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Fernanda Takai ao vivo em São Paulo

Estou sentado na primeira fila do charmoso teatro do Sesc Pinheiros. Ao meu lado, uma senhora que aparenta ter mais de 60 anos. Já passou da metade do show, e ela não abriu a boca para cantar nenhuma das canções, muitas delas hits do cancioneiro nacional. Ao final de “Insensatez”, porém, ela se vira para mim e lança a pergunta: “Todas essas músicas estão no CD?”. Respondo que sim, explicando que apenas as versões em inglês não entraram. “São muito boas”, diz ela encerrando o papo e voltando-se para o palco.

No palco, Fernanda Takai, a vocalista do Pato Fu (que fez questão de frisar que a banda é sua prioridade, é onde ela quer estar), apresenta as canções de seu excelente primeiro disco solo, “Onde Brilhem Os Olhos Seus”, que reúne um repertório de canções interpretadas por Nara Leão. É a noite de estréia, e Fernanda está radiante e falante, saltitando entre o nervosismo do debute de uma turnê e a felicidade da recepção do público, que esgotou os ingressos para as duas apresentações. “A gente nunca sabe como será a noite de estréia, mas eu fiquei muito feliz quando soube que os ingressos estavam sendo bem vendidos… e bem esgotados”, comentou em certo momento.

A banda que a acompanha traz os Pato Fus Lulu Camargo (teclados) e John Ulhoa (”violão, guitarra, marido, bom pai”), mais Thiago Braga (baixista do LAB) e Mariá Portugal (bateria e zabumba, integrante das bandas Trash Pour 4 e Dona Zica). Mariá, por sinal, é um dos grandes destaques da formação. Baterista de “mão pesada”, a garota ataca seu kit mostrando versatilidade, indo dos extremos da delicadeza até as marcações mais pesadas (e são essas últimas que dão o tom de grande parte da apresentação).

O repertório apresenta as treze canções do álbum, mais algumas surpresas, “já que o disco é curtinho, tem pouco mais de 30 minutos”, explica a cantora. A produção é magnífica. A iluminação é extremamente delicada e as luzes flutuam dando charme ao espetáculo. Projeções estampam fotos de Fernanda na decoração do fundo de palco. E se levarmos em conta que o projeto tomou fôlego após Fernanda interpretar Nara em um desfile da grife de Ronaldo Fraga no SPFW, natural que ela esteja deslumbrante na noite de estréia (de preto, vestido, meias e sapatilhas).

Todo esse cuidado com a produção aconchega o repertório, que funciona a perfeição no palco. O show começa com de “Ta-Hi”, samba de Joubert de Carvalho (1930) gravado primeiramente por Carmen Miranda. Seguem-se “Luz Negra”, “Lindonéia” e “Diz Que Fui Por Aí” (uma das melhores do álbum e do show). A primeira canção “extra” foi “There Must Be an Angel (Playing with My Heart)”, do Eurythmics, totalmente no clima da noite. Após “Estrada do Sol”, Fernanda arremata: “Como apresentamos uma música do Tom Jobim com a Dolores Duran, agora a gente vai tocar uma música do Duran Duran”. Segue-se “Ordinary World” em versão fofa, fofa.

No show, Fernanda Takai amplia os acertos do álbum. O repertório junta muitas canções quase que de “domínio público”, cujas versões mais famosas já fizeram casa no imaginário popular. Porém, os ótimos arranjos de John e Lulu, somados a interpretação delicada e particular de Fernanda (e, no show, acrescidos da pontuação marcante da bateria de Mariá e do baixo estiloso de Thiago) conseguem transcender o passado, que ao invés de se transformar em obstáculo, acaba por servir como trampolim para o presente, explorando a musicalidade do quinteto.

“Com Açúcar, Com Afeto”, “Trevo de Quatro Folhas”, “Seja o Meu Céu” e “Odeon” rendem belos momentos na noite, que ainda traz versões para “Ben”, de Michael Jackson, “Esconda o Pranto Num Sorriso”, de Evaldo Braga, “O Divã”, de Roberto Carlos (excelente) e a contagiante “A Dança do Carimbó”, de Eliana Pittman. Ao final desta última, empolgada, a senhora que assiste ao show ao meu lado intima: “Ninguém levanta? Levanta e aplaude!”. Seguem-se mais de dois minutos de aplausos incessantes com todos de pé no teatro do Sesc Pinheiros coroando a estréia. Com grande parte do público dançando na frente do palco, “Kobune”, versão em japonês estilo Pizzicato Five de “O Barquinho”, fecha a noite em clima descontraído, e deixa a certeza que Fernanda Takai tem uma bela carreira solo pela frente.

fevereiro 9, 2008   Encha o copo

Ficamos na fita bruta…

“Terceiro Mundo Festivo”, quarto álbum de Wado, já pode ser baixado gratuitamente no endereço oficial do músico. Eu tenho muito o que falar sobre esse disco, mas enquanto eu tento me desamarrar das loucuras do dia-a-dia e ficar livre para escrever, que tal você ir lá e pegar “Terceiro Mundo Festivo”, que necessitou de uma audição e meia para tornar-se querido por aqui. Faixas como “Melhor”, “Fortalece Aí”, “Reforma Agrária do Ar” e a sensacional “Fita Bruta” estão no repeat aqui.

http://wado.com.br/

fevereiro 7, 2008   Encha o copo

Você descobre que está…

trabalhando demais quando, depois de cinco dias intensos de cobertura de carnaval, acorda às 10h30 da quarta-feira de cinzas em meio a um “grande pesadelo”:

Estou na redação, aquela correria, quando alguém chega:

– Pessoa 1: Marcelo, Marcelo, o MSN vendeu todas as suas ações para um conglomerado asiático que está tirando do ar todo o seu conteúdo…

– Pessoa 2: Não consigo entrar no MSN, não consigo entrar no MSN…

No meu computador, tento acessar o MSN em vão. Vou para a página deles, e sou encaminhado para outra, cuja paisagem remete ao Himalaia. É algo assustador (no sonho; terrivelmente engraçado agora), pois cada clique que dou, a página do MSN começa a carregar e, em seguida, aparece a paisagem do Himalia com palavras e frases em uma língua que não consigo entender.

A redação está uma balburdia, penso no iCQ como alternativa (ao mesmo tempo me pergunto: o ICQ ainda existe?) e no meio da piração lembro que o MSN também detém o Hotmail, e a essa altura todos os meus e-mails foram para o espaço sideral virtual. Começo a teclar calmamente o endereço quando… o telefone toca e eu acordo.

Acho que preciso de uma folga.

fevereiro 6, 2008   Encha o copo

Chazinhos não acalmam

“Igual”, os Gianoukas Papoulas

Música: Miranda/Rocha

Os erros não ensinam
Vitórias não empolgam
Pancadas não consertam
Afagos não consolam

Eu sei eu já tentei
e continuo igual
O mesmo coração
A mesma digital

As drogas não ajudam
Venenos não dissolvem
Chazinhos não acalmam
Remédios não resolvem

Eu sei eu já tentei
e nada em mim mudou
A mesma timidez
gritando quem eu sou

Os livros não explicam
Exemplos não envolvem
Conselhos não adiantam
Palavras não comovem

Eu sei eu já tentei
e agora tanto faz
Quando eu envelhecer eu vou ser uma criança
que já viveu demais

fevereiro 3, 2008   Encha o copo

Cenas da vida em São Paulo, Parte 6

O ônibus desce vagamente a Rua Augusta em direção aos Jardins. O tempo é mezzo frio e aquela famosa garoa paulistana marca presença. O trânsito não chega a ser caótico, mas é lento. O céu cinza lembra dias tristes.

O rapaz está indo ao cinema assistir a repescagem dos filmes da Mostra Internacional de São Paulo, finda um dia antes com a primeira exibição oficial de “Onde os Fracos Não Tem Vez”, dos Irmãos Coen, na América do Sul.

Pela janela do ônibus, o rapaz observa a movimentação de pessoas na Augusta. O ônibus atravessa a Paulista, passa pelo Conjunto Nacional e pára no sinal da Alameda Santos. Garoa e o transito é lento.

O veículo, lotado, atravessa vagarosamente a Alameda Santos e desce a Augusta devagar quase parando. O rapaz olha para fora e percebe um homem descendo a calçada. O homem pára em frente ao Habibs, em frente a três pessoas recostadas em uma pilastra. Ele faz um gesto característico de quem está pedindo cigarros para a mulher da ponta. Ela meneia a cabeça negativamente.

O ônibus desce vagamente, o que permite ao rapaz acompanhar a cena com calma. O homem insiste no pedido de cigarro, e um amigo ao lado da mulher à salva cedendo um bastonete nicotinoso ao pedinte. Ele pega, leva aos lábios, e faz outro gesto, pedindo fogo. O amigo da mulher acende, o pedinte agradece e deixa os três em paz.

Com o cigarro nos lábios, o pedinte desce a Augusta dando uma tragada tão forte que parece preencher todos os espaços de seu pulmão com nicotina. A calçada está movimentada. Aproximadamente dez passos após pedir o cigarro, o pedinte cruza um senhora vindo na direção contrária e… lhe desfere uma forte cotovelada. Sem mais nem menos.

A senhora cambaleia, mas não cai. Ela aparenta ter mais de 50 anos, enquanto o pedinte deve ter uns 30. Dentro do ônibus, o sangue do rapaz ferve. O ônibus acelera e pára no ponto. O rapaz desce do ônibus procurando o pedinte. Enxerga apenas a senhora, já recomposta, que parece tentar entender o que aconteceu, auxiliada por duas pessoas que também viram a cena.

O rapaz sobe a rua em sua direção, atônito. Antes, porém, cruza o pedinte, que está sendo devidamente “acariciado” por dois policiais. Eles o levam para uma entrada de caixa eletrônico, e a última imagem que o rapaz vê é o cigarro voando amassado e beijando a calçada da Rua Augusta. Ele dá meia-volta e não consegue parar de pensar no quanto “Onde os Fracos Não Tem Vez” é real.

fevereiro 1, 2008   Encha o copo

Grito Rock 2008 amplia território

Enquanto Ivete Sangalo, Ana Carolina, Kid Abelha e Jota Quest lideram as paradas de sucesso em todo o país, uma geração de novos artistas batalha fora da grande mídia apostando em trabalhos autorais. A grande diferença de outros tempos é que, agora, não há uma região especifica fomentando esse cenário, mas sim todo o Brasil, do Acre até Porto Alegre, passando por Goiânia, Cuiabá, Porto Velho e dezenas de outras cidades que, juntas, vão integrar o segundo Grito Rock Nacional. Ou melhor: o primeiro Grito Rock América do Sul, já que Argentina, Uruguai e Bolívia integram a versão 2008 do projeto.

Exatamente no meio de carnaval, um exército de bandas estará empunhando instrumentos em 44 cidades brasileiras e três estrangeiras (Montevidéu, Buenos Aires e Santa Cruz de La Sierra) exibindo uma organização que impressiona e, sobretudo, abre novas possibilidades para a música brasileira. Foi se o tempo em que as bandas surgiam imaginando vender milhões de discos, sonhavam em aparecer no Faustão e pensavam em tocar nas rádios AM e FM. O cenário mudou radicalmente, e as perspectivas precisaram ser revistas.

“Esse mercado médio já esqueceu do Faustão faz tempo”, diz Pablo Capilé, responsável pela área de planejamento do Espaço Cubo, produtora que organiza o Festival Calango, em Cuiabá, e que apostou na articulação nacional dos festivais independentes. “Esse novo modelo de negócio na música está formando os circuitos médios, que dão autonomia para as bandas e a possibilidade de investir em um novo modelo de carreira”, explica em conversa por MSN. Para Capilé, um novo cenário está se formando fortalecido por festivais, associações, casas de shows e, claro, boas bandas.

De certa forma, essa visão é avalizada pela votação de Melhores do Ano do site independente Scream and Yell, que reuniu 91 pessoas que lidam com cultura (prioritariamente música) no país e apontou nomes como Vanguart (Cuiabá), Terminal Guadalupe (Curitiba), Hurtmold (São Paulo), Violins (Goiânia) e Superguidis (Porto Alegre) entre os nomes de maior destaque em 2007. O fato – interessante – é que nenhum destes cinco nomes frequenta o Top 100 das paradas de sucesso que abre esse texto.

Isso poderia ser um problema alguns anos atrás, quando o cenário independente não se sustentava, quando as bandas não conseguiam espaço para tocar, quando alguns festivais lutavam bravamente (e isoladamente) em lugares longínquos como Goiânia e Recife. Agora a história é outra e o Grito Rock 2008 tem um papel fundamental nessa movimentação. No meio do carnaval, 44 cidades brasileiras vão abrigar festivais independentes de música. A lista completa pode ser conferida no site oficial do evento. Abaixo, Pablo Capilé conta mais novidades sobre o projeto, fala da movimentação no circuito independente e afirma: “A tendência é que tudo isso cresça cada vez mais”.

Grito Rock 2008. Esse já é o segundo ou o terceiro? Ou perdi os outros?

Na verdade este é o sexto em Cuiabá, e o segundo realizado em parceria com o Circuito Fora do Eixo, cuja ação inclui dezenas de cidades.

Como se deu esse contato e formou-se essa rede que engloba praticamente o país inteiro?

Na verdade, começamos o Grito aqui em Cuiabá em 2003, e nos anos seguintes demos continuidade a ação sempre a ampliando. Em 2003 foi um dia somente; 2004 dois dias; 2005 três dias; 2006 quatro dias, e 2007 e 2008 cinco dias. Em 2005 começou a surgir uma movimentação bem bacana na cena independente nacional, pautada principalmente no associativismo, e como conseqüência disso nasceram o Circuito Fora do Eixo e a Abrafin, Associação Brasileira dos Festivais Independentes. O Circuito Fora do Eixo consistia em integrar cidades distantes do eixo tradicional de produção fonográfica, potencializando assim a circulação de bandas e produtores, a distribuição de produtos e a produção de conteúdo. Com isso, em 2006 fizemos a primeira reunião do Circuito Fora do Eixo, justamente no Grito Rock Cuiabá, e nesta reunião foi elaborado o planejamento estratégico do circuito e definidas as primeiras ações. Para começar trabalhamos para que as bandas e os produtores circulassem mais, fazendo com que bandas do Acre tocassem em outros estados, bandas cuiabanas, rondonienses, belenenses, goianas, uberlandenses e etc… E durante o ano fizemos várias delas circularem, dai surgem bandas como o Vanguart, o Los Porongas, o Madame Saatan, o Macaco Bong, o Porcas Borboletas, bandas que começaram a despontar após o surgimento do Circuito e da premissa de circulação.

E isso resultou em um Grito Rock nacional no ano passado. Quais foram os números de 2007 e como está indo a coisa toda pra esse ano?

A união de tudo isso resultou no Grito do ano passado, onde 20 cidades que já participavam do circuito organizaram em conjunto o Grito Rock Brasil 2007. Em 2007, 20 cidades realizaram a ação, 300 bandas se apresentaram, 150 mil panfletos foram distribuídos, 20 equipes de sonorização contratadas, 500 seguranças, 130 vídeos produzidos, turnês realizadas, e mais de 50 mil pessoas acompanharam o evento. Além disso, o evento gerou quase R$ 2 milhões de mídia espontânea, já que além das mídias independentes, as mídias tradicionais também publicaram bastante, revistas de grande circulação. Todas as cidades conseguiram grandes matérias em jornais locais. Tudo isso chancelou o evento a tal ponto que conseguimos dobrar o numero de cidades para 2008, e incluir também outros países da América do Sul.

Quantas cidades já confirmaram para este ano?

47. 44 brasileiras e 3 gringas, sendo que no sul, norte, sudeste e centro oeste todos os estados estarão participando. No nordeste saímos de um estado em 2007 para 4 em 2008. O nordeste, devido a distância, está sendo o mais difícil de se consolidar a integração.

Três gringas? Estamos ultrapassando fronteiras?

Sim, estamos. Grito Rock Montevidéu, Grito Rock Buenos Aires e Grito Rock Santa Cruz de la Sierra. Seguindo também uma das premissas do Circuito e da Abrafin de articulação com os paises sul-americanos.

O legal é que isso abre portas para as bandas brasileiras nestes países…

Sem dúvida, e duas delas estarão se apresentando, Autoramas em Montevidéu e Macaco Bong em Buenos Aires.

Como alguém faz para colocar a sua cidade no Grito Rock? Quais os passos?

O Grito Rock funciona como um software livre: temos um código fonte em Cuiabá e esse código é readaptado por outras cidades conforme as realidades locais. O primeiro passo é a participação no Circuito Fora do Eixo, e depois disso cada cidade apresenta uma proposta de organização do evento que passa pelo conselho gestor do circuito e em dois dias a resposta é dada.

De um cara que tem experiência no negócio, como é montar um festival?

Festivais são o topo da cadeia produtiva das cenas locais, então precisamos nos ater sempre a diversos fatores, a começar por um bom planejamento, baseado em uma planilha de custos muito bem amarrada e interligada ao conceito do evento, sem falar na inter-relação com a iniciativa privada e com o poder publico, sempre na busca de alcançar a excelência de produção. Além das questões estruturais é sempre muito prazeroso trabalhar e montar a grade de programações e acompanhar a interface com o publico, que é a grande força motriz dessa história toda. E hoje, com a Abrafin, os festivais ganham ainda mais força, ampliando seu leque de atuação, e se estabelecendo definitivamente como a nova cara da música brasileira.

Como você analisa essa movimentação toda no cenário independente?

Estamos vivendo um momento muitíssimo promissor no cenário independente nacional, com festivais se consolidando, casas de shows surgindo, mídias independentes cada vez mais acessadas, bandas rodando o país e consolidando uma carreira, lançando CDs, recebendo cachês honestos, etc… Visualizando assim a efetivação de um mercado médio, onde o sucesso é pagar as contas e o artista é igual pedreiro, auto-produtor, gerente da sua carreira. A iniciativa privada tem investido cada vez mais, o poder público idem, e os produtores tem trocado tecnologia e se qualificado cada vez mais nesse mercado.

O fortalecimento dessa cena (e o Grito Rock é vital nisso) abre novas possibilidades para a música independente nacional. Olhamos a parada de sucessos e não vemos nada interessante. Você não acha que está na hora de esquecermos a ilusão das grandes gravadoras, de aparecer no Domingão no Faustão, de vender milhões de discos, e nos voltarmos para a nossa realidade, trabalharmos na construção de um circuito?

Cara, mas esse é o x da questão. Esse mercado médio já esqueceu do Faustão faz tempo. Ninguém mais tem como meta vender esses milhões e estourar nas paradas de sucesso das rádios jabás. Esse é o grande diferencial. Esse novo modelo de negócio na música está formando os circuitos médios, que dão autonomia para as bandas e a possibilidade de investir em um novo modelo de carreira. Lançando CDs todos os anos, tocando em festivais, e depois voltando para tocar nas casas de shows e em eventos menores. Tocando em web-radios, se divulgando nas mídias independentes. Tudo isso já é um mercado em franca ascensão e não dá mais pra não ser notado. Alguns festivais já tem orçamentos de mais de um milhão de reais. Só na Abrafin somos 30 festivais que fazem girar alguns milhões de reais por ano, sem falar nos outros elos desse mercado. Esta sendo lançada agora também uma associação brasileira de casas de shows, que já conta inicialmente com 10 casas, e que pretende incluir mais uma dezena de casas ate o fim do ano.

Muito boa essa notícia das casas de shows!

Temos também uma série de sites e blogs muito acessados, o Scream & Yell é um bom exemplo, o Senhor F, o Futuro da Música, e mais um montão que acessamos diariamente e que tem formado opinião de produtores, bandas e também do público. Além disso temos uma série de bandas despontando: Vanguart, Macaco Bong, Los Porongas, Superguidis, Trilobit, Madame Saatan, Porcas Borboletas, entre outras. Elas surgem dessa nova lógica e ocupam cada vez mais espaços no cenário. Não está vendendo milhões porque a lógica da grande indústria já esta falida, e os caras estão perdidinhos, sem saber como reverter esse quadro. Então veja bem: Associação brasileira de festivais, associação brasileira de casas de shows, mídias independentes, selos independentes, isso tudo vai formando a coluna dorsal desse circuito, e isso é um fato.

Exatamente!

Não tem ninguém aqui com discurso pseudo-socialista nem nada. Estamos apenas trabalhando por um mercado que é mais compatível com a nova realidade da música no país, e que se baseie em suportes construídos localmente, que quando integrados nacionalmente se transformam em uma cadeia produtiva muito promissora. Que se baseia na economia solidária, nas trocas solidárias, na democratização do acesso, na relação com o poder público e com a iniciativa privada, com a desmistificação do mito do artista em prol da autogestão de uma carreira, algo que já acontece em outros países e que cada vez mais toma forma no Brasil. Há algum tempo atrás a cena de Cuiabá não existia no mapa. Hoje tem produzido algumas das boas idéias e de boas bandas do país, o Acre a mesma coisa, Belém a mesma coisa, Goiânia nem se fala, Londrina, Uberlândia, estados do nordeste, e tudo isso proporcionado pelo estimulo que a organização de um mercado médio traz para todos os envolvidos. Para você ter uma idéia, todas as capitais do país hoje em dia possuem coletivos altamente produtivos que organizam dezenas de eventos anuais além dos grandes festivais, e que também tem seus selos, suas casas de shows, seus blogs e sites, se relacionam com o poder público, organizam turnês e etc…

Então é possível vislumbrar que uma banda consiga sobreviver de música sem estar na grande mídia. Caminhamos pra isso, não?

Sem sombra de dúvida: é possível. Algumas já conseguem sobreviver nessa lógica, e o Autoramas é um belo exemplo, o Vanguart outro, o Los Porongas outro. Já tem uma galera sobrevivendo única e exclusivamente da música, e a tendência é que isso cresça cada vez mais. Das centenas de bandas que estão no circuito poucas já sobrevivem só da música, mas isso é normal, o crescimento tem sido gradativo. E esse número vai aumentar cada vez mais. Tomemos os festivais como exemplo: alguns deles já são organizados faz mais de 10 anos, e com a criação da Abrafin, todos tem conseguido parcerias que auxiliam na estruturação destes eventos, tem cervejarias bancando todo o calendário, e a Petrobras acaba de lançar um edital para apoio aos festivais. Isso faz com que novos festivais comecem a surgir também estimulados pelo case de sucesso dos anteriores. E com as bandas não está sendo diferente. Muitas delas tem se dedicado cada vez mais a carreira e isso é o passo fundamental para sobreviver da música, entender a nova realidade e saber investir estrategicamente em todos os elos da cadeia produtiva. A mesma coisa com as casas de shows, o sucesso de uma estimula o surgimento de outra e só esse ano várias cidades já estão planejando o lançamento de suas casas. A tendência é que tudo isso cresça cada vez mais.

janeiro 30, 2008   Encha o copo

Cinema: “Conduta de Risco”

“Conduta de Risco”, de Tony Gilroy – Cotação 2/5

Michael Clayton já foi promotor de justiça, vem de uma família de policiais, mas neste momento trabalha para uma grande empresa de advocacia. Sua função: faxineiro. Bem, mais ou menos isso. Michael, na verdade, ganha uma fortuna para limpar a sujeira dos clientes da firma Kenner, Bach & Ledeen, desde um caso em que o homem atropelou alguém e fugiu da cena do crime até grandes empresas atoladas em processos milionários.

Nosso amigo poderia estar bem de grana se seu bar não tivesse falido, se ele não fosse viciado em carteado e se não devesse um belo montante para um agiota. Como se os problemas financeiros não bastassem, Michael fica encarregado de limpar a sujeira de um outro “faxineiro”, Arthur Edens, um dos seus melhores amigos na corporação. Arthur surtou em um julgamento, tirou toda a roupa em frente ao júri e está prestes a sabotar uma mega corporação em um processo de bilhões de dólares.

Após uma boa carreira como roteirista – tendo escrito a trilogia “Bourne” e o ótimo “O Advogado do Diabo” –, Tony Gilroy estréia na direção (sem largar o roteiro) e constrói um excelente thriller político – ancorado em um grande time de atores (George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton e Sydney Pollac) – que arrebatou sete indicações ao Oscar, incluindo os badalados Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Clooney), Melhor Ator Coadjuvante (Wilkinson), Melhor Atriz Coadjuvante (Swinton) e Melhor Roteiro Original. Para um filme de estréia, vamos combinar, não é nada mal.

Porém, mesmo com a mão certeira na direção e roteiro, e com a equipe recheada de atores acima da média, “Conduta de Risco” soa deja vu em grande parte de seus 119 minutos. A escolha de George Clooney para o papel principal soa equivocada, não que ele não seja capaz de arrancar do personagem uma grande atuação, mas porque ele ganhou um Oscar dois anos atrás com um papel praticamente igual a este. Em “Syriana”, Clooney era um agente veterano da CIA trabalhando no Oriente Médio. Em “Conduta de Risco” ele é um advogado veterano trabalhando em Nova York. Acredite: praticamente inexistem diferenças entre os dois personagens.

“Syriana”, que discutia a indústria do petróleo, já vinha embalado por uma onda de filmes que escancaravam os meandros políticos das grandes corporações cuja lista inclui “O Informante” (1999), sobre a indústria do tabaco; “Erin Brockovich” (2000), indústria química; “O Júri” (2003), indústria de armas; e “O Jardineiro Fiel” (2005), indústria farmacêutica. Há praticamente um pouco de cada um destes filmes em “Conduta de Risco”, principalmente “Erin Brockovich”e ”Syriana” (devido à presença marcante de George Clooney), que apesar da mão certeira, não supera em qualidade nenhum dos citados.

O submundo das grandes corporações é um prato cheio para bons filmes e discussões. Se levarmos em conta o best-seller “Sem Logo – A Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido”, de Naomi Klein, filmes ágeis como este “Conduta de Risco” mostram perfeitamente como as decisões mais importantes do mundo estão sendo discutidas, definidas e aprovadas em uma pequena sala com poucas pessoas, longe da grande sociedade. Enquanto escrevo (e você lê), pessoas que não conhecemos decidem o nosso futuro. É bastante assustador, e apenas por trazer o assunto à tona, “Conduta de Risco” já merece crédito, mesmo soando repetitivo e sem personalidade.

Desta forma, na teoria, politicamente falando, “Conduta de Risco” é um filme interessante e necessário em uma sociedade cada vez mais apática e dominada por um grupo minoritário de pessoas. Porém, na prática, cinematograficamente ele é um placebo, um filme fórmula perfeito na execução, mas igual – e até inferior – a vários outros do mesmo gênero. Não se impressione pelas sete indicações ao Oscar. Tony Gilroy vai sair da premiação como entrou: com as mãos vazias…

janeiro 30, 2008   Encha o copo

Lojinha Scream & Yell

Tshirts Scream & Yell – Cultura Pop

Preço: R$ 20 (frete incluso)

Tamanhos
Masculino: M e G
Feminino: P e M

Enviamos para todo o Brasil; Pagamento via depósito bancário

Pedidos e informações: maccosta@hotmail.com

janeiro 29, 2008   Encha o copo

Jonas Sá e a nova música pop brasileira

Arnaldo Antunes e Jorge Mautner escreveram textos elogiosos a seu respeito. Toda a jovem galera que anda batalhando para transformar a nova MPB em algo maior está envolvida neste projeto, gente da Orquestra Imperial (inclua-se os ex-Los Hermanos Rodrigo Amarante e Bubu), do trio +2 (Domenico e Moreno), do novíssimo e já badalado DoAmor (formado por dois terços da banda que acompanhou Caetano Veloso no elogiado “Cê”), e nomes respeitados como Lucas Santtana, Rubinho Jacobina e Thalma de Freitas. Como diria um amigo, Jonas Sá não é bolinho não.

“Anormal”, seu álbum de estréia, chega cercado de expectativas, seja pela longa lista de amigos que participa do álbum, pelos elogios de famosos ou por estar sendo bancado por um novo projeto de uma gravadora com portas abertas na TV Globo. Tudo isso poderia não servir para nada se Jonas Sá não tivesse jeito pra coisa toda, mas “Anormal”, um álbum feito ao longo de seis anos, necessita apenas de uma audição para exibir seu frescor pop que pode contaminar milhares de pessoas ao redor desse imenso Brasil.

No entanto, vários parênteses precisam ser abertos para explicar algumas coisas que ficaram semi-explicitas nos dois parágrafos anteriores, e que podem levar a conclusões apressadas e confusas. O primeiro ponto é que esta nova MPB chega cheia de novas idéias que ousam ultrapassar fronteiras. Desta forma, “Anormal” é tão Jorge Ben quanto é Beck; é tão Cassiano quanto Talking Heads; é tão Lulu Santos quanto Of Montreal. É Brasil, mas é internacional. E ao juntar MPB com rock e outros suingues e barulhos, “Anormal” soa pop da melhor qualidade, um disco para agradar ao Zé da esquina e ao DJ antenado da balada mais bacana.

O apuro técnico da produção e da mixagem impressionam. Todos os sons do disco transbordam pelas caixas de som com uma clareza raramente vista do lado debaixo do Equador, o que torna imprescindível sua audição via fones de ouvido. Teclados, metais, cordas, vozes, bateria, percussões, baixo, guitarras, muitas guitarras (acústica, slide, noise, aquática, fuzz, pica pau, etc…), banjo, barulhinhos: todos os sons – embaralhados de forma coesa nos bons arranjos – são jogados no colo do ouvinte, para seu deleite. Em poucos discos no Brasil o som soa tão cristalino – e tão bem gravado/mixado – quanto em “Anormal”.

A faixa título, que abre o CD, é um bom exemplo. A linha de baixo disputa a atenção do ouvinte com a voz. O violão preenche o ambiente enquanto mais de seis guitarras diferentes pontuam o arranjo durante os três minutos e meio da canção. Isso sem falar no banjo, na viola, nos violinos, nos violoncellos, nos teclados Rhodes e no moog. Essa proliferação de instrumentos e sons pode parecer grandiloqüente, mas, acredite, resulta numa mistura perfeita que gruda na cabeça, impressiona e serve como excelente entrada para o mundo de Jonas Sá. Ele canta: “Todo mundo pensa que ele é anormal / Com as suas plumas e seu chapéu fenomenal”. Para o final da canção, uma tempestade de barulho que pode derrubar paredes.

Há em Jonas Sá uma paixão pela esquisitice. Apesar de soar pop, suas canções não trazem versos fáceis como, por exemplo, os de Lulu Santos. A parte final de “Tenha Um Bom Dia” é puro chiclete, mas antes Jonas dispara: “Vá viver sua vida, vá à merda”. A próxima, “Sayonara” é sensacional, muito por mérito do diálogo perfeito das guitarras com o baixo e de seu refrão totalmente excêntrico: “Então… você não vai tentar fazer essa ginástica diária de loucura, não”. A baladinha com sotaque soul “Real Love, Real Player”, apesar do título em inglês, é toda cantada em português. Mas duas canções do álbum são apresentadas na língua de Stevie Wonder: “Looking For Joy” (com a voz à frente e batidinha de samba) e “Behind My Mind”. A estranheza de “Melhor Assim” é uma vozinha distorcida ali pelo meio. “Vs (Versus)” ultrapassa os cinco minutos. “Comunicação” lembra Blur. “Mega” e “Entre Nós 2? tem trechos que navegam nas águas de Tim Maia. E todas elas poderiam tocar na novela das oito, no Domingão do Faustão e serem sucessos em rádio.

É aqui que entra o Som Livre Apresenta, projeto criado pelo atual presidente da Som Livre, Leo Ganem, que pretende apostar em artistas novos com trabalhos autorais, aproximando-os da caixinha que diverte enquanto emburrece. A notícia é boa. Como o mercado nacional está completamente falido, como as paradas de sucesso não abrem espaço para o novo e o diferente, como as rádios estão viciadas em uma programação repetitiva e desinspiradora/desesperadora (se você ligar o rádio agora irá ouvir em alguma estação “Sweet Child O´Mine”), um espaço como o Som Livre Apresenta é bem-vindo e pode significar uma guinada na história da música popular brasileira.

Porém, você sabe, de boas idéias o inferno está cheio. A vitalidade da cena abarcada no primeiro parágrafo deste texto (e também do novo rock nacional encabeçado por Superguidis, Violins, Vanguart e Terminal Guadalupe, entre outros) não deve ficar refém da tentativa de alcançar as paradas de sucesso. A alternativa, talvez, seja optar pelo contrário: mostrar o quão irrelevante é o Top Ten brasileiro. Sinais disso já podem ser percebidos aqui e ali. Seja nos festivais independentes que reúnem centenas de bandas por todo o país. Seja a Orquestra Imperial lotando shows sem um décimo da exposição na mídia que ganha uma Ivete Sangalo. Seja o Vanguart tendo seu hit independente, “Semáforo”, sendo reconhecido em uma casa lotada nos primeiros segundos da bateria.

Jonas Sá chega para reforçar o time (como um centroavante com sede de bola) de jovens talentos fora da grande mídia. “Anormal” é um golaço que pode significar o começo de uma grande virada na música popular brasileira. Agora, a bola está com você, caro leitor. Divirta-se e chute com força. Ok, ok, sem futebolismos: ouça no volume máximo. E danem-se as paradas de sucesso.

janeiro 28, 2008   Encha o copo

Um rastro de sambas antigos

“Na flauta, Maionese”, aplausos ecoam no teatro. “Maionese, me empresta aquela flauta, a menor. Então, quando eu era menino, eu subia na laje e tocava uma flauta do tamanho dessa”. O público gargalha com a metáfora ilícita. “É sério. Eu ficava lá horas tocando flauta e tal, não tinha tantas teclas como essa, mas era uma flautona. A mãe gritava, ‘Luiz, desce da laje’. Eu descia e já escrevia umas quatro músicas. Hoje em dia eu não faço mais isso. No máximo, uma cervejinha. E olhe lá”.

Nada mais perfeito para começar a verbalizar o show “Estação Melodia” do que a história contada pelo próprio músico durante o show que encerrou sua temporada no Sesc Pompéia. “Estação Melodia”, o disco, quebra um hiato de dez anos de Luiz Melodia em estúdio. Seu álbum anterior, “14 Quilates”, data de 1997. De lá pra cá, apenas um disco acústico (1999) e um ao vivo com convidados (2003).

Para esta volta ao estúdio, Luiz Melodia (sem tocar flauta) deixou seu dom de bom compositor de lado e investiu em um repertório de sambas antigos (coisas dos anos 30, 40 e 50). “Estação Melodia”, o show, como não poderia deixar de ser, é uma verdadeira roda de samba: cercado por oito músicos, Melodia interpreta canções de Noel Rosa, Jamelão, Geraldo Pereira e Cartola, entre outros. E amplia o leque enxertando Chico Buarque, Vinicius, Zé Kéti e, claro, Luiz Melodia.

Assim, sambas empolgantes como “Eu Agora Sou Feliz”, de Jamelão e Mestre Gato, e “O Neguinho e a Senhorita”, de Noel Rosa e Abelardo da Silva, caem como uma luva na voz encharcada de malandragem de Melodia. Na segunda, inclusive, ele faz questão de abrir os botões da camisa e acariciar a pele enquanto canta: “A Madame tem preconceito de cor / Mas não pôde evitar esse amor / Senhorita foi morar lá na Colina / Com o Neguinho que é compósito”.

“Gente Humilde”, com o octeto reduzido a um trio com violão, viola e cavaquinho, soa ainda mais arrepiante do que já é. “Diz Que Fui Por Ai” (que ficou de fora de “Estação Melodia” assim como a parceria de Vinicius, Chico e Garoto) e “Tive Sim” (de Cartola) reluziam a ouro em versões impecáveis, e só ficaram atrás da dobradinha “Estácio, Holly Estácio” e “Estácio, Eu e Você”, que surgiram simplesmente acachapantes. O solo de cavaquinho na última teve o dom de marejar os olhos.

Para o final, Luiz Melodia reservou um samba de seu pai, Oswaldo Melodia. “Linda Tereza” transforma o show em um grande baile de samba. O trio de metais abandona os instrumentos e assume repique, reco e reco e pandeiro. Aos poucos, os violões são abandonados e tudo vira uma grande batucada com Luiz Melodia comandando a farra. Ele chama pessoas para o palco, que lota, e só para de cantar quando já está dentro do camarim, deixando para trás um rastro de sambas antigos e a felicidade estampada na face do público.

janeiro 28, 2008   Encha o copo