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Uma noite de vinho e de sangria ibérica

Duas jarras de sangria / Foto: Marcelo Costa

A festa do vinho: no total, 19 pessoas, 14 garrafas de vinho Concha Y Toro (eu devia ter pedido patrocínio para os chilenos) de uvas variadas (Carmenere, Merlot e Cabernet Sauvignon Tinto e Branco). Cinco litros de sangria com receita portuguesa (a gente chega lá) mais seis pacotes de amendoim sem pele, quatro de bolinhas de amendoim, nove pacotinhos de Pingo D’oro e oito pacotes de torradinhas com diversos patês. Deu tudo certo. Ufa.

A segunda festinha do projeto Inverse My Fridge (a primeira foi essa aqui) visava festejar a chegada da geladeira antiga, que virou um quadro com espaço para fotos. Ou seja, a nossa pequena geladeira branca agora está pendurada na parede da sala (ok, ok, apenas uma parte dela). Lili colocou diversas fotos da viagem a Europa que fizemos em julho e improvisei um local para o quadro da Fernanda Guedes ficar até eu conseguir colocá-lo na parede.

Quadro de Fernanda Guedes / Foto: Marcelo Costa

Já a festinha, bem… levamos a sério o conceito de vernissage, afinal, a idéia era reunir os amigos e apresentar a arte feita pela Fernanda. Então resisti bravamente e não coloquei cerveja na geladeira (e bebi as que eu tinha durante a semana – fiz esse esforço). A noite seria de vinho, e decidimos aproveitar o excelente preço dos Concha Y Toro para fazer uma noitada especial. E, pelo jeito, os amigos aprovaram.

Aproveitando o dia quente, e pensando ainda nas pessoas que não são tão simpáticas ao vinho, como eu, que até bebo mas preferiria outra coisa, decidimos arriscar uma receita de sangria, a original, inspirados na lembrança daquela que bebemos na Plaza Mayor, em Madri, e que eu bebi no calçadão de Málaga, que além de ser (aparentemente) mais leve serviria para dar uma refrescada no calorão.

A alegria da Liliane / Foto: Jeanne Callegari

No fim das contas acabei chocando duas receitas. Uma descritiva do JC, um aventureiro português na cozinha, que conta a história da sangria no começo de seu post e passa excelentes recomendações. Tipo usar a massa da receita (as suas frutas eleitas – no nosso caso, abacaxi, maça, limão e laranja – curtidas na cachaça e no açúcar mascavo) Para o JC não se deve colocar nem água nem soda ou o quer que seja na sangria pura.

“A sangria deve servir-se em copos grandes, só com gelo, para os mais aventureiros e afoitos e “cortada” com refrigerantes, na quantidade que se desejar, para as crianças, os condutores e os que têm outras coisas – que não dormir – para fazer depois do repasto. Para as crianças costumo “tingir” o copo com um pouco de sangria e atestar com 7UP ou outro tipo de gasosa.” Leia o post todo (vale, vale, vale) aqui.

Alegria, alegria / Foto: Jeanne Callegari

O post do JC tem várias dicas ótimas, mas não tem quantidades de doses nem de frutas, por isso decidimos juntar a receita dele com uma que encontramos no Panelinha (aqui), que tem pouco a ver com a sangria original, mas serviu como base dos ingredientes. Assim, da junção das duas criamos a nossa sangria, a Sangria Scream & Yell (vou registrar a marca), que me lembrou muito a sangria deliciosa que bebi em Málaga (essa aqui).

Primeiramente fizemos duas receitas, que renderam quase quatro litros de sangria. E após terminada a primeira leva, aprovada por todos os presentes (que, sinal de acerto, queriam mais), aproveitamos para juntar a massa curtida das duas primeiras receitas em uma mesma jarra, e misturar novamente vinho, cachaça e açúcar mascavo para mais uma jarra de sangria. Se eu não tivesse bêbado cravaria que ficou melhor.

Sangria / Foto: Marcelo Costa

Abaixo a receita:

750 ml de vinho tinto seco
3 laranjas
2 limões
1/2 abacaxi
2 colheres (sopa) de açúcar (se for mascavo, melhor)
1 dose de cachaça
1 dose / 60 ml de contreau (ou conhaque)
1 dose / 60 ml de gim
Hortelã

Modo de Preparo

1. Prepare as frutas: descasque o abacaxi e a maçã e os corte em cubinhos pequenos. Jogue os cubos no fundo de uma jarra. Pegue uma laranja e um limão e os corte em rodelas. Jogue-as na jarra também.

2. Pegue as duas laranjas e um limão e esprema o caldo na jarra.

3. Coloque as 2 colheres (sopa) de açúcar sobre a mistura, e acrescente a dose de cachaça.

4. Com uma colher de pau, um rolo da massa ou outro instrumento, amasse todo o conteúdo até formar uma papa indistinta (ou até você cansar).

5. Despeje uma garrafa de vinho tinto seco na jarra. Aqui, vale a lembrança: vinho ruim, sangria ruim. Vinho bom, sangria boa.

6. Junte à mistura uma dose de contreau e uma dose de gim. Mexa bem. Prove a sangria ainda quente, sem gelo. Se estiver muito doce acrescente limão, se estiver muito forte, acrescente vinho. Quando estiver perfeitamente equilibrada, tapa-se com um pano limpo e vai para a geladeira durante – pelo menos – 24 horas acrescida de pequenas folhas de hortelã.

7. No dia seguinte, acrescente folhas de hortelã como rodelas inteiras de maçã e laranja, para enfeitar. Sua sangria está pronta.

Ainda não acabou, ou melhor, quando acabar, a “massa” que fica no  fundo da jarra rende novas sangria durante cinco dias bastando adicionando-se metade dos ingredientes, mais açúcar e vinho. Uma delícia.

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Ps. Queria agradecer ao pessoal da Live AD pelo convite para participar do projeto Inverse My Fridge, à queridíssima Fernanda Guedes pelo lindo quadro, e a presença de todos os amigos queridos que, com sua alegria e histórias, transformaram esse apartamento da rua Bela Cintra em um dos lugares mais legais do mundo por algumas horas. Todas as fotos aqui.

Ps2. Não acordei de ressaca. \o/

Concha Y Toro, rola uma parceria? / Foto: Liliane Callegari

dezembro 23, 2009   Encha o copo

A minha geladeira antiga virou um…

Alguns recortes do objeto de arte que se transformou a minha velha geladeira no projeto Inverse My Fridge, by Fernanda Guedes. Eu e Lili gostamos. Mais fotos aqui. Amanhã reuno alguns amigos em casa para exibir o mimo, e volto pra contar e mostrar a obra inteira.

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dezembro 21, 2009   Encha o copo

Os 10 melhores filmes que vi neste ano…

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Listinha para o amigo André, do Cinezen Cultural. Só valia filmes que estrearam no país em 2009, e só por isso “Whatever Works”, de Woody Allen, não está na quarta posição. Mas preciso pensar com mais calma. Foi lista rápida.

01) Katyn, Andrzej Wajda (resenha aqui)
02) Bastardos Inglórios, Quentin Tarantino (resenha aqui)
03) Gran Torino, Clint Eastwood (resenha aqui)
04) Se Beber, Não Case, Todd Phillips (comentário aqui)
05) 500 Dias Com Ela, Mark Webb (resenha aqui)
06) Se Nada Mais Der Certo, José Eduardo Belmont
07) A Todo Volume, Davis Guggenheim (resenha aqui)
08) Simplesmente Feliz, de Mike Leigh (resenha aqui)
09) Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes (resenha aqui)
10) Apenas o Fim, Matheus Souza (resenha aqui)

dezembro 15, 2009   Encha o copo

Um almoço no Inverse My Fridge Day

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“Eu não acredito no quanto nós bebemos”. Com essa frase, Lili definiu – mais ou menos – como foi o nosso Inverse My Fridge Day. Recebemos seis amigos em casa no domingo para um pesto genovês acompanhado de muita salada, cerveja belga e vinho português. Vou dizer: foi cansativo, mas extremamente prazeroso. Das coisas que, se eu pudesse e tivesse dinheiro, faria muito mais vezes no ano.

O dia começou comigo indo para a feira comprar paisagem. Trouxe alface crespa, alface americana, rúcula, manjericão e limão (vai que alguém quisesse se aventurar numa caipirinha). Lili foi a Bela Paulista comprar um doces para a sobremesa. De volta a casa, dividimos as tarefas e mãos a obra: descasca alho daqui, polvilha a receita de queijo parmesão ali, um pouco de pimenta do reino, sal, pinoles moídos, azeite e… pronto.

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Arrumamos a mesa na sala e descobrimos que não temos peças de cozinha em grande quantidade. Então, as três taças de cristal vindas de vinícolas de Santiago (agora duas, pois Lili quebrou uma no fim da noite) ficaram com as meninas enquanto os homens beberam nas taças toscas mesmo. Não tínhamos oito pratos iguais também, mas os copos para água eram todos iguais. Acho que a única coisa que temos em quantidade.

Levamos a mesinha da cozinha para a sala e ajeitamos. Fizemos, ainda, um pré-teste de brusqueta, que ficou ok. Tiago Agostini foi o primeiro a chegar. Alguns minutos depois chegou Tiago Trigo, com uma garrafa de vinho branco para entrar na fila do esvaziamento. Em seguida, Marco e Luisa, que trouxeram pudim de doce de leite. Jonas e Elisa chegaram logo depois, e começou a correria.

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Fizemos uma entradinha básica de brusqueta acompanhada de uma torradinha especial de alecrim acompanhada de vinho branco (o português Periquita) para a maioria, e cerveja (a belga Hoegaarden) para a minoria. Todos presentes, então massa na água fervente para não perdemos tempo. Quase 14h da tarde, a fome começa a bater. Em três minutos tínhamos espaguete suficiente para um batalhão… de amigos.

Arrependo-me de termos feito duas receitas exatas para oito pessoas. Devia ter feito uma terceira para deixar de sobra, para os convidados passarem no pão italiano e sentirem o gosto perfeito da mistura de manjericão, azeite, pinoles, queijo parmesão, alho, sal e pimenta do reino. Como só fiz duas receitas, uma foi para a enorme tigela de macarronada e a outra ficou a gosto de quem quisesse incrementar mais o prato.

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Todos elogiaram, e comemos tanto que acho que nenhum de nós chegou a jantar no domingo. Aliás, comemos e bebemos. Foram 19 Hoegaardens e 6 garrafas de vinho, sendo cinco vinhos brancos e um licoroso da Concha Y Toro que compramos em Vina Del Mar, animados após os elogios embasbacados de um brasileiro dentro do supermercado. Ressaca? Um pouquinho de dor de cabeça. E só.

Fiquei imensamente feliz, pois a mesa fluiu. A turma toda conversou, gargalhou, contou piadas, causos, impressões de trabalho e me senti orgulhoso por poder reunir tantas pessoas bacanas em um mesmo lugar. Logo eu, que achava que com o passar dos anos iria viria um velho chato e caseiro distante dos amigos. Nada como pessoas queridas para fazerem o coração da gente, machucado e tristonho, voltar a bater com gosto.

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Ok, ok. A tarefa de cozinhar para oito pessoas é extremamente extenuante. A gente meio que parece perder o controle da cozinha quando a comida aumenta. Uma coisa são dois pratinhos para o casal no dia-a-dia. Outra são oito pratos num fim de semana especial. Apesar do stress natural, valeu a pena. Todos ficaram aparentemente felizes, e este domingo é daqueles que facilmente eu repetiria de novo. Valeu a experiência, Brastemp.

As fotos do almoço estão aqui, e se você quiser também tentar fazer um pesto em casa, a receita – simples e básica – é esta aqui. Agora é esperar a Fernanda Guedes terminar o trabalho para sabermos no que se transformou a nossa geladeira. Curiosidade! Veja também como foi a festinha da geladeira da Casa da Chris (aqui) e como ficou a geladeira da Anita, do Objetos de Desejo (aqui). E no flickr do Inverse My Fridge já tem fotinhos do encontro que tive com a Fernanda (aqui).

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dezembro 14, 2009   Encha o copo

Um exercício de desabafo

Não perca tempo com isso. É só um exercício de desabafo.
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Estou cansado. Muito. Demais da conta. Não, não é só um cansaço físico. Estou cansado de estar vivo. Respirar anda pesando. E o que a gente faz numa dessas? Um espertinho diria: “Se mata”. É uma opção, não nego, mas quem diz isso não entende que a minha paixão por Woody Allen, por exemplo, começa deslumbradamente em “Annie Hall”, na forma em que ele explica a vida, que segundo o personagem Alvin Singer é “cheia de solidão, miséria, sofrimento e tristeza, e acaba rápido demais”.

É isso. Sem mais, nem menos. A gente se fode um bocado na vida, mas se eu puder viver 100 anos, com condições lúcidas, eu quero. É agora a hora em que alguém anota ai em cima o meu pedido. Nesses momentos de tristeza máxima, de se sentir um nada, lembro de uma velha canção de Raul Seixas, com letra de Paulo Coelho, que começa tristonha ao piano dizendo “tem dias que a gente se sente, um pouco talvez menos gente”. E depois de enfileirar toda macumba possível, a letra finaliza dizendo que está em qualquer profecia que o mundo se acaba um dia.

Esqueça o fim do mundo e concentre-se na tristeza. Estou dizendo isso para você, e também para mim. A tristeza é um ato umbiguista do caralho, mas lembrando de um ditado tosco, só quem come prego sabe o cu que tem. Pequena pausa risonha. Lili acabou de dizer que estou reclamando da vida. De novo. Oras, tem como aceitar essa vidinha que dão pra gente e dizem pra gente viver feliz e alegremente? A gente se engana durante algum tempo, mas a ficha cai. E dói. E cansa. É algo cíclico.

Sei lá. Estou cansado do mundo. Estou cansado do meu trabalho. Não sou daqueles que daria a vida para não trabalhar. Durmo sorrindo quando escrevo um texto besta como esse do Otto ou quando passo cinco horas decupando uma entrevista, como fiz com esse ótimo bate papo com o Wado. São coisas que me realizam, que me animam e me fazem ter vontade de chutar o mundo lá para o infinito enquanto os sonhos mais tolos se realizam, mas nem todos os dias são assim, afinal, as contas chegam.

Lili, que me ama de um jeito que me comove, tenta procurar saídas. “Eu queria te ajudar, mas não sei como. Vamos pedir demissão e ir pra Londres?”. “Será que adianta?”, eu respondo perguntando. “Será que a tristeza não está dentro de você?”, ela me devolve a pergunta, e eu acho que em dias como esse a tristeza mora sim em mim. Eu queria poder fazer mais do que eu faço, mas, bingo, quem não gostaria. Sinto-me vestindo meu uniforme de idiota. Ok, eu sou assim. Desculpe-me a decepção. O pescoço pesa sobre a cabeça.

Melhor falar sobre coisas práticas. Estou terminando de recontar os votos dos melhores da década do Scream & Yell. Foram 67 amigos votando, e o resultado ficou bem legal (ao menos a prévia). Aquela banda que todo mundo adora odiar hoje em dia deu um banho na concorrência, e acho que o Top 20 permitirá uma bela análise dos últimos 10 anos de nossas vidas. Talvez isso me baste por enquanto. Tem coisas extras para contar, mas vou guardar isso prum momento feliz. Acho que agora, sobretudo, eu queria me esconder. Vou tentar fazer isso. Ahhhhh, a tristeza…

Ps. Não consigo pensar em tristeza e não lembrar disso aqui

dezembro 7, 2009   Encha o copo

Top Five momentâneo de Seinfeld

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Ainda estamos no terceiro DVD da quinta temporada, mas animados pelo excelente episódio que vimos hoje, arriscamos um top 5 até o momento. Ainda falta bastante. Estamos no episódio 78, e são 180, mas os cinco preferidos até agora são…

1) The Red Dot
2) The Contest
3) The Marine Biologist
4) The Chinese Restaurant
5) The Outing

Leia também: sobre o episódio piloto de Seinfeld aqui

dezembro 1, 2009   Encha o copo

A solidão do centro de São Paulo no domingo

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Rua da Quitanda / Foto: Marcelo Costa

O domingo está nublado. Quem caminhar pela selva de pedra que é o centro velho de São Paulo vai entender porque chamam essa cidade de terra da garoa. As gotas insistem em cair preguisosamente. Uma aqui, outra acolá beijam o asfalto cinzento. O centro financeiro da cidade de 11 milhões de habitantes está vazio.

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Detalhe: Praça do Patriarca / Foto: Liliane Callegari

Uma turma de italianos fotografa o Edíficio Martinelli (esse). Em frente ao largo São Bento, no Café Girondino (esse), uma mesa é ocupada por duas britânicas acompanhadas de uma brasileira. A mesa seguinte está vazia. E na outra, um brasileiro conversa com um canadense e um norte-americano. O inglês britânico e o norte-americano dançam na atmosfera.

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 Detalhe: Rua São Bento / Foto: Marcelo Costa

Não se ouve a língua portuguesa até um garçom pedir uma cerveja enquanto o outro entretém os turistas em um inglês impecável. As inglesas riem. Os norte-americanos estendem o papo assim que o garçom conta que conhece Chicago. Os ocupantes das duas mesas, antes de deixarem o café, pedem uma foto ao lado do garçom de recordação.

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Praça do Patriarca / Foto: Liliane Callegari

A garoa às vezes vira chuva, às vezes vira brisa. Os prédios imponentes pedem atenção com suas portas enormes de metal. Um trio de chilenos fotografa uma fachada. Outra fachada destaca dois homens segurando o prédio inteiro nos ombros (aqui). Detalhes insuspeitos da cidade brotam na solidão do centro de São Paulo em um domingo cinza e bonito.

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Centro Cultural Banco do Brasil / Foto: Marcelo Costa

novembro 25, 2009   Encha o copo

De volta ao mundo de Rob Fleming

Capa estilizada da trilha sonora do filme “Alta Fidelidade”

Estou relendo “Alta Fidelidade”. Não sei a razão. Na verdade, estou relendo este Nick Hornby no mesmo momento em que me encaminho para o final do soberbo “A Love Supreme, a Criação do Álbum Clássico de John Coltrane”, de Ashley Kahn. E olha, é bem raro eu ler dois livros ao mesmo tempo. Acho que isso deve ter acontecido poucas vezes na minha existência. Geralmente pego o livro e ou vou com ele até o final sem olhar pra tras, ou abandono em alguma esquina do quartinho da bagunça.

Alguns dias atrás, não lembro o motivo, me animei e separei três livros para ler neste fim de ano: “Alta Fidelidade”, “Pergunte ao Pó” (li meu primeiro John Fante neste semestre) e “O Álbum Negro”, do Hanif Kureishi, que é um escritor que adoro. A idéia era terminar o “A Love Supreme” e embalar em um dos três, mas o “Alta Fidelidade” pulou no meu colo e quando vi já estava na página 82 evitando a lista das coisas desagradáveis (não vou cair nessa de novo, Rob) e pensando como o ser masculino é tão particular.

Talvez o livro tenha voltado devido a uma promoção do Submarino, que tinha colocado vários livros do Horby a R$ 10. Ou então me animei com os bons comentários que “Juliet, Naked”, novo livro do escritor, tem recebido por ai. Ou talvez, ainda, eu esteja voltando ao mundo da literatura, território em que vivi dos 9 aos 29, e que desde então só vou passar férias rápidas. Sei lá. Além dos livros citados a fila ainda tem “Ensaios de Amor” (pra reler) e “Arquitetura da Felicidade”, os dois do Alain de Botton.

Aguardo ainda ansiosamente um exemplar da coleção completa de Oscar Wilde (amo os contos “infantis” no miolo do livro), que comprei na Estante Virtual, e já decidi que meu presente de natal será a coleção completa de Shakespeare, mas não essas novas em três ou quatro volumes, e sim uma em 22 livros, igual a que me acompanhou durante toda a adolescência em Taubaté. Já até liguei na Biblioteca Municipal da cidade para pegar o ano, a edição e a editora dos volumes que li, e que só faço questão de ser a mesma pelos extensos apêndices que dão um panorama interessante da escrita de Shakespeare.

Risos. Coisa estranha. Não tem nexo nenhum esse post. A idéia inicial era falar do “Alta Fidelidade”, dizer que recebi ele de natal em 1998 – num pacotinho cheio de badulaques vindo do Rio – com a seguinte dedicatória: “Para o meu Má, que entende quais são as coisas que valem a pena”. E citar algum trecho divertido que faça quem lê este blog ter uma coceirinha de vontade de ler o livro. Mas será que tem gente que ainda não o leu? Ian McCulloch, aqui, confessou para mim que tinha ganhado o livro do irmão, que não tinha lido, mas que talvez fosse ler (“sei que fala de música e shows”, ele disse).

Sei lá. É só um post sem pé nem cabeça. Melhor parar de enrolar (agora deu vontade de ver o filme, mas quase meia-noite não rola…) e…

“Eu sou o quê? Médio. Um peso-médio. Não o cara mais esperto do mundo, mas seguramente não o mais tapado: li livros como A Insustentável Leveza do Ser e O Amor Nos Tempos de Cólera, e os compreendi, eu acho (eram sobre garotas, certo?), mas não gostei muito deles (…). Eu leio o Guardian e o Observer, assim como leio o NME e as revistas de música; não tenho nada contra ir a Camden ver filmes europeus, embora eu prefira filmes americanos.

Minha aparência é legal; na verdade, se você colocasse, digamos, Mel Gibson numa ponta do espectro de aparência e, digamos, Berky Edmonds lá da escola, cuja feiúra grotesca era lendária, na outra, então acho que eu conseguiria, por pouco, ficar no lado de Mel. Uma namorada uma vez me disse que eu parecia um pouco com Peter Gabriel, e ele não é de todo mau, é? Sou de altura média, nem magro, nem gordo, sem pêlos faciais repugnantes, mantenho-me limpo, uso jeans e camiseta e uma jaqueta de couro mais ou menos o tempo todo a não ser no verão, quando deixo a jaqueta em casa. Voto no Trabalhismo. Tenho uma pilha de vídeos de comédia clássicos. Consigo entender aonde as feministas querem chegar, na maior parte do tempo, mas não as radicais.

Minha genialidade, se puder chamá-la assim, é combinar toda essa carga de medianidade numa estrutura compacta única. Eu diria que há milhões como eu, mas não há, na realidade: muitos caras têm gosto musical impecável mas não lêem, muitos caras lêem mas são gordos demais, muitos caras são simpáticos ao feminismo mas têm barbas idiotas, muitos caras têm um senso de humor como o Woody Allen mas se parecem com Woody Allen. Muitos caras bebem demais, muitos caras se comportam de modo idiota ao dirigirem um carro, muitos caras se metem em brigas, ou ostentam seu dinheiro, ou tomam drogas. Eu não faço nenhuma destas coisas, sério; se me dou bem com as mulheres não é por causa das virtudes que tenho, mas por causa das sombras que não tenho.”

“Alta Fidelidade”, de Nick Hornby (páginas 30 e 31).

Leia também:
– Cinco razões para uma mulher ler este livro, por Marta Orsini (aqui)

novembro 23, 2009   Encha o copo

Três Jason Bourne

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“A Identidade Bourne”, de Doug Liman (2002)
É o longa que deu origem à trilogia com tudo aquilo de impossível que pode acontecer em filme de ação hollywoodiano. Como Marcelo Forlani listou no Omelete (resenha completa aqui), “numa noite tempestuosa em alto-mar um tripulante de um barco pesqueiro consegue ver um corpo boiando. Após o resgate descobre-se que mesmo com dois tiros nas costas e o “banho forçado”, o cara está vivo. (…) comandante da embarcação é um italiano de uns 50 e tantos anos que fala inglês e tem a mão tão firme que consegue operar o nosso amigo mesmo com o barco balançando mais que a câmera de A Bruxa de Blair”. Ou seja, se você desligar o botão da realidade, “A Identidade Bourne” pode se transformar em um filme divertido. Segundo, Jason Bourne é imortal. “Me sinto tão pequena perto dele e seus 30 passaportes” (risos).

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“Supremacia Bourne”, de Paul Greengrass (2004)
A estréia fez um sucesso estrondoso, então nada mais Hollywood que investir em uma segunda história. Porém, desta vez, até que a trama toma mais corpo e aspectos psicológicos interessantes são inseridos na trama. Nada que vá fazer o filme ganhar mais do que uma nota 6 (a não ser que ele esteja sendo analisado como uma comédia, ai pode ir longe), mas há sobrevida. Curto e grosso: Jason Bourne, que perdeu a memória no primeiro longa, mas não nenhuma das mil e uma habilidades de combatente, está curtindo a vida numa ilha com sua gatinha, até que é descoberto e entramos novamente no ritmo acelerado de perseguições, lutas e tiroteios. Aqui o resultado convence mais, e ainda dá uma deixa para o terceiro longa.

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“Ultimato Bourne”, de Paul Greengrass (2007)
O mais bacana dos três. E o mais piegas. Nosso herói está escondido tocando a vida quando lê uma reportagem sobre ele no Guardian. E lá vamos nós em dezenas de cenas de ação entender tudo que aconteceu na vida de nosso amigo. Ao menos, o roteiro tenta tapar todos os buracos – poderia ter explorado mais a questão “Julia Stiles”, mas ok. De cara dá para cravar que cineastas realmente acham jornalistas idiotas, e que Jason Bourne não lembrar de suas conquistas amorosas é uma grande sacanagem. Aliás, no quesito conquistas, Jason Bourne perde de goleada de James Bond. Ok, não há como comparar Sean Connery no auge com Matt Damon, mas até que o baixinho surpreende com uma atuação bastante convincente. Juntos, os três filmes não são excelentes, mas também não são ruins. Se você tiver de bom humor ele pode até lhe tirar umas risadas…

novembro 23, 2009   Encha o copo

Uma noite rock and roll em Juiz de Fora

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Apesar do inconfundível sotaque mineiro, Juiz de Fora é quase Rio de Janeiro. Isso fica perceptível quando se abre o caderno de esportes do Tribuna de Minas, o maior jornal da cidade, e a última página é dividida em quatro blocos: Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco. Um dia antes, o caderno de cultura destacava a ida deste que vos escreve à cidade classificando-me como “uma das maiores autoridades em cultura pop na internet”. O título é exagerado, mas agradeço o deferimento.

Juiz de Fora tem 525 mil habitantes, seis faculdades (uma delas federal) e fica na Zona da Mata. Chegou a ser conhecida como a Manchester Mineira, não por bandas equivalentes a Smiths e New Order, mas por seu pioneirismo na industrialização. Para chegar à cidade, vindo de São Paulo, se pega a Via Dutra em direção ao Rio, e segue-se beliscando Volta Redonda. Ou encara-se um vôo no avião de médio-porte ATR-42 saído de Congonhas de pouco mais de hora via Pantanal.

Os vôos costumam atrasar. Na quinta foram duas horas de espera devido a uma vistoria na nave feita pela ANAC, o que permitiu descobrir que o chopp Brahma em Congonhas é mais barato que o chopp Heineken em Guarulhos: R$ 7,50 x R$ 10,50. De qualquer forma, dois assaltos. Apesar do atraso, o vôo foi tranqüilo (e altitude da aeronave, voando a 18 mil pés, permitiu uma bela visão de São Paulo iluminada à noite) e o pouso em Juiz de Fora um dos mais sossegados dos últimos tempos.

Fui recebido pelo João Paulo Mauler, do projeto Quinta do Bloco (www.quintadobloco.com), no aeroporto, e seguimos para o hotel e sem eguida para o Café Musik, local que abriga o retorno do projeto após três anos de hibernação. Kátia Abreu, da Alavanca, já havia elogiado o Musik em um bate papo, mas não tenho palavras para descrever um local cuja parede lateral de entrada é tomada inteiramente pela foto clássica e nostálgica do filme “Manhattan”, de Woody Allen, em que o casal de personagens observa a Ponte do Brooklin. Estou em casa.

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 A programação para a noite era um bate papo meu com os presentes depois shows da banda local Hermitage e do carioca Lê Almeida (www.myspace.com/lealmeida). Alguns minutos pós a meia-noite dispensei o microfone, coloquei uma cadeira no meio do salão e gastei uns 20 ou 30 minutos falando bobagens sobre a minha formação profissional e minha visão do cenário musical nacional. Fiquei feliz e surpreso com o bom número de ouvintes e com algumas perguntas interessantes que surgiram após meu monólogo.

A Raizza questionou minha crítica à Pitty, e precisei aprofundar o assunto “jornalismo combativo”. Del Guiducci, do Martiataka (www.martiataka.com), tocou no assunto mainstream brasileiro, e assim que afirmei que vivemos a pior fase do rock nacional no mainstream e não há nada de bom acontecendo no momento, três emos de uma jovem banda local levantaram e partiram. Um pouco antes eu já havia dado o recado: “Aprenda a ler jornalistas e não revistas”. Eles devem ter pegado o recado e visto que dessa cartola aqui não sai coelho.

No geral, o bate papo foi extremamente proveitoso, ao menos para mim. Fiquei satisfeito, mas o melhor ainda estava por vir com curtos bate papos com a Raizza (que leu Simone de Beauvoir por causa da Pitty); com o Anderson, da banda Usversos (www.myspace.com/usversus), que faz um som na linha Dead Fish (e tenta fugir do emo); com o Greg, que curte o Scream e já tocou o Ameba, da Plebe Rude; com o Roney, que toca em duas bandas locais, sendo que uma delas fará uma temporada na Alemanha nos próximos meses.

Nas pick-ups da festa rock and roll, Luiz Valente, do selo Vinyl Land (www.vinyllandrecords.com), que lança singles em vinil e discoteca com compactos 7 polegadas de uma coleção que faria Rob Fleming corar de inveja. A frase que mais ouvi – e mais me deixou comovido – na noite foi: “Acompanho o Scream & Yell há seis (sete, oito, nove) anos, e ele (e o 1999, do Alexandre Matias e do Abonico Smith, e o Esquizofrenia, do Gilberto Custódio) moldou muito do que ouço hoje em dia”.

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O Hermitage, que fazia seu último show com esse nome, me arrancou sorrisos. A Paula Bento, do Quinta no Bloco, comentou que o som da guitarra estava alto, e o bom rock and roll é isso: guitarra alta e distorcida. Bebendo cerveja num canto da pista e olhando a alegria do público dançando só pude imaginar que quando Pavement, Teenage e Guided by Voices, começaram, eles tocavam assim para uma platéia não muito diferente dessa. Festa. Rock caipira poderoso com direito a cover de Neutral Milk Hotel.

Lê Almeida veio na seqüência.  Ele comanda o selo Transfusão Noise Records de seu quarto estúdio na Baixada Fluminense. Levando a sério o lema “faça você mesmo”, Lê já organizou um tributo brasileiro ao Guided By Voices (veja aqui) chamado “Don’t Stop Now” (que conta com Superguidis, Kid Vinl Experience, Snooze, Surfadelica e mais 27 bandas), toca em dezenas de bandas, lançou vários EPs caseiros e, segundo muitos presentes, é um gênio. Toca tudo deste projeto solo, que ao vivo conta com o reforço dos amigos.

Antes do show, o projeto Quinta no Bloco apresentou em primeira mão o clipe de “Nunca, Nunca”, faixa de “Revi”, novo trabalho de Lê Almeida lançado em parceria com os selos Midsummer Madness e Vinyl Land. O set list, na linha Guided By Voices, tinha 27 músicas, e a banda mostrou suas guitarradas em um show potente, mas que acabou prejudicado por um problema em uma das caixas de som. No balanço geral, dois bons shows que mostram que a cena lo-fi nacional continua rendendo excelentes frutos.

Fica o agradecimento a Rayssa, ao Del Guiducci, ao Greg, ao Anderson, ao Roney, ao Evandro (não esqueci do Mojobook não!), ao Lê Almeida (pela gentileza e por todos os CDs), ao Luiz (pelo bom papo sobre vinis), ao André Medeiros (que escreve junto com o Eduardo no ótimo Last Splash – lastsplash.wordpress.com) e o pessoal do ex-Hermitage, ao pessoal do Café Musik, e especialmente ao João e a Paula pelo convite. Para mim, a noite foi bem bacana. Espero que para vocês todos, também. Até a próxima, Juiz de Fora.

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Todas as fotos por Amanda Dias
http://www.flickr.com/photos/amandadias

novembro 22, 2009   1 Brinde