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Top Ten: 10 shows nacionais

Na semana passada publiquei o meu Top Ten pessoal de shows internacionais; nesta semana é a vez dos shows nacionais mais bacanas que eu presenciei em anos e anos de empurra-empurra, cerveja quente, voz rouca no final da noite e momentos inesquecíveis na memória. Diferente da seleção gringa, que aumentou nos últimos anos, a lista nacional remonta aos anos 80, época em que o rock nacional mudava vidas e as bandas – no ápice – passavam todo ano por Taubaté, cidade em que eu morava. Com certeza não é uma lista dos melhores shows brasileiros de todos os tempos. São os melhores shows que eu vi, é bom deixar claro (tem mais 40 aqui).
Porém, fazer uma lista dessas é um teste e tanto de memória que, no meu caso, não anda tão bem (esqueço nome de filmes, artistas, pessoas – às vezes o meu nome mesmo). Com toda certeza, em alguns dos relatos deverei cometer algum erro de data, trocar algo que aconteceu em um show (música, frase) com o que aconteceu em outro (imagina o Ira!, que eu vi mais de 50 vezes ao vivo), mas isso tudo faz parte de uma das coisas mais bacanas da vida: ter histórias para contar. E muitas das histórias da minha vida têm relação com música, então, vamos a dez pequenas histórias dos meus dez shows prediletos:
01) Jards Macalé no Theatro Municipal (2007)
Macalé é um caso de paixão recente em minha vida. O “descobri” apenas em 2001, quando um amigo me deu de presente uma cópia em CDR do álbum “Farinha de Desprezo” (fora de catálogo), debute de Macalé em 1972 logo após ele ter produzido, em Londres, o clássico “Transa”, de Caetano Veloso. Porém, de 2001 pra cá fui compensando a descoberta tardia com várias audições do álbum e de outras pepitas de seu excelente repertório.
Então a Prefeitura de São Paulo, em uma iniciativa louvável, convocou o maldito para se apresentar às 3 da manhã no imponente palco do Theatro Municipal da cidade no meio da Virada Cultural que agitou a cidade neste ano tocando “Farinha de Desprezo” na integra. Grande notícia: Jards teria ao seu lado a lenda da Tropicália Lanny Gordin, que gravou todas as guitarras e baixo do álbum em 1972. Às 3 da manhã lá estava eu na primeira fila do Theatro Municipal frente a frente com a história da música (im)popular brasileira.
O show foi um crescendo incrível seguindo o tracking list do álbum original, com a faixa título (que ganhou versão, nos anos 80, do Camisa de Vênus) abrindo e sendo seguida por “Revendo Amigos”. Em “Mal Secreto” (um dos grandes momentos da madrugada), o teatro lotado seguiu no embalo da canção comandada pela guitarra de Lanny. “Movimento dos Barcos”, “Farrapo Humano”, “Let’s Play That”, “Meu Amor Me Agarra & Geme & Treme & Chora & Mata” e, no bis, “Vapor Barato” fizeram desta noite algo inesquecível, difícil de traduzir em palavras. Por sorte, lá estava eu com minha boa câmera digital. O vídeo que filmei, e que Capitu postou no Youtube, pode ser visto aqui. Ele dá uma boa dimensão da grandiosidade dessa noite.
Leia mais sobre o show e a Virada Culural
02) Legião Urbana no Clube de Regatas em São José dos Campos (1992)
Foram cinco as vezes que assisti a um show da Legião. Os primeiros (da turnê do álbum “Dois”, em 1987, e do “Quatro Estações”, dobradinha em um 12 e 13 de junho no Taubaté Country Club em 1989) foram terríveis. Só dava para ouvir a caixa de bateria do Bonfá e a voz do Renato, mais nada. Já neste foi tudo diferente. Primeiro devido ao fato da turnê do álbum “V” não ter passado por Taubaté, o que me fez ir com amigos assistir ao show em São José dos Campos (cidade quase vizinha). Tentei pescar na memória, mas não consegui: não lembro se o show foi no Teatrão ou no Clube de Regatas (ou em algum outro lugar).
Sei que, segundos após a banda ter iniciado a apresentação com “Será”, a placa que separava o público do palco arrebentou, e alguns fãs foram parar embaixo das armações. Assim que seguranças formaram uma nova placa de proteção, acabei ficando na primeira fileira, quase com os braços apoiados no palco. Foi perfeito. O som, desta vez, estava muito melhor. A iluminação era uma das mais belas que eu havia visto até então. E o trio que acompanhava Renato, Dado e Bonfá desde a turnê do álbum anterior já estava bem entrosado, o que deu qualidade a apresentação.
Mas não tem jeito: quando se fala em Legião ao vivo, se fala de Renato Russo e seu costumeiro show particular sobre o palco. Neste show ele estava possesso, transformando quase todas as letras novas (do álbum “V”) em ataques diretos ao então presidente Fernando Collor, tais como em “Metal Contra as Nuvens”: “Perdi a minha sela e minha princesa / Perdi o meu castelo e minha poupança” ou “Reconheço o meu pesar / Quando tudo é traição / O que venho encontrar / È o dinheiro em outras mãos” ou “E por honra, se existir verdade / Existem os tolos e um presidente ladrão”. Fez mais: simulou um desmaio, cantou o “Hino Nacional” (na verdade, “Carinhoso”) inteirinho dentro de “Vento no Litoral” e, em “Sereníssima”, na parte final do show, arremessou o pandeiro – que o acompanhava desde o início – com violência ao chão dividindo o instrumento em três partes. Uma delas ilustra o final deste texto. Foi a última vez que vi Legião ao vivo, e foi sensacional.
03) Titãs no Taubaté Country Club (1986)
Em 1986 era possível fazer seus pedidos a uma rádio FM, e ouvi-los, diferente de hoje, em que o que toca é tudo aquilo que está no borderô designado pela área de marketing das gravadoras. Em 1986 o Titãs havia lançado “Cabeça Dinossauro”, um disco pesado que criticava três grandes instituições (a polícia, a família e a igreja) ao mesmo tempo que clamava para que os bichos escrotos saíssem dos esgotos e as zebrinhas listradas fossem “se foder”. Houve um boicote inicial por parte das rádios, mas a voz do público (que superlotava as apresentações) e pedia canções insistentemente nas rádios foi mais forte.
Ao contrário de vários grupos que melhoravam ao vivo (como o Ira!) ou pioravam (como a Legião ou o Capital Inicial), o Titãs fazia no palco exatamente a mesma coisa que você ouvia no velho vinil, com o acréscimo da troca constante de vocalistas e outros destaques visuais. Ou seja: eles eram perfeitos ao vivo. A quadra do Taubaté Country Club (clube classe A/B de Taubaté) era o local oficial de shows na cidade, e tinha todos os defeitos que se pode esperar de um local adaptado para tal função: péssima acústica, iluminação sofrível e vários outros pontos negativos.
Porém, no palco, estavam os Titãs em sua formação completa exalando raiva e testosterona em uma apresentação irrepreensível. Os shows da turnê “Cabeça Dinossauro” eram punk rock para as massas. Lembro de uma frase de um amigo durante a execução de “Porrada”, cantada por Arnaldo Antunes: “Tem gente caindo da arquibancada!!!”. Aquilo era impressionante demais para jovens de 15 anos que não tinham como entender “A Face do Destruidor”, mas queriam berrar para toda sociedade ouvir o “vão se foder” de “Bichos Escrotos”, censurada nas rádios, mas um hino da galera.
04) Sepultura no Olympia (1996)
O último grande show do Sepultura em terras brasileiras antes da saída de Max e do declínio criativo. No palco, a banda dividia as honras da casa com o Ratos de Porão, que fez um show violento e assustador. O Sepultura estava em alta no mercado. Tinham lançado “Roots”, que os havia transformado na banda de metal número 1 do mundo. Ao vivo não tinha como discordar. Porradas mais antigas como “Inner Self” e “Troops Of Doom” conviviam lado a lado com hinos do calibre de “Dead Embryonic Cells”, “Territory”, “Refuse/Resist” e versões de “Monólogo Ao Pé Do Ouvido” (Chico Science e Nação Zumbi) e Titãs (”Policia”). Pra fechar a tampa, “Orgasmatron”. Aliás, essa música me lembra um dos meus grandes momentos em festivais: Hollywood Rock, Pacaembu, última música do show do Sepultura, e eles tocam ela. Giro 360 graus e o estádio inteiro pulava ao som do clássico do Motorhead. Até hoje acho que o show fraco show do Urge Overkill, que veio na seqüência, foi bundamolice frente a um público – pra eles – tão metal.
05) Ira! no Aeroanta (1991)
Eu já tinha visto dezenas de shows do Ira! até então, mas eles estavam lançando um bom disco (”Meninos da Rua Paulo”) e fecharam uma temporada de três noites no Aeroanta, que ficava Plaza of the Potato (como carinhosamente chamávamos o famoso Largo da Batata, em Pinheiros), em São Paulo. Uma coisa era ver o Ira! tocar em Taubaté ou Campos do Jordão. Outra, totalmente diferente, era vê-los em São Paulo. A banda tocava muito mais á vontade, mais solta. Nasi chegava ao microfone e dizia: “É bom poder vir a pé de casa pro show”. Isso tudo se refletiu nas três noites, com uma banda inspirada tocando clássicos próprios e covers como “Stand By Me” (famosa com Lennon), “Should I Stay or Should I Go” (Clash) e “Foxy Lady” (Hendrix). Na última noite, sábado, eles bateram o recorde de público da casa. Em “Núcleo Base”, Nasi provocou: “Você pensa que sou louco, mas estou só te olhando / Você pensa que sou tolo, mas não sou corintiano”. Eu e mais uns dois berramos no microfone: “Timão”. Ele riu. Bons tempos.
06) Graforréia Xilarmônica no Upload Festival, Sesc Pompéia (2001)
Após dois discos exemplares de tão bons (a estréia, “Coisa de Louco II”, de 1995, e “Chapinhas de Ouro”, 1998), a Graforréia pendurou as chuteiras no final de 1999. Em novembro de 2001, porém, o trio se reagrupou para uma apresentação única na segunda noite do Upload Festival, e a cena indie nacional estremeceu. O palco do teatro do Sesc Pompéia deixou de existir naquela noite: não havia separação entre banda e público. O show foi um coro entoando canções como “Amigo Punk”, “Eu”, “Nunca Diga”, “Grito de Tarzã”, “Eu Gostaria de Matar Os Dois”, “A Empregada”. Uma comunhão entre banda e público como poucas vezes presenciei na vida que, por si só, já bastaria para colocar o show nesta lista pessoal, mas houve “o momento”: devido ao limite estourado do horário, a organização do Sesc Pompéia optou por encerrar o show na força (melhor, na falta de força). Desligando o som, o Sesc acredita que colocou fim à noite. Engano: pedindo silêncio, os três integrantes fazem ainda mais uma música, com os instrumentos desligados. O público cantava em um coro sussurrado e pulava abraçado no refrão de “Colégio Interno”. No último acorde, mudo, o público tomou o palco para cumprimentar a banda. De emocionar.
07) RPM no Taubaté Country Club (1987)
Paulo Ricardo tenta a todo custo denegrir sua própria imagem o tanto quanto pode (e agora volta a cuspir na escultura com o lançamento da biografia de título infame “Revelações Por Minuto”), mas é impossível não baixar a cabeça e considerar como marco a turnê “Rádio Pirata ao Vivo”, que sacudiu o país na segunda metade dos anos 80 rendendo o disco de rock mais vendido de todos os tempos em terras brasilis. Eles tinham passado pela cidade com o bom show da turnê anterior um ano antes, mas em 1987 eles eram outra banda, outro negócio, algo mais cabeça e profissa. O começo – com a introdução de tecladeira de “Revoluções Por Minuto” – é claro na memória até hoje assim como a imagem de meninas chorando compulsivalmente na platéia. Acho que foi o mais próximo que estive da beatlemania.
08) Mundo Livre no Sesc Pompéia (2000)
Eu estava desempregado e desiludido. Tinha chovido, e aquele cheiro de terra molhada estava no ar, me fazendo sentir saudades de casa (eu tinha acabado de me mudar pra São Paulo). O futuro era negro, e resolvi expurgar os demônios assistindo a uma das bandas que eu mais respeitava, a banda que tinha me feito escrever meu texto e montar um fanzine alguns anos antes. Eu nem tinha ouvido o disco que eles estavam lançando, “Por Pouco”, e que seria a base do show, mas ser surpreendido era tudo o que eu precisava para levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Em um rascunho de texto da época escrevi: “Eu nunca pensei que fosse me culpar por não saber sambar.”. Do capítulo “shows podem mudar a vida de uma pessoa para sempre”.
Rascunhos de uma resenha perdida
09) Los Hermanos no Blen Blen (2002)
A banda certa no momento certo. Em 2002, o Los Hermanos era o grande nome da música nacional. Eles tinham brigado com a gravadora e lançado um álbum fenomenal, “Bloco do Eu Sozinho”, que se não repetiu as vendas da estréia (300 mil discos ancorados no sucesso radiofônico de “Anna Julia”), deu a eles o respeito da crítica especializada e de um público que, naquela primeira hora, ainda não os tratava com a devoção dos anos seguintes, mas já cantava todas as músicas. Era um show de apenas dois álbuns, ou seja, pouca coisa ficou de fora. E tinha serpentinas em “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, e tinha a espetacular “A Flor”, e tinha a sentimental “Sentimental”…
10) Edgard Scandurra no Sesc Consolação (2002)
Para assistir a esse show, eu sai de casa três minutos antes do horário marcado. Quando cheguei à área de convivência do Sesc Consolação, Edgard estava afinando o violão e um público de aproximadamente 300 pessoas procurava o melhor lugar para ver a apresentação. O pequeno show fazia parte do projeto Sons 80, do Sesc SP, que visava trazer um artista significativo mostrando canções dos anos 80 em formato voz/violão. Scandurra abriu o projeto com “Saída” e “Mudança de Comportamento”, ambas do primeiro e clássico disco do Ira! de 1985. Seguiu-se “Casa de Papel” e “XV Anos” de “Vivendo e Não Aprendendo”. De “Meninos da Rua Paulo” ele retirou “Amor Impossível”, “O Tolo dos Tolos”, “Não Mataras” e uma versão arrepiante de “Prisão das Ruas”. Ali pelo meio, disse: “Essa eu acho sempre atual. Todas as manhãs de domingo são assim”, e mandou uma das grandes canções de um dos prováveis melhores discos de todos os tempos do rock nacional: “Psicoacustica”. Inesquecível.
Texto da época para a revista Rock Press
E você: quais são os seus dez shows nacionais inesquecíveis?

dezembro 7, 2007 No Comments
O nome dela é… Carla Bruni

Ok, ok, ok: prometo que após mais este post essencialmente masculino, vou dar uma maneirada nessas coisas de menino ficar falando de belas mulheres (e eu ainda nem contei uma história de que comprei o “Bed”, da Juliana Hatfield, devido ao fato da capa ser um close no rosto dela ao travesseiro… linda). Mas desta bela mulher que vou falar a questão não gira apenas em torno de sua beleza.
Recebi hoje (Made in Argentina, a indústria fonográfica de lá ainda funciona, e bem, com vários lançamentos que nunca vão chegar aqui) os dois álbuns da cantora e compositora ítalo-francesa Carla Bruni, que trocou as passarelas pela música (ela foi uma das modelos mais bem pagas do mundo de 1987 a 1998) e lançou “Quelqu’un m’a dit” (2002, cantado em francês) e “No Promises” (2006, em inglês), ambos editados nos vizinhos portenhos e ignorados pelos gênios que comandam nosso mercado de música.
Carla Bruni nasceu na Itália em 1968 (ou seja, está com 39 anos), e deixou o país quando a família partiu para um exílio na França, em 1973, fugindo do terrorismo das Brigadas Vermelhas. Cresceu em Paris, tendo cursado parte de seu período escolar na Suíça e, de volta à França, estudou na Sorbonne. Sobre “No Promises” escrevi o seguinte nos 500 Toques da Revoluttion em setembro:
“No Promisses”, Carla Bruni (Downtown)
Ela já foi uma das vinte modelos mais bem pagas do mundo, namorou Mick Jagger e Eric Clapton, e sua família tem grana suficiente para que ela vivesse de brisa, mas a música a resgatou. Em seu segundo álbum, a compositora franco-italiana compõe melodias folk para poemas de Yeats, Auden e Dickinson, entre outros. O resultado não é um Leonard Cohen de saias e belas pernas, mas merece atenção. A ironia dos textos fica em segundo plano, e uma voz rouca e pequena pede para cantar em sua orelha. Deixe.
Nota: 7,5
Preço em média: $45 (importado)
E era isso acima mesmo. Porém, assim que coloquei hoje o CD (capinha digipack e um generoso encarte que – além de belas fotos da compositora – traz todos os poemas e uma pequena apresentação dos poetas que compõe o álbum) no computador, “ganhei” um link para uma área exclusiva do site da cantora com dezenas de fotos (selecionei algumas, abaixo), quatro vídeos, um pequeno documentário de 15 minutos e duas faixas para download: uma versão editada de “Those Dancind Days Are Gone”, single e um dos grandes momentos de “No Promisses”, e uma versão da mesma canção com Lou Reed declamando versos no final. Uau.
Bem, lendo agora os parágrafos acima, até que o post não ficou tão coisa de menino assim, não é mesmo. E a voz de Carla Bruni compensa a leitura e as imagens abaixo que, assuma, são bonitas de se ver.





dezembro 5, 2007 No Comments
“In Rainbows”, parte 2, a missão

Acaba de cair na web a segunda parte do melhor disco de 2007, e também dois clipes ao vivo em estúdio com a banda matando a pau em duas canções do novo álbum: “Jigsaw Falling Into Place (Thumbs Down Version)” e “Bodysnatchers (Thumbs Down Version)”.
Radiohead – In Rainbows [CD 2]
Tracklist:
Mk 1
Down Is The New Up
Go Slowly
Mk 2
Last Flowers
Up On The Ladder
Bangers And Mash
4 Minute Warning
No Youtube do Radiohead os clipes
Ps: “Last Flowers” é foooooooooooooooooooodaça!
O Radiohead surpreendeu o mundo ao avisar, dez dias antes, que iria lançar seu novo álbum por download em uma época que os discos vazam meses antes de chegarem às lojas. “In Rainbows” foi lançado virtualmente, a banda tomou pra si o Top Ten da parada da rádio on line Last FM (que nas últimas sete semanas estampa as dez músicas do álbum como as dez mais ouvidas por seus usuários cadastrados num total assustador de mais de 13 milhões de execuções) e, agora, é a vez da segunda parte do disco cair na web.
Segunda parte? Isso mesmo. “In Rainbows” é composto de dois discos. O primeiro lançado no mês passado, e o segundo faz parte da edição especial com discos em vinil e outros badulaques que o grupo está vendendo por 40 libras no site oficial. Esta edição especial apresenta, na teoria, oito faixas novas. Na prática são apenas seis, pois “MK 1? e “MK 2? são faixas instrumentais curtinhas (a primeira com pouco mais de um minuto, a segunda com apenas 40 segundos).
Porém, as outras seis faixas mantém a qualidade e o espírito do álbum, com o grande destaque ficando para a balada ao piano e violão “Last Flowers”. A segunda metade de “In Rainbows” é completada por “Down Is The New Up”, “Go Slowly”, “Up On The Ladder”, “Bangers And Mash” e “4 Minute Warning”. Junto com o álbum também caiu na rede os dois primeiros clipes (ao vivo em estúdio) do novo disco.
dezembro 3, 2007 No Comments
Um disco para salvar almas

“It’s Not How Far You Fall, It’s The Way You Land” é o segundo álbum do projeto Soulsavers, capitaneado pela dupla britânica Ian Glover e Richard Machin. O duo usa a eletrônica como ponto de partida para criar climas atmosféricos que se tornam grandiosos com o acréscimo do cantor Mark Lanegan (ex-vocalista do Screaming Trees, colaborador do QOTSA e mais uma dezena de epítetos), que assume os vocais em oito das onze faixas do álbum. Com Mark Lanegan no comando, já dá para imaginar o que vem pela frente: uma voz encharcada de bourbon sobre uma cama de guitarras estridentes, teclados climáticos, backings femininos e alfinetadas de eletrônica que soam como se a soul music tivesse nascido em Bristol, na Inglaterra.
Vai soar exagerado, eu sei, mas a voz sombria de Mark Lanegan esperava a anos por uma cama tão apropriada. Se em seus trabalhos solo, o rock e o blues dançavam de forma etílica por noites a fio, em “It’s Not How Far You Fall, It’s The Way You Land” Mark Lanegan abraça o soul (eletrônico) e, de mãos dadas, saem a bailar por noites sem fim de dias cinzas. Assim como Nick Cave, Mark Lanegan aponta os dedos para o criador e lhe dispara perguntas: “Por que estou tão cego com os meus olhos bem abertos? Eu preciso de você… é pecado pôr fim ao meu sofrimento?”, canta na baladaça “Revival”, de bateria pesada e clima contagiante.
Em “Ghosts Of You And Me” o clima é tão barra pesada (muito pela tempestade de riffs barulhentos que tomam a melodia pra si) que o interlocutor comenta: “Se eu tivesse um gato preto, não estaria tão sozinho”. O clima denso aumenta na faixa seguinte, “Paper Money”, em que Mark Lanegan grita como se estivesse sendo esfaqueado por uma falsa Afrodite enquanto diz: “Você não pode amar como eu”. A tensão se mantém em “Ask The Dust” faixa instrumental que conjuga riffs sujos de guitarra, teclados fantasmagóricos e bateria (eletrônica) quebrada com ênfase nos pratos.
Após tanto sofrimento em forma de barulho, “Spiritual” surge para purgar todos os pecados (deles e nossos). “Spiritual” é uma versão dos Soulsavers para o original do Spain, grupo liderado por John Hades (filho do lendário baixista de jazz Charlie Haden). No começo é só órgão e a voz limpa e cristalina de Mark Lanegan pedindo: “Jesus, não quero morrer sozinho / Meu amor era falso / Agora tudo o que tenho é você / Jesus não me deixe morrer sozinho”. A música cresce, as alfinetas de eletrônica marcam presença, mas é a voz de Mark Lanegan que te leva ao paraíso.
Em “Kingdom Of Rain”, violão e efeitos acompanham a voz. “Through My Sails” é lirismo em forma de canção pop: um teclado gélido, riffs de guitarra pontuando o arranjo e a letra mastigando a brisa marinha. Mark Lanegan sai de cena nas duas faixas seguintes, instrumentais (”Arizona Bay” e “Jesus Of Nothing”), mas retorna para fechar a tampa com uma magnífica versão de “No Expectations”, dos Stones fase “Beggars Banquet”. Sua voz caminha calmamente sobre uma base de órgão (com notas de violão ambientadas ao fundo) enquanto transforma em sons as palavras doloridas de Mick Jagger: “Nosso amor é como nossa música: está aqui e, depois, se foi”. Clap, clap, clap.
dezembro 3, 2007 No Comments
Capas de CD com… garotas

O xará Urania levantou a bola ao comentar a capa da Carla Bruni, e não tinha como cortar: essa capa da coletânea do Matthew Sweet (conhece? não? deveria) é Top Ten aqui em casa no que se refere a capa de CDs com garotas. Engraçado que quando eu fui procura-la no Google, o link da imagem era… deste mesmo blog, mas na versão 1.0. Na época, porém, não postei a contra-capa…

novembro 30, 2007 No Comments
Top Ten: 10 shows internacionais

Dias atrás, para justificar meu descontentamento com a fraca temporada de shows deste ano (em comparação com a fartura de anos anteriores), fiz uma listinha com os melhores shows que vi em minha vida, respondendo a um comentário de um leitor, meio como dizendo: “Não sou eu que sou chato, os shows deste ano é que estão muito fracos”. A listinha foi feita em cima da hora, na correria, mas quem leva cultura pop a sério não deve (e não pode) fazer qualquer lista despretensiosamente. A consciência pesa.
E foi assim: acordei na madrugada do mesmo dia em que fiz a primeira lista decidido a fazer uma definitiva. E fiz. Era para ser um Top 10, virou um Top 20, depois um Top 25, em seguida um Top 30 e por fim um Top 50, ou melhor, dois Top 50: um nacional e um internacional. Não foi uma tarefa fácil. Por fim acabei incluindo mais dois Top 10 (isso não tem fim! – risos): um dos shows que eu criei muita expectativa, e me frustei; outro com os shows que eu queria ter visto, mas por algum motivo qualquer, perdi. A lista completa pode ser conferida aqui, mas nas próximas quatro semanas vou resgatar na memória pensamentos sobre cada Top Ten, e publicar um a cada sexta-feira. Pra começar, a lista internacional. E a pergunta: qual foi o melhor show internacional que você viu na vida?
Top 10 Internacional
01) R.E.M. no Rock in Rio, Rio de Janeiro (2001)
Não basta admirar um artista para que ele seja responsável pelo melhor show que você viu na vida. É uma pequena conjunção de fatores que torna um show algo especial. Particularmente, admiro (muito) e já vi ao vivo gente como Brian Wilson, Patti Smith, Neil Young e Echo & The Bunnymen, e apesar deles terem feito grandes shows, nenhum deles está neste Top Ten pessoal. É um preâmbulo necessário para evitar comentários óbvios tipo “esse é o seu show preferido porque você é fã da banda”. Nem sempre as bandas que mais admiramos são aquelas que fazem os melhores shows de nossas vidas. Às vezes são os piores…
Não é o caso do R.E.M. no Rock In Rio 3. O show aconteceu no segundo dia do festival, num sábado, e estava cercado de expectativas. Quando recebi no meio da tarde o set list que a banda iria apresentar mais à noite, fiquei impressionado: era impossível que eles fizessem um show ruim com aquele repertório. O trio havia selecionado um repertório best of para seu show no Brasil, que viria a se tornar o maior público para o qual a banda já tinha se apresentado. Assim que o Foo Fighters encerrou sua apresentação, tratei de arrumar um lugar na “fila do gargarejo” para presenciar o show. E foi… inesquecível.
Michael Stipe estava visivelmente emocionado. O som – que havia derrubado Beck e Foo Fighters – começou ruim, com o baixo à frente dos outros instrumentos, mas em três músicas já estava tudo ok. Daí vieram clássico atrás de clássico: “Fall On Me”, “Stand”, “So Central Rain”, “Daysleeper”, “At My Most Beautiful”, “The One I Love”, “Man on The Moon”, “Everbody Hurts”… Até hoje em dia, quando ouço o CD com o áudio do show, me arrepio quando Peter Buck dispara no bandolim o riff inconfundível de “Losing My Religion”, e ouve-se a massa vibrando (imagine 150 mil pessoas atrás de você gritando insanamente quando ouvem uma das músicas mais lindas já escritas na música pop). No final, “It’s The End” embebida em microfonia e Michael Stipe repetindo “and i fell fine” sem querer sair do palco. Antológico, clássico e inesquecível.
Texto da época especial para a revista Rock Press
02) Page e Plant no Hollywood Rock, São Paulo (1995)
Eu ainda morava em Taubaté, e só consegui ir a esse show porque ganhei o convite em uma promoção do Estadão. O lance era mais ou menos o seguinte: os sorteados se encontravam às 16h na porta do jornal, e um ônibus fretado levaria a turma toda para o estádio do Pacaembu. Claro que a maioria dos ganhadores chegou mais cedo, e a turma foi se conhecendo enquanto biritava num boteco ao lado. Na hora de ir pro estádio todo mundo já se tratava como amigo de infância.
Jimmy Page e Robert Plant chegavam ao Brasil para divulgar o álbum “No Quarter”, baseado em canções do Led Zeppelin e algumas faixas novas. Ao vivo, o repertório do disco que trazia “Kashmir”, “The Battle of Evermore”, “That’s The Way” e “Thank You”, entre outras, recebeu o acréscimo de clássicos como “Imigrant Song” (que abriu a noite), “Heartbreaker”, “The Song Remains The Same”, “Whole Lotta Love” (com Plant inserindo “Light My Fire” e “Break On Throught” do Doors no meio), “Black Dog” e, mama mia, “Rock’n’Roll”.
Além de Robert Plant engasgando para cantar o trecho rápido de “Going To California”, o que permaneceu mais fresco na memória foi o seguinte: após uma versão densa de vários violões para “Gallows Pole”, o palco fica completamente escuro. Permanece assim durante cerca de uns 50 segundos. De repente, as luzes do estádio inteiro se apagam. E surge, cortando a escuridão, o riff poderoso do blues “Since I’ve Been Loving You”. Nada mais a declarar sobre esse show…
03) Elvis Costello no Tom Brasil, São Paulo (2005)
Um show de Elvis Costello no currículo é muito pouco para se falar dele ao vivo. Na verdade, para se falar de um show de Costello e banda é preciso ver, ao menos, quatro apresentações, sendo que em cada uma você fica concentrado em apenas um dos músicos. Ao vivo, ele é acompanhado pelo grupo The Imposters, uma versão atualizada dos Attractions, que como única mudança traz o excelente baixista Davey Faragher no lugar de Bruce Thomas. O baterista Pete Thomas e o tecladista e mago do theremin Steve Nieve estão com Costello desde o início dos tempos.
A banda é tão coesa que fica difícil não se prender a uma linha de baixo por meio minuto para logo em seguida descobrir que Nieve está fazendo alguma maluquice nos teclados ou que o próprio Costello está brincando de guitar hero. O instrumental é tão poderoso que dá vontade de ver o mesmo show várias vezes, para ir colhendo detalhes que possam ter passado despercebidos em uma primeira audição. Costello entregou ao público paulista seu suor, seu melhor repertório em uma execução primorosa. Música da noite: uma versão extensa e violentamente crua de “I Want You”, com citações de U2 (”Ever Better The Real Thing”) e Beatles (”Happiness Is A Warm Gun”).
04) Morrissey no Personal Fest, Buenos Aires (2004)
Antes de abrir a boca, Morrissey reuniu o grupo na frente do público e se curvou em sinal de agradecimento. Suas quatro primeiras palavras: “Cry for me, Argentina”. O local foi ao delírio. Vestido de reverendo, (uma roupa toda preta com um pequeno detalhe branco na gola), Morrissey arrasou com cinismo, clássicos dos Smiths e extremo bom humor. O que dizer de um show cuja segunda música é “How Soon Is Now?”, a quinta é “Bigmouth Strikes Again” e a última (ou décima sexta, como quiseres), “There Is A Light That Never Goes Out”? Ah, teve “Everyday Is Like a Sunday” também…
Texto completo no Scream & Yell
05) Mercury Rev no Curitiba Rock Festival, Curitiba (2005)
Entre o público, pouca gente acreditava que Jonathan Donahue e sua turma conseguissem superar a perfeição indie do Weezer na noite anterior do Curitiba Rock Festival, mas a banda foi além: fez uma apresentação com momentos instrumentais impecáveis, imagens no telão (perfeitamente sincronizadas com as músicas) com citações que iam do filósofo prussiano Arthur Schopenhauer ao piloto norte-americano Michael Andretti; do cineasta Stanley Kubrick, passando por Vladimir Nabukov e Yuri Gagarin até chegar em E.T. e no Mestre Yoda. Inspiradíssimo, o vocalista Jonathan Donahue regeua banda como se fosse um maestro em uma orquestra, cuja batuta fora trocada por uma garrafa de vinho branco. No fim das contas, uma frase no telão resumiu tudo: “O mundo não é feito de átomos. É feito de histórias”. O Mercury Rev fez história em Curitiba.
Texto completo no Scream & Yell
06) The Cure no Ibirapuera, São Paulo (1987)
Meu único show internacional na década de 80, embora eu quisesse (e tivesse tentado) ver outros. A impressão, hoje, é que tudo foi maravilhoso, mesmo com o som estando prejudicado pela péssima acústica do local (embora qualquer acústica fosse melhor que a do TCC, local que abrigava todos os shows nacionais em Taubaté), muito devido ao fato de que era tudo novidade. Claro que não foi só isso. O Cure, quando aportou no Brasil em 87, era uma das maiores bandas do mundo. E Robert Smith estava de muito bom humor. Hoje é impossível cantar “In Between Days” sem soar nostálgico, mas, aos 17 anos, após perambular pela rua matando tempo para aguardar o metrô abrir e voltar pra casa (horas depois), a única coisa que eu conseguia pensar era em assoviar a canção infinitamente.
07) Lou Reed no Credicard Hall, São Paulo (2000)
Ele é aquilo mesmo que você imagina: jaqueta de couro, uma fender jogada elegantemente a sua frente, e um repertório de clássicos que não vão ser tocados no show. E mesmo assim é um show inesquecível. Ele enfia goela abaixo do público uma porção de canções novas – boas, mas sem o brilho das canções do Velvet e de sua carreira solo no início dos anos 70 – e quando você já não está conseguindo mastigar mais, ele saca do bolso “Sweet Jane”, “Dirty Boulevard” e “Perfect Day”, e enfia no meio uma anção nova com cheiro de velha, a bela “Baton Rouge”, e te faz ir sorrindo pra casa.
08) Betty Gibbons no Tim Festival, Rio de Janeiro (2003)
Beth Gibbons, só ela, é um show. A cantora agarra o microfone de um jeito que fica difícil imaginar alguém arrancá-lo de suas mãos. Ela mastiga cada palavra, sente cada sílaba, arrepia quando se encolhe junto ao microfone, parecendo se esconder. E isso acontece praticamente o tempo todo. Ela esbanja carisma tanto quanto timidez. A rotina é quase sempre a mesma. Ela desfia suas letras doloridas. Quando a letra abre espaço para a melodia, a cantora se coloca de costas e toca um singelo pandeiro, acompanhando a bateria. A canção termina, o público aplaude. Alguém grita “Portishead”, e ela, de costas, levanta um copo em sinal de brinde. No final, após toda banda deixar o palco, ela ficou pedindo desculpas pelo seu português, por sua voz. Parecia não ter noção que havia acabado de realizar um dos melhores shows que já passaram pelo País.
09) Sonic Youth no Free Jazz, São Paulo (2000)
Eu não esperava nada desse show. Havia ganho o convite de uma amiga que tinha ficado em casa, e precisou voltar para Porto Alegre na última hora. Sua recomendação: “se eu não voltar pra ver o show, vá você”. E eu tinha medo do Sonic Youth. Achava que seria um show de barulhos e microfonias. Após três dias virando balada, e acordando cedo no quarto dia para uma extensa prova de admissão no saudoso Noticias Populares, cheguei ao Jóquei Clube arrebentado de cansaço. Na hora do show eu só pensava em dormir, mas cada música que surgia me arrastava para frente do palco. Foi um hino atrás do outro. Um sonho em forma de show de rock. Mesmo. Eu sei que para quem viu o show do Claro Que é Rock, anos depois, fica difícil acreditar, mas é sério. Foi um show assustador de tão bom.
10) Pearl Jam no Estádio do Pacaembu, São Paulo (2006)
Eu também não ia nesse show. Acabei convencido por uma amiga, na última hora. Comprei o ingresso na mão de cambista e adentrei ao Pacaembu. Primeira tapa na cara da desconfiança: o carisma de Eddie Vedder é algo impressionante. O repertório foi algo de histórico. Da arquibancada, as cenas mais impressionantes aconteceram logo no começo do show, com o público da pista acompanhando em ondas o crescendo da melodia de “Given To Fly”, e no final, com Eddie Vedder arremessando seu coração para o público brasileiro após exercitar um punhado de frases em português. Emocionante.
novembro 30, 2007 No Comments
A capa de disco do ano?

Pra mim, a capa deste “The Shepherd’s Dog”, do Iron & Wine (banda de um homem só, no caso, Samuel Beam) está entre as mais bonitas do ano, se não for a mais bonita. Eu preciso pensar com mais calma, relembrar, mas fora a capa da Siouxsie e a da Carla Bruni, não lembro de nada que tenha me chamado a atenção… bons tempos do vinil…
novembro 28, 2007 No Comments
The Traveling Wilburys Collection

O encontro em estúdio de grandes astros da música pop – que são amigos – deveria ser algo obrigatório nas tábuas divinas, um décimo primeiro mandamento a ser acrescentado numa futura revisão/atualização dos outros dez. Isso fica evidente quando se tem nas mãos o pacote “The Traveling Wilburys Collection”, que junta em dois CDs a integra dos dois álbuns do grupo (”Vol. 1? e “Vol. 3?), mais quatro faixas bônus e um DVD que conta com um documentário sobre as gravações do primeiro álbum (legendas em português) e ainda cinco videoclipes.
Mas que catzo é o Traveling Wilburys? Bem, o Traveling Wilburys foi um projeto formado em 1988 por Nelson Wilbury, Lefty Wilbury, Otis Wilbury, Charlie T. Wilbury Jr e Lucky Wilbury, codinomes de George Harrison, Roy Orbison, Jeff Lyne, Tom Petty e Bob Dylan, escudados pelo experiente baterista Jim Keltner. Essa turma se encontrou em estúdio para gravar a faixa “Handle with Care”, que faria parte do lado B do single “This Is Love”, extraído do álbum “Cloud Nine”, de George Harrison, mas o projeto foi além.
A química em estúdio deste quinteto de luxo fluiu tão bem que o grupo decidiu arriscar um álbum inteiro, composto e produzido em apenas dez dias (tempo que eles teriam em estúdio antes que Bob Dylan saísse em turnê). O resultado deste trabalho de astros pode ser conferido novamente agora nos dois CDs lançados pela banda em 1988 e 1990 (este último sem Roy Orbison, falecido dois meses após o lançamento do primeiro álbum), relançados agora no pacote “The Traveling Wilburys Collection”.
Porém, se as músicas já estão por ai faz quase 20 anos, o grande achado do pacote é a inclusão do DVD que documenta as gravações de “Vol. 1?. George Harrison toma à frente do grupo como um líder, mas cada membro sabe muito bem o que fazer em estúdio, muito embora Tom Petty assuma: “Nós passamos os vocais de cada um para ver em qual a melodia da música se encaixa melhor, mas como eu posso cantar alguma direito coisa depois de ter ouvido Roy Orbison cantar? Ele faz a gente tremer”, comenta rindo.
O documentário repassa a gravação de várias músicas do primeiro álbum, com cada um dos participantes comentando sobre a maneira de compor do outro. Interessantes takes de estúdio (principalmente de registros vocais) recheiam o DVD. O mais engraçado é que uma das melhores partes do documentário não seja de nenhum dos cinco Wilburys oficiais, mas sim do baterista Jim Keltner, que troca os pratos da bateria por uma geladeira (?!?) em “Rattled”, e grava sua parte na cozinha da casa em que a banda transformou em estúdio para compor o álbum.
“The Traveling Wilburys Collection” flagra a história de um grupo de amigos apaixonados por aquilo que sempre fizeram na vida: música. Canções como o country de boteco do velho-oeste “Last Night”, os rocks da idade pedra (ops) “Dirty World”, “She’s My Baby” e “Margarita”, o twist “Wilbury Twist” (com a seqüência de passos da dança desenhados no encarte), as dylanianas “Tweeter And The Monkey Man” e “If You Belonged to Me”, ou mesmo as inéditas “Maxine”, “Like a Ship”, “Runaway” (de Del Shannon) e “Nobody’s Child” (de Mel Foree e Cy Coben) são momentos em que a música pop manda raros cartões postais do paraíso.
novembro 26, 2007 No Comments
Radiohead na Last FM, em livro e… no Brasil

A essa altura da tarde/começo da noite de quinta-feira você já deve estar sabendo que o Radiohead baixa em terras brasileiras, segundo o guitarrista Ed O’Brien, entre maio e julho de 2008, certo. A integra da nota da BBC é isso aqui:
RADIOHEAD TO INCLUDE SOUTH AMERICA ON TOUR
Radiohead might be playing South America for the first time next year, Ed O’Brien revealed on BBC Radio 1’s Zane Lowe show. Apart from the earlier revealed plans of touring in May, June and July next year; It looks like the band have finally decided to answer the long-time wishes of the South Americans by playing their continent. Although Ed did narrow it down immediately to just two countries: “We’ll hopfully go to Japan and hopefully South America, where we haven’t been before. Well, Argentina and Brazil”.
Já festejando esse anúncio, lembrei de duas coisas que eu estava pra comentar no que diz respeito à banda de Thom Yorke. A primeira são só números:
Faz seis semanas que “In Rainbows” crava as dez músicas mais ouvidas da rádio Last FM. Então você questiona: isso lá significa alguma coisa? Bem, os números respondem isso. Em seis semanas (42 dias), o Radiohead foi executado pela Last FM nada menos do que 11 milhões de vezes (número preciso: 11.594.424 execuções). “15 Step”, a música que abre “In Rainbows”, já foi ouvida 760 mil vezes pelos usuários cadastrados no site. “Videotape”, a faixa que encerra o álbum, teve 620 mil execuções. Esses números são assustadores… pra mim.
A segunda coisa que tenho para falar sobre o Radiohead diz respeito ao livro estampado neste post: “Beijar o Céu”, de Simon Reynolds. O livro traz muitas matérias bacanas, mas a do Radiohead é sensacional. Escrita originalmente para a The Wire britânica, a reportagem (que foi capa da revista) ocupa 30 páginas do livro, e traz dezenas de momentos memoráveis de jornalismo pop. Abaixo transcrevo alguns:
1)
“Talvez seu primeiro pensamento quando pegou este número da The Wire tenha sido ‘que porra é essa?’, e talvez seja uma reação compreensível. Afinal, o Radiohead é um grupo que conseguiu vendas multiplatinadas em 50 países. Não fiz as contas (não sou tão louco), mas considero perfeitamente concebível que as vendas totais de cada artista que aparece nesta edição da The Wire, somadas, talvez não passe as vendas globais de ‘Ok Computer’, o maior álbum do Radiohead. E existe um argumento forte de que uma banda com esse tipo de peso comercial e tal nível de consenso no mainstream simplesmente não tem lugar na capa de uma revista desse tipo, conhecida por lutar pelos dissidentes e pelos que estão a margem.
Só que o Radiohead, eu insisto, fez por merecer. Considere os fatos: no final do ano passado, três álbuns rejuvenesceram o conceito moribundo do pós-rock. ‘Agaetis Byrjun’, do Sigur Ros; ‘Lift Yr. Skinny Fists Like Antennas To Heaven’, do Godspeed You! Black Emperor; e ‘Kid A’. (…) Acontece que só um dos membros desse triunvirato do pós rock entrou no primeiro lugar das paradas de álbuns mais vendidos do Reino Unido e dos EUA. (…) O fato é que o Radiohead opera hoje como embaixador do mainstream para muitas das coisas que essa revista estima”.
2) Jonny Grrenwood fala: “Quando saíram as críticas de ‘Kid A’, nos acusando de sermos difíceis de propósito, eu falei: ‘Se isso fosse verdade, teríamos feito um serviço muito melhor’. O disco não é tão complicado assim – tudo ainda tem quatro minutos de duração, é melódico”.
3) Thom Yorke fala: “Estamos muito felizes porque, dois dias atrás, o Jonny deu uma entrevista para um jornal brasileiro e a primeira pergunta foi: ‘O que você achou do Noel e do Liam dizerem que ‘Kid A’ foi uma monumental covardia?’ Não sei o que isso quer dizer, mas quem se importa, a gente falou YES, finalmente deixamos eles putos”.
4) Talvez o comentário de “covardia” dos irmãos Gallagher esteja relacionado à ideologia central do britpop, de fazer-sucesso-a-qualquer-custo. Essa retórica de ter as paradas de sucesso como alvo, afinal, denigre os velhos ideais do indie rock como derrotista, obscurantista, elitista até. Não só “Kid A” ressuscitou um conceito diferente de ambição – amadurecimento artístico contra explosão comercial – mas também interferiu no destino “correto” do Radiohead: tornar-se uma megabanda tipo U2 fase “The Joshua Tree” (…)
Espécie de álbum semiconceitual sobre a tecnologia e a alienação, a magnitude de “Ok Computer” – em termos de som, temática e aspiração – fez o britpop pagar por seus erros, substituindo seu anti-intelectualismo juvenil e seu hedonismo vazio pelo glamour da literatura e da angústia. Noel e Liam têm razão em se sentirem incomodados: o Radiohead é o anti-Oasis, é o enorme sucesso de “Ok Computer” ofuscando “Be Here Now”, o álbum dos irmãos Gallagher inflado e arruinado pela cocaína.
Ps. Eu queria colocar mais trechos, mas o texto é graaaaaaaaande e tem muita coisa imperdível… risos
Ps 2: já está circulando por ai uma teoria da conspiração envolvendo o álbum “In Rainbows” (tipo aquela do “Kid A” e a “Bruxa de Blair”, que o Pala escreveu aqui pro Scream anos atrás). Leia ambas abaixo:
novembro 22, 2007 No Comments
Pullovers e Bidê ou Balde no Inferno

A Bidê ou Balde ainda é, sobre um palco, uma das melhores bandas de rock do país. Eles podem mudar a formação (perderam o baixista André e o baterista Pedro está fora desde a gravação do Acústico MTV em 2005), se darem ao luxo de tocarem as canções mais fracas de seu repertório (”Vamos Para Cachoeira”, “A-ha”, “Vamos Para Uma Excursão”), e o vocalista esquecer a letra da música que deu a banda o prêmio de revelação no VMB 2001, que mesmo assim o show é poderoso, muito pelo incendiário desempenho de palco de Carlinhos, Vivi, Sá e o novo (velho) guitarrista Pila.
Mérito também para um repertório de canções poderosas como “É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos”, “Matelassê”, “Bromélias”, “K-7?, a versão de “Buddy Holly”, “O Antipático” e “Mesmo Que Mude”, esta última, fácil, uma das dez grandes canções do rock brasileiro nos anos 00. Eles têm o público nas mãos. Vivi sorri. Carlinhos tira o terno, coloca o terno, apresenta os novos integrantes e diz que vai tocar uma antiga, mas “Spaceball” causa um anticlímax na memória: é de uma época em que Bidê e a Vídeo Hits tinham tudo para conquistar o mainstream nacional, e não conquistaram (muito mais por incompetência das gravadoras do que por falta de qualidade das bandas citadas). Essa expectativa não realizada me acorda: já estamos em 2007. E o que a Bidê tem a dizer?
A cena indie nacional descobriu, definitivamente, a MPB. É sintomático – e interessante – o fato do Pullovers, grupo paulista devoto do Pavement e já com três álbuns guitarreiros nas costas, abrir seu novo show tocando “Jorge Maravilha”, de Julinho da Adelaide (aka Chico Buarque), e no meio do set apresentar “Mal Secreto”, parceria de Waly Salomão com Jards Macalé presente no clássico disco de estréia deste último, em 1972. As duas versões juntam-se ao novo repertório do grupo, cantado em português e cheio de possíveis hits.
No entanto, nessa passagem da banda da adolescência para a vida adulta (prejudicada por mudanças constantes na formação), os arranjos ao vivo não estão valorizando o bom (e simples) rock que o Pullovers tem apresentado em estúdio. Canções grudentas e deliciosas como “1932?, “O Amor Verdadeiro Não Tem Vista Para o Amor”,”Futebol de Óculos” e “Marcelo ou Eu Traí o Rock” perdem punch em suas versões ao vivo. Na hora em que o sexteto encontrar o seu som no palco, São Paulo terá uma grande banda para descobrir. Fique atento.

Com esse pensamento, analiso a cena: é uma sexta-feira quente em São Paulo, bebo cerveja gelada na tentativa de entorpecer a memória enquanto uma das bandas mais bacanas desta década do cenário nacional louva o passado (nem tão passado assim) sem dar uma piscadela sequer para o futuro. O último disco da banda, “É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos!”, é de 2004 e, desde então, eles não fizeram nada novo. Amigos se surpreenderam quando a banda anunciou esse show em São Paulo: “Achei que eles tivessem acabado”. O show, no entanto, não desmente isso.
Com três discos na carreira e pouco mais de nove anos de atividade, a Bidê ou Balde parece ter virado um dinossauro indie. Mesmo o show tendo sido bom, foi inferior a qualquer um que a banda tenha feito na cidade entre 2001 e 2005. Pode ser o começo de uma nova fase. Pode ser que os novos integrantes ainda estejam se entrosando. Mas Carlinhos, no palco, lamentando a ausência do baixista André, soa tanto como “os melhores anos de nossas vidas se foram”. Não dá pra fugir do futuro, e a Bidê – que sobreviveu a saída do guitarrista e compositor Rossato após o primeiro álbum – tem estofo de sobrar para sobreviver aos novos tempos. Porém, os fantasmas no palco do Inferno colocam uma grande interrogação no futuro de uma das bandas mais legais que o cenário brasileiro ouviu nos últimos anos.
novembro 21, 2007 No Comments

