Uma música por dia: Medo do Medo

DIA 19: “Uma música pra pensar na vida”
“Medo do Medo”, Capicua (2012)
Ouve o que te digo, vou-te contar um segredo
É muito lucrativo que o mundo tenha medo,
Medo da gripe, são mais uns medicamentos
Vem outra estirpe reforçar os dividendos
Medo da crise e do crime como já vimos no filme
Medo de ti e de mim, medo dos tempos
Medo que seja tarde, medo que seja cedo
e medo de assustar-me se me apontares o dedo
Medo de cães e de insectos, medo da multidão
Medo do chão e do teto, medo da solidão
Medo de andar de carro, medo do avião,
Medo de ficar gordo, velho e sem um tostão
Medo do olho da rua e do olhar do patrão
Medo de morrer mais cedo do que a prestação
Medo de não ser homem e de não ser jovem
Medo dos que morrem e medo do não
Medo de deus e medo da polícia,
Medo de não ir pro céu e medo da justiça
Medo do escuro, do novo e do desconhecido
Medo do caos e do povo e de ficar perdido
Sozinho, sem guito e bem longe do ninho
Medo do vinho, do grito e medo do vizinho
Medo do fumo, do fogo, da água do mar,
Medo do fundo do poço, do louco e do ar
Medo do medo, medo do medicamento,
Medo do raio, do trovão e do tormento
Medo pelos meus e medo de acidentes
Medo de judeus, negros, árabes, chineses
Medo do “eu bem te disse”, medo de dizer tolice
Medo da verdade, da cidade e do apocalipse
Medo da bancarrota e o medo do abismo
Medo de abrir a boca e do terrorismo.
Medo da doença, das agulhas e dos hospitais,
Medo de abusar, de ser chato e de pedir demais,
De não sermos normais, de sermos poucos
Medo dos roubos dos outros e de sermos loucos
Medo da rotina e da responsabilidade
Medo de ficar para tia e medo da idade
Com isto compro mais cremes e ponho um alarme
Com isto passo mais cheques e adormeço tarde
Se não tomar a pastilha, se não ligar à família,
Se não tiver um gorila à porta de vigília
Compro uma arma, agarro a mala, fecho o condomínio
Olho por cima do ombro, defendo o meu domínio
Protejo a propriedade que é privada e invade-me
a vontade de por grade à volta da realidade
Do país e da cidade, do meu corpo e identidade,
Da casa e da sociedade, família e cara-metade…
Eu tenho tanto medo…
Nós temos tanto medo…
O medo paga a farmácia, aceita a vigilância
O medo paga à máfia pela segurança
O medo teme de tudo por isso paga o seguro
Por isso constrói o muro e mantém a distância
Eles têm medo de que não tenhamos medo.
abril 28, 2026 No Comments

