Discutindo música e mercado
Oito perguntas do jornalista Yuri de Castro (de março de 2014) “tateando para ir definindo um trabalho futuro”.
Lembro-me de uma impressão do show de estreia de “Cavalo”, de Rodrigo Amarante. Cito esse por ser o lançamento mais recente da geração do bode jornalístico. Os adjetivos para com a obra deram a impressão de monotonia, sonolência e até uma certa pretensão enrustida de despretensão. Não é regra, mas boa parte dos seus pares de redação se aproximaram dessa visão sobre o álbum e show. No entanto, meus pares (nascidos quase em 90) demonstraram uma certa vontade de interpretar o álbum como um movimento avante ainda que de passos lentos. Experimental. Como se não houvesse ali uma obrigação de fazer sucesso. Me desculpando pelo tamanho da questão e colocando em cheque uma certa intolerância da crônica musical mais tradicional no Brasil com o som da galera barbudinha-descolada, pergunto-lhe: você acha que o pós-Los Hermanos já nasceu mal fadado para quem não aceitou o jeito de uma geração em transição com conceitos de indústria musical?
Mais ou menos. O Los Hermanos foi aceito e respeitado, mas criou uma redoma em torno de si que fez com que imprensa se afastasse e o público os idolatrasse. Criou-se uma certa birra da imprensa com a pretensa intelectualização da música (e da atitude) desses caras, mas não vejo conflito de geração, pelo contrário, vejo a reafirmação da brasilidade que o rock nacional dos anos 80 começou negando, e que Paralamas acabou abraçando (ainda que fizesse mais reggae que samba). O Los Hermanos tinha público e imprensa nas mãos. Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo ainda tem o público nas mãos. No fim das contas, cada geração olha para um objeto de arte com a bagagem que tem. Costumo brincar (falando a verdade) que um texto pode dizer mais sobre quem escreve do que, necessariamente, sobre o objeto que o inspirou.
Se faltou empolgação para o trato com bandas como Mombojó, sobram mimos para o som de novatos como o SILVA, a Mahmundi (particulamente sou pouco simpático aos últimos). Você crê em alguma preguiça dos mais calejados em relação a um certo resgate de alguma “brasilidade” (”filhos do manguebeat”, já li certa vez para o Mombojó) e mais boa vontade com quem se aproxima de uma estética mais etérea e internacional?
Quem diz que faltou empolgação com o Mombojó? “Nadadenovo” foi celebradissimo, e na votação de Melhores dos Anos 00 ficou atrás apenas de Cidadão Instigado e Los Hermanos. O que acontece é que havia uma expectativa que esse disco fizesse o crossover do indie para o mainstream, o que não aconteceu porque a banda pegou a indústria em um momento de queda. Ou seja, eles foram atrapalhados pela bolha (e também pela inocência daqueles que acreditavam que um disco encartado numa revista pudesse chegar às rádios por si só, sem jabá). SILVA surgiu em um outro momento. Se fosse o contrário, com SILVA lançando seu primeiro disco em 2004 por uma revista e Mombojó estreando em 2010, as coisas seriam diferentes para cada um deles.
Eu queria saber o que você acha muito ruim hoje em dia.
Tento não perder tempo com coisas ruins, pois nem as boas eu consigo prestar atenção.
Não é difícil separar um punhado de artistas que vão ficar no caminho do esquecimento. No Rio, o Letuce mesmo conseguindo soar um tantinho experimental pop nunca conseguiu o mínimo de expressão; em São Paulo, Fábio Goes escreveu belas canções pro nada. É claro que todo mundo conhece Nação Zumbi, mas poucas pessoas talvez saibam o quão ainda forte é esta banda em cima do palco e, inclusive, nos álbuns recentes. A culpa é nossa? A culpa é de um todo? A culpa é de um público que demorou a entender os canais de busca independente?
Artistas bacanas ficam no esquecimento desde sempre. Big Star é um caso desses. O fato é que o mundo mudou, a internet entrou na vida das pessoas e a relação com a música é outra. Não há juízo de valor aqui. Além é preciso pensar em como a música chega para o público. As rádios, desde que a Abril Music entrou no mercado aumentando o valor do jabá (e estourando Los Hermanos), estão falidas, viraram dial de publicidade, em que uma música x está ali para vender tanto quanto uma propaganda de margarina. Como Letuce vai chegar ao grande publico se não toca na rádio e nem na TV? O público consome o que lhe é oferecido. A grande massa não quer ir atrás do novo, ela quer pagar aluguel, trabalhar, viver e, no tempo livre, ter algo que a conecte com os outros ao seu redor. Desde sempre vivemos em nichos e precisamos de conexão. Torcidas organizadas, partidos políticos, fã-clube, a turma do boteco, o baile funk, tudo isso é uma forma de cada pessoa se sentir parte de algo, sentir que existe. Todos vivem em uma enorme zona de conforto, mas não dá para culpar ninguém. Ou será que dá?
Se formos montar uma linha do tempo, não creio ser algo chocho uma linha de frente com Curumin, Emicida, Criolo, Tulipa Ruiz, Metá Metá (estes só em SP). Todos possuem boas assessorias, obras que explicam um período de música pop no Brasil, estão na maior cidade do Brasil. Afinal, por que ainda reclamamos que não se faz música interessante no Brasil? Por que ainda há resquícios de implicância com um certo “circuito SESC” se este é o único que consegue fazê-los tocar? Há culpa artística nesse processo? Ou é apenas “deu azar de nascer agora em tempos de vacas magras”?
Respondo com o abre do texto que escrevi para o site português Bodyspace: “A música brasileira vive um de seus melhores períodos em toda sua história”. Ou seja, não me encaixo nesse “ainda reclamamos”. Sobre a implicância com o circuito SESC, acho que surge mais da “concorrência”, de gente que não consegue manter o mesmo padrão de cachês. Claro, o circuito SESC também colaborou no que tange abraçar um certo número de sonoridades e de artistas, seguir uma linha de “indie sambinha”, mas até isso já ficou para trás e vejo cada vez mais espaços dentro dessa programação para estilos variados. Todos os estilos precisam ter espaço, até o indie sambinha.
Tentou-se emplacar Cachorro Grande; teve Gram. Hoje, temos Nevilton. Tivemos uma leva mais mainstream-Bonadio: CPM22, Hateen. É possível que hoje todos toquem nas mesmas casas noturnas (vazias). Esvaziamos o rock no Brasil com tantas tentativas?
Quando você escreve “esvaziamos”, você diz respeito a quem? Não sou dono de gravadora, não pago jabá e não me importo se o cara é rock, rap ou samba, mas sim se ele é bom. A questão, no entanto, é: será que o rock representa a molecada de 12, 14 anos, de hoje em dia? O que as representa? A grande sacada da música pop, e talvez o que a faça especial, é que não há fórmula, e por mais que gravadoras tentem colocar goela abaixo do público artistas x e y, o público vai consumir o que ele quiser. E precisamos lidar com isso. Precisamos respeitar um público que escolhe CPM 22 a Nevilton. Porém, eu gostaria que o Nevilton tivesse o mesmo espaço que o CPM 22 teve (e o mesmo investimento). Dai talvez poderíamos mapear melhor os anseios da massa.
Aqui em SP. há uma parte da imprensa que implica a galera afrobeat. Se você citar Vanguart, ixi, pronto. Você reconhece que há uma má vontade? Se sim, por que? É assessoria voraz? No caso do Vanguart e congêneres é uma certa necessidade de convencimento que torna tudo mais grandioso do que é realmente — e isso afasta? Enfim, queria que você me falasse se reconhece que há já uma coisa contra — menos pelo talento, mais pelas impressões geradas. Não preciso citar que boa parte do jornalismo mais tradicional, por exemplo, não pode nem escutar o nome do Criolo. “Afetado”, “falso”, “fantoche”, é o que se ouve. Fique à vontade pra dizer o que pensa.
Há um gueto geracional que surgiu nos cadernos culturais dos grandes jornais no final dos anos 80, e que, naquele época, só admitia música estrangeira. É um fato. Mas precisamos sempre lembrar que imprensa são pessoas, e dai quando você começa a destrinchar as ideias desse ou daquele cara, talvez entenda que o fato de ele não gostar de Vanguart, por exemplo, é extremamente cabível no universo que ele vive – e que, muitas vezes, não tem nada a ver com o mundo real, que é o da noite, o dos shows, o das lojas de discos. Seria legal vasculhar as redações e perguntar para quem escreve de música a quantos shows ele foi no último ano, quantas vezes ele foi numa loja de discos nos últimos seis meses? Será que uma análise pode ser real feita dentro da redoma da redação? Há como entender o mundo observando tudo de sua baia? Embora alguns possam achar divertido, conhecer Amsterdam pelo Street View é bem diferente de caminhar por ela.
Volto um pouco. Não é difícil pra mim, mais novo, perceber uma certa falta de vontade com uma geração classe média, acostumada com as trocas de gosto no campus da faculdade pública. Hoje, no Twitter, caçoamos chamandos-os de “humanas.jpg”. Mas é uma geração que aprendeu a valorizar Novos Bahianos, sabe o valor do “Transa”, do Caetano Veloso e parece muito mais disposta a entender propostas menos retas, menos MTV — e por isso, parece disposta a tornar “Sou” de Marcelo Camelo um disco cult no prazo de 10 anos — justamente porque a mídia fez pouco caso. Qual seu grau de pessimismo em relação a tudo isso aí dessa pergunta?
Primeiro que colocar “Sou” na mesma frase que “Acabou Chorare” e “Transa” é uma heresia (risos). Cult? Não acredito. Marcelo Camelo só existe porque é um ex-Los Hermanos, e a banda teve uma carreira muito foda. A mídia não fez pouco caso: o disco tem lampejos de criatividade. Ainda assim, Camelo é responsável direto por essa geração aprender a valorizar Caetano, Chico, Novos Baianos. Nos anos 80, pré-abertura política, o cenário estava afundado na mesmice porque a Ditadura calou nossos maiores artistas. Após abertura política, o rock predominantemente inglês se traduziu como válvula de escape e, naquele momento, era importante fazer barulho, não dava para ser indie sambinha. A história vai seguir com Paralamas deixando Police pra trás e se tornando brasileiro, com Picassos Falsos, Raimundos e Mangue Beat (tudo crossover), mas o Brasil só se redescobre de verdade com “Bloco do Eu Sozinho”. Foi como se o Congresso Nacional baixasse uma lei: está permitido gostar de música brasileira. Exemplo prático: Maybees virando Ludov. O que acontece na sequencia é a derrocada da indústria, a falência das rádios e da MTv e, por fim, dos próprios Los Hermanos. Poucos setores da mídia hoje tem a força para respaldar uma cena. Ainda assim, o futuro é magnifico porque essa geração é excelente. Só que o mercado mudou. É preciso, agora, criar um novo mercado.
setembro 15, 2014 Encha o copo
Oito respostas para o Acesso Cultural
A jornalista Renata Souza, do Acesso Cultural, para uma pauta sobre a criação musical na era tecnológica. Leia o texto da Renata aqui. Abaixo minhas respostas…
Como começou seu envolvimento com a música? E atualmente? Fale um pouco do seu trabalho e um pouco do Scream e Yell.
Meu pai tinha uma vasta coleção de vinis nos anos 70, e eu sempre olhei aquilo com admiração. Hoje tenho mais de 10 mil discos (entre CDs e vinis e boxes) em casa, então acho que o envolvimento começou em casa. Para virar profissão eu precisei sair de Taubaté e vir trabalhar em São Paulo, e ainda assim demorou até eu migrar para a área de cultura, e enquanto isso não acontecia eu abastecia meu próprio site com aquilo que eu gostaria de ver nos grandes veículos. Este site, o Scream & Yell, existe desde 2000, e digamos que já passou da hora de descansar, mas vício é vício e a gente segue carregando ele até onde acha que consegue (pode ser semana que vem, pode ser em 2020, vá saber). Além dele escrevo sobre música e cultura para alguns veículos e, neste ano, assumi a curadoria do projeto Prata da Casa, do Sesc Pompéia, um sonho realizado que termina agora em dezembro (os sonhos bons duram pouco)
Quais as suas principais influencias musicais?
Não sei se tenho influências musicais, mas gostos de ideais passados pela música: nesse quesito, admiro muito o movimento punk e o DIY. Se fossem influências jornalísticas a lista seria imensa começando com Ana Maria Bahiana e André Forastieri e terminando na molecada que está escrevendo agora sobre música, e sempre surge com alguma boa ideia nova. Não dá para parar no tempo.
No cenário atual, quais bandas você indicaria como promissoras?
The Baggios, Molho Negro, Nevilton, Bruno Souto, Transmissor… a lista é enorme e o problema não é falta de bandas promissoras, mas de pessoas (e veículos) que as valorizem. A boa música está cada vez mais ampla no Brasil, e as pessoas precisam apenas descobrir isso.
Em sua opinião, qual a coisa mais legal na cena independente paulistana e o pior obstáculo?
A oportunidade de trocar ideias com músicos de diversos Estados: São Paulo está virando um nicho interessante que anda abrigando muitos nomes geniais da nova música, e essa turma toda aqui em São Paulo pode fazer coisas muito bacanas (e, claro, passar dificuldades: São Paulo não facilita). O pior obstáculo são a falta de bons espaços para as bandas se apresentarem e público interessado em conhecer o novo. A galera tá mais interessada em azaração em forró e barzinho de cover da Vila Madalena e da 13 de maio do que ouvir coisas instigantes. É uma pena.
O que você acha dos programas atuais de competição de bandas (Superstar, por exemplo)? E dos programas de auditório, como Raul Gil?
É um espaço na TV que precisa ser tomado, mas a curadoria, o corpo de jurados, tudo isso mais prejudica o artista do que ajuda. A sensação é de que todo mundo está a espera de uma piada, e não de uma boa canção.
A maioria dos críticos musicais atuais falam sobre um declínio na qualidade do cenário musical atual, principalmente do Rock e, principalmente, após os anos 90. Você concorda que falta qualidade, embora exista a internet que facilita o “nascimento” de novas bandas?
Discordo completamente. Quem fala isso é pai de família que não sai de casa para ver shows ou fica na redação até tarde fechando caderno acreditando que a gravadora vá enviar para ele o CD da próxima grande banda. Quem quer descobrir a qualidade do cenário tem que ir atrás das bandas.
Qual a importância da internet para a divulgação de bandas independentes?
Hoje em dia é vital. Fiz essa pergunta para cinco artistas que colocaram seus discos para download gratuito e todos eles, com veemência, disseram que o download os ajuda não só a vender shows, mas também a vender discos. A internet ajuda muito!
Até que ponto, em sua opinião, a imagem (visual de uma banda) é importante, além da qualidade musica.
Como diria aquela propaganda de refrigerante, “imagem não é nada, sede é tudo”. De nada adianta ter uma imagem e não ter grandes músicas. No mundo atual, é mais importante ser sincero do que ser “arrumadinho”. Até porque o marketing irá vender essa sinceridade. As camisas de flanela do Nirvana são prova disso.
setembro 11, 2014 Encha o copo
Marcelo Costa no Vitrola Verde

O Vitrola Verde é um programa em vídeo comandado pelo produtor musical, radialista, palestrante e professor César Gavin, e é uma bate papo agradabilíssimo sobre cultura pop, com alguns dos programas focados na coleção de discos dos entrevistados. Recebi César em casa e conversamos sobre jornalismo na internet, festivais internacionais, artistas e, claro, discos. Aproveitando já incluo abaixo, junto da minha entrevista, os bate papos imperdíveis de César Gavin com três grandes amigos: os jornalistas Sérgio Martins, Ricardo Alexandre e Regis Tadeu além de Sabrina Parlatore. Assista!
setembro 6, 2014 Encha o copo
Prata da Casa: Setembro de 2014

Após um mês de agosto mais próximo do jazz e do fusion (ainda que com acenos pop), a programação do Prata da Casa, do Sesc Pompeia, em setembro, valoriza o rock – que, dizem por ai, morreu. Para mostrar que o estilo está mais vivo do que nunca, a seleção aposta em quatro bandas elogiadas de quatro estados brasileiros fora do eixo Rio-São Paulo.De Sergipe e
com 10 anos de estrada surge a The Baggios, duo barulhento de guitarra e bateria que mostrará em São Paulo as canções de seu segundo disco, “Sina”, lançado em 2013 (falei dele aqui). O Pará marca presença com uma das bandas mais bacanas surgidas recentemente, o Molho Negro, combo de stoner que mostrará “Lobo”, seu (também) segundo álbum.
O Ceará está representado por Jonnata Doll e os Garotos Solventes, nome que atualiza a cena proto-punk nova-iorquina setentista para o Brasil do novo século. Já a Loomer, do Rio Grande do Sul, irá mostrar ao vivo as canções que compõe “You Wouldn’t Anyway”, álbum recém-lançado em vinil que mostra a paixão dos gaúchos por guitarras altas e microfonia.
O Prata da Casa acontece às terças-feiras, no Sesc Pompeia, a partir das 21h. Os ingressos gratuitos podem ser retirados nas bilheterias do Sesc Pompeia uma hora antes do show. Confira as quatro atrações de setembro:
THE BAGGIOS – 02/09
Com mais de 10 anos de carreira, o duo sergipano The Baggios já lançou dois álbuns, e o segundo deles, “Sina”, de 2013 (lançado em CD, em vinil verde e disponível para download aqui), é o disco certo no momento certo da banda, pois choca as influências setentistas (Led Zeppelin, Jimi Hendrix e Black Sabbath) assumidas de Julio Andrade (guitarra e voz) e Gabriel Carvalho (bateria) com uma azeitada pitada brasileira, como se Jimmy Page tivesse nascido no sertão e tocasse na banda de Alceu Valença. Gravado em Aracaju e masterizado em Seattle, “Sina” mostra que os limites da boa música brasileira estão cada vez mais amplos.
MOLHO NEGRO – 09/09
Uma das grandes canções do primeiro álbum deste trio paraense formado em 2012 avisa: “No iPod cabe de Gang do Eletro até At The Drive-In”, canta o vocalista e guitarrista João Lemos, mas o bom humor da letra de “Aparelhagem de Apartamento” (canção que ganhou um clipe divertido), no entanto, surge ambientado numa base potente de stoner rock sujo e dançante direto das garagens de Belém. Um dos destaques da mostra Terruá Pará 2013, o Molho Negro lançou em maio de 2014 seu segundo álbum, “Lobo” (ouça aqui), mantendo a porrada sonora em alta e fazendo da banda um dos principais nomes do novo rock brasileiro.
JONNATA DOLL E OS GAROTOS SOLVENTES – 16/09
Surgido em 2010 em Fortaleza, o quinteto Jonnata Doll e os Garotos Solventes adapta o protopunk nova-iorquino, elo entre a falência do sonho hippie no final dos anos 60 e o surgimento do punk rock na segunda metade dos 70, para a realidade brasileira. Seu álbum de estreia, lançado no primeiro semestre de 2014 e que leva apenas o nome da banda (ouça aqui), lapida as principais influências do grupo (Iggy Pop & The Stooges, Secos e Molhados, Richard Hell) e é um dos discos imperdíveis do ano. Nas letras, histórias de sexo, drogas, prisões, solidão e violência. No som, punk (tanto pré quanto pós) de alta qualidade.
LOOMER – 23/09
Muito barulho por tudo! Formada em 2008 em Porto Alegre, a Loomer precisou de apenas dois EPs (“Mind Drops”, de 2009 e “Coward Soul”, de 2010) para conquistar a atenção dos adeptos do noise e do shoegazer no Brasil. Não à toa, “You Wouldn’t Anyway”, o primeiro disco cheio da banda (com tiragem em vinil e disponível para download aqui), foi lançado em 2013 e envolveu três selos de respeito no cenário independente nacional – Midsummer Madness (RJ), responsável pela prensagem em vinil; Tranfusão Noise Records (RJ) e Sinewave (SP) apoiando no lançamento digital e masterização –, o que serve como atestado de qualidade para um grupo que aposta na distorção, na microfonia e no alto volume das guitarras.
setembro 2, 2014 Encha o copo
Prata da Casa #14: Baleia



Os convidados para fechar a programação do mês de agosto do Prata da Casa foram os cariocas do Baleia, uma das revelações da nova cena do Rio de Janeiro, e que já demonstra ter um público fiel e atento, que os acompanha marcando presença nos shows. Na Choperia do Sesc Pompeia não foi diferente: um excelente público marcou presença tomando a frente do palco 15 minutos antes do show começar…
E o show atrasou mais uns 5 minutos devido a um incidente técnico: a correria da guitarra de Felipe Ventura arrebentou pouco antes dele entrar no palco, e o músico improvisou com o cadarço do tênis. Do capítulo “vida de músico não é fácil, mas a gente se diverte”, já que a banda foi ovacionada pelos presentes, que cantaram todas as músicas e pularam muito no mix final que une Caymmi com Radiohead (“Noite de Temporal” / “Little by Little”). Excelente.
As fotos são de Liliane Callegari (mais aqui). Abaixo, dois vídeos.
agosto 30, 2014 Encha o copo
Stanley Kubrick por Martin Scorsese

Em 1999, alguns meses após a morte de Stanley Kubrick, não foi surpresa, no momento da estreia de “De Olhos Bem Fechados”, o fato de o filme ser tão mal compreendido. Quando olhamos para o passado e nos interessamos pelas reações, na época, aos filmes de Kubrick (com exceção dos mais recentes), percebemos que, a princípio, todos foram mal compreendidos. Somente depois de cinco ou dez anos acabávamos nos dando conta de que “2001: Uma Odisseia no Espaço” ou “Barry Lyndon” ou “O Iluminado” não eram parecidos com nada do que os havia precedido ou seguido.
Se Kubrick tivesse vivido o bastante para assistir ao lançamento de seu último filme, sem dúvida alguma teria ficado decepcionado com as reações hostis que ele provocou. Mas, certamente, no final das contas, teria relativizado esse fato e passado a outra coisa. É a sina de todos os verdadeiros visionários que não tomam caminhos repisados. Artistas do calibre de Kubrick têm mentes brilhantes e dinâmicas para imaginar o mundo em movimento, para compreender não apenas de onde vem, mas para onde vai.
Consideremos “De Olhos Bem Fechados”. Muitas pessoas foram desestimuladas pelo lado irreal do filme: as ruas largas demais de Nova York, a cena pouco crível da orgia, o desenrolar propositalmente lento da ação. Tudo isso é verdade, e, se o filme tivesse a pretensão de ser realista, essas críticas seriam perfeitamente aceitáveis. Mas “De Olhos Bem Fechados” inspira-se numa novela de Arthur Schnitzler intitulada “Breve Romance de Sonho”, a história da ruptura de um casamento contada com a lógica de um sonho. E como em todo sonho, você não sabe realmente quando entrou nele. Tudo parece verdadeiro, como na vida, mas diferente, um pouco exagerado, um pouco defasado; as coisas parecem acontecer como se tivessem sido programadas, às vezes em um ritmo estranho, do qual é impossível escapar.
O público não estava nem um pouco preparado para um filme onírico que não se apresentava como tal, não dava os sinais habituais – névoa, pessoas aparecendo ou desaparecendo à vontade, ou levitando. Como “Viagem à Itália”, de Rosselini, um filme também completamente incompreendido em sua época, “De Olhos Bem Fechados” conta a dolorosa jornada de um homem e de uma mulher que, no fim, agarram-se um ao outro. Os dois filmes são de uma aterradora autoexposição. Ambos perguntam: até que ponto pode se confiar em outro ser humano? E acabam de modo hesitante, mas também esperançoso, honesto.
Assistir a um filme de Kubrick é como ver o cume de uma montanha a partir do vale. Nós nos perguntamos como alguém pôde subir tão alto. Há em seus filmes trechos, imagens e espaços carregados de emoção que têm uma potência inexplicável, uma força magnética que nos aspira lenta e misteriosamente: o itinerário do menino percorrendo os intermináveis corredores do hotel em seu velocípede em “O Iluminado”; o silencio monumental do espaço sideral em “2001, Uma Odisseia no Espaço”; o ritmo inumano da primeira metade de “Nascido Para Matar”, que vai num crescendo até sua resolução lógica e sangrenta; a espetacular sala de guerra de “Dr. Fantástico”, a um só tempo aterrorizante e cômica; o futuro brutalmente pop de “Laranja Mecânica”; a intimidade crua dos diálogos entre Tom Cruise e Nicole Kidman em “De Olhos Bem Fechados”.
Eu não poderia dizer se há um filme de Kubrick que eu prefira, mas o fato é que “Barry Lyndon” exerce sobre mim um fascínio particular. Acho que isso se deve à emoção que caracteriza esse filme. A emoção é veiculada pelo movimento da câmera, a lentidão do ritmo, a maneira como os personagens evoluem em relação ao seu entorno. Ninguém entendeu isso quando o filme foi lançado. Ainda hoje, alguns não o compreendem. Assistimos, um plano cativante atrás do outro, à metamorfose de um homem que passa da mais pura inocência ao refinamento mais glacial, e, para terminar, à amargura mais fúnebre – pois sua sobrevivência depende disso, simplesmente. É um filme terrível, pois toda aquela beleza iluminada por velas é apenas um véu dissimulando a crueldade mais abjeta. Mas uma crueldade verdadeira, daquelas cujos estragos podemos constatar todos os dias na boa sociedade.
Stanley Kubrick era um dos únicos mestres modernos que tínhamos, e esta última edição do livro definitivo de Michel Ciment, “Conversas com Kubrick”, é uma contribuição inestimável. Acompanhei e estudei regularmente a obra de Kubrick durante anos. Ele era único, na medida em que, a cada novo filme, redefinia esse meio de expressão e suas possibilidades. Mas era mais que um simples inovador técnico. Como todos os visionários, ele dizia a verdade. E, por mais que fiquemos à vontade com a verdade, ela sempre provoca um choque profundo quando somos obrigados a encara-la.
Martin Scorsese, junho de 2002. Prefácio de “Conversas com Kubrick“.

Leia também:
– “Laranja Mecânica”, o filme, é filosofia pura (aqui)
– “De Olhos Bem Fechados”: provocativo e genial (aqui)
– “Inteligência Artificial”: saber a hora de parar é virtude (aqui)
– Frederic Raphael fala sobre “De Olhos Bem Fechados” (aqui)
– Sobre Scorsese e filmes que salvam almas (aqui)
agosto 26, 2014 Encha o copo
Europa 2014: Paris e o Chateau Versailles

Ao contrário da correria da ida, a saída de Saint Malo para Paris foi a mais sossegada possível. Trem para Rennes, dali para a Gare Du Nord, hotel e bora bater pernas na capital parisiense porque temos pouco mais de um dia e meio em uma das cidades mais lindas do mundo (sendo que praticamente o dia todo seguinte será gasto no Chateau Versailles). Decidi então dar uma olhada na FNAC do Forum Les Des Halles, uma loja de três andares subterrâneos com muita coisa bacana nas gôndolas.

Ainda assim, essa foi a primeira vez que a mala voltou com mais cervejas pra casa do que CDs/Discos. E olha que a seção de vinis desta FNAC s é um sonho enlouquecedor (e empobrecedor). E tem quase tudo. Os três primeiros CDs remasterizados do Led Zeppelin, que estão custando entre R$ 100 e R$ 110 no Brasil, em Paris custam R$ 50. Na verdade, o vinil triplo do “Led 1? custa R$ 110, o vinil duplo do “Led II” tá saindo por R$ 50 e o duplo do “Led 3?, R$ 70. Ou seja, é mais barato comprar vinil na Europa do que CD no Brasil…

Paris é uma das cidades que nunca se esgotam no mundo: você pode ter ido x vezes, e sempre terá coisas novas a fazer. No meu caso, essa foi a quinta passagem pela cidade, e além de fazer ficar em um novo bairro e fazer coisas novas, há a vontade de repetir alguns passeios, o que os imensos cartazes do L’Orangerie, meu museu preferido na cidade, dentro dos metrôs atiçam ainda mais o desejo. Mas o tempo é curto e é preciso se resguardar porque Versailles, dizem, exige bastante das pernas, e estamos no fim da viagem. Melhor descansar.

Acordamos cedo no domingo e partimos para o Chateau Versailles e em um dos blogs que peguei dicas o aviso era claro: no verão não há como fugir dos turistas (e você é um), então relaxe porque Versailles lota… todos os dias. Isso já ficou claro no trem para o subúrbio (o Chateau fica a 9 quilômetros do centro), lotado. E se repete nos portões na chegada aos portões, um formigueiro de gente de todos os cantos do mundo que, de tudo que já visitei até hoje, só se compara ao Vaticano.

Uma das vantagens do Chateau Versailles é que a extensão da área, com cerca de 700 hectares de jardins, dispersa bem a galera, embora nas primeiras horas do dia, a entrada no Chateau seja um desafio que exige paciência. O guia do setor de turismos nos aconselhou: “Deixe para visitar o castelo na parte da tarde. Conheça os jardins e os domínios de Maria Antonieta antes”. E foi o que fizemos. Há tíquetes separados para todas as áreas, mas escolhemos um que nos dava acesso às três áreas, e lá fomos nos “viver um dia de rei”.

Construído pelo rei Luís XIV a partir de 1664, o Chateau Versailles foi residência real de 1682 a 1789, quando a família real foi expulsa pelos cidadãos no auge da Revolução Francesa – parte da mobília foi tomada pelo povo enquanto quadros, como a “Mona Lisa”, foram enviados para o Museu do Louvre. Símbolo da opulência de um sistema que tinha os dias contados na França, o Chateau Versailles é uma daquelas obras marcantes (há tanto dourado nos quartos que a visão se embaralha) que exemplificam a distância entre a burguesia e o povo.

Os jardins são um deslumbre. Criados por André Le Nôtre, o jardim se divide em várias alas, cada uma delas com uma obra de arte e diversas fontes. O centro do parque é tomado por um impressionante Grande Canal de 1670 metros de extensão, criado para regatas, jogos e diversões da corte. É possível (e recomendável) alugar um barco (por 16 euros a hora) e remar no canal num dos passeios divertidos do chateau. Há também trens dentro do parque que fazem um percurso rápido entre as obras, bicicletas e pequenos carros (todos pagos).

Há tanta coisa para se fazer em Versailles que recomendo uma lida no Conexão Paris, mas, sem dúvida, o castelo é o obrigatório (se você ficou o dia todo lá, andou, almoçou, cansou as pernas e pensou: “Vou dar cano no castelo”, desista. Vale a pena). A Galeria dos Espelhos é o grande momento, mas há nas outras salas dezenas de obras de arte e do cotidiano real que ajudam a entender (e questionar) a monarquia (incluindo um quarto em que a rainha fazia o processo de parto diante do público, para que eles se certificassem do filho real!).

Fim de passeio, fim de viagem. Uma botecagem à noite para se despedir de Paris (e de toda viagem), arrumar as malas (que se multiplicaram e devem chegar, juntas, a 100 quilos) e descansar porque a segunda prometia ser cansativa. Decidimos reservar um translado do hotel (38 euros por cabeça) para o aeroporto, e essa foi uma das decisões mais sabias que já tive em um final de viagem: não arrastar as malas pelo metrô até o aeroporto Charles de Gaule foi um alívio. Dessa vez foi rápido, mas volto com calma, podexa Paris.

agosto 24, 2014 Encha o copo
La Route du Rock: lama e Portishead

O festival francês La Route du Rock existe desde 1991 na Bretanha Francesa e tem uma história tradicional de crescimento moderado, ano a ano, até alcançar o recorde de público, com 27 mil pessoas em um dia para ver The Cure em 2005 (em 2007, com Smashing Pumpkins de headliner, a soma de público alcançou 24 mil espectadores). No ano seguinte, 2006, a produção decidiu fazer duas edições anuais do evento, uma no inverno, outra no verão, esta última encabeçada pelo Portishead em 2014.

A casa principal do festival, que também oferece concertos gratuitos em alguns lugares de Saint Malo durante o fim de semana do evento, é o Forte de Saint-Père, construído no século XVIII, durante o reinado de Louis XVI, para proteger a França dos ataques dos corsários ingleses. Como o forte está localizado na cidade de Saint-Père-Marc-en-Poulet, 9 km ao sul de Saint-Malo, a produção oferece ônibus gratuito para ir e voltar do festival saindo de três pontos de Saint Malo (com o último ônibus saindo 5 da manhã).

Dai você pensa: um festival que existe a mais de 20 anos cujo line-up 2014 reúne nomes como Portishead, The War on Drugs, Kurt Vile & The Violators, Metz, Liars, Anna Calvi e Slowdive (entre muitos outros) e que acontece em um forte francês do século 18? Deve ser bem chique, certo? Na verdade é um chiqueiro. Como já disse um produtor (inexperiente) de grande festival no Brasil, lama (e feno molhado deixando cheiro de urina no ambiente) faz parte do imaginário de um festival de rock, mas para tudo há um limite.

No caso do La Route du Rock, edição de verão 2014, esse limite já havia sido ultrapassado na área de entrada do festival, no terceiro dia do evento, quando uma piscina de lama recebia o animado público. Aqueles que não foram preparados (90% se arma de galochas, mas há uns 8% de desavisados e mais uns 2% de corajosos que enfrentam o lamaçal de tênis ou mesmo chinelos de dedos) irão se arrepender profundamente, e mesmo a turma da galocha pode cair numa armadilha de tropeçar e nadar na lama (aconteceu).

Não que o festival deva ser sempre assim, muito embora numa região marcada por chuvas deva ser difícil imaginar a grama do forte resistir a 20 mil fãs de música um dia que seja, mas a grande questão é que fica difícil se concentrar na música quando o ambiente em torno de você chama mais a atenção (e a preocupação) do que o que está acontecendo no palco. Desta forma, os artistas do terceiro dia do festival tiveram que conquistar não só a atenção do público, mas também desviar essa atenção do cenário deprimente de lama e feno.

Nesse ponto, Anna Calvi surpreendeu com um show bastante eficiente, que mostra que a cantora está se distanciando das comparações com PJ Harvey e adquirindo personalidade própria. Isso ficou evidente na postura de Calvi, incorporando momentos hendrixianos e solando muito, e no próprio set list: após abrir a noite (de sol) com “Suzanne & I”, de sua estreia (“Anna Calvi”, 2011), quatro canções seguidas de “One Breath”, de 2013, mostraram fé no novo repertório. Uma cover da sessentista “Jezebel” pós fim ao ótimo show.

Na sequencia, após um show matador em Oslo, no Øya Festival, o Slowdive chegava à Bretanha com sua turnê de retorno mudando absolutamente nada do repertório, o que facilitou a comparação dos dois shows, com o de Oslo, numa tenda (seca) sendo quilômetros superior. Não a toa, a primeira frase de Neil Halstead antes mesmo da guitarra soar no forte foi: “Ainda bem que parou de chover”. Ainda que inferior ao show do Øya, a apresentação no La Route colocou sorrisos guitarreiros na cara de muita gente (até da Rachel).

Já com a noite escura (o que tornou o ambiente do festival mais caótico), o Portishead subiu ao palco para produzir mais um show irreparável. O set list praticamente não muda (mas a banda atualizou as belas imagens do telão que interagem com a câmera ao vivo), a voz sofrida de Beth Gibbons continua comovente enquanto riffs e batidas eletrônicas convidam o espectador a dançar numa cintilante festa fúnebre que transforma a execução de canções como “Sour Times”, com o telão do fundo de palco “estendendo” uma cortina branca e simulando um cabaré, em momentos absolutamente mágicos.

O show continua sendo aberto pela voz do brasileiro Claudio Campos declamando a “Regra Três”, introdução de “Silence”, faixa de “Third” (2008), terceiro disco do Portishead, e base para o show (com cinco canções fixas no set list mais “Chase the Tear”, lançada em 2009). Dos dois primeiros álbuns saem pérolas como “Mysterons”, “Wandering Star”, “Over” e “Cowboys” além, claro, de “Glory Box”, que pode ser tocada quantas vezes for, e continuará arrepiando. No bis, “Roads” e “We Carry On” encerram um show especial.

O balanço de apenas um dia de La Route du Rock é, no entanto, negativo. Os três grandes shows da noite, que ainda teria Liars pela frente (vencido pela dificuldade de suportar as péssimas condições do ambiente), mereciam um local melhor, pois poucas vezes o ditado “pérolas arremessadas na lama” caiu tão bem quanto aqui para explicar um festival de rock. Pretendo voltar para a Bretanha para conhecer melhor St. Malo, ir ao Monte Saint-Michel e esticar até a Normandia, mas provavelmente evitarei o La Route du Rock. Se vier traga galochas, prepare o nariz e torça muito para não chover.

Ou então curta a bagunça. É sempre bom pensar que algo que uma pessoa não gosta, outra pode curtir. Eu, por exemplo, nunca iria ao Glastonbury. São muitos palcos, é muita lama, é muito longe da cidade e meu corpo cansado precisa de uma cama após uma maratona de shows. Tem gente que prefere acampar, e isso é legal. Saint Malo, ao menos em 2014 (vai que em 2015 faz uma semana de sol na Bretanha) não foi um festival para mim, fã de festivais urbanos como Primavera Sound e Øya Festival, ou mesmo Benicàssim, Rock Werchter e Best Kept Secret. O segredo, na verdade, é encontrar o seu tipo de festival. E se jogar. Vai um balde de lama ai?

Fotos 1, 2, 4, 5 e 6 por Marcelo Costa
Fotos 3, 7, 8, 9, 10 e 11 por La Route du Rock (veja galeria)
agosto 22, 2014 Encha o copo
Prata da Casa #13: Paulo Almeida

“Foram quase duas horas de som intenso que me alegrou a alma de tal maneira que me emocionei varias vezes”, escreveu Paulo Almeida (continue lendo). A foto é de Thiago Carreri.
agosto 21, 2014 Encha o copo
O desejo de voltar a St. Malo

A despedida de Amsterdam não podia ter sido melhor: show dos mineiros do TiãoDuá, coxinha e uma última volta pela encantadora área central da cidade. Na manhã seguinte, 6h e pouco, trem para Paris, troca de estações e trem para Saint Malo, na Bretanha francesa. Primeiro desafio: descobrir como chegar a estação central de Amsterdam ás 6h sem gastar muito, já que o transporte público na cidade começa mais ou menos nessa hora. O recepcionista do hotel deu a dica: “O ônibus noturno: é uns 2 euros mais caro, mas levará vocês”. Deu certo.

Com mais de 50 garrafas divididas em três malas, o plano arquitetado na noite anterior ditava que deveríamos deixar as três malas pesadas no locker do Gare du Nord, em Paris, na quinta-feira, e seguir para a Bretanha apenas com o necessário, já que voltaríamos para a capital francesa no sábado à tarde. Teríamos que fazer isso rápido, porque nosso trem para Saint Malo sairia exatas 1 hora e 10 minutos da Gare de Montparnasse após nossa chegada na Gare du Nord, mas as coisas tinham que ser com emoção, muita emoção.

Achar a área de lockers na Gare du Nord foi o primeiro desafio, entender o funcionamento do pagamento após o segundo dia, outro desafio, e assim nos vimos com menos de 30 hora para chegar a Montparnasse. Descartamos o metrô e partimos no desafio de pegar um taxi em Paris (as anedotas não costumam ser engraçadas). Gentilíssimo, o motorista fez um caminho alternativo (diferente do que eu seguia pelo Google Maps) e nos deixou na porta da estação exatamente na hora em que nosso trem sairia. Nem Usain Bolt correria tanto…

Detalhe: na Gare de Montparnasse, as telas que orientam as partidas de trem estavam desligadas, e não havia nenhuma informação de plataforma. Colei em alguém da estação, que olhei meu bilhete e mandou: “Deve ser na plataforma 1 ou 2”. Só havia um trem na 1 e partimos em disparada para o local. Portão fechado. Assim que ameaçamos abrir a boca, o funcionário que SNCF desembestou a falar, e o que entendi é que ele estava se desculpando, mas chegamos atrasados mais de dois minutos, e o trem iria partir (sem nós).

Enquanto o cara falava, para nossa sorte, outras pessoas atrasadas chegavam ao portão, e quando o grupo já somava oito rostos pedindo por favor para embarcar, o cara foi procurar o superior, que… autorizou a entrada. Segundo desafio cumprido. O terceiro era torcer para que o dono da pousada que iria nos abrigar em Saint Malo, e que mandará um email em francês dois dias antes dizendo que não havia quarto de casal disponível (a reserva foi feita em maio!), conseguisse qualquer quarto para nós, afinal tudo estava lotado na cidade no fim de semana.

Saint Malo foi fundada no século 1 antes de Cristo e a parte murada da cidade (Intra Muros) construída no seculo XII pelo Bispo Jean de Chatillon. É uma típica cidadezinha balnearia, com 51 mil habitantes que se transformam em quase 300 mil no verão europeu. Surgiu no nosso planejamento de roteiro quando eu procurava algum lugar para ver (mais uma vez) o Portishead ao vivo, e calhou da data deles no festival La Route du Rock bater com o espaço vago na agenda, mas o que me convenceu foi essa foto no Google Images.

A chegada de trem é na parte nova da cidade, não muito diferente do que se vê pela janela durante a viagem. Já a região Intra Muros é de tirar o fôlego. Ainda que exageradamente explorada comercialmente, com creperias, lojinhas de quinquilharias, restaurantes e o diabo a quatro, a área Intra Muros é uma viagem no tempo que faz a gente questionar quanto trabalho gasto foi usado para construir uma pequena vila que resiste formosa ao passar dos séculos. Olhar o movimento das marés é um deleite para o dia inteiro do alto das muralhas da cidade.

Alguém escreveu em meu Instagram: “Nunca vi um mar tão triste quanto na Bretanha”. E é exatamente isso. Mesmo com o sol de verão, tímido, o cinza domina a região. O vento é forte, as marés sobem até 12 metros e descem até 50 centímetros quatro vezes por dia. Na praia, professores ensinam garotos e garotas (de 12, 13 anos) a velejar. Placas por toda parte murada orientam: “Se você for pego pela maré alta, fique exatamente onde está. Não tente voltar porque corre o risco de se chocar contra as rochas”.

Acho que a palavra que melhor descreve a parte Intra Muros é idílica, e embora tenha me decepcionado com o festival (próximo texto), quero voltar e fuçar com calma a Bretanha fora do verão, visitando o Monte Saint-Michel e desbravando um pouco mais dessa região que tem língua própria, o Bretão, cerveja própria (trouxe três garrafas e falarei delas no blog em posts futuros) e cidra artesanal fresquíssima servida em bules de chá e tomada em xícaras. Além, claro, dos famosos crepes e galettes (o crepe salgado).

A viagem ideal por essa região une a região bretã com a região normanda e seus séculos de história (quem sabe uma esticada até a Cornualha britânica) que envolvem celtas (a Celtic League e formada por Escócia, Irlanda, Ilha de Man, o País de Gales e a Cornualha), a elogiada Côte de Granite Rose (que alguns dizem ser a parte mais bonita de toda a França) e, claro, a própria Normandia, palco do Dia D, em que diversas tropas Aliadas desembarcaram em solo francês a fim de combater a dominação da Alemanha Nazista.
Por hora, Saint Malo e sua extremamente conservada parte murada cumpre sua função de conquistar o olhar de forma irrepreensível, e causar o desejo de voltar. Que não demore.

agosto 21, 2014 Encha o copo

