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Opinião do Consumidor: Murphy’s Irish Red

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Tradicionalmente, a Red Ale é irlandesa. Lá ela é chamada também de Irish Red, e o que a diferencia das outras ales (as cervejas de alta fermentação) é sua cor avermelhada – devido ao malte tostado, que marca não só a cor como o aroma e também o paladar.

A cervejaria Murphy’s foi fundada em Cork, na República da Irlanda, em 1856, o que garante o slogan de mais de 150 anos de tradição cervejeira. Em 1983, a fábrica foi vendida para a Heineken International, passando desde então a produzir, além da Murphy’s Irish Red e da Stout, a Heineken para o mercado irlandês (dominado pela lager Harp).

O negócio também serviu para exportar a Murphy’s Irish Red, uma ótima representante do estilo, para o mundo (inclusive para o Brasil). O malte tostado (seu grande segredo) já é perceptível no aroma, agradável, que deixa escorrer um pouco de madeira e caramelo. O sabor segue o aroma, com o malte marcando o final com leve e interessante amargor, mas o aguado desequilibra um pouco o conjunto.

Mesmo assim, em território irlandês, para quem quiser fugir das stouts (cuja representante mais famosa é a Guiness, cerveja escura número 1 do Reino Unido) e das lagers (a Harp, cerveja número 1 da Irlanda, é leve e gostosa, mas bem parecida com as nossas), a Murphy’s Irish Red é uma excelente pedida. Não é perfeita, mas tem um conjunto bastante agradável.

Teste de Qualidade: Murphy’s Irish Red
– Produto: Red Ale
– Nacionalidade: Irlanda
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,85/5

Leia também:
– Harp, uma lager irlandesa muito boa (aqui)
– Outras cervejas (aqui)

novembro 15, 2010   Encha o copo

Três vídeos do Norah Jones em São Paulo


“Long Way Home (Tom Waits Cover)”


“Cry, Cry, Cry (Johnny Cash Cover)”


“Lonestar”

As sete primeiras músicas foram do álbum do ano passado, “The Fall”, com Norah Jones (gatíssima de vestidinho vermelho e botas) na guitarra e uma acentuação mais roqueira na sonoridade da banda. Nesta primeira parte, apesar da simpatia da filha de Ravi Shankar, o show foi monótono. As coisas começaram a tomar forma quando Norah, ainda na guitarra, anunciou que iria começar a tocar números antigos, “bem antigos”, segundo ela. E assim foi.

“Come Away with Me”, faixa título de seu álbum de estreia, em 2002, abriu a segunda parte do show seguida por “The Long Way Home”, cover de Tom Waits que integra o multiplatinado “Feels like Home” (2004). Johnny Cash foi lembrado com uma versão de “Cry Cry Cry” (inclusa no Live EP da edição de luxo de “The Fall”, que ainda traz “Jesus, etc.”, do Wilco, não tocada em São Paulo), mas o público aplaudiu mesmo a versão sensual de “Don’t Know Why”, com Norah ao piano e o autor Jesse Haris tocando violão.

Da metade pra frente foi um show bem bonito, mas nada imperdível. Norah Jones é fofa no palco, mas falta algo ao show. Provocando é possível dizer que falta alma. Falta uma marcação mais classuda na cozinha (as músicas mais antigas, com baixolão fazendo a cama, soaram bem melhores), algo que bata no peito do ouvinte, que faça ele sentir a canção. No Parque da Independência, em um dia de sol e um pouco de frio, Norah Jones fez um show correto para o maior público de sua carreira (25 mil dentro do parque, um tanto quase igual fora). Poderia ser melhor, mas ainda assim valeu a pena.

01. “I Wouldn’t Need You”
02. “Tell Yer Mama”
03. “Light as a Feather”
04. “Even Though”
05. “Young Blood”
06. “It’s Gonna Be”
07. “Chasing Pirates”
08. “Come Away with Me”
09. “The Long Way Home”
10. “Broken”
11. “Cry Cry Cry”
12. “Waiting”
13. “Back to Manhattan”
14. “Sinkin’ Soon”
15. “Carnival Town”
16. “Don’t Know Why”
17. “Stuck”
18. “Lonestar”

Bis

19. “Sunrise”
20. “How Many Times Have You Broken My Heart”
21. “Creepin’ In”

novembro 15, 2010   Encha o copo

Três vídeos do Belle and Sebastian em SP


“The Fox in the Snow”


“Jonathan David”/”Get Me Away from Here I’m Dying”


“Me and Major”

O tempo passa. Nove anos atrás eles faziam algum sentido (e músicas beeem melhores). Os shows eram inaudíveis, mas o público cantava alto e encobria os (possíveis) defeitos. A inocência como virtude. Em 2010, o sentido parece ter ficado parado no tempo (perdido?) e o show soa deslocado, mas a noite teve seus momentos (embora a sensação de ‘foto desbotada’ tenha pairado no ar a noite toda). O público já não canta efuzivamente todas as canções, o que deixa mais visível (e sofrível) o som de coreto de cidade do interior (da Escócia) que saia pelas caixas. “Parte da ilusão da euforia indie morreu um pouco hoje no palco do Via Funchal”, escreveu o amigo Jardel Sebba no Twitter. Uma frase interessante demais para se refletir. O tempo passa.
Set List

01. “I Didn’t See It Coming”
02. “I’m a Cukoo”
03. “Step Into My Office, Baby”
04. “Another Sunny Day”
05. “I’m Not Living in the Real World”
06. “Piazza, New York Catcher”
07. “I Want the World to Stop”
08. “Lord Anthony”
09. “Sukie in the Graveyard”
10. “The Fox in the Snow”
11. “Travellin’ Light”
12. “If You’re Feeling Sinister”
13. “Write About Love”
14. “There’s Too Much Love”
15. “The Boy with the Arab Strap”
16. “If You Find Yourself Caught in Love”
17. “Simple Things”
18. “Sleep the Clock Around”

Bis

19. “Jonathan David/”Get Me Away from Here I’m Dying”
20. “Judy and the Dream of Horses”
21. “Me and the Major”

Leia também:
– Belle and Sebastian no Free Jazz, 2001, por Marcelo Costa (aqui)

novembro 11, 2010   Encha o copo

A Mostra SP 2010 e eu

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Trailer de “Um Garoto de Liverpool”

Estava quase certo que a Mostra SP iria passar em branco para mim, mas do último domingo pra cá conseguir aproveitar os horários vagos e consegui ver umas coisas bem legais. Primeiro foi o “Nowhere Boy” (“Um Garoto de Liverpool”), que foca na relação de John Lennon com sua mãe Julia e com a Tia Mimi. Sam Taylor-Wood pesa a mão na direção, mas o filme vale por várias passagens.

Na segunda consegui ver o bom argentino “O Olho Invisível”, de Diego Lerman. Lembrou-me muito Haneke (notadamente “A Professora de Piano” com uma possível pincelada de “A Fita Branca”), mas valeu. A meia-noite teve a primeira exibição do preguiçoso novo filme de Woody Allen, “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”. Ou faltou verba, ou ele desistiu de terminar o filme. Mas é Woody Allen, né.

O filme separado para a terça foi “Um Lugar Qualquer”, novo olhar de Sofia Coppola sobre a solidão e o vazio humano. É um dos filmes que mais gostei de ver nos últimos tempos. Trilha caprichada (tem até uma demo dos Strokes que funciona lindamente – está no trailer linkado no fim deste post também) e muito, mas muitos silêncios. Sofia está fazendo aquilo que seu pai Francis sempre sonhou: cinema autoral. Merece aplausos.

Para hoje tem “Uma Carta Para Elia”, documentário de Martin Scorsese e Kent Jones sobre Elia Kazan, um dos lendários e polêmicos diretores de Hollywood (“Sindicato de Ladrões”, “Vidas Amargas”, “A Luz é Para Todos”), que como ex-membro do Partido Comunista dos Estados Unidos, denunciou colegas do antigo partido ao Comitê de Investigações de Atividades Anti-Americanas.

Para amanhã, optei por “Gainsbourg – Vida Heróica” no lugar de “Rede Social”, o filme sobre o Facebbok que fecha a Mostra SP deste ano. Melhor ir atrás de um que pouco provavelmente estréie no lugar de outro que já está com estréia prevista. Preciso, por fim, encontrar um filme para o lugar de “Howl”, de Rob Epstein, cuja exibição de hoje foi cancelada. E tentar pegar alguns na repescagem. Pelo jeito vou manter a média de seis ou sete filmes…

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Trailer de “Um Lugar Qualquer”

novembro 3, 2010   Encha o copo

Boa sorte, indústria brasileira

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Chegou via release: os seis primeiros álbuns da Legião Urbana (lançados entre 84 e 93), editados originalmente em vinil, voltam ao formato em edições de capa dupla, com fotos e textos inéditos. Já “Tempestade” e “Uma Outra Estação”, editados originalmente em CD, foram adaptados ao formato vinil, ambos com dois LPs cada e capas duplas. Todos remasterizados em Abbey Road.

Preços sugeridos (sujeitos a variações determinadas pelas lojas)
Vinis simples – R$ 120 (“Quatro Estações” e “Descobrimento Do Brasil”)
Vinis simples – R$ 140 (“Legião Urbana”, “Dois”, “Que País é Este” e “V”)
Vinis duplos – R$ 190 (“A Tempestade” e “Uma Outra Estação”)

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Enquanto isso, um dos discos mais clássicos da carreira de Paul McCartney (aquele cara que um dia integrou uma banda chamada Beatles e que daqui alguns dias estará entre nós) ao lado do Wings, “Band on The Run”, ganha uma reedição luxuosa também em vinil (além de CDs com material raro) que conta com as nove faixas do álbum distribuídas em dois discos de 12” de 180 gramas. Além, quem comprar o vinil duplo pelo site do Paul ganha “9 bonus audio tracks” em MP3, que são as músicas que integram um dos CDs extras (o tracking list você pode conferir aqui). O disco também foi remasterizado em Abbey Road.

Preço: US$: 29,99 (cotação de hoje: R$ 51,10 26/10)

Ou seja: Paul duplo, R$ 50. Legião duplo, R$ 190.

Assim, eu adoraria comprar vinis nacionais, e até trocar os vinis originais da Legião que tenho por essas novas reedições, mas não dá para acreditar nestes preços. Comprei a coleção do Wilco, via Amazon, 20 dólares cada vinil (todos com o CD de bônus incluso). Não dá para pagar os cento e tantos reais num vinil nacional. Boa sorte, indústria.

outubro 26, 2010   Encha o copo

A menina, o mamute e o liquidificador

“A Menina Santa”, Lucrecia Martel (2004)

Considerada por muitos o grande nome do cinema argentino nos últimos dez anos, Lucrecia Martel mostra (por a + c) com “A Menina Santa” o motivo de tanta admiração. Todos os elementos de um filme são tratados com extremo cuidado e personalidade. O roteiro, por exemplo, conduz o espectador na trama delicada sem o tornar cúmplice (o público idealiza mais do que o filme realmente entrega). A fotografia, por sua vez, procura os ângulos pouco comuns, o que passa certo aspecto de voyeurismo e também de intimidade sem, no entanto, desvendar a história através das imagens. Na verdade, nada é desvendado. E este é o grande mérito de “A Menina Santa” (e do cinema de Martel): deixar a idéia flutuando na mente do espectador. O que não se mostra é o que interessa. Uma pequena aula de cinema.

“Soy Cuba, O Mamute Siberiano”, Vicente Ferraz (2004)

Vicente Ferraz estudou cinema na Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de Los Baños, em Cuba, e foi lá que conheceu a obra que o cineasta russo Mikhail Kalatozov filmou no início da revolução cubana, em 1960 (logo após ter conquistado uma Palma de Ouro em Cannes, em 1958). “Soy Cuba” necessitou de quase três anos para ficar pronto, e não agradou ao povo cubano (que não aprovou o olhar dos russos sobre o país) nem tampouco teve sobrevida no Velho Mundo. Foi engavetado logo após a estréia e redescoberto 30 anos depois por Martin Scorsese e Francis Coppola, que o relançaram nos EUA. Ferraz conta a história da produção de “Soy Cuba” e conversa com atores e pessoas que trabalharam na realização do filme – algumas passagens são comoventes. Nos extras ele explica o mais belo plano seqüência do filme (quiça da história do cinema), obra do fotógrafo Serguey Urusevsky.

“Reflexões de um Liquidificador”, André Klotzel (2010)

Eis um dos filmes nacionais mais bacanas deste ano. Não que seja perfeito, mas a originalidade do tema e a esperteza do roteiro transformam o drama de um velho liquidificador em uma história interessante. E Selton Mello agora pode dizer que é um ator pau (ops) pra toda obra. É ele quem dá voz e alma para o liquidificador que, de uma hora para outra, começa a ter sentimentos e conversar com Dona Elvira, uma dona de casa que passa apuros com o sumiço repentino do marido. Klotzel brinca muito bem com os clichês (o policial, a gostosona, o thriller), mas apesar de sua curta duração (80 minutos), “Reflexões” cansa um bocadinho no meio, quando o eletrodoméstico começa a pensar em sua própria vida. Faltou uma história secundária forte para tirar o liquidificador da tomada. Mesmo assim, um filme a ser visto e admirado.

outubro 18, 2010   Encha o copo

“Eu acampei no SWU”, por Elson Barbosa

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Foto: Divulgação

À convite do Scream & Yell, Elson Barbosa (Herod Layne, Sinewave) conta como foi o camping no primeiro SWU. Divirta-se:

“Acampamento, como se sabe, é para aventureiros. Gente que se dispõe a dormir mal, comer mal, se sujeitar a diversos tipos de privações. Mas até aí megafestival também é, e a quantidade de perrengues em um pode ser tão grande quanto no outro. Quando recebi a ligação de um grande amigo me chamando para o camping do SWU, a primeira reação foi o proverbial “não tenho mais idade pra isso”. Mas tem aquele lance que idade é estado de espírito, etc, e certamente não seria pior do que um músico enfrenta durante uma turnê. Topei.

O camping do SWU até teve seus problemas. Mas estes não foram nada perto do caos que muita gente enfrentou nas saídas dos shows. No geral estávamos em um ambiente tão legal (e offline) que não sabíamos de problema nenhum acontecendo no mundo além das catracas.

Passamos por um primeiro perrengue na entrada, quando levamos quatro horas para conseguir acesso para a área de camping devido à falta de informação do evento. Informação é primordial em qualquer tipo de processo. Alguns avisos espalhados pela área teriam um custo quase zero e evitariam uma situação que custou quatro horas de centenas de pessoas. Mas ok, esse tipo de problema não é exclusividade do SWU e muito menos do Brasil – já passei por problemas bem maiores em festivais em outros países. Faz parte. Chegamos na área de camping, montamos a barraca, e partimos para o festival, já com vários bons shows perdidos.

Vale descrever a área de camping. Oficialmente um kartódromo, ficava ao lado de uma área de lazer e pescaria. A área de lazer, aberta 24h, tinha diversas lanchonetes, um restaurante, lojinhas, banheiros. A comida por lá era melhor, mais variada e mais barata que na arena de shows. Fazendo um bom planejamento de horários, era possível ir para o restaurante durante um show mais concorrido e comer sem enfrentar fila nenhuma. A área de pescaria, com seus diversos lagos artificiais, dava um ar bastante bucólico para o lugar. Ambiente perfeito para uma brisa longe da arena de shows.

Durante o dia, mais um perrengue, talvez o mais problemático. Cada pessoa tinha direito a quatro banhos controlados de sete minutos, em horários específicos. Os chuveiros foram muito mal projetados pela organização – havia vinte para homens e dez para mulheres. Isso num camping para milhares de pessoas. A fila era de em média duas horas, embaixo de um sol escaldante (ou, para quem se aventurasse a tomar banho de madrugada, embaixo de um frio congelante). Houve várias reclamações, e até um princípio de tumulto na fila das mulheres, que passava das duas horas de espera. E eis um ponto positivo para a organização – as reclamações eram ouvidas. No dia seguinte ao tumulto, aumentaram o horário para banhos, e puseram várias pessoas do staff para divulgar a informação. Apesar das filas grandes, estávamos sendo bem tratados.

A noite no camping, depois dos shows, era bem tranquila, segura e policiada. Não soube de nenhum problema de roubo ou violência por lá. Pelo contrário – a boa vibe aproximava pessoas que nem se conheciam. Em uma sala com tomadas elétricas para carregar celulares era comum formar rodas de grandes amigos que acabavam de se conhecer. Um festival não é formado só de bons shows afinal. O camping ali era parte da festa.”

Leia também:
– “Três dias de shows e polêmicas em Itu”, por Marcelo Costa (aqui)

outubro 13, 2010   Encha o copo

SWU – Dia 3

Texto: Marcelo Costa
Fotos: Liliane Callegari

A saída do segundo dia foi sossegada (ao contrário do drama do primeiro dia). Optamos por cabular o pop Vila Olímpia da Dave Matthews Band e o rock fracote do Kings of Leon para chegarmos à Pousada antes do sol nascer. Funcionou. Praticamente com o estacionamento lotado (e 70% do público ainda no festival), deixamos o local sem traumas. Antes da meia-noite estávamos em Itu assistindo ao Kings of Leon na barraquinha King Lanches (um local perguntou: “Isso é rock?”. Diz muito).

Frente às reclamações e histórias da noite assustadora do dia anterior, a organização conseguiu que a polícia liberasse uma via antes fechada para melhor escoamento do trânsito, colocou mais pessoas informando os locais corretos de embarque para cada destino e 40 ônibus a mais do que na noite anterior (eram 80 e passaram a 120). Como optamos por ir de carro e saímos antes do batalhão de público ao termino do último show, não podemos afirmar se funcionou ou não, mas fica registrada a tentativa da produção em evitar repetir os erros do primeiro dia.

Para o terceiro dia não alteramos o modus operandi do dia anterior. Fomos novamente de carro, estacionamos no local e saímos antes do último show. Chegamos em tempo de pegar metade do belíssimo show de microfonia do Yo La Tengo. Teve “Sugarcube”, “Tom Courtenay”, “Autumn Sweater” e “Pass the Hatchet, I Think I’m Godkind”, 15 minutos de barulho para fã nenhum de rock botar defeito (com exceção dos fãs do Linkin Park, que vamos combinar, não entendem de rock).

Na sequencia, Max e Iggor promoveram a maior, melhor e mais bonita roda de pogo do festival ao tocar hinos do Sepultura como “Refuse/Resist” e “Roots Bloody Roots”, que levantou poeira (ainda rolaram “Atittude” e “Troops of Doom”), com o Cavalera Conspirancy. Tocaram também canções do álbum “Inflikted”, como a faixa título mais “Sanctuary”, “Terrorize”, “Hex”, “Ultra-Violent” e um número inédito, “Warlords”. Do meio do pista normal, os ex-parceiros Paulo Jr. e Andréas Kisser assistiam ao show. Reunião do Sepultura à vista?

 No palco Oi, acompanhado apenas de baixolão e violão, Josh Rouse fez um show intimista e bonito, mas sofreu com um problema comum nesta primeira dia edição do SWU: o mau posicionamento dos palcos (estrutura é um erro grave em um evento deste porte) fazia com que o som vazasse para os outros. O público que ouvia o Yo La Tengo, em momentos mais calmos, percebia o som do Autoramas chegar ao palco principal. E Josh, em show acústico, lamentou: “Vocês conseguem nos ouvir com essa música eletrônica?” Canções delicadas como “Come Back”, “Valencia”, “My Love has Gone”, “Carolina”, “Sunshine”, “Streetlights” e “Love Vibrations” mereciam mais respeito.

Com um atraso inaceitável de 50 minutos, o Queens of The Stone Age subiu ao palco para tocar para uma área Premium tomada por fãs do Linkin Park. O show demorou a engrenar – com problemas visíveis na iluminação, nos telões e na superlotação da área – mas Josh Homme encontrou o caminho para fazer o melhor show do festival. Dois clássicos modernos logo de cara (“Feel Good Hit of the Summer” e “The Lost Art of Keeping a Secret”) mais um punhado de números matadores (“3’s & 7’s”, “Sick, Sick, Sick”, “Monsters in the Parasol”, “Little Sister”, “Go With The Flow”) que culminaram numa versão majestosa de “No One Knows”, a melhor música do melhor disco do QOTSA. Levou a medalha de ouro.

 Entre jornalistas, o comentário era de que o Pixies iria ter que suar para bater o Queens. Mas suar pelo Pixies é um verbo que Frank Black não conjuga mais. A banda ícone enfileirou hits (“Debaser”, “Wave of Mutilation”, “Velouria”, “Monkey Gone to Heaven”, “Planet of Sound”, “Where Is My Mind?” e “Gigantic”) e tocou o álbum “Doolittle” praticamente inteiro (faltaram apenas quatro das 15 faixas: “Silver”, “Dead”, “There Goes My Gun” e, ausência mais sentida, “I Bleed”), mas sofreu com um som embolado e, em momentos mais calmos, parecia tocar em marcha lenta (“Here Comes Your Man”, por exemplo).

Frank Black estampava uma vontade de tocar tão contagiante que se um boneco estivesse em seu lugar não faria diferença, mas são tantos hinos, tantas canções boas, que ele merece o dinheiro que ganha (hoje em dia). Ele é a mente doentia por trás de uma das grandes bandas da história, mas não à toa, o grande momento do show foi ouvir Kim Deal mandá-lo se foder (mesmo brincando) no único espaço em que a baixista pode chamar de seu no show, “Gigantic”. Bonito. Cortinas cerradas. Ainda tinha Linkin Park e Tiesto, mas a festa já tinha terminado – para nós.

Há muito ainda o que falar do SWU, um evento que ofereceu um punhado de shows legais, mas que teve uma porção de problemas na produção. Apesar de Eduardo Fischer, em pequena coletiva na sala de imprensa, colocar o festival entre os cinco melhores do mundo, falta muito para o SWU entrar num top 100. Qualquer festival minúsculo da Bélgica (o país mais pródigo em realizar bons festivais – é só consultar o Prêmio Arthur para conferir) deixa o SWU para trás.

Reconhecer os erros é um mérito que pode melhorar o planejamento para a edição de 2011. O bom número do público reforça a idéia de sucesso do evento, mas não basta (ou não deveria bastar) levar 160 mil almas para uma fazenda no interior do Estado de São Paulo e considerar isso como uma vitória: é preciso tratar essas pessoas com respeito, dar-lhes formas de se alimentar e assistir aos shows de forma prazerosa (entretenimento deveria ser prazer), e condições para que cada uma voltasse para sua casa, barraca ou hotel de forma decente, sem riscos.

Por outro lado é preciso saudar o surgimento de um festival que pode vir a ser o melhor festival sul-americano em quatro, cinco anos. Houve sim problemas (até relatados neste espaço) e serão necessários muitos ajustes para as edições vindouras, mas o Brasil sentia falta de um grande festival anual no formato dos melhores eventos europeus e norte-americanos. Acontece que Europa e Estados Unidos estão 10, 20, 30 anos à frente do SWU no quesito produção. A equipe de Eduardo Fischer precisa aprender com os erros e mirar um futuro em que o show, a música, o fórum sejam notícia, não os problemas. Retuitar apenas os elogios soa cinismo. O público, no entanto, fica no aguardo.

Todas as fotos por Liliane Callegari com exceção da 1, 2 e 11 (por Marcelo Costa) e do Yo La Tengo (Divulgação SWU)

outubro 12, 2010   Encha o copo

SWU – Dia 2

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Texto: Marcelo Costa
Fotos: Liliane Callegari

Programação reduzida para o segundo dia do Festival SWU. Após o drama da volta na madrugada do primeiro dia, que terminou com o sol nascendo na estrada para Cabreúva, deixamos de lado shows que gostaríamos muito de ter visto (Tulipa Ruiz e Rubinho Jacobina) e nos concentramos nas apresentações que realmente valeriam a pena todo o esforço de chegar ao festival: Regina Spektor e Otto.

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Regina, como muita gente tinha previsto, pareceu pequena depois para o palco principal. O show foi bom, ela tem uma grande voz, mas na área premium ninguém estava entendendoo que estava acontecendo no palco. Pareciam estar assistindo a um DVD, e não a um show pop. Uma pena, pois Regina Spektor merecia mais. Se fizesse o show no Palco Oi, por exemplo, poderia sair consagrada.

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Otto, por sua vez, tocou no Palco Oi e lotou a tenda mostrando a excelente fase de seu trabalho solo ancorado no excelente disco “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranqüilos”. Mais de duas mil pessoas cantando, urrando e dançando canções como “Filha”, “Janaina”, “Dias de Janeiro”, “Tente Entender”, “Ciranda de Maluco” e uma inspirada versão de “Saudade”, parceria do cantor com Fernando Catatau e Julieta Venegas.

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A Jambroband, banda que acompanha Otto, vive sua fase mais inspirada no palco. A sequência de shows harmonizou o quinteto instrumental e os percussionistas e a mistura de sons está simplesmente chapante. Fernando Catatau e Junio Boca estão cada vez mais bem entrosados na guitarra, Ryan segura tudo no baixo, Bactéria coloca o molho nos teclados e Pupillo é um monstro na cadência e nas inflexões da bateria.

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Os dois cavalos de batalha (temático e musical) do último disco, “Crua” e “Seis Minutos”, surgiram em versões sublimes, eternas, consagrando Otto que, mais uma vez, entregou-se a discursos nonsense, elogiou o festival, a sua banda e perguntou ao público: “Vocês estão gostando do show?” Ante a resposta positiva, cravou: “Então contem para os amigos. É assim que funciona”. No boca a boca, Otto fez outra vez o show do ano.

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 Ainda teve a “aparição” de Joss Stone no palco principal (um amigo jornalista definiu: “Até as axilas dela são bonitas”), mas o dia já estava ganho. Para fugir do trauma do dia anterior, deixamos a Fazenda Maeda antes de Kings of Leon pisar no palco (vimos parte do show em um carrinho de lanches em Itu. Fracote, você estava avisado – risos) e a saída foi tranquilíssima, sem nenhum problema. Até abriu o apetite rock and roll para hoje: Pixies e QOTSA, nos aguardem.

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outubro 11, 2010   Encha o copo

SWU: cenário de festa ou de caos?

Não foi uma tragédia, mas quase. A saída do público do primeiro dia do SWU poderia facilmente ter entrado para as páginas negras da história do festivais de música ao redor do mundo. Um total de 47 mil pessoas (público informado pela produção) vagava sem nenhuma informação, perdidas entre pessoas da organização despreparadas, nenhuma placa de informação e a escuridão das ruas de terra batida da Fazenda Maeda.

O caos começou logo após ao término do show do Rage Against The Machine. A maioria do público partiu em direção aos bolsões de ônibus para pegar um translado para os bolsões de estacionamento, em Itu. Porém, não haviam ônibus. As filas imensas davam voltas e ninguém sabia informar a qual destinava cada uma. Algumas pessoas já esperavam os veículos antes do show do Rage Against The Machine terminar, mas nada de condução.

Grande parte do público decidiu fazer o caminho à pé, o que transformou a rua de terra batida da Fazenda Maeda em terra de ninguém, um pequeno espaço ocupado por carros, ônibus e milhares de transeuntes. Um grupo de pessoas, ao ver um ônibus vazio partindo em direção à saída, conseguiu “convencer” o motorista a abrir a porta, e o veículo lotou em aproximadamente três minutos. Ninguém mais entrava, não havia espaço.

Assim que o motorista fechou a porta, dezenas de outras pessoas começaram a bater nos vidros do ônibus pedindo uma vaga na condução. Um rapaz, com o tiquete da passagem na mão, batia violentamente no vidro do motorista gritando e chorando: “Eu paguei o ônibus. Eu quero ir embora”. Um amigo, na janela ao lado, provocava o piloto: “O ônibus não está saindo do lugar e o motor está ligado. Esse é um evento de sustentabilidade”.

Uma cena de stress era protagonizada a cada cem metros que o ônibus conseguia se locomover. Alguém parava ao lado do motorista, pedia “pelo amor de Deus” para que ele abrisse a porta, e o piloto alegava que não cabia mais ninguém no veículo. Um rapaz, deitado no painel e com a cabeça embaixo do volante, era o retrato da lotação, mas ninguém queria saber. Geralmente esmurrava o vidro do carro enquanto os ocupantes do ônibus diziam que o motorista não tinha culpa e estava apenas trabalhando (ou tentando).

Os dois pontos de maior risco foram próximos a saída para a Rodovia Castelo Branco. No primeiro, rapazes em uma Meriva tentaram cortar o ônibus pela direita. Impossibilitado de ver o veículo ao lado, o motorista acelerou e deu no meio do carro dos rapazes, que desceram no mesmo momento e tentaram partir para a violência, cobrando do motorista do ônibus uma atitude. Seis carros da polícia passaram ao lado, e não pararam para resolver o imbróglio, que terminou em um bate boca (e em um quase racha na Castelo Branco: isso mesmo, um racha com quase 100 pessoas num ônibus).

Assim que o ônibus passou pela área de congestionamento (causada pela junção da saída do estacionamento simples – em quatro faixas – com a estrada que trazia os ônibus da entrada principal), um grupo de pessoas com pedras tentava quebrar os vidros do ônibus ante a negativa do embarque. Junto, o rapaz da Meriva incitava o quebra quebra. A polícia, a 100 metros, só dispersou o público quando o motorista, após alguns minutos de tensão, sinalizou com os faróis que havia algo errado.

Assim que entrou na Rodovia Castelo Branco, após alguns metros emparelhado com a Meriva detonada, o ônibus seguiu seu trajeto até o Bolsão do Kartódromo. O trajeto que custou 25 minutos na vinda, às 16h, demorou 3h30 durante a madrugada. Segundo tweets, como o do Fabricio Vianna (@fabriciovianna), “teve uma galera que colocou fogo na passagem pra não descer mais de ônibus”. Já o Alexandre Pera (@alexandrepera), “as fichas de alimentação acabaram. A cerveja que era tabelada, aumentou”.

A noite para a Letícia Ribeiro (@anthems_antics) foi ainda mais traumática: “Cara, devolvemos nossos ingressos de hj pq fomos roubados por uns carecas em pleno show do RATM! Foi muito tenso! Nós reagimos ao roubo, mas não tinha segurança por perto! E a galera de fora balançava nosso ônibus”. Se musicalmente, a primeira noite tinha sido ok sem grandes destaques (talvez o coito interrompido do RATM), a desorganização na saída simplesmente transformou um cenário de festa em um caos, quase um campo de guerra.

outubro 10, 2010   Encha o copo