Bruce Springsteen infiamma Trieste

Texto e fotos por Marcelo Costa
O Estádio Nereo Rocco, em Trieste, era a casa do Unione Sportiva Triestina Calcio, time que lutou muito para fazer parte da elite do futebol italiano, mas naufragou este ano caindo para a Lega Pro Seconda Divisione (quarta divisão do futebol profissional da Itália) no mesmo momento em que a direção do clube declarava falência e dissolvia o time de futebol. Uma triste história para um estádio que, no dia 11 de junho, recebeu 30 mil pessoas, não para um jogo de futebol, mas sim para um concerto de rock and roll.

Não um show qualquer. A paixão que Bruce Springsteen inspira na Itália (e também na Espanha) é algo emocionante. Não havia um quarto sequer na grande maioria dos hotéis da cidade (segundo a Secretaria de Turismo, 11 mil camas foram ocupadas) assim como os 30 mil ingressos colocados à venda estavam esgotados. Trieste era a terceira parada italiana da turnê Wrecking Ball (que havia passado por Milão e Florença), e o show era assunto em todas as regiões mais próximas – de Lombardia ao Veneto – e até em países vizinhos (consta que 3 mil pessoas vieram em excursões dos Balcãs, da Austria, do Croácia e da Eslovênia).
Marcado para às 21h, as luzes só foram se apagar (para delírio da italianada) às 21h20, quando, um a um, os quinze integrantes da E Street Band foram subindo ao palco, com a fila sendo encerrada pelo guitarrista (e ex-Sopranos) Steven Van Zandt, aplaudidíssimo. Bruce veio na sequencia, olhou para o mar de gente, e cumprimentou (em italiano e esloveno): “Grande Trieste, urla, dobrodošli”. Alguns segundos depois começava a festa com os hinos “Badlands” e “No Surrender”.

É difícil demais explicar emoção, ainda mais de tanta gente junta. O cara vai, conta “one, two”, a E Street Band entra com peso e um estádio inteiro acompanha a música com um “ôôôôô” que parece a coisa mais simples do mundo, como se todos tivessem ouvido “Badlands” por toda sua vida, e esse fosse o momento para mostrar que aprenderam direitinho o oficio. Quando Jake Clemons, sobrinho de Clarence, faz o solo do tio no sax, o estádio quase vem abaixo. É só a primeira música.
Nestas duas primeiras canções, Springsteen exercita aquilo que fará durante as próximas três horas: largos sprints de um lado para o outro no palco, que geralmente terminam nos braços do público, em alguma das três passarelas que cortam o gargarejo. O público enlouquecido recebe muito bem “We Take Care of Our Own”, primeiro single de “Wrecking Ball”, que abre um bloco de canções do novo álbum na noite – seguem-se a faixa título e a irlandesa “Death to My Hometown”.

Lançado em março, “Wrecking Ball” alcançou o número 1 nos Estados Unidos, e Bruce mostra que confia muito no novo repertório, acertadamente, porque tanto a faixa título quanto “Death to My Hometown” trazem o público fazendo coro e parecem tão inseridas no repertório do homem que soam como se fossem um clássico de algum disco do Boss nos anos 70 (mesmo tendo menos de três meses de existência).
Surge então “My City of Ruins”, do álbum “The Rising” (2001), com Bruce apresentando em italiano – “Questa è la canzone dei saluti e degli arrivederci, delle cose che ci lasciano e di quelle che restano con noi, per sempre!” (algo como “Esta é uma canção de despedida, de pessoas e coisas que partem, mas mesmo assim ficam com a gente para sempre”) – e aproveitando para apresentar o time da E Street Band e mostrar outra novidade: a tour 2012 tem… suingue.

Isso mesmo. Quem estava acostumado com a explosão de energia das turnês anteriores de Bruce Springsteen irá se surpreender como a “Wrecking Ball Tour” namora o soul e o blues, e a emocionante jam session de “My City of Ruins”, em versão arrepiante de quase 13 minutos, tem o poder de transformar um estádio com 30 mil pessoas em um pequeno boteco de beira de estrada. É tudo enorme demais, mas íntimo, um dos vários grandes momentos da noite.
“Spirit in the Night”, do álbum de estreia de Bruce, “Greetings From Asbury Park, N.J.”, de 1973, surge em um arranjo soul de fazer a alma de James Brown sorrir de orelha a orelha. Bruce se joga no palco, se arrasta e vai pra galera. No caminho, o chefão pega uma guitarra de papelão de alguém da frente do palco, brinca de tocar, e olha o pedido do fã: “Downbound Train”, do álbum “Born in the U.S.A.” (1984), vem na sequencia, trazendo o rock de volta ao Estádio Nereo Rocco.

“Jack of All Trades”, outra nova, surge em uma versão bonita, que ganha ainda mais força com o discurso de Bruce antes de começar a canção: “Na América, os tempos são muito difíceis, as pessoas perderam seus empregos, suas casas e há muito pouco trabalho. Sei que vocês também estão enfrentando problemas, e houve o terremoto. Esta é uma canção para todos aqueles que lutam”. Na sequencia, “Youngstown”, do subestimado “The Ghost of Tom Joad” (1995), prova que há muitas pérolas escondidas nos álbuns de Bruce.
“Johnny 99” é outro dos grandes momentos da turnê atual. Bruce traz o quinteto de metais para a passarela central, entre o pessoal do gargarejo, e a galera fica toda ali improvisando, com o público tocando seus pés. Outra de “Born in the U.S.A.” (“Working on the Highway”) e outra nova (“Shackled and Drawn”) mantém a audiência aquecida e cantando. Parece que todos na plateia pensam: “se Bruce, aos 60, consegue, eu também consigo”. E dá-lhe correria e “ôôôô” .

“Waitin’ on a Sunny Day”, do álbum “The Rising” (2001) e um dos maiores hits de Bruce nos últimos 15 anos, é outro momento grandioso. Bruce vai pra galera, escolhe um moleque e o puxa para o palco (assim como ele havia feito em Roma na turnê de 2010). O menino sobe sem um dos tênis (alguém passa o par perdido pra Bruce, que segura), pega o microfone e canta gaguejante a letra, convidando na sequencia: “Come on E Street Band”, e a banda obedece. Lágrimas.
“Apollo Medley” é… foda, uma declaração de amor ao soul que hipnotiza e encanta. Na poderosa “The River”, o público acompanha Bruce cantando a trajetória do rapaz que engravidou a namorada Mary e teve que se casar aos 19 anos. Parecia impossível, mas o público faz ainda mais barulho quando o piano lança as notas de “Because the Night”, parceria histórica de Bruce com Patti Smith, e o show se encaminha para o final com “The Rising”, “We Are Alive” e o hino “Thunder Road”, que sozinha valeria o preço do ingresso.

O show termina, mas ninguém sai do palco e o bis começa com “Rosalita (Come Out Tonight)”, emenda os hinos “Born in the U.S.A.” e “Born to Run”, traz ainda “Bobby Jean” e “Hungry Heart” (a mais cantada da noite) e fecha com “Seven Nights to Rock” (cover do Moon Mullican), “Dancing in the Dark” (com vários fãs dançando com integrantes da banda no palco e Bruce dançando com a mãe de uma fã) e “Tenth Avenue Freeze-Out”. Acabou. Bruce diz ‘eu te amo’ (em italiano) para a plateia, manda beijos e deixa o palco. O relógio marca 00h40. A terça-feira está apenas começando.
No dia seguinte, o jornal italiano Il Piccolo manchetava na primeira página: “Springsteen infiamma Trieste: Storico concerto senza confini, il Boss regala musica e emozioni”. Impossível discordar. Por três horas e vinte minutos (semanas depois, Bruce bateria seu recorde tocando por inimagináveis três horas e quarenta e oito minutos em Madri), Bruce Springsteen entregou ao público italiano um dos melhores shows do planeta, senão o melhor.

Musicalmente impecável, um show de Bruce Springsteen não é bom apenas porque é longo (inclusive, há muita banda por ai que não deveria tocar mais que uma hora – para o nosso bem), mas sim porque Bruce faz valer cada segundo, cada gota de suor que derrama no palco, e não parou no tempo: boa parte do set list é de canções novas, músicas recentes que o público transforma em novos hinos numa relação apaixonada rara na música pop: Bruce é amado por seu público, e o ama na mesma intensidade. Vale a pena assistir essa história de amor ao vivo.
Leia também:
– Três horas de Bruce Springsteen em Roma (aqui)
– As diferenças de “Because The Night” (aqui)
– Histórias de Bruce Springsteen no SXSW (aqui)
– Fé em Bruce Springsteen (aqui)
– Bruce em Madri, o show mais longo, por Rodrigo James (aqui)
julho 2, 2012 Encha o copo
Itália: Trieste e o Castelo di Duíno

Texto e fotos: Marcelo Costa
“Buongiorno, eu gostaria de um quarto para uma pessoa para hoje e amanhã”, o cara pede assim que chega a recepcionista do hotel. “Para hoje temos vagas, mas para amanhã está tudo lotado”, responde a atendente. “Você poderia me indicar algum outro hotel aqui perto?”, insiste o turista. “Estão todos lotados. Bruce Springsteen faz show aqui e a Itália inteira está vindo pra cá ver o show”, exagera a garota. Hora de bater perna atrás de um local para dormir.

Trieste é uma cidade de pouco mais de 210 mil habitantes situada no nordeste da Itália, no Mar Adriático, que faz fronteira com as comunas de Duino-Aurisina, Monrupino, Muggia, San Dorligo della Vallee Sgonico e com a Eslovênia (a fronteira com a Croácia está a cerca de 50 minutos de carro). Foi uma importante cidade do Império Austro-Húngaro, do qual era o principal porto, e na segunda, 11 de junho, será invadida por fãs de Bruce Springsteen.

Costumo ser um cara prevenido em viagens internacionais. Geralmente, quando piso no Velho Mundo, estou com todos os ingressos, tickets de trens, aviões e reservas de hotéis comprados, tentando evitar surpresas. Desta vez, só não reservei hotel em Trieste. “Chegando na estação de trem acho um hotel ali do lado e me ajeito”, pensei, apostando na facilidade de encontrar um abrigo em uma cidade italiana não tão turística. Me enganei redondamente.

Após camelar por sete hotéis, e receber um “sold out” em todos, comecei a ficar preocupado. No celular, a busca encontrava hotéis disponíveis em Sežana, uma cidadezinha de 11 mil habitantes na Eslovênia, 15 quilômetros de Trieste. Cogitei seriamente atravessar a fronteira, mas havia um risco: na terça pós-show eu teria que estar às 7h na estação de trem em Trieste em direção à Verona para um voo para Amsterdã. O deslocamento talvez fosse complicado.

Arrisquei: entrei num dos hotéis na redondeza da estação de trem e garanti o domingo, implorando: “Se alguém cancelar a reserva para segunda, guarda pra mim”. Check in feito, sai a bater perna pela colônia romana que, no século II, se chamava Tergeste, ficou sob o controle de Bizâncio até 788, quando passou ao controle dos francos. Em 1382 passou a ser protegida do duque de Áustria sendo anexada à Itália apenas em 1918, após a Primeira Guerra Mundial.

Bastaram alguns minutos caminhando a esmo em um domingo de sol para se apaixonar pela cidade. A luz da cidade (entre o marrom e o amarelo, devido as pedras antigas que decoram todo o centro) a visão do Adriático, as extensas praças e o longo calçadão, que passa por diversas áreas da cidade, são um convite à contemplação. Uma cidade que merece uma visita com mais calma. Dormi o sono dos justos cansados torcendo por uma segunda-feira positiva.

“Buongiorno, apareceu algum quarto?”, foram minhas primeiras palavras na manhã de segunda. “Infelizmente não temos nenhum quarto de solteiro, mas há de casal vago”, ofereceu a recepcionista, explicando: “Você está pagando 70 euros o de solteiro. O casal é 90“. Não pensei duas vezes: “É meu”. Peguei informações de como chegar ao Castelo de Duíno, reduto em que o poeta alemão Rainer Maria Rilke escreveu o doloroso “Elegias de Duíno”, e parti.

Após um domingo lindo de sol, a segunda amanheceu nublada, com garoa e previsão de pancadas de chuva. Peguei um ônibus para o aeroporto, avisei o motorista que eu queria descer no castelo, e fui ser feliz. Uns dois pontos depois do castelo, o motorista me vê e pergunta: “Por que você não desceu?”. Faço cara de turista idiota, desço na autoestrada, e sigo a pé até o castelo… por dentro da mata. Do capítulo “vivendo perigosamente”.

Cerca de meia hora depois (podem ter sido o dobro ou o triplo disso, perdi toda noção do tempo) encontrei o castelo, e parti para quase duas horas de contemplação. Sua construção começou em 1389 sobre ruinas de um posto romano, e desde 2003 ele está aberto para visitação, tendo sido consagrado pelo poeta Rainer Maria Rilke, que passou dez anos (entre idas e vindas) no castelo escrevendo o que viria a ser conhecido com “Elegias de Duíno”:

“Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua natureza mais potente. Pois o belo apenas é o começo do terrível, que só a custo podemos suportar, e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha destruir-nos. Todo o anjo é terrível.” (trecho da primeira das dez elegias que compõe o livro).

O castelo está em excelentes condições, e impressiona como a família Della Torre, dona da edificação por cerca de 420 anos, era extremamente musical, com dezenas de violinos, violoncelos e pianos expostos pela casa (um deles de Franz Listz), que recebeu, entre outros, o arquiduque Franz Ferdinand, Johann Strauss, Paul Valery e Gabriele d’Annunzio. A vista do Adriático e os jardins do palácio são impressionantes. Não consegui visitar o bunker aberto na Segunda Guerra Mundial, mas sai impressionado com o local.

Na saída, uma chuva brindou os poucos turistas que se arriscaram a visitar o local em uma segunda-feira (um deles até chegou a perguntar se o ticket do show do Bruce Springsteen não dava descontos na entrada), que ainda teve passeio de bondinho (panorâmico) do centro até a região de Opicina, no alto do morro, e uma vontade danada de esticar até a Eslovênia ou a Croácia, mas eu já tinha compromissos para a noite de segunda-feira, e não podia faltar.

julho 2, 2012 Encha o copo
Da Inglaterra, Whitstable Bay Organic Ale

Duas belas representantes da Shepherd Neame, cervejaria de Kent, no sudoeste da Inglaterra, já haviam passado por este espaço: a Dedo do Bispo (Bishops Finger), uma bitter ale caprichada, com o aroma lupulado, que ainda traz notas de madeira, malte e frutas; e a Spitfire Premium Kentish Ale, uma standart bitter ale com três tipos de lúpulo que grudam caramelo e melaço de malte no céu da boca. A da foto acima é uma Whitstable Bay Organic Ale, que chega ao Brasil via Uniland.
Essa inglesinha carrega no aroma a marca da Shepherd Neame: assim que a garrafa é aberta, o lúpulo contagia o ambiente deixando alguns rastros de notas cítricas, florais e até um pouco de mel. O paladar, por sua vez, é tipicamente inglês: amargor pronunciado com o lúpulo marcando o céu da boca e o início da garganta, com o malte servindo de coadjuvante de luxo (melaço e caramelo) em uma cerveja bastante leve e refrescante, mas que perde em comparação para suas irmãs.
A Shepherd Neame é a cervejaria mais antiga da Inglaterra com uma produção dividida em oito rótulos distribuídos por mais de 360 pubs no Reino Unido (em Kent, Londres e Essex). Além das três cervejas citadas acima, a Uniland está importando outros dois rótulos (a maioria deles encontrado com facilidade em supermercados da rede Pão de Açucar entre R$ 13 e R$ 18 a garrafa de 500 ml): a Master Brew Kentish Ale e a 1698 Special Strong Ale. Estou atrás.
Whitstable Bay Organic Ale
– Produto: English Pale Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 2,81/5
Leia também
– Outras duas cervejas da Shepherd Neame (aqui)
– Top 500 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
junho 29, 2012 Encha o copo
Tour Comida di Buteco São Paulo 2012

texto por Marcelo Costa
fotos por Liliane Callegari
Sexta-feira, dia tradicional de happy hour. Nada como despedir-se de uma semana de trabalho em um bom boteco (daqueles que você ou conhece o dono, ou conhece bem o garçom), petiscando boa comida acompanhado de amigos e cerveja – não necessariamente nessa ordem – festejando o fim de semana que vem pela frente. Melhor ainda quando, a convite da organização do Comida di Buteco, somos levados por um pequeno tour pela capital para conhecer alguns bares que integram a competição paulistana em 2012, que vai até 01 de julho.

Atualmente realizado em 16 cidades brasileiras, o Comida di Buteco foi criado em Belo Horizonte no ano 2000, e estreia em São Paulo em 2012. Já tive o imenso prazer de experimentar alguns pratos premiados no concurso da cidade mineira, o que me deixa bastante animado para a competição em São Paulo. O chef Eduardo Maya, carioca boa praça de alma mineira especializado em comida de raiz, votante do badalado Guia Michelin de Restaurantes e idealizador do projeto andou muito na capital paulista para selecionar os 50 botecos para o certame.

Assim que chega à mesa do Pé Pra Fora, boteco no começo da Avenida Pompéia, pertinho do metrô Vila Madalena, ponto de encontro do Tour Comida di Buteco, Eduardo cumprimenta a todos e de cara recomenda uma colher de azeite, tradição no evento: “É para dar uma forrada no estômago, deixar uma película protetora, afinal a noite promete”, diz, não deixando ninguém de fora: “Já tomou sua azeitada?”, pergunta pra um. “Não vale deixar a colher torta para caber menos azeite”, brinca com outro, enquanto pede para o garçom porções do petisco da casa… e cerveja para acompanhar.

“São Paulo é uma colcha de retalhos gastronômica”, diz ele. “Tem ‘botecão’ simples e tradicional, tem bar arrumadinho e todo tipo de influência cultural. Fizemos questão de respeitar essa diversidade”, conta, preocupando-se em explicar o conceito da premiação: os bares participantes são avaliados em quesitos como qualidade do cardápio, atendimento, temperatura da bebida e higiene do local, mas um dos critérios mais emblemáticos é o envolvimento direto do proprietário no negócio. “Nós buscamos botecos com alma”, resume Maya.

Região lotada de bares chiques e restaurantes charmosos, mas com poucos botecos tradicionais, a Vila Madalena, por exemplo, tem apenas um representante no concurso: “Escolhemos o Jacaré Grill, e até tentamos outro, mas não deu certo”, diz Eduardo, que conseguiu criar um bom mapa de botecos paulistanos, com bares na Lapa, Santana, Perdizes, Cambuci, Vila Buarque, Mooca, Casa Verde, Vila Maria, Vila Mariana, Imirim. Brooklin, Ipiranga, Mandaqui, Saúde, Campo Belo, Vila Zelina, Tatuapé, Vila Matilde, Jaguaré, Liberdade, Bela Vista, Consolação, Santa Cecilia, Barra Funda e, ufa, no centro.

O primeiro petisco chega à mesa. É o Delícia de Pé, um belo (e bastante apetitoso) pedaço de filé de peito de frango empanado com um creme especial, o que o aproxima de uma coxinha creme, petisco bastante tradicional em vários botecos paulistanos. Aberto em 1970, o Pé Pra Fora é tão tradicional que sua vitrine lotada de torresminhos é, ao mesmo tempo, uma tentação e um atestado de identidade. Alguém na mesa assim que percebe os torresmos comenta: “Esse buteco é true”, no que Maya completa: “Uso isso para identificar os botecos de raiz”.

Partimos então para o nosso segundo destino na noite: Mooca. No caminho, Eduardo segue contando histórias gastronômicas divertidas, que incluem desde um tour de vespa por botecos no Vietnã até a explicação de pratos provados em viagens, como a carne de sapo, no Saigon – “Você escolhe ele vivo, e a pessoa prepara para você na hora. Lembra bastante carne de frango, ao contrário da rã, que comemos em alguns Estados brasileiros, que tem um pouco de água e lembra também peixe”, explica – ou um prato com dois peixes exatamente iguais, mas com gostos diferentes, na Espanha.

A segunda parada é no Bar do Vardema, na rua Guaimbé, uma travessa da Paes de Barros, na Mooca. O boteco está lotado com um balcão farto oferecendo dezenas de petiscos, entre eles o excelente Bolinho de carne com toque de shoyu, que participa da premiação. A família do dono, que está de aniversário – e avental, está presente, e um coro de “Parabéns Pra Você” irrompe na casa. Cada freguês é convidado a votar dando notas de 0 a 10 ao petisco, ao atendimento, à temperatura da cerveja e também para a higiene do local. Votos na urna, bora para o terceiro e último boteco desta sexta-feira.

Na van, o papo continua bom. “Boteco é uma extensão da casa da gente”, filosofa Maya, que além de defender a cultura da botecagem, busca incentivar que os bares participantes usem receitas de família em seus cardápios, e inovem. “Cozinha é experimentação”, diz com a experiência de que tem duas escolas de culinária em Belo Horizonte, e exige ingredientes obrigatórios no Comida di Buteco. Esta primeira edição em São Paulo foi livre, mas Eduardo promete levar os donos de boteco paulistanos a experimentarem na cozinha em 2013: “Linguiça e mandioca serão obrigatórios”, avisa.

A terceira parada deveria ser n’O Alemão, um boteco no Imirim, que está no concurso com um tentador Escondido de berinjela (massa leve de mandioca com cebola, recheado com berinjela, pimentão, queijo fresco e acompanhado de molho especial), mas a lotação do local acabou nos levando para um excelente plano B: o tradicionalíssimo Elídio Bar, na Mooca, que está defendendo no Comida di Buteco um sensacional Frango à passarinho crocante, servido com maionese (de dar água na boca e repetir várias vezes – enquanto houver espaço).

Seu Elidio Raimondi, falecido em 2012, foi o primeiro a ter um balcão de acepipes no bar fundado em 1959. Hoje em dia, as novas comandantes da casa são suas três filhas: Celeste, Solange e Suzete Raimondi, que aprenderam a cuidar de todos os detalhes com seu pai, que amava o futebol. Pelas paredes do Elidio Bar há mais de 40 camisas de times autografadas, muitas do Rei Pelé, e um enorme desenho do mítico campo da Rua Javari, casa do Moleque Travesso, o Juventos, tradicionalíssimo clube do bairro. O balcão de acepipes conta com aproximadamente 120 tipos e é uma enorme tentação.

“Uma das coisas bacanas do Comida di Buteco é que ele leva você a conhecer a sua própria cidade”, observa Eduardo Maya, ao saber que boa parte dos presentes não conheciam o ponto tradicional da Mooca. Bastante animado com essa primeira edição em São Paulo, o idealizador do projeto pretende mudar e ampliar os hábitos de botecagem na cidade, aumentar os pontos de baixa gastronomia de qualidade, fazendo com que casas já festejadas – como o Veloso (que está no concurso) – dividam sua audiência com novos concorrentes. Quem tem a ganhar somos nós, botequeiros.

Ps. No sábado, animados pelo tour da sexta, levei Lili para conhecer o tradicional Amigo Leal, na Amaral Gurgel, antigo ponto de encontro de jornalistas da Folha de São Paulo e do Estadão, na compania do casal Leonardo e Aline, e do palmeirense Tiago Agostini. O Amigo Leal está participando do Comida di Buteco com o viciante prato Doidera Alemã, de mais ou menos 1 kg de Eisben (joelho de porco) frito servido com molho de maionese e pão preto. Deu vontade de ficar petiscando e bebendo chopp a tarde inteira. Agora só faltam 46…

Ps2. Além de mim e da Lili representando o Scream & Yell, participaram do Tour Comida di Buteco a Isabelle Lindote, do Aventuras Gastronômicas; o Márcio Oliveira e a Paula Ricupero, do Tempero Urbano; a Ana Lúcia Araújo, do Cabana Bacana; e o Robson Catalunha, do grupo de teatro Satyros.

Todas as fotos por Liliane Callegari. Veja mais aqui
Leia também:
– Site do Comida di Buteco -> www.comidadibuteco.com.br/
– Meus cinco botecos preferidos em São Paulo, por Mac (aqui)
– Tops dos 14 dias em Minas Gerais, por Mac (aqui)
– Guia da Baixa Gastronomia: Pão na Chapa, por Mac (aqui)
– Receita de Sopa Parisiense com cebola, por Mac (aqui)
– A simplicidade de um bom molho pesto, por Mac (aqui)
– Receita de Talharim Alla Amatriciana, por Mac (aqui)
– Roteiro: Argentina e Chile – Parte 1: Comida (aqui)
junho 24, 2012 Encha o copo
The Man Who Invented Bossa Nova

No Mercado Livre, o CD “O Mito”, de João Gilberto, motivo da pendenga entre o músico e a gravadora EMI no começo dos anos 90, pode ser encontrado por cerca de R$ 179 (aqui). Disponível em dezenas de compartilhadores de arquivos, o álbum que reúne em um único disco os três primeiros lançamentos da carreira de João Gilberto (“Chega de Saudade”, de 1959, “O Amor, O Sorriso e A Flor”, de 1960, e “João Gilberto”, de 1961) permanece inédito no Brasil (assim como os próprios álbuns).
Teoricamente, os três primeiros discos de João Gilberto deveriam estar embargados em todo o mundo, já que João processou a gravadora (a qual havia deixado em 1963 e rompido definitivamente em 1988) em 1993 revoltado com o descaso com que o selo lançou a compilação com os três discos em um CD (acrescidos do EP “Orfeu da Conceição”). Segundo o músico, para encaixar as 38 músicas no CD, a EMI cortou o final de algumas canções e alterou a sequencia original dos álbuns.
Nem “O Mito”, nem “Chega de Saudade”, “O Amor, O Sorriso e A Flor” e “João Gilberto” podem ser encontrados para comprar em lojas brasileiras (com exceção de algumas lojas virtuais como o Mercado Livre), mas os três primeiros álbuns de João Gilberto vêm sendo comercializados com normalidade nos Estados Unidos e na Europa, em diversos formatos (até em vinil recém prensado é possível encontrar a trilogia inicial do mestre da bossa nova).
Em 2010, a gravadora britânica Cherry Red Records (que vem se especializando em material raro brasileiro) relançou os dois primeiros álbuns sem consultar o músico. Além das canções originais, as reedições de “Chega de Saudade” (1959) e “O Amor, O Sorriso e A Flor” (1960) pela Cherry Red Records são preenchidas com dezenas de faixas bônus (14 músicas extras no primeiro disco, 23 faixas a mais no segundo). Os dois discos são facilmente encontrados na Amazon.
Em 2012 é a vez do selo Ubatuqui Records, de propriedade da empresa espanhola Blue Moon Producciones Discograficas, com sede em Barcelona, se apropriar das canções de João Gilberto lançando “The Man Who Invented Bossa Nova”, praticamente uma reedição de “O Mito”, com os três álbuns reunidos em um único CD (mais o EP “Orfeu da Conceição” e ainda uma versão diferente de “Este Seu Olhar”) totalizando 39 canções em 78 minutos (com o set list novamente bagunçado, porém completo).
Vendido na FNAC espanhola por 7 euros (aproxidamente R$ 19), “The Man Who Invented Bossa Nova” traz um trabalho informativo exemplar, com ficha técnica, datas de gravação de cada take, capas de álbuns/compactos e letras de todas as canções além de textos de Tom Jobim (retirado da contracapa de “Chega de Saudade”), Gene Lees (da contracapa de “The Warm World of João Gilberto”, lançado nos Estados Unidos em 1963), Jordi Pujol, Dave Dexter Jr. e Jack Maher, da Billboard norte-americana.
Leia também:
– Os dois primeiros discos de João Gilberto são reeditados com faixas bônus na Inglaterra (aqui)
junho 24, 2012 Encha o copo
Dez links e um trailer

– The Afghan Whigs inspira brownie, por Eating The Beats (aqui)
– Portishead faz show memorável em Barcelona, por El Pais (aqui)
– Enquete El Pais: Qual a melhor série de todos os tempos? (aqui)
– Coruja lança cerveja em parceria com Wander Wildner (aqui)
– A Liverpool dos Beatles, por Juliana Zambelo (aqui)
– El Cuarteto de Nos: os uruguaios mais amados da Argentina (aqui)
– Bootleg: Tom Petty & The Heartbreakers – 31/05/12 (aqui)
– Woody Allen se perdeu em Roma, por Fernanda Ezabella (aqui)
– Black Box, por Jennifer Egan, na New Yorker (aqui)
– Pete Seeger: a vida e um punhado de versos, por El Pais (aqui)
junho 24, 2012 Encha o copo
As diferenças de “Because The Night”
Parceria de Patti Smith com Bruce Springsteen (de quando os dois gravavam seus novos álbuns em um mesmo estúdio em 1978, mas em salas diferentes, e se encontraram para essa colaboração), letra tem trechos diferentes na versão de cada um dos dois (embora a versão gravada originalmente por Bruce, que veio a ser conhecida apenas com o lançamento de “The Promise” em 2010, seja idêntica a de Patti Smith, o Chefão passou a cantar outra letra nos shows, transformando em sua a versão que apareceu no álbum quíntuplo “Live 1975/1985”). Assista aos vídeos e confira as letras clicando na imagem abaixo:
Patti Smith: versão original
Patti Smith: versão ao vivo
Bruce Springsteen: versão original (lançada em 2010)
Bruce Springsteen: versão ao vivo
Bruce reverencia a versão de Patti escorado pelo U2
10.000 Maniacs
junho 19, 2012 2 Brindes
Sete lojas de CDs e vinis na Europa

Discos Revolver, Barcelona
– Endereço: Calle Tallers, 13, Barcelona (uma travessa das Ramblas)
– Especialidade: Tudo de boa música, incluindo centenas de bootlegs tanto em CD quanto em DVD e vinil (numa vasta coleção).
– Curiosidade: O Wilco fez um set lá este ano (aqui)
– Site oficial: http://www.discos-revolver.com/

Discos Castelló, Barcelona
– End: Calle Tallers, 7, Barcelona (uma travessa das Ramblas)
– Especialidade: Tudo de boa música, incluindo centenas de bootlegs tanto em CD quanto em DVD e vinil (numa vasta coleção).
– Curiosidade: A loja foi aberta em 1934! No acervo atual, boxes numerados com com as sessões completas de vários discos dos Beatles e dos Stones
– Site oficial: http://www.castellodiscos.es/

Librerie Paralleles, Paris
– End: Rue Saint Honoré, 47, Paris (ao lado do Forum Les Halles)
– Especialidade: Raridades de música, quadrinhos e contracultura
– Curiosidade: Muita coisa boa nos balcões de promoções
– Site oficial: http://www.librairie-paralleles.com/

Crocodisc, Paris
– End: Rue de la Montagne-Sainte-Geneviève, 64 (abaixo do Pantheon)
– Especialidade: Vasto acervo de vinis e CDs
– Curiosidade: São duas lojas, uma ao lado da outra: a primeira mais geral especializada em rock. A segunda em jazz, soul e funk
– Site oficial: http://www.crocodisc.com/

CD Buttek From Palais, Luxemburgo
– End: Rue do Marche Aux Herbes, 16
– Especialidade: Vasto acervo de vinis, CDs e bootlegs
– Curiosidade: Tem praticamente o mesmo acervo matador de bootlegs numerados da Castelló e da Revolver (com alguns itens não encontrados nas duas)
– Site oficial: http://cdbuttek.oyla.de

Fopp, Londres
– End: Earlham Street, 1 (em Covent Garden)
– Especialidade: Megastore com vários itens em promoção
– Curiosidade: São oito lojas no Reino Unido em cidades como Cambridge, Edimburgo, Glasgow, Manchester, Nottinghan e Bristol
– Site oficial: http://www.foppreturns.com/

Music & Video Exchange, Londres
– End: Berwick Street, 95 (travessa da Oxford Street)
– Especialidade: CDs e vinis usados em preços imbatíveis
– Curiosidade: Há caixas fechadas de 60 vinis por 2 pounds / 120 CDs por 10 pounds. Por sua conta e risco (veja aqui). São quatro lojas em Londres com foco em rock e pop. Mas há outras focadas em jazz, roupas, books…
– Site oficial: http://mgeshops.com/main/home
Leia também:
– Onde comprar CDs na Europa, por Marcelo Costa (aqui)
junho 18, 2012 4 Brindes
The Stone Roses em Barcelona

Texto e fotos por Marcelo Costa
Comeback mais badalado de 2012, a volta do Stone Roses esgotou 150 mil ingressos em 14 minutos para os dois shows que a banda iria fazer em sua terra natal, Manchester. Porém, fora do Reino Unido, a turma de Ian Brown não tem repetido a acolhida britânica. Em Barcelona, na Sala Razzmatazz (que diz receber até 2 mil pessoas, mas parece caber só 800), só a segunda data, num sábado, esgotou. Isso porque boa parte da plateia era inglesa.
No palco, porém, a banda não decepcionou. Na verdade, até parece que o tempo não passou para o quarteto. A voz de Ian Brown continua perfeita, ainda que ele desafine aqui e ali. Um dos melhores baixistas do mundo, Mani (com Woody Allen estampando a camiseta), só fez melhorar com o tempo, e o mesmo pode ser dito do guitarrista John Squire. As batidas de Reni completam o mix sonoro, que por várias vezes na noite descamba para versões estendidas das canções.

“I Wanna Be Adored” abre a festa de cervejas arremessadas ao alto. Os ingleses vão a loucura, os espanhóis tentam acompanhar, e ”Sally Cinnamon” coloca mais lenha na fogueira. Ian Brown vai até o fosso, cumprimenta a galera do gargarejo, e retorna para “(Song for My) Sugar Spun Sister”. Dai em diante o show alterna momentos de bocejo (“Mersey Paradise”, “Where Angels Play”) com lampejos de paixão (“Waterfall”, “Fools Gold”).
O trecho final, no entanto, é matador: começa com “She Bangs The Drums” e segue com uma versão deliciosa de “Made of Stone”. “This Is the One” mantém o clima lá em cima, e “Love Spreads” resume a noite, com a inglesada pogando como se estivesse em um show do Ramones, comemorando a volta de uma das principais bandas do Reino Unido dos últimos 25 anos (Liam Gallagher, fã confesso, assistiu ao show da sexta aqui mesmo na tribuna).

A noite ainda não terminou, e uma versão estendida de “I Am The Resurrection”, com quase 13 minutos de batidas e psicodelia, surge no bis e coloca a plateia em transe. Assim que a canção termina, rodas de abraços se formam entre o público (principalmente os ingleses, bêbados, ensopados e melhores amigos do mundo a essa altura da noite), seguindo o exemplo do quarteto no palco, que parece comemorar o bom show como se fosse um gol.
Faltou “Ten Stories Love Song” (que eles tocaram em Amsterdã, alguns dias depois), mas quem sabe da próxima vez… quem sabe no Brasil. Será? Agora é esperar… e torcer.

junho 15, 2012 Encha o copo
Tom Petty and The Heartbreakers em Cork

Texto e fotos por Marcelo Costa
Cork é a segunda maior cidade da República da Irlanda e, com seus 120 mil habitantes, a terceira mais populosa da ilha irlandesa, ficando atrás das capitais Dublin e Belfast. É cortada pelo Rio Lee e acredito que deva ter um pub para cada habitante da cidade (é só esperar alguma faculdade norte-americana fazer a pesquisa). É bom lembrar que estamos no país das cervejas Guiness e Murphys e do uísque Jameson.

Para festejar o verão, a cidade de Cork promove o Live at the Marquee, montando um enorme circo nas docas e recebendo um line-up variado que atende a todos os gostos (em 2012 a lista vai de Justice a Imelda May, de The Specials a Dara O’Briain). Mesmo estando em uma cidade que deve ter menos população que muitos bairros de São Paulo, Tom Petty consegue arrastar cerca de 7 mil pessoas para o circo.

A “loucura” do pessoal de Cork não é a toa: esta é a primeira turnê europeia de Tom Petty com seus Heartbreakers em 20 anos, e toda a terceira idade da cidade está debaixo da lona esperando o cara que montou um grupo com Bob Dylan, George Harrison e Roy Orbison. A faixa etária bate na casa dos 50, e eles não brincam: bebem cerveja como se fosse água e dão um show à parte na noite. Bonito de ver.

O show começa e a banda nem leva set list para o palco. As canções surgem em versões encorpadas, intensas, perfeitas. “Listen to Her Heart”, de seu segundo álbum (“You’re Gonna Get It!”, de 1978), abre a festa, e Tom Petty faz questão de dizer de onde saiu cada canção que vai tocar: “Essa é do “Full Moon Fever””, avisa quando toca “I Won’t Back Down”. “Agora é uma do disco chamado “Damn the Torpedoes”. E vem “Here Comes My Girl”.

Ele parece feliz, muito feliz. No Twitter, um dia antes, agradeceu a recepção calorosa em Dublin. Já em Cork, estica o sotaque caipira na hora de falar “Thank you soooooooooo much” e leva todo mundo ao delírio quando diz que vai cantar uma canção dos Traveling Wilburys. Surge então “Handle with Care”, cantada a plenos pulmões por quase todo o circo, um momento bonito, de emocionar.

Uma cover rock and roll de Bo Diddley (“I’m a Man”) destaca o guitarrista Mike Campbell, braço direito e sombra de Tom Petty. Lá pelas tantas, ele agradece: “Nunca tive um número 1, um big sucesso. Obrigado por vocês terem vindo”. Depois apresenta a banda inteira, calmamente, e avisa: “Agora uma canção de amor… uma canção de amor bonita”. E um coro imenso de 7 mil Tom Cruises berra o refrão de “Free Fallin’” e faz o acompanhamento arrepiante do backing vocal em “Learning to Fly”. De chorar.

Boas canções do álbum “Mojo” (2010) formam o grosso do repertório, e se alternam com pérolas pescadas de uma carreira de quase 35 anos. O público irlandês recebe todas como se fossem hits. De “Kings Highway” (“Into the Great Wide Open”, 1981) a “It’s Good To Be King” (“Wildflowers”, 1994), de “Refugee” (outra do “Damn the Torpedoes”, 1979) até “Your So Bad” (“Full Moon Fever”, 1989).

Para o bis, novos momentos de histeria marcam as execuções de “Mary Jane’s Last Dance” e “American Girl”, que fecha uma noite especialíssima em que público e banda mostraram que é possível viver (e fazer sucesso) sem números 1 nas paradas. Palmas para Cork e Tom Petty. Como disse um dos amigos, o show era em um circo, mas não houve palhaçada. Que noite, que noite.

junho 15, 2012 Encha o copo


