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Category — Cinema

Catherine Deneuve x Audrey Hepburn

Assisti, ontem no HSBC Belas Artes, a “Repulsa ao Sexo”, clássico de Roman Polanski com Catherine Deneuve interpretando uma manicure com sérios distúrbios de sexualidade, que acabam rendendo cenas impressionantes e interessantes.

Agora, e sei que não devia dizer isso, mas a Catherine não me impressionou não, viu. Seu personagem é pálido, o que está perfeitamente inserido no contexto do filme, mas mesmo ela parece tãooo normalzinha (uma loirinha bonitinha, só isso). Femme fatale? Sei não.

Na verdade, acho que estou muito influenciado por “Sabrina”, de Billy Wilder (estou escrevendo aliás um textinho “rápido” sobre três filmes dele que revi nesta semana), que vi na sexta, em casa. Principalmente por Audrey Hepburn, que tomou meu coração de sonhador, e está brincando com ele. Na boa, entre ela e Deneuve, escolho a Audrey. Ih…

outubro 14, 2007   No Comments

“Tropa de Elite”, um quase grande filme

Há muita coisa para falar sobre “Tropa de Elite” sem necessariamente falar de cinema. O fato (inédito para uma produção nacional) de o filme ter vazado antes da estréia tornando-se um sucesso nas mãos de camelôs (estima-se que mais de 1 milhão de cópias piratas do filme já foram vendidas em todo o País); a sua “derrota” unânime (0×6) frente a “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias” como filme representante do Brasil no Oscar 2008; a patrulha ideológica que está crucificando seu diretor, José Padilha; entre muitas outras coisas. No entanto, o cinema vem antes. Vamos seguir a cronologia.

Se José Padilha tivesse dirigido apenas o documentário “Ônibus 174? sua vida cinematográfica já teria valido a pena. “Ônibus 174? ganhou diversos prêmios ao redor do globo e elogios merecidos de toda a crítica. Porém, esses prêmios agora vão parecer menores frente a carreira que “Tropa de Elite” iniciou nos cinemas no primeiro fim de semana de outubro. Menores porque tudo em “Tropa de Elite” é hiperbolizado, de sua violência desmedida as reações que vem causando; da narrativa impactante aos protestos da Polícia, de cineastas, da classe média. A vida de José Padilha se divide em antes e depois de “Tropa de Elite”.

O sucesso do filme em camelôs ameaçava sua escalada nos cinemas, acredita Padilha. Grande bobagem. Do mesmo jeito que o filme circulou no boca-a-boca Brasil afora, agora vai circular de cinema em cinema. Quem viu o DVD e viu no cinema irá encher o peito para dizer: no cinema é ainda melhor. E esse blá blá blá vai deixar o público curioso, principalmente aquele público que não costuma visitar a sala escura. Será esse público que fará a diferença, no final. E ele irá ao cinema mesmo sabendo que as diferenças são microscópicas porque ninguém resiste a própria curiosidade.

A rigor, as mudanças (roteiro, edição) são praticamente imperceptíveis, mas o impacto do som, das imagens em alta escala e da sensação claustrofóbica de uma sala escura tendem a dar ao filme ainda mais força do que a que ele mostrou nos aparelhos de televisão por ai. São duas experiências completamente diferentes que funcionam para valorizar a obra acabada em seu lugar de desfile: o cinema. Neste lugar, “Tropa de Elite” é violento, devastador, impactante e inebriante. Os tiros ouvidos (e vistos) na tela tem endereço certo: o estômago do freguês.

Wagner Moura dá vida ao Capitão Nascimento de tal maneira que é impossível não admirar o trabalho do ator, embora seu personagem seja quase um animal de caça. Sua atuação é inquestionavelmente impressionante, ganhando força até mesmo quando ele pontua a narração com um “amigo” (repetido várias vezes) em finais de frase. Os personagens secundários também brilham, mas é o Capitão Nascimento que coloca ordem na casa auxiliado pelo roteiro esperto e pela edição vertiginosa, duas grandes qualidades de seu filme primo, “Cidade de Deus”, que “emprestou” Daniel Rezende (edição) e Bráulio Mantovani (que assina o roteiro a seis mãos com José Padilha e Rodrigo Pimentel).

A comparação com “Cidade de Deus” seria dispensável, mas ajuda (e muito) a entender o fenômeno “Tropa de Elite”: Por que o primeiro virou um marco do cinema nacional, chegando ao Oscar com quatro indicações (igualando a façanha de “O Beijo do Mulher Aranha”) e ganhado elogios rasgados da imprensa internacional, e o segundo nasce sobre a égide da polêmica, incitando acalorados debates que, quase sempre, apontam o filme como fascista? Qual a diferença entre Buscapé e Capitão Nascimento? O que fez de um filme queridinho da crítica e público enquanto o outro nasce massacrado por boa parte da imprensa? Várias coisas, caro leitor, várias coisas.

A primeira que surge é a aparição de um personagem forte que veste farda e se diz incorruptível. A imagem que a maioria do povo brasileiro tem da polícia é aquela retratada na faixa clássica que encerra o primeiro álbum do Capital Inicial, de 1986, e que fez com que o álbum levasse um carimbo de “venda proibida para menores de 18 anos”. A letra, assinada por Renato Russo, questionava: “Porque pobre quando nasce com espírito assassino / Sabe o que vai ser quando crescer desde menino / Ladrão para roubar, marginal para matar / Papai eu quero ser um policial quando eu crescer”, e seguia contando a história de “assassinos armados, uniformizados”. “Tropa de Elite” é o rascunho quase perfeito desta letra, mas há uma glamourização na forma com que este rascunho é desenhado que muita gente deixa o cinema fã dos soldados do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o Bope.

A culpa não é só do filme muito menos de seu diretor. A culpa também é do público (na verdade a culpa é do Estado, mas esse é o ponto final da discussão, local para o qual todas as análises deveriam convergir). E o público é culpado por se deixar levar pela espetacularização da história e acreditar (e isso sim é assustador) que tudo aquilo que acontece na tela é realmente o que tem que acontecer na sociedade que vive. Dai a pecha de fascista que lhe imprimem alguns analistas, mais preocupados com o blá blá blá extra filme do que com o que acontece na tela. Para estes, “Tropa de Elite” glorifica a violência, a tortura, a morte sem julgamento; e o Bope nada mais é do que um braço de nossas forças armadas, a mesma instituição que encarcerou o País em uma ditadura repressiva e direitista durante anos. José Padilha permite essa leitura, mas é um lado “copo meio vazio” de se ver as coisas (da mesma forma que seria acusar o filme “Clube da Luta” de responsável por um jovem maluco que entra em um cinema atirando em todo mundo).

Outra maneira de olhar “Tropa de Elite” é entendê-lo como um reflexo de uma sociedade que vem empurrando durante anos e anos com sua imensa barriga assuntos delicados como descriminalização, corrupção e abuso de poder. O mundo em que o Capitão Nascimento vive deixou de ser um mundo comum para se transformar em um campo de guerra com o agravante de a batalha estar acontecendo 24 horas por dia ao nosso lado. “O que fazer para consertar tudo isso” deveria ser a grande questão suscitada pelo filme, mas tudo na tela parece desvalorizar essa premissa, pois “Tropa de Elite” não permite a presença do público: somos meros espectadores observando a carnificina desumana praticada tanto por mocinhos (oficiais do Bope) quanto por bandidos (a máfia da droga). O filme pede a todo o momento para que você escolha o lado dos mocinhos (a narrativa em primeira pessoa pesa nessa decisão), e erra tanto quanto acerta por exagerar na forma e no conteúdo. Ou seja, o que faz de “Tropa de Elite” um filme excelente é a mesma coisa que o diminui: seu ritmo vertiginoso e acachapante não abre espaço para reflexões nem críticas.

Essa avaliação de forma alguma faz do filme uma bandeira fascista como alguns tolos e/ou preocupados querem pichar tanto quanto não o transforma no melhor filme já apresentado nos cinemas brasileiros desde o Tratado de Tordesilhas. Ele apenas opta por jogar luz sobre um ponto de vista raramente visto no cinema nacional: o da polícia. A primeira mensagem do filme surge antes mesmo das imagens: uma citação do psicólogo Stanley Milgram, que diz que o comportamento do indivíduo é determinado pelas circunstâncias, algo que pelo filtro do roteiro justifica uma outra famosa citação, essa muito mais em sintonia com a proposta, aquela de Jean-Jacques Rousseau em “O Contrato Social”, que diz que “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe”.

Capitão Nascimento e seus soldados foram corrompidos pela idéia de estarem praticando o bem com base nas circunstâncias de uma sociedade que fecha os olhos para a corrupção enquanto acredita dormir o sono dos justos. Assim, ao lado de uma das falas do Capitão Nascimento (notadamente aquela que diz que muitos jovens precisam morrer na favela para um playboy enrolar um baseado) é preciso colocar outra: é a omissão da sociedade que faz o Bope apertar o gatilho. Existe alguém que não seja culpado nessa história toda, cara pálida? Não, somos todos culpados. Porém, pouca gente vai vestir a carapuça. E da-lhe camisetas do Bope bombando em camelôs. A moda a serviço da filosofia. Rimos ou choramos?

“Tropa de Elite”, intenso enquanto cinema, instável como mensagem, um quase grande filme.

Leia também:
– “Tropa de Elite 2”, de José Padilha, por Marcelo Costa

outubro 6, 2007   No Comments

500 Toques e Guilhermina Guinle na Vip

Tributos ao R.E.M. (15 anos do maravilhoso “Automatic For The People”) e aos Beatles (40 anos de “Sgt Peppers) gratuitos para download e mais a coletânea latino-americana “Porque Este Océano Es El Tuyo, Es El Mio” no site.

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Ontem à noite, quando passava pela padaria Bela Paulista para comprar pão (e, sim, é possível comprar várias outras coisas na Bela Paulista além de pão, antes que alguém banque o engracadinho), da fila pude observar na estante de revistas a nova edição da Vip com Guilhermina Guinle na capa. Lili, meu amor, me desculpe, mas fiquei sem ar. A capa assim como o ensaio são de tirar o fôlego…

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“Tropa de Elite” estréia, enfim, na sexta-feira, apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Não concordo com o privilégio a estas duas praças, mas entendo a preocupação da produtora em não deixar a poeira baixar. Assisto ao filme no fim de semana, comparo com a edição em DVD pirata que tenho em casa, e comento tudo em um texto especial na segunda-feira, prometo (ih). Enquanto isso, o compadre Inagaki (que não viu o filme) se diverte com as estripulias que o BOPE está rendendo por ai. Além, a querida Re Honorato publicou uma nota em seu Game Girl sobre um possível jogo inspirado no filme. Leia abaixo:

– Capitão Nascimento matou a Taís e foi ao cinema, por Alexandre Inagaki
– Tropa de Elite in Game, por Renata Honorato

Off Topic: Dez razões para amar Jack White, pelas Garotas Que Dizem Ni

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Além da discotecagem em Curitiba, está pintando uma em Ribeirão Preto :)

outubro 3, 2007   No Comments

Mais coisas…

Fui ao VMB ontem e me surpreendi com o baixo nível da cena nacional. O que é possível dizer rapidinho é que a produção do evento é acachapante, mas a premiação é terrível. Juliette and The Licks fizeram uma grande apresentação (na TV foi uma só, mas lá eles tocaram três ou quatro) e até o Marilyn Manson me convenceu. Mas o resto… muito vestido, muita beleza, muito roqueiro de butique e pouca inteligência.

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Antes que alguém se engane, vou torcer para o “O Ano Em Que Meus Pais Sairam de Férias”, na minha modesta opinião, um grande filme, mas inferior a “Tropa de Elite”. E vou mais alem: os dois são inferiores a “Saneamento Básico”, mas a metáfora do filme é para poucos – embora acredite que mesmo isso não deveria impedi-lo de ser o concorrente nacional – enquanto “Tropa de Elite” pega na veia. Qualquer um dos três seria um bom representante.

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Momento Herbalife: meu medido garantiu que tudo está em ordem com meu estômago, que o problema é mais em cima, na cabeça mesmo. Receitou uns chazinhos e comprimidos naturais. Fiz a primeira sessão hoje de manhã, e foi surreal. É uma salinha no centro da cidade, com palavras para melhorar a baixa-estima, em que um homem serve os chás naturais para os clientes. O programa inicial leva oito dias, e são três copos de chá cuja rotina me lembrou as histórias do Santo Daime. Apenas lembrou. Surreal demais para um cara que, um dia, cogitou ser junkie…

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O todo poderoso Billy Corgan liberou a integra de dois shows novos de 2007 para download no site oficial dos Pumpkins. O primeiro show data de 22 de maio, no Grand Rex Theatre, em Paris, e traz 33 músicas, entre elas hits como “Today”, “Bullet with Butterfly Wings”, “Tonight, Tonight” e “Disarm”. O segundo show aconteceu em 25 de julho, no famoso Fillmore, em São Francisco. O áudio captura 27 músicas da apresentação que junta hits com faixas novas como “That’s The Way (My Love Is)” e “Tarantula”, entre outras. Além dos dois shows recentes, a página de downloads do site dos Pumpkins ainda disponibiliza mais de 15 apresentações entre 1988 e 2007. Aqui.

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O programa Alto-Falante e o bar A Obra comemoram, a partir desta sexta-feira, dez anos de atividades. A data especial é o ponto de partida do Festival Garimpo, que leva para a capital mineira gente como o duo Lucy and The Popsonics, Terminal Guadalupe, Macaco Bong, Vanguart e Montage. Fica aqui os parabéns do Scream & Yell para estes dois grandes sinônimos de cultura independente do País. Mais sobre o Festival Garimpo aqui.

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E o disco do Babyshambles, hein. Já virou vício agora. Ouço no computador no trabalho, no celular quando estou indo pra casa, e no computador em casa. Já está na seleção da próxima discotecagem que irá acontecer em Curitiba, qualquer dia do mês que vem…

setembro 28, 2007   No Comments

Comédias românticas

Eu adoro comédias românticas. Adoro. E é por isso que eu tinha uma boa expectativa em relação a “Must Love Dogs”, vertido para o Brasil como “Procura-se em um amor que goste de cachorros” (tsc tsc tsc). Mesmo com a boa expectativa, não encarei o filme quando estava em cartaz, não aluguei em uma locadora e acabei comprando o DVD em um sebo, numa promoção “se levar cinco DVDs, cada um sai por R$ 10?. Ótima oportunidade para adquiri-lo.

Veja bem, não estranhe, mas era para ser um filme com todos os ingredientes para agradar: cachorros (e eu adoro cachorros), dois bons atores principais e um romance entre eles. E não é que Gary David Goldberg consegue confundir tudo e tornar um filme promissor em algo no máximo ruim. O argumento é fraco, Diane Lane e John Cusack estão desajeitadamente constrangedores e os cachorros não estão nem no papel secundário.

Se você gosta de cachorros assista “Melhor é Impossível” (aquele cachorrinho merecia um Oscar ao lado de Helen Hunt e Jack Nicholson); se você gosta de Diane Lane assista… assista… assista “Infidelidade” (aquele com Richard Gere mesmo; o roteiro atrapalha tudo e a metade final do filme é constrangedora, mas Diane Lane está deslumbrante); se você gosta de John Cusack veja “Alta Fidelidade” (na verdade, assista “Alta Fidelidade” de qualquer jeito). Esqueça esse “Must Love Dogs”. Eu esqueci.

Ps. Acho que a melhor comédia romântica que vi nos últimos anos foi “Como Perder um Homem em 10 Dias”…

agosto 31, 2007   No Comments

Alguns filmes e alguns discos novos…

E o fim de semana se foi, mais uma vez. Mas não vou reclamar. Vi dois filmes no cinema, comprei alguns outros em um sebo, e vi mais alguns em casa. E só por isso estou feliz. O cinema faz uma falta danada em minha vida, embora nenhum dos cinco últimos filmes que vi tenha sacudido a minha alma na beira de um precipício.

– “Os Incompreendidos”, François Truffaut, 1959
Belíssimo filme de estréia do diretor francês, “Os Incompreendidos” narra a infância do próprio diretor de forma autobiográfica. A cena do interrogatório é divertidíssima e esclarecedora, mas os grandes momentos são a apresentação de fantoches e a corrida final. Um ótimo exemplo de que um jovem problemático pode se transformar em um gênio. Pessoalmente prefiro “A Noite Americana”, mas esta estréia tem sua beleza.

– “Amadeus”, Milos Forman, 1984
Premiado com 8 Oscars, esta versão romanceada (inspirada em uma montagem teatral) da vida de Wolfgang Amadeus Mozart destaca um roteiro tão bem cuidado que as atuações quase ficam em segundo plano. Quase. F. Murray Abraham (como Antonio Salieri) e Tom Hulce (como Mozart) brilham. O filme fecha em si mesmo como obra cinematográfica. Mas… bem, senti falta de algumas obras clássicas, de alguns quartetos (a única coisa que tenho de Mozart em casa são um quarteto de flautas e um quinteto de clarinetes). Na verdade, senti falta de Mozart no filme, já que o narrador é Salieri. Isso não diminui a obra de forma alguma, e a versão do diretor, com 20 minutos a mais (totalizando 3 horas de filme) é impecável. Porém, eu esperava mais.

– “O Grande Lebowski”, Irmãos Coen, 1998
Outro filme que sofreu aqui em casa de grande expectativa, afinal, é uma obra dos Irmãos Coen. Entende? – “Fargo”, “O Homem Que Não Estava Lá” e “E Ai, Meu Irmão, Cadê Você?” são clássicos recentes do cinema mundial, e eu esperava ver neste “O Grande Lebowski” um pouco da genialidade da tríade citada. A genialidade está ali, você a sente em diversas passagens, porém o resultado final é confuso e pouco sedutor. Existem ótimas cenas, ótimas idéias que, no entanto, parecem não encaixar no quebra-cabeças maluco em que sempre se torna um roteiro dos Coen. Pena.

– “Medos Públicos em Lugares Privados”, Alain Resnais, 2006
Quando sai da sala de cinema e me deparei com a crítica de Luiz Zanin, no Estadão, não pude deixar de lembrar do chapa Marcelo Orozco dizendo que o texto de Lester Bangs sobre “Astral Weeks”, de Van Morrison, era melhor do que o disco. E não é que o filme de Resnais seja ruim (assim como a obra prima de Van Morrison não é) ou que o texto seja algo incomum. Zanin apenas colocou no papel coisas que ali na tela caem sobre o colo delicadamente como flocos de neve, mas derretem. Ele escreve: “Sabe-se, desde as primeiras cenas, que aquela é  uma Paris imaginária, artificial, gelada, onde neva o tempo todo, porque também há gelo nos corações das pessoas” . A tela, por sua vez, exibe um drama de pessoas congeladas em suas próprias almas num belíssimo exemplar do eterno cinema francês, provocativo, intenso e teatral. Em certos momentos há poesia e delicadeza (como quando Charlotte conversa em uma cozinha com Thiery e a câmera foca as mãos de ambos afundadas na neve), mas a teatralidade é mais presente, deixando escorregar uma certa tristeza, e também uma certa decepção. Um quase belo filme.

– “Os Simpsons – O Filme”, David Silverman, 2007
Acho complicado me manifestar sobre essa adaptação após o Bart (e tinha que ser ele – hehe) ter traduzido tão bem o misto de felicidade e incomodo que todos sentimos ao sair da sala de cinema. Não há decepção, mas também não há nada que vá mudar nossas vidas (e, bulhufas, será que eles teriam que mudar nossas vidas? Será que tínhamos que esperar tanto? Será que não nós contentamos com as mesmas incorreções de sempre?). É mais do mesmo, sim, mas é mais do mesmo em grande forma. Bem, sei lá. Eu gostei. E não gostei. A culpa será do Homer ou minha?

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Discos bacanas que você precisa ouvir:

– “Yes, U”, Devastations.

– Os singles de Eddie Vedder (a boa “Hard Sun”), Beck (”Timebomb”), Hives (a ótima “Tick Tick Boom”), PJ Harvey (a não sei o que dizer sobre ela “When Under Ether”) e Foo Fighters (a fraquinha “The Pretender”)

– Os novos de José González (“In Our Nature”) e Rilo Kiley (“Under The Blacklight”)

agosto 26, 2007   No Comments

Eu vos saúdo, Maria

Hoje é dia de colocar a casa em ordem, mais propriamente o quartinho em que estão todos os CDs, caixas ainda fechadas da mudança, e centenas de revistas. Aliás, a reportagem da TV Gazeta esteve aqui em casa ontem para uma reportagem sobre os 25 anos do CD, que foi ao ar ontem mesmo. O bate papo com a repórter me fez pensar em algumas coisas interessantes sobre a chegada do MP3, o fim da indústria, e coisas assim. Vou tentar escrever para a próxima coluna de sexta que vem. Devagar, devagar.

Ontem também assisti a “Je Vous Salue, Marie”, de Godard, que se encaixa na categoria dos filmes que não me chaparam tanto quando terminei de assistir, mas que após ler alguns artigos, me fez repensar e até planejar outra sessão. E por mais que a temática seja densa e polêmica, ainda não entendo o caos gerado pela Igreja em torno do filme. Godard não nega a gravidez divina de Maria (a bonita Myriem Roussel), um dos pontos mais contestados do catolicismo em todos os tempos por cientistas e estudiosos, que teve seu filho sem ter tido contato sexual com nenhum homem. O que o cineasta francês contesta é o conformismo com que o casal aceitou a missão divina.

Maria luta bravamente contra o desejo sexual, enrolada sobre um lençol branco e com a mão acariciando os pelos pubianos, contendo-se para não contrariar o desejo divino. José, por sua vez, só aceita Maria após ser coagido pela força do arcanjo Gabriel, um homem truculento – desses que poderiam facilmente passar por segurança de boate – que tenta colocar a história divina nos eixos. Após o nascimento do filho, Maria dedica-se ao garoto, mas aos poucos vai perdendo sua inocência e pureza, para tornar-se uma mulher comum.

Por mais que a Igreja tenha usado toda sua força contra o filme, proibindo sua exibição em diversos países (Brasil incluso) o recado final é totalmente pró-catolicismo: tivemos uma chance, e a desperdiçamos. Pior: esquecemos que essa chance nos foi dada. Agora vivemos em pecado. Mais católico que isso, impossível. De qualquer forma, o mais interessante de “Je Vous Salue, Marie” não é sua mensagem, e sim a forma com que essa mensagem foi recebida. Da minha posição de católico apostólico romano não praticamente admiro a divagação godardiana não por ela ser (supostamente) provocativa, mas sim por gerar reflexão.

Ao transpor a gênese do catolicismo para os dias de hoje (Maria e José são um simples casal – ele taxista, ela trabalhando no posto de gasolina do pai – vivendo em uma grande cidade e com os mesmos problemas que eu e você) e dar a esta gênese uma visão de inconformismo com as diretrizes escolhidas por Ele sobre nossas vidas, Godard questiona o significado de religião, para todos nós, nos dias de hoje. O que você faria se fosse Maria ou José? Teria o filho? Abandonaria todos os seus sonhos e desejos para dar à luz (Maria) e cuidar do filho (José) d’Ele? Eu tenho a minha resposta, mas como esse Word já fechou umas três vezes sem motivo enquanto eu escrevia, não quero provocar a ira divina blasfemando contra o senhor. :/ E não que fosse blasfêmia, mas…

agosto 19, 2007   No Comments

21h25, Saturday Nigth

Ia começar falando que as coisas estão corridas, que o trabalho está insano, mas bastante instigante (muuuitas novidades, a grande maioria boa), e me desculpar pela ausência culpando a correria. Mas quando eu não estive correndo? Entre os apelidos carinhosos dos quais Lili me chama, um é bem sintomático: 220. Ela diz que sou ligado no 220. Bem, eu tento fazer o máximo de coisas no mínimo de tempo que temos. A vida passa rápido demais, e quando vemos, já era. Eu só tento aproveitar. Então, não vamos culpar a correria. Se ando faltando aqui (apesar de ser um layout novo e tal) é porque estou trabalhando demais, mas também porque estou tentando aproveitar a vida. Não me culpe.

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Ando viciado na Piauí (mas lendo de duas a três reportagens por edição), comprando a Rolling Stone todo mês, mas não lendo nada (Lili lê e me conta), e é só isso em termos de revistas. Neste mês, no entanto, vou comprar a Bravo Especial Cinema. Tem dedo do amigo Jonas Lopes lá (e não são poucos dedos, e sim as duas mãos inteiras), então é garantia de boa leitura e boas dicas. Aliás, Jonas e Juliana são os responsáveis por um dos presentes mais bacanas que ganhei nesse aniversário: “Cruze Esta Linha”, uma coletânea de ensaios e artigos de Salman Rushdie, um dos escritores que admiro pelo dom de fazer rir após um longo trecho discursivo. O André foi responsável por um presente não menos especial: dois DVDr com mais de 11 horas de raridades de Bob Dylan. Começa em 1963, com uma apresentação no programa Folk Songs and More Folk Songs, da WBC TV, e termina em 2002, com a apresentação no Grammy. Presentaços.

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No cinema as coisas até que estão engatinhando. Vi “Saneamento Básico” dia desses (não viu? Vá ver, AGORA) e revi “Ratatouille” no fim de semana passado, com a sobrinha Gabriela. Havia visto em Valparaiso, no Chile, dublado em espanhol, e este foi um dos momentos em que nos desligamos completamente do lugar em que estávamos, do frio fora do cinema, de hostels, aviões e tudo mais. Só voltamos ao Planeta Terra quando o filme acabou, e fomos despertados do transe pelos aplausos do público (os chilenos aplaudem o filme quando gostam). Nem a dublagem em espanhol (e a falta de conhecimento da língua) atrapalhou no entendimento e encanto dessa maravilhosa saga de gerações sobre um rato que deseja ser chef de restaurante em Paris. Além de ser uma criança (com 37 anos, mas uma criança), me senti tocado pela parte do crítico, profissão que finjo exercer de vez em quando. O trecho final do filme é simplesmente clássico.

Fora isso, tem os DVDs. Andei fazendo uma rapa nas Lojas Americanas. Comprei “Amores Brutos”, “O Grande Lebowski”, “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, “Je Vous Salue, Marie” e “Z”. Acabei de assistir a este último, e fiquei absurdamente embasbacado com a sensacional visão do cineasta grego Contantin Costa-Gavras sobre o universo político. “Z” é considerado a obra-prima do cinema político, e foi o primeiro filme a romper a barreira da língua e ganhar, em 1969, uma indicação ao Oscar de Melhor Filme. Ficou com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, e recebeu o prêmio do júri e o prêmio de Melhor Ator em Cannes. O filme denuncia a violência da ditadura na Grécia, instalada na década de 1960, e a forma como traduz política, manipulação da mídia, e o poder da força sobre a inteligência é de corar céticos. Foi proibido no Brasil durante a nossa ditadura militar. E é tão fresco, tão forte, tão impressionantemente atual. E custou apenas R$ 9,90 nas Lojas Americanas, pouco mais do que uma locação para um filme que deve ser visto várias vezes.

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E música… bem, neste momento ouço “Make Another World”, do Idlewild, que acabou de ganhar edição nacional. Bom, mas ainda não sei se é mais do que isso. Tenho ouvido bastante Ash (”Twilight Of The Innocents”) e Josh Rouse (”Country Mouse City House”), um pouco de Kula Shaker (”Strange Folk”) e acho que a ficha caiu em relação ao último álbum do Pato Fu, “Daqui Pro Futuro”, mas ainda não sei dizer se gostei. Tem também Lucy and The Popsonics (”A Fábula Ou a Farsa de Dois Eletropandas”), que adorei a primeira metade do álbum (o que dizer de “Garota Rock Inglês” e os singelos versos “Garota rock inglês não maltrate dessa vez / o meu coração que só fala português…/ Eu não leio Byron nem escuto Coldplay”), mas não achei tão boa a metade final. E também Orquestra Imperial (”Carnaval Só Ano Que Vem”) e Fino Coletivo (”Fino Coletivo”), mas desses dois eu não quero falar, porque ainda ouvi pouco o primeiro e já ouvi demais o segundo (eles iam pintar em primeiro lugar no meu Top 5 de 2007 na segunda-feira, mas quero ouvir melhor e ver se não é só uma chapação imediata ou se o disco sobrevive três semanas de extensa audição). E por fim, não gostei da música nova do Foo Fighters…

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Bem, Lili chegou… e é hora de preparar o jantar (nada especial hoje, mas se você algum dia topar com o livro “Guia Para a Sobrevivência do Homem na Cozinha”, de Alessandra Porro, leve pra casa, duas cópias se for possível. Uma pra você e outro pra me emprestar caso alguém leve o meu – que eu ganhei da Helena, já te agradeci, He? – e não devolva. Está frio na Selva de Pedra. Eu tinha mais coisas pra contar, mas… esqueci. Deixo vocês com Mr. Wander Wildner e o trailer da fotonovela O Infiel. Divirta-se.

http://www.crepusculo.com.br/

agosto 11, 2007   No Comments