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O Resto É Ruído #40: Sérgio Martins

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Mais uma edição especialíssima d’O Resto É Ruído. Dessa vez, Elson Barbosa, Fernando Lopes, Amanda Montalvão, Filipe Albuquerque, Bruno Capelas e eu recebemos o grande jornalista Sergio Martins para umas taças de vinho e um bate-papo sobre Notícias Populares, Bizz, jornalismo musical, suas matérias para a Veja cobrindo desde a cena independente até o sertanejo e o funk, o trabalho de pesquisa para o seu primeiro livro, e diversas outras histórias. Particularmente fiquei bastante feliz com a aula de jornalismo de alguém que já entrevistou Mick Jagger, Bono, Chris Martin, Lou Reed e Jimmy Page, entre muitos outros. No set list, Jonny Greenwood, Riachão, Kevin Drew, Thurston Moore, Asalto Al Parque Zoológico, Nothing, e uma dobradinha do filme “Her” com Karen O e Scarlett Johansson.

 

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Ouça também:
– O Resto é Ruído: Melhores de 2013 (aqui)
– O Resto é Ruído com Ricardo Alexandre (aqui)
– O Resto é Ruído com Fabio Massari (aqui)
– O Resto é Ruído #32 (aqui) e #33 + #34 (aqui)

fevereiro 28, 2014   Encha o copo

O Resto É Ruído #39: Vitor Brauer

A edição #39 d’O Resto É Ruído traz uma novidade na formação da mesa: Bruno Capelas, jornalista do Estadão, blogueiro do Pergunte Ao Pop e colaborador do Scream & Yell, ocupa a cadeira vaga pelo Filipe depois da sua mudança pra Curitiba. E o Capelas já estreia recebendo um convidado: Vitor Brauer, vocalista e guitarrista da banda mineira Lupe de Lupe. Começamos falando sobre a Lupe e seus projetos solo, e emendamos uma discussão sobre as últimas listas de Melhores de 2013 (Scream & Yell, Rolling Stone, Grupos da Sinewave e da Bizz), a mistura ou não de discos nacionais com internacionais, votos úteis x votos honestos, músicas favoritas x músicas representativas (”Show das Poderosas” e “Get Lucky” à frente), dentre outros assuntos. No set list, Lupe de Lupe, King Krule, The Baggios, Linda Martini, Liars, Joanna Gruesome e Adeus, novo projeto do mentor do Bemônio.


Ouça também:
– O Resto é Ruído: Melhores de 2013 (aqui)
– O Resto é Ruído com Ricardo Alexandre (aqui)
– O Resto é Ruído com Fabio Massari (aqui)
– O Resto é Ruído #32 (aqui) e #33 + #34 (aqui)

fevereiro 5, 2014   Encha o copo

Sete respostas: Música, Cinema e Web

Meu nome é Lucas Paraizo, sou estudante de Jornalismo e estou realizando uma grande reportagem sobre como a internet mudou a maneira de consumir cultura – tratando especialmente sobre música e cinema. Aceita participar?

Como você avalia o impacto que os programas de troca de arquivos (que surgiram a partir do Napster) tiveram na maneira com que as pessoas consomem os produtos culturais?

A internet mudou a vida das pessoas em todos os sentidos, e ainda estamos nos adaptando, procurando maneiras de lidar com essa novidade, que já não é nem tão nova, mas a todo momento mostra algo absolutamente novo para nós. No caso da música, a mudança foi brutal, e ainda estamos nos recuperando do choque. A avaliação, no entanto, é positiva: as vendas de música caíram, mas as pessoas estão ouvindo muito mais música hoje em dia – e o surgimento do iPod e de ferramentas que tocam arquivos de música também tem um peso nisso. A questão então deixa de ser cultural (a música está morrendo? Não! Ela vive um de seus momentos mais valorosos) e passa a ser econômica: como ganhar dinheiro vendendo música? Há maneiras e maneiras, e nenhuma irá sobrepujar o auge da indústria, nos anos 80 e 90, mas é possível ganhar dinheiro sim produzindo música.

Você acha que a indústria da música já aprendeu a lidar com a internet, ao invés de tentar combatê-la?
Ainda não, mas está tateando. Sinto que ela começa a aceitar algumas práticas e tenta ir na onda do que acontece na web, ao invés de ir contra. No fundo, nenhum de nós sabe lidar com a internet ainda. A indústria da música é apenas um reflexo dessa nossa ignorância frente ao novo.

O caso do disco “In Rainbows”, do Radiohead, é bem emblemático quando falamos na relação entre artistas e internet no cenário musical. Você considera esse o exemplo mais relevante? A ideia do “pague quanto quiser” vale ser seguida pelos artistas
?
Ela já é seguida, e tanto Bandcamp quanto Crowdfunding são exemplos práticos desta demanda, mas não podemos cravar que esse será o método a ser seguido. A verdade é que só existe uma única regra neste momento: não existem regras. Isso é extremamente libertário e permite que cada artista converse com seu público da forma que lhe convier. É hora de ser criativo.

Os sistemas de stream (como Spotify, Deezer e Rdio) se popularizaram bastante nos últimos anos, e, enquanto alguns dizem que essa pode ser a saída contra os downloads ilegais, vários artistas afirmam que o modelo não é nada favorável para eles. Qual a sua opinião sobre esse modelo de serviço?
Tem prós e contras. A remuneração para os artistas é bastante baixa muito porque uma burocracia imensa foi criada nos últimos 60 anos para reconhecer uma obra musical. Entre o momento que o compositor compõe a canção e você a ouve em sua casa, dezenas de atravessadores passaram pelo caminho retirando uma fatia da renda dessa obra. Mais do que discutir a viabilidade dos sistemas de streaming (que estão funcionando hoje, mas podem cair em desuso amanhã, como milhares de coisas na web) é preciso discutir o valor da obra artística, quem deve ganhar com ela, e quanto. Não basta o artista reclamar da indústria, tem que ir atrás de seus direitos.

Sobre os downloads ilegais (principalmente de música e filmes), como você avalia a importância deles na disseminação cultural?
Europa e Estados Unidos ainda tem mercados sólidos, um misto de cultura pelo que é correto (lógico, há desvios) e força da lei. No Brasil, onde reina a Lei de Gerson e a indústria musical está falida como objeto de disseminação de ideias da indústria cultural, o download ilegal transformou-se numa maneira útil para que grande parte dos artistas alcance um determinado público. Acho de extrema importância para este novo mercado, uma ferramenta valiosa de conhecimento. E ao contrário do que muita acha, o download gratuito não diminui às vendas. Muitas vezes acontece o contrário.

Já é possível perceber uma nova geração de consumidores de cultura aparecendo, formada por jovens que, graças a internet, não sabem o que é não ter praticamente todo o conteúdo desejado disponível online. Que efeito isso pode ter no cenário cultural, e, consequentemente, na sociedade?
Ainda acho cedo para discutirmos esse cenário porque a internet de alta velocidade não tem nem 15 anos no Brasil (ela começou a se popularizar de verdade em 2000). Então todos os jovens ainda são afetados por seus pais, mesmo que eles tenham um contato cada vez maior com a internet. Eles veem discos, CDs, DVDs, vitrolas, disc-man e outras coisas, há ainda uma ligação. A mudança drástica, creio eu, irá acontecer três gerações para frente, quando os bisnetos dessa molecada crescerem em um mundo que pouco deverá ter do que é hoje. Até lá, as coisas vão continuar mudando, mas não creio em tsunamis, e sim em fortes chuvas aqui e ali.

A Amanda Palmer falou durante um evento no ano passado, comentando sobre os seus projetos independentes na música, que as pessoas vêm fazendo a pergunta errada quando se trata de arrecadar dinheiro com arte. Ela disse que o certo não é obrigar o pagamento, mas sim deixar que as pessoas paguem se for interessante para elas. Esse comentário se relaciona bem com vários projetos que vimos recentemente no Brasil, com artistas lançando seus álbuns gratuitamente na internet ou em projetos de crowdfunding, como o do Apanhador Só. Seria esse o futuro dos projetos artísticos na era da internet? Com menor participação de gravadoras/produtoras e mais realização focada, direto do artista para o seu público?
Creio que sim. A Amanda foi bastante perspicaz em sua observação. Não podemos esquecer que o sentimento de posse é inerente ao ser-humano: ele gosta de ter o objeto, de toca-lo, de vê-lo. Os downloads devem aumentar, os portais de streaming também, mas as pessoas vão continuar consumindo cultura porque isso as define. A camisa do Wilco que eu uso é um código que traz em si diversas ideias. O CD do Apanhador Só não é só um disco de acrílico e papel, há revolução ali, e as pessoas ainda estão interessadas nisso. Creio que, cada vez mais, o ser-humano precisará de fichas que o definam em uma sociedade cada vez mais caótica. Dessa forma, a música é uma escolha tão emblemática quanto religião, seu time de futebol e seus pratos preferidos. Tudo isso junto (e muito mais) forma a nossa personalidade. Acho que não conseguiremos nos livrar destes valores tão cedo.

Veja outras entrevistas aqui

fevereiro 4, 2014   Encha o copo

Scream & Yell na coluna #GPS

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Fui convidado pela queridíssima Renata Simões para falar um pouco sobre a edição de Melhores de 2013 do Scream & Yell, e o papo – com direito a boas cervejas – você ouve abaixo online na coluna dela na Oi FM, #GPS (se quiser fazer o download em MP3, use o botão +).

fevereiro 2, 2014   Encha o copo

David Bowie está entre nós

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David Bowie está entre nós. Bem, quase. O Museu da Imagem e do Som de São Paulo abre nesta sexta-feira, 31 de janeiro (e segue até 20 de abril), a exposição David Bowie, retrospectiva imperdível sobre a intensa carreira do artista britânico, que lançou seu primeiro disco, “Space Oddity”, em 1967, e continua na ativa – “Next Day”, seu álbum de 2013, foi eleito o Melhor Disco do Ano pelo júri convidado pelo Scream & Yell (veja aqui) –, embora esteja longe dos palcos.

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A mostra reúne cerca de 300 itens relacionados ao artista, sendo que se destacam os 47 figurinos usados por David Bowie em diversos momentos de sua carreira, como o conjunto em matelassê desenhado por Freddie Burreti em 1972 para a turnê do álbum “Ziggy Stardust” e usado por Bowie na apresentação de “Starman” no Top of The Pops em julho de 1972, ou o impressionante traje de vinil desenhado por Kansai Yamamoto em 1973 para a turnê “Alladin Sane” – que decora o material de apoio da mostra.

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Bastante focada em moda, mas abrindo espaço também para observações sobre o processo criativo do artista, a mostra é montada de forma peculiar: assim que adentra o espaço da retrospectiva no MIS, o visitante recebe um fone de ouvido, que irá acompanha-lo por todo o percurso, interagindo com os vídeos presentes na mostra conforme o espectador entrar na área de alcance do objeto. Assim, trechos de filmes, entrevistas ou mesmo videoclipes clamam por atenção nos fones.

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Particularmente chamam a atenção os diversos rascunhos de letras escritos por Bowie, e presentes na mostra, registros iniciantes de canções como “Ziggy Stardust”, “Heroes”, “Rebel Rebel”, “Ashes To Ashes” (e um programa de computador que exercita a técnica de cut-ups, na qual um texto é cortado e reorganizado para criar um novo texto – além de um vídeo com Bowie explicando como usou isso em letras) ou mesmo esboços da arte que seria usada em algumas das capas famosas do compositor.

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Aberta para a imprensa na véspera da abertura oficial, a montagem ainda mostrava falhas: a baixa luz nas salas dificulta (principalmente em uma que traz diversos trajes postados logo abaixo dos vídeos em que foram usados), as etiquetas que identificam objetos colocadas no canto baixo da obra não ajudam (havia gente ajoelhando para ler as placas na escuridão) e, principalmente, falta de nome nas salas, o que pode confundir o espectador (haverá gente que irá embora acreditando ter visto todas as salas, mas deixando para trás uma ou outra).

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Para complementar a exposição, o MIS preparou uma divertida brincadeira para a edição brasileira. Durante o período em que a mostra estará em cartaz, o Museu convida os visitantes a participarem do Estúdio MIS, um karaokê exclusivo que o Museu montou para você cantar com seus amigos os grandes sucessos do cantor. A performance será gravada e disponibilizada no site http://estudio.mis-sp.org.br/– o estúdio funcionará das 16h às 20h, sendo que cada ingresso vale para até três pessoas por música.

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Para os fãs, vale o investimento no enorme livro da mostra, à venda na loja do MIS, por R$ 119. Com 320 páginas, capa dura e reprodução dos figurinos, rascunhos de letras e fotos icônicas, o livro é um bom resumo do passeio. Os ingressos para a exposição “David Bowie” podem ser comprados antecipadamente pelo site www.ingressorapido.com.br, com valor único de R$ 25 (reserva de data e horário para o espectador). A partir de hoje, 31/01, às 13h, os ingressos também podem ser comprados na Recepção MIS por R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

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Leia também:
– “Next Day”, de David Bowie, o melhor disco de 2013 (aqui)
– A mesma música: Três vezes David Bowie (aqui)
– As várias sonoridades diferentes de “The Next Day” (aqui)
– Mais sobre a exposição David Bowie em São Paulo (aqui)

janeiro 31, 2014   Encha o copo

Pete Townshend fala de Jimi Hendrix

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“Durante uma das sessões de ‘A Quick One’, em outubro de 1966, conheci Jimi Hendrix pela primeira vez. Ele vestia uma jaqueta militar imunda, com botões de latão e dragonas vermelhas. Chas Chandler, seu empresário, me pediu para ajudar o jovem tímido a encontrar amplificadores adequados. Sugeri o Marshall ou o Hiwatt (então chamado ‘Sound City’) e expliquei as diferenças entre eles. Jimi comprou os dois, e, mais tarde, me recriminei por ter recomendado armas tão poderosas. Quando o vi pela primeira vez, não tinha a menor ideia de seu talento nem noção de seu carisma no palco. Agora, claro, sinto orgulho por ter desempenhado um pequeno papel na história de Jimi. (…)

Durante o inverno de 1966/7 ouvi ‘Forest Flower’, do saxofonista de jazz Charles Lloyd, em uma gravação de sua extraordinária apresentação no Festival de Jazz de Monterey, em setembro de 1966. ‘Forest Flower’, como a obra-prima dos Beach Boys, ‘Pet Sounds’, parecia perfeitamente ajustada aos novos tempos. Keith Jarrett era o pianista de Lloyd, e em dado momento do disco, começa a esmurrar o piano e a percutir as cordas. Senti que ali estava um músico totalmente de meu gosto, que tocava todo instrumento de maneiras despropositadas.

Keith Jarett e eu nascemos no mesmo mês, e suas interpretações geralmente me levam às lágrimas do tipo reservado para a solidão embriagada. Venderia minha alma para tocar como ele – e não faço essa declaração de modo superficial. Como muitos compositores, eu também ouvia jazz em busca de inspiração e ideias. Uma curta faixa de Cannonball Adderley chamada ‘Tengo Tango’ me deixou entusiasmado com seu poder dançante. (…)

Minha amizade com Eric Clapton havia se aprofundado graças às nossas saídas juntos para prestar homenagem a Jimi Hendrix, que naquela primavera vinha fazendo seus primeiros shows sensacionais em Londres. Jimi testava algumas de suas primeiras ideias de letra nos shows. Um amigo de Eric, o pintor e designer Martin Sharp, o ajudava a compor as canções, e suas letras eram muito ambiciosas e poéticas. Surpreendido entre dois grandes talentos emergentes da composição, senti-me desafiado a evoluir.

Ver Jimi tocar também foi desafiador para mim como guitarrista. Jimi tinha os dedos ágeis e experientes de violinista de concerto; era um verdadeiro virtuose. Eu me lembrava de papai e sua prática incansável, o tempo que ele levou para chegar a um nível em que podia tocar tão rápido que as notas formavam um som único. Mas com Jimi havia algo mais: ele casava o blues com a alegria transcendente da psicodelia. Era como se tivesse descoberto um novo instrumento em um novo mundo de impressionismo musical. Ele se superava no palco e parecia poderoso e másculo sem agressividade.

Era um artista hipnotizante, e hesito em descrever o quanto era fantástico vê-lo tocar, porque realmente não quero levar sua legião de fãs mais jovens a sentir que perdeu a grande chance de testemunhar aquele talento. Eu perdi a chance de ver Charlie Parker, Duke Ellington e Louis Armstrong. E se você perdeu a chance de ver Jimi ao vivo, saiba que perdeu algo muito especial. Vê-lo em carne e osso deixava claro que se tratava mais do que um grande músico. Ele era um xamã, e parecia que uma luz colorida cintilante emanava das pontas de seus longos e elegantes dedos enquanto tocava. Quando fui ver Jimi tocar, não tomei ácido, não fumei maconha e não bebi, por isso posso relatar com precisão que ele operava milagres com a Fender Stratocaster para destros, que ele tocava virada de cabeça pra baixo (Jimi era canhoto).

A chegada de Jimi Hendrix em meu mundo aguçou minha necessidade musical de estabelecer algum território legitimo. Em alguns sentidos, a interpretação de Jimi tomou empréstimos da minha – o feedback, a distorção, a guitarra teatral –, mas seu gênio artístico reside em como ele criou um som todo próprio: soul psicodélico ou o que chamarei de “blues impressionismo”. Eric Clapton estava fazendo algo parecido com o Cream e, em 1967, a banda Traffic, de Stevie Winwood, lançaria ‘Mr. Fantasy’, levantando outro desafio incrível. Os músicos à minha volta estavam realmente decolando em uma nave espacial colorida, ascendente, abastecida pelas novas criações de Jimi, Eric e Stevie – e, no entanto, as canções psicodélicas de Jimi, Eric e Stevie ainda se mostravam profundamente enraizadas no blues e no R&B. (…)

Lembro-me de ter ido a um almoço encontrar Barry e Sue Miles. Barry era fundador da Indica Bookshop, um estabelecimento radical que vendia livros e revistas relacionados a tudo que era psicodélico e revolucionário. Ali conheci devidamente Paul McCartney, com sua então namorada, Jane Asher. Paul tinha ajudado a financiar a Indica e parecia muito mais politizado que qualquer outro músico de minhas relações. Era lúcido e perspicaz, bem como charmoso e essencialmente gentil. Jane era bem-nascida, muito educada e de uma beleza estonteante; por trás de seu recato exterior ardia uma personalidade forte, o que a equiparava a seu famoso namorado.

George Harrison chegou um pouco mais tarde com sua namorada, Pattie Boyd, que era franca e simpática. Tinha o tipo de rosto que a gente só via em sonhos, animado por uma vontade evidente de que todos gostassem dela. Karen (minha namorada) estava comigo e, pela primeira vez, me senti parte da nova elite da música pop londrina. Ela, curiosamente, parecia mais à vontade que eu.

Vi Paul novamente no Bag O’Nails, no Soho, onde Jimi Hendrix fazia um show comemorativo de retorno à cidade. Mick Jagger chegou, ficou um pouco e depois se foi, imprudentemente deixando Marianne Faithfull, sua namorada na época. Jimi se aproximou dela de mansinho após sua apresentação impactante e ficou claro, pelo modo como os dois dançavam juntos, que Marianne tinha as estrelas do xamã em seus olhos. Quando Mick voltou para buscar Marianne, deve ter se perguntado a razão de tantos risinhos abafados. No final, o próprio Jimi dissolveu a tensão, tomando a mão de Marianne, beijando-a e pedindo licença para vir falar comigo e com Paul. Mal Evans, o adorável roadie e ajudante dos Beatles, virou-se para mim e deu um grande e irônico sorriso ‘liverpooliano’: “Isso é o que chama trocar cartões de visita, Pete”.

Trecho de “A Autobiografia”, de Pete Townshend

Leia também:
– Pete Townshend: uma batalha entre o velho e o novo (aqui)
– Keith Richards: Gostar ás vezes é melhor do que amar (aqui)
– Marianne Faithfull: Drogas, Sexo e Mick Jagger (aqui)
– Alex Ross: “O minimalismo e o rock and roll” (aqui)
– Keith Richards, Rolling Stone Alone (aqui)
– Gram Parsons por Keith Richards no livro “Vida” (aqui)

janeiro 30, 2014   Encha o copo

Visitando o Brewdog Bar São Paulo

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Todas as fotos: Instagram ScreamYell

Na terça-feira, 21/01, a Brewdog Bar São Paulo abriu as portas em uma festa para convidados, e contrariando o conselho de amigos, que diziam existir filas para entrar no bar nos dias seguintes, decidi ir conhecer a nova casa cervejeira paulistana no começo da tarde de sábado, 25/01, por volta das 17h. Primeiro ponto positivo: nada de filas. Rapidamente peguei meu cartão e fui para o balcão conferir a oferta de cervejas da casa. E gostei do que vi.

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A rigor, a casa tem 15 torneiras disponíveis e no quadro negro eram ofertadas 8 cervejas da Brewdog e 3 convidadas. Entre as oito da Brewdog estão Dead Pony Club (American Pale Ale, 3,8%), Fake Lager (Pilsner, 4,7%) 5 a.m. Saint (American Amber Ale, 5%), Punk IPA (India Pale Ale, 5,6%), Electric India (Saison, 7,2%), Hoppy Christmas (India Pale Ale, 7,2%), Jack Hammer (India Pale Ale, 7,4%) e Hardcore IPA (Double India Pale, 9,2%).

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Entre as convidadas estavam (neste sábado) a WayDog, uma Session Pale Ale de 3,8% feita exclusivamente pela cervejaria curitibana Way para o Brewdog Bar São Paulo (e fixa no cardápio da casa), a Double Viena da Morada e a nova Wäls, Niobium, uma Double IPA com 9% de teor alcoólico, que esgotou antes mesmo das 19h, sendo substituída por outra brasileira. Isso sem contar a oferta de garrafas, que além de rótulos da casa ainda destaca uma boa variedade de Mikellers.

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Quanto aos preços, eles vão de R$ 16 (Dead Pony Club e Fake Lager) até R$ 22 (Hardcore IPA) o meio pint (268 ml), o que mantém as cervejas da casa no padrão das ofertadas em garrafa no país. Complicado comparar os preços praticados na Europa (veja a tabela de preços da Brewdog Pub Camden, em Londres), onde um bar da Brewdog vende um pint de Dead Pony Club por R$ 17 e o meio pint de Hardcore IPA por R$ 15, mas, como saída, há a boa oferta do pint da WayDog, que sai por R$ 17.

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Ou seja, houve a preocupação da casa paulistana em ter uma cerveja com preço igual ao rótulo mais em conta das filiais europeias. Já em garrafa existem preços para todos os gostos e bolsos (veja algumas aqui). Antes de entrar no bar eu já havia bebido 22 Brewdogs diferentes, mas das oito em torneira ali, três ainda eram inéditas para mim! Hora de resolver a contenda.

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Quando sai do bar, às 21h, tinha bebido seis cervejas (e dividido mais uma com uma amiga): comecei pelo pint da WayDog, e fiquei felizmente surpreso pela bela Session Pale Ale dos curitibanos. Passei então por outra nacional, a excelente Double Viena da Morada (apostando na economia: R$ 12 o meio pint) e encarei na sequencia a primeira das Brewdog no dia: Electric India, uma belíssima Saison que recebe casca de laranja fresca, mel de urze, grãos de pimenta preta esmagados e lúpulos Amarillo e Nelson Sauvin. A melhor da noite.

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Ainda encarei a novíssima Wäls Niobium, levemente amanteigada, mas sem contudo prejudicar o bom conjunto, e a boa Brewdog Fake Lager além de duas garrafas de Mikeller: uma sensacional Monks Brew (Quadrupel de 10%) e uma Milk Stout (uma Sweet Stout de 6%) – cada uma delas, R$ 24. Saldo final da noite, incluindo os 10% (e sem comida): R$ 107, 50. Ou seja, não é para ir todo dia – no meu caso, nem toda semana: uma vez por quinzena, e olhe lá. A experiência, no entanto, foi bastante válida.

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janeiro 29, 2014   Encha o copo

Uma batalha entre o velho e o novo

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“Em exibição nos corredores da Academia de Arte de Ealing havia colagens interativas de madeira criadas por nosso monitor de curso, Roy Ascott, das quais o espectador podia rearranjar diversas partes. Devíamos passar um ano nos livrando de nossos preconceitos sobre arte, escolas de arte, ensino de arte e todas as formas de design. Descobri que as lacunas em minha educação eram imensas.

A escola incluía tanto a jovem como a velha guarda. Esta última eram composta pelos refinados que vestiam tweed: desenhistas, calígrafos, encadernadores e afins – que tendiam a ser muito exigentes. A primeira era formada pelos boêmios que vestiam jeans em seus vinte, trinta anos de idade. Em nossa primeira aula de desenho, o encarregado vinha da velha guarda. Ele nos instruía sobre como apontar o lápis, qual nível de dureza escolher para cada tarefa, como prender o papel na prancheta, como sentar, segurar o lápis e medir um conjunto de escalas relativas de distância.

“Desenhem uma linha.”

Cada um de nós desenhou uma linha e se submeteu à mais dura crítica do professor, que salientava que a primeira linha deveria ser de cima para baixo, ter 15 centímetros de comprimento, espessura uniforme e desenhada com um lápis 3B sem régua; qualquer variação representava um excesso indigno dos alunos da Academia de Arte de Ealing.

A segunda aula foi conduzida por um dos membros da jovem guarda. Uma aula bem simples, um teste para avaliar o grau de nossa base.

“Desenhem uma linha.”

Sem problema. Como se coreografados, cada um de nós desenhou uma linha, de cima para baixo, 15 centímetros de comprimento, espessura uniforme, etc. Nosso professor, o jovem Anthony Benjamin, saiu da sala e regressou com o escultor Brian Wall. Começaram a esbravejar pela sala, gritando conosco. A certa altura, Benjamin apanhou um pequeno canivete e espetou seu dedo, arrastando sangue em uma folha branca de papel. ‘Isto é uma linha. Vocês entendem?’. Claro que entendemos. Éramos uma vitima inocente de uma batalha entre o velho e o novo”.

Trecho de “A Autobiografia”, de Pete Townshend

Leia também:
– Sobre Scorsese e filmes que salvam almas, por Mac (aqui)
– Keith Richards: Gostar ás vezes é melhor do que amar (aqui)
– Marianne Faithfull: Drogas, Sexo e Mick Jagger (aqui)
– “O minimalismo e o rock and roll”, trecho de “O Resto é Ruído” (aqui)
– Neil Young propõe passeio por seus vícios, paixões e medos (aqui)
– “Disparos do Front da Cultura Pop” é aula de jornalismo cultural (aqui)
– Keith Richards, Rolling Stone Alone (aqui)
– Gram Parsons por Keith Richards no livro “Vida” (aqui)

janeiro 23, 2014   Encha o copo

Bora conhecer vinícolas na Argentina

O júri convidado pelo pessoal da Wines of Argentina anunciou ontem à noite (no vídeo acima) os vencedores do desafio de harmonizar vinho e música, e uma das minhas harmonizações foi escolhida. O prêmio será visitar vinícolas argentinas ainda este ano. As explicações do júri para as escolhas estão acima em vídeo. A minha harmonização está aqui. \o/

janeiro 17, 2014   Encha o copo

A volta do podcast Qualquer Coisa

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Gravado no último domingo, 11/01, a edição 145 do grande podcast Qualquer Coisa, de Paulo Terron e José Flávio Júnior, foi ao ar nesta semana quebrando um silêncio de quase dois anos. Os convidados desta edição do Qualquer Coisa foram eu e Nevilton, que tocou “Porcelana”, uma das grandes músicas de 2013, no violão, além de trechos de outras faixas do álbum “Sacode”. A metódica desta edição foi repassar destaques do ano e cada um escolheu músicas e debateu, ainda, cinema além de degustar a sidra neozelandesa 8 Wired, cortesia do Zé Flávio. Ouça abaixo (e baixe em MP3 aqui).

janeiro 16, 2014   Encha o copo