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Dylan com café, dia 86: The 1966 Live

Em 2016, às vésperas de entrarem legalmente em domínio público (como um vasto material anterior), a Columbia Legacy Records colocou nas lojas “The 1966 Live Recordings”, um box com 36 CDs que registram 23 dos 47 shows que Bob Dylan fez em sua turnê mundial daquele ano. Não era qualquer turnê. A turnê mundial de 1966 (precedida pela turnê acústica de 1965 capturada no documentário “Don’t Look Back”) era o rito de passagem do Dylan acústico (no primeiro set) para o Dylan elétrico (no segundo set), e noite após noite uma plateia enfurecida pagava ingressos para xingar Bob e sua banda, a The Hawks, futura The Band.

Dos 36 discos, cinco saíram diretamente de bootlegs gravados em meio ao público, de maneira tosca que só tem serventia como registro. Outros sete discos foram gravados em estéreo com equipamento profissional da gravadora. Há, ainda, dois discos retirados de másters gravadas por uma TV australiana. Os 22 discos “restantes” foram gravados pelo técnico de som de Dylan diretamente da mesa (em mono), para que a banda ouvisse nos dias seguintes ao concerto e avaliasse o caos em que havia se metido, um cenário de guerra que culminou num grito de “Judas!” em Manchester, Inglaterra, disco número 20 do pacote.

Essencialmente, Bob Dylan executa o mesmo repertório toda noite (com variações e trocas de canções conforme a turnê prosseguia), com poucas variações no set, mas interessantes inflexões de silabas aqui e ali, no calor do momento, como ele quisesse destacar algo na letra para aquele público especifico. Item óbvio destinado a Dylanólogos, a melhor dica para encarar esse monumento histórico que é “The 1966 Live Recordings” foi dada pela bacanuda revista Uncut: “Ouça os 36 discos como se estivesse assistindo a uma série de TV, acompanhando o drama do artista episódio por episódio”. É certeiro, pois o Dylan da metade do box para frente está exausto, e vai ficando cada vez mais exausto conforme a turnê se desenrola.

O prenúncio do caos havia sido no festival de Newport, 1965, e apenas se agravou com essa turnê mundial, com Dylan pouco se fodendo para o que desejavam pra ele, mostrando-se muito mais interessado em arriscar e provocar – uma tarefa árdua que culminaria em um acidente pós turnê que o deixaria 8 anos afastado das turnês. O clímax dessa turnê de 1966 é o icônico show em Manchester, onde Dylan é chamado de “Judas” por um fã na plateia, vira-se para a banda e pede: “Toquem fudidamente alto!” (flagra registrado no excelente documentário “No Direction Home”, de Martin Scorsese).

Um dos pontos interessantes de “The 1966 Live Recordings” é perceber que esse clímax, lendário pelas cópias piratas do álbum que circularam durante anos e anos, é antecipado três dias antes em Liverpool, onde em meio a gritos de “traidor” e pedidos de “volte pra casa”, uma voz salta em meio ao zumzumzum: “O que aconteceu com sua consciência?”, e Bob arremata “Oh. Tem um cara lá na plateia procurando o Salvador … ”. Dois dias depois de Manchester, Dylan e banda aportam em Glasgow, e a ira da plateia é tamanha que é difícil não imaginar como não descambou pra violência física. Bob, no entanto, só provoca: “Bob Dylan está nos bastidores. Ele não conseguiu voltar para o segundo set. Ele ficou muito doente – e eu estou aqui para substituí-lo”, sarreia.

Ele ainda tocaria em Edimburgo, Newcastle, Paris (onde confessa “Eu quero sair daqui tanto quanto você…”) e encerraria (precocemente) a turnê com duas noites no Royal Albert Hall, em Londres, com os Beatles e os Stones na plateia. Pacote extenso, a equipe de Dylan destaca os shows de Cardiff e Leicester como dois dos melhores, enquanto o técnico de som que registrou todos os shows, Richard Alderson, sente que Dublin e Liverpool são os destaques.

O set list de 15 canções foi mudando durante a turnê. “To Ramona”, “Gates of Eden” e “Love Minus Zero/No Limit” cederam seus lugares no set acústico para “4th Time Around”, “Visions of Johanna” e “Just Like a Woman”. No set elétrico, “Tombstone Blues”, “From a Buick 6”, “Maggie’s Farm” e “It Ain’t Me Babe” caíram para a entrada de “Tell Me, Momma”, “Baby, Let Me Follow You Down”, “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “One Too Many Mornings”. Para o final, sempre a dobradinha “Ballad of a Thin Man” e “Like a Rolling Stone”.

Uma turnê que se tornou um clássico de Bob Dylan, mas que não seria a única. Isso, no entanto, é assunto para outro café.

Especial Bob Dylan com Café

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