Category — Música
Disco do dia: Ornatos Violeta

Formada em 1991 na cidade do Porto, a banda de rock alternativo Ornatos Violeta chegou ao primeiro disco, “Cão”, apenas em 1997, já por uma major, a Polygram Portugal. Quando o segundo disco, “O Monstro Precisa de Amigos” (1999), ameaçava catapultar a banda ao estrelato, o quinteto (que vivia junto), cansado e começando a mostrar sinais de rusgas, decidiu terminar o grupo para preservar a amizade. O “estrago”, felizmente, já estava feito: o single “Capitão Romance” havia se transformado em hino geracional e os discos da Ornatos frequentam costumeiramente as listas de melhores discos de todos os tempos do rock português (em uma lista de 2017 da Revista Blitz, “O Monstro Precisa de Amigos” ficou em terceiro lugar; em uma lista de 2018 do RateYourMusic ele figura em quinto com “Cão” aparecendo em 11). Esse box bacanudo da foto saiu em 2011 juntando aos dois álbuns oficiais um terceiro disco de “Inéditos / Raridades”. Punk moda funk catártico e clássico.
julho 26, 2018 No Comments
Entrevista: Ser ou Não Ser (Youtuber)
Respostas para o jornalista Vinicius FeIix

Por que fazer um canal no Youtube? Explica um pouco a origem do canal?
Foi uma ideia que nasceu de outra ideia. Estávamos eu, Iuri Freiberger (produtor) e Rafael Cortes (Assustado Discos) conversando sobre ideias de projetos, e surgiu a ideia de um programa. Levei isso para o Tiago Trigo (da produtora Casa Inflamável), e começamos a fazer uns esboços, chegamos a fazer um primeiro piloto pra sentir a vibe do programa, como a coisa iria ficar, e eu ainda estava um pouco inseguro. Já participei de muitos programas em TV, já dei muita entrevista, mas comandar um programa é outra coisa. Fiz um pouco de TV na faculdade e só. Dai me veio a ideia de fazer o canal no Youtube para me soltar, ver a viabilidade da coisa e fazer um teste para mim mesmo, e o resultado me surpreendeu. Estamos tanto eu quanto o Tiago bastante felizes com o ritmo de produção e a resposta do público.
Qual é a rotina de gravações e o processo de criação?
A gente está gravando quinzenalmente. A pauta é toda minha, e eu sou o maníaco por organização em seções, por isso já fui criando variáveis. Começamos pensando em um programa que não passasse dos 10 minutos, tudo em primeiro take, conversando o calor da conversa. E, claro, quando vi já estava falando 15 minutos. Dai surgiu a ideia de fazer programas mais longos (o Scream & Yell Discos) e gravar pequenas pílulas de, no máximo, dois minutos, para quem quer ver a coisa rápida e tal, e assim nasceu o Dicas Scream & Yell. Dai tivemos a encomenda de vídeos sobre shows e festivais para uma marca parceria. E assim nasceu o Scream & Yell Festivais. As coisas vão surgindo naturalmente.
E dá dinheiro? Se não, você faz pra que dê dinheiro algum dia?
Já deu um pequeno retorno financeiro que é dinheiro de cachaça para os Youtubers badalados do país, mas me mostrou que a maneira da linguagem pode atingir públicos diferentes: conseguimos uma parceria com alguém que nunca tinha lido nada no Scream & Yell! O cara sacou os vídeos, percebeu o potencial e nos chamou pra conversar. Tenho pensando nos vídeos como sempre pensei o site, um veículo sobre cultura pop para atiçar a curiosidade das pessoas, faze-las pensar. Mas o site já nasceu meio torto, meio fanzine, e chegou uma hora que ele já tinha uma personalidade tão forte que rentabiliza-lo era bem complicado. Já os vídeos, como está no começo, permite sim vislumbrar que dê dinheiro. É o que a gente espera.
Você é novo na área, mas já tem alguma dica para alguém que queria abrir o próprio canal no Youtube?
É usar a câmera do celular e mandar brasa. O Dicas Scream & Yell já é isso, linguagem de câmera de celular, coisa rápida, com pouca edição. A facilidade tecnológica ajuda muito hoje em dia, então quem quiser abrir um canal no Youtube abre em poucos clipes. Meu conselho (que é pra toda vida) sempre é: Faça. Não fique esperando o momento certo, ter condições, equipamento e o escambau. O importante é fazer, e durante o percurso ir melhorando, entendendo o processo e dando passos a frente. Não adianta ficar parado. Só quem caminha pode olhar para trás, analisar os passos certos e errados, e seguir adiante buscando melhorar.
Comentários. Ler ou não ler?
Eu tenho dado uma sorte imensa, ou mais provavelmente ainda o Scream & Yell Vídeos não é um veículo de grande porte a ponto de aparecer gente sem noção comentando bobagens, porque todos os comentários que chegam são muito legais, são gente interagindo mesmo com perguntas que lanço nos vídeos, essa coisa de cultura pop, de listas. Nesse nível acho importante dialogar, conhecer seu público e essas pessoas. Então ler é fundamental.
Você produz conteúdo, ok. Mas você também gosta de assistir outros conteúdos do YT?
Eu assisto uma coisa ou outra porque tenho um medo danado de ter ideias podadas porque esse ou aquele cara falou algo que eu estava pensando em falar. É algo que já lido com textos: eu só leio resenhas sobre um disco/livro/ ou filme depois que eu escrevi sobre esse disco/livro ou filme, para que a minha reflexão seja minha, sabe, sem direcionamentos. Dai acabou vendo algumas coisas que não são muito o que eu faria, como os programas do Gastão, por exemplo. Mas tenho favoritado alguns outros para assistir depois que eu publicar a “minha versão”, até por curiosidade para saber se eu tive o mesmo insight que outras pessoas.
Acompanhe o canal: https://www.youtube.com/c/screamyell
julho 25, 2018 1 Comment
Disco do dia: “Nixon”, Lambchop

Disco do dia: Numa garimpagem de CDs em promoção na Sensorial Discos (eles estão com uma promoção bacana e vários itens legais: todos os CDs simples por R$ 10 e os duplos por R$ 20) ao lado do comparsa Rafael Cortes, ele encontrou a edição nacional de “Nixon”, do Lambchop, mas não conhecia, e após eu elogiar muito, decidiu levar. Ele então se apaixonou tanto por esse disco e pela banda que dia sim, dia não, manda um whats: “Que disco foda!”
No embalo da paixão dele retirei da estante a minha edição comemorativa de 10 anos para ouvir, flutuar, e me apaixonar novamente, e colo aqui a resenha de 2011 que escrevi no Scream & Yell (marcando o relançamento dos dois discos mais famosos da banda), porque se você ainda não ouviu esse pequeno tesouro chamado “Nixon”, vale muito a pena ir atrás:
“Quando ‘Nixon’ chegou às lojas em 2000 e apareceu no topo de diversas listas de melhores do ano, o Lambchop já tinha 14 anos de carreira e quatro álbuns nas costas. Comandado pelo desajeitado Kurt Wagner, o supergrupo (14 integrantes) tornou o começo do século mais lírico com ‘Nixon’ e também ‘Is a Woman’ (2002), dois discos que retornam às lojas em imperdíveis versões de luxo. ‘Nixon’ traz um DVD com um show inteirinho no Royal Albert Hall, em Londres, em 2000. A qualidade visual é questionável, mas feche os olhos e deixe a alma levitar ao som de “My Blue Wave”, “The Distance From Her To There” e das covers de Curtis Mayfield (“Give Me Your Love”) e Al Green (“Love and Hapiness”) e dançar com “Up With People”. A reedição do belíssimo “Is a Woman” (o álbum que mostrou que o Lambchop era muito mais que altcountry) traz um CD extra com 16 faixas que destaca, entre boas faixas esquecidas, as covers de “Backstreet Girl”, dos Stones, e uma versão sensacional de “This Corrosion”, do Sisters of Mercy”.
Ps. No Scream & Yell há uma entrevista de 2002 do Leonardo Vinhas com eles! Leia aqui!
julho 24, 2018 No Comments
Dylan com café, 72: Scrapbook 56/66

Bob Dylan com café, dia 72: Na esteira do lançamento do essencial documentário “No Direction Home” (2005), de Martin Scorsese, e de sua trilha sonora caprichada (“The Bootleg Series 7”), surgiu como complemento oficial este livro, “The Bob Dylan Scrapbook: 1956-1966” (2005), escrito por Robert Santelli, então diretor da Experience Music Project de Seattle (hoje Museum of Pop Culture) e curador da exposição Bob Dylan’s American Journey. Como observa a crítica do jornal londrino Independent na época do lançamento do livro, “o texto do especialista em Dylan não oferece nenhuma nova percepção surpreendente, mas isso não importa porque o ponto aqui é mostrar como o talento e a carreira de Dylan se desenvolveram”.
Para acompanhar esse desenvolvimento, o leitor tem a mão dezenas de xerox de documentos, letras escritas a mão pelo homem e reproduções de itens interessantes do período além de um CD com 45 minutos de áudio divididos em 14 faixas, 10 delas de falas extraídas do filme de Scorsese e outras quatro entrevistas de Dylan colhidas de rádios entre 1961 e 1966. Um texto do New York Times rememora: “Em 4 de novembro de 1961, após trabalhar em clubes do Greenwich Village, Bob Dylan fez sua estreia em Nova York no Carnegie Chapter Hall. Dos 225 lugares, 55 estavam ocupados. Menos de dois anos depois, ele era a estrela reinante do movimento das canções de protesto. Mais dois anos, e uma geração discutia se era certo que ele fosse elétrico – não que ele prestasse atenção”.
Este “The Bob Dylan Scrapbook: 1956-1966” traz a reprodução do folheto que apresentava este primeiro show de Dylan, além de cópias das letras manuscritas de “Talkin’ New York”, “Blowin’ In The Wind”, “Gates of Eden”, “It Ain’t me Babe” (escrita num papel do May Fair Hotel, em Londres) e “Chimes of Freedom” (escrita num papel do The Waldorf Astoria, em Toronto), entre outras, e reproduções dos cartazes (Folk City, “Don’t Look Back”, Newport Folk Festival), do convite de Dylan para a Marcha de Washington (quando Martin Luther King fez o discurso “I have a dream”), de releases (“Rebel with a cause”, dizia um texto da Columbia Records) e diversas outras curiosidades imperdíveis para fãs do homem.

julho 24, 2018 No Comments
Reedição: “Carnaval na Obra” em vinil duplo

A Polysom anuncia o lançamento do absolutamente clássico “Carnaval na Obra” (1998), do Mundo Livre S/A, em vinil duplo de 180 gramas pela coleção “Clássicos em Vinil”. O álbum, que completa seus 20 anos e foi o terceiro do grupo de Fred 04, teve quatro grandes produtores daquela geração: Carlos Eduardo Miranda, Eduardo Bid, Apollo 9 e Edu K!
Na edição número 2 do fanzine Scream & Yell, de janeiro/fevereiro de 1999 (baixe ou leia online aqui), um apaixonado Marcelo Costa cravava: “Carnaval na Obra” é o melhor disco lançado no Brasil na década de 90″. E durante anos usei como assinatura a frase “minha mãe não pariu nenhum punk, no entanto aqui estou eu”, da canção “Compromisso de Morte” <3
Mais: Na votação de Melhores Discos dos Anos 90 no Scream & Yell, “Carnaval na Obra” ficou em segundo lugar, um ponto atrás do vencedor e um ponto na frente do terceiro lugar. “Samba Esquema Noise” ficou em sexto…
Esse é o segundo álbum do Mundo Livre S/A reeditado em vinil. O primeiro foi o “Samba Esquema Noise”, que ganhou uma edição bacanuda pela Assustado Discos, do parceiro Rafael Cortes. Agora só falta o também obrigatório “Guentando a Ôia”…
julho 23, 2018 No Comments
Dylan com café, 71: Greil Marcus

Bob Dylan com café, dia 71: Robert Allen Zimmerman nasceu em 1941; Greil Marcus, 1945. A pouca diferença de idade permitiu ao jornalista acompanhar a carreira do músico in loco, atento das mudanças de comportamento à proliferação de bootlegs ainda nos anos 60 (quando escreveu na Rolling Stone o artigo “Bob Dylan: Breaking Down The Incomplete Discography”) e até os discos ruins (é dele a famosa abertura de resenha “Que merda é essa?” sobre “Self Portrait”, em 1970). Dylanólogo famoso, Greil já havia escrito “Invisible Republic” (1998), um mergulho nas “Basement Tapes” de Dylan & The Band, e retornou ao reportório do homem em 2005 quando lançou “Like a Rolling Stone: Bob Dylan na Encruzilhada”, editado no Brasil pela Companhia das Letras. A rigor, é isso que você está pensando, e um pouco mais: sim, é um livro de 250 páginas sobre uma canção pop, mas não qualquer canção, e sim aquela que, segundo Greil, mudou todas as demais canções. O jornalista mergulha na criação da música em 15 de junho de 1965 (ela lançada um mês depois como single e na sequencia no álbum “Highway 61 Revisited”), que nasceu de uma brincadeira com o hit “La Bamba”, de Ritchie Vallens, e foi ganhando contornos dramáticos com o uso de metáforas ao narrar a história de uma socialite que perdia tudo e ficava totalmente pobre.
O grande trunfo de Greil, porém, não é apenas a tentativa de desvendar a canção, mas de encaixa-la em um espaço / tempo e mostrar o quão importante ela foi para a época, o quão esse espaço / tempo influenciou a música e Dylan (e vice-versa) e o quão atual “Like a Rolling Stone” continua sendo hoje. Desta forma, Greil embarca numa máquina do tempo com o leitor a tiracolo para explicar como era o período sócio, cultural, politico e econômico nos EUA quando “Like a Rolling Stone” foi criada, e tudo que veio depois. Chegando ao número 2 da parada da Billboard (um feito para uma canção de seis minutos – Dylan se recusou a cortar a música e ela foi dividida em duas partes, uma em cada lado do compacto), “Like a Rolling Stone” é muito mais do que a canção que tirou Dylan do gueto folk e o apresentou ao mundo. Greil explica o motivo neste livro. Excelente.
Ps. De lá pra cá, “Like a Rolling Stone” foi regravada por centenas de artistas, e a lista inclui nomes como Jimi Hendrix, Rolling Stones, David Bowie, Sixto Rodriguez, The Wailers e Green Day, entre outros.
Ps2. Dica boa do Thiago Busse no Facebook: em 2010 foi lançada a compilação “Bob Dylan by Greil Marcus: Writings 1968-2010“, que reúne textos escritos pelo jornalista sobre Dylan por mais de 40 anos – inclusive os que citei nesse post!
julho 23, 2018 No Comments
Disco do dia: João Donato

Discos do dia: Box quádruplo lançado recentemente pelo selo Discobertas (que continua seu trabalho de resgate maravilhoso, premiado com o prêmio APCA em 2017), “A Mad Donato” reúne três álbuns gravados por João Donato no Brasil entre 1977 e 1989, mas nunca lançados. Junta-se ao pacote um imperdível álbum de raridades com oito gravações entre 1973 e 1978 e uma longa entrevista em texto perpassando os quatro discos: “Raridades (Anos 70)”, “Gozando a Existência” (1978), “Naquela Base” (1988) e “Janela da Urca” (1989). Item obrigatório!
julho 23, 2018 No Comments
Disco do dia: “Breu”, Lestics

Foi amor à primeira ouvida desde que a luz do laser bateu sobre os discos “9 Sonhos” e “Les Tics” em um distante 2007. Me senti de certa forma representado pela poesia melancólica deste baita grupo paulistano que sabe muito bem que, como diz a faixa título de seu novo álbum, “até um certo ponto é tudo início / passado esse limite é tudo fim”. De 2007 para cá, o Lestics soma uma discografia bonita com oito grandes discos, todos disponíveis para download gratuito no site deles (www.lestics.com.br), e também no seu portal de streaming favorito. Não sabe bem por onde começar? Ouça aqui uma seleção minha de oito músicas favoritas da discografia deles (uma de cada álbum). Ou vá de peito aberto ouvir este “Breu” (2018), que chega acompanhado de um fanzine caprichado com participação de música gente legal fazendo arte (incluindo o parceiro Leonardo Vinhas) inspirando-se nas letras do disco. E o que elas dizem? “O batom, a gravata, o crachá do serviço / é preciso que exista algo mais do que isso”, deseja uma canção; em outra, o vocalista e letrista Olavo Rocha canta: “Eu vou me sentar no fundo do bar / E pedir num sussurro gentil / Garçom, deixe o mundo acabar / Mas não deixe o meu copo vazio”. Ou essa declaração apaixonada a algo tão especial que merece ser dividido: “Eu sou sincero quando digo / Que ficar sozinho nunca me aborrece / Mas melhor seria ter, ás vezes me parece / Alguém pra estar na solidão comigo”. Foi amor à primeira ouvida… e continua sendo amor.
julho 17, 2018 No Comments
Dylan com café, dia 70: Howard Sounes

Bob Dylan com café, dia 70: A vida de Bob Dylan é um mistério que centenas de biografias ainda não conseguiram dar conta. Na verdade, quando mais se descobre sobre Bob Dylan, menos se sabe sobre Bob Dylan. Vários bons biógrafos deitaram-se sobre o tema e, como observou um crítico do New York Times, se “Bob Dylan: An Intimate Biography” (1971), de Anthony Scaduto, falhava no estudo do personagem e no exagero; “No Direction Home” (1986), se beneficiava da amizade de Robert Shelton com Dylan, mas não dos atributos críticos de Shelton; enquanto “Bob Dylan” (1991), de Bob Spitz, também pecava na formulação crítica; e “Bob Dylan: Behind the Shades” (1991), de Clinton Heylin, falhava tentando encontrar um real “Dylan” em meio às máscaras que o definem. Em 2001, quem decidiu se lançar sobre a vida de Robert Zimmerman foi o jornalista britânico Howard Sounes, que em 1998 colocara nas lojas “Vida e Loucuras de um Velho Safado”, bio de Charles Bukowski (lançada no Brasil pela Editora Conrad). Ao contrário de Robert Shelton e Bob Spitz, Howard Sounes carrega as tintas na crítica, algumas vezes com ranço, o que, inclusive, dificulta bastante confiar em outros livros do autor como “A Intimidade de Paul McCartney” (em que por vários trechos ele compara Macca com Dylan visando diminuir o ex-beatle) e o polêmico “Two lives of Lou Reed: Notes from the Velvet Underground” (2015). Este “Down The Highway – The Life of Bob Dylan”, de 2000 (lançado no Brasil em 2001 como “Dylan, a Biografia” pela Editora Conrad), porém, é um dos livros mais equilibrados do autor – pese provavelmente o fanatismo que faz com Sounes diminua todos os demais perante Bob. Na época, Sounes se vangloriava de corrigir equívocos de nascimentos dos filhos de Dylan, de descobrir um casamento e um filho não divulgados pela imprensa e de mapear seus imóveis ao redor do mundo, dados que acrescentam ainda mais lenha na confusão do mito. O ponto alto desta boa biografia, porém, é o tempo que o escritor se dedica às sessões de alguns álbuns (em conversas com diversos músicos que acompanharam Bob): “Shot of Love” (1981) e “Empire Burlesque” (1985) são dissecados com o mesmo carinho que “Blood on The Tracks” (1975) e a mítica trilogia “Bring It All Back Home” (1965), “Highway 61 Revisited” (1965) e “Blonde on Blonde” (1966). Em alguns momentos, o texto escorrega para a fofoca (e o The Sun sorri) e a especulação como quando Bonnie Beecher (namorada e Bob Dylan dos tempos do colégio em Minneapolis – época da qual saíram duas fitas famosas, “The Minneapolis Party Tape” e “The Minneapolis Hotel Tape”) tentou falar com Bob em um show nos anos 90, mas teria sido ignorada por Bob e pelos seguranças e sentiu-se humilhada (“O marido de Bonnie – e amigo de Bob – tentou faze-la sentir-se melhor dizendo que Bob havia passado direto por George Harrison da mesma maneira”; Sounes acrescenta: “Bob pode nem tê-la visto: sem seus óculos, que ele se recusa a usar no palco por pura vaidade, Bob é praticamente cego”). Tendo discernimento para avaliar as opiniões de Sounes e de muitos (ex-)amigos do homem, “Bob Dylan, a Biografia”, é um passatempo bastante agradável que ajuda o leitor a se situar na obra de Bob, e se perder sobre quem ele realmente é.

Trecho de “Dylan – A biografia”, de Howard Sounes
O ontem se foi, mas o passado continua vivo. O homem tinha uma nadar estranhamente lépido, como uma marionete manipulada por cordas invisíveis. Sua cabeça parecia se mover com um ritmo próprio. Ele usava roupas mal-ajambradas que o faziam parecer um peixe fora d’água em uma área elegante de Manhattan, tendo quase a aparência de um sem-teto. Contudo, vistas mais de perto, as roupas pareciam novas. Ao ser olhado mais próximo ainda, o rosto pálido, a barba por fazer, esse homem de meia-idade e corpo franzino parecia familiar. Sob o chapéu, o nítido nariz adunco, as feições delicadas emolduradas por um filete de barba. Ao coçar o nariz, notam-se as unhas compridas e sujas. Ao olhar para atravessar a rua, os olhos que se via eram de um azul quase tão intenso quanto o dos ovos do tordo norte-americano.
—”É o Bob Dylan!”
As pessoas freqüentemente o reconheciam, berrando animadamente saudações, quase não acreditando que estavam vendo uma lenda na rua. Bob odiava quando elas o agarravam, mas ele era, no fundo, um educado cidadão do interior e não se importava em dar um alô. Quando falava — talvez somente para dizer algo como “Aí, cara, como é que é?” – sua voz era tão característica, com as palavras saindo aos trancos do diafragma e então parecendo deslizar através do nariz quase cômico, enfatizando a palavra errada na frase e encurtando outras palavras, que só podia ser Bob Dylan. Bob foi até a esquina da 57″‘ Street com a Lexington Avenue e entrou em um pequeno bar, o Irish Pavilion. Tommy Makem, o dono, era um velho amigo do início dos anos 1960 – quando Bob era aprendiz em seu ofício -, um irlandês de fala mansa que tinha tocado canções folk tradicionais com os Clancy Brothers nos bares de Greenwich Village, em Nova York. Makem não via Bobby – como o conhecia – há muitos anos. “Não havia ninguém com ele, nenhum motorista, nenhuma companhia, ninguém. Estava só”, relembra ele. Makem acomodou Bob em uma mesa reservada, onde ele não seria visto por outros fregueses. Depois foi buscar seu banjo e subiu ao palco para o show. Makem tocou as antigas baladas que Bob adorava, canções vigorosas como “Brennan on the moor” e a melancólica “Will you go, Lassie, go”. Houve um intervalo antes da segunda parte e ele foi até onde Bob estava comendo e bebendo alguma coisa. “Se estiver a fim de cantar uma música, me avise”, disse. Mas Bob preferiu ficar sentado em silêncio, sozinho. Ele estava se divertindo imensamente. O Irish Pavilion o fazia lembrar de seus primeiros dias em Nova York e das pessoas que lá conhecera, artistas como John Lee Hooker, “Cisco” Houston e “Big” Joe Williams. Para ele, esses homens eram monumentais: tinham inspirado e influenciado toda a sua carreira. Depois que a platéia se dispersou, Makem puxou uma cadeira e conversou com Bob enquanto os funcionários varriam em volta das mesas. Era do passado que Bob queria falar – velhos amigos dos velhos bares, pessoas que ele não via fazia trinta anos, e antigas lembranças, como a da noite em que ele correu até a casa do irlandês na 6th Avenue, entusiasmado com uma música que escrevera.
“Deus, deviam ser 2 e meia ou 3 horas da madrugada”, diz Makem. “Foi até lá para me mostrar a letra de uma longa balada sobre um assassinato que tinha escrito para a melodia de alguma música que ouvira Liam [Clancy] e eu cantarmos. Havia uns vinte versos nela, ele cantou a música toda. Eu pensei, Deus, que coisa interessante esse cara está fazendo”. Poucas semanas depois da inesperada visita de Bob ao Irish Pavilion, na primavera de 1992, Tommy Makem recebeu uma carta da gravadora de Bob, a Sony Music. Ele estava sendo convidado a se apresentar em um show comemorativo dos 30 anos da carreira de Bob (embora, na verdade, ele viesse gravando há 31). Bob não tinha dito nada quando eles se encontraram, mas isso era típico dele; nunca fora muito falante. Makem não tinha certeza, a princípio, de que tipo de show se tratava. Pelo jeito contido com que Bob perambulava sozinho pela cidade, vestido como um vagabundo, podia-se pensar que seus dias de grande astro tinham acabado, e que uma comemoração de sua carreira seria realizada em um teatro modesto em um lugar qualquer com alguns velhos amigos. “Foi extremamente glamoroso, um evento muito maior do que eu imaginara”, diz Makem. “Foi gigantesco.” O palco do Show de Comemoração do 30º Aniversário de Bob, como foi chamado, foi o Madison Square Garden, o enorme complexo esportivo em Manhattan. Quando foi anunciado que Bob se apresentaria juntamente com alguns dos nomes mais famosos da música, 18 mil lugares foram vendidos em uma hora. E olha que os promotores do evento estavam cobrando entre 50 e 150 dólares por pessoa, preços recordes. Quando chegou ao Riliga Royal Hotel, onde os músicos estavam hospedados, Makem descobriu que a lista de convidados incluía não apenas antigos cantores folk como também superastros como Eric Clapton e George Harrison, amigos de Bob.

julho 16, 2018 No Comments
Discos do dia: Divine Comedy

Discos do dia: “A Short Album About Love” (1996) e “A Secret History” (1999), do Divine Comedy
A música de Neil Hannon entrou na minha vida em 1996 através deste texto apaixonado de Ana Maria Bahiana no Estadão. No século passado não era tão fácil encontrar música feita fora do Brasil se ela não fosse comercializada aqui, e depois do texto sai a caça dos álbuns de Neil, sem tanto sucesso, mas foi numa passada na Galeria do Rock em 1997 que dei a sorte de ser introduzido ao mundo de Hannon com “A Short Album About Love”, seu quinto álbum e até hoje meu favorito (sou apaixonado por “Everbody Knows (Except You)”. Depois fui encontrando os demais álbuns, incluindo “Liberation” (1993) e “Casanova” (1996), e a belíssima coleta “A Secret History”, que mapeia a primeira fase da carreira dele (e traz “Your Daddy’s Car” e, a minha favorita, “Lucy”) – são seis discos na primeira fase, no século passado, e cinco neste século, o mais recente, “Foreverland”, de 2016. Como descreveu Ana mais de 20 anos atrás, “Neil é o cultor pop erudito, mais interessado na vertente obscura que passa por Syd Barret, Tim Buckley, Jacques Breu e Scott Walker (e os Beatles de “Penny Lane”, “For No One” e “Strawberry Fields”) do que nas guitarradas” 💛
julho 16, 2018 No Comments





