“O véio ta querendo entrar antes”, diz apressadamente uma pessoa do HSBC Brasil pelo walkie talkie. Ela entra por uma porta que dá passagem ao camarim, e retorna alguns segundos depois: “Ele VAI começar o show antes”! As luzes se apagam, abrem-se as cortinas vermelhas do palco, e ouvem-se os primeiros acordes de “Memphis Tennessee”. Faltam dez minutos para as 22h, e todos procuram seus lugares para ver uma lenda do rock.
Aos 81 anos, Charles Edward Anderson Berry encarna no palco do HSBC Brasil o personagem que todos conhecem dede 1955 como Chuck Berry: quepe de marinheiro, uma brilhante camisa vermelha, calça e sapatos pretos, e sua inconfundível Gibson ES-350T semi-acústica. Mais de 50 anos separam o debute de Chuck Berry na indústria da música pela gravadora Chess deste show, e é preciso levar isso em consideração. Se o tempo passa, porém, a lenda permanece.
“Eu espero que ao menos metade de vocês nunca tenha ouvido essa canção”, dispara antes de tocar a introdução de “School Days”. Urros e assovios celebram a música, e dão um panorama do público, que vai desde uma menina de aparentemente sete anos até senhoras e senhores grisalhos que devem ter dançado muito ao som desses riffs em bailinhos dos anos sessenta e setenta. Mas um grande número de adolescentes também prestigia a lenda em um show que poderia ter o adjetivo “família”.
Os clássicos se atropelam (”Nadine”, “My Ding-a-Ling”, “Sweet Little Sixteen”) em versões mais lentas que as originais. A cada batida dos dedos de Berry na guitarra, uma corda desafina. O som de sua Gibson está bem à frente da Fender de seu filho, Charles Edward Anderson Berry Jr., que faz as bases enquanto os dedos do pai buscam os riffs clássicos de canções que receberam versões de Beatles e Rolling Stones (como “Carol” “Rock and Roll Music” e “Johnny B. Goode”) e mais uma centena de intérpretes.
“You Never Can Tell”, que voltou ao imaginário pop nos anos 90 através de Quentin Tarantino – que a inseriu em “Pulp Fiction” embalando a já clássica dança de John Travolta com Uma Thurman – surge cambaleante, mas divertida. Na seqüência, Berry pergunta qual música o público gostaria de ouvir. Uma senhora chega perto do palco e lhe pede uma canção. “Mas essa música não é minha!”, diz em tom de deboche o guitarrista enquanto emenda um clássico. Após 60 minutos de apresentação, Berry deixa o palco – superlotado de ladys – ao som de “Reelin’ and Rockin’”.
O show foi um fiasco em uma análise crítica isenta de considerações. Berry desafinou sua guitarra em diversas oportunidades além de errar algumas passagens. Porém, é impossível ser isento quando se está à frente de uma das lendas do rock, um gênero que começou rebelde, assustando pais e mães cujos filhos viviam com “esse tal de roque enrow”. Chuck Berry desafinando é muito mais rock em conceito do que todos os discos do CPM 22 juntos. É preciso respeito com o véio. Ele merece.
Bem, semana do São Paulo Fashion Freak, então tudo meio de cabeça pra baixo aqui. Sorry pela ausência. Ontem vi o show do Chuck Berry e vou tentar escrever assim que acordar nesta sexta. Também vi o Mundo Livre S/A na Clash, um show que começou com “Destruindo a Camada de Ozônio” e “Computadores Fazem Arte”, segui-se ali pelo meio com “A Expressão Exata” (com direito a coro do público no verso “a minha pobre próstata inerte”) e “Seu Suor é o Melhor de Você”, e ainda contou com “Meu Esquema”, “O Mistério do Samba”, “Muito Obrigado”, “Livre Iniciativa”, “Bolo de Ameixa” e “Pastilhas Coloridas”, da frase que eu citei uns dias atrás sobre sonhos e maracujás… foda.
Acordei numa puta ressaca. :/
Ps. Faltam 8 dias para as férias, 12 para a viagem.
Ps 2. O Messi podia ter feito aquele gol, né.
Ps 3. Eu tinha mais alguma coisa pra falar, mas esqueci. Vou ver Lost e, se lembrar, volto.
Seguindo a trilha aberta pelos especiais “100 Livros” e “100 Filmes” (leia mais aqui), além do especial “100 Lugares”, a Bravo! mexe no potinho de moedas de ouro e sai com mais um volume da série “listas são listas: sempre falta alguma coisa, todo mundo reclama, mas todo mundo adora”. Desta vez, a luz é lançada sobre o repertório do cancioneiro nacional nas “100 Canções Essenciais da MPB”.
Seguindo a máxima de que um dos grandes prazeres da cultura pop é falar sobre ela, a seleção traz grandes momentos ao recontar histórias de canções marco da música brasileira. No entanto, como toda lista, há falhas e exageros. Das 100 músicas, 10 são de Chico Buarque, 10 são de Tom Jobim. E nenhuma de Jorge Ben muito menos Renato Russo (tem Herbert Vianna, Blitz, Lulu Santos, Cazuza), cuja “Faroeste Caboclo” tinha que ser presença garantida.
Aliás, lembro do último show que vi da Legião Urbana, começo dos anos 90. Renato, no centro do palco, pede atenção do público. É a parte final da baladaça “Vento no Litoral”, e ele avisa que vai cantar o “Hino Nacional”. E emenda “Carinhoso”, inteirinha, no trecho final da canção. “Carinhoso” é a canção essencial número 1 da Bravo!
O pessoal do iG Música fez uma enquete com o top ten da Bravo! deixando para o leitor a decisão: mais de 6100 votos e deu “Aquarela do Brasil” em primeiro, “Construção” em segundo, e “Carinhoso” em terceiro. “João Valentão”, de Dorival Caymmi ficou em 10º com 0% dos votos… Abaixo o top completo da publicação, mas vale investir os R$ 14,95…
1- Carinhoso (Pixinguinha / João de Barro)
2- Águas de Março (Tom Jobim)
3- João Valentão (Dorival Caymmi)
4- Chega de Saudade (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
5- Aquarela do Brasil (Ary Barroso)
6- Tropicália (Caetano Veloso)
7- Último Desejo (Noel Rosa)
8- Asa Branca (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)
9- Construção (Chico Buarque)
10- Detalhes (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
11- As Rosas Não Falam (Cartola)
12- Samba do Avião (Tom Jobim)
13- Vingança (Lupícinio Rodrigues)
14- Garota de Ipanema (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
15- Alegria, Alegria (Caetano Veloso)
16- Desafinado (Tom Jobim)
17- A Mesma Rosa Amarela (Capiba / Carlos Pena Filho)
18- Ai, Que Saudades da Amélia (Ataulfo Alves / Mário Lago)
19- A Flor e o Espinho (Nelson Cavaquinho / Guilherme de Brito / Alcides Caminha)
20- Domingo no Parque (Gilberto Gil)
21- Eu Te amo (Chico Buarque / Tom Jobim)
22- Feitio de Oração (Noel Rosa / Vadico)
23- Retrato Em Branco e Preto (Tom Jobim / Chico Buarque)
24- O Mundo é um Moinho (Cartola)
25- E o Mundo Não Se Acabou (Assis Valente)
26- A Volta do Boêmio (Adelino Moreira)
27- Diz Que Fui Por Aí (Zé Kéti / Hortêncio Rocha)
28- Leve (Carlinhos Vergueiro / Chico Buarque)
29- Trem das Onze (Adoniran Barbosa)
30- Baby (Caetano Veloso)
31- Eu Sei Que Vou Te Amar (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
32- Marina (Dorival Caymmi)
33- Rosa (Pixinguinha / Otávio Souza)
34- A Banda (Chico Buarque)
35- Feitiço da Vila (Noel Rosa / Vadico)
36- Panis et Circenses (Caetano Veloso / Gilberto Gil)
37- O Bêbado e o Equilibrista (João Bosco / Aldir Blanc)
38- Exagerado (Cazuza / Ezequiel Neves / Leoni)
39- Foi um Rio Que Passou Em Minha Vida (Paulinho da Viola)
40- Iracema (Adoniran Barbosa)
41- Nervos de Aço (Lupícinio Rodrigues)
42- Luiza (Tom Jobim)
43- Ronda (Paulo Vanzolini)
44- Assum Preto (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)
45- Acabou Chorare (Moraes Moreira / Galvão)
46- Dois pra Lá, Dois pra Cá (João Bosco / Aldir Blanc)
47- Sinal Fechado (Paulinho da Viola)
48- Folhetim (Chico Buarque)
49- Insensatez (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
50- Ouro de Tolo (Raul Seixas)
51- Drama de Angélica (Alvarenga / M.G. Barreto)
52- Aquarela Brasileira (Silas de Oliveira)
53- Volta por Cima (Paulo Vanzolini)
54- O Que é que a Baiana Tem? (Dorival Caymmi)
55- Chão de Estrelas (Silvio Caldas / Orestes Barbosa)
56- É Hoje (Didi / Maestrinho)
57- Descobridor dos Sete Mares (Michel / Gilson Mendonça)
58- A Noite do Meu Bem (Dolores Duran)
59- Como Nossos Pais (Belchior)
60- Folhas Secas (Nelson Cavaquinho / Guilherme de Brito)
61- Lábios que Beijei (J. Cascata / Leonel Azevedo)
62- Valsinha (Vinicius de Moraes / Chico Buarque)
63- Eu e a Brisa (Johnny Alf)
64- Jura (Sinhô)
65- Luar do Sertão (João Pernambuco / Catulo da Paixão Cearense)
66- Corta-Jaca (Chiquinha Gonzaga)
67- Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá / Antônio Maria)
68- Odeon (Ernesto Nazareth / Vinicius de Moraes)
69- Minha Namorada (Carlos Lyra / Vinicius de Moraes)
70- No Rancho Fundo (Ary Barroso / Lamartine Babo)
71- O Samba da Minha Terra (Dorival Caymmi)
72- Ouça (Maysa)
73- Se Eu Quiser Falar Com Deus (Gilberto Gil)
74- Senhor Cidadão (Tom Zé)
75- O Que Será (Chico Buarque / Milton Nascimento)
76- Se Você Jurar (Ismael Silva / Newton Bastos / Francisco Alves)
77- Todo o Sentimento (Cristóvão Bastos / Chico Buarque)
78- Como Uma Onda (Lulu Santos / Nelson Motta)
79- Carcará (João do Vale / José Candido)
80- Mania de Você (Rita Lee / Roberto de Carvalho)
81- Felicidade (Lupícinio Rodrigues)
82- As Pastorinhas (João de Barro / Noel Rosa)
83- Nego Dito (Itamar Assumpção)
84- Rios, Pontes e Overdrives (Chico Science)
85- Cidade Maravilhosa (André Filho)
86- O Vira (João Ricardo / Luli)
87- Olhos nos Olhos (Chico Buarque)
88- Balada do Louco (Arnaldo Baptista / Rita Lee)
89- O Teu Cabelo Não Nega (Lamartine Babo / Irmãos Valença)
90- Com Que Roupa? (Noel Rosa)
91- Sampa (Caetano Veloso)
92- As Curvas da Estrada de Santos (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
93- Brasileirinho (Waldir Azevedo / Pereira da Costa)
94- Você Não Soube Me Amar (Evandro Mesquita / Ricardo Barreto / Guto / Zeca Mendigo)
95- Disparada (Geraldo Vandré / Theo de Barros)
96- Óculos (Herbert Vianna)
97- Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu / Aloysio Oliveira)
98- Clara Crocodilo (Arrigo Barnabé / Mário Lúcio Côrtes)
99- Cruzada (Tavinho Moura / Márcio Borges)
100- Cantiga de Amigo (Elomar)
“X&Y” eleva a milésima potência a grandiloqüência exibida em “A Rush Of Blood To The Head”
“A banda continua na árdua caminhada para se transformar no novo U2?.
“Copiando o U2, o Coldplay está mais para um Simple Minds”.
“O Coldplay pinta ser a grande banda da década, porém, ainda deve um grande álbum aos críticos”.
“Chris Martin precisa aprender a cantar sem chorar”
“Algum produtor fodaço (como Daniel Lanois e Brian Eno) precisa mostrar para os músicos que não existem apenas teclados, pianos e sintetizadores no mundo”.
Resenha de “X&Y” datada de 13 de julho 2005 (a integra está aqui).
Três anos se passaram desde o texto acima. Neste meio tempo, o Coldplay baixou na América latina para uma mini-turnê, o vocalista enfezadinho abandonou jornalistas em uma entrevista coletiva de imprensa em São Paulo e mais de 350 comentários superlotaram uma coluna (aqui) que escrevi em março de 2007 sarreando a seriedade de Chris Martin (incrivelmente, 50% querendo o meu pescoço, 50% me elogiando – e eu achei que fosse ser linchado em praça pública sem nenhum amigo para me dar a mão). Ah, e o Coldplay chamou Brian Eno para produzir o seu novo disco…
Brian Eno dividiu os trabalhos com Markus Dravs – recomendado por Win Butler, do Arcade Fire, após ter assinado a produção do maravilhoso “Neon Bible” – e chegou chutando a porta da lojinha Coldplay no geral, e de Chris Martin em particular, falando tudo aquilo que a gente já sabia: “Suas canções são longas demais. Você é muito repetitivo, e usa excessivamente os mesmos truques – e coisas grandes não são necessariamente boas. Você recorre demais aos mesmos sons, e suas letras não são boas o suficiente” (contou o vocalista em entrevista a Rolling Stone norte-americana).
Após uma estréia bonita e inocente, um segundo disco mediano e um terceiro álbum grandiloqüente e decepcionante, o Coldplay chega ao quarto disco assumindo os próprios erros e com desejo de traçar caminhos novos. “Viva la Vida or Death and All His Friends”, resultado do encontro da banda com Eno e Dravs, chega a surpreender pela forma radical com que a banda nega o passado e se prepara para o futuro. Domados pelas mãos sábias da dupla de produtores, o quarteto britânico coloca nas ruas o seu melhor disco.
Além de ser um comparativo de sucesso, o U2 passa agora a ser uma inspiração para Chris Martin, que graças aos céus deixou de cantar em falsete (ele usa o expediente em poucos segundos da gravação), mas investe nos berros a la Bono. O som da guitarra que havia sido aposentado em “X&Y” retorna forte e lembrando em muitos momentos os harmônicos de The Edge. E até órgãos de igreja entraram no álbum (da mesma forma que entraram em “Joshua Tree”, segundo álbum produzido por Eno – e Daniel Lanois – para o U2).
A influência descarada, no entanto, não faz de “Viva la Vida” um pastiche, muito pela qualidade – tanto musical quanto temática – do repertório. Chris Martin voltou no tempo e de lá trouxe boas histórias para suas letras antes romanticamente – corretas e – monotemáticas. “Cemeteries Of London” fala sobre cavaleiros que cavalgam até o amanhecer e enfrentam bruxas e fantasmas. “42? cita feitiçaria. “Yes” é sobre ceder à tentação. Em “Viva La Vida”, o vocalista ouve os sinos de Jerusalém e acredita que São Pedro não irá chamar seu nome. “Violet Hill” relembra um tempo em que padres também seguravam rifles.
Musicalmente, Brian Eno enxugou os arranjos e deu personalidade aos sons de teclados (que fizeram muito mal aos repertórios de “A Rush of Blood to the Head” e, principalmente, “X&Y”) criando uma sonoridade com um pé no rock progressivo, mas sem cair na vala insuportável da grandiloqüência. Outra boa nova é o resgate do som da guitarra de Jon Buckland (que enriquece faixas como “Violet Hill”, “Cemeteries Of London” e “Strawberry Swing”). Boa parte do repertório de “Viva la Vida or Death and All His Friends” soa grandioso e delicadamente bonito como poucas vezes o Coldplay conseguiu ser em seus dez anos de carreira.
A instrumental “Life in Technicolor” abre o álbum com som de órgão de igreja e é impossível não fazer um paralelo com “Where The Streets Have No Name”, faixa que abre “Joshua Tree”, do U2 (os vocais de Chris Martin ao fundo poderiam ser de Bono, se não forem – brincadeirinha). “Cemeteries Of London” traz Martin gastando voz sob uma cama de órgão, teclado, violão e guitarra. O órgão de igreja retorna no arranjo mantrico de “Lost” (uma das grandes letras do álbum). “42?, a melhor música, mostra o quanto a banda cresceu melodicamente: começa vagarosa e bonita a la Keane e depois se transforma em Radiohead. O arranjo de “Yes” também surpreende, com Martin cantando pausadamente sobre uma boa estrutura melódica que inclui cordas no meio da canção.
As guitarras dão a cara de verdade em “Chinese Sleep Chant”, faixa escondida que começa ao final de “Yes” e faz a cama para a belíssima melodia de “Viva La Vida”, com arranjo de cordas e sons de órgão e teclados vindos do céu. “Eu costumava controlar o mundo / Os oceanos aumentavam quando eu dava a palavra / E agora pela manhã eu me arrasto sozinho”, canta Chris no começo da canção. “Violet Hill” é o mais próximo que o Coldplay já chegou dos Beatles (sonoramente e geograficamente: Violet Hill é uma rua paralela a Abbey Road). “Strawberry Swing” tem clima cigano, e poderia ser o final conceitual do disco, já que “Death and All His Friends” e “The Escapist” (outra faixa escondida, esta com o mesmo órgão que abre o álbum) são o mais próximo que o velho Coldplay aproxima-se do novo.
Mais do que ser um grande disco, “Viva la Vida or Death and All His Friends” coloca em primeiro plano a função do produtor. O que o lançamento sugere é que qualquer bandeca mediana pode lançar um grande álbum se estiver devidamente assessorada. É quase isso, e não é vergonha nem demérito. O que seriam dos Beatles sem George Martin? Possivelmente uma grande banda, mas será que chegariam no lugar em que chegaram?
Ok, não há como comparar Chris com Lennon e McCartney, mas “Viva la Vida” coloca definitivamente o Coldplay no rol das grandes bandas dos anos 00. Chris Martin continua sendo um mala de marca maior (os recentes casos de abandono de entrevista, de recusa a lançar uma música por ser sexy demais e o risco de cancelar a turnê por um acidente no ensaio – isso mesmo, ensaio – só confirmam sua postura coxinha), mas já pode dormir tranqüilo: o Coldplay lançou um grande disco. Agora ele só precisa de um assessor para cuidar de sua vida pessoal, mas uma coisa de cada vez, não é mesmo.
“Viva la Vida or Death and All His Friends”, Coldplay (EMI)
Preço em media: R$ 30
Nota: 8,5
Na temporada em que o mundo redescobriu Ian Curtis, dois longas ilustram a trajetória do mártir pós-punk: “Control”, de Anton Corbijn, aposta no preto e branco tendo como base o livro de Deborah Curtis, viúva do cantor. “Joy Division”, de Grant Gee, finca-se apenas no preto ouvindo todos os demais “envolvidos”, menos Deborah (embora seu livro seja citado em vários trechos do filme). Enquanto o primeiro filme dramatiza a história do vocalista, o segundo tenta documentar o período, num esforço interessante de contar a história da banda.
Grant Gee, que tem no currículo no excelente “Meeting People Is Easy” (documentário que flagra os traumas do Radiohead pós “Ok Computer”), coloca seus “personagens” na parede e os deixa falar, falar e falar. Optando por esse formato convencional de documentário, Gee acaba por hiperbolizar a história da banda, que por si própria tomou dimensões estratosféricas após o suicídio de Ian Curtis, em maio de 1980, às vésperas da primeira turnê norte-americana do grupo.
Esta nova mitificação do mito serve para colocar várias peças em seus devidos lugares, principalmente entre os três integrantes do Joy Division: Peter Hook, Bernard Sumner e Stephen Morris abrem o coração para o cineasta em um mea-culpa composto por “50% de tristeza, 50% de raiva” (palavras do baterista) em relação ao ato final do amigo. “Nós só fomos prestar atenção às letras quando Deborah as publicou em um livro. Pensamos: era disso que ele estava falando?”, diz um entrevistado.
Sumner fala pausadamente; Morris fala desajeitamente, rindo – aparentemente de nervoso – nas lembranças mais dolorosas; Hook é um tosco que virou baixista e faz questão de deixar isso bem claro, mas é responsável por uma das declarações mais fortes do documentário: “A única coisa que me arrependo em minha vida foi não ter ido ao funeral”. Boa parte do valor do documentário está nas declarações destes três homens que evitaram durante anos falar sobre o assunto.
Gee, ainda, conseguiu reunir peças importantes para recontar a história de uma das bandas mais importantes de Manchester: o jornalista e empresário Tony Wilson, o designer Peter Saville, o fotógrafo Anton Corbijn, o músico Pete Shelley (Buzzcocks) e a jornalista (e amante/namorada) de Ian Curtis, Annik Honoré, entre outros nomes. Também reuniu um acervo de imagens raras da época de registros de shows em vários lugares, cuja baixa qualidade apenas aguça a curiosidade do espectador.
Não espere, no entanto, descobrir algum fato novo em “Joy Division”. O documentário se presta muito mais a imortalizar o mito com declarações oficiais – as primeiras – do que esmiuçar a história. Quase todos os temas abarcados já foram dramatizados em filmes como “A Festa Nunca Termina” e “Control” além do livro “Touching From a Distance”, de Deborah, e os motivos que cercam o suicídio continuam nublados (depressão x coração dividido x epilepsia), embora Gee (e seus entrevistados) acredite numa junção de vários fatores enquanto Corbijn, em “Control”, pareceu focar apenas no desastre romântico do vocalista.
São dois filmes imperfeitos, mas que juntos (e com a companhia de “A Festa Nunca Termina”) jogam luz sob um dos grandes poetas do rock britânico, e embora a fotografia e as boas atuações credenciem “Control”, Grant Gee pula a frente por flagrar os personagens reais dessa epopéia recontando conquistas e dramas. Funciona como a versão oficial de um dos momentos marcantes da história da música pop e é perfeito tanto para jovens que estão descobrindo o Joy Division agora tanto quanto para fãs de anos e anos que, pela primeira vez, vão poder ver os próprios personagens remexendo o baú da memória. Pena que o personagem principal não esteja vivo para contar a sua versão. Pena mesmo.
Wendy James era vocalista do Transvision Vamp, uma bandinha indie que parecia que iria virar algo no final dos anos 80, mas não deu em nada. A banda acabou em 1991, e Wendy, sozinha e abandonada, escreveu uma carta para Elvis Costello, pedindo lhe uma canção. Costello não lhe deu só uma canção, mas sim um álbum inteiro, o bom “Now Ain’t The Time For Your Tears”, e ainda emprestou o baterista Pete Thomas para a donzela em apuros.
Esta pequena introdução resgatada do fundo do baú procura mostrar a prolificidade deste britânico que volta a exibir seu dote em “Momofuku”, trigésimo sei lá quanto álbum de uma carreira insuspeita. A história de “Momofuku” lembra um pouquinho a da introdução. A cantora Jenny Lewis convidou Elvis Costello para cantar em seu novo álbum. Costello foi, se inspirou, saiu do estúdio e, em uma semana, tinha oito canções novas prontas, assim, do nada. Decidiu gravar rapidamente e, quando viu, tinha um novo disco.
A rapidez da gravação – em clima ao vivo no estúdio – rendeu a brincadeira com o titulo do disco: “Momofuku” refere-se ao o criador do macarrão instantâneo Cup Noodle, Momofuku Ando. Segundo o compositor, o disco foi feito tão rápido e de forma tão espontânea que, palavras dele, só bastou adicionar água (no caso, além dos Imposters, foram “adicionados” Jenny Lewis nos backings, seu namorado Johnathan Rice na guitarra e o Beachwood Sparks Dave Scher na guitarra stell).
“Momofuku” soa urgente como soavam os discos de Elvis Costello no começo da carreira, o que até permite um paralelo com o relançamento – em edição dupla luxuosa recheada de bônus tracks e com um show completo no segundo CD – de “This Years Model” (seu segundo álbum, de 1978): é só ouvir o órgão envenenado de Steve Nieve em “American Gangster Time” para fazer a conexão, e perceber que se o tempo passou, Elvis Costello e os Imposters, versão atualizada dos Attractions, continuam inspirados.
“No Hiding Place” é um rock de batida marcante – com boas intervenções de Steve Nieve no piano – que abre o disco de forma arrebatadora com Costello prevendo que, num futuro não muito distante, não vão existir segredos e nem lugares para se esconder. No mesmo embalo ainda estão a citada “American Gangster Time”, que destaca o inconfundível órgão de Steve Nieve, “Turpuntine”, com refrão sixtie e a filha de Pete Thomas – Tenessee – ajudando o pai na percussão, “Stella Hurt” (outro show particular de Nieve) e “Go Away”, com os tambores à frente.
Um segundo bloco de canções revisita a sonoridade do álbum “Almost Blue” (1981) como a doo-wop “Flutter And Wow”, o jazzinho “Mr. Feathers”, a balada sixtie “My Three Sons” e a parceria com Loretta Lynn, “Pardon Me Madam, My Name Is Eve”. “Harry Worth”, uma das melhores do disco, tem clima bossa jazz, e faz lembrar o repertório dos ótimos “Spike” (1989) e “When I Was Cruel” (2002). “Song With Rose”, por sua vez, tem guitarra western e clima country assim como “Drum And Bone”, que começa com uma guitarra limpinha em clima de boteco.
Impressiona a facilidade com que, aos 53 anos, o músico produz boas canções ao ponto delas parecerem do tempo em que ele tinha 23. “Momofuku”, que sucede a parceria de Costello com o mestre do r&b Allen Toussaint (o excelente “The River in Reverse”) e “My Flame Burns Blue” (registro que flagra Costello e Nieve tocando clássicos como “Watching the Detectives” e “Clubland” em versões jazz acompanhados da Metropole Orchestra), é um grande disco que transpira simplicidade, espontaneidade e despretensão, artigos em falta no showbusiness, mas que Elvis Costello parece ter de sobra em seu estoque, e sabe usar na hora certa. Como agora. Valorize. Existem poucos como ele.
“Momofuku”, Elvis Costello (Universal)
Lançamento nacional: R$29 (em média)
Nota: 8,5
Coldplay nega música de Kylie Minogue
Qua, 04 Jun, 01h08
(BR Press) O grupo de brit rock Coldplay decidiu deixar de fora de seu próximo álbum, Viva La Vida, a canção resultado da colaboração com a cantora australiana Kylie Minogue. Em uma entrevista à rádio inglesa Q, o vocalista Chris Martin disse que a música acabou saindo “sexy demais” e que, no momento de sua carreira, “não dá para ser tão sexy”.
No entanto, a banda ainda cogita usar a faixa em seu próximo álbum, que tem previsão de lançamento para o final de 2009. Intitulada Lunar, a cançnao não deixou de arrancar elogios de Martin, apesar de ter sua inclusão negada em Viva La Vida, o disco que conta com produção de Brian Eno. “Kylie está particularmente brilhante nesta música”, afirmou o vocalista.
Dois lados do sucesso
Formado em 1998, o Coldplay construiu uma das carreiras mais bem sucedidas entre seus companheiros contemporâneos. Com influências que vão de U2 e Echo & The Bunnymen a George Harrison e Johnny Cash, consagrou-se no cenário musical desde o álbum de estréia, Parachutes, que emplacou quatro singles em paradas do mundo inteiro.
No entanto, apesar do sucesso comercial e crítico, o grupo é vítima de alguns ódios, por soar uma trapaça, com composições sem sal. Um dos nomes dessa corrente é o escritor Marcelo Costa, cujo texto “Sete Motivos para rir de Chris Martin” (leia aqui) circulou pela internet em 2007.
(Pedro Keppler/Especial para BR Press)
Texto publicado via BrPress no Yahoo Notícias (aqui)
Ps. Eu não odeio o Chris Martin. Só acho que ele é coxinha.
Não existem fórmulas de sucesso. Se existissem, calhordas (esses existem aos montes no showbusiness) ficariam recriando a mesma música por anos e anos consagrando a fórmula que os colocou, em seus 15 minutos de fama, no topo em algum momento de suas vidas. Felizmente, não é assim. Recriar e/ou reinventar-se é para poucos, mais precisamente para aqueles que realmente tem alguma coisa a dizer. É isso que coloca bandas que sempre fazem/fizeram “o mesmo tipo de som” – como Ramones e Motorhead – de um lado e os meros recicladores de outro.
Assim que entra o riff de “Troublemaker”, faixa que abre o sexto álbum do Weezer, a lembrança de outros riffs – alguns clássicos – do próprio grupo entorpece a memória. Não é só. A própria capa sugere um déjà vu: o nome da banda sobre a cabeça dos quatro músicos que posam a frente de um fundo em cor lisa, sem contraste. Eles já tinham feito a mesma brincadeira via “Blue Album” em 2001, quando lançaram o “Álbum Verde”, e agora, novamente sete anos depois, reprisam o expediente usando o vermelho. Mais um capítulo da novela “nós vamos fazer a mesma coisa o resto de nossas vidas”? Eles querem que você pense isso.
Com dezesseis anos nas costas, o Weezer poderia muito bem ter se transformado em um dinossauro do rock (tal qual o Oasis), mas Rivers Cuomo parece se divertir quando se veste de roqueiro, o que parece ser para ele um passatempo antropológico. Não à toa, um dos motivos do silêncio de três anos entre “Make Believe” (2005) e “Red Album” foi o retorno de Rivers Cuomo à Universidade de Harvard para completar seus estudos, algo tão antirockandroll que poderia funcionar contra a reputação da banda, mas é bom lembrar que Cuomo não é um rock star comum (um rock star comum nunca escreveria “Tired of Sex” no auge do sucesso de sua banda).
Não ser um rock star comum concede a Rivers Cuomo a liberdade criativa que atesta aquilo que muitos chamam de insanidade (outros, eu incluso, preferem um termo mais ousado: maturidade): lançar um disco que é Weezer sem ser Weezer. Na prática é isso. Na teoria é o seguinte: “Red Album” é sobre envelhecer em uma banda de rock e continuar fazendo o que der na telha. Idéia grandiosa que a pluralidade do repertório sugere, mas que esbarra na execução/produção. O tal riff de “Troublemaker” que abre o disquinho assim como seu primeiro single, a power pop chiclete “Pork and Beans”, tem uma função enorme no lançamento: dizer aos fãs que apesar das outras oito canções que compõe o lançamento, este é um disco do Weezer sim (a capa ajuda a reforçar isso).
As duas canções conseguem seu intento com louvor. Apesar do clima power pop, “Troublemaker” soa rancorosa e irônica. Fala de moleques que odeiam livros, abandonam a escola, montam bandas de heavy metal, levam as meninas pra cama, e posam de agitadores. “Pork and Beans” é um dos hits do ano. Nela, o personagem desiste de fazer parte do clube dos politicamente corretos, de seguir aqueles que ditam o que está na moda. Na melhor parte da letra, Rivers sacaneia: “Todo mundo gosta de dançar uma música feliz / Com um refrão e uma batida pegajosa / Timbaland conhece o jeitinho / para chegar ao topo das paradas / Talvez se eu trabalhar com ele / Possa aperfeiçoar a arte”.
Das outras oito canções, três são escritas e cantadas pelos outros membros da banda. O guitarrista Brian Bell comparece com “Thought I Knew”, um power pop menor, de produção descuidada e pouca empolgação. Estranha, “Cold Dark World” é cantada/rapeada pelo baixista Scott Shriner. Já “Automatic” traz o baterista Patrick Wilson para o microfone, e faz lembrar a aproximação do grupo com o rock farofa em “Maladroit”. Nenhuma das três canções tem brilho próprio, e estão ali muito mais para preencher espaço do que para dar unidade ao disco, que por elas e, principalmente pelos quatro b-sides da edição de luxo, sugere um relaxamento na produção, transformando em lançamento oficial um punhado de canções inacabadas.
Apesar do descuido com boa parte do repertório, salvam-se algumas outras canções da safra de Rivers Cuomo, faixas malucas que ouvidas isoladamente podem confundir a cabeça da audiência. É o caso da épica “The Greatest Man That Ever Lived (Variations On A Shaker Hymn)”, seus quase seis minutos de duração e suas dez variações de ritmo (isso mesmo). “The Greatest” começa suave com piano, tem bateria de fanfarra no meio, vira rap, hardcore, progressiva e o escambau. Rivers até “canta” em falsete, e quer saber: o resultado é divertido. “Dreamin’” começa Weezer puro e segue assim até seu break, no meio, onde recebe passarinhos e a visita espiritual de Brian Wilson. Bacana.
“Heart Songs” surge como uma (deliciosa) baladinha acústica que vai num crescendo contagiante enquanto Rivers vai listando os artistas que o influenciaram, de Cat Stevens, Joan Baez e Bruce Springsteen, passando por Slayer, Quiet Riot, Iron Maiden e Debbie Gibson até chegar em “Nevermind”, o disco que fez com que ele e seus amigos fossem para a garagem compor suas próprias canções, que tempos depois iriam tocar nas rádios. Completam o álbum “Everybody Get Dangerous” (outra com vocal de rap) e a rock ballad “The Angel And The One”. Os quatro lados b da edição especial (”Miss Sweeney”, “Pig”, “The Spider” e “King”) ou mesmo a cover do The Band (”The Weight”) funcionam mais como curiosidade e/ou completismo do que por qualidade.
Ok, numa conta tola daria para dizer que metade do disco é boa e a outra metade nem tanto (esqueça os b-sides). Na verdade, e em apenas um adjetivo, “Red Album” soa preguiçoso (não confunda com simplicidade). Mesmo assim é superior tanto a “Maladroit” quanto a “Make Believe”, e só fica devendo ao disco verde (os dois primeiros estão em outra escala, a dos clássicos). Se pensarmos que o “Green Album” já era inferior ao “Blue Album” (apesar das quatro canções matadoras que abrem o disco), a expectativa para o “Orange” (escolha a cor que você quiser, caro leitor) não é das melhores, mas se a cada três anos eles aparecerem com uma “Pork and Beans” já está valendo. Não existem fórmulas de sucesso, mas o Weezer – e Rivers Cuomo – está do nosso lado da força. Ainda bem.
“Weezer (Red Album)”, Weezer (Geffen)
Preço em media (importado): R$ 40 (edição simples) R$ 60 (edição deluxe)
Nota: 7
Enquanto eu procuro desesperadamente um hotel em Benicassim e arrumo a mala (e a gravata) para ir a Brasília neste fim de semana, algumas coisas que estão amontoando meu e-mail e que preciso dividir já faz um tempo:
– O Lestics, banda querida deste espaço, apresentou música nova no programa No Estúdio, do My Space. Assista aqui
– Ramon Moreno, que eu e muitos conhecem como De Leve, publicou um texto bacana no Overmundo: O lobby das gravadoras e Propriedade Cruzada (leia aqui)
– O Tiago Agostini, colaborador do Scream & Yell e futuro iG (já aviso, segunda-feira eu vou chegar atrasado; cuida da lojinha!) está disponibilizando o seu TCC na web. O Tiago fez um perfil do Miranda, e ficou bem bacana. O link para baixar está aqui.
– Já sairam os discos novos do Portishead, Cat Power e Nick Cave… na Argentina.
– O álbum vermelho do Weezer agora bateu forte por aqui. Ouvi as músicas de forma esparsa durante a semana, e hoje que vazou o álbum inteiro fui reouvir e “Troublemaker”, “Pork and Beans” e “Heart Songs” colaram igual chiclete. Vai ser difícil me livrar delas nos próximos dias…
Marcelo Costa é um leonino do segundo decanato com ascendente em touro apaixonado por cervejas artesanais, cachaças mineiras, picanha ao ponto (mal passada) e misto quente com salada e bacon. Editor do Scream & Yell, Beer Sommelier, DJ eventual, cozinheiro de fim de semana e centroavante nos moldes do grande Geraldão, Marcelo escreve bobagens sobre viagens, romances e cultura pop.
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