por Mac
Sábado, um rapaz desce a Rua Augusta absorto em sua audição de MP3 quando percebe que, alguns metros a frente, um casal de meninas vive uma cena de amor. A primeira coisa que lhe vem a cabeça é o comentário – machista, diga-se de passagem – de um velho amigo, que diz que (quase) sempre é possível perceber quem faz o papel de homem em uma relação lésbica. Segundo ele, uma das meninas sempre é menino.
Por mais complicada e pouco analítica que seja essa opinião sou obrigado a concordar que, neste caso, ele estava certo. “Ela ele” era de média estatura, camiseta sem mangas mostrando os braços malhados, cabelo curto e pose de bad boy. “Ela ela”, por sua vez, tinha pose angelical: magrinha, cabelos loiros escorridos, voz fina. As duas caminhavam em direção ao centro em uma discussão que chamava a atenção dos transeuntes.
Em um certo momento, a loirinha de rosto angelical parou – enquanto a morena de cabelo curto continuou caminhando – e sacou de sua bolsinha um molho de chaves. Correu para alcançar sua pretensa metade e chacoalhou o molho em frente ao rosto “dele”. O resultado, cinematográfico, você pode imaginar: a menina com pose de bad boy desferiu um bofete sem dó no rosto da loirinha, que abaixou a cabeça delicadamente (não deve ter doído) e, orgulho ferido, começou a caminhar apressadamente com o rosto entre as mãos.
A cena que se segue já aconteceu com milhares e milhares e milhares de pessoas: “Ela ele” fica imóvel. O tempo pára, enquanto “ele” percebe que cometeu um ato imperdoável (não que todo mundo já tenha desferido um tapa na pessoa que ama, mas todo mundo já fez/falou algo que, assim que aconteceu, percebeu que errou), passa a mão no rosto e faz a única coisa que lhe resta: correr atrás de seu amor ferido.
A morena alcança a loirinha no meio da subida da Rua Costa – uma travessa da Augusta – mas a loirinha não quer saber de reconciliação. Se desvencilha e desce a Augusta a mais de 30 Km por hora fugindo do olhar recriminador de várias pessoas e de um cachorrinho branco, que late, mas não é ouvido. A morena a persegue na mesma toada falando – com voz grossa: “Me perdoa… você também não ajuda”…
Antes de subir a Rua Costa em direção a sua casa, o rapaz que ouve MP3 observa, ao longe na Rua Augusta, as duas meninas enfim abraçadas em frente a um bordel de terceira categoria. “A noite de amor vai ser quente”, imagina, enquanto volta a ouvir o novo álbum do Radiohead…
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Corte para o domingo. O rapaz está em pé em frente à porta de desembarque do ônibus, quando percebe que um outro rapaz está tentando, inutilmente, concluir uma ligação no celular. Lá pelas tantas, ele consegue a linha:
– Alô??? Onde você está? Na padaria? A ligação está péssima…. Ahhh, caiu…
Ele insiste no mesmo momento:
– Oi. A ligação estava ruim. Onde você está? No elevador? Você não disse que estava na padaria, bicha? Porque você mente pra mim? É isso mesmo! Você mente pra mim. Quando eu chegar em casa, você vai ver, viu. E trate de me esperar. Eu te odeio!!! Odeio.
Ele desliga o telefone com cara de desconsolado e parece estar pensando: “Porque eu amo este cara, porque????”
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O amor é um graaaande clichê…
por Mac

Após o fiasco da edição paulista do Tim Festival na Arena Skol duas semanas antes, a expectativa de assistir a um festival realizado em um local inóspito sem histórico de shows não era das melhores. Uma reportagem da Folha de São Paulo, na manhã de sábado, alertava: “Festival ocupa galpões e espera chuva, (…) e se chover a situação pode ficar precária”. Apesar de toda uruca, o Planeta Terra 2007 deve fechar o ano como o festival que colocou o badalado Tim no chinelo (em 2005 foi o Claro Rock; em 2006 o Nokia Trends).
De fácil acesso, a Villa de Galpões do Morumbi (na verdade, um decadente conjunto industrial que abrigou durante anos uma fábrica de plásticos) foi adaptada para o festival de forma exemplar. A produção não procurou esconder a decadência do local (e vamos combinar: isso casa perfeitamente com o rock e a música pop), e tratou de usar este fator a seu favor sem, de maneira alguma, desrespeitar o público. Tudo aquilo que o público reclamou do Tim Festival duas semanas atrás aqui estava praticamente perfeito.
Da limpeza (uma equipe passou o festival todo recolhendo o lixo produzido pelas mais de 15 mil pessoas) passando pela alimentação (além de uma praça muito bem armada com várias opções, o festival tinha vários caixas, vários pontos para comprar cerveja, e ainda carrinhos de sorvete Rochinha, de pipoca e algodão doce feitos na hora), pelo respeito aos horários dos shows (Lily Allen começou com dois minutos de atraso; CSS entrou no palco três minutos antes do previsto) e pelos preços corretos (um refrigerante ou garrafa de água R$ 2 contra R$ 5 no Tim), o Planeta Terra exibiu em sua primeira edição uma produção cuidadosa que merece elogios.
Porém, ninguém vai a um festival para comer algodão doce e tomar sorvetes Rochinha. As facilidades propostas pela organização do evento merecem aplausos, mas um festival se faz de boa música, e é nesse ponto que o Planeta Terra deixou um pouco a desejar. O line-up mediano que juntava uma inglesinha metida a besta (a fofa Lily Allen), um dinossauro da new wave (os tiozinhos do excelente Devo), uma banda brasileira famosa na gringa (os ótimos CSS) e um dos melhores nomes da nova cena nova-iorquina (o Rapture, que já tinha feito um show contagiante no Brasil em 2003) não prometia shows antológicos, mas apenas entretenimento enquanto se saboreia um bom sorvete de palito.
Um dos fatores interessantes de se assistir a um festival bem estruturado é que não há tempo para descanso: enquanto você perde tempo esticando as pernas algum bom show está começando em uma das tendas, e não dá para ficar olhando estrelas. Assim, ali pelas duas da manhã já estava difícil não pensar nos joelhos castigados. Foi um alivio quando o vocalista do Kasabian (só no Brasil para uma banda de terceiro escalão se tornar headliner de festival; chega a ser uma afronta ao Pato Fu, que tem muito mais hits e personalidade que o grupo britânico) gritou pela última vez “Sãoooo Paooolo”.

Os portões se abriam às 17h. O último show iria acabar às 2h e tanto. Tantas horas em pé andando de um lado para o outro não são uma das tarefas mais fáceis, por isso acabei cabulando os shows de Supercordas (que trouxe Tatá “Jumbo Elektro” Aeroplano como integrante especial) e Lucy and The Popsonics. No momento que pisei o Main Stage, o Pato Fu iniciava sua apresentação com “Mamã Papá”, do excelente disco novo, “Daqui Pro Futuro”. O show, mais curto que o usual, foi repleto de declarações de amor de Fernanda Takai e John Ulhoa ao Devo. “Vocês não sabem o que é passar metade da vida com uma camiseta escrita Devo no peito e estar aqui agora”, contou um emocionando John. O show valeu pelo resgate de “Gol de Quem?”, faixa título do segundo álbum dos mineiros pouco executada ao vivo.

Tokio Police Club (foto maior) e Datarock (fotos menores) fizeram um barulho dos diabos no palco Indie do festival. Apesar do som embolado, o Tokio Police Club soou interessante, mas o máximo que se pode dizer da apresentação é que foi correta. Fresquinho que é no cenário pop, o Tokio Police Club podia fazer uma noite antológica na Funhouse, n’a Obra, no Teatro Odisséia ou no 92 Graus. Num festival eles são apenas um passatempo barulhento, o que não deixa de ser ok. Já o Datarock pareceu mais bem encorpado e mais pesado que nos MP3 que circulam por ai. Não vale a comparação – na brincadeira – com o Sepultura perpretada pelo vocalista, mas é uma boa diversão.

Lily Allen é baixinha, mas invocada. Despeja palavrões em um microfone verde-limão enquanto bebe no gargalo para comemorar o último show da turnê do platinado álbum “Alright, Still” – e bêbada acaba esquecendo as letras de suas próprias canções. Desfila no palco com um bonito vestido azul enquanto sarreia o tamanho do pênis de um ex-namorado em uma canção e reclama da microfonia que insiste em marcar presença na apresentação. A banda afiada dá um sotaque ska para o som (que até cover do Speciais teve), mas o show é morno, quase frio. Se mesmo a fofíssima versão de “Everbody’s Changing”, do Keane (presente no álbum “The Saturday Sessions: Dermot O’Leary Show”) soou deslocada imagine “Heart of Glass” do Blondie. Boa ressaca, my dear.

O retorno do Cansei de Ser Sexy para São Paulo não poderia ter sido melhor. Após ter tocado em palcos de todos os cantos do mundo, o grupo mostrou em São Paulo uma unidade e uma maturidade que devem ter assustado aos detratores. É gratificante ver que a badalação da imprensa britânica – tanto de música quanto de moda – não afetou em nada o excelente desempenho de Lovefoxxx. Ela continua rolando no palco, pedindo alegria para o público e fazendo as mesmas tiradas sem graça do início da banda (desta vez foi uma brincadeira com a Xuxa). O repertório – com exceção da inédita “The Beautiful Song” e da cover do L7, “Pretend We’re Dead” – não trouxe novidades, mas canções como “Alcohol”, “Off The Hook”, “Alala” e “Metting Paris Hilton” ainda valem um show. Na perfeita “Music Is My Hot Hot Sex” (com Adriano Cintra na guitarra), Lovefoxxx engrossou a voz e trocou a frase “o que eu gosto não é farsa” por “o que eu faço não é farsa”. Se alguém tinha dúvidas já era. Agora é esperar o segundo álbum.

O Devo entrou no Main Stage introduzidos de forma inusitada: um longo vídeo que misturava trechos de clipes avisava, no final, que o Devo era uma experiência que todos precisam viver. Não poderia ter sido mais apropriado. Começando com o hit “That’s Good”, o grupo que está na ativa desde 1972 praticando um rock ácido e bem humorado (cujo exemplo clássico é a divertida versão de “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Stones, presente no primeiro álbum do grupo, “Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!”, de 1978) chacoalhou a audiência com hits do quilate de “Peek-a-Boo!”, “Whip It!” e “Uncontrollable Urge”. Além de fazer um dos melhores shows da noite, também foi do vocalista Mark Mothersbaugh a frase do festival: “Já faz um bom tempo que tocamos no Brasil (1990). Naquela época vocês ainda tinham uma floresta”. Clap clap clap.

Fechando os trabalhos do palco Indie, o Rapture voltou a repetir a aclamada apresentação de quatro anos atrás no Tim Festival. Assim como no show de 2003, o baterista Vito Roccoforte não deu descanso ao público com suas pancadas que “obrigam” a audiência a pular e dançar. Por sua vez, Gabriel Andruzzi provou mais uma vez como o sax pode ser bem usado no rock. Seu solo no hit dançante “Get Myself Into It” foi chapante. O bom baixista Matt Safer continua sendo um dos destaques da banda. E Luke Jenner recebeu o espírito de um guitar hero em vários momentos da apresentação. Conforme o show foi crescendo a massa sonora também aumentou ao ponto de “House of Jealous Lovers” ter soado ensurdecedora. “Olio”, “Don Gon Do It” e “Whoo! Alright Yeah… Uh Huh” foram outros grandes momentos da noite.
Apesar dos bons shows de CSS, Devo e Rapture, o Planeta Terra Festival ficou devendo uma apresentação antológica, daquelas que daqui dez anos alguém vai virar e falar: “Lembra, em 2007, naquele festival, que show sensacional foi aquele???”. Apesar do acerto louvável na organização faltou ao festival um grande nome no line-up, e isso ficou claro na apresentação de encerramento com o Kasabian, cujo rock com pitadas de eletrônico (claramente chupados do Primal Scream) soou tão instigante quanto um programa comandando por Gugu Liberato no meio de uma madrugada qualquer. Fica a torcida para que em 2008 o Festival consiga aliar à qualidade de produção um grupo de artistas que façam valer a pena chegar às três e meia da manhã em casa. Dedos cruzados.
por Mac
Nesta sexta começa a Revoluttion (Mini) Tour (eeee). Ok, menos, menos. Na sexta embarco para Curitiba com o compromisso de discotecar no Jokers Bar na noite em que se juntam as duas principais bandas do meu Top 2007 pessoal: Terminal Guadalupe e Violins. Só garanto que vai rolar Cold War Kids. O resto é resto. No sábado tem Planeta Terra. Pretendo acordar lá pelas 15h e começar a me preparar com bastante energético, pois esse vai ser um festival em que as bandas nacionais tem tudo para roubar a cena das gringas. Ou seja, o lance é chegar cedo. Domingo pela manhã embarco para Ribeirão Preto onde assumo as pick-ups no Groselha Fuzz Festival (garanto que vai rolar Cold War Kids). E como canta Rubin na cover da banda do Bob Geldof: “I Don’t Like Mondays”…
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Disco da Semana: a trilha sonora do filme “I’m Not There ” “Lee Ranaldo, do Sonic Youth, montou um supergrupo para acompanhar os “sem banda”: Steve Shelley na bateria (Sonic Youth), Nels Cline (Wilco) numa guitarra, Tom Verlaine (Television) na outra, Tony Garnier (Bob Dylan Band) no baixo, Smokey Hormel (parceiro de Miho Hatori) também na guitarra, e John Medeski (do grupo Medeski, Martin and Wood) nos teclados.” Continua
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500 Toques: Britney Spears, Emma Pollock e Siouxsie “Britney é mais rock do que Coldplay, Keane e emos juntos; Emma Pollock mostra que os mandamentos praticados pelo Delgados permanecem vivos; Siouxsie chega aos 50 anos tão inspirada e criativa como quando tinha 20?; Continua
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Downloads da Semana: Para quem não ficou até o final do Tim Festival em São Paulo e quer saber como soa o Killers ao vivo, o Part Of The Queue está disponibilizando a integra do show que a banda de Brandon Flowers fez em Santiago três dias atrás. O show lá foi mais completinho (18 músicas incluindo a nova “Tranquilize” e a cover de “Can’t Take My Eyes Off You”) e permite perceber que o fanfarrão Brandon Flowers não segura a peteca de um show completo (a voz falha várias vezes), mas o baterista é bem bom. De quebra você pode baixar o show que o Travis fez no mesmo festival (Fênix Festival, que ainda contou com o Starsailor) e cantar com os chilenos “Why Does it Always Rain on Me” já que ninguém no Brasil quis bancar a vinda da banda de Fran Healy ao país (eles são coxinha, mas tem umas músicas muito boas).
por Mac

“I’m Not There”, Todd Haynes – Cotação 5/5
Os sessenta anos – completados em 2001 – abriram o coração de Bob Dylan para o mundo. Até então pouco se sabia da vida do mais importante intérprete e compositor da língua inglesa no século 20. Fofocas de amigos, boatos de bastidores, depoimentos em entrevistas, aparições na TV, tudo servia para moldar um Bob Dylan que poderia até estar longe da realidade, mas era o máximo que fãs, jornalistas e pessoas comuns conseguiam obter para tentar entender uma das personas geniais e controversas de nosso tempo. O verdadeiro Bob Dylan se escondia em algum recanto da alma de Robert Allen Zimmerman, um garoto nascido em Minnesota, neto de imigrantes judeus-russos.
Em questão de cinco anos Dylan abriu seu baú de memórias e começou a mostrar fotografias de seu passado para o grande público. Foi assim com o lançamento do livro “Down the Highway: The Life of Bob Dylan”, excelente biografia assinada por Howard Sounes, que chegou ao mercado em 2001 (no Brasil recebeu o nome de “Dylan: A Biografia”, ganhando edição pela Conrad). Na seqüência, em 2005, vieram o volume 1 de “Crônicas” (uma quase biografia escrita pelo próprio Dylan que relembra o passado em textos curtos – edição nacional da Planeta) e o imperdível documentário para a TV “No Direction Home”, de Martin Scorsese (já disponível em DVD). Por último surgiu o álbum “Modern Times” (2006), cujo fantasma da morte presente nas letras meio que justificou a abertura do baú: Dylan quer rever sua história… vivo.
“I’m Not There”, filme de Todd Haynes que funciona como uma inteligente cinebiografia, é o mais próximo que o público já chegou de Bob Dylan em todos estes anos. E é grandioso como deveria ser. O subtítulo do filme diz tudo: “Inspirado nas várias vidas de Bob Dylan”. Para isso, o diretor dividiu a persona do Dylan em seis personagens, e todos eles transitam por “I’m Not There” à vontade. Seja o Dylan dos primeiros anos interpretado por Christian Bale; seja o Dylan que mudou o mundo em 1965 interpretado por Cate Blanchett; seja o Dylan menino interpretado por Marcus Carl Franklin; seja o Dylan católico interpretado por Heath Ledger; seja o Dylan apaixonado por Rimbauld interpretado por Ben Whishaw; seja o Dylan Billy The Kid interpretado por Richard Gere. É preciso conhecer a história do compositor para entender 70% do filme (no mínimo), e esse é seu único defeito: ter sido feito especialmente para fãs.
Não que neófitos venham a desdenhar “I’m Not There”, pelo contrário, mas é que Todd Haynes pula alucinadamente de uma história para outra carregando nas citações como se estivesse fazendo um documentário, e isso faz com que muito da graça do roteiro funcione como piada interna. Quantos vão perceber que a personagem de Julianne Moore, Alice, é na verdade Joan Baez, cantora e compositora com quem Dylan se envolveu no início da carreira? Ou vão entender a genial sacada do diretor ao colocar Cate Blanchett no palco de um festival folk com uma banda que metralha a audiência enquanto toca suas canções? Ok, os fatos estão todos em livros de histórias da música pop e não dá para ficar esperando por alguma tradução – seria pedir demais para Todd Haynes fazer isso. O conselho – para neófitos – é ver, rever e juntar “I’m Not There” com “No Direction Home” e “Don’t Look Back”, de D.A. Pennebaker (1967). A diversão – garantida – pode ser ampliada e muito melhor digerida.
Tudo isso porque “I’m Not There” nos coloca diante da vida do homem que primeiro virou ídolo da esquerda norte-americana amparado em uma paixão por Woody Guthrie para em seguida eletrificar o folk, virar grande estrela do rock, persona non-grata do pessoal do folk, influenciar os Beatles (e a Tropicália), dar um grande nó na cabeça de toda uma geração, sumir do mapa após um mal explicado acidente, retornar as grandes turnês depois de oito anos distante dos palcos, render-se ao cristianismo, renegar Deus, e sobreviver a tudo isso. É mais do que cem pessoas juntas fazem em uma vida toda. Bob Dylan, assim como diversos dos poetas que admira, já leu todos os livros e descobriu que a carne é triste. Porém, mesmo com esse apanhado de informações que surgiu sobre o compositor nos últimos anos – todas com sua autorização – nada consegue penetrar sua alma. O público tem o corpo (há até uma autopsia em uma das cenas de “I’m Not There” que reforça a idéia de que mesmo vasculhando seu interior não encontramos seu espírito, aquilo que faz dele Bob Dylan), e só o corpo.
Mesmo assim os seis Dylans estão impagáveis e trazem momentos memoráveis. O jovem Marcus Carl Franklin encanta carregando seu violão que estampa a frase “essa máquina mata fascistas”; Christian Bale empresta seu rosto para a arte de algumas capas; as intervenções de Ben “Arthur Rimbauld” Whishaw são precisas, mas quem se sai melhor é Cate Blanchett, perfeita como o Dylan chapado que provoca a Inglaterra acompanhado da The Band, apresenta os Beatles à maconha, ganha a “absolvição” de Allen Ginsberg (que diz que se Dylan se vendeu para fazer música para jukeboxes não havia problema algum porque todos se beneficiavam), sarreia jornalistas em uma entrevista coletiva (para depois ler as reportagens e dizer: “Ainda bem que eu não sou eu”) e cultiva a ira de um badalado jornalista da BBC. Blanchett saiu de Veneza com o Copa Volpi de Melhor Atriz. Parece que tem indicação ao Oscar pintando por ai.
Todd Haynes explora questões centrais que sempre viveram no cerne da vida de Bob Dylan: o crescimento musical que não renega o conhecimento empírico; a busca pela transformação (futuro) sem a perda dos princípios básicos (passado); e o confronto moral de praticar arte, inseri-la no mundo, e não se transformar em objeto de si mesmo. Todas essas questões estão soltas de forma conexa em “I’m Not There”. Por mais que cada um dos seis personagens tenha um espaço/tempo diferente do outro, Haynes mantém o pulso firme de forma a dar uma unidade para a obra, e o consegue com louvor. Como já escreveu um jornalista, “de uma hora para outra todas as cinebiografias ficaram ultrapassadas”. E tinha que ser Bob Dylan a inspiração disso, mesmo que ele não está ali.

Leia também: “No Direction Home”, por Marcelo Costa
“Não dá para ser esperto e amar ao mesmo tempo”, diz Bob Dylan em certo trecho do documentário No Direction Home. Com a frase, Dylan tentava explicar a implosão do relacionamento com a cantora Joan Baez, também entrevistada para o filme. Uma corruptela do pensamento do cantor poderia também dizer que não dá para ser genial e amado ao mesmo tempo”. (Continua)
por Mac

“Into The Wild”, Sean Penn – Cotação 4/5
Após anos de graduação em colégio e faculdade, o jovem Christopher Johnson McCandless, de 22 anos, está se formando, mas o gesto de arremessar o barrete (aquele boné preto sem pala que os formandos usam) significa muito mais para o rapaz: Chris está livre das obrigações de uma família infeliz e de uma sociedade capitalista cuja necessidade de consumir afasta o ser-humano de si mesmo, das outras pessoas e da natureza (selvagem). Seu plano é simples: ele “pagou” o preço para a família se dedicado aos estudos, e agora quer desaparecer no mundão de Deus sem lenço, dinheiro e documento.
Chris coloca seu plano em ação doando os 24 mil dólares que guardou na poupança durante a faculdade para uma instituição de caridade. Em seguida, junta algumas peças de roupas, pega seu velho carro e sai sem destino pelas estradas dos Estados Unidos movido a leituras ininterruptas de Tolstoi e Jack London, e pelo desejo de viver em meio à natureza selvagem do Alasca. Sozinho. Em uma desventura perde o carro, e nem se importa. Sai caminhando deixando para trás o veículo e uma fogueira com notas de dólar. Chris exercita o desapego e abandona o próprio nome: agora se chama Alexander Supertramp. O filme é dividido em capítulos que mostram o amadurecimento do personagem.
“Into The Wild”, quarto filme do ator e diretor Sean Penn, toma por base o livro do jornalista Jon Krakauer, que após fazer uma reportagem sobre a história de Chris para a Outside Magazine, decidiu aprofundar sua pesquisa e o resultado se tornou um best-seller nos Estados Unidos. A busca pela felicidade de Chris ganha contornos poéticos e sonhadores nas mãos de Sean Penn, que escorrega para o piegas em uma ou outra passagem, mas que se sai muito bem como obra fechada, comovendo o espectador com uma história verídica que bate forte no lado esquerdo de peito – auxiliada pelas boas canções de Eddie Vedder e por um excelente elenco cujo destaque é grande atuação de Emile Hirsh no papel principal.
A rigor temos aqui mais um caso de família desestruturada. A mãe de Chris se envolveu com seu pai ainda quando ele era casado com outra. Os filhos nasceram sobre a escuridão dessa mentira, e as brigas constantes do casal fizeram à vida de seus dois filhos (Chris tem uma irmã) um pequeno inferno familiar. No primeiro momento em que vê livre dos pais, Chris parte sem deixar rastro nem dar notícias. Sua companheira nesta aventura será uma mochila azul e sua vida agora se passará na estrada com os diversos – e interessantes – personagens que irão cruzar o seu caminho.
Chris não consegue se apegar as pessoas. Seu maior sonho – viver na natureza selvagem do Alasca – é muito mais importante que as relações humanas ao ponto de Chris escrever em seu diário que a felicidade pode ser encontrada no mundo ao nosso redor, na natureza, e não depende das relações entre pessoas. Completamente absorto em seu ideal, Chris parte para realizar seu sonho, vivendo em um ônibus abandonado no meio de uma floresta no Alasca. Como um eremita, ele vive do que a natureza lhe proporciona enquanto o estoque de arroz não termina.
É muito difícil falar de “Into The Wild” sem citar seu final trágico (não vou falar, não vou falar). É muito difícil não pensar em Chris como um rapaz de família abastada que opta por abandonar tudo para viver em um (sub)mundo povoado por pessoas que nunca tiveram nada. Porém, sua trajetória quase hippie é uma belíssima oportunidade de rever mensagens emocionantes que foram deixadas de lado por uma sociedade capitalista cujo “eu” ocupou o lugar do “nós”. Mais do que um “road movie” em busca da felicidade, “Into The Wild” é um filme que valoriza as relações humanas enquanto incentiva o autoconhecimento. E comove. Não será surpresa se encontramos Sean Penn no Oscar. E será merecido…
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“Into The Wild”, trilha sonora de Eddie Vedder – Cotação 4/5
Tocar por 17 anos com a mesma banda é algo que faz sua vida particular (e sua própria personalidade) ficar em segundo plano. Por mais que você consiga se expressar bem, principalmente se estiver à frente do grupo, suas idéias são a idéia da banda, e teoricamente tudo reflete o pensamento e a sonoridade da banda. Isso em uma banda comum. Agora imagine toda essa história no dia-a-dia de um músico de um grupo de mega-sucesso, ícone de toda uma geração, como o Pearl Jam. Por mais que Eddie Vedder se sinta bem representado, aquilo é o Pearl Jam, não Eddie Vedder.
O “verdadeiro” Eddie Vedder pode ser confrontado agora com o lançamento de seu primeiro álbum solo, “Into The Wild”, trilha sonora do filme homônimo dirigido pelo ator e cineasta Sean Penn. Uma lida no resumo do filme já diz muita coisa. “Into The Wild” conta a história real de Christopher McCandless, um jovem que largou tudo (carreira, família, dinheiro) depois de conseguir seu diploma colegial e partiu rumo ao Alasca para viver em meio à natureza. Se as letras de Vedder carregavam um hippiesmo politicamente correto desde a estréia do Pearl Jam, “Into The Wild” amplia o foco e dá mais liberdade para o cantor e compositor soltar as asas e voar.
Em entrevista a Entertainment Weekly, Vedder conta que teve toda liberdade possível para compor a trilha. “Faça o que você achar que deve fazer”, disse Sean Penn. E o que Vedder queria fazer era um álbum essencialmente acústico, nos moldes de “Nebraska”, clássico de Bruce Springsteen, e Neil Young (influência confessa). São onze músicas em pouco mais de 30 minutos de puro Eddie Vedder. Fãs já vão gostar do disco antes mesmo de ouvi-lo. Uma boa parcela do público, no entanto, já se encheu da voz de Vedder. O Pearl Jam tocou (e ainda toca) muito, e a exposição sempre trabalha contra a banda. Porém, conceda o beneficio da dúvida para este álbum antes de torcer o nariz, e a chance de ser surpreendido é enorme.
As cinco primeiras faixas de “Into The Wild” juntas quase não ultrapassam os dez minutos. Eddie Vedder toca tudo no álbum (com exceção de um violão acústico extra em “Society” tocado pelo autor da música, Jerry Hannan, e o backing vocal da Sleater-Kinney Corin Tucker em “Hard Sun”, as duas únicas músicas não compostas por Vedder no disco), de bateria a violão passando por banjo até um ukalele. O som é essencialmente folk, mas a levada pop de “Selling Forth” poderia facilmente galgar a parada de sucessos. “No Celling” traz um interessante trabalho musical, com uma guitarra duelando com o violão nas pontuações do bom arranjo. “Far Behind” segue a linha da anterior, mas é mais roqueira. “Rise” destaca o banjo enquanto “Long Nights” surge dramática.
“Tuolumne” e “The Wolf” são as duas únicas faixas essencialmente instrumentais do álbum, descontando “End Of the Road”, em que o vocalista canta apenas no primeiro trecho, e a versão “Humming Version” da última faixa, “Guaranteed”, que surge como coda após alguns minutos de silêncio. “Hard Sun” é o primeiro single, e é um cover do artista canadense Índio, codinome do compositor Gord Peterson. É também a canção mais longa do disco, ultrapassando os cinco minutos (a versão single é mais curta), mas é grandiosa. Eddie Vedder canta magnificamente bem, e o apoio de Corin Tucker no refrão é plenamente justificável. “Into The Wild” é um belíssimo trabalho solo, um grande disco que serve para lançar um novo olhar sobre um dos grandes vocalistas e songwriters dos anos 90. Eddie Vedder merece a sua atenção.
por Mac

“Onde os Fracos Não Têm Vez”, Joel e Ethan Coen – Cotação 5/5
Os geniais irmãos Coen retornam ao universo da criminalidade (que rendeu a obra-prima “Fargo”, de 1996) neste que é o melhor filme da dupla desde “O Homem Que Não Estava Lá”, de 2001. Adaptado do livro “Onde os Velhos Não Tem Vez”, de Corman McCarthy, “Onde os Fracos Não Têm Vez” traz todos os elementos de um bom filme dos Coen: é denso, violento, mas com ótimas passagens de humor em meio a tempestade de drama. Se passa no oeste norte-americano, perto da fronteira com o México, mas não é um western. É mais um retrato desiludido da sociedade moderna travestido de filme de ação. Apesar do xerife, apesar da caçada de gato e rato, apesar das manchas de sangue no tapete.
Um ex-combatente do Vietnã encontra um cenário surpreendente no meio do deserto: várias camionetes paradas e chumbadas de balas de diversos calibres, corpos por todos os lados, e um carregamento de cocaína abandonado. Apenas uma pessoa viva (por poucas horas) que só sabe pedir água… em mexicano. Poucos metros dali, um morto com uma maleta com 2 milhões de dólares. Ele leva a maleta, mas sabe que o dono virá atrás. O dono não vem, mas manda alguém: Anton Chigurh (em uma atuação que tem que render uma indicação ao Oscar para Javier Bardem; nota atualizada do editor: rendeu a indicação e vai lhe render o Oscar) é um assassino psicótico sem senso de humor, sem piedade, sem o mínimo de dúvida sobre sua missão: matar. Quando surge em cena, Chigurh faz o espectador tremer.
Começa, então, uma perseguição que deixará um rastro de corpos para trás enquanto disserta sobre a loucura que virou a vida no mundo moderno. Um xerife, em certo momento, comenta com outro: “Eu nunca achei que fosse estar vivo para ver meninos com cabelos azuis e argolas no nariz”. O outro (interpretado por Tommy Lee Jones), mais experiente, apenas meneia a cabeça. Mais tarde irá comentar com seu ajudante enquanto lê o jornal de manhã: “Dois homens alugavam quartos para velhos. Eles matavam os velhinhos e enterravam no próprio quintal. Antes, torturavam. Os vizinhos só foram perceber algo diferente qual um velhinho conseguiu fugir com uma coleira de cachorro para a rua. Só por isso. Matar e enterrar no quintal não chamava a atenção”. O ajudante ri da história (e leva todo o cinema a fazer o mesmo), mas pede desculpas em seguida. O xerife completa: “Tudo bem, eu também dou as minhas risadas”. Que mundo é esse que vivemos mesmo, caro leitor?
Essa terra de ninguém filmada pelos irmãos Coen ganha proporções assustadoras em uma cena capital de “Onde os Fracos Não Têm Vez”: no balcão de um posto de gasolina, nosso matador frio, inconseqüente e sem o mínimo de pudores quanto a apertar o gatilho de uma espingarda calibre doze com silenciador (ou de sua “companheira” pouco usual) pergunta ao velho dono do estabelecimento qual o total de sua conta. O velho faz um gracejo, mas não se faz um gracejo com Chigurh. Porém, como ele iria saber?
Como podemos saber se a pessoa que se senta ao nosso lado no ônibus é um assassino, a nossa metade ou sei lá o que? Como podemos saber se o cara que nos ameaçou no trânsito após uma barbeiragem ou aquele que encanou que você cantou a namorada dele tem uma pistola 9 milímetros em seu porta-luvas? Como saber o limite da loucura humana quando jovens atacam em bando e matam uma pessoa por não terem conseguido um desconto de 20 centavos? Não temos como saber. E isso é tremendamente assustador, vamos combinar.
“Onde os Fracos Não Têm Vez” recoloca os irmãos Coen na linha após uma série de filmes medianos que estavam maculando uma carreira prodigiosa. De mensagem pessimista, este ensaio sobre a criminalidade, violência gratuita e a natureza humana ilumina – com uma lanterna – uma pequena centelha da vastidão do universo, e não podemos esperar mais do que isso de uma obra cinematográfica. Poucos conseguem fazer rir enquanto destroços do mundo caem sobre nossos ombros. Poucos conseguem contar uma história tão bem contada e tão cheia de detalhes. Os irmãos Coen jogam pás de cal sobre a fé do público no mundo moderno num filme em que o desamassar do papel laminado de um bombom causa calafrios. Sensacional.

por Mac

“À Prova de Morte”, Quentin Tarantino – Cotação 4,5/5
“Planeta Terror”, Robert Rodriguez – Cotação 4/5
Apresentar a dobradinha “Grindhouse” em seqüência foi uma das melhores coisas que a Mostra de São Paulo apresentou neste ano. Tarantino e Rodriguez sujam as mãos com ketchup enquanto divertem o espectador com dois filmes b de altíssima qualidade num exercício de estilo que faz rir enquanto assusta. “Planeta Terror” é trash elevado à décima potência. Já “À Prova de Morte” é Quentin Tarantino dos bons, com diálogos longos e certeiros sobre um roteiro preguiçoso que brinca de enganar o espectador enquanto faz dezenas de citações de cultura pop.
“Planeta Terror” é divertidíssimo. Robert Rodriguez faz uma paródia de filmes de terror contando a história de uma cidade que é tomada por zumbis canibais que foram infectados por um gás tóxico que o exército dos Estados Unidos utilizou indiscriminadamente em sua invasão no Oriente Médio. Nada pode ser levado a sério aqui, e a intenção não é mesmo essa. O intuito de Rodriguez é fazer cinema pipoca e reviver uma época de sua infância perdida na memória.
Temos uma dançarina go-go que perde a perna (devorada por um zumbi), e no meio da onda de terror precisa correr, mas como? Simples: com uma perna de cadeira no lugar em que deveria estar uma perna mecânica (a cena de sexo entre ela – com a perna de pau – e o “namorado” é impagável). Mais pra frente teremos, no lugar da perna de pau, uma metralhadora. Na melhor tirada do filme, um dos personagens descobre que o ingrediente que deu o toque final mágico ao seu molho barbecue foi… seu próprio sangue: “Sangue é salgado”.
“À Prova de Morte” não carrega na caricatura como “Planeta Terror”, mas é tão divertido quanto, embora demore um pouco a engatar. São duas histórias distintas que se cruzam (se você ainda não viu o trailer, não veja: ele estraga metade da surpresa ao relatar o final da história final) no volante de Stuntman Mike (Kurt Russel, excelente), um dublê que pilota um carro à prova de morte. Stuntman Mike participa ativamente das duas histórias, mas não espere o óbvio. Tarantino prega uma pequena peça no espectador ao som de sua própria Jukebox.
Na primeira história, três garotas partem para um bar onde enchem a cara enquanto falam mil e uma bobagens (que trazem centenas de referências). Na hora de ir embora, as três acabam cruzando Stuntman Mike em uma estrada escura e… bummmm. Corte. Quatro garotas são vistas em um posto de gasolina. Uma delas está aficionada por um Dodge Challenge 1970 que viu numa propaganda de um jornal, e que é igual ao carro de Kowalski, o personagem do cult “Vanishing Point”. “Que filme é esse?”, pergunta uma das meninas. “Você era muito nova para ter visto”, comenta uma enquanto outra emenda: “Você só conhece John Hughes e “Pretty in Pink””. Como qualquer bom Tarantino, “À Prova de Morte” é recheado de citações assim, e muito de seu desfrute vai de se entender as piadas internas.
“À Prova de Morte” é um exercício de estilo que funciona para o bem e cujo único intuito é divertir o espectador sentado na sala de cinema, sem cabecismos ou segundas intenções cinematográficas. É quase um filme sobre nada, muito embora as duas histórias possam render análises pseudo-filosóficas. Ali pelo meio, depois de vinte minutos de diálogos que vão de lugar nenhum para nenhum lugar, o filme dá uma bela caída, e quando você pensa que Tarantino perdeu a mão para o negócio todo, ele leva você para um racha emocionante que terminará de uma maneira improvável. A trilha foi escolhida a dedo pelo cineasta, que assume a posição de barman dono do boteco fim de mundo em que as meninas da primeira história enchem a cara enquanto gastam fichas e fichas na jukebox. Aliás, ele também está em “Planeta Terror”, em uma cena divertidíssima que junta sua sede de sexo, seus olhos famintos e a perna de madeira da senhorita lá do primeiro parágrafo. Impagável. Cinema também é diversão, entende.

“Paranoid Park”, Gus Van Sant – Cotação 1/5
Exercício de estilo pode ser algo muito interessante. Quando você muito a mesma coisa é inevitável que traços iguais apareçam em todas elas. É meio estranho quando reclamam que Woody Allen está se repetindo quando, na verdade, ele está filmando a Woddy Allen, exercitando seu próprio estilo. Porém, exercício comumente é usado para mascarar uma idéia que era para ser algo grandioso, mas que acabou não funcionando. O certo seria parar tudo, reescrever, mexer em detalhes e se isso não adiantasse desistir do projeto. Mas há muita grana em jogo quando se está fazendo um filme. Então entra o exercício de estilo para “encher lingüiça”. “Paranoid Park”, de Gus Van Sant, é mais ou menos isso.
Há uma história, interessante até, em “Paranoid Park”. Um vigia de uma linha de trens aparece morto e os freqüentadores de um parque de skatistas são convocados para averiguações. A chance da polícia chegar no culpado é praticamente inexistente, então o caso policial é deixado de lado para entrarmos no drama pessoal do jovem Alex, filho de pais recém-separados e já marcado por esse fato: não quer transar com a namorada, de quem não gosta tanto assim, porque não quer se envolver e acabar como seus pais. “Paranoid Park” aprofunda a análise psicológica como se fosse um “Crime e Castigo” moderno, mas perde força pelas longas tomadas em 8mm de skatistas e pelo exagero na sustentação de algumas cenas de mensagem óbvia.
Krystof Kieslowiski, nos extras de seu filme “A Liberdade é Azul”, explica uma cena em que um cubo de açúcar é molhado no café, e tomado pelo líquido. A idéia da cena era demonstrar para o espectador o quanto à personagem (Juliette Binoche) estava mais interessada no cubo de açúcar tomado pelo café do que na declaração de amor do homem a sua frente. E o diretor conta que sustenta o foco no cubo de açúcar por cinco segundos, e que a equipe precisou encontrar um cubo de açúcar que demorasse cinco segundos para ser tomado pelo café, pois o espectador não precisava mais do que isso para entender a cena, e mais tempo seria uma agressão. Em vários momentos de “Paranoid Park” Gus Van Sant agride o espectador.
Quando não sustenta a cena em excesso, Gus Van Sant usa a trilha sonora para dar ao espectador a resposta que ele precisa para não se perder na trama óbvia de “Paranoid Park”. Exemplo desse expediente é o trecho que marca o rompimento de Alex com a namorada. Sai o áudio dos atores, entra uma canção de amor, e pelo semblante da namorada percebemos que o inevitável aconteceu. Há certa beleza na cena, que se não se passasse em câmera lenta talvez tivesse um resultado melhor, mas bastaria para tirar o filme do buraco de tédio em que ele se encontra desde seus primeiros segundos até o seu final arrastado. Na falta de um bom filme, Gus Van Sant exercita seu estilo com “Paranoid Park”. Porém, poucos diretores no mundo fazem o filme do nada, apenas com seu estilo, e conseguem um resultado arrebatador. Van Sant não é um deles.
por Mac

“One + One”, Jean-Luc Godard – Cotação 4/5
“Sympathy for the Devil”, Jean-Luc Godard – Cotação 3/5
“One + One” é cria de Godard; “Sympathy for the Devil” é a montagem que os produtores fizeram insatisfeitos com o material original do cineasta, à sua revelia. A rigor, é o mesmíssimo filme com a diferença que o primeiro traz a visão de Godard sobre a obra fechada e o segundo é a visão dos produtores que, claramente, não entendiam muito tudo o que o cineasta estava filmando e dizendo. Desta forma, alteraram a seqüência de esquetes (e anularam o crescendo que o roteiro de “One + One” explora de forma convincente), alongaram uma ou outra cena (o que não acrescenta nada) e colocaram mais Rolling Stones (o que acaba enchendo mais o saco, afinal até um mesmo um clássico como “Sympathy for the Devil” enche a paciência sendo ouvido a exaustão). Dentre as duas versões, a de Godard é claramente melhor, o que não quer dizer muita coisa: ambos os filmes trazem o mesmo conteúdo panfletário que faz muita falta nos dias de hoje, mas são para pouquíssimos ouvidos, olhos e coração.
Godard faz um elogio ao comunismo enquanto dispara frases certeiras contra os Estados Unidos, dá espaço para que os Panteras Negras dissertem seus ideais em passagens antológicas, lê e relê os conceitos de Mao e, na melhor passagem do filme, entrevista uma dama chamada Eve Democracy que defende a desculturalização. Para ela, “para se ser um intelectual revolucionário, é preciso deixar de ser intelectual”. A participação dos Stones é apenas para aficionados. Godard filma a banda gravando “Sympathy for the Devil”, mostra que Bill Wyman era um enfeite (a melhor linha de baixo do filme é feita por Keith Richards), que Brian Jones já estava em outra dimensão e que Mick Jagger centraliza as atenções. Mas é só a banda gravando. Em “One + One” as cenas são vistas em uma ordem coerente, que exibe o crescimento do arranjo, mas mesmo assim são dispensáveis. Os Stones, em 1968, eram um gancho para Godard discursar para a juventude. Visto hoje em dia, tanto “One + One” quanto “Sympathy for the Devil” são obras de museu, retratos de um tempo que se foi. Melhor do que chorar sobre as cinzas do baseado fumado é acordar e entender o mundo como é hoje. Há muito que fazer. Godard fez a parte dele…

“Lust, Caution”, Ang Lee – Cotação 4/5
O primeiro filme de Ang Lee pós-sucesso de “Brokeback Mountain” se passa na Xangai dos anos 40, é falado em chinês, mas trata do mesmo tema: o amor proibido. Se em “Brokeback Mountain” o diretor chocava ao retratar de forma tocante uma história sobre “o amor que não ousa dizer o nome”, em “Lust, Caution” o romance choca por carregar nas tintas do sexo explícito, mas também conta uma belíssima história de um amor impossível. As cenas de sexo são fortes, mas o melhor é se concentrar no drama da jovem revolucionária Wang Chiah-Chih que se apaixona pelo homem que devia matar. Em um país tão apolítico – e carnal – quanto o Brasil talvez este novo drama de Ang Lee não bata tanto quanto “Brokeback Mountain”, mas não se engane: é arte da mesma estirpe.

“Control”, Anton Corbijn – Cotação 3,5/5
Em sua estréia em longas, o badalado fotógrafo fez um belo filme sobre a história de Ian Curtis, vocalista e letrista do Joy Division, que se suicidou em 1980. O ator Sam Riley convence no papel principal, as partes em que a banda está em cena (que são poucas) são excelentes e as imagens de Manchester são belíssimas. Baseado no livro escrito pela mulher de Ian, Deborah, o filme só peca em valorizar as dúvidas amorosas do vocalista enquanto não aprofunda seus dramas e fantasmas pessoais. Como uma fotografia, “Control” exibe uma belíssima imagem, mas carece de alma. Isso não desmerece de forma alguma o filme, mas é uma maneira copo meio vazio entender que Ian se matou por não conseguir lidar com suas mulheres (e ai se inclui a filha Natalie). Ou queremos esperar de nosso herói algo mais do que ele talvez tenha sido.

“About a Son”, AJ Schnack – Cotação 1/5
Kurt Cobain merecia muito mais do que este falso documentário travestido de imagens de luxo de um karaokê sobre Seattle e Aberdeen. “About a Son” apresenta cerca de uma hora e meia de áudio de entrevistas feitas pelo jornalista Michael Azerrad que não trazem nada de novo nem explicam ou conseguem aprofundar a dimensão do mito. Ao contrário, “About a Son” é constrangedor. Algo está errado quando a melhor parte de um filme sobre um gênio do rock surge quando ele explica sua paixão por tartarugas. Kurt está certo: jornalistas são uns bastardos filhos da puta. Só isso explica como um cara usa um material tão bacana de áudio de uma forma tão tosca e canhestra. De péssimo gosto.
por Mac

Enquanto Cat Power se preparava para retornar ao palco do Auditório Ibirapuera para substituir Feist, novos “sambistas” davam seqüência ao festival É Samba Sim no teatro do Sesc Pompéia, que um dia antes havia recebido Mariana Aydar, Rômulo Fróes e Tom Zé. No sábado, os destaques eram o catarinense (radicado em Alagoas) Wado apresentando banda nova e o carioca Marcelo D2 procurando pela batida perfeita. Não fiquei para ver o show de D2 (o som do teatro estava péssimo – algo raro – e o calor infernal. Fui beber um chopp escuro), mas Wado fez um show interessante.
O primeiro choque foi a ausência de Alvinho nos violões atolados em wah-wah. Na nova formação, Wado conta com Dinho Zampier (Mopho) no piano, Tupi (Vitor Pirralho e Unidade) nas programações e Rodrigo Peixinho na bateria. Wado assume a guitarra, mas a toca em poucos momentos do show. O repertório faz um ping pong pelos três discos do cantor, mas privilegia as canções do poderoso “A Farsa do Samba Nublado” (2004) além de trazer duas inéditas que vão fazer parte de seu quarto álbum, “Terceiro Mundo Festivo”.
Apesar do som do teatro não ajudar (o grave embolava tudo, e o cantor não se adaptou bem ao palco dividido do teatro do Sesc Pompéia), o que ficou claro nessa nova fase de Wado é que seus sambas tortos estão cada vez mais densos/tensos. Os novos arranjos deixaram canções como “Tormenta”, “Ontem Eu Sambei”, “Vai Querer”, “Tarja Preta/Fafá”, “Uma Raiz, Uma Flor” e “Sotaque” (entre outras) muito mais orgânicas, com a bateria e o baixo à frente desnudando as letras geniais do compositor. Mesmo sambinhas como a maconheira “Alguma Coisa Mais Pra Frente” e a excelente “Se Vacilar o Jacaré Abraça” soaram… darks. :o)
As duas músicas novas exibidas no show prometem muito. Apresentada como uma canção de amor, “Teta” é sinuosa, dançante e deliciosamente pornográfica, com um refrão empolgante: “Está guardado pra você amor… aceite, aceite / Está guardado pra você amor… o leite”. Já “Reforma Agrária do Ar” discute a concessão das rádios públicas de forma empolgante. Descontando a qualidade técnica do som do Sesc Pompéia, este show foi muito próximo de uma outra apresentação que assisti no Studio SP, ano passado, ainda com a banda anterior, e demonstra que para Wado o caminho do samba vai ao encontro da eletrônica.
Morando em Maceió e responsável por um dos grandes álbuns do ano (com o projeto Fino Coletivo), Wado é samba – torto – sim. Seus três álbuns estão liberados para download gratuito em seu site oficial e duas músicas novas podem ser assistidas em versão ao vivo no blog Música Indie / BR. Como ele mesmo canta, “Está guardado pra você… amor”. Aceite.
por Mac

Chegou hoje um pacotinho com meus pedidos da CD Wow e olhando a capa deste CD nas minhas mãos chego a cogitar que essa é a capa de disco mais bacana de todos os tempos. Ok, exagero. Mas top five com certeza!