estúdio, que censurou várias cenas, prejudicando o resultado final, desfocado e distante. Para os papéis foram escalados jovens sem experiência com o cinema, o que deu certa verossimilhança ao filme, mas tirou uma das marcas do cinema de Antonioni, a profundidade. Ao tentar atacar o capitalismo, sem sucesso, “Zabriskie Point” tornou-se uma peça de museu (empoeirada e datada) em que se podem flagrar vestígios de poesia, mas que está muito aquém do grande cinema assinado pelo cineasta.

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“Minhas Mães e Meu Pai” (“The Kids Are Alright”, 2010)
Filme mais fraco da lista de 10 indicados ao Oscar de 2011, “Minhas Mães e Meu Pai” (parabéns ao tradutor brasileiro pelo título ridículo) poderia funcionar com um bom veículo para reviver a TFP, se o órgão houvesse se modernizado, claro. Afinal, aqui a tradição é abandonada (o casal é formado por duas mulheres, mães de duas crianças por inseminação artificial), mas a família é defendida a todo custo. Em “The Kids Are Alright” as mulheres são inteligentes (espirituosas, abertas), os homens são burros (e nasceram apenas para ferrar a vida das mulheres), os mexicanos drogados e as crianças patetas (o personagem mais caricato do ano se chama Clay). Lisa Cholodenko (que assina a direção e roteiro) inspirou-se em estereótipos, mas não conseguiu dar vida à história nem sentido aos seus personagens resultando em um filme patético.

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“Trabalho Interno” (“Inside Job”, 2010)
Se existe um único filme obrigatório do ano passado a ser visto imediatamente, o filme é este. “Inside Job”, ainda em cartaz em algumas salas brasileiras, vasculha a podridão de Wall Street que resultou na crise financeira mundial de 2008. Narrado por Matt Damon, “Trabalho Interno” começa de forma didática analisando a quebra de três bancos islandeses, e depois mira a câmera para grandes corporações norte-americanas, desde empresas de crédito, de capital de risco, agências de avaliação, universidades famosas (com professores de economia compactuados em não mudar a lei para não perderem dinheiro) e, claro, o governo norte-americano (começando com Reagan, piorando com Clinton e encontrando o inferno na gestão Bush), local que (ainda) abriga a maioria dos envolvidos no escândalo que ferrou a vida de milhões de pessoas (enquanto integrantes do grupo ganhavam bônus milionários de suas empresas). Cinema político de altíssima qualidade.

Leia também:
– Hitchcock, Antonioni, Allen e Almodóvar (aqui)
– “35 Doses de Rum”, “Fados” e “As Amigas” (aqui)

fevereiro 27, 2011   No Comments

Três filmes: o capitão, o lutador, a garota

Mais três filmes. O primeiro visto em DVD (relançado em 2009 em uma edição comemorativa de 30 anos), os outros dois no cinema…

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“Sem Destino” (“Easy Rider”, 1969)
Peter Biskind, no obrigatório “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock and Roll Salvou Hollywood”, diz que Dennis Hopper jogou a última pá de cal sobre o cinema dos anos de ouro de Hollywood com esta obra prima de sexo, drogas e rock and roll. “Sem Destino” não é só o filme que ensinou a América a fumar maconha, tomar LSD e cheirar cocaína. “Sem Destino”, nas palavras de Biskind, “mostrava os rebeldes, os fora da lei e, por extensão, a contracultura como um todo, como vítimas: estavam sendo exterminados por um mundo careta”. Jack Nicholson, o advogado cachaceiro, é o responsável pelo momento que explica o filme, e praticamente a história da humanidade. No final, após uma orgia psicodélica em túmulos de cemitério, Capitão América sentencia: “Nós estragamos tudo”. Estragamos. E não conseguimos consertar. O resultado é um filme absolutamente sensacional.

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“O Vencedor” (“The Fighter, 2010”)
Você já assistiu essa história antes. Jovem com problemas com drogas transforma a vida da família em um caos, mas o irmão mais novo (auxiliado por uma namorada determinada) segue em frente atrás de um sonho. O drogado se torna ex-drogado, apóia o irmão e tudo termina bem. “O Vencedor”, de David O. Russell, representa “Um Sonho Possível” na cerimônia do Oscar deste ano. Assim como Sandra Bullock saiu com seu Oscar (merecido), desta vez a Academia deverá coroar a atuação de Christian Bale, ótimo no papel (embora seja válida a questão: papéis com cacoetes são mais fáceis de interpretar e arrebatar um estatuazinha dourada? Acho que sim, e os exemplos são muitos). “O Vencedor”, assim como “Um Sonho Possível” (e “Ray”, e “Walk The Line” e tantos outros) é (mais) uma história verídica de redenção pessoal. Apesar de soar batido, tem lá seus bons momentos, e vale a meia entrada do cinema.

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Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pillgrim vs The World, 2010)
Ou o amor e a adolescência encontram o mundo dos games. A idéia é bem simples: transportar o universo de uma comédia romântica adolescente para o mundo virtual, e o diretor Edgar Wright alcança o seu objetivo. Não confunda simplicidade com falta de personalidade: um rapaz (Scott Pilgrim) se apaixona pela garota (quase) impossível (Ramona V. Flowers) e precisa enfrentar uma série de desafios para conquistar o coração de sua amada. Como se estivesse passando de fases em um game, Scott enfrenta os sete ex-namorados da moça, a sua própria ex-namorada que não quer largar do seu pé, os amigos de sua banda indie que querem assinar um contrato com uma major, e sua própria timidez. O resultado é uma deliciosa comédia romântica repleta de citações de games, algumas passagens impagáveis, cabelos cor-de-rosa e paixonites adolescentes. Nada de novo, mas é possível sonhar com Ramona Flowers durante semanas…

fevereiro 15, 2011   No Comments

Três filmes: o amor, o rei e o cisne

Uma das minhas metas pessoais para 2011 era a de ver ao menos um filme no cinema por semana. Já vi mais, mas para não acumular os pequenos textinhos, lá vão três…

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“O Amor e Outras Drogas” (“Love & Other Drugs”, 2010)
Imagine a cena: três roteiristas sentados na mesa de um bar tentando, cada um, puxar a sardinha do roteiro do filme que estão fazendo em conjunto para o seu lado. É mais ou menos isso que Edward Zwick (que também assina a direção), Charles Randolph e Marshall Herskovitz deixam transparecer com “O Amor e Outras Drogas”, um filme que no papel deveria ser bem bacana, mas que nas telas se transformou em um dardo de tiro ao alvo voando pra todo lado. Há drama (uma garota com mal de Parkinson), sensualidade (a mesma garota andando nua boa parte do filme – a propósito, Anne Hathaway), comédia (o começo divertido com Jake Gyllenhaal bastante inspirado) e pastelão. Em nenhum momento do filme, o roteiro decide pra que lado quer ir. No final deixa uma impressão de comédia romântica dramática, mas não convence.

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“O Discurso do Rei” (“The King’s Speech”, 2010)
Pra você ver como as coisas são, caro leitor: o mundo deu voltas e voltas, e o cinema independente agora posa de cinema clássico, sem arriscar, sem ousar, apenas usando a tela para contar uma história. Ok, nem tão independente assim (com a The Weinstein Company metida no meio), mas é interessante ver como Hollywood se afundou na megalomania e um filmezinho bacana de 15 milhões de dólares ameaça arrebatar várias estatuetas douradas na festa do Oscar. “O Discurso do Rei” é corretíssimo, mas esquecível. Em cinco anos ninguém vai lembrar dele (alguém lembra de “Shakespeare Apaixonado” por exemplo?). Isso não desmerece as belíssimas atuações do trio de fource (hehe) de atores (Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter), mas o cinema pode mais, bem mais do que isso. Serve como antítese e passatempo. E só.

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“Cisne Negro” (“Black Swan”, 2010)
Um dos grandes filmes do ano passado, “Cisne Negro” soa como se Darren Aronofsky tivesse recuperado a confiança com o ótimo (e extremamente básico) “O Lutador” após ter dado com os burros n’agua em “A Fonte da Vida” (que até tem fãs, mas continua sendo uma porcaria). Aronofsky volta a filmar com o tesão que mostrou nos excelentes “Pi” e “Réquiem Por um Sonho”, o que garante a mesma dose de exagero deste dois em “Cisne Negro” (“O Lutador”, por sua vez, é bem mais econômico). Os exageros (visuais e ficcionais) às vezes tiram um pouco da força da história, mas não arranham o status de grande filme de “Cisne Negro”, não só devido à ótima atuação de Natalie Portman, que é bacana e tal, mas é hiper-dimensionada pelo excelente roteiro (esse sim deveria ganhar o Oscar). O grande nome do filme não é Natalie Portman, mas sim Darren Aronofsky. Ele sabe o que faz (na maioria das vezes)… 😛

fevereiro 15, 2011   No Comments