Category — Cervejas
Da Inglaterra, Whitstable Bay Organic Ale

Duas belas representantes da Shepherd Neame, cervejaria de Kent, no sudoeste da Inglaterra, já haviam passado por este espaço: a Dedo do Bispo (Bishops Finger), uma bitter ale caprichada, com o aroma lupulado, que ainda traz notas de madeira, malte e frutas; e a Spitfire Premium Kentish Ale, uma standart bitter ale com três tipos de lúpulo que grudam caramelo e melaço de malte no céu da boca. A da foto acima é uma Whitstable Bay Organic Ale, que chega ao Brasil via Uniland.
Essa inglesinha carrega no aroma a marca da Shepherd Neame: assim que a garrafa é aberta, o lúpulo contagia o ambiente deixando alguns rastros de notas cítricas, florais e até um pouco de mel. O paladar, por sua vez, é tipicamente inglês: amargor pronunciado com o lúpulo marcando o céu da boca e o início da garganta, com o malte servindo de coadjuvante de luxo (melaço e caramelo) em uma cerveja bastante leve e refrescante, mas que perde em comparação para suas irmãs.
A Shepherd Neame é a cervejaria mais antiga da Inglaterra com uma produção dividida em oito rótulos distribuídos por mais de 360 pubs no Reino Unido (em Kent, Londres e Essex). Além das três cervejas citadas acima, a Uniland está importando outros dois rótulos (a maioria deles encontrado com facilidade em supermercados da rede Pão de Açucar entre R$ 13 e R$ 18 a garrafa de 500 ml): a Master Brew Kentish Ale e a 1698 Special Strong Ale. Estou atrás.
Whitstable Bay Organic Ale
– Produto: English Pale Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 2,81/5
Leia também
– Outras duas cervejas da Shepherd Neame (aqui)
– Top 500 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
junho 29, 2012 No Comments
Bélgica: três cervejas da Rochefort

No século 19, a cidadezinha de Rochefort, na província belga de Namur, era um resort. Hoje, com aproximadamente 12 mil habitantes, Rochefort é a casa da Abadia de Notre-Dame de Saint-Rémy, fundada no século 13 por monges Cistercienses da Estrita Observância, famosos por sua vida espiritual e também por seus doces e por sua cerveja, que começou a ser produzida em 1595. Há cerca de 20 monges residentes no mosteiro, que guardam o processo de fabricação de cerveja a sete chaves. Com razão…
A Rochefort 6 é a de tampa vermelha e “apenas” 7,5% de graduação alcoólica. A cacetada de álcool marca presença no conjunto, mas não inibe os sentidos. O aroma é levemente picante e caramelado (com algo ainda de castanha). No paladar, o álcool se apresenta incrivelmente de forma tímida (o que pode derrubar muito bebedor metido a corajoso) com lúpulo e malte caramelado formando um conjunto interessante, mas não tão complexo. A 6, na verdade, serve mais como degrau para as versões 8 e 10. Ainda assim, uma bela cerveja.
A da tampinha verde é a Rochefort 8, uma versão turbinada da 6: no aroma, o mesmo picante e o mesmo caramelado, mas mais intenso: o álcool (que aqui chegam a 9,2%) marca presença envolto numa nuvem de melaço, chocolate, nozes, maça e frutas cítricas. O paladar segue a risca a complexidade de notas que o aroma explora com o álcool tocando delicadamente o céu da boca e marcando o gole até o fim. Daquelas cervejas que vão além… uma verdadeira experiência alcoólica. Simplesmente perfeita (e mais balanceada que a outras duas irmãs).
A terceira Rochefort é a 10 (tampa azul), com 11,3% de graduação alcoólica. Isso mesmo: 11,3%, mas não se preocupe: o álcool não atrapalha o conjunto. Ele está ali, intenso no aroma, mas são facilmente perceptíveis notas de caramelo, chocolate, ameixa, madeira e um picante que remete a pimenta do reino. No paladar, o primeiro toque deixa uma marca licorosa e um rastro de álcool que gruda no céu da boca e marca até o fim da garganta. Depois a gente acostuma, e tudo desce de forma suave, adocicada. Uma belíssima cerveja que, infelizmente, não se recomenda beber três seguidas (risos), mas deleitar-se com uma por vez.
Trazidas ao Brasil pela Casa da Cerveja, as Rochefort são… caríssimas. No entanto, ela anda aparecendo, ao menos em São Paulo, em vários empórios por preços entre R$ 8 e R$ 11. Seus preços normais, no entanto, transitam entre R$ 17 e R$ 25 a garrafa de 330 ml, e uma das vantagens dessa belga é que ela pode ser armazenada por até cinco anos (a validade desse trio acima era 27/07/2016!), mantendo a qualidade. A água para as cervejas é extraída de um poço situado no interior dos muros do mosteiro e os monges capricham na receita. É outro nível de cerveja, ou como diz um hastag que circula por ai, #cervejadeverdade.
Trappistes Rochefort 6
– Produto: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,94/5
Trappistes Rochefort 8
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 9,2%
– Nota: 4.77/5
Trappistes Rochefort 10
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 11,3%
– Nota: 4,67/5

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– Top 1000 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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maio 20, 2012 No Comments
Quatro cervejas da Way e uma Diabólica
A Way Beer é uma micro cervejaria artesanal localizada em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, que surgiu em 2010 e já arrebatou alguns prêmios. Em abril de 2011, por exemplo, a Way American Pale Ale foi eleita a melhor Pale Ale no 1º Prêmio Maxim de Cervejas Brasileiras. Além dela, a Way fabrica outros quatro títulos: Amburana Lager, Cream Porter, American Lager, Irish Red Ale. Nascida em 2009, a famosa (em Curitiba) Diabólica 6,66% completa a escalação paranaense honrando o lema “rock your taste”. Vale muito encarar.
Começando pela campeã, Way American Pale Ale tem aroma floral e frutado com notas marcantes de lúpulo (que remetem a caramelo e também guaraná). Cheirosíssima. O paladar não é tão complexo quanto o aroma, mas ainda assim é bastante agradável com o lúpulo pressionando os adversários no campo de ataque. O malte até tenta algo no começo, mas logo é vencido pelas doses carregadas de lúpulo, que marcam com força essa cerveja. O final é de um amargor suave, mas constante que vai do céu da boca até a garganta. Excelente.
Assim como a Pale Ale, a versão Premium Lager da casa paranaense chama a atenção já no aroma, uma união de notas malte de caramelo e mel que surpreende e encanta ao abrir a garrafa. No paladar, o lúpulo parece ter saído para dar uma volta (de mãos dadas com a Pale Ale) deixando todo o território para o malte, que capricha no dulçor e na leveza, que seguem até o final. Uma bela Premium Lager nacional (que pode conquistar bebedores de boteco), suave e refrescante.
A Red Ale da Way acaba ficando em segundo plano no catálogo da casa, escondida sob a sombra do brilho da versão American Pale Ale. O caramelo dá as caras com vontade no aroma, e marca presença forte também no paladar, chegando até a sugerir melaço (com álcool marcando presença de forma discreta). É uma versão personal e mais domesticada das Red Ale tradicionais, que pode desapontar quem esperava uma cerveja mais robusta, e encontra uma cerveja mais terna no copo.
Assim que a tampa deixa a boca da garrafa da Way Cream Porter, o aroma característico da casa paranaense se faz presente, mostrando a personalidade da cervejaria (que tem muita relação com o uso caprichado do malte). E são eles, os maltes de caramelo tostados que remetem a café e chocolate amargo no aroma. O sabor segue a risca as notas flagradas pelo nariz mostrando que a Way fez uma bela homenagem às Porters tradicionais nessa versão bastante fiel ao estilo.
Para fechar, uma cerveja infernal famosíssima em Curitiba, a Diabólica 6.66 (de gradução alcoólica simbólica), uma IPA de responsa como manda o figurino. No aroma, os sete tipos de maltes que a receita promete fazem o serviço e brigam tapa a tapa com o lúpulo (principal estrela das indian pale ales), terminando no empate. No paladar, o lúpulo sai vencedor, mas ainda assim o amargor acentuado é comportado e bem temperado com o adocicado do caramelo do malte resultando em uma das melhores IPAs nacionais. Como o diabo gosta.
As cinco cervejas acima (faltou a Amburana Lager) podem ser encontradas com facilidade em bares especializados de Curitiba. Para outros Estados recomendo o Clube do Malte, onde essas belezinhas foram adquiridas entre R$ 8 e R$ 11. Vale citar ainda o tour que a Way oferece aos curiosos e fãs de cerveja: em abril, a cervejaria passou a abrir a fábrica (Rua Pérola, 331, Pinhais – Paraná) para visitas aos sábados e inaugurou uma sala de degustação para promover a cultura cervejeira (mais infos aqui). Se estiver de bobeira em Curitiba, recomendo: http://www.waybeer.com.br/
Way American Pale Ale
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 3,84/5
Way Premium Lager
– Produto: Premium American Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5,3%
– Nota: 3,33/5
Way Irish Red Ale
– Produto: Irish Red Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,81/5
Way Cream Porter
– Produto: Porter
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5,6%
– Nota: 3,12/5
Diabólica 6,66%
– Produto: IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6,66%
– Nota: 3,66/5
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maio 17, 2012 No Comments
Opinião do Consumidor: Affligem

A Abadia de Affligem é um mosteiro beneditino fundado em 1061 (por seis cavaleiros arrependidos de sua vida bárbara, veja só) na pequena cidade de Affligem, cerca de 20 quilômetros da capital Bruxelas e com atualmente pouco mais de 12 mil habitantes. Os monges começaram a fabricar cerveja em 1574, e hoje em dia a Affligem integra o grupo de 18 produtoras belgas que têm direito de usar o selo que define as cervejas de abadia, cujas receitas devem ser aprovadas e/ou elaboradas por uma ordem religiosa, e parte da renda revertida em ações de caridade. A cerveja, no entanto, é fabricada atualmente em Opwijk, noroeste de Bruxelas, e não na Abadia.
De cor marrom avermelhada, a Affligem Dubbel namora a escola inglesa, com maltes levemente tostados e uma certa picância, mas é belga até o último gole. O aroma apaixonante é deliciosamente frutado e caramelado, remetendo a frutas vermelhas e também a especiarias (notadamente cravo e pimenta do reino). O paladar segue a risca o caminho proposto pelo aroma, com as notas de fruta vermelha se tornando ainda mais presentes (puxando para cerveja, framboesa, uva e ameixa). Há um pouco de álcool, que surge contrabalanceado a perfeição com o malte caramelado. O final é impressionantemente seco e doce. Uma delicia.
A Affligem Blond, no entante, sofre logo de cara com a comparação com outras blond ale belgas (como a Leffe, por exemplo,). Ela mantém as principais características do estilo, como o aroma herbal, que é leve remetendo a mel, banana e flores, e também picante devido ao cravo. O paladar perde um pouco das nuances propostas pelo aroma valorizando em excesso as notas de banana. O álcool, quase imperceptível (mesmo com seus 6,8% – o que é interessante), fisga de leve o céu da boca e o final é seco, suave e adocicado. Uma bela cerveja belga, refrescante, embora não tão complexa quanto suas concorrentes.
Já a versão Tripel , que se intitula “rainha das cervejas de abadia”, traz um aroma bastante picante, com presença forte de notas de cravo e pimenta do reino, aliadas ao frutado que remete a banana, laranja e muito levemente a mel. E, claro, álcool, afinal, são 9,5% que tomam a frente assim que tocam a língua deixando em segundo plano o cravo e a pimenta (mas ainda assim bem presentes) e, por último, lá no fundo quase esquecido, o frutado. A valorização do álcool em detrimento do frutado torna essa Tripel mais forte e intensa, e menos equilibrada. Bem boa, mas assim como as anteriores, inferior a outras belgas.
Para quem admira a escola belga, a Affligem é altamente recomendável. Ela mantém as boas características do estilo, e até pode conquistar, principalmente a Dubbel e Blond, mais doces e menos alcóolicas. Mesmo sendo inferior a alguns outros rótulos do país (mais baratos, como a Leffe, ou mais caros, como a Duvel e a Chimay), vale a pena provar e investir nessa boa cerveja, que hoje em dia é controlada pela Heinken Internacional – mas segue sendo feita segundo os preceitos do selo de abadia – e chega ao Brasil numa faixa de preços entre R$ 7 e R$ 11.
Affligem Dubbel
– Produto: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 6,8%
– Nota: 3,89/5
Affligem Tripel
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 9,5%
– Nota: 3,24/5
Affligem Blond
– Produto: Belgian Blond Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 6,8%
– Nota: 3,33/5

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maio 9, 2012 No Comments
Alemanha: Três cervejas da Kaiserdom

Inaugurada em Bamberg, na Bavária, em 1718, a Kaiserdom Brauerei orgulha-se de produzir suas cervejas apenas com ingredientes naturais, sem qualquer aditivo, seguindo a Lei de Bamberg de 1849, que surgiu 27 anos antes da Lei da Pureza da Bavaria (datada de 1516). Maior cervejaria de Bamberg, a Kaiserdom é comandada desde 1910 pela família Wörner, e começa a chegar ao Brasil com três rótulos interessantes, que senão destacam um conjunto de alta personalidade, conquistam pela leveza e sabor alemão inconfundível.
A Kaiserdom German Dark Lager é um belíssimo exemplo da escola bávara de cervejas escuras: o aroma é bastante suave com o malte torrado sugerindo café e, muito levemente, caramelo. O paladar, águado, segue a risca o caminho aberto pelo aroma com o caramelo inicialmente tomando a frente, mas cedendo para a presença marcante do malte torrado (e sua ligação direta ao café) em uma cerveja extremamente suave e saborosa. Praticamente não se sente os 4,7% de álcool, que desaparecem no conjunto harmonioso e característico. Ótima.
Já a versão Hefe-Weissbier Naturtrüb, da Kaiserdom, é bem particular, mas ainda assim segue a tradição alemã de boas cervejas de trigo. O aroma característico traz notas frutadas que remetem a banana e cravo. O paladar sugere leveza (uma marca da cervejaria) e a Hefe-Weissbier Naturtrüb não foge a regra sendo bem menos densa que suas “concorrentes” (como a Weihenstephaner), mas ainda assim muito interessante, com as notas de banana e cravo bem balanceadas com o lúpulo num conjunto que ainda traz algo de lager.
E falando em lager, a Kaiserdom Premium é a que, comparativamente com outras do mesmo estilo, é a que mais se destaca da cervejaria. A Dark Lager tem em seus calcanhares a Köstritzer. Dificil pensar em Weissbier alemão e não pensar em Weihenstephaner (ainda que, para fugir da comparação, a Kaiserdom proponha o meio do caminho entre uma weiss e uma lager). Já a Premium é uma lager autêntica, bastante saborosa e acima das cervejas comerciais brasileiras, com o malte e o lúpulo totalmente perceptíveis e bem inseridos no ótimo conjunto. Uma bela surpresa.
As três Kaiserdom estão chegando ao Brasil em garrafas de 500 ml (entre R$ 8 e R$ 11) e belas latas de 1 litro (entre R$ 20 e R$ 25), como as da foto acima. Há um kit que, além das três latas (Premium, Weissbier e Dark Lager), também traz uma taça de 1 litro da casa – que é praticamente um exercício de levantamento de (copo) peso para se levar a boca. Em alguns empórios online, o kit é encontrado por R$ 120, mas no Duty Free costuma sair por 32 dólares. Vale o investimento.
Kaiserdom German Dark Lager
– Produto: Schwarzbier
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 4,7%
– Nota: 3,01/5
Kaiserdom Hefe-Weissbier Naturtrüb
– Produto: German Weizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,96/5
Kaiserdom Premium German Lager
– Produto: Munich Helles
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 3,03/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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abril 19, 2012 No Comments
Da Backer, as excelentes Três Lobos

Estilosa micro-cervejaria de Belo Horizonte, a Backer começou certeira com quatro rótulos básicos e interessantes: Pilsen, Brown, Trigo e, a melhor das quatro, Pale Ale. Em julho de 2011, os mineiros decidiram arriscar alto lançando uma “Série American Extreme” chamada Três Lobos, com quatro rótulos inspirados em cervejas norte-americanas (desde a arte ao paladar provocante). Nasceram a Exterminator (com capim limão), a American Pilsen (com açúcar mascavo), a Pele Vermelha (uma IPA com raspas de laranja) e a Bravo, uma Imperial Porter maturada em barris de umburana.
No rótulo detalhado da Três Lobos Exterminator, um homem tenta domar um jacaré. A cervejaria mineira paga tributo à escola norte-americana com uma interessante american wheat, que contém capim limão em sua fórmula. O aroma delicioso é herbal, e remete diretamente não só a chá de ervas, mas também a limão siciliano. O paladar é leve e adocicado como o de uma boa cerveja de trigo, mas o lúpulo e o capim limão marcam presença criando um conjunto refrescante e de bastante personalidade com um forte final cítrico. Muito boa.
Já a Três Lobos American Pilsen – com açúcar mascavo – parece destinada ao “ame ou odeie”. O aroma é contagiante: lúpulo, cítrico (remete à tangerina) e malte em presença delicada. Já no paladar a coisa pega: a intensidade do lúpulo faz com que a cerveja pareça uma tangerina amarga, com o gosto tocando o céu da boca e clamando por atenção. As notas finais são maltadas, mas um rastro de lúpulo é deixado (como uma boa IPA). Eis uma cerveja personal que pede (implora) o acompanhamento de algum prato (pescado, salame ou calabresa).
Falando em IPA, a Três Lobos Pele Vermelha é a representante da casa mineira, que junto à água, ao malte e ao lúpulo, misturou raspas de laranja. O resultado pode ser conferido já no aroma, em que o cítrico (laranja e abacaxi) se destaca ao lado do lúpulo herbal e do malte de caramelo. O paladar segue as notas do aroma com o malte se apresentando primeiro, mas logo perdendo espaço para o lúpulo e os tons cítricos (com o álcool marcando presença, ainda que de forma leve), que dominam a cerveja até o seu final, levemente amargo. Ótima.
Fechando o quarteto, a Três Lobos Bravo, uma robusta American Imperial Porter, de teor alcoólico elevado (9%), com presença de açúcar mascavo e maturação em barril de umburana. No aroma, bastante rico, notas de café, chocolate amargo, malte torrado, madeira, nozes e… cachaça. O paladar, também complexo, é uma deliciosa experiência: o álcool um bocadinho excessivo remete a cachaça, mas notas de madeira, chocolate amargo, café e principalmente nozes dançam na boca. O final é… marcante: meio amargo, meio doce, meio alcoolizado. O pessoal não brincou em serviço. Um capricho só.
Os quatro rótulos especiais podem ser encontrados tanto na loja da Backer (aqui) quanto em bons empórios e distribuidores, como o Clube do Malte (aqui). Cada garrafa de 330 ml sai entre R$ 9 e R$ 12, mas também pode se encontrado pela metade do preço em lojas de Belo Horizonte (com na ótima Mamãe Bebidas). São cervejas caprichadas e muito interessantes, especiais para acompanhar pratos, e que mostram que o cenário das micro-cervejarias brasileiras (principalmente as mineiras) começa a buscar sua própria cara, investindo em rótulos personais e brasileiros. Valem o investimento.
Três Lobos Exterminator
– Produto: American Wheat
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4,8%
– Nota: 3,57/5
Três Lobos American Pilsen
– Produto: American Pilsner
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,50/5
Três Lobos American IPA
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,53/5
Três Lobos Bravo
– Produto: American Porter
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,74/5
Leia também:
– Linha Backer Tradicional: Pilsen, Pale Ale, Brown e Trigo (aqui)
– Backer Medieval: uma Blond Ale inspirada em monges (aqui)
– Vídeos: conheça a fábrica da Wäls, em Belo Horizonte, por Mac (aqui)
abril 9, 2012 No Comments
Opinião do Consumidor: Bernard Brewery
O carro chefe da Úvodní Stránka, ou melhor, cervejaria Bernard, da República Tcheca, é a Bernard Dark, que já ganhou medalha de ouro em premiação internacional, e segue levando o nome desta pequena cervejaria do século 16 que, falida, foi recuperada em 1991 por três irmãos, que colocaram a fábrica de pé com receitas originais até que a Duvel Moortgat entrasse com um aporte financeiro. Hoje a Bernard é exportada para 26 países, e além da Dark (link sobre ela no fim do post), outras duas chegam ao Brasil: Amber e Celebration.
A Bernard Amber (conhecida na República Tcheca como Bernard Polotmavý Ležák 11°) é uma lager escura cujo aroma adocicado remete com leveza a malte de caramelo e chocolate. Não espere intensidade, mas sim suavidade. O paladar transforma em realidade o que o aroma pronuncia, com o malte de caramelo dominando o conjunto e o lúpulo marcando de amargor uma proximidade com café torrado em uma cerveja leve e saborosa, que até parece um pouco mais aguada do que deveria, mas ainda assim tem um saldo bastante positivo.
Já a Bernard Celebration, que começou a ser fabricada em 1995, é uma autêntica pilsen tcheca (Humpolec, a cidade da Bernard, fica a duas horas da cidade de Pilsen) com o lúpulo e o malte marcando presença de forma intensa no aroma e no paladar (de final amargo e seco). Refermentada na garrafa, a Bernard Celebration sugere equilíbrio e tradição, mas fica no fim da fila das cervejas da Úvodní Stránka, distante da versão Amber e, principalmente, da Bernard Dark (que é premiada e tal, mas também não é tudo isso).
As três Bernard estão chegando ao Brasil com preço que varia de R$ 11 a R$ 14 (a garrafa de 500 ml com flip-top, uma tampa de pressão bonita e bastante funcional). Vale experimentar.
Bernard Amber
– Produto: Amber Lager
– Nacionalidade: República Tcheca
– Graduação alcoólica: 4,7%
– Nota: 3,05/5
Bernard Celebration
– Produto: Premium Lager
– Nacionalidade: República Tcheca
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,01/5
Leia também
– Bernard Dark, por Marcelo Costa (aqui)
– Top 100 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
abril 2, 2012 No Comments
Uma manhã na cervejaria Wäls

No começo de 2011, procurando novos rótulos de cerveja, me encontrei em um empório frente as garrafas estilosas (do modelo do vasilhame passando pelo rótulo até a rolha) de uma cervejaria mineira, a Wäls. Peguei dois de cada um dos três exemplares (Dubbel, Trippel e Quadruppel) que estavam à venda, já percebendo que os mineiros tinham certa queda pelo estilo belga de fazer cerveja.
Em casa, abri (sem querer) logo a mais forte do conjunto, a Quadruppel, e foi paixão ao primeiro gole. Escrevi sobre as três cervejas aqui, e comecei a comentar com os amigos sobre aquela que passou a ser a minha cerveja brasileira preferida, incentivando a descoberta. Em dezembro escrevi para o mestre cervejeiro da casa, o José Felipe, para tirar algumas dúvidas para uma matéria que saiu em janeiro na GQ Brasil (essa aqui).

E no mesmo janeiro, aproveitando uma passagem rápida por Belo Horizonte, visitei à fábrica da cervejaria, que nasceu em 1999 e cresceu rapidamente em qualidade e personalidade, sendo hoje uma das principais cervejarias nacionais. Os irmãos Thiago e Felipe, e o pai Miguel, costumam abrir as portas da fábrica para o público no sábado, e recebem os visitantes com aquela atenção mineira que faz parecer que você os conhece há alguns bons anos.
Particularmente dei muita sorte: era o sábado em que eles iriam começar a brasagem da primeira leva da Wäls Petroleum (parceria da Wäls com a curitibana Dum), uma Russian Imperial Stout inédita no mercado nacional. Experimentei uma versão teste (que incluía chocolate Lindt na fórmula), deliciosa, e bati um papo com os irmãos, que falaram um pouco da cervejaria, da Petroleum e do sonho de fazer cerveja artesanal no Brasil.

Experimentei também a X-Wäls, que surpreendeu (uma pilsen levíssima, mas bastante saborosa), e, ainda, uma versão teste da Wäls Quadruppel envelhecida em antigos barris de carvalho que, um dia, envelheceram uísque, e fiquei com a feliz impressão de que eles não descansam de pensar experimentos para novas cervejas, o que justifica a frase de José Felipe: “Eu não faço cerveja, eu faço arte”.
A fábrica, eles planejam, se transformará num ponto de encontro para amantes de cerveja, com restaurante, um pequeno museu e a cerveja da casa tirada direto da torneira. Deve demorar um pouco, o que não impede de visita-los. Abaixo, alguns vídeos do meu bate papo com os irmãos, que integrariam um videocast de cerveja que logo mais deve chegar aos compartilhadores de vídeos (já está gravado, mas a edição é complicada).

O quarto vídeo foi feito pelo pessoal da Dum, que também estava na cervejaria (em janeiro) acompanhando a primeira brasagem da Petroleum, que foi lançada duas semanas atrás, e faturou uma medalha de ouro no South Beer Cup (saiba mais aqui). Queria mandar um abraço pro Alexandre (que fez as filmagens), agradecer a hospitalidade do seu Miguel, do José Felipe e do Thiago e pedir desculpas para a mãe deles por não poder ficar para o almoço (mais um pouco e eu perdia o voo). Quem sabe da próxima…
Com vocês, a Wäls
Ps. Há um Beer Tour, comandado pelo beer sommelier Rodrigo Lemos, que em um sábado passa em quatro ou cinco cervejarias artesanais na região de Belo Horizonte (Wäls inclusa). Infos aqui
“Eu não faço cerveja, eu faço arte”, José Felipe
José Felipe fala sobre a Wäls Petroleum
Thiago Carneiro conta um pouco da história da Wäls
Depoimento para o pessoal da Dum Cervejaria
março 29, 2012 No Comments
Da Harboes Bryggeri, Bear Beer

A Harboes Bryggeri é a maior cervejaria da Dinamarca. Fundada em 1883 em Skaelskor, uma cidadezinha de 7 mil habitantes na ilha da Zelândia (cerca de uma hora e meia de Copenhague), a Harboes tem uma carta de cervejas diversificada, sendo que a maioria delas circula apenas na Dinamarca, e alguns rótulos são feitos exclusivamente para a Escandinávia (onde as Bear Beer deste post se chamam Bjørne Bryg e não ultrapassam 3,5% de graduação alcoólica). Para exportação (incluindo o Brasil) apenas as trava-língua Bear Beer.
A versão popular da casa é a Bear Beer Premium Lager, 5% de graduação alcoólica e quase nenhuma diferença das (nossas) cervejas premium tradicionais. O aroma é bastante maltado, com o lúpulo floral marcado presença com delicadeza. No paladar, como manda o estilo, a regra se inverte: o lúpulo traz o amargor suave para frente do conjunto enquanto o malte tenta dar um pouquinho de sabor em uma cerveja cuja função primordial é refrescar (como as nossas). Se você estiver na Dinamarca, procura outras.
A Strong Lager da Harboes Bryggeri é uma versão um pouquinho mais densa da Premium Lager (e muito mais leve que a porrada Extra Strong). No aroma tudo praticamente se repete: bastante malte e lúpulo delicado. A diferença é a presença do álcool, ainda comportado (principalmente em comparação com a próxima), mas presente. O paladar é um pouco mais amargo, remetendo levemente a nozes e malte, que dominam o final (nada amargo). Das três cervejas da casa, a mais equilibrada (ainda que nada sensacional).
Já a Bear Beer Extra Strong é uma patada de urso. Sério. São 12% de álcool que se apresentam ao freguês já no aroma, que ainda deixa passar notas de malte, de milho e… conhaque. No paladar, o álcool bate no céu da boca e fica. E não espere mais nada. Ok, ela ainda é levemente adocicada, muito embora você vá esquecer isso (e do mundo) no segundo gole. Os 12% de álcool são alcançados através da fermentação, e isso fica evidente no conjunto, que chega a enjoar. Para beber e cair (ou se esquentar do frio se você estiver no inverno europeu). E só.
As Bear Beer estão chegando ao Brasil entre R$ 7 e R$ 9,50, mas já tem gente que encontrou em boteco por R$ 6 (e vale, principalmente a patada de urso, se a ideia é se embebedar sem prestar atenção ao sabor). Acima disso parece exagerado para uma cerveja que não traz tantas qualidades nem diferenças de exemplares nacionais próximos. Se o seu negócio é ficar bêbado, duas Bear Beer Extra Strong podem fazer uma noite. Se o seu negócio é boa cerveja, vale dar uma conferida no Top 1000 deste blog (aqui). Tem coisa muito boa ali.
Bear Beer Premium Lager
– Produto: Premium Lager
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2/5
Bear Beer Strong Lager
– Produto: Strong Lager
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 7,7%
– Nota: 2,1/5
Bear Beer Extra Strong
– Produto: Strong Lager
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 12%
– Nota: 1,9/5

Leia também
– Top 1000 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)
março 26, 2012 No Comments
Duas inglesas: Spitfire e Bishops Finger
Inaugurada na cidade de Kent, no sudoeste da Inglaterra (a cerca de uma hora de Londres), em 1698, a Shepherd Neame é a mais antiga cervejaria inglesa tendo transformado a bitter ale (um ale amarga, lupulada – para padrões ingleses) através das décadas em paixão nacional perfeitamente reconhecível ao primeiro gole. Hoje em dia, a Shepherd Neame produz cerca de oito rótulos e possui mais de 360 pubs no Reino Unido (em Kent, Londres e Essex) tendo conseguido atravessar fronteiras e conquistar até os suecos.
Dois rótulos da Shepherd Neame se destacam: o primeiro é o Dedo do Bispo (Bishops Finger), que começou a ser produzido em 1958, quando o conselho de administração da Inglaterra liberou os cervejeiros para testar novos rótulos (o pós-guerra provocou um racionamento do malte – entre dezenas de outras coisas, e a ordem do governo era clara: “Quantidade, não qualidade). O cervejeiro da casa apostou nos lúpulos da cidade (hoje famosos), na água tirada de um poço artesiano há 200 metros do chão e em uma receita simples, que virou lenda.
Para ter uma ideia de como a produção da Bishops Finger é levada a sério, o conselho da Shepherd Neame decretou que a cerveja, produzida apenas às sextas-feiras, precisa semanalmente passar pelo crivo de um dos conselheiros. O resultado é uma english pale ale caprichada, com o aroma lupulado, que ainda traz notas de madeira, malte e frutas. O paladar crava o que o aroma sugere, mas com muita leveza, deixando um rastro de ameixa e uva passa num final que é surpreendentemente balanceado entre o amargo e o adocicado.
Já a Spitfire Premium Kentish Ale nasceu em 1990 – e logo se tornou o carro chefe da cervejaria – como uma homenagem à cidade de Kent, onde a Luftwaffe (Força Aérea Alemã) e a Royal Air Force (Força Aérea Britânica) lutaram durante a Segunda Guerra Mundial. Spitfire era o nome do caça britânico mais usado na época, e seu símbolo (uma bola vermelha dentro de uma bola azul – veja na foto) estampa a tampa da cerveja. E, claro, Kent também é famosa por seus lúpulos, sendo que três deles são usados na composição da Spitfire Premium Kentish Ale.
Ela já mostra sua personalidade através do aroma delicioso, um q de amadeirado com muito lúpulo floral e malte de caramelo que flutua no ar assim que o líquido é colocado no copo. No paladar, todas as características de uma autêntica bitter ale inglesa surgem: o amargor pronunciado devido aos três tipos de lúpulo gruda no céu da boca arrastando um bocadinho de caramelo e melaço do malte, o que torna o conjunto bem interessante e deixa uma sensação agradável no final, levemente amargado. Ótima cerveja.
Fiquei bem curioso pelos outros rótulos da Shepherd Neam (principalmente pela Original Porter e pela Goldings Summer Hop Ale, que creio deva lembrar bastante a Bodebrown Hop Weiss, ótimo exemplar de Curitiba). Tanto a Spitfire Premium Kentish Ale quanto a Bishops Finger podem ser encontradas com facilidade no Brasil. Ou nos supermercados da rede Pão de Açucar, ou em empórios especializados com o preço variando entre R$ 14 e R$ 19 (a garrafa bonitinha de 500 ml).
Bishops Finger
– Produto: English Pale Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 5,4%
– Nota: 3,24/5
Spitfire Premium Kentish Ale
– Produto: Standart Bitter Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 3,31/5
Leia também
– Top 500 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
março 23, 2012 No Comments





