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Seis shows na Virada Cultural 2012

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 Com quase duas centenas de atrações musicais, mais uma seleção de filmes em quatro cinemas (com películas sobre western spaguetti, pancadaria, Boca do Lixo e uma sessão de Gene Kelly), um palco cabaré (com poledance e a presença das “rainhas” Gretchen e Rita Cadillac), outro de stand-up, um de luta livre e uma virada gastronômica com alguns chefs badalados na rua vendendo pratos de até R$ 15, a oitava edição da Virada Cultural de São Paulo movimentou o centro da cidade por mais de 24 horas.

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O tamanho do evento obriga o público a uma tarefa árdua: escolher o que fazer e, principalmente, o que deixar de fazer. Desta forma, como nos anos anteriores, listei alguns shows como meta pessoal, risquei minha agenda própria e… fui atropelado pela ansiedade. O plano inicial era ignorar as primeiras horas da festa, dormir cedo e acordar no meio da madruga, por volta das 3 da manhã, para começar a festa com Members of Morphine & Jeremy Lyons e seguir com White Denim, Pin Ups e outros. Era uma vez…

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Para a edição 2012, a produção da Virada Cultural apostou em nomes não tão populares entre o público, mas de qualidade inegável, gente como McCoy Tyner Quartet, Roy Ayers, Tony Allen, Charles Bradley e Seun Kuti (filho de Fela) & Egypt 80 além de grupos com Man Or Astro Man?, White Denim e Friends of Morphine, mas ainda havia campeões de audiência como Suicidal Tendencies, Titãs (tocando o álbum “Cabeça Dinossauro” na integra), Gilberto Gil, Guilherme Arantes, Mutantes e Maria Rita (homenageando a mãe).

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20h e eu já estava camelando pelas ruas do centro modificando meu roteiro. Segui o instinto e me deixei levar. O palco (brega) do Largo do Arouche, que já havia rendido em anos anteriores grandes shows de Odair José, Reginaldo Rossi e Wando, recebia Dalto, um cantor que no começo dos anos 80 cravou um punhado de hits em novelas da Globo e rádios do país. Com uma banda inspirada de moleques, “Espelhos d’agua”, “Leão Ferido” e, principalmente, “Muito Estranho”, vieram em versões encorpadas para embalar os casais na praça. Bonito.

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No palco da Avenida São João, o chicano Tito Larriva, acompanhado de sua potente banda Tarantula, encharcado de tequila, mostrou paixão pelo blues rock sujão com suas canções que já foram temas de filmes de Robert Rodriguez – como “A Balada do Pistoleiro” (1995) e “Um Drink no Inferno”, de 1996 (o álbum de estreia da banda, de 1997, se chama “Tarantism”, o que já dá o tom da coisa toda), e que ao vivo merecem o acompanhamento de uísque, cachaça ou mesmo o vinho barato de R$ 8 vendido pelos ambulantes.

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Um caminhada pelo centro do Arouche até o Theatro Municipal (que recebia Cauby e Angela Maria) e, após passar por meia dúzia de grupos peruanos de flautinhas, o encontro com o Man or Astro Man?. O quarteto mantém a fama de ensandecido no palco acelerando sua surf music espacial até os planetas mais distantes da galáxia. Um dos guitarristas pogou com a galera enquanto o baixista Coco the Electronic Monkey Wizard fez um stage diving atrás de… água de coco. Grifo para a guitarrista (alguém sabe o nome dela?), que deixou muito marmanjo desenhando corações roqueiros.

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Para a meia noite estava marcado o começo da distribuição dos 500 pratos preparados pelo eleito quarto melhor chef do mundo, Alex Atala, no Minhocão. Assim que entramos no Elevado Costa e Silva, Atala saia de carro deixando para trás centenas de hipsters e uma grande confusão, fruto da desinformação geral (senhas foram distribuidas antes, mas ninguém sabia), da péssima ideia da produção (distribuir comida de um chefe premiado num evento com milhões de pessoas? WTF) e o apreço do paulistano por filas e #mimimi (se são só 500 pratos, por que encarar uma fila de quase três quilômetros se a comida não atenderia a todos?). A Galinhada de Atala foi o Mico da Virada Cultural 2012.

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Já que a galinhada foi para poucos, uma pausa para jantar no ótimo restaurante O Gato Que Ri, no Arouche, seguida de oito horas de sono, que vitimou na minha lista pessoal as apresentações de Members of Morphine & Jeremy Lyons (que, segundo amigos, foi excelente) e White Denim. Acordei em tempo de rever o Defalla tocar alguns clássicos de seus primeiros discos (“It’s Fucking Boring To Death”, “Sodomia”, “Não me Mande Flores”, “Repelente”) e versões hip hop chapadas de “ (I Can’t Get No) Satisfaction”, “Help”, “Whole Lotta Love” (mixada com “Como Vovó Já Dizia”, de Raul Seixas) e “Sossego”. Baita show.

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Novamente na Avenida São João, só que agora ao meio-dia de domingo, o que restou dos Titãs (Branco Mello, Paulo Miklos, Tony Belloto e Sérgio Brito) assassinou boa parte do repertório clássico da banda em um show cantado a plenos pulmões por uma multidão. “Nós somos de São Paulo. Nós saímos desses esgotos”, foi a deixa para que Paulo Miklos entoasse “Bichos Escrotos”, um dos hinos do mítico “Cabeça Dinossauro” (1985), tocado na integra. Ainda houve espaço, no bis, para “A Verdadeira Mary Poppins”, “O Pulso”, “Televisão”, “Aluga-se”, “Lugar Nenhum”, “Flores”, “Será Que é Isso Que Eu Necessito? e uma canção nova, “Fala Renata”, em um show que reproduz um décimo do poder da banda ao vivo, mas a nostalgia agradece (e só ela).

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Enquanto isso, na Virada Gastronômica do Minhocão, desde às 8 da manhã, 20 chefs ofereciam pratos até R$ 15. O grande sucesso foi o Hamburguer de Pato com Molho Trufado: “Achei que não fosse conseguir vender tudo até às 8 da noite, mas acabou! Foram dois mil hambúrgueres”, disse o chefe Renato Carioni, que esgotou sua cota às 13h. Lanche aprovadíssimo. De sobremesa, brownie, arroz doce com doce de leite e mini quindim, de Carol Brandão, e a certeza de que esse Chefs na Rua deveria ser um evento semanal ou mensal no Minhocão. Uma ideia bem bacana.

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Para fechar a programação pessoal, carimbó. O mestre Pinduca desceu de Belém do Pará com sua orquestra para fazer o público (e músicos como Nevilton, Karina Buhr e DJ Gorky, do Bonde do Rolê) chacoalhar no Largo do Arouche ao som de “Sinha Pureza”, “Garota do Tacacá”, “O Caçador” e “Carimbo do Macaco”, entre outros sucessos, distribuindo cheiro e sorte. Ainda tinha Gilberto Gil na Praça Júlio Prestes e Jair Rodrigues relembrando clássicos do “Dois na Bossa” no Boulevard São João, mas faltavam pernas.

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Com um público estimado de 4 milhões de pessoas, a Virada Cultural de São Paulo firma-se cada vez mais como o maior, melhor e mais variado evento de entretenimento e diversão do calendário da megalópole. Tem seus problemas (pequenos arrastões em alguns palcos, desinformação de funcionários e policiais e som deficiente em alguns palcos são alguns), mas a balança pesa com facilidade do lado positivo: por mais de 24 horas, São Paulo respirou boa música, dança e entretenimento. Que continue crescendo e melhorando nos próximos anos.

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Todas as fotos por Marcelo Costa

Leia também:
– Virada 2007: Paulinho da Viola, Maria Alcina, Garotos Podres (aqui)
– Virada 2008: Luiz Melodia, Vanguart, Tom Zé, Ultraje (aqui)
– Virada 2009: Wando, Odair José, Los Sebozos Postiços (aqui)
– Virada 2010: Céu, Tulipa Ruiz, Raimundos (aqui)
– Virada 2012: Man Or Astro-Man, Defalla, Titãs, Pinduca (aqui)
– Virada 2014: Ira!, Juçara Marçal, Falcão, Pepeu Gomes (aqui)
– Virada 2015: 51 shows que o editor do Scream & Yell gostaria de ver (aqui)

maio 6, 2012   Encha o copo

16 dias de shows em 20 de viagem

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Menos de um mês pra viagem, e algumas pequenas mudanças no calendário. Paris entrou na segunda perna da viagem, acredite, por economia (e porque um dos amigos quer ver Guns ‘n Roses). E desisti de inventar loucuras no final da viagem. De 23/05 até 11/06 são 20 dias e verei shows em nada menos do que 16 dias. Então decidi que os últimos dias vão ser livres, para “descansar” e olhar o mundo.

Ainda não sei para onde vou, mas sei do mais importante: tem que ser barato (risos). Pensei em Zagreb e Cracóvia, mas os preços não ajudam. No entanto, há voos de Trieste para Bari (na comuna italiana de Puglia) por R$ 50 enquanto voos para Trapani, na Sicilia, saem por R$ 80 (ainda tem Dusseldorf por R$ 40, mas estou muito mais numa vibe Itália do que Alemanha). Preciso decidir logo antes que os preços subam.

Por enquanto está mais ou menos assim:

22/05 – Rio de Janeiro / Amsterdã / Londres
23/05 – Londres – The Zombies
24/05 – Londres – Elvis Costello (Royal Albert Hall)
25/05 – Londres – I’ll Be Your Mirror
26/05 – Londres – I’ll Be Your Mirror
27/05 – Londres – I’ll Be Your Mirror
28/05 – Londres – Big Star
29/05 – Barcelona
30/05 – Barcelona – Primavera Sound
31/05 – Barcelona – Primavera Sound
01/06 – Barcelona – Primavera Sound
02/06 – Barcelona – Primavera Sound
03/06 – Barcelona – Primavera Sound
04/06 – Paris
05/06 – Paris – Guns ‘n Roses
06/06 – Luxemburgo – Lou Reed
07/06 – Cork
08/06 – Cork – Tom Petty
09/06 – Barcelona – Stone Roses
10/06 – Trieste
11/06 – Trieste, Bruce Springsteen
12/06 – ?
13/06 – ?
14/06 – ?
15/06 – ?
16/06 – Veneza – Rio de Janeiro

abril 30, 2012   Encha o copo

Jack White por Gary Oldman

abril 30, 2012   Encha o copo

Três Filmes: Camila, Raul e Xingu

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“Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (2012)
Adaptado da obra homônima de Marçal Aquino, colaborador frequente dos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, “Eu Receberia” opta por aprofundar o olhar do espectador não só no romance, mas na função da mulher em uma história de amor clássica, uma musa com homens girando em sua órbita e lutando por sua posse tal quais mitos gregos – a tragédia, então, surge como elemento obrigatório na trama. Assim é Lavínia, musa tanto de um pastor (que vê nela seu poder de salvação) quanto de um fotógrafo (numa alusão óbvia e não menos interessante). Ela é casada com o primeiro, amante do segundo, e se essa frase já entrega o ponto de partida do drama, o que brilha na tela (mais que a nudez de Camila Pitanga) é a forma com que os diretores investigam o âmago dos personagens – ainda que, em momentos, de forma exagerada (como quando tentam dramatizar a Amazônia, outra musa). Difícil ficar alheio ao filme, e num mundo em que a grande maioria das histórias de amor já foi contada, recontada, vivida, lida e/ou vista por quase todos, “Eu Receberia” tem a virtude de pegar o espectador pelos ombros, chacoalha-lo, e obriga-lo a olhar para si próprio. E para sua própria musa. Muitos devem desviar o olhar.

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“Raul — O Início, o Fim e o Meio” (2012)
Não me lembro se foi Robby Krieger ou John Densmore, mas consta que um deles, frente ao túmulo de Jim Morrison no Pere Lachaise, teria dito: “Ele não pode estar ai. Ele era grande demais para caber neste túmulo”. Foi a primeira coisa que pensei deste documentário sobre Raul Seixas: como resumir uma persona tão ampla e complexa quanto Raul numa tela de cinema? O diretor Walter Carvalho cumpriu com méritos a árdua tarefa, e ainda abriu outras questões interessantes para discussões de mesa de bar. Do começo, com um cover de Raul pilotando uma moto ao som de “Blue Moon / Asa Branca” (que resume a paixão de Raulzito por Elvis e Luiz Gonzaga), Carvalho segue uma ordem cronológica preenchida por diversas entrevistas (o trabalho investigativo é excelente) que tentam dar ao espectador uma centelha do mito em passagens deliciosas (seja com Os Panteras, seja com Paulo Coelho e o episódio da mosca, seja com os satanistas, seja com as ex-mulheres, ou mesmo o polêmico trecho final, com Marcelo Nova) que colocam “Raul — O Início, o Fim e o Meio” ao lado de outros grandes (e obrigatórios) documentários recentes nacionais – como “Loki”, sobre Arnaldo Baptista, “Música Para os Olhos”, sobre Cartola, e “Ninguém Sabe o Duro que Dei”, sobre Wilson Simonal.

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“Xingu” (2012)
A história dos irmãos Orlando, Leonardo e Cláudio Villas Bôas é conhecida por muitos, mas ainda assim menos do que deveria. Filhos da classe média paulistana, o trio deixou a cidade juntando-se à “Marcha para o Oeste” num misto de busca por aventura e pelo desconhecido. Acabaram “descobrindo” o universo indígena, tornaram-se ferrenhos defensores da causa (tanto na floresta amazônica quanto em Brasília) e, num paralelo a Oskar Schindler (empresário alemão que salvou a vida de mais de mil judeus durante o Holocausto), salvaram milhares de vidas idealizando o Parque Nacional do Xingu, que foi criado em 1961, com projeto assinado pelo antropólogo Darcy Ribeiro. Desta forma, “Xingu”, o filme, tem como grande mérito amplificar a ação dos Villas Bôas (e tem cara de Oscar – o paralelo com a “A Lista de Schindler” não é à toa), o que torna a película mais interessante pela ação dos irmãos do que por seus próprios méritos cinematográficos. O roteiro é apressado e, ainda assim, funcional (apesar de abusar de estereótipos). A fotografia é belíssima, as atuações convincentes, mas é tudo tão excessivamente produzido que, algumas vezes, soa irreal (quando, talvez, devesse ser mais documental). Um filme excelente pela causa, mas apenas ok pelo cinema.

abril 30, 2012   Encha o copo

Cinco fotos: São Francisco

Clique na imagem se quiser vê-la maior

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Bondinho

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Alcatraz

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Pipe Dreams

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Portas Fechadas

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Almoço

 Mais algumas fotos aqui e, claro, uma da Amoeba aqui

Leia também:
– Cinco pubs de cervejarias nos Estados Unidos (aqui)
– Uma noite com PJ em São Francisco (aqui)
– São Francisco e as rachaduras do american dream (aqui)
– Balanço: 20 dias de viagem nos Estados Unidos (aqui)

Veja mais imagens de cidades no link “cinco fotos” (aqui)

abril 24, 2012   Encha o copo

A saga dos homens-coxinha

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Ilustração Caco Bressane

Royalties, por favor (risos) -> “Na internet, em um texto publicado em 2002 (aqui), o publicitário Marcelo Costa utiliza o adjetivo para classificar bandas como Coldplay e Travis”

Frase do texto  “Tipicamente paulistana, gíria “coxinha” tem origem controversa”, de Alexandre Aragão, na revista São Paulo. Leia aqui.

abril 23, 2012   Encha o copo

Bob Dylan em noite inspirada em SP

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Texto e fotos: Marcelo Costa

Setenta anos de idade. Cinquenta anos desde o lançamento de seu primeiro álbum, em 1962. Bob Dylan já ganhou Grammy, Oscar, Globo de Ouro e um bom dinheiro com seus discos, e poderia passar o resto de seus dias enfurnado em uma fazenda, mas escolheu dedicar sua vida à estrada. Após quatro anos de sua última passagem pelo Brasil (tempo em que lançou dois discos – Together Through Life e Christmas in the Heart), a “Turnê Que Nunca Termina” voltou para São Paulo, no último sábado, 21, desta vez ocupando um local maior do que em 2008, o Credicard Hall, e com um repertório muito mais trabalhado, resultando em uma noite inspirada.

Ok, a voz de Dylan, ainda que muito melhor do que na última passagem, continua trovejando, falhando e dificultando o reconhecimento de algumas canções (seria interessante fazer um quiz com os espectadores para saber quais canções eles – acham que – reconheceram), e sua insistência em mudar o arranjo das músicas também não ajuda ao fã de última hora (aquele que aguarda a canção tocada igual ao CD), mas ainda assim assistir a Bob Dylan ao vivo é uma tarefa bastante agradável – principalmente para quem gosta de blues, r&b e rock clássico.

O primeiro ponto a favor desta noite surge da formação com acentuação mais roqueira do quinteto que acompanha o cantor. São dois guitarristas (Stuart Kimball, que também assume o violão, e Charlie Sexton, quase um devoto de Dylan no palco), um terceiro músico, Don Herron, que se alterna entre a steel guitar (que toca com eficiência, engradecendo números como “Make You Feel My Love”, do álbum Time Out Of Mind, de 1997), o teclado e a guitarra, mais o baterista George Receli e o parceiro Tony Garnier, baixista que acompanha Dylan desde 1989. É uma formação bluezy, que parece sentir prazer na improvisação e em escudar o músico.

Algo que chama a atenção: a banda não toca para o público, mas sim para Bob Dylan. Os cinco integrantes não se exibem para a audiência, mas sim para o cantor. Todos eles tocam levemente virados para a esquerda do palco e não tiram o olho do compositor, que fica na lateral e marca as passagens com os dedos apontando quem deve conduzir o próximo trecho. Ou seja; das quase 7 mil pessoas presentes (os ingressos mais baratos esgotaram, mas ainda haviam lugares vazios nas filas de R$ 700 e R$ 900), apenas alguns seguranças não olhavam para Bob. De resto, todo o público e a própria banda admirava a lenda desfilando clássicos de várias épocas.

Como de praxe, o show começou com duas canções antigas, dos anos 60, desta vez “Leopard-Skin Pill-Box Hat” (que também abriu a primeira noite em São Paulo, em 2008) seguida de “Don’t Think Twice, It’s All Right” (com Dylan na guitarra arriscando alguns solos ásperos). Corte para 1999 e “Things Have Changed” (a canção tema do filme Garotos Incríveis, que lhe valeu um Oscar e um Globo de Ouro,) mostra um cantor de postura totalmente diferente da passagem anterior: bancando o crooner, com a gaita microfonada em uma mão, e deitando o pedestal do outro microfone (num estilo semelhante ao de Roberto Carlos) para terminar os versos com um sorriso no rosto, Dylan parece estar se divertindo, e o público segue com ele.

“Tangled Up In Blue”, uma das canções brilhantes de um de seus melhores álbuns (Blood on the Tracks, de 1975), surge densa, forte, abrindo caminho para “Beyond Here Lies Nothin’”, single de 2009 que nesta noite conta com quatro guitarras (Dylan numa delas) encorpando a canção. O público aplaude, entusiasmado, e o miolo do show é um teste para aqueles que levaram a sério a brincadeira do quiz (“Every Grain Of Sand”, do álbum Shot of Love, de 1981, por exemplo, não era tocada desde junho do ano passado), com “The Levee’s Gonna Break” impressionando numa versão blues, quebrada e cheia de improvisos.

Outro salto na máquina do tempo e “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” (1963) e “Highway 61 Revisited” (1965) sorriem para a plateia, que as reconhece logo nos primeiros segundos, e bate palmas. No teclado (ele diminuiu as canções que passa em frente ao instrumento desta vez: são 10 nas teclas, cinco no microfone e na gaita, e duas na guitarra), Dylan alterna-se entre mesclar as teclas brancas e pretas, conduzir a banda e se apoiar em uma das caixas de som para “ouvir” o som do quinteto – e sorrir, várias vezes.

O trecho final do show tem sido praticamente igual em todas as apresentações dos últimos dois anos: “Thunder On The Mountain”, um dos cavalos de batalha do ótimo Modern Times, de 2006, abre caminho com riffs de guitarra para uma tríade de hinos: “Ballad Of A Thin Man”, “Like A Rolling Stone” e “All Along The Watchtower”, em arranjos fiéis e perfeitamente reconhecíveis (embora difíceis de acompanhar na voz), fazem valer o ingresso, mas ainda falta o bis, e Dylan não economiza: “Blowin’ In The Wind“, em versão banda, com Bob partindo os versos no meio, e ainda assim arrancando gritos da plateia, fecha uma noite especial.

Quem esperava um repeteco dos shows de 2008 saiu ganhando com uma apresentação muito melhor. Os desconfiados, que seguiram o conselho de Beck, que certa vez escreveu que “todo mundo devia pagar ingresso só para ver o cara que escreve aquelas canções maravilhosas”, devem ter se surpreendido com a quantidade significativa de clássicos (foram oito canções dos anos 60 contra uma dos 70, uma dos 80, três dos anos 90 e quatro do novo século). Até aqueles que apenas conhecem “Blowin’ In The Wind“ e “Like A Rolling Stone” puderam se dar por satisfeitos. Se a voz do cantor incomodou em alguns momentos, a banda compensou com um dos melhores sons de um show de Dylan no Brasil.

Na portaria do Credicard Hall, alguns fãs arriscavam que esta passagem de Bob Dylan pelo Brasil seja a última turnê do cantor em solo pátrio, mas a animação do compositor e o repertório de hits faz suspeitar que Dylan está em paz com o palco, e que precisa dele porque, talvez, seja o único lugar em que se sinta realmente bem. Talvez ele esteja se escondendo do mundo enquanto peregrina por hotéis (após São Paulo, ele passa por Porto Alegre, Buenos Aires, Santiago, Monterrey, Guadalajara, Cidade do México, Berlim, Dresden… por enquanto a turnê está fechada até o final de julho com mais 23 shows!). Ou, ainda, talvez seja a única coisa que ele realmente saiba fazer (ou goste): cantar e dançar. O mito Dylan renasce todas as noites em algum palco do mundo. Enquanto puder ter isso, ele estará a salvo. E seu público também.

Set List
“Leopard-Skin Pill-Box Hat” (Blonde On Blonde, 1966)
“Don’t Think Twice, It’s All Right” (The Freewheelin’ Bob Dylan, 1963)
“Things Have Changed” (The Essential Bob Dylan, 1999)
“Tangled Up In Blue” (Blood On The Tracks, 1974)
“Beyond Here Lies Nothin’” (Together Through Life, 2009)
“Make You Feel My Love” (Time Out Of Mind, 1997)
“Honest With Me” (Love And Theft, 2001)
“Every Grain Of Sand” (Shot Of Love, 1981)
“The Levee’s Gonna Break” (Modern Times, 2006)
“A Hard Rain’s A-Gonna Fall” (The Freewheelin’ Bob Dylan, 1963)
“Highway 61 Revisited” (Highway 61 Revisited, 1965)
“Love Sick” (Time Out Of Mind, 1997)
“Thunder On The Mountain” (Modern Times, 2006)
“Ballad Of A Thin Man” (Highway 61 Revisitet, 1965)
“Like A Rolling Stone” (Highway 61 Revisitet, 1965)
“All Along The Watchtower” (John Wesley Harding, 1967)

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“Blowin’ In The Wind” (The Freewheelin’ Bob Dylan, 1963)

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Leia também:
– Discografia Comentada: todos os discos de Bob Dylan (aqui)
– Bob Dylan, um retrato borrado da era de ouro do rock ‘n roll (aqui)

abril 22, 2012   Encha o copo

Alemanha: Três cervejas da Kaiserdom

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Inaugurada em Bamberg, na Bavária, em 1718, a Kaiserdom Brauerei orgulha-se de produzir suas cervejas apenas com ingredientes naturais, sem qualquer aditivo, seguindo a Lei de Bamberg de 1849, que surgiu 27 anos antes da Lei da Pureza da Bavaria (datada de 1516). Maior cervejaria de Bamberg, a Kaiserdom é comandada desde 1910 pela família Wörner, e começa a chegar ao Brasil com três rótulos interessantes, que senão destacam um conjunto de alta personalidade, conquistam pela leveza e sabor alemão inconfundível.

A Kaiserdom German Dark Lager é um belíssimo exemplo da escola bávara de cervejas escuras: o aroma é bastante suave com o malte torrado sugerindo café e, muito levemente, caramelo. O paladar, águado, segue a risca o caminho aberto pelo aroma com o caramelo inicialmente tomando a frente, mas cedendo para a presença marcante do malte torrado (e sua ligação direta ao café) em uma cerveja extremamente suave e saborosa. Praticamente não se sente os 4,7% de álcool, que desaparecem no conjunto harmonioso e característico. Ótima.

Já a versão Hefe-Weissbier Naturtrüb, da Kaiserdom, é bem particular, mas ainda assim segue a tradição alemã de boas cervejas de trigo. O aroma característico traz notas frutadas que remetem a banana e cravo. O paladar sugere leveza (uma marca da cervejaria) e a Hefe-Weissbier Naturtrüb não foge a regra sendo bem menos densa que suas “concorrentes” (como a Weihenstephaner), mas ainda assim muito interessante, com as notas de banana e cravo bem balanceadas com o lúpulo num conjunto que ainda traz algo de lager.

E falando em lager, a Kaiserdom Premium é a que, comparativamente com outras do mesmo estilo, é a que mais se destaca da cervejaria. A Dark Lager tem em seus calcanhares a Köstritzer. Dificil pensar em Weissbier alemão e não pensar em Weihenstephaner (ainda que, para fugir da comparação, a Kaiserdom proponha o meio do caminho entre uma weiss e uma lager). Já a Premium é uma lager autêntica, bastante saborosa e acima das cervejas comerciais brasileiras, com o malte e o lúpulo totalmente perceptíveis e bem inseridos no ótimo conjunto. Uma bela surpresa.

As três Kaiserdom estão chegando ao Brasil em garrafas de 500 ml (entre R$ 8 e R$ 11) e belas latas de 1 litro (entre R$ 20 e R$ 25), como as da foto acima. Há um kit que, além das três latas (Premium, Weissbier e Dark Lager), também traz uma taça de 1 litro da casa – que é praticamente um exercício de levantamento de (copo) peso para se levar a boca. Em alguns empórios online, o kit é encontrado por R$ 120, mas no Duty Free costuma sair por 32 dólares. Vale o investimento.

Kaiserdom German Dark Lager
– Produto: Schwarzbier
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 4,7%
– Nota: 3,01/5

Kaiserdom Hefe-Weissbier Naturtrüb
– Produto: German Weizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,96/5

Kaiserdom Premium German Lager
– Produto: Munich Helles
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 3,03/5


Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

abril 19, 2012   Encha o copo

Download: Tributo ao Los Hermanos

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Coletânea Re-Trato musicoteca Los Hermanos
Download -> http://www.amusicoteca.com.br/?p=6425

Disco 1
1. Todo Carnaval Tem Seu Fim – Do Amor
2. Vento – Quarto Negro
3. Morena – Tiago Iorc
4. Retrato pra Iaiá – nana
5. Último Romance – Graveola e o Lixo Polifônico
6. A Outra – Estrela Ruiz Leminski e Téo Ruiz
7. Condicional – Pélico
8. Além Do Que Se Vê – Cohen e Marcela
9. Primavera – Banda Gentileza
10. Deixa o Verão – Tibério Azul
11. Tá Bom – 5 a Seco
12. A Flor – Nervoso e os Calmantes
13. Anna Júlia – Velhas Virgens

Bônus Tracks:
14. Dois Barcos – A Banda Mais Bonita da Cidade
15. Onze Dias – Rafael Castro
16. Azedume (instrumental) – Fusile
17. Anna Júlia (english version) – Velhas Virgens

Disco 2
1. Um Par – Dan Nakagawa
2. Cara Estranho – Leo Fressato
3. Sentimental – Phillip Long
4. Fingi na Hora Rir – Nevilton
5. Do Sétimo Andar – Érika Machado
6. De Onde vem a Calma – hidrocor
7. O Vencedor – Rodrigo Del Arc e Galldino
8. O Velho e o Moço – Maglore
9. Samba a Dois – Jô Nunes
10. O Pouco que Sobrou – Bárbara Eugênia
11. Conversa De Botas Batidas – Cícero
12. Pois é… – Transmissor
13. Casa Pré-Fabricada – Lula Queiroga

Bônus Track:
14. Morena – Wado
15. É de Lágrima – João e os Poetas de Cabelo Solto
16. Adeus Você – Nuvens

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abril 18, 2012   1 Brinde

Oito vídeos: Ian McCulloch em São Paulo


Bring On The Dancing Horses


Rescue


The Killing Moon


Nothing Lasts Forever


Rust


Proud To Fall


Lips Like Sugar


I’m Waiting For The Man

Dois primeiros vídeos por Mac; os demais por Janio Dias

Leia também:
– Shows em São Paulo: Kurt, Thurston, Carl e Ian, por Mac (aqui)

abril 17, 2012   Encha o copo