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Entrevista para o Portal Imprensa

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Bati um papo por telefone com a Jéssica Oliveira, do Portal Imprensa, sobre o cenário de shows no Brasil: “O Brasil tem 30 anos como rota de shows. Não é novidade”. Leia abaixo:

A agenda dos brasileiros fanáticos por um bom show anda disputada. Todos os meses, com poucas exceções, o país recebe algum artista estrangeiro ou grande festival com vários de uma vez só. Mas isso está longe de ser uma realidade “nova”. “Somos rota de shows, sim. Mas desde os anos 80”, diz Marcelo Costa, curador do Sonora, realizado pelo Terra e editor do site Scream & Yell.

Costa passou em jornalismo e publicidade, mas se formou no segundo, porque o jornalismo só tinha “noturno” na Universidade de Taubaté (Unitau). Chegou em São Paulo e entrou no iG quando o portal montava sua primeira equipe. Na capital, passou pelo Notícias Populares, e mais de uma vez pelo UOL, iG e Terra, onde está hoje. Nessas mudanças, já trabalhou com cidades, esportes e celebridades, mas a música sempre esteve com ele.

O jornalista já colaborou com revistas como a Billboard e com a GQ, e atualmente colabora com a Rolling Stone, além de editar o Scream & Yell há 12 anos. Apesar da paixão pela música, alerta em tom de brincadeira. “Se ama musica, não escreva sobre”, diz. Segundo ele, a relação com discos e shows muda completamente. “Você não pode mais só gostar, mas tem que entender o que aquilo representa e perceber que já não é mais um ouvinte comum”, explica.

Costa entende de música como poucos. Em sua casa, parte da parede da sala é ocupada por nada mais nada menos que cerca de oito mil CDs, 800 vinis, fora os cassetes doados. Passa a maior parte de seu tempo ouvindo músicas e escrevendo sobre – sua forma de entender o mundo. À IMPRENSA, ele comenta os desafios e condições do atual mercado de shows no país, as mudanças e características do público, e a cobertura da imprensa.
IMPRENSA – É certo falar que o Brasil virou rota obrigatória de shows? Por quê?
Marcelo Costa – Somos, sim, rota de shows. Isso acontece desde os anos 80, não é novidade. Não é um ‘ah, descobriram o Brasil.’ A novidade é o país estar com uma economia segura, em um momento que o mundo passa por uma crise séria. A Alanis Morrisette, por exemplo, fará oito shows no Brasil, mas saindo do eixo Rio-São Paulo, acreditando que em outros lugares também terá um bom público. No começo dos anos 80 ainda tivemos alguns probleminhas de sumir equipamentos de artistas, e não era tanto pelo valor em dinheiro, mas mais por ser uma coisa muito pessoal. Hoje em dia não existe isso. São 30 anos de mercado. Estamos prontos.

IMPRENSA – Mas e os desafios, como os preços altos do nosso mercado?
Os preços ainda são ditados por quem está dentro dele [mercado], e é um problema que precisa ser acertado. O mercado está ativo, as pessoas estão querendo ver shows, mas não conseguimos ver tudo, o que por um lado é positivo. Antes você tinha um show e todo mundo tinha que ir nesse. Hoje, não. Você tem muitos shows. O que se desenha para o futuro é uma competição grande. A tendência é que os ingressos barateiem e todas as casas tenham um público bacana, mas não lotem. A opção de escolher, dispersa o público. Mas temos público para tudo. Precisamos chegar nesse consenso. Mas ainda somos conhecidos como um mercado que paga muito alto.

IMPRENSA – O publicou mudou muito? Por exemplo, hoje quem vai a um show de rock, vai em shows de outros estilos. E sobre quem vai ao show, mas assiste pela telinha de celulares ou câmeras porque quer registrar tudo o tempo todo?
Acredito que seja uma mudança comportamental, mais do que do próprio conceito de shows. Fomos caminhando em nível mundial para uma pluralidade, é normal que uma pessoa vá em shows diferentes. Talvez até a MTV tenha contribuído com isso também. E acho que as ferramentas foram mudando. Sou de uma geração anterior. O que me incomoda mais são as pessoas falando no meio do show. Antigamente quando você tinha um ou dois shows e todo mundo ia lá, eventualmente tinha músicas que o cara não conhecia e ele ficava conversando durante essas, mas quando sabia, prestava atenção e tal. Ainda carecemos de uma cultura de respeitar o artista, e respeitar o momento que se está vivendo. Além disso, outro ponto é dissociar o show de balada. Até acho muito legal, mas tem show e show. Tem show que funciona muito em balada. Tem show que não.

IMPRENSA – Se o país vai receber cada vez mais shows e se tem público para isso, por que muitos lugares que recebem esses eventos ainda pecam na estrutura?
A gente não soube trabalhar com isso de shows em locais abertos ainda, um exemplo que deu certo foi o Lollapalooza [Jockey Club, abril-2012], mas foi estrutura de fora, um modelo de fora. No Anhembi, você muitas vezes não ouve o show. E o público acaba aceitando. Isso é um problema sério. O contratante, geralmente, é quem aprova o lugar e quer saber se o público vai ouvir tudo. Alguns artistas realmente se preocupam com isso, outros não.

IMPRENSA – Por que o público aceita pagar caro nessa situação? O que podem fazer?
Uma das formas que o consumidor tem de pressionar a mudar isso, é não ir aos shows. Mas isso é difícil, porque se você ama o artista, é a chance que tem de vê-lo. Aí acaba aceitando e começa a torcer muito para dar tudo certo. Também tem os meios para se cobrar posteriormente, como no show do Radiohead que teve vários problemas e muita gente foi ao Procon reclamar. Infelizmente, empresários só sentem quando dói no bolso. Mas não é só em relação a estrutura do show em si. Falta um pouco também da prefeitura se preocupar com o público. Não dá para fazer um evento como o Lollapalooza e fechar as catracas do metrô como fizeram. Por exemplo, no Hyde park, em Londres, quando acaba o show, as pessoas vão até o metrô e conseguem chegar em casa. A prefeitura local se preocupa em garantir a segurança do seu pessoal. Aqui a gente não tem essa preocupação. Falta no Brasil um estudo de estrutura. Por exemplo: tenho isso aqui, o show será para tantas mil pessoas, que precisam tanto de alimentação, transporte… Claro que não da para resolver tudo, em nenhum lugar do mundo. Como a gente vai melhorar tudo isso? Com mais shows. Entendendo como as coisas funcionam.

IMPRENSA – Com tantas bandas vindas de fora, como fica o mercado para nossos artistas? Em relação ao espaço e valorização do público.
Há mercado para todos. Claro que isso reflete no mercado independente. Mas o pessoal tem que aprender a mudar isso de alguma forma, não dá para ficar olhando tudo e reclamando. É até bom, porque acabam tomando contato com uma cultura de festivais, e percebem que são capazes de fazer a mesma coisa, além de ver que todos tem os mesmo problemas e desafios. O palco é o mesmo. Sobre o público, acho que ainda há um problema de não valorizar a cultura brasileira. Nos line-ups de festivais, por exemplo, muitos artistas brasileiros poderiam estar em horários melhores, e tinham todo para isso. O cara que vai comprar o ingresso vai ver o show, desde que você consiga arrumar o cardápio sem ser de uma forma agressiva, todo mundo vai curtir. Você não faz um festival para fãs de uma banda, mas para um público que vai receber talvez 20 bandas diferentes.

IMPRENSA – Como você avalia a cobertura da imprensa sobre o assunto? Falta mais profundidade? Diversidade?
Temos a Rolling Stone e a Billboard, que não são de grande tiragem (se comparadas com a Veja e /ou Playboy), mas cumprem seu papel muito bem. Mas ainda não temos um jornalismo cultural aprofundado ou cobertura aprofundada. Há o costume de replicar o que sai ‘na gringa’. Ao mesmo tempo, você tem grandes blogueiros que acompanham seus cenários e cobrem bem. Temos que ver que nossa cena do mercado independente, e não falo só de rock, mas de samba e outros, é muito melhor que a cena americana ou inglesa. Talvez esteja na hora da imprensa valorizar a cena nacional e começar a vender isso. E não só, muitas notícias sobre músicos são repercussão de bobagens. Cada um tem seu público, claro, mas às vezes o jornalista fica tentado com o clique, com a audiência, e esquece de fazer jornalismo. Mas de modo geral acho que a gente ainda tem uma boa imprensa, critica e independente. Estamos bem de crítica, mas precisa renovar um pouco até para não afastar a molecada. E o público precisa entender também que cada pessoa [jornalista] vai ter uma visão diferente. É um mal do leitor, sério e cultural até de achar que só porque está na no jornal ou na TV, virou verdade. Não é verdade, é uma pessoa comum que escreveu aquilo. Ela tem esse direito, de gostar ou não, e de falar se gostou ou não e argumentar sobre isso. O brasileiro não tem o costume de discutir.

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