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Bob Dylan ao vivo em São Paulo

Texto por Marcelo Costa
Fotos por Liliane Callegari

Última música. George Receli, o baterista, dá duas marteladas no bumbo e a banda entra jogando no colo da audiência “Like a Rolling Stone”, a canção que tirou Bob Dylan de vez da ala folk e o transformou em ícone pop em 1965. O homem não está olhando a plateia. O teclado (em que Bob passa 80% do show) fica posicionado na lateral do palco, para que ele comande com olhares as baquetadas de Receli e coordene – junto ao baixista Tony Garnier – os improvisos da banda. No lado direito da plateia, uma garota de estatura mediana consegue – numa falha da segurança – escalar o palco e parte correndo em direção ao homem.

Bob Dylan está imerso na canção, buscando na memória a letra que vai saindo pelos lábios em fiapos desgastados de voz. A menina corre, para em frente a ele e abre os braços. Assim que vê a garota, Dylan toma um susto e faz um gesto automático de “pare” com a mão esquerda estirada e o braço retraído, enquanto a mão direita continua intercalando teclas pretas e brancas. A menina fica petrificada até ser agarrada por um segurança brutamontes que, ao invés de portar uma cara de poucos amigos, ri de toda a cena enquanto a retira do palco. O público vai ao delírio e deixa as cadeiras – de R$ 250 até R$ 900 – para ficar em pé.

Um princípio de desordem se instala no recinto com berros, gritos e urros saldando a invasora, o homem e aquela canção. Dylan não se perde na melodia, olha para Garnier, que aproximou-se para “protege-lo”, e retorna ao andamento do refrão buscando a garota com o olhar. O público vai junto e canta “How does it feel / How does it feel / To be without a home / Like a complete unknown / Like a rolling stone?” a plenos pulmões sem o acompanhamento de Bob, que volta a cantar o refrão na seqüência e encaminha a música – e o show – para o final com um olhar em direção a Receli e Garnier. A música acaba. Ele se curva em direção a platéia, vira de costas e caminha para o backstage. Parece pensar, atônito, num lapso de deja vu: “Isso foi tão anos 60?.

Até este momento o show alternava clássicos interpretados de forma incompreensível (“Masters Of War”, “I’ll Be Your Baby Tonight”, “It Ain’t Me, Babe”) com versões bem distinguíveis de “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “Highway 61 Revisited” (metalizada, um dos grandes números da noite), sem contar canções mais recentes (o repertório trouxe nove músicas pós anos 2000 e oito dos anos 60), como a versão poderosa de “High Water (For Charlie Patton)” (com o grisalho Denny Freeman atacando com fúria sua Fender Stratocaster) e as bem recebidas (seis) canções do álbum “Modern Times” (com destaque para “Spirit On The Water”, com Dylan introduzindo a canção com uma gaita; e “Thunder On The Mountain”). Decepção mesmo só “Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again”, um mero rascunho da original.

A Turnê Que Nunca Termina chegou a São Paulo precedida de muita expectativa. O alto preço dos ingressos, a fama de difícil do compositor e sua (falta de) voz castigada por anos e anos de excessos dividiam o público. Na hora do show, no entanto, 90% da casa estava tomada. Bob não falou uma palavra sequer com a platéia (a não ser quando apresentou incompreensivelmente sua banda – um quinteto – ao final do show), mas está muito longe de ser a pessoa difícil que tantos pintam.

De calça preta com uma listra branca, terno prateado (que parece ser duas vezes maior do que ele) e chapéu de cowboy com uma pena colorida, no Via Funchal, em São Paulo, Bob Dylan, 67 anos, fez com que duas garotas invadissem o palco (a primeira tentou subir pelo lado esquerdo da platéia, no início da apresentação), e com que o ícone teen do momento, Mallu Magalhães, 15 anos, fosse conversar com os seguranças antes do show pedindo-lhes permissão para entregar ao músico algo que ela carregava em uma caixa. Isso diz muito sobre a música deste homem, sua influência e seu carisma.

Fãs de primeira e última hora (que só conhecem “Blowin’ in The Wind” e não ouviram os recentes “Love and Theft” e “Modern Times”) e artistas globais (como Bruna Lombardi, que perguntada sobre qual música de Dylan ela mais gostava, respondeu: “Aquela que o Caetano canta”) se assustaram com a voz deteriorada do compositor. Nos anos 60, quando começou sua carreira, Dylan já não tinha a melhor voz da música pop. Esse nunca foi o seu cartão de visitas. Natural que em 2008, sabem-se lá quantas vidas depois, sua voz esteja esganiçada, pequena e ardida. Pela idade e pelo descuido. Dylan envelheceu, e sua voz também.

O show é um retrato borrado da era de ouro do rock and roll, algo fora de moda, distante dos tempos modernos. Porém, ao contrário de muitos outros mártires daquele verão do amor, Dylan foi ao inferno, sobreviveu a si mesmo, e voltou para contar/cantar. Sua voz enrugada é perfeitamente aceitável. O show é um passeio sombrio entre passado, presente e futuro. Por mais que aquele momento da garota petrificada frente ao ídolo tenha sido muito anos 60, não há nada mais 2008 que recusar o amargo, o ardido, o esganiçado, aquilo que não soa limpo (até o punk e o metal soam melodiosos hoje em dia).

Quase cinquenta anos se passaram, e Dylan continua na contramão da música pop, caminhando sozinho em uma estrada longa e solitária. Na plateia, menos afortunados tentam capturar um fragmento de um tempo que se foi, sem perceber que Dylan está muito mais preocupado com o que virá. Neste desencontro entre plateia e artista encontra-se o crème de la crème da arte moderna. Poucos shows no mundo podem simbolizar tanto sem serem explicitamente históricos. E foi isso que aconteceu. Dylan fez uma apresentação histórica em São Paulo, mas pouca gente percebeu.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Discografia Comentada: todos os discos de Bob Dylan (aqui)

março 6, 2008   Encha o copo

Lou Reed tocando o álbum “Berlin”

O senhor Lou Reed acaba de anunciar uma turnê pela Europa em junho e julho… tocando o álbum “Berlin” na integra. De todas as datas que vocês conferem abaixo, a do dia 22 de julho em Madri parece que foi agendada pensando neste pobre homem que escreve estas linhas (e que está ficando cada vez mais pobre). Lá embaixo, no post do Rock Werchter 2008, falando sobre os planos da viagem, eu havia agendado o dia 22 para… Valência, na Espanha. Acho que terei uma mudança de rota em território espanhol… lá vou correr atrás do ticket… e eu nem consegui comprar o do Radiohead em Berlim ainda…

Cork Marquee (June 23)
Belfast Waterfront (24)
Edinburgh Playhouse (25)
Nottingham Royal Centre (26)
Paris Salle Pleyel (28)
London Royal Albert Hall (30)
Munich Philharmonie (July 3)
Hamburg CCH Congress Centrum (6)
Copenhagen Opera House (7)
Stockholm Annexet (9)
Warsaw Sala Kongresowa (14)
Brussels Bozar (16)
Loule Monumento Duarte Pacheco (20)
Madrid Conde Duque (22)
Girona Portaferrada Festival (25)
Benidorm Bullring (26)

março 5, 2008   Encha o copo

“She was born in spring, but…”

“Simple Twist of Fate” com Jeff Tweedy
Música: Bob Dylan

They sat together in the park
As the evening sky grew dark.
She looked at him and he felt a spark
Tingle to his bones.
It was then he felt alone
And wished that he’d gone straight
And watched out for a simple twist of fate.

They walked alone by the old canal.
A little confused, I remember well,
And stopped into a strange hotel with a neon burning bright.
He felt the heat of the night hit him like a freight train
Moving with a simple twist of fate.

A saxophone someplace far off played
As she was walking on by the arcade
As the light bust through a beat up shade
Where he was waking up.
She dropped a coin into the cup of a blind man at the gate
And forgot about a simple twist of fate.

He woke up; the room was bare.
He didn’t see her anywhere.
He told himself he didn’t care ;pushed the window open wide;
Felt an emptiness inside to which he just could not relate
Brought on by a simple twist of fate.

He hears the ticking of the clocks
And walks along with a parrot that talks.
Hunts her down by the waterfront docks
Where the sailers all come in.
Maybe she’ll pick him out again. How long must he wait
One more time for a simple twist of fate.

People tell me it’s a sin
To know and feel too much within.
I still believe she was my twin, but I lost the ring.
She was born in spring, but I was born too late.
Blame it on a simple twist of fate.

março 4, 2008   Encha o copo

Cartochio de Picanha

Bem, eu tinha prometido a mim mesmo na semana passada descobrir um prato novo, certo. E não fiz. Assim que passei neste domingo no supermercado e olhei a bandejinha de picanha, não resisti e trouxe pra casa. Mas como fazer uma picanha em casa? Fui atrás de receitas e descobri o Cartochio de Picanha. A rigor, este Cartochio é embalado por ervas a provance, que Lili lembrou depois que havia experimentado um prato de Cordeiro a Provance no Atacama. Optei por esse.

Assim, faltou sal, mas o tempero ficou foda. A receita segue abaixo, mas o preparo é super simples. A gente compra os bifes de picanha, e prepara o tempero, que é uma mistureba de cabeças de alho, ervas finas (provance, tem uma da Kitano muito boa), salsinha, manteiga  e sal. Você tritura o alho junto as ervas e a manteiga. Bate tudo em uma vasilha até virar uma pasta uniforme. Essa pasta você irá passar sobre os bifes. E enrola-los (devidamente empastelados) no papel alumínio. O tempo no forno é bem curto, coisa de cinco minutos para cada face da picanha. Fica foda.

Abaixo, a receita. Lili preparou um arroz integral, salada (alface, rúcula, palmito e vinagrete) e, para acompanhar, um Concha Y Toro Carmenere (minha uva predileta). Aliás, os Concha Y Toro estão bem baratos. Paguei R$ 17,90 na garrafa.

Ingredientes
1 bife de picanha de 200 gramas
1  (sopa) de manteiga
Salsinha a gosto
3 dentes de alho
Ervas provance
1 pitada de sal

Modo de preparar
Triturar as ervas provance com a salsinha e o alho. Acrescentar o sal e a manteiga formando uma pasta. Envolver o bife nesta pasta e embrulhar em papel alumínio deixando o lado do papel mais laminado para dentro. Assar sobre a grelha na churrasqueira, alternando os lados do bife. Pronta, exalará um aroma inconfundível. Servir com o arroz branco para poder apreciar o sabor das ervas com maior clareza.

março 2, 2008   Encha o copo

Me apaixonei…

Ingrid Bergman (e Audrey Hepburn) me perdoem, mas essa loirinha acaba de tomar meu coração de cinéfilo… suspiro…

março 1, 2008   Encha o copo

Boy Kill Boy, Forward Russia! e… Bob Dylan

E lá se foram dois meses de 2008. O tempo está passando cada vez mais rápido ou estou pirando? Bem, mais quatro CDs novos cairam na web: “Life Processes”, do Forward Russia!; “In a Cave”, do Elf Power; “Stars and The Sea”, do Boy Kill Boy; e “Red”, do Guillemots. Este último ficou algumas minutos no Jornal Berbequim, e foi deletado. Procura por ai. Só adianto que é um ótimo disco para ninar crianças e que a última música é cópia descarada de “Morning Bell”, do Radiohead.

Na falta do Guillemots, que tal saber como é o novo show de Bob Dylan? O áudio que você irá pegar no Ear Flux é do show que o homem fez em Dallas, seis dias atrás. Você pega o áudio aqui. Abaixo, o set list e um pequeno comentário que postei na comunidade da revista Bizz no orkut, comparando o áudio deste show do dia 23 com o que o amigo Thiago Ney viu no México, no dia 24, e reportou no Ilustrada no Pop.

Disc 1:
01. introduction [00:59]
02. Rainy Day Women #12 & 35 [05:49]
03. Lay, Lady, Lay [05:47]
04. Just Like Tom Thumb’s Blues [05:44]
05. Señor (Tales Of Yankee Power) [05:26]
06. The Levee’s Gonna Break [07:16]
07. Spirit On The Water [06:41]
08. Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again [06:54]
09. ‘Til I Fell In Love With You [07:32]
10. The Lonesome Death Of Hattie Carroll [06:20]
11. Honest With Me [06:30]
12. When The Deal Goes Down [06:24]
Total time: [71:29]

Disc 2:
01. Highway 61 Revisited [05:53]
02. Workingman’s Blues #2 [07:25]
03. Summer Days [06:03]
04. Ballad Of A Thin Man [10:09]
(encore)
05. Thunder On The Mountain [05:56]
06. band introduction [00:44]
07. All Along The Watchtower [05:41]
Total time: [41:56]

Sua voz está cada vez mais rouca e mais fraca; em várias faixas, é atropelada por teclado e bateria.

Que a voz está mais rouca e mais fraca, todo mundo sabe. Agora, que foi atropelada pela bateria, tem que ver como foi o som no México, se não foi problema lá, pois nesse em Dallas a voz dele até está muuuuito na frente dos instrumentos. É possivel ouvi-la perfeitamente!

É notório que ele muda as versões das músicas nos shows. Mas não precisava machucar tanto coisas como “Blowin’ In the Wind”, que encerrou a apresentação.

Ele não tem idéia do que é um Dylan que desconstrói a canção. “Ballad Of A Thin Man” está igual a versão original. “All Along The Watchtower” idem (até arrepia a entrada dos violões). “Rainy Day Women #12 & 35? também é o mesmo arranjo (e se ele tocar no pique dessa ótima versão de Dallas, valeu o investimento do ingresso). O que ele faz – já faz alguns anos – é mudar a melodia vocal por não conseguir alcançar as mesmas notas. Até em “Workingman’s Blues #2?, uma das melhores da nova safra, ele altera a melodia vocal. Nesse ponto, “Stuck Inside of Mobile With The Memphis Blues Again” é a que mais “sofre”, mas o arranjo tem poucas variações.

Dylan virou artista que faz cover de si mesmo. As faixas novas se arrastam; é nítida a falta de força dessas músicas recentes quando ouvidas lado a lado com clássicos como “Highway 61 Revisited” e “Like a Rolling Stone”. E é nítido como esses clássicos nas versões atuais soam pálidos se comparados às versões originais.

“The Levee’s Gonna Break” e “Thunder On The Mountain” fazem bonito ao vivo. Essa segunda é uma das canções em que ele mais se aproxima (por motivos óbvios) da interpretação do álbum, e as versões são fortes, crescem até em relação ao “Modern Times”. Não vi a nitidez nem a palidez que ele alega no comentário. E o próprio público aplaude muito as novas canções.

Ps para o leitor: baixe o áudio, ouça e tire as suas próprias conclusões.

fevereiro 28, 2008   Encha o copo

Os tempos modernos de Bob Dylan

Quando se fala em rock sempre vem à mente a imagem de algum moleque desajustado tocando sua guitarra num volume ensurdecedor. Mas será que é isso mesmo? Ok, vamos aprofundar. Sempre venderam o rock como algo juvenil, desajustado, fora da sociedade. Isso tudo, claro, até a indústria cultural ver potenciais de ganhar grana com o negócio, transformando músicos em celebridades e todo o cenário em um grande circo. Não é um fato recente: Raul Seixas refletia em seu disco mais clássico, de 1975: “Mamãe já ouve Beatles, Papai já deslumbrou, com meu cabelo grande eu fiquei contra o que eu já sou” (”A Verdade Sobre a Nostalgia”). O interessante é lembrar que os Beatles cantavam desde “Dr. Robert” até “She’s Leaving Home”.

A questão toda, na verdade, é que mais do que ser uma música juvenil, de suor e transpiração, o rock envelheceu desde que Elvis chacoalhou seus quadris pela primeira vez, e por mais que Mick Jagger continue cantando “Satisfaction” após 40 anos, quem vai ousar dizer que o velhinho não é rock’n’roll? E os velhotes pilhados do Gang of Four, que fizeram um show absurdamente barulhento e sensacional semanas atrás em São Paulo (e também em Floripa e Belo Horizonte), não são roqueiros?

A temática é muito mais abrangente do que esta coluna permite vislumbrar, mas ao ouvir “Working Man’s Blues #2?, a sensação de que o homem que a canta viveu tudo que o rock lhe permitiu ser vivido (e mais) joga pelo ralo qualquer idéia do contrário. A questão não é sobre este homem ter mudado a história da música pop mundial (e ele mudou), e sim ele estar ainda radiografando o mundo com tanta lucidez e inteligência. Como escreveu Ana Maria Bahiana certa vez: “Nirvana foi uma faísca, enquanto o R.E.M. é uma fogueira, e eu, particularmente, estou mais interessada no desafio da sobrevivência e da longevidade do que na saída fácil da vida breve e fulminante”. Eu também, Ana, eu também.

Do alto de seus 65 anos, Bob Dylan lança um disco que não é para a molecada dançar na balada urrando as letras (para isso existe o – ótimo – single do Killers) muito menos para ser ouvido enquanto se passa manteiga no pão no café da manhã. Dylan precisa de mais atenção. “Modern Times” é um disco de temática quase antagônica, falando sobre sexo e morte. E também sobre amor. E também sobre um mundo que está se desintegrando na frente dos nossos olhos. Ou será tudo a mesma coisa? É um disco para se ouvir em um bar acompanhado de luzes que se misturam com a fumaça de cigarro num balé melancólico. Seu autor ousa relembrar que mesmo tendo vivido mais de seis décadas de vida, o mundo continua um lugar imperfeito, solitário e vazio. Mas o próprio, em entrevista ao jornal USA Today, atesta que não há nada de nostálgico no álbum. Nostalgia, quem diria, é objeto de culto muito mais juvenil.

E não que é não existam rocks em “Modern Times”. A faixa que abre o disco, “Thunder On The Mountain”, é um rock clássico, com direito a guitarra solando e um interlocutor que gostaria de saber onde encontrar Alicia Keys (e não é para ouvi-la cantar). A mesma levada pode ser ouvida na suave “Someday Baby” e na soturna “The Levee’s Gonna Break”, com Dylan cantando de forma direta nesta última: “Se continuar chovendo, o dique vai quebrar: algumas pessoas estão dormindo, mas outras estão bem acordadas”. Ainda nas aceleradas, o bluezaço “Rollin’ and Thumblin” (com jeitão Robert Johnson de ser) acelera em direção ao rockabilly. Das dez canções do disco, é apenas nestas quatro que se ouvirá algum frescor (ahñ) juvenil que, talvez, lhe faça ter vontade de balançar o corpo ou, no máximo, marcar a melodia com os pés. Nas outras seis canções, jazz, folk e blues fazem a cama para que Dylan exercite sua visão do mundo.

De sotaque jazz, “Spirit on the Water” fala de pesadelos. “Eu estou suando sangue”, diz a letra. “When the Deal Goes Down”, cujo clipe traz a musa do momento Scarlett Johansson, é uma balada folk que não revela em sua levada a temática pesada da letra que procura um sentido em estar vivo, e diz a certa altura: “Nós vivemos e nós morremos, e não sabemos porquê”. O clima se acalma na suavidade de “Beyond the Horizon”, que imagina: “Além do horizonte é fácil amar”. Lembra o Rei Roberto em sua fase pós-Jovem Guarda dizendo que “Além do horizonte existe um lugar bonito e tranqüilo pra gente se amar”. O clima volta a pesar na arrastada “Nettie Moore” e fica ainda mais sombrio em “Ain’t Talkin’”, faixa que encerra o disco com Dylan contando “que não há nenhum altar nessa estrada longa e solitária”.

Dentre todas estas, a que merece maior atenção é a já citada “Working Man’s Blues #2?, canção que atualiza para os tempos modernos um velho country de Merle Haggard. Enquanto o original versava sobre como o trabalho comprara o espaço da diversão (na letra, após uma semana de batente e muito cansaço, o cara planeja sair para beber uma cerveja quando o pagamento chegar), “Working Man’s Blues #2? avança criticando não só esse capitalismo que vendeu um sonho e acabou, no fim, comprando a alma de todos, mas também suas conseqüências, entre elas a mais visível: a divisão do povo em ricos e pobres. “Working Man’s Blues #2? consegue ser ainda, do alto de seus seis minutos, uma belíssima canção de amor.

Dylan já não tem a necessidade de escrever que tinha quando era jovem. Segundo ele, na entrevista ao USA Today, chega uma hora em que é muito mais difícil encontrar uma finalidade para se fazer algo diferente. No entanto, ele sabe que talvez seja complicado para o ouvinte compreender não só a temática do disco, mas as canções como canções mesmo: “Cada canção significa o que você disser que significa. Ela te golpeia onde você pode sentir, e sentindo ela terá um significado para você. É um tipo de música que tem a finalidade de mexer com a pessoa, e para fazer isso ela tem que ter mexido comigo mesmo primeiramente”, explica.

É muito complexo dizer o que as pessoas precisam de verdade, seja música, filmes ou mesmo aparelhos domésticos. Se eu fosse moleque hoje em dia, provavelmente eu precisasse de Clash e Sex Pistols – ou quem sabe, Nirvana – mais do que Strokes, Killers ou Be Your Own Pet. Mais do que todos eles, na verdade, eu precisaria de Aldous Huxley, Lygia Telles e Shakespeare, mas essa é uma outra questão. O que realmente preocupa é limitar o que uma pessoa precisa, tenha ela 14, 36 ou 65 anos. Novamente recorro a Ana Maria Bahiana, que escreveu:

“Eu, por mim, recomendo a qualquer um – de 16, 21, 30, 45, 55 anos – que, ao menos uma vez por semana, escute algo que jamais pensaria escutar. E, certamente, algo que fuja dos padrões daquilo que as gravadoras determinaram ser “apropriado” para sua faixa etária – um ouvinte de 16 anos tem tanto a se beneficiar com uma audição de A Nod Is as Good as a Wink, dos Faces, quanto um de 55 do disco do Kula Shaker. É um santo remédio, o equivalente a uma corrida no calçadão, uma hora de malhação, uma partida de basquete: o suficiente para manter os ouvidos flexíveis, o cérebro desentupido, o coração palpitante e prevenir a instalação – muitas vezes precoce – do reumatismo estupidificante do classic rock”.

Pense nisso. E ouça “Modern Times” com bastante atenção. Ele está falando deste tempo sombrio que estamos, todos, vivendo. Ele não precisa de você, afinal, ele é Bob Dylan. Mas talvez você precise dele mais do que qualquer outra coisa, e ainda não descobriu.

Leia também:
– “I’m Not There”, de Todd Haynes, por Marcelo Costa
– “No Direction Home”, de Martin Scorsese, por Marcelo Costa
– Bob Dylan, Martin Scorsese e a História Universal, por Marcelo Costa

fevereiro 28, 2008   Encha o copo

O segundo álbum da Tom Bloch

Pedro Veríssimo é filho do Luis Fernando e neto do Érico. Sei que é meio foda começar um texto estudando a genealogia do cara, e que as artes exibem aos montes exemplos contrários do ditado popular que diz que “filho de peixe, peixinho é”, mas é importante falar dos Veríssimo agora, pois em “2?, dito segundo álbum da Tom Bloch, Pedro dissipa a nuvem de sons e barulhos na qual ele se escondia nos primeiros lançamentos do grupo e, parafraseando uma das canções emblemáticas deste “2?, se joga com letras e voz à frente de guitarras poderosas e batidas sincopadas como se estivesse dançando em um campo minado. O resultado é um disco sensacional, que pega na veia, cospe na cara, bate no peito e, por fim, acalenta o ouvinte em um abraço mudo.

Crescer sobre o brilho da luz de duas lendas da literatura nacional tem seu lado bom e, consequentemente, seu lado ruim. Se há um aprendizado, uma vivência literária inerente ao meio, também há um cobrança explicita que visa descobrir (muitas vezes de forma cruel) se há algo genético que perpetue a tradição familiar. No caso de Pedro, isso se amplificou quando ele optou por assumir a frente de uma banda de rock, quando ele arriscou-se a escrever letras. Essa opção, no entanto, surgiu velada e pode ser simbolizada a perfeição pelo rapaz com um saco de papelão sobre a cabeça, uma imagem que acompanha o trabalho da banda desde o início.

Essa estratégia de desfocar-se funcionou bem nos dois primeiros trabalhos do grupo – o EP “Demo Deluxe” (2000) e o álbum “Tom Bloch” (2002) – principalmente pela presença forte de Gustavo Mini Bittencourt (Walverdes) no embrião da banda, compondo e dividindo atenções (e canções) com Pedro. Essa divisão de atenção marcou imensamente a estréia da banda, mesmo com o fato de Mini não estar na Tom Bloch desde o EP anterior, já que a estética proposta pela imagem do rapaz com um saco de papelão sobre a cabeça permanecia ganhando forma de álbum. Ótimo na teoria, confuso na prática. “Tom Bloch”, a estréia, traz a voz de Pedro escondida entre os instrumentos, ás vezes acariciada por efeitos que a descaracterizam, como alguém que observa aos outros dançarem enquanto afoga dentro de si o desejo indecente de mover o corpo, e o faz mexendo os pés.

“2?, segundo álbum da Tom Bloch, apresenta uma nova banda. Primeiro, a formação de sexteto que gravou a estréia foi desfeita. O núcleo permanece: Pedro Veríssimo na voz (e, agora, assumindo todas as letras) e o mago dos estúdios sulistas Iuri Freiberger na bateria, programações, teclados, produção e mixagem, além de guitarras eventuais. No baixo, o experiente Patrick Laplan (cujo currículo inclui serviços prestados ao Biquíni Cavadão, Los Hermanos e Rodox, entre outros); na guitarra, Júnior Tostói (da banda carioca Vulgue Tostói). Com a formação reduzida, Pedro Veríssimo sai detrás da nuvem em que se escondia nos primeiros álbuns da Tom Bloch e apresenta um repertório de letras inspiradas que encontram complemento perfeito na musicalidade apurada de Iuri Freiberger.

“Sob a Influência” abre o disco de forma singular: um arranjo de cordas circular, preguiçoso, faz a cama para que a voz de Pedro – forte e clara – mostre que algumas coisas mudaram no som da banda. Acompanhado de guitarras (ambientadas de forma precisa na mixagem) e alfinetas de eletrônica, o vocalista convida náufragos, desesperados e desalojados a participarem da “primeira convenção dos corações partidos”. Em “A Dúvida”, a segunda faixa, um rock poderoso com melodia vocal que remete a algo da jovem guarda, a questão central é como se desfazer da foto da ex pessoa amada, um gesto doloroso que causa um cruel embate entre coração e mente: “É ou eu rasgo a tua foto ou atiro no que pra mim ainda vem pela frente / É ou eu rasgo a tua foto ou retiro a carta que sustenta todo o castelo / Se eu não quero mais viver no presente melhor então me desfazer do passado / É ou rasgo a tua foto e me viro, ou então não rasgo a tua foto e me mato”.

“Entre Nós Dois”, primeira música de trabalho do álbum, que já ganhou clipe e marcará presença no próximo curta-metragem do cineasta Jorge Furtado, é uma porrada que traduz a diferença entre amor e sexo com mais precisão do que Arnaldo Jabor: “Ninguém aqui presta, mas no momento atual você e eu é só o que resta (…) / E já não tem por que ir devagar, a gente sabe bem onde isso vai terminar”. A próxima, “A Invenção”, continua brincando com o tema no ótimo refrão: “O amor eu inventei pra justificar o prazer que me dá quando você vem”. Na mesma toada ainda se segue “Vendetta (Frase Feita)”, que conta com o vocal feminino de Alessandra Verney repetindo: “O que eu fiz foi por vingança”. A banda pisa no freio nas duas faixas que encerram o álbum. A temática da balada de guitarras “O Refém” lembra algo da Legião Urbana do álbum “A Tempestade”, assim como a próxima, “Por Favor, Mente”, uma das grandes canções do álbum, que abre versando de forma bela e fudidamente dolorida sobre piano e guitarras afundadas na mixagem: “Hoje eu sou seu pra sempre / Se eu perguntar, por favor, mente”.

O resumo desta nova fase da Tom Bloch se encontra em “Situação de Dança”, canção emblemática que rememora toda uma geração de pessoas que, em festinhas na adolescência (as lendárias reuniões dançantes), não sabia o que fazer em situação de dança, jogando luzes sobre aquele grupo de pessoas que preferia ficar em pé no canto da festa a arriscar uns passos na pista. Diz a letra: “As minhas juntas não movem separado de um plano inicial pré-determinado / Se eu tentar pode ficar evidente, eu danço como eu nado sincronizado / Mesmo versado no controle da mente, mover um corpo exige bem mais cuidado / Posso tentar, mas não vai ser diferente: eu danço como eu ando em campo minado”. Metafórica, a canção joga Pedro Veríssimo desajeitadamente para a frente da Tom Bloch, uma situação que o vocalista parecia evitar nas gravações anteriores, mas que parece ultrapassada neste excelente segundo álbum, que soa – na verdade – como a estréia da banda. Agora só falta Pedro e Iuri tirarem o saco de papelão da cabeça do rapaz que simbolizava a Tom Bloch: aquele rapaz cresceu e está pronto para enfrentar o mundo.

fevereiro 27, 2008   Encha o copo

Radiohead e Bruce Springsteen… na Europa

Fazia uma cara que eu não passava pelo excelente blog Una Piel de Astracán. Olhei ontem à noite e dei de cara com os novos álbuns do Breeders (”Mountain Battles”), Clinic (”Do It!”) e Be Your Own Pet (”Get Awkward”), esta última, a banda que o amigo Thiago Ney comentou na Folha uns dois anos atrás dizendo que os jovens precisavam mais deles do que de um disco novo do Bob Dylan. Por último, tem a trilha sonora do “Sangue Negro”, assinada pelo Radiohead Jonny Greenwood bobeando por lá.

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Assisti ontem “Juno” pela segunda vez. Foi bem melhor que a primeira, e é bom quando um filme resiste a uma segunda sessão. Também vi “Sangue Negro” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”, e o primeiro cresceu muito na segunda sessão. Ainda quero vê-los mais uma vez…

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Está começando a se desenhar meu roteiro de viagem de férias na Europa. O problema, claro, é o dinheiro limitado. Assim, conforme acrescento algum show na agenda, alguns dias são cortados da estadia européia. Não tem como discutir com a falta de grana. Estava pensando em passar 40 dias no velho mundo, mas já estou aceitando ficar 25. Tudo isso devido ao fato de que uma amiga já está providenciando a compra de um ingresso para o show do Radiohead em Berlim, dia 08 de julho. E fiquei tentado a ver Bruce Springsteen na Espanha.

Duas datas de shows do velho Bruce já estão esgotadas (em Madri e Barcelona); só a de San Sebastian ainda está em aberto, mas estou com muita vontade de bater com a cara na porta do mítico Santiago Bernabeu (estádio do Real Madrid), e tentar comprar um ticket o mais em conta possível na mão de algum cambista (na web, os ingressos que custavam 60 euros já estão saindo por 250 euros). E não vou negar que fiquei tentado a ver o Radiohead no Main Square Festival, em Arras, uma cidade a 180 quilômetros de Paris, no dia 06 de julho, mas é muita coisa para pouca grana. :/ De repente faço uma loucura, e passo o resto do ano comendo miojo e andando a pé…

fevereiro 26, 2008   Encha o copo

As 100 mais sexies do mundo em 2008

 Angelina Jolie em décimo segundo lugar? Estão de brincadeira, né.

1-Megan Fox
2-Jessica Biel
3-Jessica Alba
4-Elisha Cuthbert
5-Scarlett Johansson
6-Emmanuel Chriqui
7-Hilary Duff
8-Trisha Helfer
9-Blake Lively
10-Kate Beckinsale


11-Hayden Panettiere (foto)
12-Angelina Jolie
13-Eva Mendes
14-Rihanna
15-Erica Durance
16-Lindsay Lohan
17-Kim Kardashian
18-Cameron Diaz
19-Ali Larter
20-Beyonce Knowles

21-Kaley Cuoco (foto)
22-Heidi Klum
23-Sienna Miller
24-Kristen Bell
25-Natalie Portman
26-Vanessa Hudgens
27-Selita Ebanks
28-Keira Knightly
29-Maria Sharapova
30-Rachel Bilson (foto)

31-Gisele Bündchen
32-Kate Bosworth
33-Halle Berry
34-Carmen Electra
35-Jessica Simpson
36-Adriana Lima
37-Evangeline Lilly
38-Katherine McPhee
39-Christina Aguilera
40-Cheryl Burke

41-Kristin Kreuk
42-Jennifer Aniston
43-Charlize Theron
44-Heidi Montag
45-Anna Faris
46-Shannon Elizabeth
47-Alessandra Ambrosio
48-Mayra Veronica
49-Katherine Heigl
50-Keeley Hazell


51-Anne Hathaway (foto)
52-Jenny McCarthy
53-Marisa Miller
54-Kate Hudson
55-Shakira
56-Tara Reid
57-Jennifer Love-Hewitt
58-Cassie Ventura
59-Eva Longoria
60-Fergie


61-Ellen Page (foto)
62-Nicole Scherzinger
63-Grace Park
64-Stacy Keibler
65-Katie Holmes
66-Leeann Tweeden
67-Liv Tyler
68-Kari Byron
69-Christina Ricci
70-Mischa Barton

71-Amanda Beard (foto)
72-Elizabeth Banks
73-Carrie Underwood
74-Kelly Hu
75-Pam Anderson
76-Rachelle Leah
77-Paris Hilton
78-Karina Smirnoff
79-Christine Lakin
80-Audrina Patridge

81-Mila Kunis (foto)
82-Alyssa Milano
83-Jenna Fischer
84-Maria Kanellis
85-Olivia Munn
86-Reese Witherspoon
87-Madonna
88-Shamron Moore
89-Rachel McAdams
90-Summer Glau (foto)

91-Ashley Collette
92-Maggie Gyllenhaal
93-Whitney Able
94-Olga Kurylenko
95-Lauren Conrad
96-Carmit Bachar
97-Amber Heard
98-The Olly Girls
99-Victoria Beckham
100-Britney Spears

fevereiro 25, 2008   Encha o copo