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Três filmes: 127 Hours, True Grit, Winter’s Bone

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“127 Horas” (“127 Hours”, 2010)
Se a história verídica do alpinista Aron Ralston tivesse caído nas mãos de 90% dos outros diretores, bem provável que estaríamos diante de um filme de auto-ajuda buscando valorizar a vida, pieguice pura. Mas, como escreveram certa vez, se o demônio quiser, todo Keith Richards irá encontrar o seu Mick Jagger. E assim, nas mãos do Danny Boyle e com a presença magnética de James Franco, “127 Horas” se transforma em um poderoso thriller que resiste aos ataques de pirotecnia do diretor (closes de dentro da garrafa de água, de raio x do braço sendo atravessado pela faca). Aliás, os momentos mais brilhantes do filme são todos méritos de Boyle: a garrafa de Gatorade esquecida, a chegada diária do sol e a ilusão da chuva. É preciso ter estômago forte para não tirar o olhar da tela, mas a certeza que fica é de que Boyle (que assina o roteiro com Simon Beaufoy) acertou novamente.

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“Bravura Indômita” (“True Grit”, 2010)
Após o fiasco do ótimo “Um Homem Sério” (2009) nas bilheterias (custou US$ 10 milhões, arrecadou ‘apenas’ R$ 27 milhões enquanto o ok “Queime Antes de Ler”, de 2008, somou US$ 164 milhões de bilheteria), os irmãos Coen resgatam um faroeste clássico e, vejam só, batem seu recorde próprio de arrecadação: US$ 170 milhões. Dinheiro não quer dizer muita coisa pra você, que ama cinema (a título de curiosidade, o maravilhoso “O Homem Que Não Estava Lá”, de 2001, não chegou nem a US$ 19 milhões), mas este remake de um faroeste clássico dos anos 60 até pode ter lá seus méritos (atuações brilhantes de Jeff Bridges, Matt Damon e de Hailee Steinfeld mais uma fotografia belíssima), mas é um filme menor dos irmãos Coen. A ironia da dupla surge aqui e ali em rompantes brilhantes, porém a impressão é que a reverência ao gênero matou a irreverência dos irmãos. Ainda assim, uma boa diversão.

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“O Inverno da Alma” (“Winter’s Bone”, 2010)
Um dos bons filmes da (fraca) temporada passada, “O Inverno da Alma” pega a fórmula clássica de se contar uma história no cinema, e não inventa. Para a fórmula dar certo é preciso atenção aos detalhes que compõe o todo, e a diretora Debra Granik (que assina o bom roteiro a quatro mãos com Anne Rosellini) está bem assessorada num filme de fotografia delicada e grandes atuações do elenco, com destaque para os oscarizaveis John Hawkes e Jennifer Lawrence. Esqueça a musa que fez o tapete vermelho do Oscar entrar em transe. Jennifer sofre na pele de Ree Dolly, uma jovem condenada pela vida, responsável por cuidar de dois irmãos menores, uma mãe louca e um pai traficante em uma terra de ninguém, as montanhas Ozarks, no estado americano do Missouri (ambiente do romance de Daniel Woodrell, que deu origem ao filme). Para quem acha a vida bela, é bom lembrar do inverno.

Leia também:
– “Quem Quer Ser Um Milionário”, um Danny Boyle definitivo (aqui)
– O humor transforma ‘Um Homem Sério” em grande filme (aqui)

março 7, 2011   1 Brinde

Uma estranha reunião de fantasmas

“Só voltei a Los Angeles em 1972, para a apresentação de ‘O Discreto Charme da Burguesia’ no festival. Reencontrei com prazer as calmas alamedas de Beverly Hills, a impressão de ordem e segurança, a amabilidade americana. Um dia, recebi o convite de George Cuckor para almoçar, convite inesperado, pois eu não o conhecia. (…) Também haveria, ele disse, ‘alguns amigos’.

Foi na realidade um almoço extraordinário. Primeiros a chegar à magnífica mansão de Cuckor, que nos recebeu calorosamente, vimos entrar, semicarregado por uma espécie de escravo negro com músculos consideráveis, um velho espectro cambaleante, venda no olho, que reconheci como John Ford. Eu nunca estivera com ele. Para minha grande surpresa, pois julgava que ele ignorava a minha existência, veio sentar ao meu lado num sofá e se disse feliz por me saber de volta a Hollywood. Contou inclusive que estava preparando um filme – ‘a big western’. Mas ele morreu alguns meses depois.

Nesse momento da conversa, ouvimos uns passinhos se arrastando no assoalho. Virei e vi Hitchcock, que entrava na sala, todo róseo e roliço, e se dirigia para mim com os braços estendidos. Eu tampouco o conhecia, mas sabia que por diversas vezes havia me tecido elogios publicamente. Veio sentar ao meu lado, depois exigiu ficar à minha esquerda durante o almoço. Com uma das mãos em volta do meu pescoço, meio deitado no meu ombro, não cessava de falar de sua adega, de seu regime (comia muito pouco) e sobretudo da perna cortada de ‘Tristana’: “Ah, aquela perna…’.

Em seguida chegaram William Wyler, Billy Wilder, George Stevens, Ruben Mamoulian, Robert Wise e um diretor muito mais novo, Robert Mulligan. Passamos à mesa após alguns aperitivos, na penumbra de uma grande sala de jantar iluminada por candelabros. Em minha homenagem realizava-se uma estranha reunião de fantasmas que nunca haviam se reunido antes, todos falando dos ‘good old days’, os bons e velhos tempos. De ‘Ben Hur’ a ‘Amor, Sublime Amor’, de ‘Quanto Mais Quente Melhor’ a ‘Interlúdio’, de ‘No Tempo das Diligências’ a ‘Assim Caminha a Humanidade’, quantos filmes ao redor daquela mesa…

Depois da refeição, alguém teve a idéia de mandar chamar um fotógrafo da imprensa para tirar o retrato da família. A fotografia devia ser o ‘collector’s items’ do ano. Infelizmente, John Ford não figura nela. Seu escravo negro voltara para pegá-lo no meio do almoço. Ele nos disse até logo debilmente e, esbarrando nas mesas, partiu para não mais nos ver. (…)

No dia seguinte, Fritz Lang me convidou para visitá-lo em sua casa. Muito cansado, ele não pudera comparecer ao almoço na casa de Cukor. Eu tinha 72 anos na época. Fritz Lang já passava dos oitenta. Nos encontrávamos pela primeira vez. Conversamos durante uma hora e tive tempo de lhe dizer o papel decisivo que todos os seus filmes haviam representado na escolha da minha vida. Depois, antes de me despedir – isso não está nos meus hábitos –, pedi que me dedicasse uma fotografia. Bastante surpreso, procurou uma e autografou para mim. (…) Uma dedicatória maravilhosa. Em seguida, me despedi e voltei para o hotel. Não sei direito o que fiz com essa fotografia”.

Luis Buñuel em “Meu Último Suspiro” (Cosac Naify)

A foto: Los Angeles, 1972 (from left to right standing) Robert Mulligan, William Wyler, George Cukor, Robert Wise, Jean-Claude Carrière, Serge Silberman; sentados) Billy Wilder, George Stevens, Buñuel, Alfred Hitchcock, Rouben Mamoulian.

março 6, 2011   Encha o copo

Cinco fotos: Madri

Clique na imagem se quiser vê-la maior

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Janela

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Quadro

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Os Irmãos

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Luzes para Gaudi

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A Menina

Veja mais imagens de cidades no link “cinco fotos” (aqui)

março 4, 2011   Encha o copo

Roteiro: EUA e Europa 2011

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Estou endividado até não sei quando de 2011, mas bora para o Primavera Sound. A Lan Chile deu uma pirada e começou a vender passagens de São Paulo para Madri (conexão Santiago, 20 e tantas horas de viagem) por R$ 950, taxas inclusas. No site da Lan (e nas lojas) eles dividem em 10 vezes. O escritório da Lan, em São Paulo, fica na Rua da Consolação, 247 12° andar Conj. B.

Fato é que baixo em Barcelona dia 25/05 na compania de Marco Tomazzoni e Tiago Agostini para ver o Primavera Sound e, depois, esticar para Amsterdã e qualquer lugar do território europeu que James Dean Bradfield anunciar um show do Manic Street Preachers (ou que Dave Grohl aparecer com o Foo Fighters). Vão ser só 10 dias, mas tem pela frente Flaming Lips, Pulp, Sufjan Stevens, Belle & Sebastian, The National, Mogwai, Fleet Foxes e mais.

06/04 – São Paulo / Nova York
07/04 – Nova York
08/04 – Nova York (Aimee Mann)
09/04 – Nova York (Sebadoh)
10/04 – Nova York (Rush)
11/04 – Nova York
12/04 – Nova York / San Francisco
13/04 – San Francisco (Broken Social Scene)
14/04 – San Francisco (PJ Harvey)
15/04 – San Francisco/ Índio (Coachella)
16/04 – Índio (Coachella)
17/04 – Índio (Coachella)
18/04 – Los Angeles
19/04 – Los Angeles
20/04 – Los Angeles
21/04 – Los Angeles / Chicago
22/04 – Chicago (Arcade Fire + National)
23/04 – Chicago / Columbus (Decemberists)
24/04 – Columbus / Chicago / São Paulo

Outros shows possíveis
MEN, no Music Hall Of Williamsburg, 07/04 (New York)
Bright Eyes no Fox Theater, 12/04 (Oakland)
Klaxons no Fillmore, 12/04 (San Francisco)
CSS, na Glass House, 18/04 (Pomona)
The Go! Team, no Echoplex, 19/04 (Los Angeles)
Paul Simon, Pantages Theatre, 20/04 (Los Angeles)
Low, no Lincoln Hall, 21/04 (Chicago)

25/05 – Barcelona – Primavera Sound
26/05 – Barcelona – Primavera Sound
27/05 – Barcelona – Primavera Sound
28/05 – Barcelona – Primavera Sound
29/05 – Barcelona – Primavera Sound
30/05 – Amsterdã
31/05 – Amsterdã – PJ Harvey
01/06 – ?
02/06 – ?
03/06 – ?
04/06 – Madri
05/06 – São Paulo

Outros shows possíveis: Londres
Art Brut, no The Lexington, 01, 02 e 03 de junho (Londres)
Fleet Foxes, HMV Hammersmith Apollo, 01, 02 de junho (Londres)
Two Door Cinema Club, O2 Academy Brixton, 03/06 (Londres)
Jerry Seinfeld, The O2, 03/06 (Londres)

Berlim
Caribou, no Astra, 01/06 (Berlim)
Roger Waters: The Wall Live no SAP Arena, 03/06 (Mannheim)
Rock am Ring 2001, 03/06 (Nürburgring)

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março 4, 2011   Encha o copo

Opinião do Consumidor: Theresianer

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O nascimento da cervejaria ítalo-austriaca Theresianer remonta ao período em que Trieste pertencia a Áustria. Mais precisamente em 1766, quando um austríaco obteve permissão de Maria Teresa da Áustria (arquiduquesa e soberana da Áustria, Hungria, Bohemia, Croácia, Mântua, Milão, Galícia, Lodomeria, Parma e Países Baixos Austríacos entre 1740 e 1780) para abrir a primeira cervejaria da cidade – seguindo o modo austríaco de fazer cerveja.

O nome da cervejaria homenageia o bairro Borgo Teresiano, em Trieste, próximo ao porto da cidade e ao Grande Canal, mas a cervejaria se encontra mais afastada do Mar Adriático, aos pés das Dolomitas, cadeia montanhosa dos Alpes orientais no norte da Itália, na cidade de Nervesa della Battaglia, província de Treviso (terra dos Callegari – pertinho, bem pertinho de Veneza). Ou seja, um local de água pura, ingrediente especial para qualquer boa cerveja.

A versão Premium Pils da Theresianer é uma pilsner que segue o padrão tcheco de qualidade: ela é bastante leve, muito mais loira e dourada que as novas pilsens, e mais lupulada também. O aroma destaca uma briga equilibrada entre malte e lúpulo (se alternando). Já o paladar, levíssimo, tem o lúpulo à frente do malte. O amargor característico persiste desde o primeiro toque na língua até o final duradouro, que marca a garganta. Uma pilsener belíssima e acima da média.

Se a pilsner dos italianos já é recomendável, a pale ale é ainda mais surpreendente. Assim como a loura da cervejaria, a Theresianer Pale Ale é levíssima e pouco amarga, ficando mais próxima das Pale Ale belgas do que das inglesas. O aroma carrega na intensidade do adocicado e do frutado (laranja, mel e caramelo) ao lado do malte e do lúpulo (ambos tímidos), que permanecem no sabor (com o álcool marcando presença discretamente) até o seu final extremamente suave. Para procurar em Roma e Veneza.

Além da Theresianer Premium Pils e da Theresianer Pale Ale, a Casa da Cerveja está trazendo para o Brasil a premiada Theresianer Vienna, que foi a que menos me conquistou do trio. As características estão todas ali: a cor acobreada, o aroma maltado e o sabor entre o caramelado e o amargo, mas ela não parece tão saborosa (a da Brooklyn, por exemplo, é maravilhosa, vá atrás), além de ser um pouquinho aguada e não tão amarga. É boa, mas perde para irmãs de estilo.

Teste de Qualidade: Theresianer

– Theresianer Premium Pils
– Produto: Pilsner
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,08/5

– Theresianer Pale Ale
– Produto: Pale Ale
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 6,5%
– Nota: 3,15/5

– Theresianer Vienna
– Produto: Vienna Lager
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 5,3%
– Nota: 3,03/5

A Theresianer pode ser encontrada no Empório do Shopping Frei Caneca ou mesmo na loja da Casa da Cerveja (Rua Lisboa, 502, Pinheiros, São Paulo), todas com preço girando entre R$ 12 e R$ 15 (a garrafa de 330 ml).

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março 3, 2011   Encha o copo

Três filmes: a revolução, a família e os culpados

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“Zabriskie Point” (“Zabriskie Point”, 1970)
Segundo de uma série de três filmes em inglês dirigidos por Michelangelo Antonioni para a MGM, o problemático “Zabriskie Point” antecedeu o excelente “Blowup” (1966) e precedeu o bom (e também problemático) “O Passageiro” (1975). O cineasta italiano desejava desenhar um retrato da contracultura norte-americana dos anos 60, mas foi sabotado pelo próprio estúdio, que censurou várias cenas, prejudicando o resultado final, desfocado e distante. Para os papéis foram escalados jovens sem experiência com o cinema, o que deu certa verossimilhança ao filme, mas tirou uma das marcas do cinema de Antonioni, a profundidade. Ao tentar atacar o capitalismo, sem sucesso, “Zabriskie Point” tornou-se uma peça de museu (empoeirada e datada) em que se podem flagrar vestígios de poesia, mas que está muito aquém do grande cinema assinado pelo cineasta.

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“Minhas Mães e Meu Pai” (“The Kids Are Alright”, 2010)
Filme mais fraco da lista de 10 indicados ao Oscar de 2011, “Minhas Mães e Meu Pai” (parabéns ao tradutor brasileiro pelo título ridículo) poderia funcionar com um bom veículo para reviver a TFP, se o órgão houvesse se modernizado, claro. Afinal, aqui a tradição é abandonada (o casal é formado por duas mulheres, mães de duas crianças por inseminação artificial), mas a família é defendida a todo custo. Em “The Kids Are Alright” as mulheres são inteligentes (espirituosas, abertas), os homens são burros (e nasceram apenas para ferrar a vida das mulheres), os mexicanos drogados e as crianças patetas (o personagem mais caricato do ano se chama Clay). Lisa Cholodenko (que assina a direção e roteiro) inspirou-se em estereótipos, mas não conseguiu dar vida à história nem sentido aos seus personagens resultando em um filme patético.

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“Trabalho Interno” (“Inside Job”, 2010)
Se existe um único filme obrigatório do ano passado a ser visto imediatamente, o filme é este. “Inside Job”, ainda em cartaz em algumas salas brasileiras, vasculha a podridão de Wall Street que resultou na crise financeira mundial de 2008. Narrado por Matt Damon, “Trabalho Interno” começa de forma didática analisando a quebra de três bancos islandeses, e depois mira a câmera para grandes corporações norte-americanas, desde empresas de crédito, de capital de risco, agências de avaliação, universidades famosas (com professores de economia compactuados em não mudar a lei para não perderem dinheiro) e, claro, o governo norte-americano (começando com Reagan, piorando com Clinton e encontrando o inferno na gestão Bush), local que (ainda) abriga a maioria dos envolvidos no escândalo que ferrou a vida de milhões de pessoas (enquanto integrantes do grupo ganhavam bônus milionários de suas empresas). Cinema político de altíssima qualidade.

Leia também:
– Hitchcock, Antonioni, Allen e Almodóvar (aqui)
– “35 Doses de Rum”, “Fados” e “As Amigas” (aqui)

fevereiro 27, 2011   Encha o copo

A linha clássica belga da Wäls

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O trio de fource da excelente cervejaria Wäls (da região da Pampulha, em Minas Gerais) têm apenas quatro anos de vida, mas são tão especiais e deliciosas quantos as milenares cervejas alemãs ou belgas. A cervejaria, por sua vez, nasceu em 1999, e começou fabricando chopes Pilsen, Stout e English Pale Ale para a rede de fast-food do patriarca da família, e só foi se aventurar nas belgas em 2007.

A Wäls continua fabricando os chopes além de engarrafar uma versão Pílsen Bohemia (também de receita belga), mas desde 2007 adentrou o território strong ale de cervejas, primeiro lançando a elogiada versão Dubbel (bastante tradicional), e nos dois anos seguintes surgindo com as sensacionais versões Trippel (2008) e Quadruppel (2009), a última a mais forte da casa, e desde já uma das melhores cervejas brasileiras.

A ideia pessoal era começar pela Dubbel (7,5%) e então passar para a Tripel (9%), mas na hora de fazer a foto, me enrolei e quando vi já havia enchido o copo com a complexa, assustadora e sensacional Quadruppel, 11% de teor alcoólico embrenhado em meio a um aroma adocicado que lembra caramelo, ameixa e uvas passas e prepara o paladar para uma experiência especialíssima.

A Quadruppel consegue conciliar com brilhantismo a imensa quantidade de álcool (que aqui remete diretamente a melhor cachaça mineira, como avisa a fórmula) com um adocicado que lembra ameixa, café (mas de forma bem leve), malte e caramelo, que permeiam a boca durante toda a passagem, deixando no final um ponto de amargor (característico de cachaça) que finaliza uma cerveja excepcional.

Eis uma cerveja encorpada e forte, mas não agressiva. Seu principal diferencial surge na maturação, quando são inseridos chips de carvalho que, antes, foram deixados marinando em cachaça mineira – e esse processo confere extrema personalidade ao conjunto. A cerveja continua sendo refermentada na garrafa. A validade desta que provei era outubro de 2013.

Após se encantar com a Quadruppel, a versão Trippel parece ser a cerveja mais leve do mundo. Não é bem assim. São 9% de graduação alcoólica, que seguindo a tradição belga, desaparecem no conjunto harmonioso. Aqui não há cachaça para rebater o adocicado, apesar de o aroma destacar o álcool em meio a notas de malte, coentro e casca de laranja (todos integrantes da formulação da Trippel), além de mel.

Ao primeiro toque na língua, o álcool se faz marcante, mas desaparece logo em seguida dando lugar a um dulçor que permanecerá durante toda a ingestão. Esse adocicado é embalado por frutado (lembrando algo de banana, mas bastante distante de uma Weiss, e algo de laranja) e um pouco de malte (que remete bastante a mel). No final, longo, o álcool volta a marcar presença. Uma bela cerveja, menos complexa e interessante que a Quadruppel, mas ainda assim especial.

Por fim, aquela que deveria ser a primeira: a Dubbel. Imagino que começando por ela, depois pela Trippel e terminando na Quadruppel, a empolgação seja maior. Mas quando se começa pela melhor, o paladar cobra um pouco mais. Importante ressaltar, as três cervejas têm personalidade definida ao ponto de uma se diferenciar bastante da outra. A Dubbel é a mais tradicional das três chegando a lembrar bastante as strong ales belgas (diferente da Quadruppel, cujo cachaça a torna praticamente única).

No aroma, a Dubbel traz as características notas de nozes, frutas secas, uvas passas, caramelo e café (os dois últimos em menor quantidade), com um pouquinho de álcool (são 7.5% de graduação) muito bem inserido no conjunto (como uma boa belga). Na boca ela impressiona mais. O começo valsa entre o adocicado e o amargo, numa complexidade deliciosa que remete a ameixa e malte, finalizando com um seco e levemente amargo (em teste cego, muitos diriam estar diante de uma belga original). Ainda que inferior as suas irmãs, uma cerveja excelente.

Wäls Dubbel
– Estilo: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 4,00/5

Wäls Trippel
– Estilo: Belgian Trippel
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,99/5

Wäls Quadruppel
– Estilo: Belgian Quadrupel
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 11%
– Nota: 4,22/5

fevereiro 26, 2011   Encha o copo

O que aconteceu com o surrealismo?

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Buñuel por Dali

“Volta e meia me perguntam o que aconteceu com o surrealismo. Não sei muito bem o que responder. Às vezes digo que o surrealismo triunfou no supérfluo e fracassou no essencial. André Breton, Éluard, Aragon estão entre os melhores escritores franceses do século XX, ocupando seu espaço em todas as bibliotecas. Max Ernst, Magritte, Dalí estão entre os pintores mais caros, reconhecidos, ocupando seu lugar em todos os museus. Reconhecimento artístico e sucesso cultural, justamente aquilo a que a maioria de nós não dava a mínima importância. A preocupação maior do movimento surrealista não era entrar gloriosamente na história da literatura e da pintura. O que ele deseja acima de tudo, desejo imperioso e irrealizável, era transformar o mundo e mudar a vida. Nesse aspecto – essencial –, um breve olhar ao redor mostra claramente o nosso fracasso.

Claro, não podia ser de outra forma. Hoje medimos o espaço intimo que o surrealismo ocupava no mundo em relação às forças incalculáveis e sempre renovadas da realidade histórica. Devorados por sonhos do tamanho da terra, não éramos nada – apenas um grupo de intelectuais insolentes que confabulavam num café e publicavam uma revista. Um punhado de idealistas instantaneamente divididos quando se tratava de participar de forma direta e violenta da ação.

Entretanto, conservei a minha vida inteira algo da minha passagem – pouco mais de três anos – pelas fileiras exaltadas e desorganizadas do surrealismo. Em primeiro lugar, esse livre acesso às profundezas do ser, reconhecido e almejado, esse apelo ao irracional, à obscuridade. Apelo que reverberava pela primeira vez com aquela força, aquela coragem, e que se aureolava de uma rara insolência, de um gosto pelo jogo, de uma perseverança tenaz no combate contra tudo o que nos parecia nefasto. Não reneguei nada disso”.

Luis Buñuel em “Meu Último Suspiro” (Cosac Naify)

Leia também
– “O bar é um exercício de solidão”, por Luis Buñuel (aqui)
– Uma estranha reunião de fantasmas, por Luis Buñuel (aqui)
– De Stanley Kubrick para Luis Buñuel, por Marcelo Costa (aqui)

fevereiro 25, 2011   Encha o copo

Aimee Mann e Sebadoh no roteiro EUA

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O primeiro show da viagem será visto neste teatrinho ae: Aimee Mann, na terceira fila do Forum Theatre Arts Center. O roteiro não mudou em nada, mas acrescentamos alguns shows. Optamos por Aimee no lugar do Hold Steady e Sebadoh no Bowery Ballroom no lugar do Greenhornes. De resto, tudo certo: PJ em São Francisco (talvez Brigth Eyes), Arcade Fire e National em Chicago e… Decemberists em Port Columbus.

06/04 – São Paulo / Nova York
07/04 – Nova York
08/04 – Nova York (Aimee Mann)
09/04 – Nova York (Sebadoh)
10/04 – Nova York (Rush)
11/04 – Nova York
12/04 – Nova York / San Francisco
13/04 – San Francisco
14/04 – San Francisco (PJ Harvey)
15/04 – San Francisco/ Índio (Coachella)
16/04 – Índio (Coachella)
17/04 – Índio (Coachella)
18/04 – Los Angeles
19/04 – Los Angeles
20/04 – Los Angeles
21/04 – Los Angeles / Chicago
22/04 – Chicago (Arcade Fire + National)
23/04 – Chicago / Columbus (Decemberists)
24/04 – Columbus / Chicago / São Paulo

Bright Eyes no Fox Theater, 12/04 (Oakland)
Klaxons no Fillmore, 12/04 (San Francisco)
Animal Collective no Great A. Music Hall, 13/04 (SF) Sold Out

fevereiro 22, 2011   Encha o copo

Sobre relacionamentos

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“Bem, muita gente vai torcer o nariz por estarmos usando este espaço para falar de algo tão idiota quanto o amor, mas será que o amor é que é idiota ou somos nós que adoramos complicas as coisas? E não tem jeito, você pode ser punk, brega, grunge, britpop, MPB, banger, trasher, hippie, hop ou até fã do Cebolinha, mas você não escapa, ninguém escapa de um relacionamento”.

Maio de 1999. A gente já tinha colocado dois fanzines na praça. O #2 trazia Chris Isaak na capa enquanto o #3 (veja aqui) estampava Ian McCulloch, do Echo and The Bunnymen (o #1, com o Kiss em destaque, só circulou entre amigos em fevereiro de 1997). Para o volume #4, pensei que seria legal provocar dedicando um fanzine inteiro ao tema “relacionamentos”.

A ideia era distribuí-lo no Dia dos Namorados, em junho, e assim nasceu a quarta edição do fanzine Scream & Yell. Emprestei a arte de um single do U2 para a capa (“If God Will Send His Angels”), e contei com muita ajuda da Karina, que me ensinou pagemaker e deu a maior força na edição.

Na primeira página, citação do grande zine SSP-Go, do chapa Mauricio Mota, declaração de amor a duas personagens de Dawson’s Creek e, daí em diante, vários textos românticos. A grande peça desta edição era um texto enorme que ocupava a página central do zine, chamado “Uma garota, colo e Smashing Pumpkis”, que pode ser resumidos com a teoria dos três gens – decorado com um coração baleado, imagem emprestada da comédia romântica roqueira “A Life Less Ordinary” (que colorida é tão mais bonita).

Tem texto do Thales de Menezes falando sobre Romance Rock and Roll, e um dos meus raros poemas que geralmente gosto mesmo em meus dias negros (quando tenho vontade de queimar ao menos 1800 dos 2000 poemas que escrevi). A resposta ao fanzine foi bem legal, e recebemos várias citações em diversos jornais pelo País, o que abriu caminho para a exagerada e problemática edição 5 (com Kevin Smith na capa) e para a redondinha edição 6 (Jerry Lee Lewis).

O Jamer, do ótimo Zinescópio, fez o grande favor de escanear a edição 4 do Scream & Yell e colocar para download no blog. Nessa época eu ainda morava em Taubaté, tinha deixado a biblioteca da Faculdade de Direito (após cinco ótimos anos) e estava começando um novo trabalho na Secretária de Pró-Extensão da universidade. Se alguém me perguntasse como as coisas estariam 10 anos depois, nem em meus sonhos mais bem humorados eu pintaria o retrato do que vivo hoje. E é um belo retrato.

Se você quiser ver como foram os primórdios do Scream & Yell, é só clicar aqui e baixar o PDF do arquivo. Bons tempos.

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fevereiro 21, 2011   Encha o copo