Dylan com Café, dia 17: Basement

Bob Dylan com café, dia 17: seis meses após colocar “Blood On The Tracks” nas lojas, um novo lançamento de Bob Dylan chegava ao mercado. Para combater a pirataria, que estava fazendo festa com as músicas das sessões que Dylan havia gravado com a The Band no porão da Big Pink em 1967, foi lançado o álbum duplo “The Basement Tapes” em julho de 1975. Rick Danko alugou a Big Pink para a The Band em West Saugerties, Nova York, após o cancelamento da turnê de Dylan devido ao acidente de moto de 1966. Bob vivia em Woodstock, a cerca de 15 minutos da Big Pink, e durante cinco meses (de julho a outubro de 1967) visitou os amigos da The Band para tocar no porão da casa tanto standarts (como “You Win Again”, de Hank Williams; “Tupelo”, de John Lee Hooker e “Folsom Prison Blues”, de Johnny Cash) quanto músicas inéditas de Dylan que seriam destinadas por empresários a outros artistas.

De maneira inexplicável, na hora de fechar o set do álbum em 1975 foram acrescidas 8 canções da The Band entre as 24 do disco, quatro delas nem gravadas na Big Pink (as outras quatro sairam de sessões posteriores a passagem de Dylan pelo local). Na época, quem tinha o bootleg reclamou que os overdubs de estúdio e a limpeza do som da fita original matou o clima rústico do porão, e os piratas continuaram fazendo sucesso. Em 2014, finalmente, Dylan liberou as sessões completas dentro de suas Bootleg Series (número 11) numa edição de luxo com 6 CDs e 115 músicas (das 8 da The Band “forçadas” no lançamento de 1975 apenas 2 aparecem aqui)! Detalhe: na capa (uma foto que não foi feita no porão da Big Pink, mas sim da YMCA em L.A.) ao lado de vários personagens do disco (Mrs Henry, o Esquimó, o engolidor de fogo, entre outros), estão a The Band e Neil Young (também interpretando personagens do álbum).

março 8, 2018 Encha o copo
Dylan com Café, dia 16: Blood

Bob Dylan com café, dia 16: os fãs de Dylan se dividem em 1) os do Trovador politizado dos primeiros discos 2) os do rock n’ roller da trilogia Bringing / Highway / Blonde 3) os de “Blood on The Tracks” – sendo que os do segundo e terceiro grupo podem ser a mesma pessoa, dependendo do dia em que ela acorda. Integro o terceiro e quando o Gabriel, ao escrever a discografia comentada do Bob para o Scream & Yell (https://goo.gl/z7ZXqR), distribuiu notas 10 para os discos dos dois primeiros grupos e deu 11 para este, senti-me representado. Bob Dylan não entende o culto: “Muitas pessoas me dizem que gostam desse álbum e é difícil para mim me relacionar com isso. Como vocês podem gostar desse tipo de dor?”. Lançado em janeiro de 1975, “Blood On The Tracks” flagra a deteriorização de um casamento. Quando acompanhou Bob em uma das sessões, o garotinho Jakob Dylan sentiu que o álbum era “meus pais conversando”.
Dividido em sessões suaves em Nova York e intensas em Minneapolis (as do segundo permeiam o álbum), “Blood On The Tracks” tem como companheiro o bootleg “Blood On The Tapes”, que traz a integra das sessões novaiorquinas num comparativo que amplifica “Tangled Up In Blue”, “Idiot Wind”, “You’re a Big Girl Now” e “If You See Her, Say Hello” (que Renato Russo regravaria tristemente em “Stonewall”). Registrada em um único take em Nova York, “Simple Twist of Fate” (que ganharia uma versão reverente de Jeff Tweedy com letra modificada retirada de uma versão ao vivo de Dylan) talvez seja a canção que mais simbolize essa nova fase de Dylan, em que ele tem o poder de construir um filme profundo com começo, meio e fim em apenas 4 minutos (Wong Kar-Wai fez “2046” e Richard Linklater fez “Before Sunrise”, obras gêmeas dessa canção). Sobre “Tangled Up In Blue”, um critico escreveu: “é como um Proust de cinco minutos e meio”. No Scream & Yell, Gabriel descreveu: “Tudo o que o ser-humano pode aprender sobre amor está em ‘Blood On The Tracks’. Não tenha pudor em se intrometer na intimidade do casal. John e Yoko queriam mudar o mundo. Bob e Sara parecem mais como eu e você: só queriam dar certo juntos. O resultado é o álbum de Bob Dylan que deve ser colocado na arca de Noé quando o dilúvio chegar novamente”. ![]()
março 7, 2018 Encha o copo
Dylan com Café, dia 15: Before

Bob Dylan com café, dia 15: após o fim da turnê mundial (EUA, Europa e Oceania) de 1966, em que alternava um set acústico e era xingado de Judas e vaiado todas as noites (com direito a boatos de ameaças de morte) no set elétrico (acompanhado pelos Hawks, futuros The Band), Bob Dylan se acidentou e ficou 8 anos sem fazer turnês. A discografia de Dylan nesse período é uma bagunça que traduz o caos e as dúvidas que o homem vivia. Exemplo: Dylan saiu em turnê em 1974 (a primeira em 8 anos) sem ter um disco novo para divulgar, pois a trupe colocou o pé na estrada dia 03/01 e “Planet Waves” foi lançado no dia 17/01, eles já tinham feito 12 shows e já tocavam algumas músicas do disco ao vivo, mas nenhuma delas – nem “Forever Young” – acabou em “Before The Flood”, o registro da tour que sairia em julho de 1974. Ainda assim, a turnê foi um imenso sucesso! Com ingressos vendidos por encomenda via Correios (!), o promotor Bill Graham diz que recebeu 12 milhões de pedidos de ingressos para os 500 mil que tinha disponível para as 40 datas.

“Before The Flood” foi lançado em vinil duplo: no lado A, Dylan & The Band; no lado B, The Band; no lado C, Dylan acústico; no lado D, Dylan & The Band novamente. A apresentação é vigorosa, com um Dylan raivoso mastigando as letras e as devolvendo com fúria ao público. Começa aqui o vicio de Bob em alterar drasticamente os arranjos da canções, ao ponto de algumas se transformarem em novas canções. “Lay Lady Lay” cresce um absurdo. A sutileza de estúdio de números como “Rainy Day Women”, “Knockin’ On Heavens Door” e “It Ain’t Me Babe” é trocada pela garra do palco, mas “Ballad of a Thin Man”, ao contrário, soa mais… hilária, festiva. O final rock nos faz ter vontade de sermos transportados para janeiro de 1974: “The Weight”, com a The Band, que recebe Dylan para versões intensas de “All Along The Watchtower” (“Gostei tanto da versão de Jimi Hendrix que desde a sua morte venho tocando-a assim”, explica Dylan), “Highway 61 Revisited”, “Like a Rolling Stone” e uma poderosa versão banda de “Blowin’ In The Wind”. Um show, uma turnê, um disco que traz Dylan fazendo as pazes com a estrada… com raiva, fúria e intensidade.
março 6, 2018 Encha o copo
Balanço: Oscar 2018

Ainda que tenha sido uma das cerimonias do Oscar mais sem surpresas dos últimos anos, a 90ª entrega de prêmios da Academia honrou um ano muito bom de obras nota 8. Não, isso não é ruim. É lógico que é muito interessante você ter um filme clássico que vá entrar para a história do cinema em meio a produção anual, e se 2018 não viu nenhum concorrente no nível de um “Manchester By The Sea“, um “O Lagosta“, um “Ida“, um “Birdman“, um “Divertida Mente’ ou um “Amour“, é bom lembrar que anos em “Sangue Negro” perde a estatueta para “Onde os Fracos Não Tem Vez” são raros – e devem ser cada vez mais raros ainda.

O Oscar 90’ consagrou “A Forma da Água” em meio a uma distribuição de renda: outras 15 produções levaram a estatueta dourada! A obra de Guillermo Del Toro levou quatro Oscars, incluindo a dobradinha Melhor Diretor / Melhor Filme, e tem mérito de ser um filme Oscar: uma fábula romântica que faz sonhar. Meu preferido, “Trama Fantasma”, de Paul Thomas Anderson, é quase que um filme anti-Oscar. Ao lidar com a psicose de um relacionamento, PTA fez um filme belíssimo, meticuloso e delicado, mas também difícil e que, difícil para um grande público acostumado com roteiros manjados, se resolve claramente nos três minutos finais.

Se premiação não trouxe nenhuma novidade, Frances McDormand levou por “Três Anúncios Para um Crime” e ainda saiu do evento com o mais contundente discurso da noite. Eu torcia para Margot Robbie por “I, Tonya” como Melhor Atriz e ainda tentava engolir a não indicação de Brooklynn Prince, a garotinha surpresa de “Projeto Flórida”, um dos belos filmes esquecidos do Oscar 2018, que deveria ter ocupado o lugar de Meryl Streep, no piloto automático de Spilberg, “The Post”. Mas Frances deu um show. De arrepiar e derrubar lágrimas. Aplaudido de pé, o favoritismo de Gary Oldman (por “O Destino de Uma Nação“) não dá ideia do quão equilibrada foi a categoria de Melhor Ator em 2018. Vá atrás do que você não viu! Sam Rockwell e Allison Janney também era barbada.

Em Melhor Roteiro, uma das categorias mais bacanas de toda a premiação, “Me Chame Pelo Seu Nome” levou o de adaptado (vejam “Mudbound”, vejam!) e o discutidíssimo “Corra!” saiu merecidamente com o de original. O verniz de cinema B e terror que Jordan Peele tascou em “Corra!” para falar de racismo merece aplausos de pé. Entre as surpresas, o triste “A Mulher Fantástica”, do Chile, foi uma das agradáveis derrotando tanto o meu favorito, “O Insulto”, do Líbano, quanto o favorito das bolsas de aposta, “The Square”, da Suécia. Os prêmios para “Blade Runner 2049” também entram no quesito surpresa agradável e foram merecidos.

Surpresa negativa é o fator político de “Icarus” ter possivelmente pesado em sua vitória, já que ele é um dos mais fracos documentários de uma seleção que traz poesia (“Visages, Villages”), denúncia (“Strong Island”) e guerra (“Os Últimos Homens de Aleppo”). A Pixar levou mais dois Oscars pra estante, merecidamente, com “Coco” (no Brasil, “Viva – A Vida é Uma Festa”) arrebatando duas estatuetas (Melhor Animação e Melhor Canção). Meu favorito, “Trama Fantasma”, perdeu trilha sonora (Jonny Greenwold, tem outros prêmios por ai) para “A Forma da Água” e “Dunkirk” acabou sendo a co-estrela nos quesitos técnicos arrebatando três Oscars.

Por fim, a cantora St. Vincent por muito pouco não faturou o “Oscar Björk” de vestido mais inusitado da premiação. Ela era favorita, mas foi desbancada pela atriz Haley Bennett, que surgiu num vestido com grama sintética, que combina perfeitamente com o vestido ganso da Björk. Esse Oscar é dela. A lista completa com todos os vencedores (e resenhas para todos os filmes) você vê no Scream & Yell. Abaixo segue a lista final de mais premiados e o meu Top 10 pessoal de todos os longas do Oscar 2018. Ano que vem tem mais Oscar!

TOP TEN OSCARS 2018 MARCELO COSTA
1) Trama Fantasma
2) Projeto Flórida
3) Visages, Vilages
4) O Insulto
5) Eu, Tonya
6) De Corpo e Alma
7) Roman J. Israel, Esq
8 ) Strong Island
9) Coco
10) Blade Runner 2049

março 5, 2018 Encha o copo
Dylan com Café, dia 14: Planet Waves

Bob Dylan com café, dia 14: após um período de incertezas e altos e baixos que marcou o final dos anos 60 e começo dos 70, Bob Dylan se junta a agora denominada The Band (os Hawks, a banda que o acompanhou na complicada turnê de 1966 e nas Basement Tapes, e com quem Dylan não tocava desde o Festival da Ilha de Wight, quatro anos antes) e começa uma nova fase de maneira inspirada. A ideia inicial era voltar à estrada para uma grande turnê, a primeira de Dylan em oito anos. “Estávamos ensaiando para essa turnê e as coisas estavam muito agitadas. Entramos no estúdio e gravamos o álbum. Já havíamos tocado juntos por tanto tempo que não acho que tenha ocorrido a nenhum de nós que era a primeira vez que gravamos um álbum como Bob Dylan & The Band”, ele conta. Bob estava trocando Woodstock por Malibu, e esse ar de mudança também permeia “Planet Waves”, o grande disco que ele lançou em janeiro de 1974.
Dylan exorciza fantasmas da juventude em “Something There Is About You” e tenta compor uma canção pensando em um dos seus filhos “sem querer soar sentimental demais”. O resultado: “Forever Young”. Bob conta mais: “Os versos vieram a mim e verteram-se num minuto. Não pretendia escrevê-la – eu estava em busca de outra coisa, a canção escreveu a si mesma”. Interessante pensar que “Forever Young” nasceu em Tucson, a mesma cidade em que Bob sentirá a presença de Jesus em um quarto de hotel alguns anos depois – fato que o levará a se converter ao cristianismo evangélico. Para Allen Ginsberg, “Forever Young” deveria ser cantada por todas as crianças, todas as manhãs, na escola. Roddy Woomble, do Idlewild, diz a mesma coisa, mas de forma direta: “É o Hino Nacional de Dylan”. O Pretenders gravou uma bela versão e a tocou nos shows recentes no Brasil. A versão de Pete Seeger (acima) é de chorar. Clássico.
março 5, 2018 Encha o copo
Novidades da Resistência Cervejeira

Desde novembro de 2015, as marcas Gauden, DUM, Pagan, Tormenta e F#%&ing Bier juntaram a sua distribuição sob o nome de Resistência Cervejeira de Curitiba visando diminuir o preço das cervejas e atender a um pedido antigo de lojistas: comprar direto da fábrica. Para apresentar alguns dos novos lançamentos da Resistência Cervejeira em São Paulo, Luiz Felipe, da DUM, reuniu a imprensa para degustar: DUM Powstanie Warsawskie, DUM Petroleum Chipotle, DUM Baltik Porter, Tormente Gengibéra, F#%&ing Bier Bro, Pagan Valkyrie´s Bless Berries e Pagan Warriors of Scotland.

“No começo foi penoso, pois tínhamos que aprender muitas coisas (e ainda estamos aprendendo) mas as vendas começaram a acontecer”, conta Luiz Felipe, da DUM. “No início, o Murilo (também DUM) encabeçou o projeto tirando os pedidos, separando e entregando (ou pedindo coleta para as transportadoras). Também tem toda a parte de cobrança, formação de preços e contato com os clientes que ainda estamos desenvolvendo. Fora os fechamentos que não são nada fáceis de fazer com um preço para cada estado, mas aos poucos a coisa vai dando certo”, explica.

Realizada no aconchegante Frank & Charles, na porta da FAAP, a degustação foi iniciada com a Tormenta Gengibéra, uma cerveja com base 100% Pale Ale, lúpulos Cacade e Nugget e adição de gengibre na fervura. Uma cerveja bem leve e refrescante, com o gengibre bem suave, mas presente. Bem gostosa.

Lançada no Dum Day 2017, esta é a Dum Warszawskie Powstanie Rye Lager, ou Levante de Varsóvia, colab com a Smedgard, de Belo Horizonte. É uma cerveja inspirada nas lagers do leste europeu que leva centeio e os lúpulos poloneses Lunga e Vermelho, que tem esse nome porque o aroma remete a frutas vermelha. Uma Wheat interessante.

Uma agradável surpresa da degustação, a F#%*ing Brou Beer é uma American Brown Ale com lúpulos Citra, Centenial e Cascade, um cafezinho delicioso com toques cítricos, 5% de álcool e 20 IBUs. Delicinha.

Admiro bastante as receitas do Tiago, que ele lança com a marca Pagan. Essa é a Pagan Valkyrie’s Bless Berries, uma English IPA com frutas vermelhas (ou seja, uma Fruit Beer) que honra suas grandes receitas.

Já a Pagan Warriors of Scotland é uma Scotch Ale com (incrível) malte turfado e chips de carvalho francês na maturação, uma cerveja saborosa e levemente alcoólica com 9.2% muito bem escondidos.

A Dum Baltik Atlantico Porter é uma Baltic Porter com cumaru (cacau da Amazônia que vem sendo bastante utilizando em receitas cervejeiras) e impressionantes 9% de álcool que não aparecem nem no aroma, nem no paladar. O cumaru também está bem comportado em relação a outras no mercado. Criada em julho de 2017 pelas cervejarias DUM e Pinta também com lúpulos poloneses. Excelente.

Grande estrela do passeio, a Dum Petroleum é um clássico cervejeiro artesanal brasileiro que já ganhou até documentário e que surge aqui numa versão com muuuuuuito Chipotle. Sensacional. “Além da ardência pronunciada da pimenta ela traz um defumado que cria mais uma camada de sabor na complexidade dessa cerveja que é ícone da cerveja artesanal brasileira”, comenta Luiz Felipe.
No Facebook da Resistência Cervejeira de Curitiba, há informações de vendas: “Você pode comprar tanto na pessoa física como na jurídica em todo o Brasil. Estamos vendendo caixas abertas, ou seja, você pode fazer uma caixa personalizada com as cervejas da DUM, Tormenta, F#%*ing Beer, Pagan e Gauden que enviaremos para você. Uma outra novidade é a loja física na Gauden, que fica em Santa Felicidade, então se quiser comprar cerveja direto da gente é só aparecer na Avenida Manoel Ribas, 6995, nos fundos da Petiscaria do Victor. A loja funciona de segunda à sexta das 9 à 18 e nos sábados das 9 às 14”, em Curitiba.

março 5, 2018 Encha o copo
Dylan com Café, dia 13: Dylan

Bob Dylan com café, dia 13: eis o pior disco de Dylan, e o próprio foi o primeiro a admitir isso pedindo, em contrato, para que a gravadora Columbia o retirasse de catálogo, o que a gravadora atendeu (assim que ele retornou ao selo logo depois), mas quando do lançamento da discografia completa num box em 2013, este “Dylan”, de 1973, foi enfim remixado e incluso na coleção. Na realidade, “Dylan” não é álbum pensado por Bob, mas sim uma tipica sacanagem de gravadora. Bob estava deixando a Columbia para ir para a Asylum Records e preparava a sua primeira grande turnê em oito anos. Sentindo-se traída, a Columbia pegou um monte de outtakes que tinha das sessões de “Self Portrait” (o original já havia sido detonado por sua qualidade questionável, imagina as sobras dele) e “New Morning” e reuniu neste álbum que não teve supervisão de Dylan e recebeu críticas como essa da Rolling Stone: “A única garantia de ouvir esse disco são as gargalhadas”. Ou essa de Brian Hinton: “A canção ‘Big Yellow Taxi’, de Joni Mitchell, ganhou uma interpretação sem emoção com clima marcado por um órgão tosco, nada ‘Like a Rolling Stone’ – e se for Al Kooper ele deve ter vergonha. Joni Mitchell teria mandado atirar nas backing vocals por muito menos que isso”. Um disco arqueológico que se vale mais pelo desastre do que pela curiosidade.
março 4, 2018 Encha o copo
Dylan com Café, dia 12: Pat Garrett

Bob Dylan com café, dia 12: a primeira trilha sonora assinada por Dylan e lançada em julho de 1973 (o Oscar só viria quase 30 anos depois, em 2002), “Pat Garrett and Billy The Kid – Soundtrack” surgiu ao acaso. “Eu não ia fazer nada”, conta Dylan. “(O roteirista) Rudy (Wurlitzer) me mandou o roteiro, que eu li e gostei. Nos encontramos e ele disse que precisava de uma música-tema”, que Bob achou ambicioso demais, uma canção apenas que sustentasse um filme inteiro. Mas foi e fez (metade por vontade, metade para irritar o arranjador de Sam Peckinpah, que ele achava um mala). Delicada, o exercício de compor a trilha abriu um caminho interessante para Bob nos anos 70.
A música que nasceu exibe uma melancolia caipira e perdida num tempo esquecido. Booker T acompanha Dylan no baixo na maioria das faixas enquanto Roger McGuinn se alterna entre banjo e violão e Bob entre o violão de nylon de 6 e 12 cordas. O grande baterista Jim Keltner marca presença em três faixas, incluindo o lamento que Bob escreveu para a cena em que o xerife agoniza nos braços da esposa, e que se tornaria um grande sucesso nos anos 70 numa versão de Eric Clapton e repaginada nos anos 80 numa versão do Guns N’ Roses: “Knockin’ On Heavens Door”. Há dois bootlegs famosos que trazem as sessões completas (no México e em Burbank): “Peco’s Blues” e “Lucky Luke”.
março 3, 2018 Encha o copo
Cerveja + Comida: Cão Véio Tatuapé e GET

Na próxima segunda-feira (05/03), a turma da GET Cervejas Especiais se junta ao pessoal da novíssima unidade do Cão Véio Tatuapé para a quarta experiência do Cura Para a Segunda do Cão, uma série de jantares harmonizados com cervejas. Alguns dias atrás tive o prazer de prova-los e o resultado agradou bastante.
Os quatro pratos foram desenvolvidos pelo gastropub do Chef Henrique Fogaça e surgem devidamente escoltados com as cervejas inglesas da Adnams, marca exclusiva no Brasil da importadora GET. A elaboração da harmonização e apresentação do evento ficou sob responsabilidade do sommelier Riccelli Adriel.
A primeira edição ocorreu originalmente na matriz em Pinheiros em 2016. Contando já com três edições de bastante sucesso, a casa e a distribuidora acharam o momento ideal para repetir a dose e poder apresentar ao público as novas unidades recém abertas do Cão Véio, “expandindo a cultura cervejeira e a boa gastronomia sem frescura”, conforme assinatura da casa. Abaixo as harmonizações que provei:

Abrindo o cardápio, a Adnams Dry Hopped (Galaxy) Lager surgiu harmonizada com a Doberman, uma salada com folhas variadas, queijo tipo gruyère, manga, tomate pêra, castanha de cajú, manjericão, dill e hortelã finalizada com molho oriental. Esse é o primeiro prato é uma entrada, uma “saladinha” que combina muito bem essa interpretação britânica de uma (australian) lager lupulada norte-americana. Belo começo!

Para o segundo prato, um salto. A harmonização segue com a Adnams Crystal Rye IPA mais o Bulldog Inglês do Cão Véio Tauapé, um sanduíche com hambúrguer de kobe bovino, bacon, queijo cheddar, cebola roxa caramelizada e pepino em conserva, servido no pão australiano. Absolutamente perfeito!

O terceiro prato combina a Adnams Blackshore Stout (escrevi sobre ela aqui) com o Mastim, sanduíche de cupim assado lentamente, finalizado na manteiga de garrafa com vinagrete de agrião, cebola roxa e tomate servido no pão caseiro. O molho é o De Cabron Chipotle Maracujá, de Henrique Fogaça. A harmonização é uma surpresa incrível valorizando o cupim, a manteiga de garrafa, o achocolatado e o café. Meu favorito de todo o passeio.

Fechando, uma sobremesa. O quarto e último prato reúne a Adnams Broadside (escrevi sobre ela aqui) com o Vagabundo, uma rabanada de brioche no pão australiano, creme inglês com Jack Daniel’s e, nesta versão especial para a Cura Para a Segunda do Cão, compota de banana. Uísque, cerveja, banana, creme inglês e amor.
SERVIÇO (LIMITADO Á APENAS 40 LUGARES)
CURA PRA SEGUNDA DO CÃO – CÃO VEIO TATUAPÉ
DIA: SEGUNDA – 05/03 – 20h
INGRESSOS: R$135,00 + SERVIÇO
Rua Itapura, 1534 – Vila Gomes Cardim, São Paulo – SP
Reservas: Venda de ingressos no local ou pelo fone (11) 2373-3310
março 3, 2018 Encha o copo
Dylan com Café, dia 11: New Morning

Bob Dylan com café, dia 11: Em questão de 8 anos, Bob Dylan foi de promessa folk (1962) a cantor de protesto símbolo de toda uma geração (1963 / 1964) a Judas que traiu todos compondo três dos melhores e mais influentes discos pop dos anos 60 (1965 / 1966). Após uma polêmica e caótica turnê europeia retratada magistralmente no filme “Don’t Look Back” (1967) e um acidente de moto até hoje nublado, Dylan sumiu da mídia e mudou-se para Woodstock. Quatro meses depois de auto-sabotar a carreira com “Self Portrait” (um disco duplo de 24 músicas de junho de 70 que Dylan definiu como um “álbum para fazer com que as pessoas deixassem de comprar meus discos”), Bob Dylan retorna com “New Morning” (outubro de 70), um bom álbum que louva a vida em família. Casado com Sara desde 65 e já com quatro filhos (Jakob, o quarto, nasceu em 69), Bob Dylan se entrega aos prazeres da vida caseira (ou ao menos tenta) num álbum luminoso que, sim, remete a uma manhã do sol. O problema é que o dia (e a vida) segue(m) e virão tempestades, dias nublados e noites terrivelmente escuras. É deste disco “If Not For You”, que George Harrison gravou em “All Things Must Pass”. Duas músicas ganharam versões em cerveja da italiana Del Ducato, “Winterlude” (uma Belgian Tripel incrível) e “New Morning” (uma Saison arrebatadora com gengibre, pimenta verde, coentro e camomila).
março 2, 2018 Encha o copo

