De Luis Buñuel para Erasmo Carlos

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Sai o surrealismo e entra a jovem guarda. Troca necessária neste momento. Em sua excelente biografia (recomendadíssima), o cineasta espanhol inspira a desordem, provoca o pensamento e instiga o caos social. Não há como ficar alheio ao mundo, e isso pode até enlouquecer (no mínimo garantir uma boa dor de estômago). Extremamente inspirador. E (deliciosamente) perigoso.

Por sua vez, em “Minha Fama de Mau”, Erasmo Carlos mostra toda a inocência dos primeiros anos do rock and roll. De mau Erasmo (e a jovem guarda) não tinha nada. Basta colocar lado a lado um filme de Buñuel de 1930 (“A Idade do Ouro”) e uma música de Erasmo e Roberto de 1963 (“Parei na Contramão”). 60 anos separam as duas obras, e quem era mau mesmo?

Erasmo narra um punhado de histórias inocentes de um garoto pobre do bairro da Tijuca. De causos de adolescência a histórias da jovem guarda (incluindo passagens de parcerias com Roberto até exemplos de sua rotina ao lado de um homem com toc), os capítulos surgem com um verniz de inocência que caracteriza (e muito) o período. Parecia não haver maldade. É tudo tão simples que, por vezes, soa simplório.

“Tocaram a campainha e fui atender. Tinha 17 anos e vivia com minha mãe – e os gatos, os periquitos e o cágado – no quarto alugado da rua Professor Gabizo. O tal casarão de beleza decadente, com seus azulejos coloniais e suas incontáveis pulgas. Na porta, estavam Trindade, Arlênio e um outro cara, que eles queriam me apresentar. O sujeito morava no bairro de Lins de Vasconcelos e se chamava Roberto Carlos. Ele fizera parte do Sputnicks e, com o fim do grupo, resolvera seguir em carreira solo. Já cantava boleros e sambas-canção em sua terra natal, Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo.

Gostei dele. Era simpático, usava topete e costeletas e vestia calça faroeste com uma jaqueta vermelha tipo James Dean. Conversamos bastante sobre rock, bebemos água da moringa de barro que eu tinha no quarto e comemos biscoito Aymoré. Num certo momento, a meu pedido, ele afinou o precário violão de cravelhas de pau que eu havia ganhado da minha avó Maria Luiza pouco tempo antes e cantou “Tutti Frutti” e “Don’t Be Cruel”. Arlênio e Trindade iniciaram um vocal que timidamente apoiei. Eu não tocava nem cantava, mas tinha a intenção de aprender. Foi demais!

O motivo daquela visita era saber se eu tinha a letra de “Hound Dog”, o grande hit de Elvis Presley que tocava adoidado nas rádios – Bill Halley ans His Comets viriam se apresentar em breve no Maracanãnzinho e o Clube do Rock, do qual Roberto fazia parte, iria fazer o pré-show. Ele queria aprender a canção e incluí-la no seu repertório.

Eu tinha a letra e prontamente o atendi, recorrendo aos meus arquivos musicais. Naquele mesmo instante ele começou a treinar o seu inglês capixaba enquanto levava sua batida com meu violão. Na saída, entre abraços e piadas sobre as pulgas, agradecido pela hospitalidade, ele disse a frase que mudaria minha vida:

‘Bicho, aparece lá na televisão.’”

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Erasmo com Tim Maia

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