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Dois festivais em julho na Europa

fevereiro 23, 2008   Encha o copo

Talharim Alla Amatriciana

E lá se foram meus três dias de folga. É incrível como o tempo escorre pelos dedos. Das coisas que eu queria fazer, até que fui bem. Não terminei de ler o livro do Camus, mas o Meursault já matou o árabe e está neste momento recebendo a visita de Marie. Nos CDs, Jens Lekman voltou a ocupar o windows media player, desta vez com o belíssimo “When I Said I Wanted To Be Your Dog”. E nos filmes, vi “Letra e Música” ontem (comédia romântica menor, mas com boas piadas sobre os terríveis anos 80) e pretendo assistir a “Todos Os Homens do Presidente” daqui a pouco.

O lance do passaporte está em stand by. Fui até a sede da Polícia Federal, lá na Lapa, hoje de manhã, mas não teve jeito. “O senhor tem que agendar um horário pela internet”. Agendei para o final de março. Se soubesse, não tinha desembolsado os R$ 156 da taxa agora. Mas ao menos está encaminhado. Não levei o monitor para a assistência técnica (ficou pro sábado), mas instalei as luminárias, que ficaram legais, algo que satifez Lili imensamente (apesar de eu achar que a casa ficou muito mais escura agora).

Além de escrever sobre os shows do fim de semana, publiquei um texto do Leo Vinhas sobre o festival portenho Cosquin Rock, o que deu uma boa atualizada na capa do Scream & Yell. A idéia era escrever mais, mas fiquei impossibilitado. Queimei dois dedos da mão direita fazendo caldo verde pra Lili na segunda. E na terça tirei um bifinho do dedo indicador da mão esquerda. Ou seja, nada de teclar muito, o que até ajudou a me manter afastado do computador e da web.

Por fim, eu tinha prometido tentar aprender uma receita nova, né. Sem chance. O dia se foi, a fome veio, Lili tinha curso e apostei no certo ao invés de experimentar. Fui de Talharim Alla Amatriciana, uma das minhas três ou quatro especialidades (vamos contar: tournedos com ervas, risoto de bacon, talharim a amatriciana e caldo verde, que eu já dei a receita) na cozinha.

Uma das vantagens do talharim é que é bem rápido para se fazer. Se você não for como o cumpadi Inagaki que é fã do miojo cru, vale a pena esperar. Aliás, cumpadi, se você experimentar a massa semi pronta de talharim da Mezzani, irá viciar. Eu mesmo devoro várias tiras cruas. Bem, voltando a receita, o que você vê lá em cima no abre do post é uma improvisação: a receita que sigo (do meu companheiro “Guia Para Sobrevivência do Homem na Cozinha“) é para quatro pessoas, e os que está disposto sobre o fogão na foto é uma adaptação para uma pessoa. Mas tudo que precisamos está lá: o bacon, a panela com água, os tomates pelados, o macarrão, a cebola picada e a pimenta inteira.

O lance todo é bem simples. Você frita o bacon no azeite em uma panela. Assim que estiver quase torradinho, você acrescenta a cebola picada e a pimenta, e deixa cozinhar por cinco minutos em fogo brando. Depois, retire e jogue a pimenta fora, acrescente os tomates nus devidamente amassados, misture bem, coloque sal (eu acrescento pimenta do reino e manjericão, sempre) e cozinhe por aproximadamente 30 minutos. À parte, cozinhe a massa al dente e escorra. Depois é só juntar a massa na panela do molho e servir. Fica bom, viu.

A receita é isso:

– 500 gramas de tomates bem maduros picados ou duas latas de tomates pelados;
– 100 gramas de bacon magro
– 1 colher de sobremesa de azeite
– 1 cebola
– 1 pimenta vermelha inteira
– 500 gramas de talharim

Abaixo, o talharim alla matriciana está acompanhado de uma saladinha básica (alface e azeitonas), queijo ralado, azeite, sal e um copo de Guiness (presente do amigo Fábio) atolado de coca-coca light. Servido (a)?

fevereiro 20, 2008   Encha o copo

Jards Macalé e Jorge Mautner em SP

A idéia de juntar os dois compositores mais malditos da música popular brasileira sobre um mesmo palco era bastante interessante. Em plena atividade, Jorge Mautner (acompanhado de seu inseparável parceiro Nelson Jacobina) lançou um álbum de inéditas em 2007 (”Revirão”) e alguns de seus grandes momentos no show vieram do novo disco. Jards Macalé, que fez vários shows em São Paulo no ano passado (incluindo uma antológica apresentação na Virada Cultutal), lançou “Real Grandeza” em 2005 e segue em sua luta solitária pela inclusão da palavra amor no lema da bandeira brasileira.

Maldito que é maldito não facilita. Por mais que a proximidade teórica das alcunhas seja visível de Marte, por mais que os dois já tenham dividido o mesmo palco várias vezes no decorrer dos últimos 60 anos (Mautner está com 67, Macalé com 64), por mais que eles tenham composto juntos algumas canções, havia uma grande distância entre Mautner e Macalé no palco. A falta de ensaio e entrosamento era visível, mas cada qual seguia sua persona a risca, e no fim o que se prevaleceu nas duas noites em que a dupla se apresentou no palco do teatro do Sesc Vila Mariana foram os shows individuais.

Logo na abertura da noite, a dupla se juntou (acompanhada de Jacobina) para interpretar a bela “Puntos Cardinales” (parceria dos dois datada de 1973). Juntos eles ainda tocaram “Vapor Barato” e a versão censurada de “Planeta dos Macacos” (outra parceria de ambos) no meio do show, e uma dobradinha de Noel Rosa – “Palpite Infeliz” e “Com Que Roupa” – no encerramento. No entanto, em nenhuma das cinco canções em que se apresentaram juntos, o trio brilhou como em vários momentos da apresentação solo de cada um.

Sozinho no palco, Macalé abriu seu show com “Contrastes”, samba delicioso de Ismael Silva (dos versos: “Existe muita tristeza na rua da alegria / Existe muita desordem na rua da harmonia / Analisando essa história, cada vez mais me embaraço / Quanto mais longe do circo, mais eu encontro palhaço”) que Jards gravou em 1977 e que, desde então, é presença obrigatória em seu repertório. Na seqüência, resgatou um samba de Sebastião Fonseca e Cícero Nunes, “Cidade Lagoa”, relembrando uma semelhança entre São Paulo e Rio de Janeiro: basta uma chuvinha qualquer para que a cidade vire um caos.

“Anjo Exterminado”, “Revendo Amigos” (que Macalé pulou no set list no domingo por causa da gripe) e “Falam de Mim” (outra de Noel Rosa) ganharam versões poderosas ao vivo, com Macalé juntando samba e blues nos arranjos. O grande momento foi a versão arrepiante para “Consolação”, de Baden e Vinicius. No sábado, Macalé estava tão desconcentrado devido à gripe que precisou de uma colinha do público para finalizar “Positivismo” (mais um Noel Rosa). No domingo compensou com uma apresentação vigorosa e inspirada, e por mais que soe clichê é preciso dizer: faltaram muitas canções.

Jorge Mautner, por sua vez, fez duas apresentações rigorosamente iguais. O grosso do repertório veio do recém-lançado “Revirão”, produzido por Berna e Kassin e que contou com a participação de vários integrantes da Orquestra Imperial. Ao vivo, porém, Mautner se apresenta apenas com seu violino e seu fiel escudeiro Jacobina na guitarra. Das novas, destaque para as ótimas “Os Pais” (parceria com Gil que discute liberdade e repressão de forma divertida) e “O Executivo Executor” (não menos hilária). Já “Nicanor” – outra das novas – foi o “momento bocejo” da noite.

Do álbum em parceria com Caetano Veloso também vieram três canções para o show: a gostosa valsa rancheira “Todo Errado”, o impagável samba “O Homem Bomba” (do hilário verso: “Lá vem o homem bomba / Que não tem medo algum / Porque daqui a pouco / Vai virar egun”) e a excelente faixa discursiva “Morre-se Assim” (numa versão milhares de quilômetros à frente do original de estúdio).

Ainda marcaram presença os sucessos “Vampiro” (gravada por Caetano) e “Maracatu Atômico” (pela Nação Zumbi), mas a grande ausência foi ”Samba dos Animais”, que constava do set list, mas não foi apresentada, evidenciando um dos problemas do encontro: tanto Mautner quanto Macalé fizeram meio show por noite, o que limitou o número de canções. Apesar da qualidade das apresentações, meio show de Macalé e meio de show de Mautner é muito pouco para o público, mas maldito que é maldito também é malandro.

fevereiro 20, 2008   Encha o copo

Noite Fora do Eixo no CCSP

Do Acre para São Paulo, o quarteto Los Porongas assumiu a responsabilidade de abrir mais uma Noite Fora do Eixo na capital paulista, desta vez no charmoso palco da sala Adoniran Barbosa, no Centro Cultural São Paulo, em um sábado queeeente de sol. Responsáveis por um dos grandes álbuns de 2007 (o homônimo “Los Porongas”, lançado pelo selo Senhor F), os acreanos fizeram uma apresentação irrepreensível e com vários pontos altos.

Primeiro ponto a favor: a banda tem punch ao vivo e os quatro integrantes são afiados. O vocalista Diogo Soares (ex-apresentador da TV Aldeia) canta de forma clara e precisa. Na guitarra, João Eduardo deixa escorrer uma paixão pelos guitar heros dos anos setenta. Enquanto Diogo e João Eduardo nem passaram da idade fantasmagórica do rock (os temidos 27 anos), a cozinha da banda é experiente: Márcio Magrão (36) e Jorge Anzol (38) mostram segurança e personalidade.

Desde a primeira vez que ouvi o álbum, a primeira coisa que me vêem a mente são os Secos & Molhados. É uma primeira impressão que não me abandonou no show, mas ganhou outras referências: há no som dos Porongas um choque saudável entre a velha MPB (com pequenas pitadas de Los Hermanos), o brock dos anos 80, sons regionais e o rock de guitarras que em alguns momentos fisga o britpop, mas tem casa nos anos setenta. É um som que funciona bem em disco, e cresce muito ao vivo.

Boas faixas como “Nada Além”, “Enquanto Uns Dormem” e “Espelho de Narciso” soam ainda melhores no palco, e já recomendam o DVD que o grupo gravou no Itaú Cultural (SP) no ano passado, e que deve ganhar às lojas ainda no primeiro semestre. O disco, por sinal, está todo liberado para download no Senhor F e no site oficial dos acreanos. Baixe e, caso apareça uma oportunidade, não perca um show desses caras.

Antes do Terminal Guadalupe entrar no palco, os cuiabanos do Macaco Bong pegaram os instrumentos para tocar apenas uma música, inédita, do álbum “Artista Igual Pedreiro”, que está prestes a ser lançado. O trio é competente e, como observou o amigo Carlos Freitas, se eles não tivessem adiantado que era apenas uma música, seria fácil vender a apresentação da banda como um show completo (uma música com várias passagens instrumentais).

Em seu primeiro show na capital paulista em 2008, o Terminal Guadalupe (um dos grandes destaques da votação de Melhores do Ano do Scream & Yell) deixou de lado os uniformes de cobradores de ônibus e fez um show mais calmo e cadenciado do que as apresentações anteriores na cidade (no CB, na Funhouse e no Inferno). No entanto, o som – que nos “dois shows” anteriores estava excelente – sacrificou as guitarras, e quase colocou a noite a perder.

No palco, a banda apresentou canções antigas (”Burocracia Romântica”, “Lorena Foi Embora”), hits independentes (”Esquimó Por Acidente”, “Pernambuco Chorou”, “De Turim a Acapulco”), canções do elogiado álbum “A Marcha dos Invisíveis” (”Atalho Clichê”, “El Puelbo No Se Va”) e “Megafone de Bagdá”, faixa do EP “Delação Premiada” (2005) que pode ser um dos destaques do novo álbum (em pré-produção). A falta das guitarras prejudicou a apresentação, no entanto, quem ainda não havia visto o TG ao vivo aprovou o show.

Quase ao final da apresentação, no meio de “A Marcha dos Invisíveis” (a música), o guitarrista Allan Yokohama esfacelou sua Gibson Les Paul preta no chão da sala Adoniran Barbosa. Ainda durante a música, Allan assumiu o violão, e muitos temeram pela vida do pobre instrumento. Allan já havia estraçalhado uma Fender Stratocaster em janeiro, mas o violão saiu ileso. Sinceramente, guitarras que não se fazem ouvir deveriam todas ter o mesmo destino. O gesto, porém, serviu para amplificar a ausência do instrumento e os problemas do som. O show foi bom, mas o Terminal Guadalupe pode bem mais.

fevereiro 19, 2008   Encha o copo

Três dias em casa

Como o banco de horas no trabalho já estava batendo nas 2oo horas extras, “ganhei” três dias em casa nesta semana para tentar organizar o caos. Mas o caos aqui é maior do que eu pensava e o primeiro dia acaba de escorrer pelos dedos. Muita coisa pra fazer:

– terminar de ler o livro do Camus
– retirar o passaporte
– instalar quatro luminárias
– levar o monitor LCD de um dos computadores para a garantia
– ver alguns filmes (ao menos dois)
– ouvir alguns CDs
– aprender um prato (fácil e) novo

Não sei se vou conseguir…

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E-mail do Senhor F avisa e recomenda: Revista francesa lança coletânea com novo rock independente do Brasil

Olha o tracking list:

1. Los Porongas – Ao Cruzeiro (Senhor F Discos)
2. China – Jardim de inverno (Candeeiro)
3. Superguidis – Mais do que isso (Senhor F Discos)
4. Vanguart – Semáforo (Outra Coisa)
5. Ludov – Ciência (Mondo 77)
6. Beto Só – Meu Velho Escort (Senhor F Discos)
7. Violins – Manicômio (Monstro Discos)
8. Hurtmold – Sabo (Submarine Records)
9. O Quarto das Cinzas – Incontrolável (Independente)
10. Charme Chulo – Mazzaropi Incriminado (Volume 1)
11. Cravo Carbono – Café BR (Ná Records)
12. Móveis Coloniais de Acaju – Sem Palavras (Independente)
13. Pata de Elefante – Hey! (Monstro Discos)
14. Autoramas – Hotel Cervantes (Mondo 77)
15. Volver – Pra Deus Implorar (Senhor F Discos)
16. Lucy and The Popsonics – Chick Chick Boom (Monstro Discos)
17. Supercordas – 3.000 Folhas (Trombador)
18. Macaco Bong – Fuck You Lady (Fora do Eixo Discos/Monstro Discos)

Bônus:
19. Pio Lobato – Tecno da Saudade (Ná Records)

BAIXE AQUI

fevereiro 18, 2008   Encha o copo

Música: “Greatest Hits”, Morrissey

Entre coletâneas de A sides (sucessos), B sides (raridades) e álbuns ao vivo, Morrissey soma sete discos (este “Greatest Hits” incluso) em uma discografia solo que totaliza apenas oito álbuns. Isto posto, não deixa de soar picaretagem do velho bardo dos Smiths impingir ao fã mais uma seleção de seus maiores sucessos, mesmo que o grosso do repertório seja retirado de seus últimos dois álbuns (que serviram para apresenta-lo a um público maior do que aquele que Morrissey vivenciou quando cantava ao lado de Johnny Marr) e lembrando que tanto “Everyday Is Like Sunday” quanto “Suedehead” já apareceram em uma coletânea do velho Mozz três vezes cada uma!!!

A imprensa gringa alerta que o cantor estava sem dinheiro para gravar o novo disco, e por isso decidiu lançar mais uma coletânea de sucessos, o que soa ainda mais picareta. “You Are The Quarry” (2004) e “Ringleader Of The Tormentors” (2006) venderam juntos aproximadamente 2 milhões de exemplares, e mesmo que Morrissey tivesse gastado sua fortuna comprando edições raras de livros de Oscar Wilde, alguns trocados iriam sobrar para enfurnar sua banda em um estúdio qualquer e lançar mais um grande álbum de inéditas. E olha que estou deixando de lado os shows “sold out” que o bardo vem amontoando pelo caminho. Dinheiro não deve ser problema para Stephen Patrick Morrissey, vamos combinar.

No entanto, apesar da picaretagem, o homem sabe muito bem como satisfazer seu público, e isso é inegável. As artimanhas de “Greatest Hits” são poderosas. Ao tracking list de 15 canções (quatro de “You Are The Quarry”, quatro de “Ringleader Of The Tormentors”, mais “Redondo Beach” – cover de Patti Smith retirada do ao vivo “Live At Ears Court” – e as inevitáveis “Everyday Is Like Sunday”, “Suedehead” e “The More You Ignore Me, The Closer I Get”), Morrissey apresenta duas poderosas canções inéditas, e inclui em uma versão luxuosa do álbum um CD bônus com oito canções gravadas ao vivo no Hollywood Bowl, em Los Angeles, em agosto de 2007. Mais: nas três diferentes versões do novo single “That’s How People Grow Up” surgem mais faixas ao vivo (entre elas, “The Boy With The Thorn In His Side” ao vivo em Omaha).

As faixas ao vivo são aquilo de sempre: uma banda afiada, grandes canções e o vocal de Morrissey cantando como se estivesse distribuindo filetes de seu coração partido para um público apaixonado. “The Last Of The Famous International Playboys” (que abre o CD bônus da coletânea) aparece em uma versão arrasadora. “The National From Disco” surge inferior à demolidora versão do álbum “Beethoven Was Deaf”. Antes de uma linda versão de “Let Me Kiss You” ele agradece – humildemente – ao público que superlotou os mais de 17 mil lugares do lendário Hollywood Bowl para vê-lo após 15 anos sem pisar naquele palco. O CD bônus ainda traz versões acachapantes de “I Will See You in Far Off Places”, “Life is a Pigsty” (duas das melhores canções de “Ringleader Of The Tormentors”) “Irish Blood, English Heart” e “First of the Gang to Die”.

A cereja no bolo, porém, são as duas faixas inéditas. “All You Need Is Me” é rápida e suja, com um baixo carregado de distorção disputando a atenção com a voz de Morrissey. Na letra, o bardo desfila uma relação de amor e ódio cujo verso final resume tudo: “Você não gosta de mim, mas você me ama / De qualquer forma você está enganado / Você vai sentir saudades quando eu tiver ido embora”. Morrissey é especialista em retratar o amor doentio. “Você revira os olhos para o céu / Zomba horrorizado, Mas continua aqui / Tudo o que você precisa sou eu // Há tanta destruição por todo o mundo / E tudo o que você consegue fazer é / Reclamar de mim // Você bate a cabeça contra a parede / E diz estar farto de tudo / E ainda assim, permanece / Tudo o que você precisa sou eu”. Cruel como só Morrissey consegue ser.

Comparada com o vasto acervo de canções arrebatadoras de Morrissey, “All You Need Is Me” é bem mediana, e fica ainda mais apagada se comparada ao poderoso single “That’s How People Grow Up”. Um vocal feminino fantasmagórico abre a canção. As guitarras são sujas e o baixo acompanha. Quando a voz de Morrissey entra, ela mastiga as palavras com delicadeza e estica o “loooove” no final das frases com muito charme. O refrão é pop e grandioso com um teclado fazendo a cama para que a melodia vocal deite-se e sorria enquanto espeta: “É assim que as pessoas crescem, yeah, é assim que as pessoas crescem”. Só por essa música, “Greatest Hits” (apesar da picaretagem) merece uma segunda chance, um olhar menos punitivo. Morrissey deve estar rindo enquanto bebe mais uma cerveja direto da lata. Ele conseguiu, mais uma vez, dobrar o coração de seus fãs, colocá-lo no bolso como um lenço de papel e deixar ali para quando tiver necessidade de enxugar o suor do rosto. Poucos conseguem fazer isso tão bem. Poucos;

A letra de “That’s How People Grow Up”, uma das melhores de Morrissey nos últimos anos, você pode ler abaixo. A edição especial de “Greatest Hits” não tem previsão de lançamento no Brasil.

“É Assim Que As Pessoas Crescem”

Eu estava desperdiçando meu tempo
Tentando me apaixonar
A decepção veio até mim e me chutou
Me encheu de hematomas e me feriu

Mas é assim que as pessoas crescem
É assim que as pessoas crescem

Eu estava desperdiçando meu tempo
Procurando por amor
Alguém deve olhar para mim
E ver que há alguém dos seus sonhos

Eu estava desperdiçando meu tempo
Esperando por amor
Pelo amor que nunca vem
De alguém que não existe

É assim que as pessoas crescem
É assim que as pessoas crescem

Me deixe viver antes que eu morra
Oh, eu não, a mim não

Eu estava desperdiçando minha vida
Pensando o tempo todo sobre mim mesmo
Alguém em seu leito de morte disse:
“Existem outros infortúnios também”

Eu estava dirigindo meu carro
Eu bati e quebrei minha coluna
Então, sim, há coisas piores na vida
Do que nunca ser o querido de alguém

É assim que as pessoas crescem
É assim que as pessoas crescem

Quanto a mim, tudo bem
Por enquanto, de qualquer maneira

fevereiro 18, 2008   Encha o copo

Escócia, lá vamos nós

Sabe o “Dark Side of Moon”? Então, ele ganhou uma versão em ritmo de carimbó. Isso mesmo. O projeto, idealizado por Luiz Félix, da banda paraense La Pupunã, pode ser conferido no álbum “Charque Side of Moon”, disponível para download gratuito no El Cabong. A boa dica é do chapa Adriano Mello e vale a conferida. Enquanto o download do disco vai sendo feito, dá uma passada nos comentários da página… Aqui.

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Com base na lista de Melhores do Ano do Scream & Yell, o ótimo Música Social compilou para download em um post os dez álbuns de 2007. Se faltou você ouvir algum dos dez grandes álbuns do ano passado, segundo o S&Y, divirta-se aqui.

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Em janeiro do ano passado o Scream publicava uma longa entrevista que o camarada Leo Vinhas havia feito com Mario Bortolotto, e um dos assuntos em pauta foi a adaptação para o cinema de “Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet”, dirigida por Reinaldo Pinheiro, com o título “Minha Vida Não Cabe Num Opala”. Bem, o filme acaba de estrear no Festival de Berlim, e a trilha bacana reúne várias bandas curitibanas queridas por este jornalista, incluindo OAEOZ, que já teve single lançado por este site. A Dri Perin fez um texto para o Jornal do Estado (PR). Confere aqui.

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Comprei nesta manhã meus tickets para assistir a duas noites do T In The Park, na Escócia, nos dias 12 e 13 de julho. No line-up, R.E.M., Raconteurs, Primal Scream, Kaiser Chiefs e mais alguns outros. Agora estou na fissura de comprar os convites do Benicassim, na Espanha, que acontece exatamente na semana seguinte, e tem… My Bloody Valentine e Spiritualized… mas preciso organizar a agenda, planejar a viagem, consultar o saldo já em vermelho da conta bancária, e encontrar a melhor maneira de aproveitar um mês inteiro no Velho Mundo. Europa, lá vamos nós.

fevereiro 16, 2008   Encha o copo

Cinema: “Sangue Negro”

“Sangue Negro”, de Paul Thomas Anderson – Cotação 5/5

Quando você estiver preparando-se para adentrar a sala de cinema para assistir a “Sangue Negro”, quinto longa do cineasta Paul Thomas Anderson, faça uma limpeza em sua memória e esqueça todo e qualquer filme que você tenha visto nos últimos meses. Na verdade, o ideal é que você entre na sala encarando “Sangue Negro” como o primeiro filme de sua vida, e todos os demais a partir de então soaram menores, incompletos, mero entretenimento para os olhos enquanto seus dentes mastigam pipoca aguardando o final provável em que o mocinho se dá bem.

Peço esse exame de consciência, pois acredito que poucos dos leitores que visitam este espaço puderam assistir a filmes clássicos dentro de uma sala de cinema. Uma coisa é você ver “Laranja Mecânica” na sala de sua casa, e mesmo que você tenha um senhor home theater, nunca conseguirá chegar perto – um milésimo que seja – da experiência que foi, para o público, ter assistido ao filme em uma sala escura, na época de seu lançamento. Outros filmes clássicos concorrem a tal avaliação, mas quantos filmes definitivos tivemos nos últimos 20 anos?

Arrisco-me a citar um: “Magnólia”. Outro: “Sangue Negro”. Oito anos separam o primeiro do segundo, e o que aconteceu com o mundo neste tempo? Muita coisa, mas vou citar apenas três, as três relacionadas aos Estados Unidos da América: houve um violento atentado ás Torres Gêmeas, mais uma guerra manchando de sangue as páginas de História e uma reeleição forjada. Três fatos correlacionados que permitem imaginar que, mesmo sendo muito otimista, o mundo não melhorou absolutamente nada nestes oito anos. Pode-se até dizer o contrário.

“Magnólia” era uma obra que exaltava o perdão, mas o perdão só surgia na tela após o espectador estar fustigado até a alma pela culpa dos personagens que observava. Isso era oito anos atrás. Agora, não há perdão. Não há perdão em “Sangue Negro”. Nem uma chuva de sapos poderia salvar o personagem Daniel Plainview, porém, a grande “piada” proposta por Upton Sinclair – autor do livro “Oil” (que serve de base para o roteiro) – e comprada por Paul Thomas Anderson é: Daniel Plainview não precisa do perdão. A parcela católica do mundo afundada no exercício da culpa nunca irá conseguir entender isso, mas não tem jeito, nem todo mundo precisa do perdão divino.

Daniel Plainview (Daniel Day Lewis excepcional) é um mineirador em busca de fortuna e poder. A seqüência inicial de “Sangue Negro” – de fotografia belíssima e praticamente nenhum som fora o da introdução gótica e épica que abre o filme de forma acachapante – exibe um homem de personalidade forte, que não se deixa abater por ninguém e por nenhuma adversidade. Ela procura por pedras preciosas e elas saem de cena quando o petróleo começa a brotar do solo pátrio. Plainview passa a ser um explorador voraz e um negociante impiedoso que oferece seus serviços como se estivesse oferecendo ajuda e faz tudo o que precisa ser feito para ter aquilo que queria em suas mãos.

Melhor frisar a última frase do parágrafo anterior: Plainview faz tudo o que precisa ser feito para ter aquilo que quer em suas mãos. Tudo. “Sangue Negro” foge do padrão pré-fabricado dos roteiros hollywoodianos: não há grandes reviravoltas na história, mas sim um crescendo mortífero que joga o espectador nos braços de Daniel Plainview, e ele só o solta na arrepiante, grandiosa, épica e sensacional cena final, não a toa, a grande cena de todo o filme. Até lá você terá que suportar e entender (se for possível) o que move nosso homem: o prazer pela competição, o ódio contra tudo e todos (todos!) e o desejo de isolamento total e completo.

Não há charme, nem sedução. Não há paz, nem perdão. Haverá petróleo. Haverá sangue. Negro e vermelho. Haverá dinheiro. Daniel Plainview personifica o predador e com ele – parodiando outra obra de arte no cinema em 2007 – os fracos não têm vez. Como pode se esperar de uma pessoa tão destrutiva, o grande foco de destruição é ele mesmo, e o trecho final reitera essa premissa. Tanto que após todo o desenlace da trama, a sensação de vazio é algo tão forte que poderia engolir o mundo. Duas vezes. Sem charme, nem sedução. Não há nenhuma atração em “Sangue Negro” além do inevitável prazer cinematográfico, porém, a dualidade insiste em questionar: porque sofremos tanto? Provavelmente – uma resposta vazia, como o filme – sofremos para aprender, mas tudo isso é ralo demais, escapa pelos dedos com oxigênio, como sangue e petróleo.

É impossível imaginar um próximo passo para Paul Thomas Anderson. “Sangue Negro” é um cinema tão perfeito em seus detalhes que suscita a clássica pergunta: o que fazer após atingir a perfeição? Essa resposta fica em segundo plano no momento já que “There Will Be Blood” (titulo original do filme) chega aos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira, e o agora é mais urgente que o futuro. Você tem alguns dias para limpar o cache de sua memória e dedicar-se completamente ao filme, à trilha estupenda do Radiohead Jonny Greenwood, à atuação espetacular de Daniel Day Lewis e ao ótimo Paul Dano (que interpreta um jovem pastor em uma nova Igreja). Sobretudo, você tem tempo para imaginar – antes de ver o filme – que “Sangue Negro” está em outro patamar de cinema, alguns degraus acima da média comum que preenche as salas de exibição: o das obras-primas. Isso talvez faça o filme descer mais fácil… mas não impede o gosto amargo nos lábios de nossa alma.

fevereiro 11, 2008   Encha o copo

Wado e o “Terceiro Mundo Festivo”

Meu primeiro contato com “Terceiro Mundo Festivo”, quarto álbum do cantor e compositor Wado, se deu no final de agosto de 2006. Ainda acompanhado pelo grupo Realismo Fantástico, Wado se apresentou ao vivo no Studio SP, em São Paulo, tocando algumas canções novas e, principalmente, entortando as velhas com alfinetas de eletrônica que marcavam seu retorno aos samplers e beats via mpc. Em um bate papo na época ele avisava: “‘Terceiro Mundo Festivo’ trata do uso da eletrônica pelo terceiro mundo, de como as adversidades formularam uns métodos e sonoridades específicas”.

Após um longo período de gestação, mudanças de capitais – Wado saiu de São Paulo, foi para o Rio, montou o Fino Coletivo com um galera estilosa, deixou o grupo após o lançamento do bom CD homônimo e voltou para Maceió, onde reside novamente – e experimentações sonoras, “Terceiro Mundo Festivo” finalmente chega em formato MP3 com download gratuito no site do artista. “O disco é independente e poderá ser downloadeado sem restrições. Fora isso prensei (uma tiragem) em SMD, mídia que tem o preço final pro consumidor a R$ 5?, contou em papo com Lucas Santtana, que lançou um álbum também livre para download.

O download livre é algo que Wado vem defendendo já faz um bom tempo. Seus três álbuns anteriores (”Manifesto da Arte Periférica”, “Cinema Auditivo” e “A Farsa do Samba Nublado”) já estão liberados faz mais de dois anos. “Terceiro Mundo Festivo” se junta à esta discografia particular acrescentando ainda mais flagrantes do modo totalmente peculiar do compositor enxergar a música composta longe demais das capitais, manifesto das periferias de um imenso Brasil sem nome, lenço e nem documento, mas que respira música que, antigamente, nascia de batidinhas em caixinhas de fósforo, e agora surge em estúdios caseiros, com microfones baratos e pouco conhecimento técnico, mas com muita urgência, energia e gana.

Para adentrar ao território deste “Terceiro Mundo Festivo” é preciso se desamarrar de expectativas. “A Farsa do Samba Nublado”, álbum anterior, arranhava a perfeição amparado em sambas tortos, violão encharcado de wah-wah e muita melancolia. Quase não há violões presentes em “Terceiro Mundo Festivo” (o instrumento está lá no fundo, distante, escondido na mixagem). A estética sonora que Wado começara a apresentar desde aquele no show no Studio SP, em agosto de 2006, e que foi se adaptando e fortalecendo durante um ano e meio, é centrada em uma nova formação de banda com baixo, bateria, programações e teclados, mais um cello aqui, uma flauta transversal ali, para dar um charme.

O disco abre com “Pendurado”, faixa que fala sobre liberdade, destino e morte: “Olha ali sou eu, pendurado no fio desencapado do poste de alta tensão”, canta Wado sobre uma base de bateria seca, vocalizações femininas (Cris Braun, Jan Aline e Mirian Abs) e clima ensolarado. A liberdade volta a ser citada no delicioso samba eletrônico “Fortalece Aí”, que se ampara em Martinho da Vila e Rui Monteiro enquanto o refrão pede de forma urgente: “Fortalece Aí, meu coração, daquela força, meu coração”. Um cello pontua o final da canção de forma comovente.

Duas canções já vinham se destacando nas apresentações ao vivo de Wado de dois anos pra cá: a pornográfica “Teta” e a politizada “Reforma Agrária do Ar”. A primeira – do irresistível refrão: “Está guardado pra você amor… aceite, aceite / Está guardado pra você amor… o leite” – permanece sinuosa e dançante, com um q de funk carioca. Já “Reforma Agrária do Ar”, que versa sobre a concessão das rádios públicas, abre com uma voz atolada em efeitos, recupera o vocoder, tem clima de reggaeton no refrão empolgante e crava: “Grita pra acontecer, urge de urgência, assim irá prevalecer a reforma agrária do ar / É contra o artista mudo / é contra o ouvinte surdo / é contra o latifúndio das ondas do rádio”.

O samba torto – com inflexões afoxé e reggaeton – ainda inspira o romantismo de “Leva” (diz o refrão: “Eu canto e peço a todo santo: me leva onde você espera”), da ótima “Recado” (que abre provocando: “Ela adora me fazer chorar / Que palavras eu devo usar? / Uma que encaixe em seu quadril”) e a empolgante “Faz Me Rir”, uma das canções do álbum que mais remetem a coisas que Wado já fez anteriormente (e que soa como um híbrido da urgência de “Manifesto da Arte Periférica” com pitadas da melancolia de “A Farsa do Samba Nublado”).

Duas canções saltam aos ouvidos e batem forte no lado esquerdo do peito. “Melhor” traz um violoncelo jogando confetes sobre um mantra eletrônico de baixo, bateria e teclado. Na letra, o personagem tenta formar um novo eu que agrade ao seu par. “Eu quis mudar pra você ver / Que nem sempre é tão difícil a gente perceber / Se estou melhor, quem vai saber? / Se o que eu fiz foi para agradar você”. O refrão é algo que gruda na primeira audição e vai te acompanhar por dias a fio: “Olha meu novo sapato / Estou de fato tentando me adequar / ao seu cabelo, ao seu modelo”. Uma pérola pop.

Já “Fita Bruta” é uma daquelas canções que já nascem clássicas. Versa sobre os mecanismos da indústria (como se fosse uma “Cadê Teu Suin?”, do Los Hermanos, vista por outro ângulo) e aprofunda a crítica – de forma genérica – ao próprio autor, que se censura na hora da criação. Não à toa, usa palavrões e explicita formas de sedução necessárias para se sobreviver no showbusiness: “Ficamos na fita bruta que algum filho da puta decupou / Não entramos na comédia e é preciso fazer média com o maldito diretor / (…) Não entramos na novela, nem precisa acender vela que o roteiro já fechou / Me disseram que é uma bosta, mas que todo mundo gosta do mocinho sofredor / E esta é a maior censura, essa que não tem cura, que nasce dentro do autor”.

Quem vem acompanhando a carreira deste catarinense (de nascimento, alagoano de coração) não irá ficar surpreso com a qualidade de “Terceiro Mundo Festivo”. O disco soa como uma continuação de “Manifesto da Arte Periférica” – sem negar olhares para “Cinema Auditivo” e “A Farsa do Samba Nublado”, este último, principalmente, nas letras – e abre muitas possibilidades para a música brasileira, desde sua sonoridade bem resolvida (o disco foi todo gravado em Maceió) até sua forma de distribuição gratuita. Neste momento de transição pelo qual a indústria da música está passando, Wado resume de forma perfeita a situação: “Perdemos os talheres e voltamos a comer com as mãos. Temos de nos educar, pois assim fica feio. Acho que todo trabalho deve ser remunerado, e acredito que aos poucos isso vai se restabelecer” (aspas do papo do compositor com Lucas Santtana).

“Terceiro Mundo Festivo” – assim como os três álbuns anteriores do compositor – está liberado para download no endereço oficial de Wado e surge com o primeiro grande lançamento da música nacional em 2008. A Internet apagou as fronteiras existentes em mapas entre as grandes capitais mundiais, está derrubando a toda poderosa indústria da música (a tendência é que mais e mais discos cheguem ao público sem passar por grandes conglomerados de entretenimento) e, apesar dos poucos recursos, as novas tecnologias estão permitindo o lançamento de álbuns de qualidade fora dos grandes centros. Periferia, você sabe, é periferia em qualquer lugar. “Terceiro Mundo Festivo” respira o sol de Maceió, namora os blocos africanos de Salvador, seduz São Paulo e Rio de Janeiro e faz festa no coração de todas as capitanias hereditárias para além (e avante) do meridiano de Tordesilhas. É um disco de inspiração terceiro-mundista e vocação cosmopolita, como são os de M.I.A., Timbaland, De Leve, Ali e Vieux Farka Toure, entre muitos outros. A inteligência a favor da arte derrubando fronteiras. Desde já, um dos grandes discos nacionais de 2008.

fevereiro 11, 2008   Encha o copo

Cinema: Juno

“Juno”, de Jason Reitman – cotação 3,8/5

Juno MacGuff tem 16 anos. Não se engane pelo nome: Juno é uma menina (na mitologia romana, Juno era a mulher de Zeus). Uma menina estranha para os padrões “normais” (reforçando: entre aspas) da sociedade: ela gosta de Stooges, Patti Smith e Mott The Hoople (artistas que surgiram em média 16 anos antes dela ter nascido) enquanto as paradas de sucesso apontam Britney Spears, Spice Girls e Garth Brooks; já teve uma banda com alguns amigos da escola; usa camisetas largadas enquanto sua melhor amiga brinca de cheerleader; e está grávida.

Ok, gravidez adolescente não é algo tão estranho assim; se fosse, a discussão em torno do aborto não seria tão grande quanto é. Discussões a parte, a gravidez adolescente já rendeu comédias fofas como “Mais ou Menos Grávida”, em que a ruivinha Molly Ringwald engravida do namorado e a visita da cegonha bagunça os planos do jovem casal, mas tudo acaba bem. O tema também rende filmes densos e pesados como o recente “4 Meses, 3 Semanas, 2 dias”, em que a opção pelo aborto e todo desenrolar da história ficará marcado eternamente na memória de uma adolescente grávida e de sua melhor amiga.

Porém, embora suscitem verossimilhança, tanto a ruivinha que fica grávida, casa com o namorado, sofre, mas se dá bem (com o filho e o marido) no final quanto a romena que faz o traumático aborto auxiliada pela amiga parecem menores diante do tratamento ao tema realizado por “Juno”. Os méritos são vários. O roteiro da ex-strip-teaser Brooke Busey (que assina como Diablo Cody) é esperto o bastante para não cair em clichês; a direção correta de Jason Reitman (que parece ter gosto por temas tabus; Reitman estreou com o genial “Obrigado por Fumar”) desenha personagens comuns vivendo situações comuns, e isso aproxima a trama do espectador; a trilha assinada Kimya Dawson (Moldy Peaches) dá aquele sotaque indie adolescente ao filme; e, por fim, Ellen Page encanta e conquista com sua atuação consagradora.

O roteiro foge do óbvio partindo de uma nova premissa: Juno sabe que não tem estrutura nenhuma para criar um filho, porém não tem nenhuma coragem de encarar um aborto (a cena no hospital, em que a atendente a oferece camisinhas com gosto de amora, é impagável). A saída: encontrar um casal que tope adotar o bebê. Com essa idéia em mente, Junto e sua melhor amiga saem à procura do casal perfeito. A direção de Reitman insere cores à trama (perceba a profusão de cores no cartaz; o filme é exatamente assim). Em sua busca pelas situações comuns, Jason Reitman quase não erra em “Juno”. Uma cena capital mostra bem isso: na hora que Juno vai contar ao pai sobre a gravidez, a forma com que ele e a madrasta reagem é totalmente provável. Lembre-se: ele deu o nome de Juno á filha. O diálogo depois que a filha deixa a sala é impagável.

– Você achava que era isso? – pergunta o pai para a madrasta;
– Eu achei que ela estivesse viciada em drogas… – diz a madrasta.

A trilha de Kimya Dawson (de enorme sucesso nos EUA) une Cat Power, Belle and Sebastian e Moldy Peaches com Velvet Underground, Buddy Holly e Sonic Youth (representado por “Superstar”, versão para o original dos Carpenters). O filme respira música, e há até um certo excesso de canções na trama, embora um dos grandes momentos da história resida em uma tirada sensacional – raivosa e certeira – de Juno com relação ao Sonic Youth. Por fim, a estrela Ellen Page. Ela tem apenas 20 anos, atua desde os 10, e conseguiu com Juno criar um personagem tão cativante que é quase impossível não se apaixonar por ele. Ellen Page brilha e faz todos os demais atores circularem ao seu redor. Mais: é extremamente convincente nas cenas em que carrega uma barriga falsa de oito meses (note em seu caminhar), o que torna realmente merecida sua indicação ao Oscar.

Roteiro esperto, direção correta, trilha sonora certeira e uma atriz encantadora: com esses quatro ingredientes, “Juno” vem arrebatando corações, vendendo centenas de milhares de CDs e conquistando nas bilheterias mais de 15 vezes aquilo que custou (US$ 7,5 milhões de custo, US$ 113 milhões nas bilheterias até a semana passada), e por mais que a histeria, as cifras milionárias e suas quatro indicações ao Oscar possam transformar a película em um hype nos cinemas abarrotados de bobagens sem conteúdo, Juno (precocemente madura e exageradamente espirituosa – tal qual os personagens da série Dawsons Creek, lembra?) é a personagem carismática do grande filme indie da temporada: fofo, estranho e charmoso. Quer saber: Juno está certa. Sonic Youth é barulho. Mesmo.

fevereiro 10, 2008   Encha o copo