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Habemus vencedor

Antes de mais nada: sooooono. A primeira parte (e a mais trabalhosa) do especial Melhores do Ano S&Y está editada. São as páginas especiais dos 91 amigos que participaram da votação. Agora só falta terminar as páginas dos vencedores, e acredito que amanhã de manhã o especial estará no ar. Na categoria disco nacional, o vencedor bateu o segundo lugar por 22 votos a 19. Na categoria disco internacional a briga foi bem acirrada: 31 votos a 30. Mas ainda preciso fazer uma revisão básica em todas as categorias. Amanhã nos encontramos, ok.

janeiro 14, 2008   Encha o copo

Cat Power, Flaming Lips e Black Sabbath

Estou ficando apaixonado pela Cat Power…

janeiro 11, 2008   Encha o copo

Cinema: “Mutum”

“Mutum”, de Sandra Kogut” – Cotação 5/5

A adaptação de livros para o cinema sempre foi um desafio para roteiristas e cineastas, e com raríssimas e honrosas exceções estes profissionais conseguem transformar as palavras no papel em imagens inesquecíveis tão belas quanto aquelas perdidas em páginas e páginas amareladas pelo tempo e pela história. Condensar uma narrativa de centenas de páginas em duas horas de exibição é uma tarefa inglória que já derrubou muitos (e continuará derrubando).

Agora, se adaptar um livro já é um grande desafio, o que dizer de uma adaptação de uma obra de Guimarães Rosa, escritor mineiro que ia além do simples escrever: ele criava vocábulos a partir de arcaísmos, palavras populares e de seu imenso conhecimento de línguas (falava mais de sete e, “com o dicionário agarrado”, lia mais umas cinco) colocando suas “novas palavras” em uma prosa tão poética que, recomenda-se, deve ser lida sempre em voz alta. Trabalho quase impossível, com certeza.

A cineasta Sandra Kogut “inventou” de enfrentar o desafio e “Mutum”, longa baseado na novela “Campo Geral”, do livro “Manuelzão e Miguilim”, de Guimarães Rosa, é uma surpresa que emociona e encanta. A rigor, Sandra deixou de lado a narrativa pessoal de Guimarães Rosa (vamos combinar, iria soar forçado), e concentrou-se na descoberta de jovens atores que pudessem dar aos personagens Miguilim e Dito uma verossimilhança acima de qualquer suspeita. Os garotos Thiago da Silva Mariz e Wallison Felipe Leal Barroso cumprem essa função de forma arrebatadora.

Com os personagens principais em sintonia, faltava Sandra buscar a melhor forma de traduzir as emoções, os neologismos, a poesia da prosa de Guimarães Rosa para as telas. Como transformar em imagem a seguinte frase: “Mesmo assim, enquanto esteve fora, só com o tio Terêz, Miguilim padeceu tanta saudade, de todos e de tudo, que às vezes nem conseguia chorar, e ficava sufocado. E foi descobriu, por si, que, umedecendo as ventas com um tico de cuspe, aquela aflição um pouco aliviava.” Não basta focar os olhos do garoto e filmar o ato. É possível que espectadores achassem nojento e perdessem a poesia do texto. A tarefa não era fácil.

Porém, o roteiro inteligente focou-se na poesia da narração e procurou, ao máximo, transforma-la em imagens. Dessa forma, o sertão mineiro é explorado em seus detalhes e, maior mérito, apresenta ao público um Brasil que o Brasil parece desconhecer e querer deixar no passado enquanto caminha a passos largos para o futuro. O Brasil dos nossos pais e avós. Um Brasil de pratos de plástico, roupas remendadas e palavras inventadas. Um Brasil que, embora muitos nem saibam, ainda corre nas veias de seu povo. “Mutum” é a outra metade de “Saneamento Básico”, grande cinema de Jorge Furtado. Os dois filmes se completam ao falar de um Brasil que muita gente realmente não conhece.

Em “Mutum”, Thiago vive o personagem Miguilim, mas no filme ele é Thiago mesmo. Felipe passa pelo Dito, mas também manteve seu nome de batismo no longa. Estes dois garotos vivem a história de uma família que vive no Mutum, um lugar “longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto (…). No meio dos campos gerais, mas num covoão em trecho de matas, terra preta, pé de serra.” Thiago tem oito anos, acabou de ser batizado, muito embora esse rito de passagem não vá proteger sua família das “tragédias” vindouras.

Primeiro, a briga dos irmãos pela mesma mulher. No sertão não há diálogo: é tudo no facão. Se não tem como conversar, melhor partir, e o ente mais querido de Thiago Miguilim deixa a casa num dia de chuva e trovoadas. Os meninos, embaixo de uma mesa – à luz de velas – comentam: “Deus tá castigando a gente”. O drama segue, mas tanto a narrativa de Rosa quanto as imagens de Kogut transpiram poesia, mesmo na morte. Tanto as imagens quanto o texto mais enlevam que anuviam. E essa métrica será seguida até o final de “Mutum”, e ganha ares de clássico na cena derradeira, a cena mais tocante do cinema recente feita em terras brasileiras, quando o garoto lança o último olhar sobre o Mutum pretendendo guardar cada grão de areia no fundinho de sua alma de menino.

Sandra Kogut transforma a rica prosa poética de Guimarães Rosa em poesia visual. O resultado é um dos filmes mais líricos da retomada. E um dos melhores. “Mutum” é sublime e sobrevive ao livro sem diminui-lo ou desmerecê-lo. Além, filme e livro se entrelaçam, se envolvem, e criam uma nova perspectiva na mente do leitor espectador: cada um deles sobrevive sem o outro, mas nenhum deles substitui o outro. Se você leu o conto, o filme o levará galopando pelo mesmo sertão, com o olhar em primeiro plano, não o ouvido. Se você só viu o filme, você precisa urgentemente ler o conto. :*) Ou seja, o melhor que você tem a fazer, caro leitor, é adentrar os mundos particulares de Guimarães Rosa e de Sandra Kogut e descobrir, como disse um homem para Miguilim, que o “Mutum era lugar bonito”.

janeiro 9, 2008   Encha o copo

Canções que fazem sonhar

Discos tributo, quando bem produzidos, têm um valor inestimável para o público jovem, principalmente quando o homenageado não é conhecido pelas novas gerações. O raciocínio simplista funciona mais ou menos assim: o que um cara como John Fahey fez para que gente tão bacana quanto Sufjan Stevens, Lee Ranaldo (Sonic Youth), Devendra Banhart, Calexico, Jason Lytle (Grandaddy) e M. Ward (entre outros) deitassem sobre seu repertório e acordassem com treze versões arrebatadoras?

O motivo, caro leitor, está lá no fundo do baú da história. John Fahey é um dos pioneiros na arte da guitarra acústica, e “I Am the Resurrection: A Tribute to John Fahey”, revisita com emoção seu fabuloso repertório. John Fahey (falecido em 2001) lançou seu primeiro álbum em 1959 e, a partir de então, exercitou uma musicalidade que procurava desbravar a América negra, o folk, o blues e o country em pequenas sinfonias acústicas de rara beleza. Não à toa, quando a Rolling Stone se reuniu, em 2003, para apontar os 100 guitarristas mais influentes de todos os tempos, Fahey apareceu em uma honrosa 35ª posição.

Para adentrar ao mundo deste “I Am the Resurrection: A Tribute to John Fahey” você precisa, primeiramente, esquecer das paradas de sucesso, das listas dos mais vendidos, da música pop feita para ser consumida vorazmente em alguns segundos e esquecida para todo sempre. A música de John Fahey (encaixotada no preguiçoso gênero acid folk) exige atenção, e depois que você a concede esse benefício, o retorno é quase impossível: ela agarra sua alma num abraço delicado e silencioso que não lhe dá alternativa além de sonhar e sonhar e sonhar.

O maior mérito de “I Am the Resurrection: A Tribute to John Fahey” é introduzir o ouvinte no universo do homenageado. É certo que após ser embalado por Sufjan Stevens na emocionante “Variation On ‘Commemorative Transfiguration & Communion At Magruder Park’”, Devendra Banhart em “Sligo River Blues”, Calexico em “Dance Of Death”, Cul de Sac na piscodélica “Portland Cement Factory at Monolith”, e/ou Peter Case na saudosa “When The Catfish Is In Bloom” (com seus mais de sétimo minutos de delírios), você vá querer ir atrás dos originais. E, então, irá descobrir que essas mesmas canções (e muitas outras) podem soar ainda melhores do que elas soam neste tributo. Boa descoberta.

janeiro 8, 2008   Encha o copo

Você descobre que está…

trabalhando demais quando, depois de cinco dias intensos de cobertura de carnaval, acorda às 10h30 da quarta-feira de cinzas em meio a um “grande pesadelo”:

Estou na redação, aquela correria, quando alguém chega:

– Pessoa 1: Marcelo, Marcelo, o MSN vendeu todas as suas ações para um conglomerado asiático que está tirando do ar todo o seu conteúdo…

– Pessoa 2: Não consigo entrar no MSN, não consigo entrar no MSN…

No meu computador, tento acessar o MSN em vão. Vou para a página deles, e sou encaminhado para outra, cuja paisagem remete ao Himalaia. É algo assustador (no sonho; terrivelmente engraçado agora), pois cada clique que dou, a página do MSN começa a carregar e, em seguida, aparece a paisagem do Himalia com palavras e frases em uma língua que não consigo entender.

A redação está uma balburdia, penso no iCQ como alternativa (ao mesmo tempo me pergunto: o ICQ ainda existe?) e no meio da piração lembro que o MSN também detém o Hotmail, e a essa altura todos os meus e-mails foram para o espaço sideral virtual. Começo a teclar calmamente o endereço quando… o telefone toca e eu acordo.

Acho que preciso de uma folga.

janeiro 6, 2008   Encha o copo

Roteiro de Viagem: Argentina e Chile – Comida

Antes que as lembranças se percam na minha memória desgastada pelo tempo e pelo uso, já está mais do que na hora de relembrar o passeio pela América do Sul que eu e Lili fizemos em julho do ano passado. Foram 21 dias passando por Buenos Aires, Santiago, Valparaiso, Vinã Del Mar e São Pedro de Atacama. Tínhamos outras cidades no roteiro, como Mendoza (na Argentina), mas tivemos que mudar o itinerário devido a neve que caia sobre o Aconcagua no dia do nosso embarque.

O que você irá ler abaixo é um pequeno relato de coisas interessantes que passamos nestes dias de frio abaixo de zero (-16 graus numa madrugada), paisagens inesquecíveis e passeios idem. Para não obrigar ninguém a ler um livro, vou dividir os posts em temas, ok. Este primeiro irá versar sobre comida. Comer numa viagem é algo bastante interessante e não dá para ficar dependendo dos McDonalds da vida: você precisa ao menos experimentar um pouco da comida de cada região pois viajar não é só olhar, é comer também.

Minha meta pessoal era descobrir qual a melhor carne das Américas. Bobagem grandiloquente, claro, já que eu iria passar apenas por dois países, mas vamos deixar assim que é bem legal. Já a tarefa da Lili não era menos importante ou honrosa: descobrir o melhor Alfajor. Com estas metas em mente, aportamos na capital portenha no final de junho para um passeio por gostos, cheiros e sabores. O melhor alfajor que Lili provou ela não conseguiu encontrar novamente e nem lembra o nome. E olha que nós procuramos! Tentamos até voltar ao local do crime (uma rua paralela a Calle Florida, no centro de Bue), mas não deu certo.

Já os pratos foram uma grande experiência. Minha melhor refeição da viagem aconteceu no último dia em São Pedro de Atacama. A da Lili foi no primeiro dia em Valparaiso. Porém, antes de ambas as refeições fizemos alguns experimentos bem importantes: o primeiro – que valeu apenas para olhar o prato, beliscar e mandar voltar – foi a famosa parrilada, que junta tudo aquilo que você não gosta do boi em um mesmo prato. Para quem tem estômago forte e muita coragem. Preferi o refrigerante de Pomelo, Paso de Los Toros.

Tirando a parrilada, as refeições em Buenos Aires foram, quase sempre, bife de chouriço, que num corte diferente junta alcatra e picanha em (geralmente) 500 gramas suculentas (prestou atenção na primeira foto?). Acompanha, quase sempre, purê de batata (os portenhos não são tão fãs de arroz) e tem a vantagem de ser tão bom em alguns restaurantes badalados da Recoleta tanto quanto em algumas padarias do centro da cidade. As duas únicas vezes que variamos nos cinco ou seis dias que ficamos em Bue foram em dois restaurantes bem aconchegantes e charmosos:

– Cumaná: a amiga jornalista Sylvie Piccoloto havia me levado lá na minha primeira vez em Buenos Aires, então – na hora de variar o prato – melhor ir ao garantido. O ambiente do lugar é aconchegante, o atendimento é excelente e os preços são convidativos. Bebemos vinho argentino, eu fui de pastel de papa com carne (pasta de batata com pedaços de carne e molho bolonhesa) e Lili foi de risoto, ambos aprovados. O Cumaná fica na Rodríguez Pena, 1149, na Recoleta. Se você estiver no centro da cidade, pode ir de táxi que irá sair barato.

– Melee: dica da amiga Capitu. Fica em uma das travessas da Calle Florida e sua especialidade é cozinha francesa com um toque portenho, claro. Fui do básico beauf bourguignon con papas rissoles y repollo agridulce (bife com fritas e repolho) acompanhado de vinho argentino e Lili ficou tão encantada com o creme bruleé que nem lembra qual foi o prato principal. O Melee fica na rua Viamonte, 852, ao lado da Calle Florida.

Em ambos os restaurantes a conta de cada um não passou dos R$ 35.

Se comemos bem todos os dias em Buenos Aires, o mesmo não podemos dizer de Santiago. Até podemos dizer que bebemos vinhos melhores, mas no quesito comida não nos demos muito bem. Nosso primeiro passeio obrigatório foi ir ao Mercado Central comer frutos do mar (tem tudo que você possa imaginar lá). Escolhemos o restaurante Augusto, e fui de salmão ao molho de camarão e Lili arriscou no caranguejo desfiado ao alho. Quer saber: nenhum dos dois pratos nos impressionou, e o preço saiu mais salgado do que na Argentina (cerca de R$ 45 por pessoa)

Na visita ao Mercado Central, pessoalmente, gostei mais do Pisco Sauer, mistura parente da nossa caipirinha, mas mais leve. O Pisco é uma aguardente destilada de uvas moscatel com elevado teor de açúcar, cultivadas nos vales do norte do Chile e também no Peru. Trouxemos uma garrafa para uma amiga. Se a comida marinha não nos agradou tanto, o que dizer então do pastel de choclo, o prato mais terrível de toda nossa viagem? 🙂 Ainda não consigo dizer ao certo o que era aquilo, mas vinha numa cumbuca, tinha farinha de milho por cima, um enorme pedaço de frango no meio, umas azeitonas perdidas aqui e ali, um ovo cozido inteiro, molho de carne e mais algumas coisas que não ousamos descobrir.

Se em Santiago não nos demos bem no quesito comida, em Valparaiso a experiência foi gratificante. Valpo é uma cidade portuária tombada pelo Patrimônio Histórico devido aos seus ascensores com mais de 100 anos que ligam a parte baixa da cidade com a parte alta. Aliás, esqueça a parte baixa que exibe uma cidade portuária tradicional e se perca pelas ruas e becos da cidade alta que, entre algumas coisas, abriga a belíssima La Sebastiana, uma das três casas que o poeta Pablo Neruda mantinha no país. Três coisas que você precisar fazer em Valpo: andar de ascensor, ir a La Sebastiana e comer no Café Turri.

– Café Turri: o acesso é fácil, pois fica na saída do ascensor Concepcion. A vista é magnífica e, principalmente, se tiver em um dia de sol (como o que presenciamos), vale o almoço ao ar livre com o Oceano Pacifico bailando a sua frente. Fui de coca-cola e um maravilhoso filete de milanesa acompanhado de purê de batatas e três pimentas. O purê é algo, e as três pimentas chilenas dão um sabor especial ao prato. Lili, como quase sempre, decidiu arriscar e pediu brochetas de Mahi Mahi en salsa de coco. O site do Café apresenta assim: “Trozos de Mahi Mahi intercalados con piña, cocinados a la plancha, con toques de estragón en suave salsa de crema de coco y eneldo.” Dá água na boca só de ler. Resultado: a melhor comida de toda viagem para a Lili.

De Valpo passamos em Vinã Del Mar, voltamos para Santiago e voamos para o deserto da Atacama, mais precisamente São Pedro de Atacama, uma cidadezinha de pouco mais de 3 mil habitantes localizada no meio de um oásis. Ainda no aeroporto em Santiago compramos um “Guia de Destinos – San Pedro de Atacama e Alrededores”, e foi ele que nos apresentou os restaurantes badalados da cidade. Havíamos almoçado no Adobe (Rua Caracoles, 211), fisgados por um atendente que falava português perfeitamente, que nos explicou detalhadamente o menu e conhecia mais cidades no Brasil que eu e Lili juntos. Para o jantar, estávamos entre o sedutor Blanco (de decoração toda branca, cozinha de autor e pratos como veta de cordero con puré de polenta y verduras al oporto y sushi) ou o clássico La Estaka, mas acabamos optando (acertadamente) por um terceiro; La Cave.

O que nos levou ao La Cave foi o fato de seu menu, exposto na porta, apresentar Civet de Lhama, “carne típica de la zona”. Na volta de uma dos passeios que fizemos, nosso guia nos levou a uma vila indígena, e além de tomarmos chá de coca (que não deu barato algum) e provarmos deliciosas empanadas de queijo de cabra, comemos também espetinho de anticucho de lhama, uma carne macia e muito saborosa. Comi uns três espetinhos enquanto Lili devorou a mesma quantidade de empanadas. À noite, já na cidade, quando vimos o menu do La Cave apresentando o Civet de Lhama, não resistimos… e entramos. Porém, os restaurantes (e mesmo os açougues – como descobri depois) não vendem carne de lhama todos os dias, e acabamos tendo que pedir outro prato. Problema? Nenhum, afinal eu iria comer a melhor carne de toda a minha viagem.

Em primeiro lugar, o La Cave é comandado pelo simpático e corpulento chef francês Michel Coumes, que após termos feito nosso pedido, nos indicou o melhor vinho para acompanhar nossos pratos (não sem antes ser avisado de que o preço teria que estar dentro do nosso orçamento). Gentilmente ele nos apresentou um Palo Alto, cabernet sauvignon, de reserva, que foi aprovado imediatamente. Já os pratos… Lili foi de Cordero a Lá Provençale (cordeiro ao molho de vinho, conhaque, alho e toucinho acompanhado de batatas). Fiz uma escolha básica: Filete com Salsa Atacamenha (a base de ervas secas da região). Era só isso: bife e molho de ervas. E estava simplesmente sensacional ao ponto de me “obrigar” a fazer algo que até então eu nunca tinha feito na vida: ir a cozinha cumprimentar o chef. O preço do meu prato foi 7 mil pesos chilenos, cerca de R$ 25. O da Lili foi mais barato: 5.500 (cerca de R$ 19). Com o vinho (em torno de R$ 20), fechamos nossa viagem com um belíssimo jantar por pouco mais de R$ 30 por pessoa. Valeu o investimento.

Já que eu falei em vinho, vale contar a história dos dois passeios por vinícolas que fizemos em Santiago: na Concha Y Toro e na Cousiño Macul. Em ambos os passeios fizemos um tour para conhecer cada vinícola. O tour é guiado e além de trazer histórias interessantes e divertidas sobre cada vinícola (a do vinho Casillero del Diablo é ótima), lhe dá o direito de provar duas taças de vinho (e levar a taça embora, o que dá um trabalho em malas e mochilas, mas das nossas quatro, três sobreviveram. A que quebrou, quebrou aqui em São Paulo). Na Concha Y Toro provamos um Casilero Del Diablo, carmenere, safra 2005, e um inesquecível Don Merchor safra 1988. No dia seguinte, passeando pelo centro de Santiago, entramos em uma loja e nos deparamos com um Don Merchor safra 1989. Preço: R$ 300. Isso lá. Se você topar com uma garrafa dessas no Brasil, ela vai custar mais de R$ 500. E nos pagamos R$ 12 cada no tour. Coisas da vida.

Lendo tudo isso, até parece que fizemos almoços e jantares de R$ 50 durante toda a viagem, o que não reflete, de modo algum, o que foram estes 21 dias. A idéia era fazermos uma viagem no estilo mochilagem, dormindo em albergues, economizando na comida e curtindo os passeios, os lugares, as pessoas. E, de vez em quando, arriscar um prato em um restaurante decente. Na maioria das vezes, principalmente em Santiago, esperávamos (e nos deliciávamos) mais (com) a entrada do que com o próprio prato. A rigor, a entrada era quase sempre (de vez em quando na Argentina e sempre no Chile) composta de um pão caseiro fresquinho acompanhado de um molho apimentado que cairia bem ao lado de uma cerveja gelada. E importante: não é cobrada à parte. Um amigo chileno, quando veio ao Brasil, ficou transtornado ao saber que aqui se cobra o popular couvert. È bem provável que agora, no Chile, ele vá aproveitar ainda mais essa vantagem. Bom, acho que é isso. Nos próximos capítulos, albergues, pontos turísticos, câmbios e curiosidades de um passeio pela América do Sul.

Links Úteis:
– Café Turri – http://www.turri.cl/web2007/restaurant.asp
– Guia Óleo de Restaurantes Argentinos – http://www.guiaoleo.com.ar/
– La Sebastiana – http://www.lasebastiana-neruda.cl/
– San Pedro de Atacama – http://www.sanpedroatacama.com/
– Valparaiso – http://www.valparaisochile.cl/
– Vina Concha Y Toro – http://www.conchaytoro.com/

Leia também:
– Roteiro: Argentina e Chile – Parter 2: Dicas, por Marcelo Costa (aqui)

janeiro 3, 2008   Encha o copo

Música para indies dançarem

A reinvenção é uma arte. Na música pop, porém, é muito mais comum um artista se reinventar levado pela onda de modismos do que por méritos de sua inteligência artística. Exemplos do primeiro caso podem ser encontrados aos zilhões em qualquer parada de sucessos, mas o segundo caso é muito mais raro, mas nada que este belíssimo. “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?”, oitavo álbum do quinteto Of Montreal, não possa justificar.

Lançado em janeiro de 2007 na gringa, e completamente inédito no Brasil, “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?” traz Kevin Barnes, líder do Of Montreal, carregando a banda para um território dançante, esquizofrênico e melancólico que muita gente boa por ai andou definindo como “música para indies dançarem” (se é que indies dançam). Com os sintetizadores a frente, Barnes abre o coração e despeja frases de amores partidos: “Não sei se estamos vivendo um romance ou uma substituição”, canta em “Cato As a Pun”.

Em “She’s a Rejecter”, com poderosos riffs de guitarra, o personagem tenta se proteger da “garota que o deixou amargo”. Em “A Sentence of Sorts in Kongsvinger” o refrão é tão chiclete que é impossível não dar uma sacolejada assoviando a boa melodia: “Eu passei o inverno com o meu nariz enterrado em um livro / Tentando reestruturar o meu personagem porque ele se tinha tornado vil ao seu criador”, canta o rapaz antes de dizer que tudo isso aconteceu por culpa de um coração partido.

Em “We Were Born the Mutants Again with Leafling”, faixa que encerra “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?”, Kevin Barnes dá a deixa: “Nós amamos ver paixões infelizes”. Por mais que a frase soe sofredora (e soa), há uma beleza na calcificação de corações de pedra partidos por desamores que faz a melodia (e sua deliciosa letra surreal) soar redentora. Enquanto poetas cortam os pulsos em nome do amor, “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?” propõe uma nova brincadeira: se você está triste, vá dançar. Amores vem e vão. Músicas também. Ouça “Suffer for Fashion” e se prepare para sorrir.

Ps: a capa de “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?”, em forma de caleidoscópio, é seguramente uma das mais bonitas do ano.

janeiro 3, 2008   Encha o copo

Cenas da vida em São Paulo, Parte 5

Rua Augusta, 8h20, manhã de 31 de dezembro de 2007. O sol está a pino e os relógios marcam 27 graus. O dia está apenas começando. Um homem de uns 40 e poucos anos desce cambaleante pela calçada levando na mão esquerda uma sacola de plástico que parece muito maior do que o que ela leva dentro de si. Visivelmente abalado alcoolicamente, nosso amigo não caminha, dança ao som do vento, embora nem esteja ventando.

Do outro lado, uma garota deixa uma casa noturna da Augusta (se é que você nos entende) gritando para o amigo na portaria:

– Vou ali fazer uma correria, já volto.

Ela é, notadamente, uma dama da noite. Magra, com um colant cinza por baixo do top preto, ela não aparenta ter mais do que 30 anos. É fim de expediente, e mesmo assim ela brilha na manhã ensolarada de São Paulo. Se retirar a maquiagem e colocar uma roupa um pouco mais normal, poderia perfeitamente ser apresentada como namorada de algum sortudo numa casa de família tradicional, e todos iriam adorá-la. Ela caminha decididamente, mas é abordada pelo bêbado. O diálogo que se seguiu dificilmente poderia ser reproduzido fielmente, mas vale a tentativa:

– Oi, oi, oi – diz o rapaz pegando a mão da moça e beijando-a como se ela fosse uma princesa (e ela deveria realmente ser… para ele).

– Oi, tudo bem? – responde ela retribuindo ao homem uma atenção insuspeita; é possível perceber que ela está sendo importunada, que ela não queria ter parado ali, mesmo assim ela trata o homem com a maior delicadeza possível.

– Então, e ai? – diz ele

– É isso, é isso – responde ela, apressadamente

– Espera, você é linda demais – e a voz dele carrega no “demais” deixando o ar com cheiro de algum aguardente barato; ela ainda permite que ele a segure pelas mãos, mas o improvável casal não consegue terminar uma frase útil que seja.

– É bom olhar você…

– Que legal…

– É legal…

– Um barato…

– Sabe… sabe… sabe…

– Eu acho muito legal…

– (sorrisos)

– Eu preciso ir…

– Olha, não…

– Então…

– Pô, você lembra???

– Lembro, claro que lembro – ela solta a mão dele e volta ao seu trajeto normal…

– Ela lembra, ela lembra – ele comenta sorridente com as pessoas no ponto de ônibus, e grita para ela:

– Feliz ano novo.

Ela apenas acena a mão e some entre os prédios. Ele, atingido pelo vento que não venta, cambaleia, e continua seu trajeto descendo a Augusta. Aproximadamente uns vinte metros depois aborda outra dama da noite, tenta pegar a sua mão, e ante a negativa vai direto para o final da história:

– Feliz ano novo.

O sol está a pino e o ano está acabando. Previsão para 2008: ressaca.

dezembro 31, 2007   Encha o copo

Melhores do ano ao redor do mundo

A Metacritic compilou 26 listas de Melhores do Ano de diversas publicações ao redor do planeta. Três bandas dominam metade dos números 1: Radiohead (6 primeiros lugares), LCD Soundsystem (4) e Arcade Fire (3) juntos somam 13. A outra metade fica dividida entre gente como Battles, Feist, Spoon, National, Bruce Springsteen e Panda Bear, entre outros. Veja quais veículos se dividiram entre os três primeiros:

“In Rainbows”, Radiohead
Billboard, Delusions of Adequacy, Filter, Mojo, Noripcord, PopMatters

“Sound Of Silver”, LCD Soundsystem
Drowned In Sound, MusicOMH, The Guardian, Uncut

“Neon Bible”, The Arcade Fire
Lost At Sea, The Onion AV Club,  Q Magazine

A Rolling Stone americana escolheu “Kala”, da cantora M.I.A., como disco do ano; a badalada The Wire ficou com “Comicopera”, de Robert Wyatt; a Spin apontou “New Wave”, do Against Me!; o Observer ficou com o álbum homônimo do The Good, The Bad & The Queen; a NME com “Myths Of The Near Future”, do Klaxons (que toca no Brasil em maio junto com Editors e Yo La Tengo). Veja as 26 listas (e a média final da Metacritic).

O mais engraçado, pra mim, é que recebidos 1/4 dos votos para os Melhores do Ano do Scream & Yell (25 de 100), o disco que lidera a votação neste momento não foi primeiro lugar em nenhuma das 26 publicações listadas pela Metacritic… mas muita coisa pode mudar…

dezembro 30, 2007   Encha o copo

Sonhar é permitido, viver é permitido

O processo que eu havia iniciado em 2006 persistiu por todo o 2007: meu amadurecimento. Ou, como escreveu o amigo Takeda um dia, o descongelamento. Passamos anos de nossas vidas congelados em um tempo que se foi, mas que não queremos deixar partir. Recusamos o amadurecimento em pró da eterna adolescência. Mas, quer queiramos ou não, a maturidade bate a nossa porta. E quando percebemos estamos descongelando. Dois mil e sete foi um dos anos mais importantes da minha história pessoal. E também da nossa história social, Brasil, saca. Como diria Marlon Brando, muitas coisas que pareciam ser relevantes, hoje não são mais. Posso creditar meu principio de descongelamento ao fato de ter expandido minhas fronteiras: posso dizer que cheguei perto da fronteira do Chile com a Bolívia e, quer saber, é uma experiência e tanto.

Posso creditar também ao fato de que, desde julho, sou um homem casado. Quase casado, ok. Dividir a vida com uma pessoa é algo extraordinariamente revigorante. E por mais que você se julgue mestre em relacionamentos, acredite, há um mundo de diferenças entre namorar uma pessoa e viver com ela. A gente aprende tropeçando, não tem jeito. E talvez essa seja a graça de tudo, e esse é um dos segredos para se manter uma história de amor: humor. Rir nos momentos bons… e nos ruins também.

Conceitualmente, porém, o que mais mexeu com meus pensamentos em 2007 foram dois fatos isolados acontecidos no meu poderoso inferno astral: o assalto em Buenos Aires e o atropelamento na rua da Consolação, dois minutos da porta de casa. É clichê pra caralho, mas não tem jeito: sentir a morte caminhando por perto mexe com a gente. E o atropelamento nem foi algo assim, violento. Mas depois que recebi o impacto, senti a escuridão, e abri os olhos sentindo um gosto de sangue nos lábios e a mão toda arrebentada, impossível não pensar no que poderia ter sido.

Passei algumas semanas pensando nisso, e o estranho é que, entre o mil anos a dez ou o dez anos a mil, sou partidário do mil anos a mil. Eu nunca quis pouca coisa, mas assim que o pessoal do Resgate me imobilizou e me transferiu para a ambulância, eu só conseguia pensar na quantidade de coisas que ainda não tinha feito, que seria uma grande bobagem divina alguém me aprontar uma peça. Era impossível não caraminholar isso: um dos meus grandes amigos sofreu um acidente de carro, foi transferido para o hospital, acordou no outro dia e falou com a família, tudo ótimo, mas quando foram transferi-lo da cama para uma maca, uma hemorragia interna o levou. Ele tinha 21 anos. Eu também. Melhor não arriscar.

O assalto me balançou de outra forma. Deu tudo errado naquele dia. Pior: os sinais eram evidentes, mas mesmo assim demos bobeira. Lili queria conhecer La Boca. Seus livros de arquitetura rendiam elogios ao lugar, porém, La Boca é um dos bairros mais pobres de Buenos Aires. Não dava pra marcar bobeira. A sucessão de erros começou no hotel: inseguro em relação ao dinheiro (R$ 4 mil no total), coloquei R$ 2 mil num bolso inferior perto do joelho esquerdo e outros R$ 2 mil foram guardados numa bolsinha por dentro da calça. Como tínhamos uma encomenda (uma camisa do Boca para o sogro), decidi levar R$ 200 em reais mesmo, para aproveitar a valorização da moeda. E mais 100 pesos para comprar outras coisas, almoçar e tal. Ou seja, eu estava portando aproximadamente R$ 4.500, e não se leva uma quantia dessas em um bairro barra pesada, ok.

Além do dinheiro (que era tudo que tínhamos para seguir viagem – Buenos Aires era o começo), eu levava uma Canon S215 (deve estar uns R$ 1500 por ai) na mochila, além de frutas e nosso guia de viagens, que tinha servido de base para todo o planejamento da viagem. Minha idéia era pegar um ônibus na avenida 09 de Julio (havíamos visto vários no dia anterior) e seguir até La Boca. Encostei numa banca de flores e perguntei para um garoto como chegar a La Boca. Ele respondeu?

– La Boca? Não vá a La Boca.

Eu ri, e insisti, mas ele continuou com o mesmo discurso, repetindo mais duas vezes:

– Não vá a La Boca.

Deixamos o menino e seguimos uma quadra. A idéia do ônibus já não parecia tão boa, então paramos um táxi. Assim que disse ao motorista que queríamos ir para La Boca, ele praguejou algo e nos deixou estatelados na calçada. O táxi seguinte, porém, parou e nos recebeu, mas o motorista não abriu a boca um segundo sequer nos 15 minutos de trajeto. Ele nos deixou logo na entrada do bairro pelo lado do porto, e a primeira coisa que me chamou a atenção foi uma pixação em um conjunto velho de prédios: “Nos precisamos de água quente”. Poucos dias depois que partimos para Santiago, nevou em Buenos Aires. E moradores de La Boca não tinham água quente…

Fizemos o trajeto turístico, com vários seguranças contratados pelos comerciantes locais, e saímos por uma rua em direção ao estádio de La Bombonera, do Boca Juniors, casa que viu Diego Maradona nascer para o mundo. Eu não havia conseguido entrar no estádio nas duas vezes anteriores que eu o tinha visitado, mas desta vez demos sorte, e passeamos pela arquibancada, tiramos fotos, nos divertimos. Coloquei a máquina digital (que é de média pra grande) no bolso da jaqueta e partimos em busca do almoço.

O guia que levávamos falava muito bem de um restaurante italiano em La Boca, e depois de alguns dias devorando bifes de chouriço, experimentar uma boa massa nos pareceu uma grande oportunidade. Nosso erro, porém, foi nos desligarmos completamente do lugar em que estávamos. Olhávamos os prédios, as casas, eu questionava coisas sobre arquitetura, Lili me explicava, até que chegamos a uma grande igreja (duas quadras fora do centro turístico) e bateu um frio na barriga sem motivo. O motivo, na verdade, se revelou na esquina seguinte.

Assim que entramos na rua do restaurante, a Nepuchea, cinco caras nos cercaram. Um deles tirou Lili de lado, e depois de fuçar nos bolsos de sua jaqueta, e ela dizer que não tinha nada, apenas pediu para que ela ficasse em silêncio. Os outros quatro partiram para cima de mim, me jogando ao chão e tentando me atacar como urubus em busca de carne fresca. Não se deve, nunca, reagir a um assalto, mas tem coisas que são mais fortes que a razão. Colei minha perna esquerda no asfalto (no bolso próximo ao joelho havia R$ 2 mil) oferecendo o bolso da direita, que trazia apenas um caderno de anotações. Com uma mão eu segurava a máquina digital, e com a outra tentava atrapalhar o máximo possível a ação dos quatro rapazes. Passava um pouco do meio-dia.

A grande maioria dos assaltos não dura mais do que um minuto ( e existe uma grande porção que dura segundos, e você só descobre que foi assaltado horas depois), mas este deve ter batido os 120 segundos. Quando, finalmente, eles conseguiram retirar minha carteira (e ver os 100 pesos lá dentro) e minha mochila, saíram correndo deixando eu e Lili para trás. A primeira coisa que me veio à cabeça: documentos. Me levantei na hora e sai correndo atrás deles gritando “documentos, documentos”. O rapaz que estava correndo com a carteira a abriu e foi jogando RGs (meu e de Lili), vistos de entrada no país, cartões de crédito e de débito e outros. Resgatamos tudo e fomos acolhidos por uma família dona de um restaurante. Eles chamaram a polícia (que não veio), nos deram alguns pesos para a passagem do ônibus, e nos acompanharam até o ponto.

Tenho certeza que, assim que sai do restaurante, um dos assaltantes me aguardava na porta. Minha intenção era chutar-lhe o saco com toda força e arremessa-lo no meio da rua, mas seria uma grande idiotice. Eu estava com a máquina (que eles devem ter sentido falta na mochila, já que só a capa dela estava lá) e com R$ 4 mil. Não dava para cometer mais um erro. O dono do estabelecimento bateu boca com o cara, o clima ameaçou esquentar, mas fomos levados em segurança até o ponto de ônibus. O senhor se desculpava pelo acontecido como se ele tivesse culpa, e dizia que atrás do porto havia uma grande favela. Lili passou boa parte da viagem acordando assustada, e minha função – além de protege-la – era dar-lhe segurança e calma. Após alguns dias as coisas voltaram ao normal.

Apesar de toda violência (que, na verdade, me rendeu apenas um roxo no lado esquerdo do rosto, que sumiu no dia seguinte), não foi o fato em si que mexeu comigo, mas os pensamentos que dele decorreram. Primeiramente, não tiro a razão daqueles caras. Eu e Lili éramos dois turistas “esbanjando” enquanto eles estavam ali passando fome. É algo como aquela piada que diz “que a sociedade me deve a sua carteira, saco, mano”. Não estou querendo dizer, de forma alguma, que aprovo. Não, não aprovo. Eu sei o quanto Lili e eu ralamos para juntar aquele dinheiro, o quanto planejamos aquela viagem, mas se os assaltantes fossem se preocupar com isso, não teríamos crimes no mundo, não é mesmo. Na verdade, acho que os motivos são mais importantes que o fato.

Caraminholando incessantemente sobre tudo isso, e caminhando os meses seguintes pelas ruas cheias de pobreza de São Paulo, cheguei a conclusão (óbvia) de que se queremos um mundo melhor, precisamos dar o exemplo. Não ria. Eu sei que é piegas, mas numa entrevista que concedi ao amigo Carlos William, da revista Bula, ano passado, respondi assim a seguinte pergunta:

“E o PT?”
“Um sonho que nos apresentou a realidade: não existem sonhos!”

Não quero descambar para o partidarismo (na verdade, quero ficar cada vez mais longe deles), pois sempre votei em pessoas, não em partidos. O que estou querendo dizer é que se já sabemos que não podemos confiar em ninguém, que não existem sonhos quando o assunto é política, dinheiro e poder, então está na hora de fazermos as coisas nós mesmos. E, mais do que nunca, deixarmos o social de lado e agirmos no pessoal. Sim, mudarmos as coisas ao nosso redor primeiro. Sempre fomos acomodados demais, mas precisamos mostrar que se as coisas podem dar certo, elas tem que começar a dar certo dentro da nossa própria casa, do nosso próprio ambiente de trabalho, da nossa família, do nosso bairro. Sempre acreditei que fazer o bem é a melhor coisa que uma pessoa pode fazer para mudar o mundo, e apesar de parecer a coisa mais piegas do mundo, é no que eu acredito realmente.

Não estou fazendo, de forma alguma, uma apologia da cegueira do tipo “feche os olhos para as coisas feias do mundo, para as pessoas que te xingam no sinal de transito, para aqueles que roubam o seu dinheiro, para os políticos que fazem da nossa capital federal um grande e nada engraçado circo”. Precisamos acreditar na Justiça, evitarmos a tolice (pois, como escreveu Blake, “se os outros não forem tolos, nós teremos que ser”) e buscarmos um mundo melhor. Quero chegar aos 100 anos, como Niemeyer, de preferência em um mundo muito melhor do que este que vivemos agora. Por mais que as grandes empresas nos queiram longe das decisões importantes (já leu o poderoso “Sem Logo – A Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido”, de Naomi Klein?), a força está em cada um de nós. E nós podemos construir um mundo melhor a partir da nossa história pessoal, das coisas que vivemos, das pessoas que conversamos, das idéias que trocamos, da camiseta que vestimos. Tenho pensado muito nisso. E acho que essa é uma boa maneira de começar 2008: acreditando em um mundo melhor, apesar de assaltos, atropelamentos e partidos políticos. Apesar de tudo.

Feliz ano novo para todos nós. E força sempre.

Ps. Não esqueça: sonhar é permitido, viver é permitido. Sonhe. Viva.

Feliz 2008.

dezembro 22, 2007   Encha o copo