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Category — Literatura

06) “Um livro que você já leu várias vezes” (2/3)

Naturalmente é muito mais “fácil” reler poesia e contos do que um romance. Não tenho ideia de quantas centenas de vezes abri “Poetas franceses do século XIX”, coletânea da Editora Nova Fronteira de 1991 com, entre outros, textos de Mallarmé, Verlaine e Rimbaud.

O mesmo vale para o vizinho Guilherme de Almeida: “Meus versos mais queridos” é para ler em voz alta… e dançar.

Aliás, já leste (e dedicaste) para alguém “Tu e Eu”, do Luis Fernando Veríssimo (“Comédias da Vida Privada” é imprescindível)?

Na fase adolescente em que o “Best Of” (de 1985) do Doors virou ritual em casa, fui atrás de tudo que tivesse conexão com Jim Morrison. Passei por Huxley, e “As Portas Da Percepção / Céu E Inferno” me levaram à Castaneda, até chegam em William Blake – por essa época, as Mercenárias gravaram uma seleção de versos dos “Provérbios do Inferno” no clássico “Trashland”. Música e poesia <3

Fiquei tão fascinado pelos provérbios que, onde pudesse, eu os declamava.

Dois momentos marcantes: O primeiro foi um trabalho da disciplina Estética da Cultura de Massa em que eu e grupo fizemos da UNITAU o Inferno por uma noite. Era encerramento da Semana da Comunicação, teatro lotado. Assim que as portas se abriram, as pessoas saindo se deparavam com “fantasmas”, tochas de fogo e uma formação de banda espalhada pelos cantos do pátio que tinha eu declamando um poema em três partes (Huxley abrindo, um poema meu no meio e os Provérbios encerrando) sobre uma base eletrônica pesada (nas mãos do amigo DJ Gu) e arrastada e o melhor guiitarrista da cidade, o Cleber, solando enlouquecido, uma coisa meio NIN. Foi terrivelmente bonito. Tenho em algum DVD aqui em casa…

A outra foi num sarau na I Mostra Internacional de Cultura Independente de São Paulo, na Funarte, 2000. Tava eu lá juntando Ian Curtis, Black Francis e poemas meus até chegar em Blake. Um dos terríveis provérbios (ausente da música das Mercenárias) marcou esse dia:

“Melhor matar uma criança no berço do acalentar desejos insatisfeitos”

Um amigo estava filmando com o filho ao lado. Quando veio me cumprimentar ao final, o garoto balbuciou: “Ele vai matar a criancinha?”.

Aparentemente, consegui tranquiliza-lo.

Mas isso é Blake. <3

Ele sempre volta!

Ps. Leia aqui a integra d’Os Provérbios do Inferno.

Meus “20” livros

fevereiro 4, 2025   No Comments

06) “Um livro que você já leu várias vezes” (1/3)

São vários. E tudo bem, pois você já percebeu que não estou me limitando a “um livro” mesmo. O fato é que adoro reler os livros que eu amo muito porque se aquele livro me fez sorrir uma vez, a chance de ele me fazer sorrir novamente é enorme (em dias cinzas costumo sacar o impagável “Socialismo para Milionários”, do Bernard Shaw, da estante, para gargalhar em silêncio – rs), e outro tanto porque envelhecer é (ou ao menos deveria), também, “crescer” espiritualmente e intelectualmente um pouquinho todos os dias, de forma que aquele livro que você leu 10, 20 anos atrás, pode soar completamente diferente hoje por tudo o que você viveu nesse período. Pode soar até um outro livro!

Dai que entre os livros que já li diversas vezes na vida, um dos principais é “Cartas a Um Jovem Poeta” (1929), de Rainer Maria Rilke, que aparece aqui na foto na edição que moldou meu caráter (a amarela, de 1985), e na reedição de 2001, mais “Elegias de Duíno”, que é outro papo.

Nos anos 90, quando o Scream & Yell era um fanzine (de papel) “popular”, eu me correspondia por carta com dezenas de pessoas de todo o país (isso soa tãooo século passado), e costumava enviar xerox reduzidas de cada uma das 10 cartas que compõe o livro a cada troca de correspondencia. Você conhece a história?

Bem, um aspirante a poeta completamente anônimo troca cartas com Rilke, que, atenciosamente, lhe fala de poesia… e da vida. É… lindo! Lançado três anos após a morte de Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta” é daqueles companheiros pra vida. (Re)Fiz alguns “testes” do livro (como tentar abandonar a escrita) e mergulhei em outro livro de Rilke, “Elegias de Duíno”, que também amo.

Então em 2012, após ter visto o Primavera Sound Barcelona, Guns em Paris, Lou Reed em Luxemburgo, Tom Petty em Cork, e voltado à Barcelona para ver Stone Roses, meu último “compromisso” da viagem era Bruce Springsteen em Trieste, a mesma cidade que também abriga o Castelo de Duíno, em que Rilke escreveu suas 10 elegias desesperadas.

Chorei na sacada do castelo olhando o Mar Adriático… Contei aqui 🙂

Meus “20” livros

fevereiro 1, 2025   No Comments

05) “Um livro cujo filme é melhor”

Assim como fiz na primeira vez que maratonei essa lista anos atrás, recorro a Stanley Kubrick, ainda que suas adaptações extrapolem o livro, pois, a favor do Cinema, Kubrick não titubeava em alterar passagens, fazer mudanças ou mesmo excluir coisas da história original que pudessem diminuir o impacto de seu filme.

Dito isso, prefiro “O Iluminado” filme ao livro mesmo com o Stanley fazendo lá suas mudanças, o que deixou o Stephen King tenha puto.

No caso do “Laranja Mecânica” (que, você sabe, “é filosofia pura“) é quase empate, os dois são indispensáveis, mas tendo a optar pelo filme também – o amigo Leonardo Tissot acrescenta: “O filme do ‘Laranja Mecânica’ é melhor porque elimina o último capítulo do livro (que é totalmente dispensável e até estraga um pouco a história).

Já “Lolita”, talvez, eu fique com o livro. Mas vale a declaração de amor: Kubrick, eu te amo.

***

Inevitavelmente, sinto vontade de falar de “Alta Fidelidade”, a série, novamente – ainda que tristemente ela não tenha sido renovada para uma segunda temporada (a primeira, incrível, dá conta de metade do livro clássico de Nick Hornby). E falo de “Alta Fidelidade” porque a série melhora o livro! Ou como escrevi no Scream & Yell na época do lançamento:

“Essa reinvenção consegue uma delicada façanha: ir além do livro, fazendo com que “High Fidelity 20” soe um (divertidíssimo) spin-off da versão literária, e não apenas a versão literária adaptada para a TV. (Mas) O que faz de ‘High Fidelity 20’, a série, imperdível é uma sensação de maturidade, de crescimento, que o livro quase negava aos personagens, os obrigando a carregar sua masculinidade tóxica e seu mansplaining eternidade a dentro entre vinis empoeirados (leia tudo aqui)”

“High Fidelity – Temporada 1” está disponível no Prime Video e recomendo muito!

***

Por fim, já se encantou por “Cem Anos de Solidão”, no Netflix?

Por fim 2: Vale o reforço sobre “A Comédia da Vida Privada”. Assisti a alguns episódios no Youtube esses dias (o DVD traz apenas 4 dos 21) e permanece uma adaptação incrível!

Meus “20” livros

janeiro 31, 2025   No Comments

04) “Um livro melhor que o filme”

Essa é fácil, pois condensar a trama de um livro num filme é um desafio que derrubou muitos (aliás, já assistiu “Cem Anos de Solidão” na Netflix? É sensacional!).

Escolho “Tudo Se Ilumina”, do Jonathan Safran Foer, com o cuidado de dizer que o filme “Uma Vida Iluminada”, com Elijah Wood e um sensacional Eugene Hütz (sim, o líder do Gogol Bordello) é ótimo, mas o livro é imbatível.

Adoro “Um Grande Garoto”, do Nick Hornby, com o Hugh Grant, mas a ausência do “trecho Nirvana” (talvez, a grande sacada do livro já que o próprio nome remete a uma canção de Kurt Cobain) é imperdoável. No geral, gosto de quase todas as adaptações de obras do Hornby (exceção: a italiana “Slam: Tutto Per Una Ragazza”), com preferência declarada pela série “High Fidelity”, que poderia estar no próximo post, pois MELHORA o livro (que ficou datado). “Juliet Nua e Crua” é ok também, mas o livro é melhor (já “Uma Longa Queda” supera o livro, mas nenhum dos dois é tão brilhante assim).

Gosto tb da adaptação de Fernando Meireles para “Ensaio Sobre a Cegueira”, do Saramago, que eu vi o filme primeiro e depois fui ler o livro, que mostrou-se muito mais amplo e profundo que o filme (como era de se esperar). E gosto do texto que escrevi na época do filme.

Por fim, amo “A Comédia da Vida Privada”, que também só não está no grupo 5 (de adaptações melhores que livros) pq não adapta o livro todo. Foram 3 temporadas e 21 episódios antológicos entre 1995 e 1997 (muitos com a nossa indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2025 brilhando em meio a um elenco incrível).Tem vários no Youtube! Recomendo!!

Aliás, sempre me lembro de um episódio (que não achei online) em que o personagem do Marco Nanini, que estava traindo a esposa (Deborah Bloch?), é prensado na parede após ela achar uma camisola no carro. Após ela questiona-lo muito perguntando de quem era o babydol, ele solta: “É MEU! ADORO USAR ROUPA DE MULHER, TÁ BOM!” E o episódio finaliza com ele entrando todo desajeitado no quarto pra dormir vestindo a peça feminina… risos

Luis Fernando Veríssimo, eu te amo <3

Ps. Uma decepção: “Pergunte ao Pó” com Colin Farrell e Salma Hayek!

Meus “20” livros

janeiro 30, 2025   No Comments

03) “Um livro que está na fila há anos”

Livro na fila é o que mais existe em casa (risos). É sério. Imagine soltar um cara apaixonado por livros e bibliotecas que vivia no interior numa Feira da USP durante 10 anos e o que você terá é um acervo para ler até os 100 (e um pouco mais).

Nesses 25 anos de SP fui adquirindo um monte de coisas que eu sempre quis ler, e a fila foi só aumentando. Na biblioteca aqui de casa devo ter 50% de títulos lidos, e mais uns 50 “na fila” pra ler (um dia).

Porém, é possível destacar alguns:

– “Graça infinita”, de David Foster Wallace: 10 anos atrás, a Cia das Letras promoveu um bate papo na extinta Livraria Cultura do Conjunto Nacional reunindo Cadão Volpato, Daniel Benevides, André Frateschi e eu com mediação da Marcia Scapaticio sobre a literatura de Nick Hornby (um dos preferidos aqui da casa). O “pagamento” pela presença era um voucher caprichado pra gastar na livraria, e não pensei duas vezes e peguei o “Graça infinita”. Desde então, ele ficou lindo na mesa da sala durante um tempo (eu acreditava que olhar pra ele iria me fazer ter coragem de enfrentá-lo) até ser encaminhado para a biblioteca. Mas sempre penso nele. Um dia eu leio… prometo!

– A coleção (comentada) “Em Busca do Tempo Perdido”, do Marcel Proust: Essa foi adquirida nas feiras da USP entre 2001 e 2010. Li na adolescencia “No caminho de Swann” e, como era de se esperar, passei anos pensando nele (vez em quando surge um flashback). Mas taí outro livro que necessita de foco e uma dedicação extrema que, nesses tempos de correria, anda difícil por aqui. Mas vai rolar! Um dia…

– “O som e a fúria”, de William Faulkner: existem livros que te metem medo?? Taí um que me “assusta”. Mesmo assim comprei… uns 20 anos atrás. Sempre ensaio de pegá-lo, mas outra coisa surge na frente “inesperadamente”…

O “2666” do Roberto Bolaño também era pra estar aqui, mas não o achei na biblioteca, só que não há como não acha-lo pq ele fica te encarando com aquela lateral imensa, então a Lili (que corajosamente comprou e leu!) deve ter emprestado. Ela falava tão empolgada dele nos meses que leu que eu sempre quis ler e deixei numa filinha na memória…

Meus “20” livros

janeiro 29, 2025   No Comments

02) “Um livro que marcou a sua adolescência”

Na adolescência (quase todos) somos apaixonadamente fatalistas, sofrendo por coisas que, anos depois, podem nos fazer rir. Ainda assim, você já teve a sensação de estar em um buraco depressivo impossível de sair? E, de repente, alguma coisa te tira de lá? Às vezes é um fato familiar, outras é uma paixonite (que pode ser duradoura ou mesmo passageira, daquelas de uma semana, o que basta para te lançar numa próxima fase), ou um disco, ou um filme ou… um livro.

“O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse, foi responsável por me tirar da depressão na adolescência, lançando luz aonde só havia uma vasta escuridão… Deve ter alguma explicação além de ser um livro sobre um cara depressivo viciado em álcool, Goethe e Mozart que encontra a luz (Hermínia), mas o fato foi que mergulhei na história e saí dela de outra maneira. E até hoje agradeço por ter lido “O Lobo da Estepe” (1927) antes de “Demian” (1917), que eu tb amo, pois o efeito poderia ter sido outro.

Depois aconteceu o que sempre acontecia comigo na adolescência: apaixonado por um livro, eu devorava absolutamente tudo do escritor, e vários livros dele permanecem na minha estantes (tenho uma paixão por “Caminhada” e outra história para contar sobre “Sidarta”, mas mais pra frente)….

Meus “20” livros

janeiro 28, 2025   No Comments

01) “Um livro que marcou a sua infância”

Bem, muitos amigos citam a Série Vaga-Lume, que incrivelmente passou batido por mim (sim, eu nunca li “O Escaravelho do Diabo”), mas os primeiros volumes da coleção “Para Gostar de Ler” foram o meu primeiro vício literário real. Como eu amava!

Tem coisa mais incrível pruma criança que “Continho”, do Paulo Mendes Campos:

“Era uma vez um menino triste, magro e barrigudinho, do sertão de Pernambuco. Na soalheira danada de meio-dia, ele estava sentado na poeira do caminho, imaginando bobagem, quando passou um gordo vigário a cavalo:
– Você aí, menino, para onde vai essa estrada?
– Ela não vai não: nós é que vamos nela.
– Engraçadinho duma figa! Como se chama?
– Eu não me chamo não, os outros é que me chamam de Zé.”

São cinco crônicas de cada escritor, textos curtos, hilários, inteligentes, espertos. Desse primeiro volume, meus textos favoritos são “Hora de Dormir”, do Fernando Sabino, o sensacional “Quero Lasanha”, de Drummond, e o antológico “Recado ao Senhor 903”, de Rubem Braga. Depois dele, fui atrás dos outros da coleção e eles abriram as portas para livros de cada um dos escritores, e de seus pares.

Agora é hora de ir atrás dos demais volumes pra apresentar ao meu pequeno que está começando a ler…

Meus “20” livros

janeiro 27, 2025   No Comments

[AVALANCHE] A revolução do streaming

Em campanha no Catarse, o livro “Avalanche”, de Marcelo Monteiro, mapeia os melhores lançamentos da música contemporânea brasileira e os impactos da revolução digital na indústria fonográfica. São 51 perfis dos principais nomes da cena, de Céu, Criolo, Emicida e Luedji Luna a BaianaSystem, Metá Metá, Boogarins e Francisco El Hombre. 400 páginas amplamente ilustradas, com 200 fotos de bastidores, shows e capas de disco em um super arquivo inédito de imagens da geração 2010-2020 montado a partir de um coletivo gigante de artistas e fotógrafos. O volume ainda traz 31 entrevistas com figuras chaves da indústria, entre músicos, curadores, produtores e jornalistas, refletindo sobre a nova cena independente, circuito efervescente de festivais, desafios e oportunidades. Análises sobre o crescimento da indústria pós-streaming, com pesquisas e gráficos.

https://www.catarse.me/avalanche

junho 30, 2023   No Comments

Clarice Lispector na New Yorker

Na New Yorker, destaque para a tradução da entrevista perdida de Clarice Lispector, concedida ao jornalista Júlio Lerner pouco antes de morrer, e exibida, a pedido da escritora, somente após sua morte.

“Desde sua morte em 1977, Clarice tornou-se mais do que uma grande escritora, atraindo leitores e estudiosos. No Brasil, ela é uma igreja. Ela aparece em sessões espíritas e ocasionalmente reencarna: sei disso porque suas reencarnações às vezes me procuram no Instagram”.

“Clarice – tamanha é sua fama no Brasil que, como presidentes e craques do futebol, ela sempre é chamada por um só nome – fala de si e de sua escrita. No entanto, o que ela diz causa menos impressão do que sua aparência e como ela soa. Sente-se que ela está no fim: que ela está, de fato, falando de seu túmulo. Vê-la nesse estado é como assistir a uma catedral em chamas ou a um grande navio sendo destruído.” Leia aqui em inglês.

fevereiro 19, 2023   No Comments

“A Casa de Doces”, o novo livro de Jennifer Egan

Em mais um agradabílissimo convite da editora Intrínseca, escreve sobre o novo livro de uma das escritoras mais interessantes deste século: Jennifer Egan. Seu novo trabalho, “A Casa de Doces”, é um livro irmão do já clássico “A Visita Cruel do Tempo” (2010). No texto, aproximo algumas das temáticas do livro das de uma série que eu amo, “Black Mirror”. E falo algumas outras coisinhas. Leia aqui.

novembro 7, 2022   No Comments