Alguns segundos que se estendem
Nesta entrevista imperdível ao jornal português Público, o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro cita a filósofa belga Isabelle Stengers: “A palavra crise não é adequada porque supõe que você pode superá-la, quando o que estamos vivendo é uma situação que não tem um voltar atrás”. É lógico que Isabelle está falando sobre o contexto econômico e ambiental do planeta, mas num momento em que a melancolia se instala na casa, abre uma cerveja e assiste televisão com os pés no sofá, o temor por uma estada mais prolongada se instala. Tem que ter como voltar atrás.
Minhas crises são cíclicas e absolutamente rotineiras. Elas vem e vão. Alguns dias, acordo melancólico para no meio da rua rir da tolice de cantar sozinho uma canção – e alguém perceber. O bom da felicidade – ou da suavidade da vida, para não sermos tão otimistas – é que ela muitas vezes vem de lugar nenhum, e nos salva naquele exato momento em que estamos prestes a cometer uma grande bobagem. Ok, não sou do tipo de grandes bobagens, mas daqueles que se enfiam debaixo do edredom a espera de uma luz – que nunca vem – até descobrir que o senhor máximo da minha estupidez sou eu mesmo.
A entrevista do Eduardo Viveiros é daquelas que fazem a alma respirar aliviada, mesmo com todo o peso nas costas que o corpo carrega. Ainda assim, propõe escolhas não tão fáceis para nossas dúvidas simples. No fundo, a escolha (muitas vezes induzida) por viver em um mundo severamente capitalista é dolorida, e abdicar disso é talvez ainda mais doloroso. Acreditar que abdicar do capitalismo tal como a sociedade o reinventou (com espaço para gananciosos hipócritas) seja mais ou menos como nascer de novo – com a desvantagem de não termos uma borracha para apagar todos os vícios.
Claro que existem coisas úteis a serem feitas, existem maneiras de se viver dignamente e brechas para pagar as contas fazendo o que se ama. O mundo capitalista também permite certas liberdades, mas ando tão cansado do alto dos meus 43 anos que a vontade de esvaziar a cabeça e parar de esmurrar prego me conduz pelas mãos, joga um edredom sobre a alma, e pede para que eu fiquei quietinho observando o mundo. Eu, muito respeitoso, aceito o convite. Queria tanto fazer algo que vale a pena, mas esse conceito é tão complicado que desisto, por alguns segundos, de sonhar, viver e ser feliz.
São alguns segundos que se estendem, mas logo passa.
Espero, Isabelle, espero.
março 17, 2014 Encha o copo
Belchior no Scream Yell (e no Globo)
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Entre os aos menos três projetos de lançamento que o Scream & Yell tem para 2014, o primeiro já começa a dar as caras. Com produção e curadoria do grande parceiro Jorge Wagner, até o fim do mês estará disponível para download gratuito no site um tributo independente a Belchior chamado “Ainda Somos os Mesmos”, com base no álbum “Alucinação”, de 1976.
“Alucinação” é praticamente um greatest hits de Belchior contando com alguns dos maiores sucessos da carreira do compositor, alguns deles na voz de outros interpretes, caso de “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”, eternizadas por Elis Regina. Los Hermanos, Wander Wildner e Engenheiros do Hawaii estão entre as bandas que já regravaram canções de Alucinação.
Abaixo você confere a seleção de artistas que estará presente na coletânea.
Álbum: “Ainda Somos os Mesmos”
1- Dario Julio & Os Franciscanos – Apenas Um Rapaz Latino Americano
2- Manoel Magalhães – Velha Roupa Colorida
3- Phillip Long – Como Nossos Pais
4- Nevilton – Sujeito de Sorte
5- Lucas Vasconcellos – Como o Diabo Gosta
6- Bruno Souto – Alucinação
7- Lemoskine – Não Leve Flores
8- Fábrica – A Palo Seco
9- Transmissor – Fotografia 34
10- Marcelo Perdido – Antes do Fim
EP Bônus: Entre o Sonho e o Som
1- nana – Coração Selvagem
2- Jomar Schrank – Comentário a respeito de John
3- Ricardo Gameiro – Medo de Avião
4- João Erbetta – Paralelas
5- The Baggios – Todo Sujo de Batom
março 12, 2014 Encha o copo
A entrega de prêmios APCA 2013

Uma das melhores cenas musicais do mundo
“Premiar os destaques de um ano inteiro não é uma tarefa das mais fáceis, mas o cenário brasileiro, cada vez mais prolífico em criar boa música – ainda que grande parte dela esteja distante dos veículos de mídia – ajuda. O trabalho de pesquisa e acompanhamento musical necessita, então, encontrar os focos de boa música em um país cada vez mais plural, e acreditamos ter conseguido pinçar um delicado painel em 2013 ao valorizar gerações que fazem da música brasileira uma das melhores do mundo – senão a melhor. Basta abrir os ouvidos”.
Marcelo Costa
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A APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) entregou os prêmios para os melhores de 2013 em 11 categorias, em cerimonia realizada no Sesc Pinheiros nesta terça-feira, 11 de março (conhecido com um dos raros dias em que uso paletó e gravata no ano). Com apresentação de Marcelo Tas e sua esposa, a atriz Bel Kowarick, a premiação, dirigida por Mika Lins, se mostrou uma das melhores dos últimos anos, com belas imagens no fundo do palco e alguns discursos emocionantes.
Marcelo Tas entrou em cena e logo pediu uma salva de palmas para o ator Paulo Autran, cujo nome batiza o teatro do Sesc Pinheiros. A noite estava apenas começando e muitos presentes se ajeitaram nas cadeiras para o início da premiação, que teria, no palco, nomes como Tomie Ohtake, Ewa Vilma, Mateus Solano (o Félix da novela “Amor à Vida”), Fernanda Lima, Alice Braga, Felipe Hirsch e Antunes Filho.
Na categoria Música Popular, da qual integro como votante, a ausência inexplicável da homenageada do ano pelo júri, Angela Maria, foi sentida – mas Tas se saiu bem com uma piada. Na sequencia, o grupo Essência subiu ao palco para receber o prêmio de Melhor Grupo Vocal MPB, e avisou: “Somos de Goiás e lá não tem só sertanejo não. Tem muita banda de rock boa. Prestem atenção no trabalho da Monstro Discos”.
Alexandre Kumpinski, da Apanhador Só, subiu ao palco logo depois acompanhado de Gustavo Lenza, produtor do álbum “Antes Que Tu Conte Outra” (que Marcelo Tas pareceu achar que fosse o nome da banda) para receber o Prêmio APCA de Disco do Ano, e disse: “É bom saber que a APCA está com os ouvidos abertos para o novo”.
O pessoal da Selton, eleito o Melhor Grupo de Rock por seu trabalho no disco “Saudade”, não pode comparecer (já que eles vivem em Milão, na Itália), mas mandou um representante, que brincou: “Pessoal da 89FM, o disco do Selton está ai. Vamos tocar! (a Rádio Rock ganhou o Grande Prêmio da Crítica na categoria Rádio)”.
Outro ausente foi Arnaldo Antunes, que enviou seu assessor, que observou na plateia alguns parceiros de Arnaldo em “Disco”, lançado em 2013: “A Luê e o Felipe Cordeiro estão ai. Esse prêmio é de vocês também”.
Premiados como Melhor Projeto Especial de 2013, o pessoal do Terruá Pará tomou o palco e, sob o comando do ex-secretário da comunicação do Pará, Ney Messias Jr., ressaltou a dificuldade de tornar realidade um grande projeto como o Terruá Pará, envolvendo tantos artistas, e elogiou o trabalho de Carlos Eduardo Miranda e Cyz Zamorano, responsáveis pela produção musical do projeto.
Anitta, eleita Revelação de 2013 e um dos nomes aguardados da noite, não pode ir, mas enviou a empresária, que leu um SMS enviado minutos antes: “Leia do jeito que estou escrevendo para eles saberem que sou eu mesma!”.
O grande momento ficou para Dona Jacira, que subiu ao palco para receber o prêmio de Melhor Interprete para o filho Emicida, que está no Texas participando do South by Southwest. Bastante aplaudida assim que foi anunciada, Dona Jacira dividiu o prêmio com o pessoal do selo Laboratório Fantasma e, com a taça da APCA em mãos, entoou o bordão: “A rua é nóis”, aplaudidíssima.
Dois anos integrando o júri na categoria Música Popular da APCA, posso dizer que me sinto bastante feliz em fazer parte desse prêmio que reconhece e valoriza artistas tão especiais, e grandes trabalhos.
Sinto que é pouco, e que mesmo o Scream & Yell, entrincheirado em seu gueto independente, não dá conta de uma cena tão produtiva e de alta qualidade, mas acredito que é de imensa importância reconhecer e valorizar o trabalho de pessoas que não estão de braços cruzados observando o tempo passar, mas criando, recriando, propondo o novo, instigando.
É fácil reclamar. É fácil criticar sem fundamento. Difícil é criar. A arte precisa ser debatida. A música brasileira, em seus mais diversos nichos, precisa ser ouvida e discutida, porque eles estão fazendo a parte deles, que é criar. E muito bem. O resto depende de nós…
março 12, 2014 Encha o copo
Somos todos ninguém
Não sei o que escrever. Talvez nunca soube, o que deixa no ar uma sensação de que caminho todo o tempo no escuro tateando o próximo passo, pisando em buracos, e, como o personagem de Bill Murray no genial “Feitiço do Tempo”, aprendendo aos poucos – e muito devagar – com os próprios erros.
Não posso reclamar. Nem da dor de estomago. Sei que colho o que plantei, mas as coisas poderiam ser mais fáceis, não? No fundo, mesmo sendo bom (ou, ao menos, tentanto), há sempre a expectativa da recompensa, e isso é intrínseco ao ser-humano. Não que você espere um bilhete premiado, mas, catzo, qual a vantagem de ser bom se tantos canalhas se dão melhor?
Talvez, dormir sossegadamente quanto recostar a cabeça no travesseiro, algo que, definitivamente, não conseguirei fazer hoje. Melindres, medos e receios. Bata tudo no liquificador junto com duas taças de vodka, duas cerejas e uma azeitona sem caroço. Deve ficar bom. Deve.
Talvez o grande problema de estar vivo resulte exatamente da busca no sentido disso. Existe sentido? A vontade de fugir é imensa. A vontade de se esconder, também. A vontade de descansar cansa. É tudo ao mesmo tempo agora e, na verdade, é tudo algema. Quem pensamos que somos. Quem penso que sou? Somos todos ninguém. Todos.
março 11, 2014 Encha o copo
Cinco fotos: Oslo
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março 8, 2014 Encha o copo
O Resto É Ruído #40: Sérgio Martins

Mais uma edição especialíssima d’O Resto É Ruído. Dessa vez, Elson Barbosa, Fernando Lopes, Amanda Montalvão, Filipe Albuquerque, Bruno Capelas e eu recebemos o grande jornalista Sergio Martins para umas taças de vinho e um bate-papo sobre Notícias Populares, Bizz, jornalismo musical, suas matérias para a Veja cobrindo desde a cena independente até o sertanejo e o funk, o trabalho de pesquisa para o seu primeiro livro, e diversas outras histórias. Particularmente fiquei bastante feliz com a aula de jornalismo de alguém que já entrevistou Mick Jagger, Bono, Chris Martin, Lou Reed e Jimmy Page, entre muitos outros. No set list, Jonny Greenwood, Riachão, Kevin Drew, Thurston Moore, Asalto Al Parque Zoológico, Nothing, e uma dobradinha do filme “Her” com Karen O e Scarlett Johansson.

Ouça também:
– O Resto é Ruído: Melhores de 2013 (aqui)
– O Resto é Ruído com Ricardo Alexandre (aqui)
– O Resto é Ruído com Fabio Massari (aqui)
– O Resto é Ruído #32 (aqui) e #33 + #34 (aqui)
fevereiro 28, 2014 Encha o copo
O Resto É Ruído #39: Vitor Brauer

A edição #39 d’O Resto É Ruído traz uma novidade na formação da mesa: Bruno Capelas, jornalista do Estadão, blogueiro do Pergunte Ao Pop e colaborador do Scream & Yell, ocupa a cadeira vaga pelo Filipe depois da sua mudança pra Curitiba. E o Capelas já estreia recebendo um convidado: Vitor Brauer, vocalista e guitarrista da banda mineira Lupe de Lupe. Começamos falando sobre a Lupe e seus projetos solo, e emendamos uma discussão sobre as últimas listas de Melhores de 2013 (Scream & Yell, Rolling Stone, Grupos da Sinewave e da Bizz), a mistura ou não de discos nacionais com internacionais, votos úteis x votos honestos, músicas favoritas x músicas representativas (”Show das Poderosas” e “Get Lucky” à frente), dentre outros assuntos. No set list, Lupe de Lupe, King Krule, The Baggios, Linda Martini, Liars, Joanna Gruesome e Adeus, novo projeto do mentor do Bemônio.
Ouça também:
– O Resto é Ruído: Melhores de 2013 (aqui)
– O Resto é Ruído com Ricardo Alexandre (aqui)
– O Resto é Ruído com Fabio Massari (aqui)
– O Resto é Ruído #32 (aqui) e #33 + #34 (aqui)
fevereiro 5, 2014 Encha o copo
Sete respostas: Música, Cinema e Web
Meu nome é Lucas Paraizo, sou estudante de Jornalismo e estou realizando uma grande reportagem sobre como a internet mudou a maneira de consumir cultura – tratando especialmente sobre música e cinema. Aceita participar?
Como você avalia o impacto que os programas de troca de arquivos (que surgiram a partir do Napster) tiveram na maneira com que as pessoas consomem os produtos culturais?
A internet mudou a vida das pessoas em todos os sentidos, e ainda estamos nos adaptando, procurando maneiras de lidar com essa novidade, que já não é nem tão nova, mas a todo momento mostra algo absolutamente novo para nós. No caso da música, a mudança foi brutal, e ainda estamos nos recuperando do choque. A avaliação, no entanto, é positiva: as vendas de música caíram, mas as pessoas estão ouvindo muito mais música hoje em dia – e o surgimento do iPod e de ferramentas que tocam arquivos de música também tem um peso nisso. A questão então deixa de ser cultural (a música está morrendo? Não! Ela vive um de seus momentos mais valorosos) e passa a ser econômica: como ganhar dinheiro vendendo música? Há maneiras e maneiras, e nenhuma irá sobrepujar o auge da indústria, nos anos 80 e 90, mas é possível ganhar dinheiro sim produzindo música.
Você acha que a indústria da música já aprendeu a lidar com a internet, ao invés de tentar combatê-la?
Ainda não, mas está tateando. Sinto que ela começa a aceitar algumas práticas e tenta ir na onda do que acontece na web, ao invés de ir contra. No fundo, nenhum de nós sabe lidar com a internet ainda. A indústria da música é apenas um reflexo dessa nossa ignorância frente ao novo.
O caso do disco “In Rainbows”, do Radiohead, é bem emblemático quando falamos na relação entre artistas e internet no cenário musical. Você considera esse o exemplo mais relevante? A ideia do “pague quanto quiser” vale ser seguida pelos artistas?
Ela já é seguida, e tanto Bandcamp quanto Crowdfunding são exemplos práticos desta demanda, mas não podemos cravar que esse será o método a ser seguido. A verdade é que só existe uma única regra neste momento: não existem regras. Isso é extremamente libertário e permite que cada artista converse com seu público da forma que lhe convier. É hora de ser criativo.
Os sistemas de stream (como Spotify, Deezer e Rdio) se popularizaram bastante nos últimos anos, e, enquanto alguns dizem que essa pode ser a saída contra os downloads ilegais, vários artistas afirmam que o modelo não é nada favorável para eles. Qual a sua opinião sobre esse modelo de serviço?
Tem prós e contras. A remuneração para os artistas é bastante baixa muito porque uma burocracia imensa foi criada nos últimos 60 anos para reconhecer uma obra musical. Entre o momento que o compositor compõe a canção e você a ouve em sua casa, dezenas de atravessadores passaram pelo caminho retirando uma fatia da renda dessa obra. Mais do que discutir a viabilidade dos sistemas de streaming (que estão funcionando hoje, mas podem cair em desuso amanhã, como milhares de coisas na web) é preciso discutir o valor da obra artística, quem deve ganhar com ela, e quanto. Não basta o artista reclamar da indústria, tem que ir atrás de seus direitos.
Sobre os downloads ilegais (principalmente de música e filmes), como você avalia a importância deles na disseminação cultural?
Europa e Estados Unidos ainda tem mercados sólidos, um misto de cultura pelo que é correto (lógico, há desvios) e força da lei. No Brasil, onde reina a Lei de Gerson e a indústria musical está falida como objeto de disseminação de ideias da indústria cultural, o download ilegal transformou-se numa maneira útil para que grande parte dos artistas alcance um determinado público. Acho de extrema importância para este novo mercado, uma ferramenta valiosa de conhecimento. E ao contrário do que muita acha, o download gratuito não diminui às vendas. Muitas vezes acontece o contrário.
Já é possível perceber uma nova geração de consumidores de cultura aparecendo, formada por jovens que, graças a internet, não sabem o que é não ter praticamente todo o conteúdo desejado disponível online. Que efeito isso pode ter no cenário cultural, e, consequentemente, na sociedade?
Ainda acho cedo para discutirmos esse cenário porque a internet de alta velocidade não tem nem 15 anos no Brasil (ela começou a se popularizar de verdade em 2000). Então todos os jovens ainda são afetados por seus pais, mesmo que eles tenham um contato cada vez maior com a internet. Eles veem discos, CDs, DVDs, vitrolas, disc-man e outras coisas, há ainda uma ligação. A mudança drástica, creio eu, irá acontecer três gerações para frente, quando os bisnetos dessa molecada crescerem em um mundo que pouco deverá ter do que é hoje. Até lá, as coisas vão continuar mudando, mas não creio em tsunamis, e sim em fortes chuvas aqui e ali.
A Amanda Palmer falou durante um evento no ano passado, comentando sobre os seus projetos independentes na música, que as pessoas vêm fazendo a pergunta errada quando se trata de arrecadar dinheiro com arte. Ela disse que o certo não é obrigar o pagamento, mas sim deixar que as pessoas paguem se for interessante para elas. Esse comentário se relaciona bem com vários projetos que vimos recentemente no Brasil, com artistas lançando seus álbuns gratuitamente na internet ou em projetos de crowdfunding, como o do Apanhador Só. Seria esse o futuro dos projetos artísticos na era da internet? Com menor participação de gravadoras/produtoras e mais realização focada, direto do artista para o seu público?
Creio que sim. A Amanda foi bastante perspicaz em sua observação. Não podemos esquecer que o sentimento de posse é inerente ao ser-humano: ele gosta de ter o objeto, de toca-lo, de vê-lo. Os downloads devem aumentar, os portais de streaming também, mas as pessoas vão continuar consumindo cultura porque isso as define. A camisa do Wilco que eu uso é um código que traz em si diversas ideias. O CD do Apanhador Só não é só um disco de acrílico e papel, há revolução ali, e as pessoas ainda estão interessadas nisso. Creio que, cada vez mais, o ser-humano precisará de fichas que o definam em uma sociedade cada vez mais caótica. Dessa forma, a música é uma escolha tão emblemática quanto religião, seu time de futebol e seus pratos preferidos. Tudo isso junto (e muito mais) forma a nossa personalidade. Acho que não conseguiremos nos livrar destes valores tão cedo.
fevereiro 4, 2014 Encha o copo
Scream & Yell na coluna #GPS

Fui convidado pela queridíssima Renata Simões para falar um pouco sobre a edição de Melhores de 2013 do Scream & Yell, e o papo – com direito a boas cervejas – você ouve abaixo online na coluna dela na Oi FM, #GPS (se quiser fazer o download em MP3, use o botão +).
fevereiro 2, 2014 Encha o copo
David Bowie está entre nós

David Bowie está entre nós. Bem, quase. O Museu da Imagem e do Som de São Paulo abre nesta sexta-feira, 31 de janeiro (e segue até 20 de abril), a exposição David Bowie, retrospectiva imperdível sobre a intensa carreira do artista britânico, que lançou seu primeiro disco, “Space Oddity”, em 1967, e continua na ativa – “Next Day”, seu álbum de 2013, foi eleito o Melhor Disco do Ano pelo júri convidado pelo Scream & Yell (veja aqui) –, embora esteja longe dos palcos.

A mostra reúne cerca de 300 itens relacionados ao artista, sendo que se destacam os 47 figurinos usados por David Bowie em diversos momentos de sua carreira, como o conjunto em matelassê desenhado por Freddie Burreti em 1972 para a turnê do álbum “Ziggy Stardust” e usado por Bowie na apresentação de “Starman” no Top of The Pops em julho de 1972, ou o impressionante traje de vinil desenhado por Kansai Yamamoto em 1973 para a turnê “Alladin Sane” – que decora o material de apoio da mostra.

Bastante focada em moda, mas abrindo espaço também para observações sobre o processo criativo do artista, a mostra é montada de forma peculiar: assim que adentra o espaço da retrospectiva no MIS, o visitante recebe um fone de ouvido, que irá acompanha-lo por todo o percurso, interagindo com os vídeos presentes na mostra conforme o espectador entrar na área de alcance do objeto. Assim, trechos de filmes, entrevistas ou mesmo videoclipes clamam por atenção nos fones.

Particularmente chamam a atenção os diversos rascunhos de letras escritos por Bowie, e presentes na mostra, registros iniciantes de canções como “Ziggy Stardust”, “Heroes”, “Rebel Rebel”, “Ashes To Ashes” (e um programa de computador que exercita a técnica de cut-ups, na qual um texto é cortado e reorganizado para criar um novo texto – além de um vídeo com Bowie explicando como usou isso em letras) ou mesmo esboços da arte que seria usada em algumas das capas famosas do compositor.

Aberta para a imprensa na véspera da abertura oficial, a montagem ainda mostrava falhas: a baixa luz nas salas dificulta (principalmente em uma que traz diversos trajes postados logo abaixo dos vídeos em que foram usados), as etiquetas que identificam objetos colocadas no canto baixo da obra não ajudam (havia gente ajoelhando para ler as placas na escuridão) e, principalmente, falta de nome nas salas, o que pode confundir o espectador (haverá gente que irá embora acreditando ter visto todas as salas, mas deixando para trás uma ou outra).

Para complementar a exposição, o MIS preparou uma divertida brincadeira para a edição brasileira. Durante o período em que a mostra estará em cartaz, o Museu convida os visitantes a participarem do Estúdio MIS, um karaokê exclusivo que o Museu montou para você cantar com seus amigos os grandes sucessos do cantor. A performance será gravada e disponibilizada no site http://estudio.mis-sp.org.br/– o estúdio funcionará das 16h às 20h, sendo que cada ingresso vale para até três pessoas por música.

Para os fãs, vale o investimento no enorme livro da mostra, à venda na loja do MIS, por R$ 119. Com 320 páginas, capa dura e reprodução dos figurinos, rascunhos de letras e fotos icônicas, o livro é um bom resumo do passeio. Os ingressos para a exposição “David Bowie” podem ser comprados antecipadamente pelo site www.ingressorapido.com.br, com valor único de R$ 25 (reserva de data e horário para o espectador). A partir de hoje, 31/01, às 13h, os ingressos também podem ser comprados na Recepção MIS por R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

Leia também:
– “Next Day”, de David Bowie, o melhor disco de 2013 (aqui)
– A mesma música: Três vezes David Bowie (aqui)
– As várias sonoridades diferentes de “The Next Day” (aqui)
– Mais sobre a exposição David Bowie em São Paulo (aqui)
janeiro 31, 2014 Encha o copo







